Instituto Ethos Debates



Baixar 23.94 Kb.
Encontro18.07.2016
Tamanho23.94 Kb.


Instituto Ethos Debates

Março 2002

Se as questões sociais e de sustentabilidade foram debatidas no Fórum Econômico Mundial (FEM) e no Fórum Social Mundial (FSM), conforme relato dos participantes daqueles encontros,

por que as coisas não mudam?

S


Fotos: Jair A. G. Pedrosa

egundo Oded Grajew, propostas existem, mas falta vontade política para implementá-las. Para Clóvis Rossi, as idéias não conseguem se transformar em programas efetivos de ação política.

Clóvis Rossi, Ricardo Young, Oded Grajew e Luiz F. Furlan Platéia




Essas inquietações, entre outras, emergiram no debate realizado em 28 de março de 2002, no Instituto de Formação Carrefour, em São Paulo, com associados ao Instituto Ethos convidados a participar e refletir sobre as contribuições do FEM, que aconteceu no começo do ano em Nova York, e do FSM, realizado na mesma época em Porto Alegre.
O evento contou com a participação de Ricardo Young, presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos; Oded Grajew, diretor-presidente do Instituto Ethos; Luiz Fernando Furlan, presidente do Conselho Administrativo da Sadia, e Clóvis Rossi, colunista e conselheiro editorial do jornal Folha de S. Paulo. A seguir reproduzimos a síntese desse encontro.

Sustentabilidade e ética. Estes foram os temas mais importantes debatidos no Fórum Social de Porto Alegre, de acordo com Ricardo Young. “Porto Alegre e Davos não se contrapõem”, avalia. “Ao contrário, são espaços e processos em busca de uma agenda em comum.”


Já Oded Grajew acredita que embora haja pontos de intersecção, Davos e Porto Alegre apontam para direções opostas. “Quando o dinheiro e a economia tomam conta das relações humanas, ditando as agendas pessoais, institucionais, empresariais e nacionais, acho que é uma ameaça à humanidade e uma ameaça para cada um de nós”, declarou.
Idealizador do evento, Oded Grajew lembrou como nasceu o Fórum Social. “Eu estava em Paris em 2000 quando acontecia o Fórum de Davos. Sempre me impressionou a cobertura da mídia mostrando que a agenda desse evento parece considerar que o mundo é um imenso mercado e que as pessoas não são nada mais do que meros consumidores. Ficou claro que era necessário criar um outro fórum, onde o econômico estivesse a serviço do social, onde o dinheiro fosse um meio, e não um fim em si mesmo.”
Os resultados falam por si. “Na primeira versão, realizada em 2001, participaram mais de 20 mil pessoas, representando cerca de 110 países. Mais de 1.500 jornalistas do mundo todo cobriram o evento”, contabiliza Oded Grajew. “Nessa segunda versão, recebemos cerca de 60 mil pessoas, representando mais de 134 países e 2.500 jornalistas. Foram dezoito grandes conferências e 15 mil delegados de organizações, movimentos sociais e sindicais”, reforça.
O processo do FSM acabou constituindo um conselho internacional, composto de mais de setenta redes e movimentos no mundo todo. Agora, esse processo está mobilizando organizações, reproduzindo-se em fóruns nacionais e regionais espalhados pela África, pela região amazônica, pela Europa inteira, inclusive a Europa do Leste.
“Se as pessoas tiverem a oportunidade de ver os números, os indicadores sociais, certamente vão ficar alarmadas. Só para citar um exemplo, a diferença entre a renda dos 20% mais ricos e dos 20% mais pobres, que era de trinta vezes em 1960, aumentou para 97 vezes neste começo de milênio. Os indicadores são alarmantes no que diz respeito aos níveis de pobreza e de devastação ambiental. Corremos o risco de ver a espécie humana extinta no período de apenas uma geração. As previsões são pessimistas no que diz respeito à água, terras agriculturáveis, aquecimento global, conflitos, guerras e pobreza em larga escala”, enfatizou o diretor-presidente do Instituto Ethos.
O mero conhecimento dos números, no entanto, não é suficiente, reconhece Oded Grajew. “Quando comecei com a Fundação Abrinq, tudo o que acontece hoje com a criminalidade, violência e marginalização da juventude e da infância já era previsível. Como era previsível que o rio Pinheiros iria morrer, que o Tietê iria morrer, que a mata atlântica seria dizimada. Todos estes foram desastres previsíveis.”

Oded Grajew teme que os desastres previsíveis continuem a ocorrer. “Se tudo continuar no rumo atual, tudo vai acontecer como previsto, ou seja, as coisas vão continuar a piorar. O objetivo do Fórum Social é alertar para os riscos de se prosseguir neste caminho. Propostas não faltam. O que falta é vontade política.”


Ele cita o protocolo de Kyoto, a democratização das organizações internacionais, a taxa Tobin para refrear a especulação financeira internacional, como exemplos de propostas que estão colocadas na mesa. “Falta a vontade de implementá-las”, advertiu.
“Ao invés disso”, continuou Oded, “o que vemos hoje é o presidente Bush sabotando o protocolo de Kyoto, protegendo o aço americano – prejudicando, assim, os países em desenvolvimento. Bush prometeu apenas 5 bilhões de dólares em ajuda para os países pobres e nada menos do que 400 bilhões de dólares para o orçamento militar americano.”
“Quando mudarem as prioridades, mudarão as perspectivas e, conseqüentemente, a sociedade”, concluiu Oded Grajew.

“Ambos os fóruns não se fecharam ao diálogo”, lembrou Ricardo Young, presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos. Segundo ele, o Fórum Social de Porto Alegre “é um espaço de articulação alternativa ao projeto hegemônico neoliberal. Um espaço de enorme diversidade de pensamento, culturas e línguas.”



“Os anos 90 assistiram ao surgimento do terceiro setor como um fenômeno em escala global. Organizações não-governamentais em todo o mundo passaram a articular a sociedade em torno de temas relevantes. Os próprios governos tiveram que reconhecer isso. Enfim, Nova York teve de reconhecer a importância de Porto Alegre”, concluiu.
“O Fórum Econômico de Davos não é uma conspiração dos ricos”, advertiu Clóvis Rossi, jornalista que já cobriu onze versões do evento, que este ano ocorreu pela primeira vez em Nova York, em solidariedade à cidade que mais sofreu com os atentados do ano passado. “A conspiração dos ricos, se existe, acontece em outro lugar.”
O Fórum Econômico de Davos é antes de mais nada um extraordinário local de debates, lembrou Clóvis Rossi. Embora não seja um espaço para a tomada de decisões, suas reuniões paralelas serviram de palco para discussões que resultaram em fatos políticos de extraordinária importância. “O fim do apartheid na África do Sul foi discutido lá, o processo de paz no Oriente Médio, quando aconteceu, também foi assunto em reuniões paralelas nos corredores do evento. São verdadeiros debates sobre o estado do mundo”, sintetizou.
“É verdade que o pensamento hegemônico se reúne em Davos”, admite o jornalista. “Mas isto não é tudo.” Por exemplo, cita Clóvis Rossi, foi em Davos que George Soros disse que capitalismo e comunismo têm o mesmo gene, o do autoritarismo. Foi em Davos que John Sweeney, presidente da AFL-CIO, a poderosa central sindical americana, disse que o modelo americano não é exportável porque é tóxico. A afirmação foi feita em plena era Clinton, no auge do crescimento econômico nos Estados Unidos. Foi em Davos que Jeffrey Sachs, um dos maiores economistas da atualidade, falou em reformar o sistema financeiro internacional. Foi lá também que Jeffrey Sachs lembrou que em um único dia morre mais gente na África do que no atentado às torres gêmeas de Nova York. “O fato de Sachs dizer tal coisa em pleno Waldorf Astoria mostra como estão entrelaçadas as agendas de Davos e Porto Alegre”, alertou.
Luiz Fernando Furlan também é veterano de Davos. “O subtítulo do encontro poderia ser comitê para melhorar o estado do mundo”, afirma. No encontro deste ano, Furlan participou de um grupo de grandes empresas, que concluiu que a piora no campo social restringe negócios e que reduzir a pobreza poderia melhorar o desempenho das grandes corporações.
Outro tema importante discutido em Nova York este ano foi o crescimento da população em escala global. “Deveremos ter um acréscimo de 1,8 bilhão de pessoas na população do planeta nos próximos anos”, lembra Furlan. “A maioria esmagadora deste acréscimo vai ocorrer no Terceiro Mundo. Algo tem de ser feito para que este 1,8 bilhão de pessoas não sejam simplesmente somados à população pobre.”
O

Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social


Rua Francisco Leitão, 469, Conjunto 1407, Pinheiros, CEP 05414-020, São Paulo, SP

Tel./Fax: (11) 3068-8539

Visite o nosso site: www.ethos.org.br

Informações aos associados: atendimento@ethos.org.br



Informações à imprensa: assessoria@ethos.org.br

Publicação distribuída gratuitamente aos seus associados. Reprodução permitida, desde que previamente autorizada, por escrito, pelo Instituto Ethos.

utro ponto: o comércio mundial pode ser um meio poderoso para reduzir a fome e a pobreza. Afinal, o travamento do mercado, o uso abusivo de barreiras e subsídios acaba apenas deslocando a pobreza para o lado de lá da fronteira. Um exemplo é a questão do protecionismo na agricultura americana, lembrou Furlan. “Hoje o preço mínimo pago para o agricultor americano é 20% maior do que o pago para o produtor brasileiro. O americano não corre risco. Mas o aumento da oferta faz cair o preço, o que atinge em cheio brasileiros e argentinos.”
“Os fóruns precisam trabalhar na mesma linha”, concluiu Furlan. “Não dá para construir dois mundos, separados por guaritas, muros e barreiras. Mais dia menos dia o mundo pobre vai invadir o rico.”
Oded Grajew defendeu o papel de importante marco na história da democracia que o FSM representa. “Sempre acreditei que o econômico deve ser colocado a serviço das pessoas, e não o contrário. A pergunta então é: o que deve estar a serviço de quê? É necessário que o mundo saiba que há um contraponto, que as pessoas saibam que há outras propostas.” E finalizou: “O importante é mudar prioridades. Atualmente 30 mil crianças até cinco anos morrem diariamente por razões que seriam facilmente evitáveis, quinhentas delas só no Brasil. O que o FSM busca é mudar a visão, mudar as prioridades”. 



©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal