InformaçÃo para a mudança os 4 nós



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INFORMAÇÃO PARA A MUDANÇA

Os 4 nós
Estamos vivendo a preparação para o XX Capítulo Geral e, pela primeira vez, a comunicação imediata chegou a todas as Inspetorias no dia 06 de janeiro, via fax. A esta altura, esse preciosíssimo instrumento, que une telefone e fotocópia, tornou-se indispensável para nós. Tornou mais rápidas e pontuais as ligações. Encurtou as distâncias geográficas e as esperas de resposta. Muitas vezes a resposta de um fax vem no mesmo dia. No entanto, embora nem todas as casas já disponham dele, o fax também já foi substituído pelo modem: deseja-se maior velocidade, menor custo, mais qualidade... O correio eletrónico já está às portas.
A comunicação mudou: ela se faz sempre mais em tempo real. Mas, o que mudou na nossa vida, ou melhor, esse fato tem a ver com o nosso modo de comunicar com os outros ?
Cada dia passam diante dos nossos olhos milhares de imagens, escutamos informações de todo tipo, lemos nos jornais uma média de 200 notícias. Para termos uma idéia do fluxo de informações que pairam no ar, basta pensar que a CNN, a conhecida emissora americana, transmite notícias 24 horas por dia. A Itália, um país pequeno, tem mais de 700 emissoras locais, além das nacionais, públicas e particulares; na Argentina, a TV a cabo pode levar até 40 canais a uma casinha de uma cidade do interior, e em Buenos Aires as empresas de TV via cabo cresceram 60%. As transmissões via satélite levam os acontecimentos diretamente, de um extremo a outro do mundo. A perspec-
tiva imediata é que dois colossos mundiais, a Microsoft (que controla o mercado dos programas de computador) e a McCaw (a maior empresa de telefones celulares dos Estados Unidos) fizeram um acordo para colocar em ór­bita outros 840 satélites, até o ano 2001. Em 1996, duplicando a sua potência, a Europa colocará em órbita mais três satélites geo-estacionários (isto é, aqueles que ficam a 36.000 km da Terra), capazes de co­brir toda a superficie terrestre. Estamos invadidos pelas notícias.

Nesse excesso de notícias que se atropelam a toda hora, já maturamos critérios de seleção para nos desvencilharmos do emaranhado de coisas que penetram em nós?

Olhando a realidade nessa faixa de milénio, somos tenta­dos a dizer que a liberdade é a maior aspiração dos povos. Infelizmente o capital se concentra nas mãos de poucos Países ou de poucas familias que controlam a informação, que exercem pressão sobre as decisões políticas, que de­terminam uma permanente sujeição dos Países pobres.

O mecanismo do papel impresso é o mais conhecido. Existem grandes agências, concentradas na França, na Inglaterra e nos Estados Unidos, que distribuem 80% da informação.

Naturalmente, 'faz' notícia o que atinge diretamente os interesses (económicos ou políticos) de Países que têm prestigio e poder, ao passo que a Africa só consegue ven­cer o 'black out' com as guerras tribais ou os golpes de Estado.



O mundo vive esta estranha contradiçåo: pe­dido de democracia de um lado e, do outro, controle da informação. Tal contradição tem a ver com a nossa vida?

O mundo se admirou de que no Vaticano funcione uma sala de imprensa para as relações com o mundo. Foi

também motivo de admiração o fato de que o Papa tenha publicado: «Atravessar o limiar da Esperança», através de uma casa editora leiga, e que o livro tenha sido lança­do, contemporaneamente, em 20 línguas, em todos os mercados do mundo.

Foram muitas as críticas, mas muitos jornais sairam tam­bém com títulos como estes: «O Papa se conta», «Os pensamentos de um homem acerca da vida e do mundo». Ultimamente, para lançar o último modelo de computa­dor, a IBM fez um `spot' com freiras. Um sucesso! Como é possível?

Muitas vezes nós nos queixamos de que os `mídia' não tra­tam de fatos religiosos, a não ser que sejam sensacionais ou espetaculares, de que não se interessam pela religião, de que não abrem espaço para coisas verdadeiramente válidas. No entanto, temos uma espécie de rancor contra os meios de comunicação: por um lado temos consciência de que jornais, rádio e televisão incidem profondamente sobre a opinião pública (por isso eles nos interessam!), mas, de­vido à sua lógica, sua linguagem, e a escolha do espeta­cular, parecem distantes de nós e pouco adequados a tra­tar com a religião e o sagrado.
Já nos perguntamos alguma vez por que é que, quando se fala de Irmãs, de religião, de fé, essa sociedade da imagem se torna tão banal, superficial, `rançosa', que leva os jo­vens a mudar de Canal?
Retomar uma por uma essas perguntas 'quentes' pode le­var ao debate que anima as nossas comunidades, no tra­balho pré-capitular, alguns problemas que nos aproximam do mundo dos jovens e da cultura de hoje. Percebe-se que surgem novas perguntas, e que já não se trata de considerar o rádio, a televisão e o jornal só co­mo instrumentos, mas que existe uma cultura dos `mídia', um sistema informativo que modifica nossos parâmetros de julgamento.

O modo de pensar a vida, a pessoa, mudou.

A fidelidade às origens, hoje, nos pede também a fidelidade ao futuro.
1 - O tempo reencontrado...
A comunicação mudou, ela se faz sempre mais em tempo real. Mas, o que mudou na nossa vida, ou melhor, esse fato tem a ver com o nosso modo de comunicar com os outros?
Um centro de pesquisa observou: «Um sintoma da aceleração que nos invadiu é, por exemplo, a impaciência com que se suporta um computador que leva um ou dois segundos a mais para realizar a operação. A corrida a modelos sempre mais velozes parece não ter fim: em 1992, nos computadores pessoais, já havia sido superado o milhão de operações por segundo, e hoje, apenas dois anos depois, se viaja ao redor de sete milhões e meio por segundo».

Um momento. Trinta segundos para refazer os cálculos. Sete milhões e meio de operações. É um vórtice, causa vertigem. A mente humana, que é infinitamente mais hábil do que o computador, não tem condições de acompanhar tal velocidade.

No entanto, a corrida a máquinas sempre mais velozes e potentes (são os computadores, mas também os automóveis, as máquinas industriais...) é apenas um indicador do índice de aceleração que invade toda a vida social. Hoje, quando a comunicaçãa viaja à velocidade da luz, de que forma mudará o modo de governar, justamente porque faltam os longos tempos que separavam a resposta da `solicitação' enviada?

Deveria ser claro que a velocidade das mensagens e a sua extensão no espaço nos induzem, como defesa, a uma espécie de descompromisso e de indiferença. Mas, ao

mesmo tempo, constituem um desafio a aprender a disciplina espiritual que libera da passividade e, diante do cansaço, ajuda a descobrir novas reservas interiores. Um estudioso afirma que uma `mudança' seria ter a força de, uma vez por semana, desligar o telefone, o rádio, a Tv e os computadores, para criar um lugar em que se reencontrar e recuperar também o jogo da narração.
Diante de provocações, até contrastantes, que alternam elogios e invectivas contra os `mídia', escreve um educador: «No palco das novas realidades... são possíveis dois comportamentos, que têm em comum o mesmo erro de avaliação: o educador, o adulto, pode se afastar, escandalizado, selando com a marca de Satanás todas as produções que têm sabor de modernidade...; ou então, pode se jogar de cabeça na realidade, procurando se locupletar de novas tecnologias, de computadores e video-clips, isto é, tentando ser moderno a todo custo, indo atrás de toda moda e de toda inovação».

Nesse entrelçar-se convulsionado de mensagens que se sobrepõem e se atropelam em ritmo acelerado, o mundo hoje parece uma 'Babel' comunicativa, onde se tem dificuldade de estar à tona, e onde se chega a experimentar os sintomas da «náusea da informação>..


Basta pensar que nos Estados Unidos (e no caso da Europa e do Japão há pouca diferença), uma pessoa é investida a cada dia por uma média de 20.000 palavras lidas no jornal, às quais se somam as imagens de pelo menos uma hora e meia de televisão, as palavras de uma hora e quinze minutos de rádio, que se somam a todos os cartazes de propagandas, e se imbatem contra 560 `spot' publicitários. É uma cifra de dar vertigem. Diante disso, até os tipos mais capazes confessam sua dificuldade em se atualizar. Um professor emprega de 20 a 50% do seu horário de trabalho só para estar em dia sobre o seu assunto.

