Introdução 3 1 Origem e expectativa do Reino de Deus 4



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Sumário





Sumário 2

Introdução 3

1 Origem e expectativa do Reino de Deus 4

1.1 Etimologia das Expressões: Reino ou Reinado de Deus 4

1.2 Experiência do Reino Vivida no Êxodo 5

2 O CONTEXTO MESSIÂNICO – APOCALÍPTICO 8

2.1 Expectativa do Reino de Deus no Tempo de Jesus 8

2.2 Expectativa do Reino de Deus em João Batista 9

3 O REINO EM JESUS 11

3.1 A Pregação de Jesus 12

3.2 O Reino de Deus é Dom e Graça 14

3.3 Os destinatários do Reino 15

3.4 Sinais do Reino 17

Conclusão 19

Referências 21



Introdução

Jesus foi um marco na compreensão histórica da humanidade. Sua mensagem revolucionou a sociedade opressora e excludente, apresentando uma nova proposta de vida. Mais que um mundo para além deste, Jesus revelou que é preciso transformar o mundo presente, a fim de que o Reino de Deus se estabeleça.

O Reino de Deus ocupou um lugar central na vida e missão de Jesus. Todo seu empenho foi no sentido de instaurar desde já o Reino. Para tanto Ele iniciou a pregação, apresentando uma proposta de conversão, pois só pela conversão seriam possíveis atitudes de libertação, em favor da vida.

Com a finalidade de compreender, embora de forma parcial, a novidade do Reino de Deus apresentado por Jesus, buscaremos desenvolver o presente trabalho enfocando a dimensão histórica de um Deus Conosco que percebe e sofre com a realidade do povo oprimido.

Por questão de sistematização, o trabalho será dividido em três capítulos. No primeiro analisaremos a origem e a expectativa do Reino ainda no Antigo Testamento. Percebemos aí a grande ansiedade histórica do povo pela manifestação do Reino que estava presente desde o Êxodo até o tempo de Jesus. No segundo capítulo, versaremos sobre o contexto messiânico-apocalíptico na época de Jesus, apresentando a expectativa do Reino nos grupos mais emergentes da época. Por último, estudaremos a grande novidade do Reino apresentada por Jesus. Sua nova proposta, os destinatários e os sinais visíveis de que o Reino já está acontecendo entre nós.

Com base neste itinerário buscaremos desenvolver o trabalho com o intuito de contribuir para uma melhor compreensão do Reino de Deus e toda a realidade que ele abarca.



1 Origem e expectativa do Reino de Deus

Israel esperava, a muitos séculos a inversão da história da parte de Deus. Vivia uma grande impaciência e ansiedade, principalmente depois de ter perdido a sua independência política; pois, com a dominação tirânica eram governados por ídolos pagãos. Assim, esperavam ansiosos pelo rei justo e misericordioso que viria libertá-los dos opressores e dos ídolos pagãos. Essas expectativas e esperanças se resumem na expressão “Reino de Deus”.



1.1 Etimologia das Expressões: Reino ou Reinado1 de Deus

A representação do Reino no Antigo Testamento, elaborada principalmente pelos profetas, consiste principalmente no caráter dinâmico da revelação de Deus que tem o poder de recriar a história. Não é algo estático ou abstrato. Contudo, encontramos algumas diferenças na definição de “Reino” ou “Reinado”.

‘Reino’ é, por assim dizer, um sistema abstrato, um sistema de autoridade. Em compensação, ‘reinado’, é essa mesma autoridade concretamente exercida. Em outras palavras, ‘reinado de Deus’ nunca poderá significar um fim, mas o início de uma situação prolongada na história (SEGUNDO, 1997, p. 147).
Ao que parece, o que melhor expressa o sentido existente no Antigo Testamento como na pregação de Jesus é a dinamicidade sem autoritarismo que não significa um fim, mas o início de um anúncio e de uma missão. Já para Sobrino, a expressão ‘Reino de Deus’ pode ter conotação estática que originalmente não existiria. “A expressão ‘reino de Deus’ pode conotar uma situação estática que não existe na expressão hebraica original” (1983, p. 63). Por isso, deveria-se usar a expressão reinado de Deus que melhor expressa a dinamicidade da ação de Deus.

