Intelectuais e resistência democrática: vida acadêmica, marxismo e política no Brasil Milton Lahuerta



Baixar 120.25 Kb.
Página3/4
Encontro19.07.2016
Tamanho120.25 Kb.
1   2   3   4

Conclusão: o fim do “partido da intelligentstia

À medida em que a transição democrática avança, a possibilidade de os intelectuais continuarem a viver uma problemática de intelligentsia vai sendo questionada por processos típicos da modernização capitalista: a diferenciação das camadas cultas, inclusive com perda de prestígio de suas elites tradicionais; a ruptura da lógica política unitária face ao imperativo corporativo; o aumento da competição e da profissionalização da atividade política e, por fim, a crise das referências políticas que possibilitavam a definição de uma identidade comum aos intelectuais. A emergência do interesse seria a conseqüência maior do processo de democratização e dificultaria a compreensão positiva da distância entre a autoconstituição social e a esfera política [48]. A "revolução dos interesses" contribuiria, inclusive, para que a "profissionalização" ganhasse importância no universo intelectual durante os 80 [49].

Abdicar de algumas das veleidades da cultura heróica - como o seu romantismo - foi uma das conseqüências da profissionalização. Ao que tudo indica, algo da dimensão pública que se esperava da intervenção dos intelectuais também fora deixado de lado. Isso, porém, não significou que os intelectuais deixassem de fazer política. Política institucional, acadêmica, burocrática, envolvendo postos e verbas, sem nenhuma veleidade revolucionarista e sem nenhum ideal de redenção social, em muitos casos distante dos partidos, só que nem por isso menos política. No entanto, a politização da intelectualidade não se restringiu a essa dimensão corporativa; envolveu também a grande política e teve a pretensão de não apenas "reformular a imagem do país" (como anunciavam os jovens professores assistentes do Seminário de O Capital, no fim dos anos 50), mas de recriar suas tradições, enterrando a "era Vargas" e, não é arbitrário dizer, inaugurando uma nova. Ainda que para cada um deles a princípio essa ruptura tivesse um significado diferente.

No entanto, bem antes de chegarmos a um governo que declararia explicitamente sua intenção de enterrar a “era Vargas” para dar vida a modalidades de convivência social e formas de organização da economia distintas daquelas que presidiram nossa história nos últimos sessenta anos [50], foi preciso, como vimos, estabelecer uma elaboração teórica consistente que pudesse legitimar tal pretensão. Por trás da qual está não apenas a perspectiva de personificar um ponto de inflexão real e o início de um novo regime, mas principalmente a certeza de que se conta com uma interpretação do Brasil mais sólida, coerente, rigorosa do que aquela que dera sustentação à prática política nacional-populista. Tal pretensão tem sua raiz no grupo que se articula, primeiramente, em torno de Florestan Fernandes, depois se desdobra em parte no grupo do Cebrap e no engajamento dos anos setenta; e, por fim, na atuação propriamente política dos anos 80.

Ainda que realizando-se de formas políticas distintas, nessa trajetória há um eixo norteador que pode ser encarado como um “projeto” que quer remodelar e retificar a trajetória do país, aprofundando a ocidentalização de sua sociedade e aproximando-a de experiências e padrões típicos daqueles vigentes em países considerados mais desenvolvidos. É como se, após décadas de prevalência do Estado sobre a sociedade e da razão política sobre os interesses privados, se pudesse, enfim, considerar que um ethos efetivamente identificado com os interesses modernos emergira no país como alternativa civilizatória a seus dilemas. Os ecos dessa posição estão presentes tanto em Cardoso - expressão radicalizada de um hiper realismo político de fundo racionalista, com sua pretensão iluminista de comandar uma “revolução” dentro da ordem e de articular a melhor forma de adaptação às mudanças - quanto em Francisco Weffort - síntese exacerbada de todas as críticas da “escola de sociologia da USP” à cultura política nacional desenvolvimentista e ao populismo, procurando fundar cientificamente a legitimidade de um novo ator, de corte classista e sem vínculos com a tradição nacionalista e populista.

De tal modo que, ainda que possamos vislumbrar resultados totalmente distintos do ponto de vista da política que cada um faz e dos objetivos a que se propõem, há uma mesma fundamentação e uma mesma exigência de ruptura com a tradição nacionalista e populista. Ou seja, nas opções que se colocaram a eles já no final dos anos setenta estava implícita essa perspectiva, ainda que com desdobramentos políticos diferentes. Em Cardoso, com a proposição de se constituir um “partido ônibus” e com a recusa do ângulo classista, aderindo ao realismo e qualificando-se como o condutor da “revolução passiva” [51]. Em Weffort, com a aposta na criação de um “partido de classe”, com a ênfase na identidade desse novo ator coletivo expressivo dos movimentos sociais e centrado no tema da ruptura com a tutela do sindicalismo. Inclusive, se observamos as duas trajetórias articuladamente, uma ganha enorme significado em relação à outra, como se estivessem, a despeito das inúmeras diferenças entre suas opções, sempre dialogando dentro de um mesmo campo. Um campo que tem como chão comum a recusa da “era Vargas” e a pretensão de refundar a história do país.

_______________

Milton Lahuerta é cientista político, professor de Teoria Política na Unesp - Campus de Araraquara.
_______________

Notas

[1] MORIN, E. Para sair do século XX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986, p. 232.

[2] Sobre essas “transformações” ver ALMEIDA, M. H. T.; WEIS, L. Carro-zero e pau-de-arara: o cotidiano da oposição de classe média ao regime militar, e MELLO, J. M. C.; NOVAIS, F. Capitalismo tardio e sociabilidade moderna. In: SCHWARCZ, L. M. (Org.). História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. São Paulo: Cia. das Letras, 1998. v. 4. p. 319-409 e p. 559-658.

[3] Entre elas talvez a mais importante tenha sido a do jornal Opinião, principal veículo da oposição, que circulou entre 1972 e 1976 e tornou-se modelo de inúmeras experiências de imprensa posteriores. Se por um lado o Opinião se constituiu como o espaço por excelência para a afirmação da vocação pública da intelectualidade, não há como negar que em suas páginas começou a se fazer também a crítica à cultura nacionalista. Nessa experiência, nos anos mais duros do regime militar, começava a se constituir, para além das diferenças ideológicas, uma espécie de "partido” difuso, comprometido com a democratização e com forte tendência oposicionista. Inclusive, a articulação entre o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), o jornal Opinião, o MDB e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) é um aspecto importante para se compreender tanto a emergência desse “partido” quanto o inédito protagonismo político assumido pelos intelectuais durante os anos setenta. Para uma visão mais geral sobre o processo vivenciado pela cultura brasileira, ver RIDENTI, M. Em busca do povo brasileiro. Rio de Janeiro: Record, 2000. Para uma avaliação crítica sobre o jornal Opinião, ver ALMEIDA, M. H. T. Tomando partido, formando opinião: cientistas sociais, imprensa e política. São Paulo: Sumaré, 1992. Sobre a SBPC, ver FERNANDES, A. M. A construção da ciência no Brasil e a SBPC. Brasília: Ed. da UnB: Anpocs: CNPq, 1990.

[4] SCHWARZ, R. O pai de família e outros estudos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

[5] A expressão é de Paulo ARANTES, referindo-se à situação alemã do século XIX. Sobre esse assunto consultar ARANTES, P. Ressentimento da Dialética: dialética e experiência intelectual em Hegel: antigos estudos sobre o ABC da miséria alemã. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996 (especialmente, o capítulo intitulado O partido da Inteligência, p. 405-13). Por outro lado, tanto Daniel PÉCAUT quanto Alain TOURAINE utilizam a expressão partido intelectual para caracterizar a situação a que estou me referindo. Ver sobre isso PÉCAUT, D. Os intelectuais e a política no Brasil. São Paulo: Ática, 1990 e TOURAINE, A. Palavra e sangue: política e sociedade na América Latina. São Paulo: Trajetória Cultural; Campinas: Ed. da Unicamp, 1989. Creio que, no contexto em questão, rigorosamente, as várias designações significam a mesma coisa. De minha parte, passo a utilizar-me da expressão “partido da intelligentsia” para referir-me ao tema.

