IntroduçÃO À monarquia



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  1. INTRODUÇÃO À MONARQUIA

Frei Rogério Goldoni Silveira – freiroger@yahoo.com.br

Frei Ildo Perondi – ildo.perondi@pucpr.br


O objetivo do presente texto é introduzir a questão da monarquia e da profecia em Israel. Antes do início da história dos reis, sabe-se que Moisés libertou o povo da escravidão do Egito, conforme o livro do Êxodo, e morreu sem entrar na Terra Prometida (Dt 34,5). Segundo a Bíblia, ele e toda a sua geração pereceram no deserto, exceto Caleb e Josué (cf. Nm 14,30). Esta informação seguramente é mais teológica que histórica. Então Josué foi o sucessor de Moisés e foi quem guiou o povo até a Terra Prometida (Js 1,1-18). Diante da presença do Senhor, ele também tirou as sandálias (Js 5,13-15). Porém, não será mais um grande interlocutor entre YHWH e o povo, ainda que Deus continue transmitindo por meio dele suas mensagens.

A ocupação da terra foi consolidada neste período, embora não tenha sido tão pacífica. Houve uma conquista que levou algum tempo e com muitas dificuldades, usando inclusive alguns métodos típicos de guerra (Js 2; 6).

A forma de divisão da terra também foi muito bonita (Js 18,1-10), bem diferente da concentração agrária do Egito (Gn 47,13-26). Na nova terra, os únicos a ficarem sem propriedade foram os levitas, porque sua missão era de servirem a Deus e ao povo. Porém, é fácil perceber que o texto de Js 18 é muito mais um ideal do que aquilo que de fato deve ter acontecido.

É certo que neste período tudo ainda era muito provisório. Os próprios textos bíblicos misturam fatos históricos, com utopia, sonhos... A Assembléia de Siquém (Js 24,1-28) mostra a consolidação deste sistema. A aliança firmada ali tinha como ponto fundamental o seguimento de YHWH como único Deus, o Deus que foi protagonista do Êxodo e que fez caminhada e história com este povo.

Por um período de aproximadamente 200 anos, Israel viveu uma experiência muito importante. A sociedade era constituída por famílias, clãs e tribos. Era uma sociedade solidária. Diferente da sociedade opressora do Egito; e também diferente da sociedade dos reis da Canaã. Neste período houve certo crescimento econômico, construção de novas cidades e expansão da agricultura, com ocupação de novas áreas, sobretudo as montanhas.

Não havia rei, pois só Deus era o rei do povo (Jz 8,22-23). Diante do perigo externo e das ameaças dos inimigos, e também para exercer a justiça interna, surgiu a figura do juiz ou juíza, que organizava o povo para defender a terra. Um exemplo típico nós encontramos em Jz 4,4ss. Débora é juíza e administra a justiça para o povo, debaixo de uma palmeira. Não havia um sistema estruturado, nem cobrança de impostos, nem templo, nem exército, nem trabalho forçado.

Mesmo que tenha sido substituído pelo sistema monárquico, o ideal do tribalismo será sempre recordado nas gerações seguintes.
1.1 A MONARQUIA

Pouco a pouco essa experiência tribal deu lugar à monarquia. Embora tenha havido resistência, sobretudo de Samuel, o último juiz em Israel (1Sm 8,1s). Samuel advertiu o povo dos perigos de escolher o regime monárquico; ter um rei poderia custar caro, pois o rei iria exigir muitos direitos, porém o povo quis um governo forte, seguindo o modelo dos povos vizinhos (1Sm 8,10-22). Mas encontramos na Bíblia também textos que são favoráveis à monarquia (1Sm 9,11-26). E Samuel mesmo parece estar de acordo que era necessário implantar um novo sistema de governo. O surgimento do rei em Israel, porém teve uma conseqüência, a presença do Profeta, que passou a ser o interlocutor entre Deus e Israel. O Profeta torna-se o defensor de Deus e seu projeto, da Justiça e do povo. É aquele que fala me nome de Deus!


1.1.1 As causas da mudança: Por volta do ano 1000 aC. Israel passou a ser governado pelo sistema monárquico. Parece que a iniciativa para a troca de regime tenha partido dos anciãos (1Sm 8,4). As razões para a mudança de regime foram basicamente três:

a) A organização das tribos aos poucos foi se tornando desigual. Alguns foram ficando mais ricos, proprietários de bois e de áreas maiores de terra. O aumento do número dos pobres provocava insegurança e exigia proteção da parte daqueles que possuíam mais.

b) A ameaça constante dos filisteus e outros povos vizinhos, exigiu um estado mais forte e organizado para defender-se e garantir a posse da terra. Os filisteus chegaram à Palestina praticamente no mesmo tempo que Israel. Não eram muito numerosos, porém eram mais organizados militarmente, e possuíam o domínio do ferro que era usado como armamento militar, e já utilizam carros de combate. Eles chegaram a tomar a Arca, bem como o Santuário de Silo (1Sm 5-7). Israel não conseguia se defender e manter sua terra sem um exército mais organizado.

c) Israel quis seguir o exemplo dos povos vizinhos que mantinham o sistema monárquico. Israel já havia feito história, era uma nação, porém desorganizada. Ao mesmo tempo as grandes nações (Egito, Assíria, Babilônia) voltavam a se organizar e a terra de Israel era território cobiçado por qualquer país que dominasse o mundo na época.


1.1.2 Os primeiros Reis:

a) Saul: O primeiro rei de Israel foi Saul, eleito por aclamação e por designação profética (1Sm 10,1ss; 11,12-15; 13,11s), embora não fosse ainda rei de todo Israel, mas parece que somente de algumas tribos. Era da tribo de Benjamin. São os proprietários dos bois que conseguem colocar Saul como rei (1Sm 11) e convocam para a guerra. Saul não teve uma grande estrutura de Estado, nem palácio real, nem desenvolveu uma máquina administrativa. Saul foi um fracasso como rei. Alguns consideram que ele era meio louco e tinha até acessos de depressão “um espírito maligno enviado por Deus” (1Sm 16,14-23), que só podia ser curado com músicas. Por ciúmes (1Sm 18,6ss;) tentou matar Davi (1Sm 19,9-17; 27,1ss); desentendeu-se com o Profeta Samuel (1Sm 13,7ss) e até Deus se arrependeu de tê-lo deixado governar Israel (1Sm 15,10-11.35b).

b) Davi: O sucessor de Saul foi Davi. Foi ungido rei em Hebron (2Sm 2,1-4). Davi iniciou com um grupo de pessoas em dificuldade (1Sm 22,1-2). Era um jovem pastor, originário de Belém, que foi ganhando a simpatia do povo por sua coragem e valentia, demonstrada quando venceu Golias, o herói filisteu (1Sm 17-18). Tinha boa liderança e o povo acreditava que ele tinha o Espírito de YHWH. Davi reinou sobre todas as tribos e foi considerado o modelo de rei e em seu reinado Israel alcançou a maior extensão geográfica, dominando os filisteus (2Sm 5,17-25) e outros povos vizinhos. Conquistou Jerusalém e para lá transferiu sua residência (2Sm 5,6-10) e também a Arca da Aliança (2Sm 6), designando Abiatar como sacerdote, embora não tenha ainda construído um Templo (2Sm 7,1ss). Parece que Davi não cobrou impostos do povo de Israel, mas tributava os povos vizinhos conquistados. Pouco se sabe da estrutura de estado implantada por Davi. Teve também seu pecado (2Sm 11,1–12,14). Também foi reprovado por ter feito um censo (2Sm 24). Toda a sua história está contada nos textos de 1Sm 16 a 2Rs 2.

c) Salomão: Davi foi sucedido por seu filho Salomão (1Rs 1,28ss). A sucessão não foi pacífica. Foram eliminados Adonias, o irmão que tinha direito ao trono (1Rs 2,12ss), o sacerdote Abiatar (2,26ss) e Semei (2,36ss). Com isso, “a realeza consolidou-se nas mãos de Salomão” (1Rs 2, 46b). Foi ungido rei por Sadoc e aclamado pela multidão (1Rs 1,33.38). Construiu o Templo, organizou o império, desenvolveu o comércio e a cultura. Foi uma época de muito crescimento para Israel, porém castigou as tribos com impostos e gerou muito empobrecimento do povo. Não teve inimigos externos. Passou para a história como o rei sábio (1Rs 3,4-28). Casou com a filha do faraó do Egito e teve outras mulheres (1Rs 11,1ss), filhas dos reis com quem fazia alianças. Montou uma estrutura pesada de poder (1Rs 4 e 5), inclusive com trabalhos forçados (1Rs 4,6b). Enfrentou uma rebelião das tribos do norte, expulsou Jeroboão para o Egito (1Rs 11,40). Com o desenvolvimento da cultura no Templo, foram escritos os primeiros textos bíblicos.
1.2 A DIVISÃO DO REINO

Com a morte de Salomão, em 931 a.C.1 o povo esperava que o novo rei trouxesse alívio e diminuísse os pesados impostos. Mas Roboão, herdeiro do trono, rejeitou o conselho dos anciãos e preferiu escutar os jovens amigos e aumentou os impostos e castigou o povo (1Rs 12,1-19). O resultado foi a revolta do povo, liderada por Jeroboão e apoiada pelo Profeta Aías, e assim aconteceu a divisão do Reino:

- Reino do Norte: Israel (ou também chamado com outros nomes: Jacó, casa de José, Efraim, Manassés), com dez tribos, tendo como capital Siquém, depois Samaria. O primeiro rei foi Jeroboão, com designação profética e em seguida aclamado popularmente (a exemplo de Saul).

- Reino do Sul: Judá, com duas tribos, continuou com a capital Jerusalém. O primeiro rei foi Roboão, filho de Salomão, que tentou a unificação, mas foi desaconselhado pelo Profeta Semeías (1Rs 12,21-24). Somente garantiu que o território de Benjamin ficasse anexado à Judá.

Na verdade, a divisão enfraqueceu o povo e Israel como um todo. Formaram-se dois reinos menores, rodeados de grandes potências (Assíria, Egito, Babilônia, Pérsia) que sonhavam em dominar o mundo da época. O Egito logo em seguida à divisão, através de Sesac, atacou o reino do Sul impondo derrotas e pagamento de tributos. Os dois estados conviveram lado a lado às vezes de forma mais harmoniosa, outras vezes com conflitos.

a) O Reino do Norte: Israel procurou recuperar muitas idéias do tempo dos Juízes, e algumas práticas do tribalismo, a princípio sem governos hereditários. Porém, as revoltas internas (dos 19 reis, 7 foram assassinados e um suicidou-se) dificultaram o seu desenvolvimento e caiu em 722 aC. derrotado pela Assíria.

Para evitar que o povo do Norte se deslocasse ao Templo de Jerusalém para adorar a YHWH, os reis construíram dois Santuários (um em Betel e outro em Dã), e incentivavam o culto nos “lugares altos” (às vezes o culto era a YHWH e outras vezes a Baal, o que irritava os Profetas). Alguns Profetas tiveram importante atuação neste período: Elias, Eliseu, Amós e Oséias. Eles defendiam o direito dos pobres, portanto com uma atuação social muito forte e insistiam na fidelidade ao Deus verdadeiro que havia feito caminhada com eles, bem como o conhecimento de Deus e da Lei (Oséias).

O Reino do Norte teve um período de paz, inicialmente sem muitos tributos para o povo. Amri começou uma dinastia. Foi um rei hábil e organizou o país. Foi substituído por seu filho Acab. A capital foi mudada para Samaria, uma cidade bem fortificada e em local estratégico. Israel estruturou-se militarmente. Foram construídos aquedutos. No entanto, se o país ia bem, os camponeses não podiam dizer o mesmo. Muitos pequenos agricultores perderam as suas terras. Um bom exemplo disso é o caso de Nabot (1Rs 21) que não deve ter sido um caso isolado.

Porém, do ponto de vista teológico, a situação se complicou com a subida ao trono de Acab. Ele casou-se com Jezabel (1Rs 16,31), filha do rei dos sidônios e que adorava o deus Baal (1Rs 16,29-34), trazendo para Israel seus sacerdotes e profetas. Baal era o deus da natureza, mas em vez da fertilidade do solo, veio uma grande seca e a fome.

O rei Acab abandonou o Deus que foi fiel, mas o Senhor suscitou aquele que foi o maior dos Profetas: Elias, fiel defensor da mais pura tradição de Moisés. Para Elias, YHWH é o Deus do Sinai. E deste período temos muitos textos bonitos que mostram a coragem, a mística e coerência de vida do Profeta (1Rs 17-21) em confronto com Acab, sua mulher e os falsos profetas. Encontramos na Bíblia o chamado Ciclo do Profeta Elias (1Rs 17–2Rs 1), que até hoje é considerado o maior dos Profetas. Em seguida, temos o ciclo de Eliseu, outro grande Profeta em Israel.

Outro texto bonito está em 1Rs 22. Temos aqui o Profeta Miquéias de Jemla (que não é o mesmo Profeta Miquéias que escreveu o livro). Ele nos ensina que o Profeta deve sempre dizer a verdade e ser fiel a Deus. Acab morreu justamente na guerra tentando conquistar Ramot de Galaad. Em seguida vieram seus filhos, com reinados medíocres sob a sombra da mãe, Jezabel.

Depois reinou Jeú que fez um expurgo da família de Amri. Jezabel foi jogada da janela, e toda a dinastia foi assassinada. Jeú massacrou também os adoradores de Baal e restabeleceu o culto a YHWH, pelo menos oficialmente. Com Jeroboão II (783-743 aC. cf. 2Rs 14,23-29) Israel alcançou uma prosperidade nunca antes vista. Porém a injustiça social, a decadência moral e religiosa também existia, o que foi objeto da profecia de Amós e em seguida também de Oséias.

A seguir, encontramos um período de anarquia. Nos dez anos seguintes à morte de Jeroboão II, Israel teve cinco reis, dos quais três se apoderaram do trono pela violência. Enquanto isso a Assíria se organizava com Teglatfalasar III, que tinha interesse em conquistar a rota para o Egito.

Um dos fatos mais tristes da História de Israel é seguramente a chamada guerra Siro-Efraimita (Is 7-8; 2 Rs 16,5ss). Sentindo o perigo da Assíria, o Reino do Norte (Faceia) fez aliança com Damasco e esperava também por Judá. O Reino do Sul (Ozias) não se aliou, e por isso surgiu a guerra entre os dois reinos. Judá pediu apoio à Assíria que veio em seu socorro. Damasco foi destruída e o reino do Norte sofreu duras derrotas e antes que a capital fosse tomada, uma revolta interna derrubou o rei e Oséias (não o Profeta) assumiu o governo e pagou tributos à Assíria.

Por ocasião da sucessão na Assíria (Sargão II, assumiu o lugar Salmanasar). Oséias (não o Profeta) aproveitou para romper com a Assíria, buscando ajuda do Egito. Foi o suficiente para um novo ataque. No ano 722 (ou 721) aC., a Assíria invadiu o reino do Norte, levou os líderes ao exílio e colocou ali outros povos de culturas e religiões diversas (2Rs 17,24-42), dando origem aos samaritanos. O Reino do Norte nunca mais voltou a se organizar como nação.



b) O Reino do Sul: Judá saiu enfraquecido com a divisão. Além disso, perdendo a guerra com Egito, teve que pagar tributos. Manteve sempre a sucessão hereditária para os reis, sempre da Casa de Davi. Porém aos poucos foram sendo formadas duas classes: uma do pessoal ligado à corte e que habitava em Jerusalém e outra formada pelos camponeses, mais pobres. Josafá (873-849) foi substituído por seu filho Jorão, mas quem governou foi a mãe Atalia, que cultuava Baal, e acabou sendo assassinada. Então começou o reinado de Joás, em parte foi fiel seguidor de YHWH.

Acaz foi o rei que pediu ajuda à Assíria na guerra Siro-efraimita. Judá sobreviveu, mas Acaz teve que se prostrar diante da Assíria e adorar seus deuses. Foi um insulto contra o Deus nacional e por isso foi criticado pelo Profeta Isaías. Além disso, Acaz não era um bom devoto e chegou a sacrificar seu filho (2Rs 16,3). Será lembrado como um dos piores apóstatas de Judá! Sucedeu-o seu filho Ezequias, que agiu diferente de seu pai e procurou restaurar a fé em YHWH, patrocinando uma reforma do culto, acenou com a possibilidade de unificação com o que restava de Israel, bem como tentou livrar-se da opressão da Assíria. Teve apoio de Isaias e Miquéias. Mas Senaquerib, novo rei da Assíria infligiu duras derrotas a Judá. Ezequias morreu combatendo. Um fato estranho (2Rs 19,35) fez os assírios se retirarem. Segundo Heródoto foi uma peste de ratos. E isso criou na mentalidade judaica a visão de que Jerusalém jamais seria tomada. Seguiu-se um século de instabilidade, que passou por uma certa independência. Foi um período com vários reis medíocres.

O novo rei Josias (assumiu com 8 anos) realizou uma profunda reforma nacionalista e religiosa, o que agradou os Profetas. Em 609 aC. a Assíria desapareceu como império, derrotada pela Babilônia, o que garantiu a independência a Judá, mas Josias morreu jovem, aos 33 anos, em Meguido, tentando conter o exército egípcio que seguia para combater a Assíria.

Vieram em seguida outros reis que não ouviam a voz dos Profetas e se afastaram do projeto de Deus. De 609 a 605, Judá foi submetido ao Egito. Sob Joaquim, e depois Joaquin, toda a reforma de Josias perdeu vigor. Em 605 a Babilônia (com Nabucodonosor) infligiu a primeira derrota e fez a primeira deportação. E, depois de três anos de cerco, em 586 (ou 587) aC. a Babilônia saqueou Jerusalém, destruiu o Templo e levou embora todos os tesouros. E deportou todas as lideranças para a Babilônia (2Rs 25). Judá esperou inutilmente pela ajuda do Egito. E a Babilônia só “deixou uma parte do povo pobre da terra, para trabalhar nas vinhas e nos campos” (2Rs 25,12). O Profeta Jeremias acompanhou todos os fatos, em vão clamou por mudanças que não aconteceram. Preferiu ficar com o povo da terra (Jr 40,1-6). São desta época também os Profetas I Isaías (1-39), Miquéias, Sofonias, Naum, Habacuc, Joel e parte de Ezequiel que acompanhou os exilados na Babilônia.



1 Esta é a data proposta pela Bíblia de Jerusalém. Não existe unanimidade com relação à cronologia das datas do período da monarquia. J. Brigth situa a morte de Salomão em 922.


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