Intelectuais e resistência democrática: vida acadêmica, marxismo e política no Brasil Milton Lahuerta



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Entre a ciência e a política: a “sociedade civil” redentora

De 1974 a 1979 a sociedade brasileira segue um sinuoso trajeto no qual a sociedade civil se afirma enquanto conceito e realidade, definindo seu horizonte de ação, seus limites e possibilidades. Num primeiro momento, no contexto da luta contra as arbitrariedades da ditadura, "sociedade civil" tornou-se sinônimo de tudo aquilo que se contrapunha ao Estado ditatorial, o que foi facilitado pelo fato de "civil" significar também, no Brasil, o contrário de "militar". Dessa operação resultou uma primeira leitura problemática: o par conceitual sociedade civil-Estado, que forma em Gramsci uma unidade na diversidade, foi utilizado para conformar e cristalizar uma contraposição radical e maniqueísta. Nessa leitura, ao contrário do formulado por Gramsci, acabou por se considerar tudo o que provinha da "sociedade civil" positivamente, enquanto que o que dizia respeito ao Estado aparecia marcado a priori por um sinal fortemente negativo. O que nas condições vigentes não chegava a ser surpreendente [26].

Francisco Weffort, em texto escrito entre 1983 e 1984, quando já era o Secretário Geral do Partido dos Trabalhadores, lembraria que a própria truculência dos governos militares havia revelado que o sonho de um Estado intervencionista e igualitário se havia tornado um pesadelo, contribuindo para romper com a crença de que ele seria um instrumento de desenvolvimento da economia e de democratização da sociedade. Com isso, mais como uma realidade que se impunha do que como descoberta intelectual, a “sociedade civil”, embora no estado molecular das relações pessoais, ia sendo gestada como conseqüência do medo criado pelo terrorismo do Estado. Daí a ambigüidade conceitual, já que sua descoberta teria sido muito menos uma questão de teoria do que de necessidade [27].

Nesse aspecto, seria a própria experiência do autoritarismo que teria levado à valorização da democracia e à emergência da temática da sociedade civil e de sua autonomia diante do Estado. Weffort chamava a atenção, inclusive, para o fato de a descoberta da “sociedade civil” ter sido fruto de fundas rupturas nas tradições ideológicas do país. Por isso mesmo não teria sido uma descoberta exclusivamente intelectual, mas decorrência da situação ditatorial que fazia com que se percebesse algo mais para a política além do Estado [28]. O que teria contribuído, por sua vez, para fortalecer as perspectivas e influências teóricas que pudessem contribuir para a construção de uma visão da democracia centrada nos movimentos sociais e em formas de associação autônomas ao Estado. Não é a toa que em meados dos anos 70 cresce o número de estudos que pretendem desvendar a ideologia de Estado, indo além do regime militar e identificando sua presença em toda a história republicana, constituindo uma tradição que impedia o florescimento de formas políticas liberais e democráticas [29].

Há que se lembrar, porém, que em larga medida essa guinada conceitual se faz de modo ambíguo e sustenta-se em argumentos pouco precisos. Num primeiro momento há quase uma profissão de fé quanto ao caráter democrático inato presente na sociedade civil. De certo modo, na valorização da sociedade civil está implícita também uma estratégia legitimadora do deslocamento teórico que esses autores estavam realizando, transitando de um marxismo centrado na análise histórico-estrutural para uma perspectiva que dava destaque crescente à autonomia relativa da dimensão política. O que também seria reforçado pela maior exposição deles às exigências do sistema de ciência e tecnologia que estava sendo montado no país e que contribuiria para a consolidação, entre os cientistas sociais, de uma agenda mais permeada pela dimensão institucional [30]. Diga-se de passagem o que já era a norma nas linhas de pesquisa incentivadas pelas agências internacionais de fomento, como a Ford Foundation [31].

Portanto, num mesmo movimento esses intelectuais procuravam responder tanto às restrições político-práticas impostas pelo contexto ditatorial quanto aos desafios de um processo de institucionalização das atividades intelectuais que vinha se instalando por ação do próprio governo militar e pelas exigências dos mecanismos internacionais de financiamento de ciência e tecnologia. Para esses intelectuais, a legitimidade para a militância advém de sua condição de cientistas, de pesquisadores e de acadêmicos rigorosos; distinguindo-se dos políticos profissionais, colocam-se num plano de representação superior como se fossem detentores de um mandato informal dado pela sociedade civil e garantido pela cientificidade e racionalidade de suas proposições.

A ambigüidade conceitual presente na discussão sobre a sociedade civil traduziu-se muitas vezes na apologia sem critério dos movimentos sociais e na subestimação da complexidade da política e da sociedade real com a qual se estava lidando. Portanto, no processo em que se torna comum a utilização do conceito de sociedade civil, oscila-se entre uma posição estritamente liberal - que recusa-se a enfrentar o problema da construção de uma nova hegemonia e limita-se a constatar o caráter democrático inato à emergência da pluralidade dos interesses - e um basismo de novo tipo que, reivindicando um vínculo com a verdadeira teoria gramsciana, cai numa posição semelhante à dos liberais ao fazer a apologia indiscriminada dos movimentos sociais e ao desconsiderar a política institucional [32]. Tais interpretações discrepantes, contudo, não teriam maiores conseqüências político-práticas durante os anos 70. Afinal, nessa hora tratava-se de somar todas as forças para combater, isolar e derrotar o regime militar, também visto como a personificação extremada de todas as taras do Estado burocrático-autoritário. No entanto, as divergências de avaliação teriam um forte papel na cisão do movimento democrático ao longo dos anos 80.

No final dos anos 70, as diferenças teóricas e conceituais entre os intelectuais originários da velha Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP já haviam adquirido conotação propriamente política. A ampliação dos movimentos sociais, a relação com o MDB, a emergência de um novo movimento operário no ABC, a participação em eleições, e mesmo a capacidade de tomar iniciativas por parte do regime militar - todas essas dimensões foram objeto de considerações muitas vezes contraditórias por parte desses intelectuais. Na escolha entre manter-se vinculado ao MDB ou aderir ao recém criado Partido dos Trabalhadores, quando da reformulação partidária de 1979, estavam diferentes concepções acerca do processo de modernização vivido pelo país.

Na medida em que se aprofunda o processo de transição, tais diferenças de angulação no modo de conceber o processo em curso - ainda que haja em comum a perspectiva de que a conquista da democracia pressupõe um maior protagonismo da sociedade civil - acabam gerando posicionamentos políticos e intelectuais distintos dentro do partido da intelligentsia. As diferentes concepções sobre o Estado, sobre as possibilidades antevistas nos movimentos sociais, sobre a questão das alianças fundamentavam estratégias de ação diferenciadas entre esses intelectuais. Basta notar que enquanto Cardoso centra o foco de sua análise na perspectiva de construção de um sistema partidário capaz de expressar o pluralismo dessa sociedade civil, amenizando a importância do tema das classes sociais e de sua identidade, Weffort radicaliza seu posicionamento quanto ao potencial de ruptura do movimento operário, valorizando os movimentos sociais, especialmente o movimento sindical, como o elemento mais dinâmico dessa sociedade civil emergente. Entre 1983 e 1984, Fernando Henrique Cardoso já consolidou uma posição de forte questionamento dos movimentos sociais - identificando-os com o corporativismo e/ou com o basismo simplista e despolitizado, e revelando, inclusive, muita descrença com relação ao potencial das novas lideranças operárias [33]. Nesse momento, Weffort, como vimos, concentra toda sua ênfase na organização autônoma dos trabalhadores [34]. Esse é o ângulo que lhe interessa na discussão acerca do fortalecimento da sociedade civil [35]; a partir dele participa da fundação do Partido dos Trabalhadores, torna-se seu principal ideólogo e permanece como seu Secretário-Geral durante quinze anos.

Apogeu e crise do “partido da intelligentsia

No entanto, bem antes de as opções se colocarem de modo tão explicitamente político, as fissuras dentro das hostes do “partido da intelligentsia” faziam-se sentir. Já em meados da década, em torno do Cebrap, articulam-se várias abordagens que procuram fazer a crítica das concepções excessivamente centradas na análise estrutural [36]. A vertente hegemônica, contudo, ainda que crítica do autoritarismo estatal, mantém-se nos marcos do horizonte cepalino e segue considerando o Estado necessário ao desenvolvimento nos países periféricos. Em realidade, tais análises recusam o processo de apropriação do Estado por interesses privados e destacam a ausência de mecanismos de controle democrático do Estado. Dentro dessa vertente, a despeito das nuanças que distinguem os argumentos de um conjunto variado de autores, Cardoso é a liderança com maior expressão pública.

Além dessa posição, podemos destacar pelo menos mais duas que terão conseqüências institucionais e/ou políticas importantes: de um lado estarão aqueles que passam a destacar a importância de certos formalismos e a realizar estudos que dão ênfase ao campo institucional (estudos eleitorais, partidos, sistemas partidários, etc.), para a formulação de uma teoria democrática e para pensar a transição. Essa vertente vai se estruturar em torno da figura de Bolivar Lamounier e ganhar maior projeção com a sua saída do Cebrap e com a constituição do Idesp. No essencial, do ponto de vista político, mantém-se sob a liderança de Cardoso e não se propõe a formular uma alternativa prática ao MDB. Insiste, isto sim, quanto à debilidade das instituições do país e afirma a necessidade de compreendê-las para reformá-las. Do outro lado estão aqueles que, de um modo ou de outro, se articulam em torno de Weffort e que participam da constituição do Cedec em busca de uma formulação intelectual com desdobramentos políticos e mais centrada nos movimentos sociais e na identidade dos trabalhadores. A estes, inclusive, dedicamos o próximo item.

Tais diferenças de concepções não têm impacto político imediato e só se tornam realmente explícitas com o processo de reestruturação partidária de 1979. Até esse momento, ao menos aparentemente, a intelectualidade revela-se bastante unida e, objetivamente, acaba canalizando para o MDB o melhor de seu ímpeto participativo. Inclusive, no que se refere aos vários grupos de intelectuais que se aproximam do MDB, na segunda metade dos 70, pode-se considerar que do ponto de vista político eles orbitaram em torno de três referências fortes: do comando nacional de Ulisses Guimarães (o que foi a marca específica tanto do grupo da Unicamp, quanto de vários intelectuais cariocas, como Maria Conceição Tavares e Carlos Lessa, articulados com ele); da influência do Partido Comunista Brasileiro; e da crescente liderança política de Fernando Henrique Cardoso. No processo político concreto essas três referências acabaram se somando e, entre 1974 e 1978, não raras vezes tiveram posições políticas convergentes. Por mais que houvesse entre eles diferenças e até mesmo fortes divergências de opiniões e de posições, além de distintas afinidades na escolha dos aliados e patronos, inequivocamente a liderança de Cardoso avulta em importância e ele, de alguma maneira, personifica a trajetória social de todo um vasto campo identificado com a intelligentsia.

Inclusive, observando-se esse momento do processo de abertura, percebe-se que seu desenvolvimento altera bastante a composição interna do MDB, inclusive forçando-o a uma maior competição política. De oposição consentida, o MDB, quanto mais avança a transição nos anos setenta, mais atrativos oferece para a opinião pública descontente. A volta dos exilados e a anistia jogam papel importante na recomposição da vida política e proporcionam que o MDB absorva novos quadros e militantes experientes. Fernando Henrique Cardoso é uma das lideranças que mais se beneficia com isso, pois passa a contar com uma base de apoio cada vez mais sólida para as disputas eleitorais. Desde as primeiras conversas que mantivera com Ulisses Guimarães no Cebrap, Cardoso mantivera-se articulado com um grupo político composto a partir de um circuito de relações pessoais e intelectuais. Desse grupo, vão participar nacionalistas, como José Gregori e Fernando Gasparian; ex-democratas cristãos reformistas, como Plínio de Arruda Sampaio; o ex-Ministro do Trabalho de Jango, Almino Affonso; lideranças e militantes de grupos de origem católica, como Hélio Bicudo, Dalmo Dallari; juristas, como Flávio Bierrenbach, Darcy Passos; economistas, como Eduardo Matarazzo Suplicy e Antonio Angarita; quadros e ex-militantes da Ação Popular (AP), como José Serra, Sérgio Motta e Clóvis Carvalho; até membros da esquerda acadêmica, da qual Francisco Weffort é representante expressivo.

