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Autor: Elizabeth Travassos

Título: O Fado



Indicação bibliográfica: IN: Maria Emília Prado Marchiori (org.). Rio de Janeiro, Secretaria de Cultura/Prefeitura Municipal de Quissamã/IBPC, 1991. 2ª edição

Localização: BCG/UFF/Centro de Memória Fluminense



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Data da 1ª edição:

Livro

19/1
Fado: Embora desaparecido de vários municípios (Parati, Angra, Vassouras, Cabo Frio, Magé) o baile de fado se conservou ativo em Quissamã – é um dos bailes mais apreciados pela população, inclusive, por jovens) – como manifestação típica do Norte Fluminense (sobretudo São João da Barra e Campos). Ao que tudo indica, argumenta a autora, o fado é uma exclusividade Fluminense.



O fado fluminense, contudo, nada tem a ver com o bailado português de mesmo nome. A bibliografia sobre o fado brasileiro aponta, com base em Mario de Andrade (1963), que essa era uma dança de origem afro-brasileira, praticada no Brasil colonial e foi registrada no início do século XIX. (p. 166) Alberto Lamego Filho ao mencionar o fado rural da região que inclui Quissamã, registrou o “trepidante sapateado” e a “melodia chorosa, mas arrastada em compasso precipitado”. Fez menção ainda às festas, músicas e danças dos “casinhotos e senzalas” da região de Campos, afirmando ser a mana-chica a mais popular delas. (1934:86)

Contudo, a denominação fado representava manifestações diferentes em cada lugar: em Parati, nomeava danças de chiba e cateretê rurais; em Itaocara, foi registrado como sinônimo para toada, cantiga, aparecendo no boi malhadinho; em Arraial do Cabo, em Campos, em São João da Barra e em Quissamã, “designa sempre um conjunto de danças encadeadas, o fado-suite, propriamente dito”. (Lamas, 1971:5)

Anna Augusta Rodrigues (1979) registrou, ainda que alguns grupos de folia de reis no Norte Fluminense tinham o costume de prolongar suas visitas “em certos pousos da jornada, executando mineiras e extravagâncias – trechos de fado -, que podem mesmo ser dançadas, se todos estiverem animados.” (p. 166-167) As relações entre do fado e a folia de reis em Quissamã são estreitas, pois a abertura do fado nesse local deve começar por uma cantiga de reis, “seguida da louvação ao dono da casa e sua família. Folia de Reis e fado, portanto, são manifestações habitualmente conjugadas na região.” (p. 167) Mas, nesse momento, da cantiga de reis e da mineira de louvação na porta da casa, não há dança. (p. 171)

Sendo o fado cantado, dançado e tocado em forma de suíte, “palmeados e sapateados como elementos coreográficos de função especial na marcação rítmica, o acompanhamento instrumental, onde predominam violas e pandeiros, e o canto a duas vozes. (...) Em Quissamã, o fado é dançado com freqüência nos salões de festa ou nas casas dos arruados das fazendas e bairros rurais, e mais esporadicamente, na cidade.”

O fado não tem data fixa para acontecer de acordo com algum calendário festivo, sendo realizado quase que semanalmente nas noites de sábado (começa as 22 hs se vai pela madrugada). “Quem promove o fado encarrega-se de contratar um violeiro – único músico remunerado – e de colocar um ou mais ônibus circulando pelas localidades de Quissamã para recolher os convidados, informados com antecedência da data da festa. Os custos do fado são cobertos pela renda de um bar armado à porta do salão da festa, onde se vendem comidas e bebidas.” (p. 170)

A formação dos dançarinos é composta por dois pares: dama frente à dama e cavalheiro frente a cavalheiro, formando uma cruz, evoluem basicamente nesta posição. (p.167) “Os músicos – cantadores, pandeiristas e violeiros – são todos homens (embora haja notícias de mulheres que cantam fado). As palmas e os sapateados são figurações da coreografia masculina; enquanto os homens empenham-se no palmeado sonoro, com as mãos o mais abertas possível, depois da batida dos pés, as mulheres giram sobre si mesmas ou balançam-se cadenciadamente sem sair do lugar. Não são usados tamancos nem sapatos especiais e a sonoridade do sapateado depende muito do tipo de assoalho em que se dança.” (p. 171)

Mas diferente de outros bailes, o fado é considerado “da parte de Deus” (segundo os informantes, a prova é que a formação dos dançarinos é em cruz), podendo por isso ser realizado também durante a Quaresma. Seu Antonio Mourinho, cantador local de fado disse: “...antigamente, aqui no nosso lugar, no tempo dos velhos, mais antigo, Semana Santa, ninguém dançava baile, mas o fado todo mundo dançava. O fado é da parte de Deus. Então, Deus, quando chegou aqui na terra. Ele veio de pandeiro e viola [os instrumentos musicais do fado]. É a parte que Deus gosta, que para isto ela é em cruz. Entra a Quaresma, então aqui não tem baile. Ninguém faz baile na Quaresma, porque diz que dançar, era negócio de pé redondo, que ninguém sabe explicar...Agora, o fado pode continuar na Quaresma. Sexta-feira Santa, pode continuar a fazer o fado. Porque o faço é da parte de Deus.” (p. 167)

Assim conclui a autora do texto: “Nesta breve apresentação do fado de Quissamã, onde foram descritos apenas alguns aspectos mais salientes das formas musical e poética, constatam-se de imediato a riqueza formal e a complexidade das normas implícitas e explícitas que presidem a festa. Toda a parte coreográfica, em si mesma, mereceria uma descrição detalhada. A festa do fado, mais que um entretenimento, propicia aos indivíduos um lugar onde são possíveis múltiplas formas de expressão simultâneas. Não é um baile ou show onde se consomem música e poesia prontas, com menor participação criativa. E talvez aí esteja uma das razões que fazem do fado um dos divertimentos populares mais apreciados em Quissamã.” (p. 175)



Região descrita: Quissamã

Período da descrição: década de 1980

Partitura e Letras

Informantes: Seu Antonio Mourinho; Dona Guilhermina


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