Inocêncio oliveira



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Encontro31.07.2016
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O SR. INOCÊNCIO OLIVEIRA (PR/PE pronuncia o seguinte discurso) – Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados: Caruaru, famosa pela sua feira diversificada, onde se encontra tudo o que se quer; berço de artistas de todos os gêneros, chamada a Capital do Forró, pois ali se dança forró o ano inteiro, além de se realizar a melhor festa de São João do mundo; este ano, por ser especial, reunirá compositores, cantores, violeiros, coquistas, artesãos, bacamarteiros, dançarinos, enfim os artistas e suas respectivas manifestações culturais para num só momento render homenagem ao centenário daquele que, usando as mãos e o barro, idealizou um universo de pequenos bonecos e o fez ganhar a imensidade, tornando Caruaru também conhecida na arte da cerâmica. Somente assim, o mestre poderia, naquele massapê tão bem aproveitado, escrever sua poesia e ali deixar esculpida a história do cotidiano do seu povo.

Vitalino Pereira dos Santos, assim foi batizado o Mestre Vitalino de Caruaru, o poeta que fez do barro a sua forma de comunicação com o mundo intelectual. A arte fora transmitida involuntariamente por sua mãe, uma louceira, que artesanalmente fabricava utensílios de barro de uso doméstico para vender na feira, com o fim de melhorar seu limitado orçamento familiar. Não tendo com quem deixar o pequeno Vitalino, ela o levava às olarias onde trabalhava e desta forma o ceramista popular entrou em contato com aquilo que seria, futuramente, seu pão e sua arte.

Aos poucos, aqueles retalhos de barro que sobravam das peças acabadas feitas por sua mãe iam tomando forma nas pequeninas mãos daquela criança. Ao mesmo tempo em que o manuseio, a intimidade e o conhecimento do massapê, encontrado nas margens do Rio Ipojuca, empiricamente, proporcionava-lhe desenvoltura, transferia o exterior visto por ele para o interior do barro e ensinava-lhe como temperar e tratar adequadamente o material para que suas figuras não rachassem ao sair do forno. Inicialmente, eram feitos boizinhos, jumentos, bonecos, pratinhos, coisas que, não só serviam ao divertimento da criança, mas também, aliviavam a louceira dos exclusivos cuidados maternos, dando-lhe mais fôlego para se dedicar ao fabrico das peças que era sua fonte auxiliar de renda. Entretanto, aquelas figurinhas que eram simples brinquedos de criança, um dia, depois de levadas ao forno, foram à feira e tiveram aceitação. Esse fato bastou para que Vitalino dedicasse sua vida a confecção dos famosos bonecos e se tornasse, mais tarde, mundialmente, conhecido na arte da cerâmica figureira.

Aos 20 anos, lá pelos idos de 1930, o mestre inseriu os primeiros grupos humanos, constituídos, principalmente, de soldados e cangaceiros, que, naquele período, ditavam a história de um povo nos sertões nordestinos. “Lampião e Maria Bonita” estão presentes em várias de suas peças e em peças de dezenas de seguidores que deixou. “Mulher com um tibungo de barro na cabeça” e “retirantes”, numa representação típica do êxodo rural devido à seca que assola o sertão, são bastante comuns na obra do afamado artista. “Casa de farinha”, “sanfoneiro e zabumbeiro”, “batizado”, “casamento”, “padre”, “vaquejada”, “pastoril”, “banda de pífanos” , “vaqueiros ordenhando vaca” representam, de forma oposta, a fartura, que se expressa nas festas tradicionais, as quais brilham mais com o advento do inverno, sinônimo de riqueza aos olhos dos sertanejos. No fundo, suas peças retratavam as tristezas e as alegrias, senão dele próprio, mas daqueles que Vitalino procurava reproduzir no seu mundo ingênuo, porém artístico.

Depois desta fase, em que sua obra artística, já famosa, revelava – pode-se dizer –, exclusivamente, o comportamento de um povo rural, muitos intelectuais tentavam inspirar o mestre por meio de outras sugestões mais inovadoras, desviando os olhares do artista para um mundo mais urbanizado, incentivando-o a criar figuras urbanas atuando profissionalmente. Foi aí que surgiram os “médicos fazendo parto”, “dentistas extraindo dentes” e outros bonecos, cujas encomendas tinham mais o objetivo de agradar os compradores do que mesmo de alimentar sua alma artística, pois afinal precisava transformar sua arte, também, em pão.

Naquela época, suas peças eram simplesmente carimbadas, o que facilitava a falsificação. Somente a partir de 1950, apesar de analfabeto, Vitalino aprendeu a autenticá-las com seu nome. Graças a isso, suas peças, que ganharam notoriedade no ambiente intelectual, não puderam ser mais, grosseiramente, confundidas. Agora, além de impresso seu estilo de brasilidade, aquelas peças tinham a autenticidade do mestre naquela assinatura rústica, mas inconfundível aos olhos sagazes dos colecionadores.

Hoje, suas figuras têm chegado aos mais longínquos centros culturais do mundo, estando espalhadas em coleções particulares, nos gabinetes de estudiosos do folclore e, ainda, podendo ser contempladas no Museu do Louvre, em Paris, juntamente, com a nata cultural artística mundial reunida naquele centro de preservação.

Vitalino Pereira dos Santos nasceu do dia 10 de julho de 1909 e faleceu do dia 20 de janeiro de 1963, aos 53 anos de idade. Deixou escola, seguidores e continuadores de sua obra. A Severino e Amaro, seus filhos, passou o bastão de sua arte, cujo legado continua a escrever a história do povo nordestino no livro do barro.

Minhas sinceras homenagens ao centenário desse mestre, exemplo de humildade, que tanto glorifica e engrandece nosso Estado.

Meus parabéns a Caruaru - cidade da qual, com muita honra, sou cidadão - pela qualidade dos artistas que tem gerado num ventre tão privilegiado.


ISSO É PERNAMBUCO, IMORTAL!
Obrigado a todos!
Sala das Sessões, 19 de março de 2009.

Deputado INOCÊNCIO OLIVEIRA



Segundo-Secretário
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integras -> SR. carlos de souza
integras -> SR. giacobo (bloco pl/ pr) pronuncia o seguinte discurso Sr. Presidente, Sras e Srs. Deputados
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