Intertextualidade: “Chapeuzinho Vermelho” e “Uma menina chamada Chapeuzinho Azul”



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Intertextualidade: “Chapeuzinho Vermelho” e “Uma menina chamada Chapeuzinho Azul”

Faculdade de Ciências Humanas, Exatas e Biológicas

Universidade Camilo Castelo Branco

São Paulo

2008


Intertextualidade: “Chapeuzinho Vermelho” e “Uma menina chamada Chapeuzinho Azul”

Trabalho de aproveitamento do curso de Literatura Infanto-juvenil.

Curso: Letras.

Faculdade de Ciências e Humanas e Biológicas.

Universidade Camilo Castelo Branco.

Professora: Telma Maria Vieira.

São Paulo

Maio / 2008



Índice

Introdução 4

As histórias 5

Os autores 6

Possível origem: o mito de Cronos 7

Conceitos de Joseph Campbell em “Chapeuzinho Vermelho” 8

A intertextualidade nos contos de fadas 9

Uma análise sociológica 12

Conclusão 15

Referências Bibliográficas 16



INTRODUÇÃO

Os contos de fadas, como narrativas para o público infantil, surgiram na Europa, durante a Idade Moderna. Sua origem está no folclore, na tradição oral e nas narrativas míticas de povos primitivos.

Um dos contos mais famosos, mais parafraseados e parodiados é “Chapeuzinho Vermelho”. Apesar das incontáveis versões, neste trabalho teremos o objetivo de comparar o conto “Chapeuzinho Vermelho”, de Charles Perrault, escrito em 1697, ao conto moderno “Uma menina chamada Chapeuzinho Azul”, de Flávio de Souza, escrito no ano 2000, a fim de demonstrar a intertextualidade entre os mesmos para estabelecer, depois de feitas as devidas análises, se essa intertextualidade constitui uma paródia ou uma paráfrase.


AS HISTÓRIAS

A origem”


“Certo dia, a mãe de uma menina mandou que ela levasse um pouco de pão e de leite para sua avó. Quando a menina ia caminhando pela floresta, um lobo aproximou-se e perguntou-lhe onde ia: 
- Para a casa da vovó – ela respondeu. 
- Por que caminho você vai, o dos alfinetes ou o das agulhas? 
- O das agulhas. 
Então o logo seguiu pelo caminho dos alfinetes e chegou primeiro à casa. Matou a avó, despejou seu sangue numa garrafa e cortou sua carne em fatias, colocando tudo numa travessa. Depois, vestiu sua roupa de dormir e ficou deitado na cama, a espera. 
Pam, pam !. 
- Entre, querida. 
- Olá vovó. Trouxe para a senhora um pouco de pão e leite. 
- Sirva-se também de alguma coisa. Há carne e vinho na copa. 
A menina comeu o que lhe era oferecido e, enquanto o fazia, um gatinho disse: 
- Menina perdida! Comer a carne e beber o sangue da sua avó! 
Depois o lobo disse: 
- Tire a roupa e deite-se na cama comigo. 
- Onde ponho o avental? 
- Jogue no fogo. Você não vai mais precisar dele. 
Para cada peça de roupa – corpete, saia, anágua e meias – a menina fazia a mesma pergunta. E cada vez, o lobo respondia: 
- Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dela. 
Quando a menina se deitou na cama, disse: 
- Ah, vovó! Como você é peluda! 
- É para me manter mais aquecida, querida. 
- Ah, vovó! Que ombros largos você tem! 
- É para carregar melhor a lenha, querida! 
(...) Até que ela perguntou: 
- Ah, vovó! Que dentes grandes você tem! 
- É para comer melhor você, querida! 
E ele a devorou”.