Inicialmente, mantendo com o MDB uma relação circunstancial, os membros desse grupo não acreditavam que o partido tivesse de fato potencial para representar uma verdadeira oposição, aguerrida e programática; nem o viam muito menos como um projeto viável para o futuro. Mesmo quando, a partir das eleições de 1976, vários desses militantes ingressam no MDB, isso se consubstancia através de um movimento que objetivava de fato a constituição de um Partido Socialista ou um partido popular [37]. De fato, até as eleições de 1978, Fernando Henrique Cardoso não havia consolidado plenamente sua liderança desse grupo, já aparecendo como um intelectual destacado num círculo de notáveis, mas sem uma expressão política mais significativa. De certo modo, ele acaba sendo beneficiado pela sorte, ao ser escolhido por esse grupo de militantes intelectuais para que disputasse, por uma sublegenda do MDB, uma vaga ao Senado. A escolha de Cardoso se daria tendo em conta duas motivações: seu prestígio como intelectual e o fato de já manter uma relação política com o partido. A disputa para o Senado Federal visava fortalecer a dinâmica do grupo que pretendia lançar candidaturas com maior conteúdo para a eleição de deputados [38].

Definida no âmbito desse núcleo político intelectual, foi preciso fazer política no partido para que se conseguisse o apoio necessário para se lançar uma candidatura que, internamente ao MDB, faria concorrência à de Franco Montoro. Como não se tinha a pretensão nem a perspectiva de derrotar Montoro, a campanha eleitoral de Cardoso concentrou-se na Universidade, no meio cultural e na militância mais à esquerda do espectro oposicionista, inclusive com bastante ênfase ao setor sindical. A candidatura inovava, inclusive, por escolher como suplente de Cardoso o sindicalista Maurício Soares, o que lhe garantiria o apoio do novo sindicalismo do ABC, onde Lula despontava como a grande liderança. Não é arbitrária, portanto, a imagem de José Gregori de que a candidatura de Cardoso funcionou como um “toque de reunir” de diferentes militantes e setores, até então afastados da vida política, entre eles intelectuais, estudantes, artistas, jornalistas, jovens empresários, sindicalistas [39]. O importante é que a nova articulação, ao fazer de Cardoso seu representante máximo, trazia para a ação política a sociedade civil - a Universidade, a SBPC, boa parte da Igreja de São Paulo, a imprensa, artistas, etc. - e abria a esses setores perspectivas de uma atuação política diferenciada. Além disso, a campanha significaria a ampliação do espaço de militância no MDB, até então ocupado quase exclusivamente pelos comunistas, não só para setores emergentes com a modernização autoritária, mas também para setores da esquerda que estavam afastados da vida política pelas circunstâncias ditatoriais. Numa palavra, para além de seu resultado eleitoral, a campanha de Cardoso ao Senado em 1978 abriu para vários setores a possibilidade efetiva de pensar (ou de voltar a pensar) em política.

A perspectiva do “novo sujeito”

Na outra ponta do espectro oposicionista, não à toa estão os intelectuais que fundariam o PT, em 1979. Inclusive, entre eles encontram-se aqueles que, ao longo dos anos 70, mais colocaram obstáculos em estabelecer vínculos sólidos com o MDB e que anos antes haviam se afastado do Cebrap para constituir um outro centro de pesquisas: o Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (Cedec). No episódio revelara-se a existência de ênfases distintas na consideração do processo político: enquanto o grupo hegemônico no Cebrap (Fernando Henrique Cardoso, à frente) dava maior atenção à compreensão do regime, ao Estado autoritário-burocrático e à problemática da distribuição de renda; o grupo que se agregaria em torno do Cedec, centraria fogo na questão dos movimentos sociais e no desenvolvimento de uma hegemonia de base popular. É de 1976 o afastamento de Francisco Corrêa Weffort do Cebrap para fundar o Cedec. Suas posições sobre o sindicalismo e sua desconfiança com relação à política institucional levaram-no a fomentar, no âmbito das próprias discussões e do jogo de interesses que se articulavam no Cebrap, uma posição que se pretendia mais radical e tinha a perspectiva de constituir um novo ator político com base nos movimentos sociais e no sindicalismo autônomo da tutela do Estado. Mesmo que teórica e institucionalmente esses intelectuais estivessem procurando um caminho que lhes possibilitasse fazer uma “outra” política, até o processo de fundação do PT, a despeito das diferenças de formulação e divergências, o grupo permanece sob a liderança política de Cardoso e participa ativamente em sua campanha para o Senado em 1978.

Na gênese do Cedec - coerente com as formulações de seu principal inspirador, Francisco Weffort - estava presente a perspectiva de construir um instrumento partidário autônomo, tanto diante da frente democrática expressa no MDB quanto da tradição do movimento operário ligada ao PCB. Sua constituição significa um passo decisivo na transformação desse grupo de intelectuais acadêmicos em militantes político-partidários. Articulando, sob o comando de Francisco Weffort, setores da tradição uspiana que se colocavam à esquerda e mantinham-se fiéis ao referencial marxista, o Centro teria um forte papel na elaboração de uma interpretação do país que considerava possível não só a derrota da ditadura, mas também um sólido avanço na democratização substantiva da sociedade brasileira.

A ênfase inicial do grupo vai concentrar-se num discurso anti-institucional difuso, revelando uma grande desconfiança para com a transição política encarada como farsa politicista, denunciando as instituições políticas autoritárias que se liberalizavam de modo progressivo e impediam a participação. Daí que o ideal de uma democratização substantiva - acalentado pelos intelectuais do Cebrap, particularmente por Cardoso - acabou por propiciar para o bloco liderado por Weffort a perspectiva de uma sociedade civil mobilizada, autonôma e em oposição ao Estado. Perspectiva que ganhou grande projeção entre os intelectuais dessa vertente e teve longa vida na cultura política do PT. A defesa da “participação” aqui não era uma mera concessão ao basismo, mas resultado de uma elaboração crítica que havia sido formulada e estimulada pelo debate acadêmico [40].

Francisco Weffort tem um importante papel na aglutinação dessa vertente mais radicalizada da Maria Antonia quando se afasta do Cebrap e junto com um conjunto de intelectuais mais jovens constituí o Cedec. Em princípio, as razões de seu afastamento do Cebrap foram atribuídas ao suposto economicismo da instituição, mas não é exagerado considerar que elas tinham motivações mais diretamente políticas. Enquanto o Cebrap, deliberadamente, mantinha-se distante da política ideológica, procurando articular um conjunto de posições intelectuais com diferentes visões da política, o núcleo que constitui o Cedec tem explicitamente a pretensão (por influência das idéias de Gramsci) de funcionar como uma espécie de estado maior de uma nova agremiação, de um partido socialista e popular. O Cedec torna-se um centro de aglutinação de intelectuais voltado para os estudos políticos e a crítica das ideologias.

Em torno do Centro não se procura apenas interpretar o país, mas também desenvolver uma análise da situação da esquerda - tanto no plano nacional quanto internacional - e fazer a avaliação da conjuntura e das possibilidades de ação para as forças que lutavam contra o regime militar. Tudo isso se desdobrava na idéia de um partido socialista que os eventos do movimento sindical do ABC, entre 1978 e 1979, trataram de desideologizar, concretizando-o na forma de um partido de trabalhadores. Essa é, portanto, uma circunstância singular em que ocorre o encontro entre uma intelectualidade portadora de uma interpretação do Brasil que pretende romper com as tradições consideradas nacionais populistas e um movimento que, em sua recusa ao velho sindicalismo, está apto a realizar tal ruptura como programa. E, ainda que esse encontro não tenha se dado de forma tranqüila, novamente, Weffort, junto com Mário Pedrosa e Lélia Abramo, entre outros, teve papel de destaque na sua realização [40].