[6] Sobre esse assunto consultar ARANTES, P. E. Experiência da dialética na experiência intelectual brasileira: dialética e dualidade segundo Antonio Candido e Roberto Schwarz. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996, e PÉCAUT, 1990, passim. Na leitura de PÉCAUT, a dissolução dos atores sociais e da questão da política é inerente ao hiperfuncionalismo marxista que predomina no Brasil em inícios dos anos 70. A tese dos entraves estruturais, a falta de perspectivas políticas e a maré internacional levavam o conjunto da intelectualidade a viver numa espécie de cultura da recusa, ou da ressaca. Entre a adesão ao capitalismo e a condição de marginalidade, mantinham-se numa postura genérica de oposição, definindo-se como opositores do Estado. O não reconhecimento da esfera política reforça-se também pela prevalência do monolitismo althusseriano entre a maioria da intelectualidade acadêmica, de esquerda ou não, com a generalização do esquematismo da "ideologia dominante", dos aparelhos ideológicos de Estado, da "prática teórica", etc.

[7] Do grupo inicial faziam parte: Bóris Fausto, Cândido Procópio Ferreira de Camargo, Carlos Estevam Martins, Elsa Berquó, Fernando Henrique Cardoso, Francisco Correia Weffort, Francisco de Oliveira, José Arthur Giannotti, José Reginaldo Prandi, Juarez Brandão Lopes, Leôncio Martins Rodrigues, Octávio Ianni, Paul Singer, Ruth Cardoso e Roberto Schwarz. Posteriormente, se integrariam à instituição Vilmar Faria, Bolivar Lamounier, Vinícius Caldeira Brant, Maria Hermínia Tavares de Almeida, Luiz Werneck Vianna, Régis de Castro Andrade, Frederico Mazzucchelli, José Serra, entre outros. É interessante ressaltar que os principais promotores da iniciativa haviam participado alguns anos antes de um outro empreendimento que se tornaria uma referência para a cultura acadêmica de todo o país. Refiro-me ao grupo de estudos de O Capital, organizado por jovens professores assistentes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Ver sobre o assunto CARDOSO, F. H. Fernando Henrique Cardoso: entrevistas a Lourenço Dantas Mota. Brasília: Senado Federal, 1985; GIANNOTTI, J. A. Cebrap: vinte anos depois. Novos Estudos Cebrap, São Paulo, n. 25, p.3-7, 1989; NOBRE, M. A filosofia na USP sob a ditadura militar. Novos Estudos Cebrap, São Paulo, n. 53, p. 137-50, mar. 1999; SORJ, B. A construção intelectual do Brasil: da resistência à ditadura ao governo FHC. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

[8] Sobre isso ver LAHUERTA, M. Intelectuais e transição: entre a política e a profissão. 1999. Tese (Doutorado em Ciência Política) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo; SCHWARZ, R. Um seminário de Marx. Novos Estudos Cebrap, São Paulo, n. 50, p.99-114, 1998; GIANNOTTI, J. A. Recepções de Marx. Novos Estudos Cebrap, São Paulo, n. 50, p.115-24, 1998.

[9] Nessa linha, talvez o trabalho de maior destaque, realizado sob encomenda para a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, na pior fase da ditadura militar, tenha sido a pesquisa publicada na obra São Paulo, 1975: crescimento e pobreza, publicada em 1976 e, posteriormente, ampliada em São Paulo: o povo em movimento, publicado em 1980.

[10] ALMEIDA, M. H. T. de. Tomando partido, formando opinião: cientistas sociais, imprensa e política. São Paulo: Sumaré, 1992, p.29.

[11] No centro dessa abordagem estão os trabalhos de Fernando Henrique Cardoso, escritos entre 1969 e 1974. Neles, CARDOSO apontava para o caráter contraditório do regime que desencadeava transformações econômicas aceleradas, fazendo emergir uma sociedade moderna e diversificada, ao mesmo tempo em que pretendia mantê-la sob controle ditatorial. Sobre esse assunto consultar CARDOSO, F.H. O modelo político brasileiro e outros ensaios. São Paulo: Difel, 1973; CARDOSO, F.H. Autoritarismo e democratização. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975.

[12] Se os intelectuais de oposição colocam-se como uma espécie de “estado-maior” do “partido da intelligentsia”, sem dúvida, o movimento estudantil se constitui como sua “guarda avançada”. Ressalte-se que a participação dos intelectuais na luta democrática daria um novo impulso ao movimento estudantil. Esse impulso pode ser observado com a restruturação do Diretório Central de Estudantes (DCE) da USP, entre 1976 e 1977, e, logo depois, com a reorganização da União Nacional dos Estudantes (UNE), através da qual a voz do setor estudantil universitário se reacenderia como expressiva força política de mobilização e de oposição ao regime militar.

[13] Há que se lembrar também, que a produção teórica do Centro foi beneficiada pelas experiências e contactos internacionais de alguns de seus membros. A internacionalização do grupo se iniciara bem antes, quando, em 1963, Francisco Weffort, indicado por Fernando Henrique Cardoso, vai trabalhar na Cepal; caminho que seria trilhado pelo próprio Cardoso no ano seguinte. Na Cepal, Cardoso, com a consagração da teoria da dependência, consolida o processo de internacionalização, que a experiência do Cebrap potencializaria ainda mais. Por isso, a instituição acabou significando, para os intelectuais da USP e de outros centros de reflexão em filosofia e ciências sociais, a possibilidade de assumirem, de forma legítima frente à cultura de esquerda que os permeava, uma condição internacionalizada, com suas atividades crescentemente financiadas por organismos de fomento à pesquisa..(Ver sobre isso ARRUDA, M. A. N. A sociologia no Brasil: Florestan Fernandes e a “escola paulista de sociologia”. In: MICELI, S. (Org.). História das Ciências Sociais no Brasil. São Paulo: Sumaré; Fapesp, 1995. v. 2, p. 107-231. Sob tais parâmetros teóricos e institucionais, questões como o colonialismo, a soberania nacional, o imperialismo perdem força e ganha estímulo a reflexão feita tendo por referência uma sociologia das classes sociais, centrada no desvendamento do caráter do Estado, preocupada com a especificidade do regime e com as possibilidades da democratização no país. A expansão, inclusive quantitativa, das ciências sociais, se faz sob o predomínio da busca da objetividade científica, deslocando temas e ângulos de análise, e com a pretensão de superar as leituras do país centradas na questão nacional.

[14] Não trato neste trabalho, a não ser de maneira lateral, nem de Florestan Fernandes nem de Octávio Ianni. Tal lacuna, a despeito da importância que os dois têm no cenário intelectual do país, justifica-se porque durante os anos setenta, ambos, ainda que de maneiras distintas, vivenciam um processo de radicalização ético-ideológica que os afasta da atividade política propriamente dita.

[15] Carlos Estevam MARTINS e Maria Hermínia Tavares de ALMEIDA criticam as posições de Weffort, gerando uma polêmica de grande importância, aparentemente travada no plano da discussão teórico-metodológica, mas, de forma implícita, fazendo uma espécie de balanço da atuação da esquerda a partir de dois pontos de vista diferentes. Ver sobre o debate: WEFFORT, F. C. Origens do sindicalismo populista no Brasil: a conjuntura do pós-guerra. Estudos Cebrap, São Paulo, n. 4, 1973; ALMEIDA, M. H. T; MARTINS, C. E. Modus in rebus: partidos e classes na queda do Estado Novo. São Paulo: Cebrap, [1973]. Mimeografado; WEFFORT, F. C. Dejémonos de farsas inutiles. São Paulo: Cebrap, [1974]. Mimeografado. VIANNA diria que o mérito maior da polêmica teria sido o de trazer à tona um conjunto de problemas (estatuto científico do conceito de conjuntura, estratégia e tática dos atores representativos da classe operária, condições da redemocratização de 1945, etc.), questionando os próprios termos da discussão, através de um marco teórico mais compreensivo e complexo (sobre isso ver VIANNA, L. W. Estudos sobre sindicalismo e movimento operário: resenha de algumas tendências. In: VIANNA, L.W. Travessia: da abertura à constituinte. Rio de Janeiro: Livraria Taurus Editora,1986, p.146-76). No entanto, cremos que o mérito maior dessa polêmica está em seu resultado implícito. Efetivamente, WEFFORT foi vitorioso na discussão, gerando toda uma linhagem de estudos que vão reiterar o suposto de que a esquerda que atuava no movimento sindical permanecera a reboque do Estado e do nacionalismo, abdicando de sua autonomia e de suas reivindicações econômicas.

[16] Com a mesma orientação, outros estudos insistiram em contrapor a um movimento operário espontâneo uma orientação burocratizada, que castrava suas iniciativas. Esse é o caso, por exemplo, do estudo de José Álvaro MOISÉS sobre o sindicalismo nos anos 50. Sobre esse assunto consultar MOISÉS, J. A. A greve dos 300 mil e as comissões de empresa. São Paulo: Cedec, 1977. Mimeografado.

[17] Desde os primeiros contatos, quando os intelectuais do Cebrap foram procurados pelos deputados Ulisses Guimarães e João Pacheco Chaves, para ajudar na elaboração do programa do MDB, no início de 1974, o argumento mobilizado para justificar a colaboração fora a necessidade de fortalecimento da sociedade civil. No limite, é como se o MDB, ao buscar os intelectuais, pudesse ser identificado como o partido da sociedade civil, passando a contar com uma “justificação”, com uma “teoria” que poderia lhe proporcionar, inclusive, o eixo de que ele necessitava para estabelecer um nexo mais sólido com as massas urbanas emergentes. O resultado das eleições legislativas de novembro de 1974 mostraria o acerto da estratégia de buscar aproximação com setores da sociedade que não militavam na política partidária. Demonstraria também que havia o que fazer e que o regime não era invencível. Mas acima de tudo, revelaria que algo de novo se movia na sociedade, procurando uma maneira de demonstrar seu protesto, deslocando os votos em branco e nulos das eleições anteriores para o MDB.

[18] A bibliografia especializada tem procurado qualificar o processo de transição que ocorre no país durante os anos 70 como algo distinto do chamado projeto de abertura. Sobre esse assunto consultar, entre outros, LAMOUNIER, B. O discurso e o processo: da distensão às opções do regime brasileiro. In: RATTNER, H. (Org.). Brasil 1990: caminhos alternativos do desenvolvimento. São Paulo: Brasiliense, 1980. SALLUM JR, B. Labirintos: dos generais à Nova República. São Paulo: Hucitec, 1997; VIANNA, L. W. Notas sobre a conjuntura brasileira. Temas de Ciências Humanas, São Paulo, n. 8, 1980.

[19] Em relação ao tema, alguns autores têm procurado destacar a existência de um processo de transformação da base da sociedade, quase imperceptível, molecular, passivo, que revoluciona sua morfologia e altera radicalmente sua estrutura. Um dado chama a atenção de imediato: a transformação da sociedade brasileira de majoritariamente agrária, no imediato pré-64, para majoritariamente urbana, em 1980. Tal tendência, entretanto, pode ser melhor apreciada se observarmos que as chamadas ocupações técnicocientíficas e burocráticas, de 1960 a 1980, duplicaram sua participação na população economicamente ativa, passando de 11,1% para 19,1%. Em números reais, passou-se de 2,5 milhões de pessoas em 1960 para 8,2 milhões em 1980. Tais mudanças aumentaram fortemente a demanda por qualificação educacional, levando o governo a implementar uma política cada vez mais agressiva de massificação do ensino universitário. Num primeiro momento, com a criação de universidades federais; posteriormente, com a concessão de facilidades para a constituição de universidades privadas e com a implementação de um sistema nacional de avaliação e fomento à ciência e à tecnologia. Basta atentar para o fato de que, em 1960, o número de matrículas na graduação é de cerca de 100.338; já em 1980, as matrículas estarão por volta de 1.377.286. Em 1960, 18.652 concluíam o curso superior; em 1970, 64.049; em 1980, 227.997 . Durante os anos de 1970, o número de cursos de pós-graduação quase se multiplica por dez, passando de 93 no nível de mestrado e 32 de doutorado, em 1969, para 717 de mestrado e 257 de doutorado, em 1979. Sobre esse assunto consultar BOSCHI, R. R. Entre a cruz e a caldeira: classes médias e política na terra da transição. In: LARANGEIRA, S. (Org.). Classes e movimentos sociais na América Latina. São Paulo: Hucitec, 1990. p. 158-75.

[20] CARDOSO, F. H. Gladiadores de marionetes. Opinião, São Paulo, n. 11, p. 4, 15 a 22 jan. 1973.

[21] SALLUM JR., op. cit.

[22] VIANNA, L. W. A transição: da Constituinte à sucessão presidencial. Rio de Janeiro: Revan, 1989. p. 87-103.

[23] LECHNER, N. Los patios interiores de la democracia: subjetividad y politica. 2. ed. Chile: Fondo de Cultura Economica, 1990. p. 42.

[24] Entre 1974 e 1975, vários de seus intelectuais são chamados a depor, a instituição permanece sob forte vigilância e Francisco de Oliveira e Vinícius Caldeira Brant, além de terem sido presos, também são torturados. Ver sobre isso SORJ, op. cit., p. 61.

[25] VIANNA, L. W. et al. Cientistas sociais e vida pública: o estudante de graduação em Ciências Sociais. Revista Dados, Iuperj, Rio de Janeiro, v. 37, n. 3, p. 383, 1994.

[26] COUTINHO, C.N. Prefácio. In: Semeraro, Giovanni. Gramsci e a sociedade civil. Cultura e educação para a democracia . Petrópolis, Ed. Vozes, 1990.

[27] Ver: WEFFORT, F. C. Por que democracia? In: STEPAN, A. Democratizando o Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. p. 513-516. No entanto, em contradição com o espírito de suas afirmações, o próprio WEFFORT reconheceria, no final do texto, que: “Nós queríamos uma sociedade civil, precisávamos dela para nos defender do Estado monstruoso à nossa frente. Isso significa que, se não existisse, precisaríamos inventá-la. Se fosse pequena, precisaríamos engrandecê-la. Não havia lugar para excessos de ceticismo nesta questão, pois só serviriam para tornar os fracos ainda mais fracos. É evidente que quando falo aqui de “invenção” ou de “engrandecimento” não tomo estas palavras no sentido da propaganda artificiosa. Tomo-as como sinais de valores presentes na ação política, e que lhe conferiam sentido exatamente porque a ação pretendia torná-los uma realidade. Numa palavra, nós precisávamos construir a sociedade civil porque queríamos liberdade” (WEFFORT, F.C., op. cit, p. 518).

[28] Ib., p. 515.

[29] Expressivo dessa postura é o trabalho de LAMOUNIER, B. Formação de um pensamento político autoritário na Primeira República. In: FAUSTO, B. (Org.). História geral da civilização brasileira: sociedades e instituições (1889-1930) . São Paulo: Difel, 1977. t. 3, v. 2: O Brasil Republicano. p. 343-74.

[30] VIANNA, L.W., A institucionalização das ciências sociais e a reforma social: do pensamento social à agenda americana de pesquisa. In: ______ A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil. Rio de Janeiro: IUPERJ/Revan, 1997, p.173-222.

[31] Sobre esse assunto consultar MICELI, S. (Coord.). A Fundação Ford no Brasil. São Paulo: Sumaré: Fapesp, 1993.

[32] Ambas as interpretações, ainda que inspiradas em Gramsci, perdiam de vista justamente os nexos ético-políticos que em sua interpretação articulam a sociedade civil e o Estado. Com efeito, na visão de Gramsci, a "sociedade civil" é uma arena privilegiada da luta de classe, uma esfera do ser social onde ocorre uma intensa luta pela hegemonia; e, precisamente por isso, ela não é o "outro" do Estado, mas - juntamente com a "sociedade política" - um dos seus inelimináveis momentos constitutivos. Para Gramsci, portanto, nem tudo o que faz parte da sociedade civil é naturalmente "virtuoso" (ela pode, por exemplo, ser hegemonizada pela direita) e nem tudo o que provém do Estado é necessariamente um "mal” (afinal, ele pode expressar demandas universalistas que se originam nas lutas das classes subalternas). Somente a concreta análise histórica da correlação de forças presente em cada momento pode definir, do ângulo das classes subalternas, a função e as potencialidades positivas ou negativas tanto da sociedade civil como do Estado. Portanto, Gramsci constrói uma originalíssima noção de "sociedade civil", o que lhe possibilita articular uma nova teoria política marxista ao juntar dialeticamente a luta pela hegemonia intelectual e moral e a conquista do poder político por parte das classes subalternas. Ou seja, em sua interpretação não há espaço para uma concepção apolítica e liberal da "sociedade civil". No entanto, no contexto de meados dos 70, o que prevaleceu foi justamente um conceito de sociedade civil que se estabelece como uma espécie de contraponto ao Estado autoritário. E foi este modo de pensar que acabou prevalecendo entre a “opinião pública”. Sobre isso consultar: GRAMSCI, A. Quaderni del carcere. Ed. V. Gerratana. Torino: Einaudi, 1975.

1   2   3   4


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal