Inês Pedrosa a instrução dos Amantes



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Inês Pedrosa

A Instrução dos Amantes

à memória do avô Domingos e para os meus amigos.
"...O meu jardim continha um só farrapo de sol limpo

desdobrado sobre o verde do relvado como

nos piqueniques se lançam as toalhas.

O meu jardim tinha aquelas árvores todas. Pelo suor das tardes

ásperas mãos de jogos indolentes, eu subia.

Do terceiro ou quarto ramo horizontal eu abarcava a rua. Tudo

era assim e tinha só trezentos metros.

Quão longe esta baía está do céu, mau grado o vento."


Jorge Colombo, Poemas

1
Se Cláudia fosse uma rapariga dada aos delírios românticos

próprios da sua idade, teria escolhido um outro cenário para

princípio de paixão. Mas Cláudia trazia os ânimos

desprevenidos, e deu lhe para entontecer por Dinis no funeral

de Mariana.

Tratava se, aliás, de uma bela cerimónia. O pai da morta

explicou que a pequena se tinha desequilibrado da varanda, e o

padre lá fez de conta que o Senhor escreve direito por linhas

tortas. Assim, a pobre alma passou oficialmente ao convívio

dos anjos com um visto de vertigem involuntária.

Os suicídios são excelentes estimulantes da solidariedade

humana. Viva, Mariana não despertara maior entusiasmo que o

das chalaças de circunstância. Nunca ninguém cuidou de

averiguar quem ela era, porque ela trazia sobre o corpo o

único antídoto de curiosidade eficaz numa mulher de dezasseis

anos: a gordura. Mariana era realmente tão gorda que podia

permitir se passear pelas ruas do bairro às três da madrugada

sem despertar o dente certeiro das porteiras ou o álcool

fogoso dos rapazes. Nunca :, ninguém disse mal dela, como

normalmente ali se dizia das pessoas a quem se queria bem.

Agora, pela primeira vez, Mariana tinha a importância da

culpa. Mas nem aquela gloriosa culpa parecia pertencer lhe por

inteiro; os vizinhos culpavam o pai, a família culpava a morte

precoce da mãe, os velhos culpavam os novos. Só os novos,

liderados pelo namorado de Cláudia, faziam a devida vénia à

defunta: "Ela matou se porque quis", disseram. Ela tinha

ousado enfrentar a morte, e isso lhes bastava. Era por isso

que estavam todos ali, aperaltadíssimos. Os rapazes puseram

gravata e pentearam os cabelos. As meninas prenderam com

ganchos as franjas enormes e rezaram convictamente as oraçÕes

esquecidas. Até Luísa e Laura, as gémeas escandalosas,

apareceram de saia pelos joelhos, com olheiras de martírio.

Como os grandes santos e os grandes criminosos, eles preferiam

as vaidades profundas às verdades aparentes.

Teresa, a lírica, viria a escrever um poema intitulado

"Lágrimas por Mariana", combinando a chuva daquele enterro com

os gritos da senhora do 34 que vinha do café e descobriu o

corpo desfeito no cimento. Mas o grupo havia de ler o poema em

voz alta e no meio de grande galhofa, para que Teresa

percebesse que aqueles floreados piedosos eram de um despudor

indigno.
Eles não tinham senão a sabedoria pura dos afectos brutos.

Surripiavam os espelhos dos elevadores só pelo prazer de os

esmigalhar pelas escadas, de se observarem multiplicados

neles, e de esperar que algum estranho acabasse por se ferir.

Estragar os adereços do mundo trabalhador e roubar lhe

pequenas utilidades, como carros e dinheiro, era cumprir uma

missão de rigor e limpeza. Nunca eram descobertos e toda a

gente sabia que eram eles. Esta impunidade provava lhes que

eram temidos, e que o mundo adulto era feito do palavroso

convívio com o medo. Ouviam sermÕes imensos, pasmavam de ver a

quantidade de palavras que os velhos eram capazes de arranjar

para embrulhar os caminhos que não tinham tido coragem de

seguir. Era só por isso que odiavam as escolas e faziam

questão de prescindir das palavras. Para proteger essa pureza

radical a que se tem chamado, consoante os tempos e as

conveniências, loucura ou lucidez.

A tragédia de Mariana foi corriqueira e morna como todas as

grandes tragédias: amaram na tanto que se esqueceram de

reparar nela. A mãe morrera lhe ao primeiro ano de vida. O

único facto que com ela partilhara, para além do parto, foi a

febre tifóide que pouco depois a mataria. As mães têm

normalmente uma vantagem sobre os pais: precisam menos dos

filhos do que do exercício do amor que os filhos lhes

proporcionam. Dedicam se às crianças como os marinheiros

antigos se dedicavam ao mar: com susto, surpresa e doidice.

Privada de mãe, Mariana foi condenada a ser, desde a infância,

adolescente. Uma estátua parada no tempo para proteger do

envelhecimento o pai, os avós, a família. Alimentaram na e

protegeram na (do frio, do calor, das correrias, do mundo)

como se ela não fosse mais do que uma boneca de porcelana ou

um monstruoso bibelot. Mariana foi demasiado mimada para

poder suportar o mundo. Sofreu a infância com a terrível

maturidade de um adolescente e decifrou a adolescência com a

impiedosa infantilidade de um adulto. O pai amou a com o amor

absoluto, sufocante, que era a memória do seu próprio desamor.

Encontrou se assim precocemente confrontada com o desajuste

dos espelhos e com a sôfrega cegueira dos olhares.

Mariana soubera escolher o seu destino, despojara se do grosso

véu de invisibilidade, era agora um deles. Estavam todos no

patamar do 45 A quando se ouviu aquele baque seco. Foi ao

princípio de uma tarde de domingo. O frio era tanto que não

havia maneira de arranjar uma casa livre. As famílias estavam

coladas aos aquecedores e à televisão. Para piorar a situação,

a diva do chefe tinha voltado a levar com o cinto do pai, e

estava incapaz de subir para a mota.

Ninguém ousaria propor uma volta sem Cláudia e despertar a

fúria de Ricardo Luz. As iras do chefe eram raras e

definitivas. Ganhara o lugar de comando com um pontapé e dois

murros: a Cravo e Canela estrebuchava debaixo do bruto corpo

do Traficâncias, que tentava violá la ali mesmo, em cima da

mota, à entrada da garagem do 41. Eles estavam no costumeiro

poiso do 45 A, e espreitavam, muito calados, encolhidos

contra a porta. A rapariga desatou a gritar, o Traficâncias

tapou lhe a boca, e Ricardo irritou se:

  Embora. Vamos mostrar lhe quem é que é homem, pessoal.

  Deixa estar, que a miúda já vai descobrir o que é um homem.

  bichanou o Radar, num tremor de excitação.

  E se ela não ficar satisfeita, a malta vai lá depois

dar lhe o resto.   acrescentou o João, com um sorriso meigo,

acendendo um cigarro.

  Cambada de cães cobardes, é o que vocês são. Então vem

mafioso de fora abusar das miúdas da nossa quinta, e vocês

ficam a rir se, borrados de medo, é, seus tarados?

  Oh Luz, tangareasy, pá! O Traficâncias não é para

brincadeiras, sabes bem.   recordava o Linhos, em voz de

falsete.

- Tu nem conheces a miúda. Vamos que ela seja amiga do homem,

hem? - aventava o Filipe, a dar lustro ao capacete da mota.

- Bem. Já vi que convosco não me governo. Até já, galinholas.

Vou ali e já venho.

Nessa noite os rapazes descobriram duas coisas: que a Cravo e

Canela afinal se chamava Cláudia, e que Ricardo Luz passava a

ser o chefe do grupo. Aperceberam se desta mudança de vida no

breve minuto que mediou entre a saída de cena do Traficâncias,

praguejando agarrado à braguilha, e a entrada fulgurante de

Ricardo, com a beleza do bairro ao colo, desfeita em lágrimas.