Chapeuzinho Vermelho”


O conto de Perrault, “Chapeuzinho Vermelho”, narra a história de uma menina apelidada de Chapeuzinho Vermelho, (devido a um capuz que ganhara da avó), que sai para visitar sua avó, que estava doente, levando uma torta e um pote de manteiga. No meio do caminho, depara-se com um lobo que lhe pergunta seu destino. Despedem-se e Chapeuzinho segue para a casa da Vovó. Ao chegar, a menina entra e se deita na cama ao lado de quem ela pensa ser sua avó. Logo percebe algo estranho e, ao fazer um questionamento, o lobo revela-se e a devora.
Uma menina chamada Chapeuzinho Azul”
A narrativa de Flávio de Souza, “Uma menina chamada Chapeuzinho Azul”, narra a história de duas irmãs, chamadas Chapeuzinho Azul e Chapeuzinho Vermelho, por causa de dois capuzes ganhos de sua avó. Chapeuzinho Azul encontrava-se doente e Chapeuzinho Vermelho sai para visitar a avó materna. Enquanto isso, a avó paterna vinha visitar, com uma cesta de doces, a neta doente. No meio do caminho, a Avó é surpreendida por um lobo, que tenta enganá-la sugerindo-lhe o caminho da floresta, que era o mais longo. A avó não se deixa enganar e vai pelo caminho mais curto, chegando à casa da neta antes do lobo. Quando o mesmo chega à casa de Chapeuzinho, depara-se com o pai das meninas à porta com uma espingarda nas mãos. Assustado, o lobo foge.

OS AUTORES

Charles Perrault
Charles Perrault nasceu em 12 de janeiro de 1628, em Paris, na França. Muito famoso por suas histórias infantis, Perrault viveu no mesmo período que o gaulês Jean de La Fontaine, outro famoso escritor de contos. Além de escritor, Perrault formou-se em Direito, trabalhou como superintendente em obras de Luís XIV, como cobrador geral do reino e bibliotecário da Academia Francesa, da qual tinha sido nomeado chanceler. Casa-se e após o quarto filho, Marie Guichon, sua esposa, morre. Em 1697, com quase setenta anos, Charles Perrault registra as histórias que ouvia quando criança para contá-las a seus filhos. O livro chamou-se “Histórias ou contos do tempo passado com moralidades” e contava com oito contos sobre princesas, bruxas e seres mágicos.

Flávio de Souza
Nasceu em 1955, em São Paulo. Foi criador e roteirista de séries para a TV - Mundo da lua e Castelo Rá-Tim-Bum -, além de tradutor, desenhista, ator, diretor e autor de diversos livros infantis. Alguns de seus trabalhos são: roteirista de cinema nos filmes: Manhattan (1990), Almas em Chamas (2000), Ilha Rá-Tim-Bum - O Martelo de Vulcano (2003), Xuxa Abracadabra (2003), Um Show de Verão (2004), Xuxa e o Tesouro da Cidade Perdida (2004), Um Lobisomem na Amazônia (2005), Xuxinha e Guto Contra os Monstros do Espaço (2005), Didi - O Caçador de Tesouros (2006); roteirista de televisão dos programas: Rá-Tim-Bum (1989), Mundo da Lua (1990), Castelo Rá-Tim-Bum (1995), Sai de Baixo (1996), Children Show (2005) e TV Xuxa (2005); e ator em: Asa Branca - Um Sonho Brasileiro, O Brinco, Mundo da Lua e Castelo Rá-Tim-Bum.

POSSÍVEL ORIGEM: O MITO CRONOS
Anteriormente à história escrita, versões do conto “Chapeuzinho Vermelho” já eram narradas por camponeses em volta das fogueiras. Ao que tudo indica, sua origem é folclórica e por isso tão difícil de se determinar. Muitos estudiosos associam essas narrativas orais ao mito de Cronos:

“Urano (Céu) era o esposo de Gaia (Terra). Ele detestava os filhos, por isso, toda vez que Gaia dava à luz algum, Urano o devolvia à mãe. Gaia se cansou disso e tramou com seu filho, Cronos, a castração de Urano. Ela fez de seu seio uma faca e a entregou a Cronos, que aceitou a missão e, ao entardecer, quando o Céu se deitava com a Terra, castrou o pai. Com isso Cronos dá início à segunda geração de deuses, a Idade Dourada, na qual reina absoluto. Mas Cronos teme a profecia de que um filho seu o venceria, e passa a devorar os filhos que teve com Réia, sua esposa-irmã, assim que nasciam. Porém, na ocasião do nascimento de Zeus, Réia entrega ao marido uma pedra com fraldas e esconde o pequeno na ilha de Creta. Quando Zeus cresce, este retorna e cumpre a profecia: auxiliado por sua mãe, Zeus destrona Cronos e o obriga a vomitar seus irmãos. Daí surge uma guerra terrível, a Titanomaquia, da qual Zeus e os demais deuses saem vencedores, confinando os Titãs no abismo do Tártaro e iniciando a terceira geração de deuses, moradora do Olimpo. ”


Uma interpretação interessante construída a partir desse mito é a de Calina M. Fujimura*, que usa o Dicionário de Símbolos para definir o lobo como um devorador. Com a utilização desse símbolo, o lobo pode ser comparado a Cronos que, por sua vez, passa a ser confundido com Chronos – o tempo. E essa associação de símbolos acaba por gerar um outro símbolo: o do lobo como união de Cronos e do Chronos, que podemos interpretar como um devorador do tempo, pois, por meio do ato sexual, o lobo devora a meninice, o tempo de juventude de Chapeuzinho, impondo-lhe uma passagem para a vida adulta, uma nova condição marcada pela menstruação e pela afloração da libido (ambas simbolizadas pelo capuz vermelho usado pela menina). A relação sexual passa a ser encarada como um devorar da fêmea pelo macho.

CONCEITOS DE JOSEPH CAMPBELL EM “CHAPEUZINHO VERMELHO”
A personagem Chapeuzinho Vermelho, na história homônima, percorre uma aventura desde sua casa até a casa de sua avó, com o objetivo aparentemente simplório de levar uma cesta com algumas guloseimas.

Num primeiro momento, temos a mãe de Chapeuzinho fazendo a solicitação da entrega da cesta para a avó que está doente. A mãe, que é representada, quando analisada pelos conceitos campbelianos, como o Arauto da aventura, vem trazer o convite ou chamado para a personagem começar sua jornada, inclusive, em algumas versões da história, aparece também como guia que fornece inúmeros conselhos.

Aceitando de imediato a solicitação de sua mãe, Chapeuzinho Vermelho se propõe, inconscientemente, a ingressar em um mundo desconhecido que em seguida se abrirá para ela. Não o simples caminho que percorre até a casa de sua avó, possivelmente já feito inúmeras vezes, mas todo o contexto de sua ingenuidade e, logo em seguida, seu envolvimento com o lobo, farão com que tenha um amadurecimento necessário.

Pelo caminho, a personagem se depara com um lobo. Há inúmeras possibilidades de representação para essa personagem, como: o perigoso homem mais velho, o perigo do desconhecido, o perigo do aproveitador, etc.

Chapeuzinho comete o “erro” de dar atenção ao lobo e confiar-lhe seu objetivo de ir à casa da avó. Campbell afirma que as aventuras estão totalmente ligadas a possíveis erros cometidos pelas personagens, erros que se assemelham ao acaso, mas que na verdade são frutos de ações do inconsciente reprimido. Nesse caso, é possível interpretar que o inconsciente de Chapeuzinho queria que o Lobo a seguisse.

Ao final, quando Chapeuzinho é devorada pelo Lobo, sua morte pode ser o símbolo da morte da menina para o nascimento da mulher, já que toda aventura na visão campbeliana tem por objetivo a necessidade de transmutação da personagem. Encarando por esse ponto, o Lobo deixa de ser vilão e se torna peça importante na metamorfose pela qual Chapeuzinho inevitavelmente precisa passar.


A INTERTEXTUALIDADE NOS CONTOS DE FADAS

As narrativas dos contos de fadas tornaram-se conhecidas mundialmente e foram transmitidas por várias gerações até chegarem aos nossos dias. Uma dessas narrativas, talvez a mais apreciada pelas crianças, é a história de Chapeuzinho Vermelho.

São muitas as versões existentes dessa história, as mais conhecidas são a versão de Charles Perrault e a dos irmãos Grimm. Acredita-se que tais versões tenham derivado de antigas histórias, pertencentes às estruturas de rituais míticos de povos antigos, que, por serem ágrafos, transmitiam as histórias oralmente.

Resgatada por Perrault em 1697, a história de Capinha Vermelha, posteriormente chamada de Chapeuzinho Vermelho na versão dos irmãos Grimm, que surgiria aproximadamente cem anos depois da versão de Perrault, está carregada de elementos moralizantes e de linguagem simbólica, sendo exemplo desta o próprio título da história, que não aparece na versão que se acredita ser o primeiro registro da história. Aparentemente inocentes, os contos de fadas escondem um significado subjacente ao que se apresenta quando se faz uma primeira leitura. Para se decifrar o significado que está oculto nos contos de fadas, é preciso conhecer uma linguagem, que por nós foi esquecida, mas que os povos antigos dominavam. Para eles, não dominá-la equivalia a ser analfabeto em nossos dias, ela é inerente a todos os povos, independente das convenções que cada um tenha, é definida pelos estudiosos como a linguagem simbólica1, aquela por meio da qual exprimimos experiências interiores como se fossem experiências sensoriais, como se fosse algo do mundo exterior representando e/ou simbolizando o mundo interior.

Observando-se a intertextualidade existente entre as várias versões do conto de chapeuzinho vermelho, pode-se confrontar a versão de “Chapeuzinho Vermelho”, de Perrault, com a versão de Flávio de Souza, intitulada “Uma Menina Chamada Chapeuzinho Azul2, para comprovar que esta é uma paródia da primeira. Convencionar-se-á, daqui a diante, denominar Chapeuzinho Vermelho por CV e Chapeuzinho Azul por CA.

O primeiro ponto a ser mencionado é o título da história. A cor vermelha do chapéu da menina denota, se analisada tendo como base a linguagem simbólica, a menstruação, que por sua vez, marca a passagem da condição de menina para a condição de mulher, a cor vermelha representa a latência do desejo sexual. A correspondência entre os textos se mostra presente pelo fato de que nas duas estórias as meninas são conhecidas por chapeuzinho, e essa idéia ganha mais força quando lemos que, na história de CA, CV é sua irmã. Contudo, em CA, o significado simbólico da primeira foi totalmente esvaziado, a cor azul simbolicamente exprime controle, calmaria, desejos ponderados, domínio psíquico.

Na primeira história, CV tem uma tarefa que lhe foi atribuída por sua mãe: levar uma cesta com pães e leite para sua avó, que está doente. No caminho, CV encontra um lobo que lhe pergunta aonde vai, e ela prontamente responde que vai para a casa da avó, levar uma cesta com pães e leite. Com essa declaração, condena-se ao triste fim de ser devorada. O significado subjacente nessa passagem está ligado ao fato de que a menina está em transição para a fase mulher e se assusta ao se ver num contexto que apresenta a questão do sexo, situação para a qual não se sente preparada; nessa história, a figura do pai está ausente, o que indica que esse conflito em relação ao sexo, por parte da menina, pode ser entendido como sendo causado por uma projeção edípica na figura do lobo, que não é lobo.

Novamente, na segunda história, o significado da primeira é completamente esvaziado, criando-se outro totalmente novo. Em CA, quem está doente não é a avó, e sim a neta. Há uma valorização da figura da avó, e também do idoso, que não se encontra mais em condição de incapacidade, mas de vigor, lucidez e independência. É a avó quem leva uma cesta com doces para a neta e se depara com o lobo, que tenta enganá-la mandando-a ir pelo caminho mais longo. Mas essa avó não é aquela avó frágil, assustada e passiva; esta avó é esperta, é ela quem engana o lobo ao ir pelo caminho mais curto. Analisando esse trecho, percebe-se que a imagem do lobo é ridicularizada, ele não é mais aquele sagaz devorador, já que foi enganado por uma velhinha.

Na primeira narrativa, CV chega à casa da avó, o lobo já lhe esperava disfarçado com as roupas da avó, que já havia sido devorada. CV entra e em seguida o lobo pede que tire suas roupas e se deite ao lado dele. A menina o atende e se inicia um diálogo que precede o acontecimento fatal. Percebendo a anatomia masculina no lobo, Chapeuzinho diz: “- Que ombros tão grandes, vovó. ” Ao que o lobo responde: “– É para te carregar melhor, netinha. ” E assim exclama sucessivamente até chegar o momento em que diz: “– Mais que dentes tão grandes, vovó. ” E o lobo responde: “– É para te comer melhor”. Devora-a. Foi consumada a cópula.

Nessa versão da CV, percebe-se ainda a estrutura do mito de passagem, entretanto, pode-se fazer uma análise mais profunda associando essa narrativa ao mito babilônico da criação3, que tem Tiamat como deusa criadora, a grande mãe que mandava no universo. Poderosa por ser mulher e ter o dom de gerar vida, Tiamat sofre um ataque de deuses masculinos, liderados por Marduque, que foi escolhido após uma demonstração do poder de seu verbo, em uma prova na qual ordenou a suas vestes que se destruíssem e depois que se recriassem. Os deuses rebeldes vencem a batalha e Tiamat é morta. De seu corpo são formados o céu e a terra, e Marduque reina supremo.

Pela existência desse mito, pode-se supor que em épocas remotas existiram povos que viviam em um sistema matriarcal, e é exatamente o que se percebe no conto de CV. Avó, mãe e filha vivem em um sistema no qual não participa a figura masculina, diferentemente de CA. Em CA, há uma valorização do sistema patriarcal. Quando o lobo chega à casa de CA, quem está à espera do lobo é o pai da menina com uma arma na mão. Novamente a figura do lobo é ridicularizada, já que não tem mais o poder de desestabilizar o universo feminino. A história de CA está muito mais próxima dos nossos dias, ao invés de apresentar elementos moralizantes, demonstra estilo e preocupações estéticas ao dirigir-se para o público infantil.

Confrontados os dois textos, é justificável dizer que “Uma Menina Chamada Chapeuzinho Azul”, de Flávio de Souza, se trata de uma paródia da narrativa “Capinha Vermelha”, de Perrault.



UMA ANÁLISE SOCIOLÓGICA
O conto “Chapeuzinho Vermelho” tem sido constantemente estudado pelo viés da psicanálise. A leitura psicanalítica baseia-se na decifração de símbolos que aparecem nas histórias e costuma situar o valor dos contos de fadas na universalidade e na a-historicidade de seus temas.

Discordando disso, Catherine Orenstein, em seu livro “Little red riding hood uncloaked: sex, morality and the evolution of a fairy tale”, propõe uma análise sociológica dos contos de fadas. Para Catherine, os contos nos ensinam o Certo e o Errado, por isso modificam-se no decorrer dos séculos, o que os torna um dos gêneros mais poderosos de socialização existentes.

Em seu livro, a autora comenta várias versões de Chapeuzinho Vermelho e, embora use a psicanálise, lê os símbolos contidos nos contos diferentemente, pois relaciona cada versão ao momento histórico de sua produção, já que acredita na qualidade mutante dos contos de fadas que, para Orenstein, se adaptam ao clima, aos modismos locais e ao conjunto de princípios, normas e valores de cada novo contador da história e da audiência.

Veremos agora como Catherine Orenstein relaciona diversas versões da história de Chapeuzinho aos contextos de suas elaborações:

Ao contar sua versão de Chapeuzinho Vermelho, em 1697, Charles Perrault apresenta uma alegoria das preocupações políticas e sexuais da França do século XVII. Sua narrativa tem o fim didático de alertar as jovens, virgens ou não, sobre o perigo de se envolver com certos homens. *

No final do conto, Chapeuzinho é comida, sem possibilidade de salvação ou redenção.

Perrault parece indicar esse destino ao vestir sua heroína com um capuz vermelho, cor que, na França daquela época, era associada às prostitutas, ao sangue e ao escândalo - o capuz vermelho acaba simbolizando o pecado da menina e a previsão de seu destino; e ao usar como ilustração de seu manuscrito um lobo, sem disfarce, em cima de Chapeuzinho, apoiando-se com as patas, uma de cada lado do corpo da menina.

Em plena era vitoriana, o conto dos Irmãos Grimm, escrito em 1847, mostra a menina sendo salva pelo caçador (representante da figura paterna). Isso porque Chapeuzinho Vermelho é mostrada como merecedora dessa salvação, já que é retratada como uma garota discreta e reprimida, atendendo aos preceitos morais da época. Na capa da edição dos Grimm, Chapeuzinho Vermelho aparece como um chapéu pequeno, à moda das mulheres da aristocracia e da classe média nos séculos XVI e XVII, para manter os longos cabelos presos, que são um dos principais símbolos de sedução. Demonstrando seu bom comportamento (resguardo e descrição), a menina é salva pelo caçador no final, é como se recebesse a aprovação masculina.

Filmes e animações do começo do século XX (1920-1940) captam as mudanças radicais na vida das mulheres nessas décadas. Chapeuzinho assume ideais da mulher adulta e tem atitudes revolucionárias (uso de calças e negação ao matrimônio). Nessas versões, não há maridos nem príncipes, o que nos leva a aproximá-las de antigas narrativas orais do conto, pois, na maioria delas, a heroína logra escapar do lobo sem a intervenção masculina, diferentemente das versões escritas tradicionais, nas quais Chapeuzinho Vermelho é fortemente caracterizada pela passividade.

Já no final do século XX, um caráter subversivo invade as obras. As escritoras tentam desvelar peculiaridades de gênero, revertem os papéis impostos para homens e mulheres pela cultura. O Feminismo é incorporado e traz as releituras das versões clássicas à visão e à consciência do patriarcalismo nelas intrínseco, além de permitir lermos a história de Chapeuzinho como uma parábola do estupro.

Seguindo a linha de análise de Catherine Orenstein, podemos analisar “Uma menina chamada Chapeuzinho Azul”, de Flávio de Souza*, como a representação da estrutura familiar do século XX, já que vários elementos modernos são incorporados ao texto. Como a atividade da avó - no conto tradicional doente e acamada -, que sai do conforto de sua casa e vai ao encontro da neta gripada.

Espertamente, ela é quem engana o lobo. Chega primeiro na casa da neta e arma-lhe uma cilada. A avó, mulher mais velha, tem um papel na vida familiar, representa a mulher atual que não deixa de ser atuante socialmente em função da idade, muito distinta da velhinha do conto clássico, que em muitas interpretações aparece como prestes a sair de cena e passar sua experiência sexual a Chapeuzinho.

Além da avó moderna, uma outra figura que compõe o novo quadro familiar é o pai das meninas, a presença masculina do conto. O pai aparece como provedor e protetor da família, pois ele trabalha e defende, com uma espingarda, a mãe, a avó e a filha contra o lobo, que, em tempos atuais, deixa de ser representante do mundo masculino e ameaçador e passa a exercer o papel do malandro, nocivo, mas não fatal.

Mais uma característica que prende “Uma menina chamada Chapeuzinho Azul” a seu tempo é a concepção de criança que o texto mostra, tanto no trato das personagens, quanto na forma como dirige-se ao leitor.

Ao falar de Chapeuzinho Azul e de Chapeuzinho Vermelho, o narrador diz que as meninas ganharam seus capuzes de presente pelo Dia da Criança, apesar de quererem bonecas. O texto mostra a criança como um ser diferenciado do adulto, ser esse que exige certos cuidados, como presentes (o que reflete o sistema capitalista vigente no momento da escritura do conto), carinho da avó e proteção paterna.

A concepção contemporânea de criança é novamente demonstrada pela maneira como o texto é elaborado, pois o leitor infantil é considerado durante todo o processo. O autor usa de recursos estilísticos para prender a atenção do leitor; instiga-o questionando se o mesmo conhece a história e incentiva a leitura oral, que pode ser muito envolvente, pois convidando o professor a ler o conto, causa uma proximidade entre quem narra e quem escuta, ambos compartilham um espaço único no qual a criança se sente livre para imaginar, com a permissão e proteção do adulto. Além de usar uma linguagem de fácil compreensão, com expressões informais (“deu no pé”, “deu de cara”), um tom irreverente (“Foi no dia da criança em mil seiscentos e me esqueci”, “(...) mas todo mundo a chamava de Vó Gorda”, “O lobo (...) deu um tchauzinho de longe e deu no pé. ”) e várias ilustrações que acompanham e deixam o texto mais divertido e atraente para o público infantil.



CONCLUSÃO
Depois de efetuadas várias leituras e análises das duas versões da narrativa de “Chapeuzinho Vermelho”, pudemos concluir que o conto “Uma menina chamada Chapeuzinho Azul”, de Flávio de Souza, se trata de uma paródia do texto clássico, “Chapeuzinho Vermelho”, escrito por Perrault.

O exame detalhado dos textos em questão demonstra que o texto “Uma menina chamada Chapeuzinho Azul” desconstrói vários elementos fundamentais da narrativa de “Chapeuzinho Vermelho”, como a questão erótica, o caráter moralizador, a vasta simbologia, a transmutação e o conteúdo com raízes em narrativas míticas. Além de apresentar personagens novas e modificar as já existentes, descreve uma família com outros membros vivente em um contexto bem diferente do ambiente do século XVII.

As atitudes, o percurso e o enredo são peculiarmente elaborados de maneira a favorecer a construção de um novo sentido, para um texto antigo, que se harmonize com as características e necessidades do leitor atual.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FROMM, Erich. A linguagem esquecida – 5ª ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973.

CAMBELL, Joseph. O herói de mil faces – 11ª ed. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 2006.

PERRAULT, Charles. Chapeuzinho Vermelho

SOUZA, Flávio de. Que historia é essa?2. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2000.
ELIANE T. A. CAMPELLO. As múltiplas vidas de “Chapeuzinho Vermelho”. Revista de Estudos Feministas. N.º 2, volume 11, jul-dec/2003. Florianópolis
SITES CONSULTADOS (EM 13/04/2008)
http://www.brasilescola.com/mitologia/cronos.htm

http://www.companhiadasletrinhas.com.br/]

http://www.filologia.org.br/viiicnlf/resumos/chapeuzinhovermelho.htm

http://www.nucleodeliteraturainfantil.com.br/Titulos2.asp?pg=indice&tipo=1&Id=20

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2003000200025

http://pt.wikipedia.org/wiki/Fl%C3%A1vio_de_Souza



1 Para um entendimento mais amplo, ver Erich Fromm – A linguagem esquecida. Cap. II - A natureza da linguagem simbólica.

2 Flávio de Souza. Que historia é essa 2. Cia das Letrinhas. São Paulo, 2000.

3 Erich Fromm confirma essa teoria em sua análise na obra A linguagem esquecida. Cap. VII O mito da Criação pg. 169.


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