Influências Filosóficas sobre a Psicologia o espírito do Mecanismo



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O filósofo francês recebera forte influência do espírito mecanicista da época, tal como se refletia nos relógios mecânicos e autômatos a que nos referimos. Enquanto se recobrava do que os seus biógrafos denominaram um colapso nervoso”, aos dezoito anos, ele se recuperou numa cidade próxima de Paris onde a sua única diversão era percorrer os jardins reais recém- construídos. Ele ficou fascinado com as maravilhas mecânicas ali instaladas e passava muitas horas pisando nas placas de pressão que faziam os jatos de água ativar as figuras que se moviam, dançavam e emitiam sons.

Essa experiência ajudou a moldar sua maneira de ver o universo físico, em especial no tocante ao corpo humano e animal. Descartes acreditava que o corpo funcionava exatamente como uma máquina, e não via diferença entre ele e as figuras acionadas hidraulicamente nos jardins: Explicava todo aspecto do funcionamento físico — como a digestão, a circulação, a sensação e a locomoção — em termos mecânicos.

Quando descrevia o corpo, Descartes se referia diretamente às figuras que vira nos jardins reais. Ele comparava os nervos do corpo com os canos pelos quais a água passava, e os músculos e tendões com motores e molas. O movimento dos modelos mecânicos não era causado por uma ação voluntária da sua parte, mas por objetos externos; a natureza involun tária desse movimento refletia-se na observação de Descartes de que os movimentos corporais ocorrem muitas vezes sem a intenção consciente da pessoa. A partir disso, ele chegou à idéia da undulatio reflexa, um movimento não supervisionado nem determinado pela vontade de se mover. Por causa dessa proposição, consideram-no muitas vezes o autor da teoria da ação reflexa. Essa idéia é precursora da moderna psicologia comportamental do estímulo-resposta (E-R) — em que um objeto externo (um estímulo) provoca uma resposta involuntária — e uma das noções-chave de boa parte da psicologia americana do século XX.

Descartes encontrou apoio para a sua interpretação mecânica do funcionamento do corpo

humano no campo da fisiologia. Em 1628, o médico inglês William Harvey descobrira os fatos

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fundamentais acerca da circulação sangüínea, e desde então muita coisa estava sendo estudada sobre o processo digestivo. Sabia-se também que os músculos do corpo funcionavam em pares opostos, e que a sensação e o movimento de alguma forma dependiam dos nervos.



Embora os pesquisadores da fisiologia estivessem dando grandes passos na compreensão do corpo humano, sua informação estava longe de ser completa. Pensava-se, por exemplo, que os nervos eram tubos ocos pelos quais fluiam as essências animais. Nossa preocupação aqui, contudo, não é a precisão nem a abrangência da fisiologia do século XVII, mas a sua coerência com uma interpretação mecânica do corpo.

Como não possuiam alma, os animais eram considerados autômatos. Assim preservava- se a diferença entre seres humanos e animais, tão importante para o pensamento cristão. Além disso, acreditava-se que os animais eram desprovidos de sentimentos. Como poderiam ter sentimentos se não tinham alma? Descartes dissecava animais vivos, antes de haver anestesia, e parecia “divertir-se com seus gritos e lamentos, já que estes não eram senão assobios hidráulicos e vibrações de máquinas” (Jaynes, 1970, p. 224).

Essas idéias faziam parte da tendência geral favorável à noção de que o comportamento humano era previsível. O corpo mecânico movimenta-se e se comporta de maneiras previsíveis desde que se saiba quais são os estímulos. Os animais, sendo semelhantes a máquinas, pertencem por inteiro à categoria dos fenômenos físicos. Assim, não têm imortalidade, são incapazes de pensar e não têm livre-arbítrio. Anos mais tarde, Descartes fez algumas revisões menores em seu pensamento sobre os animais, mas nunca alterou sua convicção de que o comportamento animal pode ser totalmente explicado em termos mecanicistas.

Os escritos de Descartes referem-se freqüentemente à natureza mecânica dos animais.

Sei muito bem que os animais fazem muitas coisas melhor do que nós, mas isso não me surpreende e serve precisamente para provar que eles agem de modo natural e pela força de molas semelhantes às de um relógio, que indica a hora de modo muito melhor do que o nosso julgamento” (Maurice e Mayr, 1980, p. 5).

Embora, segundo Descartes, a mente seja imaterial (isto é, não composta de matéria física), ela é capaz de abrigar o pensamento e a consciência, e, em conseqüência, nos propor ciona conhecimento sobre o nosso mundo exterior. A mente não tem nenhuma das proprieda des da matéria. Sua característica mais importante é a capacidade de pensar, o que a aparta do mundo material.

Como percebe e tem vontade, a mente tem de influenciar o corpo e ser influenciada por ele de alguma maneira. Quando ela decide deslocar-se de um ponto a outro, por exemplo, essa decisão é concretizada pelos nervos e músculos do corpo. Do mesmo modo, quando o corpo é estimulado — pela luz ou pelo calor, por exemplo —, é a mente que reconhece e interpreta esses dados sensoriais, determinando a resposta apropriada.

Descartes formulou uma teoria sobre a interação dessas duas entidades, mas precisou antes encontrar um ponto físico onde a mente e o corpo se engajassem em sua influência mútua. Ele concebeu a alma como uma entidade unitária, o que significava que ela devia interagir com apenas uma parte do corpo. Ele também acreditava que o ponto de interação se localizava em algum lugar do cérebro, porque a pesquisa demonstrara que as sensações se deslocam para o cérebro e que é nele que o movimento tem origem. Assim, estava claro que o cérebro tinha de ser o ponto focal das funções mentais. A única estrutura cerebral simples e unitária (isto é, não dividida nem duplicada nos dois hemisférios) é a glândula pineal ou conariurn, e Descartes a considerou a escolha lógica como sede da interação.

Descartes descreveu em termos mecanicistas a maneira como a interação entre mente e corpo ocorre. Sugeriu que o movimento das essências animais nos tubos nervosos produz uma impressão no conarium e que, a partir dessa impressão, a mente produz uma sensação. Em outras palavras, uma quantidade de movimento (o fluxo das essências animais) produz uma

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qualidade puramente mental (uma sensação). O inverso também ocorre, ou seja, a mente pode de algum modo deixar uma impressão no conarium (de uma maneira que ele nunca esclareceu), impressão que, inclinando-se para uma ou outra direção, influencia a direção do fluxo de essências animais para os músculos, do que resulta um movimento. Logo, uma qualidade mental pode influenciar o movimento, uma propriedade do corpo.



Descartes não afirmava que a alma estivesse confmada ao conariurn, que ele designava

apenas como a sede da interação, nem contida nele. Ele acreditava que a alma se unia com

todas as partes do corpo e que o corpo inteiro era a sede da alma.

Ele prop6s um ideário que teve uma profunda influência no desenvolvimento da psico logia moderna. Sugeriu que a mente dá origem a duas espécies de idéias: idéias derivadas e idéias inatas. Idéias derivadas são as produzidas pela aplicação direta de um estimulo externo, como o som de um sino ou a visão de uma árvore. Assim, as idéias derivadas são produto das experiências sensoriais. Idéias inatas não são produzidas por objetos do mundo exterior que entram em contato com os sentidos. A designação inato descreve a fonte dessas idéias; elas se desenvolvem a partir apenas da mente ou consciência. A existência potencial de idéias inatas independe de experiências sensoriais, embora essas idéias possam ser concretizadas ou mani festadas na presença de experiências apropriadas. Algumas das idéias inatas identificadas por Descartes são o eu, Deus, os axiomas geométricos, a perfeição e o infinito.

A doutrina das idéias inatas é discutida em capítulos subseqüentes. Veremos que ela culmina na teoria nativista da percepção — a idéia de que a nossa capacidade de perceber é antes inata do que adquirida — e na escola de psicologia da Gestalt. Ela também inspirou uma acirrada oposição entre os primeiros empiristas e associacionistas britânicos, bem como entre empiristas ulteriores como Helmholtz e Wundt.

