Interdisciplinaridade, trabalho multiprofissional e em equipe. Sinônimos? Como se relacionam e o que têm a ver com a nossa vida? Laura C. M. Feuerwerker



Baixar 11.46 Kb.
Encontro25.07.2016
Tamanho11.46 Kb.
Revista Olho Mágico, Londrina, n. 18, março 1999

http://www.ccs.uel.br/olhomagico/N18/enfoque.htm

Interdisciplinaridade, trabalho multiprofissional e em equipe. Sinônimos? Como se relacionam e o que têm a ver com a nossa vida?

Laura C.M.Feuerwerker Assessora da Fundação Kellogg laura@feuerwerker.com

Roseni R. Sena Diretora do Centro de Ciências da Saúde da UFMG chompré@gold.com.br

Não são sinônimos. São conceitos relacionados, mas que dizem respeito a distintas dimensões da atividade humana: o saber, a produção do conhecimento e a prática produtiva.


E por que se fala tanto dessas coisas atualmente? Porque vivemos uma época de fronteira e de crise. As respostas produzidas pela ciência da maneira como está organizada não são mais suficientes para dar conta dos desafios colocados pela realidade, cada vez mais complexa. Valores clássicos da sociedade, como o trabalho, estão sendo questionados. Novas respostas são procuradas. Do ponto de vista da ciência, da educação, da organização do trabalho.

Quem trabalha produzindo conhecimentos e mais ainda quem trabalha formando profissionais para o futuro tem necessariamente que tratar de discutir, entender e enfrentar essas questões e os desafios que elas trazem. Do ponto de vista da organização e da produção do conhecimento existem alguns fenômenos importantes: o nosso é um mundo em constante e acelerada mutação, que propõe à resolução problemas cada vez mais complexos. Problemas que para serem resolvidos pressupõem o diálogo entre saberes, conhecimentos e disciplinas.

No entanto, ainda trabalhamos por disciplinas. Cada disciplina através de seu enfoque específico desenvolve instrumentos para conhecer a realidade e os problemas a partir de um determinado ponto de vista, ou seja, é capaz de revelar uma dimensão do humano. Mas essa visão unidisciplinar necessariamente fragmenta o objeto e o reduz (de acordo com os próprios limites da disciplina) (JAPIASSU, 1976).

Predomina ainda, nas nossas ciências, uma idéia de que seria possível construir uma compreensão do todo através de uma articulação externa do conhecimento produzido através das diversas disciplinas. Ou seja, existiria entre elas uma ordem de subordinação hierárquica que possibilitaria construir naturalmente uma cadeia unidirecionada de explicações, sem dependências recíprocas, a partir dos múltiplos conhecimentos fragmentados (LÜCK, 1994). No entanto essa construção do todo não acontece. As disciplinas isoladamente não dão conta de produzir as respostas necessárias a um mundo que é composto de uma multiplicidade de fatores que não são mutuamente excludentes e sim explicados uns em relação aos outros. O mundo não é feito de coisas isoladas, existe uma complementariedade de dimensões. A compreensão desse mundo exige uma visão da realidade que transcenda os limites disciplinares.

A interdisciplinaridade é uma das chaves para a superação desse desafio. Propõe uma orientação para o estabelecimento da síntese dos conhecimentos, se não chegando a um conhecimento humano em sua integridade, pelo menos levando a uma perspectiva de convergência e interação dialética dos conhecimentos específicos. Interdisciplinaridade, portanto, é um conceito que se aplica às ciências, à produção do conhecimento e ao ensino. Se as pesquisas, para produzirem as respostas necessárias, têm que ser construídas interdisciplinarmente, o mesmo deve se aplicar ao processo de ensino-aprendizagem.

A possibilidade de uma compreensão integral do ser humano e do processo saúde-doença, objeto do trabalho em saúde, passa necessariamente por uma abordagem interdisciplinar e por uma prática multiprofissional. Abordagem interdisciplinar na construção do conhecimento, chegando a interações recíprocas e a uma colaboração entre disciplinas diversas. Abordagem interdisciplinar que implique na demolição das fronteiras entre pesquisa e ensino-aprendizagem (DEMO, 1994).


O processo de formação de pessoas capazes de enfrentarem os problemas da realidade implica numa ação educativa dinâmica e dialética visando desenvolver capacidade cognitiva, habilidades e atitudes que os faça conscientes da realidade humana e social e capazes de produzir transformações.

Prática multiprofissional na medida que se organiza o processo de trabalho considerando a complementaridade dos diversos saberes e práticas profissionais e buscando a integralidade do cuidado. Uma metodologia de trabalho que combina a utilização do instrumental da clínica, da epidemiologia e da gerência dentro de cada profissão e entre todas as profissões da saúde desde sua direcionalidade técnica específica (SENA-CHOMPRÉ, 1998).

Neste caso é importante diferenciar trabalho multiprofissional de trabalho em equipe. No primeiro caso existe uma interação entre os vários conhecimentos técnicos específicos com a produção de uma solução/proposta de intervenção que não seria produzida por nenhum dos profissionais isoladamente.

O trabalho em equipe é fundamental. Implica no compartilhar do planejamento, na divisão de tarefas, na cooperação e na colaboração, mas pode (e deve) acontecer entre profissionais de uma mesma disciplina, entre profissionais de uma mesma carreira e também dentro de uma equipe multiprofissional. No entanto, não implica necessariamente na construção de um novo saber ou de uma nova prática. O que cria a possibilidade do novo é a interação democrática entre diferentes (atores, saberes, práticas, interesses e necessidades).

Todos esses são elementos fundamentais para a transformação da universidade, para que ela possa estar sintonizada com as necessidades sociais, produza conhecimentos e forme profissionais capazes de uma visão holística, de relações humanas solidárias e de construir permanentemente o conhecimento.

Aliás, a busca da interdisciplinaridade é um processo permanente de construção e desconstrução, de renovação de relações e de enfrentamento de desafios permanentes. Como os que a UEL e outras universidades latino-americanas vêm se propondo a enfrentar ultimamente.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DEMO, Pedro. Desafios modernos da educação. 7ª edição. Rio de Janeiro, Vozes, 1993. JAPIASSU, Hilton. Interdisciplinaridade e patologia do saber. Rio de Janeiro, Imago, 1976. LÜCK, Heloísa. Pedagogia interdisciplinar - fundamentos teorico-metodológicos. 2ª edição. Rio de Janeiro, Vozes, 1994.


SENA-CHOMPRÉ, Roseni R. & EGRY, Emiko Y. A Enfermagem nos projetos UNI: contribuição para um novo projeto político para a Enfermagem brasileira. São Paulo, Rede UNIDA-Hucitec, 1998.


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal