Intercâmbio cultural, ensino de história e identidade latino-americana: um estudo comparado entre brasil e argentina maria Silvia Cristofoli Palavras-chave: ensino de História; identidade latino-americana; currículo; representações



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INTERCÂMBIO CULTURAL, ENSINO DE HISTÓRIA E IDENTIDADE LATINO-AMERICANA: UM ESTUDO COMPARADO ENTRE BRASIL E ARGENTINA

Maria Silvia Cristofoli

Palavras-chave: ensino de História; identidade latino-americana; currículo; representações.

O foco desta pesquisa situa-se na interface dos conhecimentos histórico-antropológico-educacional numa perspectiva cultural, tendo como objeto o ensino de história e a constituição de uma possível identidade latino-americana, a partir da análise sobre o intercâmbio cultural entre o Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, e a escola Superior de Comércio Manuel Belgrano da UNC – Argentina.

Este estudo de caso baseou-se na análise de documentos oficiais do Mercosul Educacional, material impresso resultante dos Seminários Regionais sobre ensino de História e Geografia no Mercosul, Relatórios de Pesquisa e em entrevistas semi-estruturadas com professores de História das duas escolas, tendo como suporte teórico os referenciais de representação social, cultura, currículo, identidade e integração, na perspectiva de Chartier, Geertz e Forquin.

Quanto à integração cultural e o ensino de História no contexto do Mercosul, a pesquisa aponta que no campo educacional, as discussões e propostas de integração iniciaram somente a partir das últimas décadas do século XX.

Em 1991 ministros de Educação da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai assinam um Protocolo de Intenções que identificam áreas prioritárias para desenvolver ações relacionadas ao processo de integração regional. Em 1992, as áreas prioritárias do Protocolo tornam-se a base para o Plano Trienal para o Setor Educação do Mercosul. Esse Plano foi prorrogado por três anos e nesse espaço de tempo iniciou-se o trabalho de adequação dos currículos do ensino Fundamental e Médio. Posteriormente, com a assinatura do documento Mercosul Educacional 2000 foi mantida e reafirmada a relevância da educação como um fator de integração.

A relação entre escola, cultura, currículo e o ensino de História da América Latina teve início em 1989 a partir da experiência de intercâmbio entre o Colégio de Aplicação e a escola Manuel Belgrano, resultando, posteriormente na assinatura de um Acordo Internacional de Cooperação entre as duas instituições, caracteriza-se como atividade de Ensino, Pesquisa e Extensão.

De 1993 até 2001 foram realizadas inúmeras atividades envolvendo o conjunto das escolas, sendo que de 1999 a 2001, muitas dessas atividades direcionaram-se mais para pesquisa, oficinas, discussões temáticas e trocas de documentações.

Dentre as atividades de pesquisa, foi realizado por pesquisadoras brasileiras um levantamento dos conteúdos de História da América Latina no CA (1985–1990) que indica um predomínio da concepção tradicional de História tendo o quadripartismo como linha norteadora, sem um olhar sobre as sociedades americanas. Os temas de América apareciam para fazer ligação entre conteúdos da história da Europa. No período 1991–1995, a concepção de história pautou-se nos modos de produção e a perspectiva de análise em relação a América continua sendo a matriz européia.

Comparando com os programas de História do Belgrano até 1986, observou-se o predomínio da história política tradicional e uma visão eurocêntrica em que América Latina aparecia sempre relacionada à história européia. Entre 1991 e 1992 América Latina aparece no conteúdo do 4o ano escolar, que trata do período pré-hispânico e colonial; no 5o ano escolar, aparece através da história comparada do capitalismo no século XIX e incorporada no 6o ano escolar a uma análise de história argentina como um caso.

No CA os conteúdos: Civilizações Pré-Colombianas, Processos de independência de países latino-americanos e formação dos Estados Nacionais, Populismo, Caudilhismo e Ditaduras militares são trabalhados, principalmente, na 7a série do Ensino Fundamental e na 3a série do Ensino Médio. No Belgrano os conteúdos: Espaço colonial americano; Conquista e colonização, Processos de Independência, Revoluções Mexicana e Cubana, Populismo, Golpes militares e recuperação da democracia são trabalhados no 4o, 5o e 6º anos.

Na visão de nação subjugada ao capitalismo, o Brasil ficava sempre na condição de dominado e não se pensa numa perspectiva latino-americana. A forma desse “olhar para si” na relação com o “outro” latino-americano aparece relacionada à abordagem da História na relação dominador–dominado. Na Argentina a perspectiva não é mais a Europa, mas sim o contexto nacional e, em Córdoba, a perspectiva com América Latina não aparece forte. No Belgrano as perspectivas mais fortes são com o México.

Após a análise documental e a realização das entrevistas, a pesquisa apresenta questões importantes para pensar os processos de construção de uma identidade latino-americana e aponta para a necessidade de superar algumas dificuldades nos e entre os dois países.