A obra de Descartes serviu de catalisador para muitas tendências que mais tarde tiveram destaque na psicologia. Suas contribuições sistemáticas mais dignas de nota são a concepção mecanicista do corpo, a noção de ação reflexa, a teoria da interação mente-corpo, a localização das funções mentais no cérebro e a doutrina das idéias inatas. Com Descartes, vemos a idéia do mecanismo aplicada ao corpo humano. Mas a filosofia mecanicista exercia uma influência tão penetrante que foi apenas uma questão de tempo para que fosse aplicada também à mente humana. É para esse acontecimento significativo — a redução da mente a uma máquina — que nos voltamos agora.

Empiristas e Associacionistas Britânicos:

Como Adquirir Conhecimento por Intermédio da Experiência

Depois de Descartes, foi rápido e prolífico o desenvolvimento da ciência moderna em geral e da psicologia em particular. Por volta da metade do século XIX, o longo período da psicologia pré-científica tinha chegado ao fim. Nessa época, o pensamento filosófico europeu estava impregnado por um novo espírito: o positivismo. O termo e a concepção são o trabalho do filósofo francês Auguste Comte, que empreendia um levantamento sistemático de todo o conhecimento, um projeto deveras ambicioso. Para tornar a sua tarefa mais factível, Comte decidira limitar seu trabalho a fatos inquestionáveis, aqueles que tinham sido determinados através dos métodos da ciência. Assim, positivismo se refere a um sistema baseado exclusiva- mente em fatos objetivamente observáveis e indiscutíveis. Tudo o que tiver natureza especu lativa, inferencial ou metafísica é rejeitado como ilusório.

A aceitação do positivismo significava que havia então dois tipos de proposições. “Re ferimo-nos aos objetos dos sentidos, e isso é uma afirmação científica. O resto é absurdo!”

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(Robinson, 1981, p. 333). O conhecimento derivado da metafísica e da teologia devia ser rejeitado; só o conhecimento produzido pela ciência era considerado válido.



Outras idéias no campo da filosofia sustentavam o positivismo antimetafísico. Os estu diosos adeptos do materialismo acreditavam que todas as coisas podiam ser descritas em termos físicos e compreendidas à luz das propriedades físicas da matéria e da energia. Eles pensavam que a consciência também podia ser explicada nos termos da física e da química. As considerações materialistas dos processos mentais privilegiavam o aspecto físico, isto é, as estruturas anatômicas e fisiológicas do cérebro.

Um terceiro grupo de filósofos, os defensores do empirismo, estava voltado para o modo

como a mente adquire conhecimento. Eles alegavam que todo conhecimento é derivado da

experiência sensorial.

A concepção popular da natureza humana e do mundo estava em rápida modificação. O positivismo, o materialismo e o empirismo iriam converter-se nos fundamentos filosóficos da nova psicologia. Começava-se a entabular discussões sobre os processos psicológicos no âmbito de evidências factuais observacionais e quantitativas baseadas na experiência sensorial; dava-se uma crescente ênfase aos processos fisiológicos envolvidos no funcionamento mental.

Dentre essas três orientações filosóficas, coube ao empirismo o principal papel na configuração das primeiras etapas do desenvolvimento da nova ciência psicológica. O empi rismo estava voltado para o desenvolvimento da mente, para o modo como ela adquire conhecimento. Segundo a concepção empirista, a mente se desenvolve por meio do acúmulo progressivo de experiências sensoriais. Essa idéia se opõe à perspectiva nativista exemplificada por Descartes, que afírma que algumas idéias são inatas. Vamos considerar alguns dos princi pais empiristas britânicos: John Locke, George Berkeley, David Hume, David Hartley, James Miii e John Stuart Mil.

John Locke (1632-1704)

Filho de um advogado, John Locke estudou em universidades em Londres e Oxford (Inglaterra); e recebeu o grau de bacharel em 1656 e o mestrado pouco depois. Permaneceu em Oxford por vários anos, ensinando grego, retórica e filosofia, tendo mais tarde passado a praticar a medicina. Começou a se interessar por política e, em 1667, foi para Londres para ser secretário do Conde de Shaftesbury, tomando-se mais adiante confidente e amigo desse controvertido estadista. A influência de Shaftesbury no governo diminuiu, e, em 1681, depois de participar de uma conspiração contra o rei Carlos II, fugiu para a Holanda. Embora Locke não se tivesse envolvido na conspiração, seu relacionamento com o conde o deixou sob suspeita, levando-o a fugir também para a Holanda. Vários anos depois, ele p&Ie voltar à Inglaterra, onde se tomou Comissário de Apelações e escreveu tratados sobre a educação, a religião e a economia. Locke tinha particular interesse pela liberdade religiosa e pelo direito de autogovemo popular. Seus escritos lhe conferiram muita fama e influência, e ele foi louvado por toda a Europa como defensor do liberalismo no governo.

Sua principal obra de importância para a psicologia é An Fssay Concerning Human Understanding (Ensaio Acerca do Entendimento Humano) (1690), que foi o ponto culminante de quase vinte anos de estudo e reflexão. Esse livro, que até 1700 teve quatro edições e foi traduzido para o francês e para o latim, assinalou o início formal do empirismo britânico.

Locke se interessava essencialmente pelo funcionamento cognitivo, isto é, os modos pelos quais a mente adquire conhecimento. Ao tratar dessa questão, ele negou a existência de idéias inatas propostas por Descartes, alegando que os seres humanos não estão equipados ao nascer com qualquer espécie de conhecimento. Ele admitia que certos conceitos, como a idéia

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O filósofo empirista inglês John Locke alegou que, quando nascemos, a mente é uma folha em branco que adquire conhecimento mediante a experiência sensorial.



de Deus, podem parecer inatos aos adultos, mas que isso se deve ao fato de essas idéias nos terem sido ensinadas na infância e ao fato de nós não podermos nos lembrar de nenhuma época em que não tivéssemos consciência delas. Desse modo, Locke explicou o caráter aparentemen te inato de algumas idéias em termos de aprendizagem e de hábito.

Como, então, a mente adquire conhecimento? Para Locke, o conhecimento é adquirido

por meio da experiância. Todo conhecimento tem base empírica. Ele escreveu:

Suponhamos, pois, que a mente seja, como dizemos, um papel em branco, desprovido de todos os caracteres, sem quaisquer idéias. Como ele vai ser preenchido? De onde há de vir esse vasto estoque que a fantasia humana, ativa e ilimitada, pintou nele com uma variedade quase infinita? De onde ele retira todos os elementos da razão e do conhecimento? A isso respondo, em uma

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palavra: da experiência. Nela está fundado todo o nosso conhecimento; e dela deriva, em última



análise, o próprio conhecimento (Locke, 1690/1959).

Aristóteles sustentara uma noção semelhante, a de que a mente, no nascimento, era uma

tabula rasa, uma folha limpa ou em branco que a experiência iria preencher.

Locke reconhecia dois tipos distintos de experiência, um derivado da sensação e o outro da reflexão. As idéias que advêm da sensação, da estimulação sensorial direta causada por objetos físicos no ambiente, são impressões sensoriais simples. Além da operação dessas sensações na mente, esta também age sobre essas sensações, refletindo acerca delas e, assim, gerando idéias. A função mental ou cognitiva de reflexão como fonte de idéias depende, no entanto, da experiência sensorial, visto que as idéias produzidas pela reflexão da mente se baseiam nas idéias já experimentadas por intermédio dos sentidos.