Entre os intelectuais acadêmicos que ajudaram a dar forma à ideologia petista, além de Francisco Weffort e Florestan Fernandes - este se constitui num caso a parte, já que nos anos setenta se mantém numa espécie de auto-exílio -, vale destaque para Francisco de Oliveira, José Álvaro Moisés e Marilena Chauí. As leituras da realidade desses autores, ainda que tenham várias nuanças, no essencial estabelecem uma relação entre o intervencionismo estatal, o autoritarismo e o elitismo. Nesse sentido, recusam não apenas o regime militar e o Estado autoritário que o sustenta, mas questionam também toda a história política posterior a 1930, por sua subordinação à lógica estatista e pela manipulação da política populista.

A essa altura, a cultura uspiana havia consolidado a crítica à cultura política do período anterior ao golpe militar de 1964 [42]. Por essa época, seus intelectuais produzem um conjunto de trabalhos nos quais questionam fortemente a tradição que pensava o processo social tendo na questão nacional-popular um tópico essencial. Neles trata-se pelo contrário de denunciar o caráter ideológico dessa operação, reafirmando a centralidade das classes sociais e de seus conflitos como algo inerente à sociedade burguesa. De modo que qualquer projeto ou objetivo que coloque um horizonte nacional e exija uma ampla aliança de classes será recusado por portar intrinsecamente um potencial de manipulação. Basta lembrar a crítica de Chauí ao afirmar:

Quando o “do povo” ruma para o “popular”, o adjetivo tende a deslizar para um outro que encobre efetivamente a contradição e a luta: o adjetivo “nacional”, cuja peculiaridade sobejamente conhecida, consiste em deslocar a luta interna para um ponto externo à sociedade e que permita a esta última ver-se imaginariamente unificada [43].

Esse tipo de crítica, a despeito da sofisticação conceitual a que se propõe, cai na armadilha de um certo esquematismo classista, pois toda a riqueza nacional, imposta pela objetivação particular do capitalismo, é diluída - como se fosse uma falsa questão - na postulação abstrata da contradição entre as classes fundamentais da sociedade capitalista. É a partir daí que a mera consideração do problema nacional, em qualquer de seus aspectos, pode ser confundida com nacionalismo e descartada como expressão de autoritarismo, de paternalismo e de populismo [44].

Tal vertente crítica pretendia atingir menos o regime militar do que uma tradição que procurara em nome de um suposto “atraso” exercer a tutela sobre a classe trabalhadora. Daí a verdadeira apologia da desconfiança com relação às instituições políticas; uma desconfiança que era nova por não gerar a apatia, mas por pretender criar espaços políticos novos e valorizar a intervenção pontual. Tal desconfiança sustenta-se na idéia de que os movimentos sociais são fontes populares de informação e de aprendizado político, e que como tais se ampliam e se redefinem pela ação prática que realizam. Nas posições defendidas por Francisco Weffort, desde os anos sessenta, sobre o sindicalismo, está a gênese dessa posição, constituindo uma linhagem de estudos realizados a partir do ângulo do espontaneísmo da classe operária e do suposto de que toda experiência operária e sindical identificada com o populismo tinha que ser deixada de lado para se constituir uma nova tradição.

O tema da criação de um “novo sujeito” que representasse os subalternos e fosse expressivo de uma classe operária autônoma e imune às tradições majoritárias entre a esquerda e o sindicalismo foi forte na cultura intelectual de São Paulo e esteve na concepção que deu vida ao PT. Nesse aspecto, os trabalhos de Weffort sobre “o sindicalismo populista” são seminais, constituindo-se como espécie de suma teórica e justificativa antecipada da necessidade histórica desse novo sujeito, radical porque expressivo de uma sociedade crescentemente ocidentalizada e cada vez mais imune às suas origens patrimoniais e à promiscuidade da tutela do Estado paternalista [45]. As posições de Weffort, além terem adquirido enorme importância teórica no meio intelectual, atingiram o público mais amplo formado pela cidadania ilustrada, pelo movimento estudantil e pelo novo sindicalismo.