- Pronto, boneca, já passou. O Lobo Mau não volta mais.

- E se voltar, estamos cá nós para lhe limpar o sebo, beldade.

- avisou o Radar, adejando em redor do casal.

- Xô! Vê se ganhas vergonha na cara, maricôncio. - rosnou

Ricardo, enquanto secava as lágrimas à sua protegida.

- Muito prazer em conhecê la, apesar das circunstâncias

infelizes. Filipe, para as amigas Marlon Brando. Como é que a

menina se chama?

- Chama se Cláudia, e não está para aturar os vossos

desmandos imbecis. Não percebem que a rapariga não está bem,

seus broncos?

- Calma, ó chefe! A gente só quer animar a pequena, com sua

licença. - explicou o João, lançando um dos seus sorrisos de

encantador desprotegido.

- Obrigada pelos cuidados, chefe. - disse Cláudia, com uma

gargalhadinha nervosa.

A partir daquele instante, a liderança de Ricardo Luz

tornou se inquestionável. Não era o mais forte: os músculos

mais evidentes pertenciam a Filipe do Carmo,

autoproclamado Brando das Avenidas. às vezes chamavam lhe o

Apertos, por causa da roupa, que escolhia sempre um número

abaixo, para uma melhor exposição das saliências. O maior

desgosto de Filipe era andar a pé; quando o vinha visitar, o

pai prometia lhe uma mota, mas acabava sempre por trocar de

carro e ficar sem dinheiro.

- O teu pai só pensa nele, Filipe Manuel, vê se te convences

disso. Ele nem os teus estudos paga, filho. Sou eu que me mato

para tu andares a chumbar anos a fio, e tu só pensas no homem,

que Deus Nosso Senhor me valha!

- O homem, o homem. Até parece que não foi ele que me fez.

- O que é que tu estás a insinuar, Filipe Manuel?

- Nada, mãe. Só me espanta que tu, que até és bruxa, não

consigas ganhar a lotaria.

Neste ponto da conversa a mãe de Filipe Manuel atirava se para

o sofá a gemer, ameaçando desmaios transcendentes, e o filho

abraçava a, com pedidos de perdão e juras de eterno amor.

Desde que o marido saíra de casa, a mãe de Filipe

dedicara se à causa espírita e aos espoliados do Ultramar.

Afirmava se eternamente devedora do espírito do bisavô

Anselmo, que lhe aparecera em sonhos, seis meses antes do

reviralho, exortando a a sair de Lourenço Marques, porque os

turras iam ganhar. O bisavô Anselmo só não lhe contara, talvez

por falta de intimidade com a bisneta, que o marido havia de

mandar vir, com o resto das bagagens, uma mulata vinte anos

mais nova do que ela, e grávida dele. Filipe nunca quis

conhecer a meia irmã e ficava com os cabelos em pé só de ouvir

falar em esquerdas ou liberdades. Almoçava com o pai no

primeiro e no último sábado de cada mês, se tudo corresse bem.

A maior parte das vezes, não corria: os negócios estavam

difíceis, o trabalho no Partido era muito, o país mudava

devagar.


- Compreendes, não é, meu filho?

Filipe fazia voz grossa e dizia que sim. Pensava que com o

tempo se habituaria à indisponibilidade do pai, mas não

conseguia, e o ódio às liberdades crescia lhe na proporção

directa da saudade. Um senhor. Filipe insistia:

- à uma em ponto, pai. Não te atrases, por favor.

Mas ele atrasava se sempre. Uma e meia, desastre completo: os

outros já estavam todos a almoçar, não o viam chegar no

Mercedes prateado. Se ele ao menos lhe desse a mota. Filipe

estava farto de andar com o capacete debaixo do braço. Dizia

que era para as boleias, mas ninguém acreditava. Até no

comboio para o liceu, usava o capacete em vez de livros:

- Gastam me o músculo, que foi feito para outras matérias.

Mas precisava de grandes audiências e muita companhia para dar

aplicação aos famosos bíceps. Quando o provocavam a solo,

fazia que não ouvia, e estugava o seu passo largo de forcado

imaginário. Contava mil e cem vezes a pega que fizera a um

touro bravio, numa festa ribatejana. Esquecia se

invariavelmente de contar que o touro em questão era uma vaca

escura, e sentada.

Ricardo Luz era pouco dado a narrativas, e menos ainda a

relatórios de feitos. Escondia o tronco rijo em camisas

largas. Tinha uma vulgaríssima Honda 50. A Kawasaki 750 era do

João de Brito, que dormia numa cama de dossel. Os outros

escarneciam lhe a casa barroca e o dinheiro da família.

- Não tens vergonha de ser novo rico, ó Jonas?

- Novo rico, com um pai que podia ser avô dele?

- E, calhando, é mesmo!

João batia duas vezes as longas pestanas, lançava se em voo

picado sobre os difamadores e restaurava em meia dúzia de

safanÕes a fachada da honra. Depois sacudia a poeira do blusão

e compunha os caracóis acetinados numa olhadela discreta ao

espelho retrovisor. Os setenta e cinco anos do pai não o

incomodavam; a mãe ainda não atingira os quarenta e ofuscava

qualquer garota de vinte. Adoravam se: João e a mãe faziam um

belo par. O velhote, era como se não existisse; falava

sozinho, não se sabia de quê. Só se calava enquanto preenchia

cheques, e a família fazia por multiplicar estes agradáveis

momentos de silêncio.

- Então, o que é que se faz hoje?

Era Radar, o anão, a pôr a voz nos bicos dos pés. Nutria uma

paixão funda por Cláudia, a partir daquele primeiro :,

instante, já lá iam dois anos. No entanto, estaria disposto a

alimentar paixÕes igualmente fundas por qualquer outra

rapariga, desde que fosse um bocadinho correspondido. E desde

que a garota tivesse pelo menos treze anos.

Infelizmente, a única apaixonada que recenseara festejara há

pouco o décimo aniversário, usava aparelho nos dentes e era

sua prima direita.

- Então, pessoal? O que é que se faz? - repetia o mal amado.

Ainda por cima, as pastilhas elásticas tinham se acabado, e

ninguém se sentia com paciência para ir lá abaixo ao Kuanza

comprar mais. João tirou o último pedaço da boca e ofereceu o,

num gesto magnânimo. Teresa corou e aceitou.

Gostava dele há cinco meses inteirinhos, com uma constância

desesperada.

Lembrava se do momento exacto em que ele lhe tinha feito

aquela festa no queixo. O sol transbordava os contornos do

céu. João estava sentado na mota e as luvas ampliavam lhe a

forma das mãos. A luz reflectia se nos metais da máquina,

fulgia lhe nos olhos verdes, mergulhava o numa ilusão de

celulóide. Ela roubara de casa metade de um pão de ló para

distribuir pelo grupo. Como de costume, toda a gente devorou o

bolo a troçar dela: "Olha a Santa Teresa, protectora dos

famintos", e coisas assim. Teresa ficava triste. Parecia lhe

que o cabelo e os olhos acompanhavam, num progressivo

embaciamento, a invasão daquela tristeza. Pedia a Deus

milagres cada vez mais pequenos e profanos: cinco centímetros

a mais de altura, dez centímetros a menos de largura, um

ondeado, por ligeiro que fosse, no cabelo. Dava prendas para

se tornar famosa no coração dos outros, mas os outros eram

rapidíssimos a desmontar lhe o engenho, numa gargalhada.

Queria alcançar a sublime vulgaridade de Cláudia, que ganhava

sempre. Mas daquela vez, há exactamente cinco meses e seis

dias, o João fizera lhe uma festa no queixo e dissera: "Tão

querida."

E depois tinha ficado de boca aberta à espera que ela pusesse

lá a fatia do bolo. Duas palavras bastaram para disparar nela

esse passatempo terrível. Teresa fazia de qualquer obstáculo

um pretexto para o mistério, uma ponte de glória para a

solidão. Apaixonara se já por quase todos os rapazes do grupo,

um a um e para a eternidade.