No desenvolvimento do indivíduo, a sensação vem primeiro. Ela é uma precursora necessária da reflexão porque tem de haver primeiro um reservatório de impressões sensoriais para que a mente seja capaz de refletir. Na reflexão, a pessoa se recorda de impressões sensoriais passadas e as combina de várias maneiras para formar abstrações e outras idéias de nível superior. Todas as idéias, por mais complexas, vêm dessas duas fontes; mas a fonte última permanece sendo as impressões dos sentidos ou a experiência.

Locke também distinguia entre idéias simples e idéias complexas. As idéias simples podem advir da sensação e da reflexão, sendo recebidas passivamente pela mente. São elemen tares e, por isso, não podem ser analisadas nem reduzidas a idéias mais simples. Entretanto, como observamos, a mente, mediante o processo de reflexão, cria ativamente novas idéias através da combinação de outras. Essas idéias derivadas são o que Locke denominou idéias complexas, que são formadas a partir de idéias simples advindas tanto da sensação como da reflexão. As idéias complexas se compõem de idéias simples, razão por que podem ser analisadas ou decompostas em idéias simples.

Essa noção da combinação ou composição de idéias e de sua análise marca o começo da abordagem da química mental que caracteriza a teoria da associação, na qual idéias simples em ser vinculadas para formar idéias complexas. A associação é um nome mais antigo para o processo que viria a ser chamado de aprendizagem. A redução, ou análise, da vida mental a elementos ou idéias simples e a associação desses elementos para compor idéias complexas formaram o núcleo da nova psicologia científica. Assim como os relógios e outras máquinas podiam ser reduzidos às suas peças componentes, podendo essas peças ser montadas outra vez para formar a máquina complexa, era possível fazer o mesmo com as idéias.

Em essência, Locke tratou a mente como se esta se comportasse de acordo com as leis do universo físico. As partículas básicas ou átomos do mundo mental são as idéias simples, conceitualmente análogas aos átomos materiais do esquema mecanicista de Galileu e Newton. Os elementos básicos da mente são indivisíveis. Eles não podem ser decompostos em nenhuma coisa mais simples e, tal como os seus equivalentes no mundo material, podem combinar-se de várias maneiras para formar estruturas mais complexas. Esse foi um passo significativo para vir-se a considerar a mente tal como já se considerava o corpo: uma máquina.

Outra doutrina proposta por Locke, relevante para a psicologia, é a noção de qualidades primárias e secundárias aplicada a idéias sensoriais simples. As qualidades primárias existem no objeto quer as percebamos ou não. O tamanho e a dimensão de um edifício são qualidades primárias, ao passo que a sua cor é uma qualidade secundária. A cor não é inerente ao objeto, mas depende da pessoa que a percebe. As qualidades secundárias — como a cor, o odor, o som e o gosto — não existem no objeto, mas na percepção que a pessoa tem dele. As cócegas provocadas por uma pena não estão na pena, mas em nossa reação a ela. A dor infligida por uma faca não está na faca, mas em nossa experiência da faca.

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Um experimento simples ilustra essa doutrina. Prepare três recipientes com água: um com água fria, um com água morna e um com água quente. Coloque uma das mãos na água fria e a outra na água quente; então, ponha ambas as mãos no recipiente com água morna. Uma das mãos vai perceber essa água como quente e a outra como fria. A água morna tem, é claro, uma só temperatura; ela não é quente e fria ao mesmo tempo. A qualidade secundária ou experiência do calor ou do frio só existe em nossa percepção, não no objeto (nesse caso, a água). Para reiterar, as qualidades secundárias existem apenas no ato da percepção. Se não mordermos um pêssego, o seu gosto não vai existir. As qualidades primárias, como o tamanho e a forma do pêssego, existem nele quer as percebamos ou não.



Locke não foi o primeiro estudioso a distinguir entre qualidades primárias e secundárias. Galileu propusera essencialmente a mesma noção: “Creio que se os ouvidos, a língua e o nariz fossem removidos, as formas, os números e os movimentos [ primáriasi permane ceriarn, mas não os odores, gostos e sons [ secundárias]. Estes últimos, acredito eu, não são senão nomes quando separados dos seres vivos” (Boas, 1961, p. 262). Essa posição é necessariamente coerente com a essência do mecanismo, e Locke admitiu isso quando observou que a distinção resultava de uma “pequena excursão à filosofia natural”.

A visão mecanicista do universo sustentava que a matéria em movimento constituía a única realidade objetiva. Sendo a matéria tudo o que existe objetivamente, é lógico que a percepção de tudo o mais — cores, odores, sabores, etc. — seria subjetiva. Portanto, tudo o que pode existir independentemente do observador são as qualidades primárias.

Ao estabelecer essa distinção, Locke reconhecia o caráter subjetivo de quase todas as nossas percepções do mundo, uma idéia que o intrigou e alimentou sua necessidade de compreender a mente e a experiência consciente. Ele introduziu as qualidades secundárias para tentar explicar a falta de correspondência precisa entre o mundo físico e a nossa percepção dele.

Uma vez que os estudiosos aceitaram a distinção teórica entre qualidades primárias e secundárias — a idéia de que algumas existiam na realidade e outras somente na nossa percepção — era inevitável que alguém perguntasse se havia, afinal, alguma diferença real entre esses dois tipos de qualidades. Talvez toda a percepção ocorra em termos de qualidades secundárias, subjetivas e dependentes do observador. A pessoa que fez essa pergunta — e lhe deu uma resposta — foi George Berkeley.

George Berkeley (1685-1 753)

George Berkeley nasceu e foi educado na Irlanda. Homem profundamente religioso, foi ordenado diácono da Igreja Anglicana aos vinte e quatro anos de idade. Pouco depois, publicou duas obras filosóficas que iriam ter influência sobre a psicologia: An Fssay Towards a New llieoiy of Vislon (Ensaio para uma Nova Teoria da Visão) (1709) e A Treatise Concerning the Principies of Hwnan Knowledge (Tratado Acerca dos Princípios do Conhecimento Huma no) (1710). Com esses dois livros, terminou a sua contribuição à psicologia.

Fez muitas viagens pela Europa e ocupou alguns postos na Irlanda, incluindo o de professor no Trinity Coliege, de Dublin. Conseguiu a independência financeira ao receber uma significativa doação em dinheiro de uma mulher que ele conhecera numa festa. Visitou os Estados Unidos, tendo passado três anos em Newport, Rhode Island, e doou sua casa e biblioteca à Universidade Yale quando partiu. Nos últimos anos de sua vida foi bispo de Cloyne. Ao morrer, seu corpo foi deixado na cama, segundo as suas instruções, até começar a se decompor. Berkeley acreditava que a putrefação era o único indício seguro de morte, e não queria ser enterrado antes da hora.

A fama de Berkeley — ou ao menos o seu nome — permanece nos Estados Unidos. Em

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1855, um clérigo de Yale, o Reverendo Henry Durant, instalou uma academia na Califórnia. Deu-lhe o nome de Berkeley em homenagem ao bom bispo, talvez como reconhecimento por seu poema “On the Prospect ofPianting Arts and Le.arníng 111 Ameríca” (Sobre a Perspectiva de Plantar as Artes e a Erudição na América), que inclui o famoso verso: “Westward the course of empire takes its way” (Para o Oeste o curso do império segue seu caminho).



Berkeley concordava com Locke que todo conhecimento do mundo exterior vem da experiência, mas discordava da distinção lockeana entre qualidades primárias e secundárias. Ele dizia que não há qualidades primárias, mas somente o que Locke denominava qualidades secundárias. Para Berkeley, todo conhecimento era uma função da pessoa que percebe ou passa pela experiência. Anos depois, sua posição foi denominada mentalismo, para denotar a ênfase em fenômenos puramente mentais.

Ele afirmava que a percepção é a única realidade de que podemos estar certos. Não nos

é dado conhecer com certeza a natureza dos objetos físicos do mundo vivencial. Tudo o que

sabemos é como percebemos esses objetos. Como está dentro de nós, sendo portanto subjetiva,

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