A necessidade de um “novo sujeito” - idealizado puro, sem máculas corporativistas excessivas, destituído de ranços pelegos e distante do paternalismo estatal - aparentemente decorre da dinâmica dos fatos e não da consciência dos atores. Mas não é possível compreendê-lo adequadamente sem relacioná-lo com a interpretação uspiana sobre o Brasil: do ponto de vista de seus desdobramentos políticos, esse era um dos temas síntese da elaboração que a “escola paulista de sociologia” vinha desenvolvendo acerca do Brasil, pelo menos desde os anos cinqüenta. Por isso, é o elo que articula boa parte da produção uspiana sobre a política e o movimento sindical, definindo uma visão da história que tem nos trabalhadores o cerne de suas preocupações, que se apresenta em oposição radical à tradição varguista e pretende estar num lugar à esquerda, tanto em relação à interpretação cepalina quanto à do Partido Comunista, ao se colocar diante dos fatos.

A conseqüência dessa radicalizacão conceitual é a valorização dos movimentos sociais vistos como a verdadeira expressão das aspirações populares por uma cidadania plena, corporificada na ampliação da participação política e na extensão dos direitos sociais [46]. O que é reforçado pelas reflexões que apresentam uma abordagem inovadora dos movimentos sociais, relacionando-os com o debate sobre cultura popular e fazendo uma crítica radical ao discurso competente. Contrariamente a toda uma linhagem intelectual que atribuía aos subalternos a condição de “atrasado” e “inconsciente”, insistia-se com a perspectiva de que os movimentos coletivos criavam saberes e lideranças autônomas. Desenvolveu-se assim uma visão sobre os intelectuais que se opunha frontalmente tanto ao tecnocratismo do regime militar quanto ao modelo de vanguarda iluminada (marxista-leninista) [47].

O importante é que essa visão reforçou o anti-estatismo e ajudou a ampliar a sensibilidade para as manifestações de autonomia da sociedade civil em boa parte dessa produção intelectual. A sociedade civil seria identificada não com o domínio dos interesses privados estritos do mundo do mercado, mas com os movimentos sociais que, ao afirmar a autonomia diante do Estado, traziam implícita uma nova forma de se articular com a política. Explicitamente crítica do realismo e sem a preocupação maquiavélica com a disputa por postos de poder colocada de imediato, essa concepção chamava a atenção para as dimensões ético-simbólicas e enfatizava bastante o tema da identidade da classe trabalhadora. Por isso esses intelectuais puderam colocar-se como “representantes” de uma causa e de um movimento novíssimo, mantendo-se como publicistas e não precisando por um bom tempo ter que disputar diretamente o poder dentro das máquinas partidárias. Afinal, a sua condição de filósofos e de cientistas sociais de profissão, reforçada pelo prestígio intelectual adquirido na oposição à ditadura, lhes garante por um bom tempo o direito de interferir, senão diretamente na linha política desse campo, ao menos na elaboração das interpretações que lhe dariam sustentação.

Tais posições eram resultado também do estado de espírito que se difundira como resultado da luta oposicionista, travada não só no plano político, mas também no da cultura. Disseminado em parte expressiva do MDB, nos movimentos organizados, no sindicalismo mais combativo e nas difusas faixas de militância pulverizadas em várias atividades culturais, aos poucos, esse estado de espírito vai se tornando um atributo exclusivo do PT, mantendo-se inclusive como combustível para a fala de seus intelectuais, destilando um caldo de cultura crítico ao sindicalismo oficial, avesso à herança nacionalista, ao populismo, ao varguismo e à política frentista para realizar a transição à democracia. A lógica é a da identidade que surge para recomeçar a história e constituir um “novo ator político”.


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