Infância, criança e as antenas do caracol



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Infância, criança e as antenas do caracol

Por Dirce Waltrick do Amarante*


Seus olhos perdiam a intensidade, ou melhor, o segundo plano de

pensamento e experiência que imprime uma indiscutível gravidade

aos olhos de pessoas crescidas desapareceu, deixando apenas a clara

superfície transparente, que nada exprimia salvo aquela surpresa

própria de olhos infantis.

Virginia Woolf, “Objetos sólidos”.


Num ensaio intitulado “Sobre a gênese da burrice”, Adorno e Horkheimer comparam a inteligência a uma antena de caracol, que diante de um obstáculo, ou do desconhecido, recolhe-se ao abrigo protetor do corpo e, depois, só voltará muito hesitantemente a expor-se, como “órgão independente”, quando ganhar de novo confiança.1 Se o suposto perigo persistir, ela retornará ao corpo, não deixando, no entanto, de fazer novas tentativas de contato, mesmo que à distância.

A conclusão a que chegam os filósofos, diante dessa comparação, é a de que, “em seus começos, a vida intelectual é infinitamente delicada. O sentido do caracol depende do músculo, e os músculos ficam frouxos quando se prejudica seu funcionamento. O corpo é paralisado pelo ferimento físico, o espírito pelo medo. Na origem as duas coisas são inseparáveis.”2

Segundo Adorno e Horkheimer, os animais mais evoluídos devem essa evolução à liberdade, a qual dirigiu suas antenas para novas direções. Esses animais, aliás, ainda mantêm as suas antenas, o que não acontece com outros que as perderam e que “sucumbiram ao medo tão logo uma de suas antenas se moveu na direção de sua evolução. A repressão das possibilidades pela resistência imediata da natureza ambiente prolongou-se interiormente, com o atrofiamento dos órgãos pelo medo.”3

O primeiro olhar tateante é, portanto, sempre fácil de dobrar, “ele tem por trás de si a boa vontade, a frágil esperança, mas nenhuma energia constante. Tendo sido definitivamente afugentado da direção que queria tomar, o animal torna-se tímido e burro.”4 Esse conceito, aparentemente drástico, “burrice”, é definido por Adorno e Horkheimer como uma cicatriz. Quando a burrice é parcial, a cicatriz destaca o lugar em que o “jogo dos músculos foi, em vez de favorecido, inibido no momento do despertar.”5 A inibição dá início, então, a uma inútil repetição de tentativas desorganizadas e desajeitadas.

Poderíamos comparar as crianças a esses caracóis com antenas tateantes, curiosas, mas ainda tímidas ou confusas, as quais precisam de incentivo e estímulo para ganhar confiança e terem seus músculos fortalecidos.

No entanto, como lembra Walter Benjamin, a relação entre a criança e o adulto é, na realidade, bastante conflituosa: “travamos nossa luta por responsabilidade contra um ser mascarado. A máscara do adulto chama-se ‘experiência’. Ela é inexpressiva, impenetrável, sempre a mesma. Esse adulto já vivenciou tudo: juventude, ideais, esperanças, mulheres. Foi tudo ilusão. – Ficamos, com freqüência, intimidados ou amargurados.”6

As perguntas intermináveis que as crianças fazem, resultam, na opinião de Adorno e Horkheimer, em grande parte desse conflito. Essas perguntas, aliás, já são sinais de uma “dor secreta, de uma primeira questão para a qual [a criança] não encontrou resposta e que não sabe formular corretamente.”7 Mas, um dia, os questionamentos repetitivos diminuem, e se a inibição imputada à criança for excessivamente brutal, concluem os filósofos, “a atenção pode se voltar numa outra direção, a criança ficou mais rica de experiências, como se diz, mas freqüentemente, no lugar onde o desejo foi atingido, fica uma cicatriz imperceptível, um pequeno enrijecimento, onde a superfície ficou insensível. Essas cicatrizes constituem deformações (...), elas podem tornar as pessoas burras – no sentido de uma manifestação de deficiência, da cegueira e da impotência (...).”8