E as previsões sobre os jovens fazem pensar: «Na velo-


cidade com que o conhecimento vai se expandindo - afirma o maior especialista de transmissões educativas dos Estados Unidos - quando o menino nascido hoje terminar a universidade, o complexo dos conhecimentos no mundo será quatro vezes maior. E quando o mesmo menino tiver 50 anos, será 32 vezes maior».


Portanto, velocidade chama progresso e desenvolvimento

chama velocidade. Estamos num círculo vicioso, ou

melhor uma espiral que precisa ser quebrada:

- a aceleração global da vida faz com que cada minuto perdido custe multo mais do que no passado

-por conseguinte, a informação deve passar mais rapidamente do que nunca

- surgem novos problemas inesperados, que requerem uma maior quantidade de informações em relação aos já conhecidos

- toda demora é dispendiosa, e ninguém pode se dar o luxo de desperdiçar o tempo

- por isso, se vai atrás de uma informação sempre mais rápida e precisa.


O progresso está ligado a um maior número de conhecimentos, mas hoje a rapidez é tão grande que falta tempo para ler, todos os dias, as produções relativas a um único assunto.

No fim, a pessoa se torna problema. Nesse fluxo irrefreável, não chega a reelaborar as informações que recebe. Soa o alarme: «é preciso desacelerar para poder regular, controlar e preparar a mutação. A sobrevivência impõe a revolução do futuro. Essa deve ser a tomada de consciência do novo milénio» (E. Morin). Portanto, estamos numa encruzilhada: a aceleração e o fascínio de máquinas sempre mais sofisticadas e velozes, e a desaceleração, para garantir qualidade à vida. Será possível superar essa divergência, e preparar-se com realismo para a mudança, inculturar-se de forma inteligente?



* Asteriscos
A denúncia dos estudiosos é esta: estamos vivendo debaixo de uma pressão sempre crescente de mensagens, porque todos trabalham para fazer com que cada átimo contenha o maior número possível de informações. Reponta aqui a`vocação interior' que durante muito tempo a nossa sociedade marginalizou.
* No tempo de tudo "logo, rapidinho, já ", ainda têm sentido palavras como silêncio, interioridade, reflexão, `comunicação' ?
«A aceleração conquista todos os setores da vida. A própria velocidade caminha cada vez mais veloz. Com a aceleração técnica, com fax, TGV, Chronopost e supersónicos, nós mesmo estamos acelerados... E a corrida de toda uma civilização que nos embala.

Devemos tomar consciência dessa corrida maluca em que somos arrastados... Estamos correndo para a autodestruição? Para uma mutação? A sobrevivência exige que se revolucione o devir. Devemos chegar a um outro futuro. Essa deve ser a decisiva tomada de consciência do novo milénio» (Edgar Morin).


* O uso de tecnologias avançadas garante os coligamentos velozes, otimiza relações: mas é possível não se deixar sugar pela lógica da aparência, da espetaculosidade e da superficialidade?
O desafio a reapropriar-nos do tempo vai sempre mais contra a corrente: é o tempo da memória, o tempo do silêncio, o tempo da decisão, o tempo da oração, o tempo do relacionamento gratuito. Entre a aceleração das informações e a pressa que insidia a capacidade de refletir, existe todo o espaço para a escolha pessoal da reflexão. É urgente sincronizar a bússo-

la com os tempos da história. «É preciso viajar, mas sabendo que o viajante digital se encontra num mundo que gira ao seu redor, sem que ele se mova. E o que acontece? A cada passagem, ele é submetido a uma extraordinària re-situação: a cada volta, muda o centro organizador da linguagem, dos comandos, das funções, dos objetivos e dos resultados, isto é, muda a identidade de quem age naquele espaço comunicativo» (P. Vidali).


2 - Seleção inteligente
Nesse excesso de notícias que se atropelam a toda hora, já maturamos critérios de seleção para nos desvencilharmos do emaranhado das coisas que nos penetram?
Invasora, a TV não dá sossego. Antes (e ainda hoje, para alguns países mais pobres da África) a TV transmitia apenas algumas horas por dia. Agora, não. Dia e noite. E muitos canais. De forma que se pode fazer o`zapping', isto é pular de um canal para outro com o controle remoto.

Com isso nos iludimos de nos termos tornado 'competentes', capazes de escolher as coisas que realmente valem. Uma recente pesquisa da Universidade Salesiana de Roma jogou por terra a hipótese de jovens 'competentes' em televisão. Mas não porque não a apreciem. Pelo contrário. É que faltam a eles os instrumentos para escolher, e usam o controle remoto selvagem só porque não conseguem estar sem a cócega de uma proposta. O mundo da informação se articulou e diversificou de tal forma que cada País tem um longo elenco de jornais, de semanários, de rádio e de televisões que se preocupam em fornecer opiniões, julgamentos, dados, estatísticas sobre todo tipo de problema. E o usuário se ilude de ser livre, de ter idéias próprias e as próprias fontes.

As estatísiticas são indicativas: cm 1991, o número de casas que tinham um video-gravador chegava a 228.140.000 no mundo inteiro, isto é, em 33,7% das casas que tinham televisor. Depois disso se tornou impossível controlar o fluxo dos vídeos que atravessam as fronteiras e entram clandestinamente no mercado. Nos vídeos se encontra de tudo: tanto um filme estrangeiro de qualidade, como a pior das pornografias.

Nos Países mais pobres, onde a televisão só transmite algumas horas por dia, o vídeo-gravador se difundiu de forma surpreendente, e o consumo de vídeos é incrivelmente alto.

Caminha-se para a exasperação do problema.

A acquisição de antenas parabólicas, de cd-rom, de paytv - que se juntam a jornais, rádio, televisão e computador - aumentou as possibilidades: nos Estados Unidos onde os assinantes do ciberespaço jà se contam aos milhões (mas estão em rápido aumento, tanto na Europa como na América Latina), os assinantes lêem os jornais diretamente do monitor, passam com facilidade de uma biblioteca a outra, sem sair da poltrona. Os estudiosos advertem que o desenvolvimento tecnológico está nos levando a saídas impensáveis.

A primeira consequência, grave, é que o progresso dos sistemas de comunicação está gerando, paradoxalmente, mais incomunicabilídade.

Um outro efeito se liga justamente à invasão, não apenas das casas, mas do mundo interior das pessoas, revirando e misturando as referências. O termo `fragmentação' foi cunhado justamente para dar a idéia da pessoa esfacelada por mensagens que, muitas vezes Ihe chegam sem qualquer ligação lógica: informação, música, `spot', desfile de moda, filmes dramáticos, fição científica. Pensando na televisão, que influência sempre mais os outros mídia, entende-se que muitas vezes é ela que comanda os limites da nossa linguagem, das nossas categorias lógicas e perceptivas. A ponto de se tornar o nosso `ambiente'. Uma terceira consideração deve ser feita, olhando o sis-

tema dos mídia: a invasão da televisão é tão forte que, em vez de impelir os jornais e revistas a se diferenciarem qualitativamente, faz com que eles se amoldem à TV, tanto na busca dos temas corno na maneira de tratá-los; por sua vez, a TV está indo atrás de modelos que antes pertenciam aos jornais populares. Esses dados confirmam o que disse uma antropóloga: «Hoje, tanto em nível individual como coletivo, muito dificilmente penetram, no próprio horizonte de referências, problemas, fatos, pessoas que não tenham tido uma `consagração' por parte dos meios de comunicação: numa palavra, nós só nos interessamos por aqueles problemas, por aquelas realidades que os meios de comunicação nos propõem».

Nessa situação, até mesmo aqueles que querem estar sempre atualizados, sempre na moda, precisam achar tempo para assumir atitudes críticas diante dos novos códigos e das novas linguagens. Senão, acreditando que seja suficiente ser alfabetizados sobre o último programa de computador, ou sobre o último `vídeo-clip' ou jogo eletrónico, deixam escapar a capacidade de perceber as bases sociais, económicas, políticas e pedagógicas sobre as quais se recortam as novas tecnologias. A absorção acrítica do último produto `mass-midial' não vale nem um pouco para se ficar em dia. As informações se multiplicariam, sim, mas poderíamos sair delas pobres de idéias criativas, pobres de valores que permitam 'ordenar os dados', em vista do sentido da vida.


Para não sermos esmagados pelo mecanismo no qual estamos inseridos, a única saída é trazer de novo a pessoa para o centro. E justamente a respeito disso, a Igreja tem uma palavra a dizer. Sem fugir à questão. A missão da Igreja (portanto, a nossa) só pode se realizar na comunicação, que não pode ser isolada da cultura em que se exprime. Daqui a necessidade de confrontar-se e aprender a se movimentar no novo areópago do sistema comunicativo.

«Trata-se de uma navegação difícil, já que hoje o conjunto do fato comunicativo, informativo e informático se apresenta multo complexo. Nada parecido com uma geografia coerente. De certo, apenas uma coisa: a convicção de que, com o advento da informação e da comunicação eletrónica, a humanidade está entrando numa nova era» (G. Giovannini).



* Asteriscos
Estar atentas aos jovens é uma obrigação para nós. Eles `navegam' em mares mais vastos do que os de Cristóvão Colombo. E já que a aprendizagem da vida e da cultura se faz em grande parte atraves dos mídia, deveríamos fornecer a eles mapas de percurso que os ajudem a encontrar pontos de referência na `terra firme' da própria consciência.
* S.O.S que vem do front da educação: o que é preciso para não apenas consumir, mas tornar-se capaz de selecionar, avaliar, refletir?
Precisamos de «coração e cabeça, sim. Além de um temperamento aberto às exigências dessa juventude, da qual 80% não praticam esportes, mas freqiientam salas de cinema 3 ou 4 vezes por semana, e discotecas, na proporção de 32%. Se o educador deseja folhear revistas, jornais e livros de cultura com jovens desse tipo (rapazes), não deve se esquecer de que eles não lêem: mesmo se 'adoram' quadrinhos, numa média de 53%. A nossa experiência nos apresentou casos de analfabetos, ávidos e bem providos de revistas de quadrinhos: devoram as... figuras de 'cow boys e de `girls'...» (Padre Francesco Della Torre - 1° Diretor de Arese).
* As comunidades educativas não podem ser o lugar privilegiado do confronto em que as

diversas competências se medem, e onde se formam os parâmetros de julgamento?
«Se examinamos... a comunicação de massa, vemos que ela parece ter abandonado há muito tempo a sua função (educativa), para se tornar caixa de ressonância, ou melhor, amplificadora de todos os conflitos, também os interpessoais. A partir da crónica miúda, especialmente a `marrom', até a comunicação referente aos grandes fenómenos políticos, a linguagem e o tom dos instrumentos da comunicação de massa (rádio, jornais, revistas, televisão) tendem sempre mais a suscitar sensações fortes e excitantes, a fim de `vender melhor'. Mirando o essencial, forçando os detalhes que despertam atração, desgosto, aversão, pena, gera-se uma inflação de sentimentos e, ao mesmo tempo, um aumento de necessidade de emoções cada vez mais eletrizantes» (Card. Carlo Maria Martini).
* A comunidade que se abre à vida do mundo, e não foge ao diálogo dos tempos normais (conversas à mesa, conferência, boa-noite), já não tem suficiente oportunidade de crescer?
Para começo de conversa, poderíamos recolocar em lugar de honra a arte de narrar e de escutar narrativas. É uma arte que, em parte, os mídia eletrónicos tendem a consumir, porque o discurso deles trasmite informações novas num ritmo tal, que as nossas histórias ficam superadas antes que achemos o tempo para contá-las e, em parte, porque o discurso altamente refinado dos mídia torna tímidos os amadores da arte de contar histórias. Todavia, nenhuma cultura pode sobreviver por muito tempo, quando os seus membros perdem interesse pelas histórias que podem se contar reciprocamente. (John Staudenmaier).
Um justo equilibrio se impõe: o uso moderado e prudente dos meios de comunicação, acompanhado pelo discer-
nimento comunitário, pode ajudar a comunidade a conhecer melhor a complexidade do mundo da cultura, pode permitir urna recepção confrontada e crítica e, enfim, pode ajudar a valorizar o impacto deles em vista dos vários ministérios para o Evangelho» (A vida fraterna em comunidade n° 34).
3 – Convivência democrática

O mundo está vivendo esta estranha contradição: exigência de democracia, por um lado, e por outro, controle da informação. Essa cantradição tem a ver com a nossa vida?

Tomamos consciência de que o mundo está se tornando sempre menor, ao ver que não precisamos mais de 80 dias para dar a volta em redor dele. Se, depois, o consideramos do ponto de vista informativo, vemos que esta se tornando realmente uma aldeia: os satélites distribuem as mesmas imagens, como chuva, nas televisões do mundo inteiro. Uma interligação mundial já não é um fato extraordinário. O próprio Papa, na Centesimus Annus, afirmou que muitas das mudanças políticas de 1989, que reorganizaram os equilíbrios mundiais, foram determinadas pelo sistema informativo. É lógico que esteja se realizando um processo de `mundialização', pelo menos para certos problemas da existência, porque as fontes da sociedade da informação são as mesmas.

O gigante norte-americano sozinho vende 79% dos direitos dos programas no mundo inteiro.

50% desses direitos são comprados pela Europa Ocidental.

Com isso se assiste a fenómenos juvenis que migram do oriente para o ocidente e vice-versa, como também a ten-

ncias culturais que se impõem em áreas geográficas muito diferentes.

Restringindo a nossa panorâmica, parece-nos perceber, em nível mundial, um problema sobre o qual é bom re¬fletir: trata-se da exigência sempre mais vasta de demo¬cracia que aflora por toda parte, embora em meio a am¬biguidades de todo tipo.


Na América Latina, os temas políticos e sociais são vivi¬dos com grande paixão e participação. Embora as expe¬riências políticas dos vários Estados sejam diferentes e nem sempre consolidadas, o tema da participação e da de¬mocracia é vivido com veemência. Na década perdida, que foi a dos anos 80, a crise e a conflitualidade geraram, sobretudo naquele continente, «uma grande consciência politica e uma sensibilidade para os problemas locais, mu¬nicipais, regionais... Já não se espera multo da gestão pa¬ternalista do Estado. Toma-se consciência de que a demo¬cracia recém-nascida tem de ser construída... Por isso, é possível uma leitura cheia de esperança da crise latino¬americana».
A Africa também está vivendo uma estação intensíssima. A Africa do Sul superou as eleições livres, e a abolição do `apartheid' inaugurou uma nova era. Moçambique está respirando paz, depois das últimas eleições. Muitos países se orgulham de ter entrado na estrada do multipartidaris¬mo, mesmo que algumas vezes ele seja apenas aparente, ou mal aplicado. Em poucos anos, são mais de 20 as Nações que se vangloriam de ter um regime democrático. A liberdade de todo o Continente Africano é aspiração pro¬funda e conflito permanente: em tudo isso, não deixam de ter responsabilidade as grandes potências, com a ambigui¬dade da sua política de `assistência' e o peso de sua ajuda. Estão na memória de todos os 'xeques-mates' da comu¬nidade internacional nestes últimos anos. Mas, embora difícil, parece que não se pode deter a ca¬minhada rumo à democracia.

Na Europa Ocidental e Oriental, o tema da liberdade de¬mocrática volta continuamente, com formas e esfumatu¬ras diversas. As velhas democracias estão corroídas por interesses pessoais e por escândalos que bradam por um retorno ao espírito que animou a conquista dos direitos de participação. As democracias mais recentes vivem a luta da busca de novas formas de confronto político e de or¬ganização social.

Parte notável dessa crise é manejada pelos meios de co¬municação.
No Sudeste Asicítico a corrida desenvolvimentista derru¬bou algumas barreiras ideológicas e, mesmo em Países fechados há mais de 50 anos, já sopram os ventos da li¬berdade que, necessariamente, colocam em questão a ges¬tão política.
Todos reclamam democracia e liberdade, porém, cada vez mais frequentemente, esses valores correm risco, não tan¬to pelas declarações dos governos, como por uma praxis económica e pelo mesmo sistema informativo. O risco da concentração da informação nas mãos de pou¬cos, que filtram os dados na base de interesses bem deter¬minados, não é uma hipótese abstrata. E não se trata ape¬nas dos Países onde o governo controla uma única televi¬são estatal, ou um jornal único. É também o caso de Na¬ções de alto desenvolvimento, nos quais uma oligarquia detém, de fato, o controle das transmissões. Historicamen¬te, os Estados democráticos nasceram porque as camadas mais pobres reivindicaram paridade de condições. Mas hoje, em muitas Nações, é possível perceber que as várias democracias estão defendendo os direitos da classe média, ignorando o dever de defender os menos favorecidos. Diz-se que, terminada a era industrial, entramos na pós¬modernidade. Mas acontece que, lá onde acaba uma so¬ciedade verticalmente organizada (a nossa pirâmide), e começa a surgir uma sociedade horizontal, não se realiza igualmente a sociedade solidária.

O modo de pensar a vida, a pessoa, mudou.

A fidelidade às origens, hoje, nos pede também a fidelidade ao futuro.

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