Instituto filhas de maria auxiliadora



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INSTITUTO FILHAS DE MARIA AUXILIADORA


fundado por São João Bosco

e Santa Maria Domingas Mazzarello

N. 905

O acompanhamento educativo


dos jovens

A aproximação do período litúrgico do Advento e do Natal é uma ocasião particularmente propícia para refletir sobre o acompanhamento na nossa missão educativa.

Desde o início da nossa história carismática, a experiência do acompanhamento se apresenta como modalidade de atuar o Sistema preventivo no espírito de família, que leva a assumir o cuidado umas das outras e a atuar, "insieme" às leigas/leigos e aos mesmos jovens, a missão educativa (cf Atos XXII CG n. 35).
As nossas Constituições deixam claro que tal missão «supõe o dom de “predileção” pelas jovens, e nos empenha a sermos para elas, sinal e mediação da caridade de Cristo Bom Pastor» (Const. 63). Esse dom remete ao próprio mistério de encarnação do Filho de Deus, que veio viver no meio de nós para compartilhar em tudo a condição humana, para revelar a Face de Deus que é Amor.
Em Jesus, foi assumida toda a realidade, a partir daquela mais pobre e frágil. Os jovens se encaixam nessa categoria e são objeto da sua predileção. A encarnação é o grande mistério que nos envolve, e é também o critério fundamental para acompanhar os jovens no seu crescimento em humanidade, na necessidade de vida em abundância.
O XXII Capítulo geral e a sucessiva Programação do sexênio enfocaram o coração do nosso carisma, dando um novo elã à missão educativa, num contexto repleto de desafios e oportunidades.

Sinto no coração o desejo de que toda Filha de Maria Auxiliadora, seja qual for a sua idade, saúde, situação, seja tomada pela paixão do da mihi animas cetera tolle, porque ela é uma dimensão essencial da nossa vocação.




O desafio educativo

Educar as novas gerações foi sempre um desafio; mas hoje tem um destaque especial, por causa das grandes mudanças culturais que interessam a coletividade humana. A globalização, as grandes migrações, o fenômeno multicultural, o acentuado contexto de secularização e o afloramento do protagonismo das religiões, a difusão da tecnologia e as novas buscas de sentido são o contexto que acompanha o desafio educativo.

«Sem educação – escrevia Bento XVI aos Salesianos reunidos no 26 Capítulo geral – não há evangelização duradoura e profunda, não há crescimento e maturação, não acontece a mudança de mentalidade e de cultura [...]. A educação é um dos pontos basilares da questão antropológica».
Numa sociedade permeada de relativismo, onde vem a faltar a luz da verdade, onde até mesmo falar de verdade é considerado autoritário ou perigoso, acaba-se por duvidar da própria bondade da vida (cf Bento XVI, discurso à Diocese de Roma, 13 de junho de 2007).

Quando tudo tem o mesmo valor, nada realmente tem valor, nem mesmo a vida. A crise educativa é crise antropológica, crise de visão, de significados.

A urgência de educar é uma verdadeira emergência que diz respeito à humanidade como tal. De fato, sem um horizonte de sentido, desaparece não só Deus, mas a mesma pessoa humana.
E nos perguntamos: Quem são os jovens de hoje? O que procuram?

Frequentemente são rapazes e moças em busca da própria identidade, desejam fazer muitas experiências, viver uma pluralidade de pertenças, experimentar-se de maneira única e original. Por isso rejeitam a rotina cotidiana. Sentem-se sozinhos e não suportam o peso de uma vida normal. São carentes de pontos significativos de referência e, muitas vezes, sofrem um desenraizamento cultural, religioso e moral. Exaltam a afetividade em prejuízo da razão, da memória, da reflexão. Principalmente, parecem ter perdido a vontade de crescer e de se comprometer em escolhas definitivas (cf Card. Rilko às Capitulares FMA, 25 de setembro de 2008).


Mas os jovens de hoje também sabem ser generosos, solidários, capazes de dedicação. Têm recursos e dinamismo interior, como demonstra sua adesão a propostas ricas de humanidade e de valores evangélicos. Eles procuram um lugar ‘seu’ na sociedade, gostam de se sentir envolvidos nas decisões, no trabalho, nas responsabilidades. Querem ver se Deus existe e o que ele diz à vida deles. Os nossos jovens têm sede de Deus, mesmo se nem sempre sabem formular a pergunta sobre Ele.
É preciso que, entre a geração adulta e os jovens, se faça uma renovada aliança que leve a uma escuta recíproca, a compartilhar caminhos, a andar juntos, em confiança mútua. Da parte dos adultos se requer um acompanhamento discreto e confiável, e a capacidade de apostar nos jovens, até fazer a eles propostas mais exigentes, porque «quem não dá Deus, dá pouco demais» (Mensagem para a Quaresma 2006).

O acompanhamento educativo
As Linhas orientadoras da missão educativa propõem o acompanhamento como estratégia fundamental para acompanhar os processos educativos dos jovens. O processo requer que se parta da situação real de cada pessoa ou grupo, para fazer com que progrida, como Jesus fez nos seus diversos encontros com as pessoas, ajudando cada uma a entrar em contato com a profundidade de si mesma.
É necessário um processo que ajude o jovem a se orientar progressivamente na construção de um projeto de vida sobre bases sólidas e através de um cuidadoso trabalho sobre o núcleo da pessoa – o coração – onde se maturam os valores, as escolhas, as decisões.

As Linhas Orientadoras da missão educativa apresentam alguns passos metodológicos do acompanhamento:


* O conhecimento de si e da própria história. Demorar-se na escuta do próprio coração ajuda o jovem a dar um nome aos próprios sentimentos, a refletir e a se deixar guiar por uma leitura sapiencial da história pessoal e familiar. Não só a história dos desejos, mas a da vivência cotidiana, com suas dificuldades e problemas, suas alegrias e esperanças. O amor com que se vive, resgata da rotina ou da banalidade, dá um sentido às situações de sofrimento que não faltam em nenhuma existência, transforma as feridas em oportunidades de crescimento.
* O caminho de maturação cristã se insere no percurso de maturação humana. O acompanhamento pode ajudar a integrar na vida a escuta e o anúncio da Palavra, a oração e o serviço, a ação e a contemplação, a solidão e a relação, a experiência da luta e a alegria de seguir Jesus. Ele nada tira e dá tudo (cf Bento XVI, Homilia de 24 de abril de 2005).
* O discernimento vocacional. Cuidar desse aspecto - na gama das oportunidades apresentadas pela sociedade - é um verdadeiro presente para os jovens, porque os ajuda a tomar distância de alguns valores socialmente dominantes, mas distantes da lógica do evangelho. São valores radicados numa cultura que exalta o sucesso e avalia as pessoas tendo por base o poder, a fama, o bom êxito. No crescimento do jovem, o discernimento atinge um nível significativo na experiência da relação com Jesus. Ela pode facilitar a superação da indecisão diante de compromissos definitivos, e ajudar a inserir as próprias escolhas dentro de um horizonte de sentido e num projeto concreto, que não exclui a eventual resposta ao dom de uma especial consagração.
O futuro vocacional pode inquietar, porque nunca é totalmente conhecido e possuído, mas ele vem ao encontro dos jovens com uma surpreendente carga de novidade e traz consigo a força da mudança para responder ao dom de Deus.

A possibilidade de aderir ao Movimento Juvenil Salesiano, de fazer experiência de animação a serviço dos mais pequenos, ou no voluntariado social e missionário, abre horizontes insuspeitados que ajudam a redimensionar a própria imagem, permite reler a própria vida à luz do amor preveniente de Deus, desperta para a entrega de si, inclusive na resposta a seguir Jesus com totalidade de doação.


Para as áreas educativas a ter presentes no acompanhamento, remeto às Linhas Orientadoras da missão (cf n 41-57).

Limito-me aqui a destacar alguns aspectos que me parecem particularmente urgentes:


* favorecer nos jovens a experiência de se saberem amados, de modo a alimentar a confiança de base, a assunção dos próprios limites e responsabilidades, o senso de sentir-se em casa, pertencentes a uma comunidade, a uma cultura, ao mondo;
* cuidar da formação da afetividade, num tempo de difuso analfabetismo emotivo;
* educar para reconhecer a vida como uma coisa boa, como um presente que deve ser visto com um tesouro. A indiferença em relação aos valores, às vezes até para com a vida, e a percepção do vazio pode se aninhar também no coração dos nossos jovens. É importante no caminho de acompanhamento devolver o sentido das raízes e da meta que nos espera;
* promover a qualidade das relações nos diversos ambientes de vida. A grande casa comum da família humana, da qual fazemos parte, a cada dia interpela os jovens a se medirem com pessoas e situações novas, diferentes por origem, cultura e religião;
* fazer o anúncio explícito e alegre de Jesus. Para crer, os jovens têm necessidade de contato com a fonte do amor, precisam constatar autenticidade e testemunho por parte de pessoas que vivem a experiência do encontro com Ele como evento de alegria.


Testemunhas confiáveis

A emergência educativa é também uma emergência de testemunho e de proposta. O XXII CG relançou a linha do testemunho, relembrando a importância dos sinais. A paixão educativa que nos foi passada no carisma, tem sua base de lançamento na capacidade de ser sinais confiáveis de esperança e de amor para os jovens porque, antes, nós ousamos empreender caminhos de conversão ao amor.


A crise educativa é crise não só de valores, mas de educadoras/educadores convictos, capazes de apostar nos jovens e, ao mesmo tempo, de crescer com eles e também graças a eles. Hoje há necessidade de bons mestres, capazes de se expor pessoalmente, disponíveis a aceitar os desafios dos jovens, exigentes e sensíveis ao mínimo sinal de incoerência e falsidade. Acompanhar os jovens implica a humildade de se questionar todos os dias, no exigente caminho de conversão pessoal.
Bento XVI recorda que «a testemunha de Cristo não transmite simplesmente informações, mas está pessoalmente envolvida com a verdade e, através da coerência da própria vida, se torna ponto de referência credível. Ela, porém, não remete a si mesma, mas a Alguém infinitamente maior, em quem confiou inteiramente e cuja bondade indiscutível experimentou. (Discurso à Diocese de Roma, 13 de junho de 2007).
Diante da crise da educação, hoje se fala sobre a coragem dos adultos de voltarem do exílio, para se dedicar a um dos maiores serviços à sociedade, à Igreja, à pessoa como tal: o acompanhamento educativo.
É preciso que voltem educadores convictos, que tenham em mira a qualidade da presença entre os jovens. Dom Bosco chamava isso de assistência. A escolha de estar no meio deles tem raízes no amor.

A dificuldade de criar relações de confiança com os jovens e, às vezes, a sensação de se sentir rejeitados por eles, não depende só da dificuldade que os jovens têm de aceitar a presença de pessoas adultas, mas do mal estar profundo de que eles sofrem faz tempo, por não ter mais uma bússola que oriente o caminho.

Há necessidade de educadores ricos de esperança, que ousem acreditar no menor sinal de claridade presente no coração deles: o ‘ponto acessível ao bem’, de que fala Dom Bosco; que sejam capazes de amar de verdade e com transparência, de mostrar confiança, de perceber os sinais positivos e fazer deles a alavanca, como ensina a pedagogia salesiana. Acompanhantes que vivam a alegria de sua vocação específica e, por isso, testemunhem que é belo ser cristãos: «Não há nada mais belo do que ser surpreendidos pelo evangelho, por Cristo» – declarava Bento XVI no início de seu ministério petrino.

A pedagogia do fazer-se amar funda-se nesse testemunho que torna bonita, atraente, a visão cristã da vida, mesmo perante a cruz.

O acompanhamento educativo é obra de toda a comunidade educativa, e se realiza num ambiente rico de valores humanos e evangélicos, permeado pelo espírito de família. O ambiente é, antes de tudo, presença, escuta, partilha corresponsável, clima que inspira confiança, laboratório para relações humanizantes, ricas de fé, de alegria.
«Tanto Dom Bosco quanto Maria Domingas Mazzarello propuseram uma verdadeira pedagogia da felicidade e do amor, testemunhando a alegria de viver uma existência caracterizada pela fé, pelo otimismo e pela esperança, apesar do sofrimento […]. Para quem quer infundir o amor à vida, e a esperança de um futuro melhor, o desafio é se empenhar pessoal e constantemente para crescer em humanidade, autenticidade e serviço aos jovens» (Linhas Orientadoras n. 74-75).
Nossos Fundadores acompanharam os jovens segundo a espiritualidade de São Francisco de Sales, que aponta a via da santidade cotidiana com um estilo inspirado em doçura e otimismo, atenção à pessoa e promoção de suas melhores potencialidades, afeto sincero, franqueza e respeito recíproco. É a via do amor na qual a pessoa é introduzida na existência concreta de cada dia.
O dom da predileção pelos jovens não é uma escolha opcional, mas é a nossa vocação mesma. Ele impele a se dedicar com renovado entusiasmo aos jovens com seus recursos e pobrezas, a partir da pobreza de amor, a promover uma pastoral juvenil missionária e vocacional, contando com ambientes permeados de autêntica cultura vocacional. Ambientes onde os membros da comunidade educativa trabalham em sinergia na formação da inteligência e do coração dos jovens, procurando educar a liberdade deles, para que se oriente na direção do bem, da verdade e da beleza, rumo ao encontro com Jesus, Aquele que dá plenitude de vida e de esperança à sua carência de amor.

Convido todas as comunidades a se interrogar sobre as condições necessárias para que os jovens se sintam realmente acompanhados, e a identificar as prioridades que resultam disso.


Maria Auxiliadora nos foi dada como Mãe e Mestra de acompanhamento dos jovens: entregar-se à sua direção, como fizeram Dom Bosco e Maria Domingas, é aprender um modo de educar-acompanhar que torna capazes de gerar vida e esperança, de abrir para o verdadeiro amor.

Amar e fazer-se amar pelos jovens, a grande aposta dos nossos Fundadores, seja também o nosso desafio.


O tempo de Advento para o qual nos preparamos, encontre-nos empenhadas em assumir os sentimentos de Jesus, que despojou a si mesmo para assumir a condição de servo, manifestando assim o amor infinito do Pai pela humanidade.

Faço votos de Boas Festas natalinas a cada uma de vocês, aos seus familiares, aos grupos da Família Salesiana - de modo especial aos nossos irmãos salesianos - às comunidades educativas e, nelas, aos jovens.



Roma, 24 de novembro de 2009
Af.ma Madre






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