Os documentos oficiais do Mercosul fazem algumas referências a integração cultural e ao ensino de História, mas percebe-se a complexidade e a dificuldade para tornar efetivas as proposições do Sistema Educacional do Mercosul – SEM. O enfoque na história nacional tem levado à exclusão da História da América Latina nos programas de História dos dois países e a inclusão desse tema tem se caracterizado por descontinuidades e marcas profundas deixadas pelas ditaduras militares.

As representações dos professores acerca da identidade latino-americana apontam, em linhas gerais, para um desconhecimento do “outro”, para as dificuldades em trabalhar temáticas latino-americanas e, muitas vezes, na dificuldade de romper estereótipos.

Os professores do CA e do Belgrano reconhecem os limites em incluir no currículo as temáticas latino-americanas devido a problemas de tempo para cumprimento do calendário e desconhecimento de tais conteúdos, entretanto apontam para a necessidade da inclusão de temas referentes a América Latina.

A partir do Projeto Córdoba (nome pelo qual é conhecido no CA o Acordo de Cooperação), pode-se concluir que são grandes as possibilidades de alcançar resultados positivos quanto ao “olhar sobre o outro”, a superação do isolamento, o reconhecimento de elementos de diferença na construção de uma possível identidade latino-americana e da integração.

Há ainda poucas pesquisas que enfoquem o ensino de História da América Latina e também sobre o Mercosul. A baixa produção de pesquisas sobre América Latina poderia ter suas raízes em épocas anteriores, quando necessidades mais urgentes levaram a História a priorizar (no caso brasileiro em particular), a discussão de uma identidade nacional.

Sobre os aspectos mais voltados para o currículo percebeu-se nas entrevistas que tanto os professores argentinos quanto os professores brasileiros concebem as propostas nacionais, isto é, Parâmetros Curriculares Nacionais – PCNs e Contenidos Básicos Comunes - CBCs como norteadores para o ensino e não um receituário a ser seguido ou prescrito.

Ao buscar compreender a relação entre o nacional e o local, entre o externo (PCNs e CBC) e o interno (programas escolares) bem como as diferenças e semelhanças entre as propostas nacionais verificou-se que no Belgrano as mudanças curriculares em nível nacional pouco têm afetado a proposta da escola e que, em relação a essa proposta nacional, houve na escola apenas uma revisão bibliográfica.

No caso brasileiro, no CA os PCNs são considerados como proposta interessante para a disciplina de História, principalmente quanto à possibilidade de utilizar diferentes linguagens mas os professores pouco se valem dos PCNs para trabalhar a História.

Sobre a inclusão de temas de América Latina a pesquisa suscita que a forma como os conteúdos são trabalhados muitas vezes pode resultar numa visão estereotipada decorrente da fragmentação dos conteúdos e que compromete a realização de um trabalho mais articulado. Apesar de se preocuparem com a inclusão de temáticas latino-americanas em suas aulas de História, os professores do CA são unânimes ao afirmar que a fragmentação é inevitável e com isso, perdem-se valiosas oportunidades de discussão e mais ainda, perde-se a visão da heterogeneidade.

No currículo construído na prática dos professores, a exclusão/inclusão de temáticas latino-americanas nos programas de História do CA se dá em consonância com a abordagem que o professor faz e depende da visão de mundo de cada professor. No Belgrano há um predomínio da visão política da História.

Há ainda muitas questões por esclarecer e aprofundar em relação a uma identidade latino-americana. É também conflituosa a discussão sobre identidade no sentido de melhor definir e compreender o sentimento de pertencimento a um determinado grupo seja ele étnico, cultural, político ou social.

Mesmo com contextos históricos diferenciados em muitos momentos, nem Brasil nem Argentina privilegiaram em seus conteúdos o “outro” (argentino ou brasileiro). Também, nos dois países coincidem alguns olhares sobre o “outro” quanto à ênfase às disputas e aos conflitos. A necessidade da inclusão de temas referentes a América Latina foi e ainda é uma necessidade sentida nas escolas, apesar disso, os entrevistados consideram que a mudança é um processo lento.



Este trabalho mais do que apresentar conclusões, suscita novas indagações, e a vontade em aprofundar algumas discussões. No campo educacional fica muito ainda por explorar sobre o papel do ensino de História nos processos de integração e da construção de uma identidade latino-americana. É preciso também conhecer outras experiências de intercâmbio para poder estabelecer novas comparações, e há uma necessidade crescente de ir mais fundo no conceito de identidade.

Por fim, percebeu-se que no interior desse intercâmbio entre as duas escolas, cada um dos professores entrevistados têm um ideal em relação ao ensino de História, à identidade latino-americana e esses ideais vão formando uma teia onde se imbricam diferentes identidades, diferentes culturas, ideologias, e visões de mundo. É isso que dá riqueza à educação, mas ao mesmo tempo demonstra sua complexidade. Esse conjunto de elementos poderá indicar, ou talvez já esteja indicando, possíveis caminhos no campo educacional para a construção de uma identidade latino-americana.


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