No tocante à relação conflituosa entre adulto e criança, Benjamin afirma que, ao levantar-se a máscara do adulto, percebe-se:


antes de tudo um fato: também ele foi jovem um dia, também ele quis outrora o que queremos, também ele não acreditou em seus pais; mas a vida também lhe ensinou que eles tinham razão. E então ele sorri com ares de superioridade, pois o mesmo acontecerá conosco – de antemão ele desvaloriza os anos que estamos vivendo, converte-os na época das doces asneiras que se cometem na juventude, ou no êxtase infantil que precede a longa sobriedade da vida séria. Assim são os bem-intencionados, os esclarecidos. Mas conhecemos outros pedagogos cuja amargura não nos proporciona nem sequer os curtos anos de “juventude”.9
Benjamin conclui, por conseguinte, que os adultos não encorajam o suficiente os jovens a realizar algo de grandioso, algo de novo. Eles muitas vezes negam ao jovem a experiência, pois, para os adultos, ela é o “eternamente-ontem”, “carente de sentido e espírito”. Mas, lembra o filósofo alemão, a experiência o é assim “apenas para aquele já desprovido de espírito”. 10

Em contrapartida, a primeira experiência que a criança tem do mundo não é a de que “os adultos são mais fortes”, mas, como opina o filósofo italiano Giorgio Agamben, a da sua “incapacidade de magia”11, ou seja, uma incapacidade de experimentar. A criança vê aí o seu destino, do qual não pode escapar. Não sem razão, Agamben parece acreditar que “a invencível tristeza que às vezes toma conta das crianças nasça precisamente dessa consciência de não serem capazes de magia.”12

Contrapondo-se à tristeza infantil está a felicidade, que, segundo Agamben, é “crer no divino e não aspirar a alcançá-lo”. Nesse sentido, o que vale é a experiência: “conhecer o lugar e a fórmula vale bem mais do que esforçar-se honestamente para atingir um objetivo.”13 “Em última instância”, continua o filósofo italiano, “a magia não é o conhecimento dos nomes, mas gesto, desvio em relação ao nome. Por isso, a criança nunca fica tão contente quando inventa uma língua secreta própria. Sua tristeza não provém tanto da ignorância dos nomes mágicos, mas do fato de não conseguir se desfazer do nome que lhe foi imposto.” No entanto, diz Agambem, “logo que o consegue, logo que inventa um novo nome, ela ostentará entre as mãos o passaporte que a encaminha à felicidade.”14 O fato de sermos, então, capazes de magia, nos afastaria da precoce tristeza infantil.15

A magia está diretamente ligada à experiência com a linguagem, a um pensamento renovadamente crítico em relação à linguagem. A magia é o desvio que desvincula o sujeito da culpa da imposição de um nome.

Para ilustrar essa experiência da magia, creio que um bom exemplo seria o gnomo do conto “Uma gota de água”, de Hans Christian Andersen. Nesse conto, o gnomo é um personagem sem nome, ou seja, é um personagem livre da imposição de um nome (de um nome próprio e de uma idéia preestabelecida sobre as coisas), talvez por isso somente ele seja capaz de nominar aquilo que vê numa gota suja de água: “Que temos por aqui? – perguntou um velho gnomo que chegava para uma visita, e que devia ser de alta consideração, pois nem nome tinha, o que é sinal de distinção entre os gnomos.”16 O velho Ziguezague, que observava a água há algum tempo, não sabia responder, via seres diminutos, mas não conseguia defini-los com precisão e pediu a interferência do gnomo: “E então, já sabe o que é? – perguntou Ziguezague.// --Claro que sei – respondeu o outro. – (...):estou vendo uma cidade grande do mundo. Deve ser Copenhague.”17

O conceito de magia e o de infância caminham, portanto, lado a lado, uma vez que, segundo o próprio Agamben, a infância “não é simplesmente um fato do qual seria possível isolar um lugar cronológico, nem algo como uma idade ou um estado psicossomático que uma psicologia ou uma paleoantropologia poderiam jamais construir como um fato humano independente da linguagem”.18 A infância seria, portanto, uma experiência com a linguagem, uma tentativa de nominar “conceitos vazios”19, ou ainda, segundo o próprio Agamben, a infância seria “aquilo que chamamos de pensamento”.20

O filósofo italiano toma como certo o pressuposto de que a infância é o lugar da experiência, por essa razão, concluímos com Agamben, a infância está presente em toda existência do homem, “não pode ser simplesmente algo que precede cronologicamente a linguagem e que, a uma altura, cessa de existir para versar-se na palavra”. 21

Num ensaio intitulado “Idéia da infância”, o filósofo italiano diz que “um adulto não pode aprender a falar: foram as crianças, e não os adultos, as primeiras a aceder à linguagem; e, mau grado os quarenta milênios da espécie homo sapiens, aquilo que constitui precisamente a mais humana das suas características – a aprendizagem da linguagem – permaneceu estreitamente ligado à condição infantil e a uma exterioridade: quem acredita num destino específico não pode, verdadeiramente, falar.”22 A infância é, desse modo, uma posição do ser.

A essas idéias a respeito da infância de Agamben podemos somar as de Jean François Lyotard. Segundo o filósofo francês, “batizamos de infantia aquilo que não fala [in-fans, do grego, não-fala]. Uma infância que não é uma idade da vida e que não passa. Ela povoa o discurso. Esse não cessa de afastá-la, é sua separação. Mas ela persiste, nele mesmo, que a representa como perdida. Sem saber, pois, a cobiça. Ela é seu resto. Se a infância permanece nele, é porque habita o adulto e não a despeito disso.”23

Em Leituras de infância, Lyotard exemplifica o que, para ele, significa viver a infância. Nesse livro, o filósofo francês relê obras de autores como James Joyce, Franz Kafka, Jean Paul Sartre e outros, a partir do desvio de críticas anteriores. Lyotard lança, assim, um olhar novo sobre essas obras, não desconsiderando o que sobre elas já se falou, mas afastando-se de uma idéia já consolidada.

No tocante ao conceito de infância, complementando a discussão anterior, gostaria de mencionar ainda um ensaio do pensador francês Jean Baudrillard, “O continente negro da infância”, escrito em 1995. Esse ensaio propõe uma noção bastante contemporânea e apocalíptica da infância, apresentando a criança como um ser que orbita a convivência social, sem fazer parte dela. 24

Nesse texto, Baudrillard afirma que a infância, no que se refere à ordem social e política, é “doravante” problema específico, “a exemplo da sexualidade, da droga, da violência, do ódio – de todos os problemas insolúveis derivados da exclusão social”. Para Baudrillard, “a infância e a adolescência convertem-se hoje em espaço destinado por seu abandono à deriva marginal e à delinqüência.” 25

Vivemos uma época em que adolescentes e crianças são serial killers, situação essa que, segundo Baudrillard, é inexplicável “em simples termos da psicologia, de sociologia ou de moral”. Para o pensador francês, “há mais, algo que vem da própria ruptura da ordem biológica e da ordem simbólica”26: trata-se das variadas formas de inseminação artificial, que liquida a “gênese familial e sexuada, da concepção física e biológica”. Como resultado dessa ruptura, a “criança passa a ser um ser operacional, performance técnica e projeção identitária – mais prótese em miniatura do que verdadeiro ‘outro’”. A criança seria, então, um subproduto, concebida “como excrescência ideal da imagem dos pais.”27 Segundo Baudrillard, embora essa questão científica (criança-clone) seja para o futuro, ela “já está presente no imaginário coletivo, e até mesmo na relação entre pais e filhos.” 28 E, quanto “mais a hereditariedade genética aparece em evidência, mais a herança simbólica desaparece(...). Mesmo a dramaturgia edipiana não funciona mais.” 29

Desse modo, para o filósofo francês, a criança “perde a alteridade natural para entrar numa existência satélite (...). Não há mais afirmação da infância, posto que não existem sequer as condições psíquicas e simbólicas da infância (...). Desaparece como fase da metamorfose do ser humano. Ao mesmo tempo em que perde assim o próprio espírito e a singularidade, a infância torna-se uma espécie de continente negro.”30

No continente negro, o Outro é o adulto, contra o qual a criança se volta violentamente, segundo Baudrillard, já que ela não se sente mais nem descendente nem solidária dele.

Baudrillard conclui dizendo que “crianças sempre haverá, mas como objeto de curiosidade ou de perversão sexual, ou de compaixão, ou de manipulação e de experimentação pedagógica, ou simplesmente como vestígio de uma genealogia do vivo.”31

Ainda mais apocalíptico (e o contexto atual talvez incentive a fazê-lo) é pensar a criança como Alien, um monstro que nasce do rompimento da cadeia simbólica das gerações, ou um produto de outra época, de uma época em que a infância tinha o seu tempo, o qual foi destruído pela aceleração geral. Essa tese foi desenvolvida, ou pelo menos anunciada, pelo mesmo pensador francês.

A literatura infantil já registrou, com incontornável humor negro e muita ironia, essa infância de que fala Baudrillard. Em Triste fim do pequeno menino ostra e outras histórias, de Tim Burton, por exemplo, uma linda menina tenta conquistar o seu namorado guitarrista dando-lhe um filho, conforme se lê em “O bebê âncora”: “Mas para tirar o bebê do ventre/ Foi preciso ajuda de uma grua./ O cordão umbilical parecia uma/ Grossa e compridíssima corrente.// O feto era triste, feioso/ E um tanto ferruginoso./ Em vez da tez tenra e rosa,/ Sua pele era uma crosta cinza. // Para quem queria calmaria/ A criança foi uma frente fria, / Antecedendo dias e mais dias/ De tempestade e ventania.”32

Numa outra história de Tim Burton, “O menino múmia”, a descrição que temos da criança não agradou nem mesmo a seus pais: “Não era rosado nem fofo./ Carne, tampouco ele tinha;/ Era duro e, por dentro, oco:/ Um bebê em forma de múmia!// ‘Doutor, o senhor nos poderia/ Explicar a causa de nossos males:/ Por que é que toda a nossa alegria/ acabou num punhado de gaze?’// ‘Quer para o bem, quer para o mal,/ O diagnóstico será um só./ O seu filho guarda o sinal/ Da Maldição do Faraó.’”33

Por fim, após apresentar, nos parágrafos anteriores, diferentes concepções sobre a infância, as quais, parece-me, dialogam entre si e se completam, e talvez se elucidem umas às outras, retomo mais uma vez Walter Benjamin, que, num ensaio de 1924, afirmou tratar-se de preconceito ver as crianças como “seres tão diferentes de nós, com uma existência tão incomensurável à nossa, que precisamos ser particularmente inventivos se quisermos distraí-las”.34 Apesar disso, acrescenta Benjamin, “desde o Iluminismo, essa tem sido uma das preocupações mais estéreis dos pedagogos”, que, “em seu preconceito”, não percebem que a terra está cheia de objetos “puros e infalsificáveis” capazes de atrair a atenção das crianças.35 Por “puros e infalsificáveis”, o pensador entende aqueles objetos que não necessitam ser retocados ou fabricados pelo homem para atrair especialmente a atenção das crianças.

O poeta Charles Baudelaire, num de seus textos teóricos, compara a criança ao estado de convalescença (desde que a doença tenha “deixado puras e intactas nossas faculdades espirituais”), estado que, segundo ele, é um retorno à infância: “O convalescente goza, no mais alto grau, como a criança, da faculdade de se interessar intensamente pelas coisas, mesmo aquelas que aparentemente se mostram as mais triviais”. A criança, assim como o convalescente, vê tudo com “olhar matinal”, para o qual tudo é novidade, “ela está sempre inebriada. Nada se parece tanto com o que chamamos inspiração quanto a alegria com que a criança absorve a forma e a cor.”36

Baudelaire conclui dizendo que “é à curiosidade profunda e alegre que se deve atribuir o olhar fixo e animalmente estático das crianças diante do novo, seja o que for, rosto ou paisagem, luz, brilhos, cores, (...).”37

De fato, parece que as crianças se sentem, como bem ponderou Benjamin, “atraídas por detritos, onde quer que eles surjam – na construção de casa, na jardinagem, na carpintaria”, e também na literatura, na arte e demais produtos culturais dirigidos a elas. Por detritos, deve-se entender qualquer detalhe ou fragmento que possam ser utilizados pelas crianças para a construção de “seu mundo de coisas” e de idéias, como afirma o filósofo alemão.38

Embora tenha sido proferida na primeira metade do século passado, essa idéia ainda parece nova e, portanto, muitos preferem continuar a entender a infância, ou a criança, como uma faixa etária “incompleta”, consumidora passiva de produtos culturais elaborados para ela pelo grupo social, a fim de que possa se tornar um ser humano evoluído, “completo”, vale dizer “adulto”. Neste ponto, a discussão estética já resumida atrás, centrada no gosto e na artificialidade deste, desde Kant e Hegel até Bourdieu e Rancière, entre outros, ganha crucial importância, pois essa discussão nos enseja a reinventar a relação entre a criança e o adulto, o aluno e o mestre, a escola e a arte em geral.

Nesse sentido, vale perguntar, como o fez Jean François Lyotard, se aquilo que chamamos de humano no homem não seria a “miséria inicial da sua infância ou a sua capacidade de adquirir uma ‘segunda’ natureza que, graças à língua, o torna apto a partilhar da vida comum, da consciência e da razão adultas?” A despeito dessa questão, Lyortad conclui que, “num ponto, estamos de acordo: esta última assenta e suporta a primeira. A questão é apenas de saber se esta dialética, seja qual for o nome com que a enfeitamos, não deixa vestígios.”39

O fato é que, a julgar pelo que disseram os teóricos que citei acima, essa dialética deixa seus vestígios, sim. Se não o deixasse, segundo Lyotard, “seria inexplicável, para o próprio adulto, não apenas que ele tenha de lutar continuamente para assegurar a sua conformidade com as instituições, e até as ordenar face a um melhor viver comum, mas que o poder de as criticar, a dor de as suportar e a tentação de se lhes escapar persistam em algumas das suas atividades.” Lyotard afirma, quanto a essa última questão ligada à fuga ou resistência à civilização, que não se refere apenas “aos sintomas isolados, aos desvios singulares mas ao que, pelo menos na nossa civilização, passa igualmente por institucional: a literatura, as artes, a filosofia.” Trata-se, então, como afirma Lyotard, “do rasto de uma indeterminação, de uma infância, que persiste mesmo na idade adulta.”40

O adulto padrão aspira à plena humanidade, paradoxalmente, “livrando-se” (e ele não teria outra saída, na sociedade atual) da “selvageria obscura da sua infância”, através da realização efetiva do espírito “como consciência, conhecimento e vontade.”41

Assim, para Lyotard, esse título de humano “pode e deve caminhar entre a identidade nativa e a razão instituída ou a instituir-se”42 por meio da educação, sendo que toda educação é “inumana visto que não funciona sem contrariedades e terror”, sem que de alguma forma o espírito e o pensamento sejam castrados.43

Contudo, da educação não podemos escapar, e se porventura “os humanos nascessem humanos tal como os gatos nascem gatos (com poucas horas de diferença), não seria possível – e nem sequer digo desejável, o que torna a questão diferente – educá-los”, conclui Lyotard. No entanto, prossegue o filósofo, “que devemos educar as crianças é uma circunstância resultante apenas do fato de elas não serem todas pura e simplesmente conduzidas pela natureza, de não estarem programadas. As instituições que constituem a cultura preenchem esta falta natural.”44

Num outro sentido, mas de certa forma dialogando com as idéias que expus atrás, Paulo Freire afirma que “o cão e a árvore também são inacabados, mas o homem se sabe inacabado e por isso se educa. Não haveria educação se o homem fosse um ser acabado. O homem pergunta: quem sou? De onde venho? Onde posso estar? O homem pode refletir sobre si mesmo e colocar-se num determinado momento, numa certa realidade: é um ser na busca constante de ser mais e, como pode fazer esta auto-reflexão, pode descobrir-se como um ser inacabado, que está em constante busca. Eis aqui a raiz da educação.”45



* Ensaísta e tradutora

1 ADORNO, Theodor W., Max Horkheimer. Dialética do esclarecimento.Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p. 1986, p. 239.

2 Idem ibidem.

3 Idem ibidem.

4 Idem ibidem.

5 Idem, p. 240.

6 BENJAMIN, Walter. Reflexos sobre a criança, o brinquedo e a educação. São Paulo: Editora 34, p. 21.

7 ADORNO, Theodor W., Max Horkheimer. Op. Cit., p. 240.

8 Idem ibidem.

9 BENJAMIN, Walter. 2002, pp. 21, 22.

10 Idem, p. 23.

11 Giorgio Agamben, citando Walter Benjamin, em AGAMBEN, Giorgio. Profanações. São Paulo: Boitempo, 2007, p.23.

12 Idem ibidem.

13 Idem ibidem.

14 Idem, p. 25.

15 Idem, p. 24.

16 ANDERSEN, Hans Christian. Histórias e contos de fadas. Volume 1. Belo Horizonte: Villa Rica, 1996, p. 484.

17 Idem, p. 485.

18 AGAMBEN, Giorgio. Infância e história: destruição da experiência e origem da história. Belo Horizonte: UFMG, 2005, p. 10.

19 Idem, p. 12.

20 Idem, p. 13.

21 Idem, p.59.

22 AGAMBEN, Giorgio. Idéia da prosa. Lisboa: Cotovia, 1999, p. 93.

23 LYOTARD, Jean François. Lecturas de infancia. Buenos Aires: Eudeba, 1997, p. 13. (tradução minha)

24 As idéias de Baudrillard que menciono neste trabalho já foram utilizadas por mim num outro texto, publicado no corrente ano no jornal “Diário Catarinense”, que poderá ser consultado ao final deste trabalho. Esse mesmo texto foi publicado nos sites www.centopeia.net e www.culturainfancia.com.br

25 BAUDRILLARD, Jean. Op. Cit., p.51.

26 Idem Ibidem.

27 Idem, p. 52.

28 Idem ibidem.

29 Idem ibidem.

30 Idem ibidem.

31 Idem, p. 53.

32 BURTON, Tim. O triste fim do pequeno menino ostra e outras histórias. São Paulo: Girafinha, 2007, p. 119.

33 Idem, p. 87.

34 BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1985, p. 237.

35 Idem ibidem.

36 BAUDELAIRE, Charles. A modernidade de Baudelaire. Organização e seleção de textos: Teixeira Coelho. São Paulo: Paz e Terra, 1988, p. 168.

37 Idem, p. 169.

38 BENJAMIN, Walter. Op. Cit., p. 238.

39 LYOTARD, Jean François. O inumano: considerações sobre o tempo. Lisboa: Editorial Estampa, 1997, p.11. Segundo a tese de Maurice Blanchot e Emmanuel Lévinas, a imagem da infância é a “imagem de uma infância morta”, que evoca a tentativa de representar aquilo que não fala, que não participa do regime do discurso e que não tem singularidade, já que a característica da infância é “uma certa incapacidade de se expressar, a qual a criança aprende, todavia, a superar apropriando-se do discurso dos outros.” (tradução minha) (HOPPENOT, Éric, MILON, Alain (orgs.). Emmanuel Lévinas - Maurice Blanchot, penser la différence. Paris: Presses Universitaire de Paris 10, 2007, p. 84). Essa tese, da infância morta, não desenvolverei neste trabalho, uma vez que implicaria, dentre outras questões, tratar da aquisição da linguagem a partir de um terceiro, o que traria à tona outras teorias, como a de Bakthin e Maurice-Merleau Ponty, por exemplo.

40 Idem ibidem.

41 Idem, p. 12.

42 Na opinião de Lyotard, “desprovida da palavra, incapaz da paragem certa, hesitante quanto aos objetos do seu interesse, inapta no cálculo dos seus benefícios, insensível à razão comum, a criança é eminentemente humana, pois a sua aflição anuncia e promete os possíveis. O seu atraso inicial sobre a humanidade, que a torna refém da comunidade adulta, é igualmente o que manifesta a esta última a falta de humanidade de que sofre e o que a chama a tornar-se mais humana.” Idem, p. 11.

43 Idem, p. 12.

44 Idem, p. 11.

45 FREIRE, Paulo. Educação e mudança. São Paulo: Paz e Terra, 2007, p. 27.


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