Estavam muito encostados uns aos outros, magicando em

alternativas confortáveis ao gelo da tarde, quando se ouviu

aquele ruído seco, e depois o grito da senhora que vinha do

café. Foi no dia seguinte, no funeral de Mariana, que Cláudia

se tornou outra.

Dinis parou junto dela em frente da campa aberta e ela quase

desmaiou. Era um odor de terra húmida e de sal e de chuva e de

rosas queimadas em álcool. Pareceu lhe que era a morte, aquilo

que assim a entontecia. Nem sequer lhe viu o rosto. A morte é

a única testemunha da paixão. Tem ciúmes dos corpos e

queima os devagar. Quando os corpos se entregam ao império dos

seus lumes é a morte que os ilumina. Depois rouba os, como se

perpetrasse um crime perfeito, esquecendo se de que os corpos

deixam traços.

Escusado será dizer que nenhum destes pensamentos turvou, por

um momento que fosse, a cabeça de Cláudia. Mais tarde houve

quem comentasse que lhe faltava naquela época idade e

experiência. A própria Cláudia gosta de repetir que nessa

altura era demasiado jovem e irreflectida, como se a vida nos

concedesse um prémio de serenidade em troca dos nossos

perdidos quinze anos. O que faltou a Cláudia naquele instante

parado no tempo foi o que sempre lhe faltaria: esse elementar

instinto de defesa que disfarçamos sob o nome de razão. Há

seres assim, irremediavelmente unos, incapazes de isolar

partes dentro do seu próprio corpo e de as estruturar como

castelos autónomos e armados.

O comum dos mortais reage à queda de uma das suas

praças fortes redobrando o armamento da outra. Os monumentos

espalhados pelas cidades evocam os que levaram esta técnica

aos limites da perfeição humana. Em menor ou maior grau, quase

todos recebemos no sangue uma capacidade de separação interna

que nos habilita para as obras da sobrevivência. Cláudia não

sabia dessa distinção nem de distinção nenhuma. Deixava correr

os dias e precisava do espelho para se entender como peça

solta. As inquietaçÕes da literatura faziam na rir porque lhe

pareciam artificiais. A beleza e a ausência de imaginação

punham lhe laivos de mulher fatal. Desde que Ricardo Luz a

elegera rainha ela convencera se simplesmente disso mesmo:

"Sou uma mulher fatal". O seu corpo era a tradução perfeita

das linhas ideais. Nos dias em que o pai lhe batia, Cláudia

aparecia com uma fita métrica no bolso, para medir a cintura e

as ancas das outras, por vingança. Teresa invejava a, Isabel

admirava a, e a fusão destes dois sentimentos criara lhe uma

aura que a tornava segura do mundo. Todos os rapazes sonhavam

obviamente com ela. Cláudia via nesse excesso de sonho a prova

física da sua inteira realidade. O cérebro de Cláudia

pensava tanto como os seus braços, o seu estômago ou o seu

coração. Formava uma unidade resplandecente. Nada a podia

proteger da fissura sem centro que a mudou de uma só vez, como

um abalo sísmico.

Nem lhe viu o rosto. Aliás, Dinis não tinha propriamente o

tipo de semblante que se recordasse. Vira o já centenas de

vezes, de passagem, e não saberia dizer de que cor eram os

olhos do irmão de Isabel Marta. Havia fotografias de James

Dean nas paredes do quarto dele, mas Isabel dizia que o Dinis

nascera velho, porque passava a vida a ir à Gulbenkian ver

filmes a preto e branco, muito antigos. Ou então fechava se no

quarto a ouvir música clássica. O grupo via o passar, muito

sério, com uma pasta de cabedal na mão, e só não o hostilizava

abertamente por respeito para com Isabel.

Nessa mesma noite, depois do funeral, Cláudia adormeceu a

tentar lembrar se de um qualquer pormenor visual que a

sossegasse, e não conseguiu mais do que a memória daquele

cheiro pesado e quente. Decidiu que a culpa era do corpo da

morta, da chuva sobre a terra, do cansaço dela, e entrou pelo

sono a sonhar com perfumes num rapaz que tinha a cara do

namorado dela e que a beijava doidamente sobre a relva molhada.

Mas, reparando melhor, ao fundo do sonho havia o cemitério, e

um ser, lá muito ao longe, agarrado a uma enorme pedra tumular

em forma de ursinho de peluche. Não se percebia se aquela

figura parda metida numa capa de plástico era homem ou mulher.

O ser permanecia imóvel e curvo como um fantoche esquecido

sobre o tempo, e olhava.

2
Nessa mesma noite, voltaram a brincar às escondidas por entre

os túmulos, no cemitério. Quando saltavam o muro do território

sagrado já não eram senão um feixe de coraçÕes estereofónicos;

chegavam a temer que os mortos acordassem a rir às gargalhadas

daquela orquestra cardiológica. Faziam se muito heróicos. Os

rapazes içavam as pequenas que ainda cheiravam ao quente da

cama onde se tinham enfiado todas vestidas. Eram exímias em

abrir a porta da rua sem o mínimo ruído. Treinavam se a olear

dobradiças como a pintar os olhos, nas horas desertas das

casas. Faziam ginástica pelos corredores para se tornarem

leves nesse momento em que eles as tomavam nos braços, sobre o muro.

Teresa às vezes sonhava que estava excessivamente pesada e que

o seu par a abandonava do lado de cá, no chão. "Salta,

Comanecci!", ordenava lhe agora o seu príncipe João, e ela

fechou os olhos e voou para o colo dele tonta de alegria, a

acreditar que ele via mesmo nela a aura da estrela romena.

"Salta, Comanecci!", repetiu ele, como numa canção, mas Teresa

olhou para trás e viu o corpo de Cláudia ascendendo,

radioso, às mãos de João. Teresa decidiu então que os rapazes

se repetem para melhor se ocultarem. João recordara se de

Nadia Comanecci em honra dela. A frase transbordara da sua

viril timidez, e ele apressara se a banalizá la para que

ninguém entendesse o que ela queria dizer. E evidentemente, o

que a frase queria dizer era que João amava Teresa.

Cláudia nunca atribuiria àquela frase outro significado que

não o literal. Literalmente, o que a frase dizia era: "Vá lá,

não tenhas medo, sobe!". Eventualmente, em post scriptum,

poderia também querer dizer: "Sou tão engraçado, não sou?".

Mas era só isso. Mesmo que estivesse apaixonada por João,

Cláudia não levaria mais longe aquelas palavras. Mas nunca lhe

passaria pela cabeça apaixonar se por João. Nem sequer se

apaixonara por Ricardo. "Traio te enquanto te atraio", era o

seu lema secreto. Não por uma especial resolução de

infidelidade, mas porque lera nos olhos tristes da mãe que os

homens têm em geral a fatalidade de se prenderem ao desapego.

Cláudia não era capaz de inventar romances e torná los reais.

"Não tenho imaginação", confessava ela, com uma inveja

simpática, quando lia os poemas de Teresa. "Onde é que tu vais

buscar estas coisas?" Depois ria se: "Que grande romântica que

tu me saíste!" O rosto de Teresa iluminava se, e começava a

pensar na grande tragédia amorosa que ia criar para si.

Cláudia era tão bonita e tão prática que estava

definitivamente arredada desse grandioso destino.

O jogo tinha regras precisas: sorteava se a vítima, que

contava até trinta para que os fantasmas corressem a

esconder se atrás das campas. De olhos vendados, a vítima tinha que procurar, agarrar e nomear o fantasma, sem falar com ele.

Todas as partes do corpo serviam para o jogo; e, uma vez

agarrado, o fantasma tinha que ficar quieto a deixar se

identificar. Se a vítima errasse o nome, continuaria a sua

peregrinação de morto vivo até ao reconhecimento. Então, o

fantasma revelado tornar se ia a próxima vítima humana.

Tratava se de um jogo muito simples.




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