As origens da esperança de Israel dão elementos para melhor entender o conteúdo da expressão ‘Reino de Deus’. Desde o Êxodo o povo de Israel sofreu grandes catástrofes que foram aniquilando com muitas de suas esperanças. Contudo, a fé em Javé não se aniquilou, mas foi através dela que tiveram força e coragem para enfrentar as situações adversas e lutar por uma situação melhor.

A luta incessante do povo de Israel por viver o ideal proposto por Javé o fez acreditar que não podiam permanecer vivendo na opressão, mas que um outro mundo estaria por vir. Diante deste novo horizonte “surgia a esperança escatológica de uma renovação de sua situação, de uma autêntica libertação e a expectativa de um Messias que realizasse estas esperanças” (SOBRINO, 1983, p. 64). Israel esperava a realização da salvação no tempo escatológico, pois no tempo presente não podia ser realizado o Reino de Javé.

1.2 Experiência do Reino Vivida no Êxodo

A esperança da realeza de Deus remete a tempos muito antigos em Israel. “Javé reinará para sempre e eternamente” (Ex 15,18); “Javé vosso Deus é o vosso rei” (I Sm 12,12). Inicialmente Israel venera Javé apenas como rei sobre o povo de Israel. “Assim diz Javé, o rei de Israel” (Is 44,6). Com a influência dos profetas vai tornando-se rei do mundo todo. Ele é o “rei dos povos” (Jr 10,7).

Já no Êxodo é relatada a escravidão sofrida pelos israelitas no Egito. Em uma situação tão opressora e desumana o “Reino de Deus2se manifesta na luta por libertação. Moisés pode ser comparado com um pregador do Reino quando, junto com o povo, luta para que os planos de Javé se concretizem. Essa esperança de libertação da escravidão os anima a lutar pela terra prometida. Muitas foram as provações, contudo maior foi a fidelidade do povo que, embora alguns deslizes, é capaz de seguir os planos de Javé e alcança a ‘terra onde corre leite e mel’ (Ex 3,7-8).

Ao chegar a Israel o povo se instala e divide o território em tribos3. A cada tribo nomeia um juiz com a finalidade de ajudar na conscientização e organização do povo. Contudo, o povo cai na tentação de ter um rei e assim passa a ter um sistema monárquico que muitas vezes o escravizava.

Com as constantes disputas pelo poder e permanentes invasões dos povos vizinhos, Israel se divide e passa a ficar vulnerável, resultando no exílio na Babilônia. Neste período de exploração e opressão surgem muitos profetas que anunciam o ‘Reino’. E anunciam que o Reino é dos pobres e oprimidos. “A proclamação do Reino remete à ação universal de Deus em favor dos mais pobres, como manifestação de sua transcendência” (ECHEGARAY, 1982, p. 120).

Isaías anuncia a vinda do Reino: “O Senhor chega como rei e pastor; não vem como juiz, mas, fundamentalmente, como salvador (Is 46,5)” (SOBRINHO, 1983, p. 64). Este reinado é novo, novo no sentido de ser o reinado de Deus. Com ele surge a salvação também como algo novo.

Com efeito, criarei novos céus e nova terra; as coisas de outrora não serão lembradas, nem tornarão a vir ao coração. Alegrai-vos, pois, e regozijai-vos para sempre com aquilo que estou para criar: eis que farei de Jerusalém um júbilo e do meu povo uma alegria. Sim, regozijar-me-ei em Jerusalém, sentirei alegria em meu povo. Nela não se tornará a ouvir choro nem lamentação. Já não haverá ali criancinhas que vivam apenas alguns dias, nem velho que não complete a sua idade; com efeito, o menino morrerá com cem anos; o pecador só será amaldiçoado aos cem anos. Os homens construirão casas e habitarão, plantarão videiras e comerão os seus frutos. Já não construirão para que outro habite a sua casa, não plantarão para que outro coma o fruto, pois a duração da vida do meu povo será como os dias de uma árvore, meus eleitos consumirão eles mesmos o fruto do trabalho das suas mãos. Não se fatigarão inutilmente, nem gerarão filhos para a desgraça; porque constituirão a raça dos benditos de Iahweh, juntamente, com os seus descendentes. Acontecerá então que antes de me invocarem, eu já lhes terei respondido; enquanto ainda estiverem falando, eu já os terei atendido. O lobo e o cordeiro pastarão juntos e o leão comerá feno como o boi. Quanto à serpente, o pó será o seu alimento. Não se fará mal nem violência em todo o meu monte santo, diz Iahweh (Is 65,17-25).
Após a experiência da escravidão o povo de Israel anseia por um mundo novo, por uma nova compreensão de reinado, ou Reino de Deus onde exista a alegria de viver e a justiça seja a característica básica. Um novo céu e uma nova terra onde haja justiça com os indefesos, sem exploração do trabalho, onde todos tenham vida longa, junto a Deus. Enfim, onde haja uma fraternidade universal com toda a natureza, entre homens e animais. Este novo Reino não é apenas uma utopia, mas algo possível e objetivo, que através da fé do povo vai se concretizando ao longo da história. Deus vai se manifestando na vida de Israel e seu povo acredita que Ele pode mudar a realidade injusta e opressora. Deus age na história do seu povo. “Israel tem como essencial à sua fé o fato de Deus poder mudar a realidade má e injusta em realidade boa e justa. Por isso, ao reino de Deus corresponde-se com esperança histórica” (SOBRINO, 1994, p. 112).

O Messias será um novo rei Davi (Is 11,1). A esperança se torna cada vez mais intensa no novo Reino de Deus4 que vem para defender os pobres e oprimidos e para libertar os cativos. “Deus será o Rei verdadeiramente justo: só ele poderá realizar o ideal de um rei capaz de proteger os pobres e os marginalizados de todo tipo” (RUBIO, 1994, p. 36). Frente, cada vez mais, aos sinais de anti-reino, o povo de Israel foi alimentando a crença que o Reino só se cumpriria com a instauração de um novo tempo. A esperança apocalíptica foi se tornando cada vez mais intensa e o fim dos tempos apresentava-se como uma realidade sempre mais expressa no povo.


2 O CONTEXTO MESSIÂNICO – APOCALÍPTICO

O povo de Israel, vivendo na opressão, ansiava por libertação; por um mundo novo. Diante desta busca por libertação o Novo Testamento foi surgindo. Muitos se diziam portadores do Reino e apresentavam o comportamento “ideal” para que o Reino se cumprisse. Muito mais que mudanças na sociedade em que viviam, buscavam um novo mundo para além deste que só lhes proporcionava sofrimento e morte.



2.1 Expectativa do Reino de Deus no Tempo de Jesus

Essas expectativas aparecem de diversas formas no tempo de Jesus, contudo sempre marcadas pela paixão política e religiosa. As constantes crises que o povo Israelita sofreu, marcou-os profundamente na esperada chegada do Reino. Grande era a expectativa, e todos os grupos político-religiosos se diziam portadores do Reino, sendo que cada qual interpretava a seu modo a chegada deste Reino.

Os Saduceus “afirmavam que o reino já havia chegado e não admitiam nenhuma alternativa para a presente situação” (FERRARO, 2003, p. 87) pois temiam repercussões no presente por isso, procuravam inviabilizar qualquer mudança. Os Fariseus, os puros “acreditavam que a chegada do reino se daria pelo pleno cumprimento da lei” (FERRARO, 2003, p. 88). Para tanto buscavam manter a pureza da lei exercendo um perfeito legalismo. Os Herodianos “procuravam compreender a chegada do reino como volta ao estado teocrático, tendo a sua frente o rei como mediador” (FERRARO, 2003, p. 88).

Para os Essênios o Reino “viria com a força e deveria purificar o Templo, contaminado pela presença de estrangeiros, pela subserviência dos dirigentes judaicos e, sobretudo, pela ilegitimidade do sacerdócio exercido na época” (FERRARO, 2003, p. 88). Eles se afastaram da sociedade formando uma comunidade alternativa por acharem que o Reino aconteceria pela fuga do mundo. Os Zelotas “procuravam apressar a chegada do Reino combatendo (violentamente) os romanos e todos aqueles que colaboravam com eles” (FERRARO, 2003, p. 89). Isto é, através da conquista violenta, armada. Já para os pobres o Reino viria através do salvador da Pátria.

Cada grupo tinha sua expectativa com relação ao cumprimento do Reino de Deus e acreditava que a fidelidade a essas propostas apressaria a sua vinda. Contudo, todas essas diferentes formas de preparar o Reino, antes de favorecer, os colocou em plena crise (Cf. ECHEGARAY, 1982, p. 125). Em meio a essa realidade surgem João Batista e seu movimento que antecederão Jesus.

2.2 Expectativa do Reino de Deus em João Batista

Em meio às muitas expectativas do Reino surge João Batista que apresenta uma proposta de conversão e arrependimento dos pecados. Assim como Jesus, João Batista também pregava que o Reino de Deus estava próximo. “Arrependei-vos, porque o Reino dos céus está próximo” (Mt 3,2). Jesus também irá pregar a proximidade do Reino: “Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus” (Mt 4,17).

Após tantos anos de espera e preparação para o Reino de Deus, João Batista e posteriormente Jesus, pregam que o Reino está próximo. Este fato, da proximidade do Reino, deve ter sido verdadeiramente vibrante, pois a espera se tinha cumprido embora alguns contestassem e se rebelassem contra o anúncio de Jesus.

João Batista aparece no deserto anunciando que a vinda de Deus está próxima. Contudo, para ele, o que estava próximo não era o reinado de Deus, mas a sua ira. “O machado já está posto à raiz das árvores e toda árvore que não produzir bom fruto será cortada e lançada ao fogo. A pá está na sua mão: limpará sua eira e recolherá seu trigo no celeiro: mas, quanto à palha, a queimará num fogo inextinguível” (Mt 3,10.12).

Por isso se explica a urgência de mudança, de mentalidade e conduta e a necessidade de jejum e do batismo para obter a conversão5 e o perdão dos pecados antes que seja tarde demais. “João aparece, portanto, como profeta que denuncia o pecado do povo, anuncia a vinda de Deus e de seu radical juízo” (SOBRINO, 1994, p. 114).

Certamente a mensagem e a pessoa de João Batista influenciaram Jesus a ponto de se tornar seu discípulo e se deixar batizar por ele. “Aconteceu naqueles dias, que Jesus veio de Nazaré da Galiléia e foi batizado por João no rio Jordão” (Mc 1,9). Jesus utilizou alguns conteúdos de João para a sua pregação, embora, depois, se distancie em alguns pontos chave da compreensão de João.

Como o Batista, Jesus [...] anunciará a vinda próxima de Deus, destruirá as falsas esperanças nas prerrogativas de Israel, anunciará o juízo de Deus não sobre os gentios mas também sobre Israel, rejeitará os que confiam em sua própria justiça, acolherá pecadores notórios, abrirá sua pregação a todos e não – como os essênios e os fariseus – a um resto separatista (SOBRINO, 1994, p. 116).
Diferentemente de João, Jesus não é um homem do deserto, sem história, mas da cidade com sua história e cultura. Ele não fica só no anúncio do Reino, mas contribui na vida social estando atento a ela. O Reino em Jesus é muito mais uma realidade presente do que futura. “Antes de tudo (Ele) aparece em continuidade com uma tradição cheia de esperança” (SOBRINO, 1994, p. 117). Contudo, por outro lado, Jesus age quebrando o sistema que se impunha sobre Israel, isto é, age em descontinuidade com o resto dos seres humanos. Ele vai na contramão de seu tempo, de todos os grupos insurgentes de seu tempo. Desta forma, apresenta uma sociedade estruturada em alicerces diferentes dos até então construídos.

3 O REINO EM JESUS

O Reino de Deus constitui a mensagem central de toda vida e pregação de Jesus. Ele não fez de si o centro desta mensagem, mas sabia perfeitamente que o centro era algo distinto Dele. Sua pregação tinha destinatários próprios, pois a Boa Notícia que Ele anunciava não era boa a todos, embora a graça de Deus a todos se manifestasse e realizasse libertações.

Não resta dúvida que todo o empenho que Jesus realizou em sua missão visava a vinda do Reino. Ele não só anunciava a sua vinda mas a grande novidade desse Reino que já vem. “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15).

Assim como o Reino de Deus está no centro da pregação de Jesus, a relação com o Pai está intimamente ligada com toda a missão de Jesus. Estas duas realidades, ‘Reino de Deus’ e ‘Pai’, se complementam. A palavra Pai, em Jesus, expressa a realidade pessoal que dá sentido último a sua vida. Toda a missão de Jesus, em restaurar o Reino, tem sentido, se entendida a partir da realidade e vontade do Pai. Desta forma é possível compreender a cruz em Jesus como conseqüência de sua fiel missão. “O reino (sic) dá a razão do ser de Deus como ‘Abba’ e a paternidade de Deus dá fundamento e razão de ser do reino” (SOBRINO, 1994, p. 105).

A pregação de Jesus nunca deixa evidente o que é o Reino, o que provoca muitas divergências: “Nem sequer nas chamadas parábolas do reino Jesus define o que é o reino, embora acentue sua novidade, sua exigência, seu escândalo..., mas nunca o define” (SOBRINO, 1994, p. 108). Jesus sempre relaciona o Reino com parábolas embora nunca diga o que seja. Usa as parábolas para mostrar aproximações do Reino. ‘O Reino é como, ou o Reino se assemelha...’. Está além de toda esperança e imaginação humana, por isso não pode ser descrito. Esta tentativa de aproximação do Reino usada por meio de parábolas pode ser expressa nas Bem-Aventuranças e na oração do Pai-Nosso.

Na leitura das Bem-Aventuranças (Lc 6,20-23 e Mt 5,3-12) percebe-se que com o Reino o sofrimento é afastado, trazendo um mundo novo sem males e sofrimentos. Mundo este, em que prevalece a justiça, a fraternidade e a paz, assemelhando-se à imagem do paraíso. “O reino de Deus é sempre como nova criação” (SCHELKLE, 1979, p. 25).

Já no caso da oração do Pai-Nosso (Mt 6,9-15 e Lc 11,2-4) Jesus ensina a rezar, a fim de que venha o Reino de Deus. Para isso, Deus deve estar acima de tudo e, ser aceito na vida de cada um como seu Deus ‘Abba - Pai’.

Ambas as passagens, as Bem-Aventuranças e a oração do Pai-Nosso, apresentam o Reino de Deus como um dom do amor. Ele é fruto do amor que se transforma em doação, gratuidade. Diante desse presente tão valioso “não existe esforço humano capaz de conquistá-lo ou de comprá-lo: só pode ser recebido como dom. Ao ser humano cabe abrir-se a esse dom estupendo, acolhendo-o com alegria e gratidão” (RUBIO, 1994, p. 38).



3.1 A Pregação de Jesus

Jesus, em sua missão, anuncia o Evangelho do Reino num ambiente de dominação e opressão. Procura resgatar a memória de salvação e libertação que estava presente na história de Israel.

A pregação de Jesus teve início com o anúncio da Boa Nova do Reino a todas as pessoas, sejam judeus ou pagãos. Ele estava consciente de que era esta a missão à qual o Pai lhe havia reservado. Os evangelistas são unânimes na grande e central missão de Jesus. “Devo anunciar também a outras cidades a Boa Nova do Reino de Deus, pois é para isso que fui enviado” (Lc 4,43). Em Marcos Jesus proclama: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (4,15).

Diferentemente dos que diziam que o reino só se cumpriria em tempo futuro, por meio de variadas formas de prepará-lo, Jesus apresenta o Reino como uma realidade presente, que já está se cumprindo. “Em Jesus, o que o reino futuro trará já é presente” (THEISSEN, 2002, p. 267). Ele não o apresenta como algo para além do povo, como sendo um fim, mas como o início de uma situação prolongada na história; sendo que para fazer parte dele deve haver conversão e preparação. “Jesus não apenas anuncia o Reino antes que chegue: prepara-o” (SEGUNDO, 1997, p. 167).

Contudo, em sua mensagem Jesus não se preocupa essencialmente com o dia ou a hora em que virá o Reino de Deus. Ele não vem como um fato sensacional, antes como uma realidade não submetida à temporalidade, que ultrapassa essa dimensão. A temporalidade do Reino não era a preocupação de Jesus que anunciava a permanente presença de Deus na humanidade. “A vinda do Reino de Deus não é observável. Não se poderá dizer: ‘Ei-lo aqui! Ei-lo ali!’, pois eis que o Reino de Deus está no meio de vós” (Lc 17,20-21).

Ao anunciar que o Reino de Deus está próximo (Mc 4,15), que está se cumprindo entre nós (Lc 17,21), Jesus desponta no povo não só a esperança do cumprimento do Reino, mas a certeza da sua concretização. Para tanto Jesus ‘quebra’ com toda concepção histórica de que o Reino se daria numa realidade futura, distante da nossa percepção, onde se viveria em harmonia perfeita. “Jesus tem a audácia de proclamar o desenlace do drama da história, a superação, finalmente, do anti-reino, a vinda inequivocamente salvífica de Deus. E os sinais que acompanham suas palavras mantêm essa esperança” (SOBRINO, 1994, p. 119).

O Reino de Deus, não só deve levar a uma mudança de sentido, ou seja, superar a concepção apocalíptica negativista para uma esperança otimista, mas principalmente deve levar a um nova prática. De nada vale receber a Boa Nova do Reino, se esta não nos leva a um novo agir. Para tanto é necessário conversão e mudança: aos pobres, não permanecerem acomodados com a situação, mas ter esperança que motive à transformação; aos opressores, cabe mudar radicalmente sua conduta de opressão em vista de que todos tenham uma vida digna (SOBRINO, 1994, p. 120).

Quando essa Boa Notícia é assumida por cada um, ela leva, automaticamente, a viver e colocar em prática as atitudes do Reino de Deus. Ela nos leva a “recuperar a humanidade plena que, de mil maneiras, (a humanidade) foi perdendo” (SEGUNDO, 1997, p. 149). Não há instauração do Reino onde não há libertação e justiça, onde não há transformação e superação de toda e qualquer opressão. “O Reino é uma transformação de uma situação má, de uma situação de opressão e que a ação de Deus só pode ser concebida como superação de uma situação negativa” (SOBRINO, 1983, p. 68).

Assim, o Reino de Deus é caminho, marcha. É transformação histórica de opressão pela de libertação e justiça. É compromisso pela causa dos indefesos e vulneráveis a todo tipo de exploração.

Nesta perspectiva, “o Reino que tudo abrange, para tudo transforma” (ECHEGARAY, 1982, p. 122), se assemelha ao fermento na massa (Mt 13,33). Uma pequena quantidade é suficiente para transformar toda a massa. Embora tenha um começo modesto, apresenta grande e repentino desenvolvimento. O mesmo é relatado na parábola da semente de mostarda (Mc 4,30-32 / Mt 13,31s / Lc 13,18s) em que diante da insignificante pequenez da semente, esta cresce e se transforma na maior das árvores. Ambas as parábolas descrevem a oposição entre a pequenez oculta do começo e a grandeza do fim que é inteiramente obra de Deus.

Embora todo nosso esforço para que o Reino de Deus se estabeleça entre nós, o seu pleno cumprimento só se concretizará futuramente, no fim dos tempos (Mc 14,25 / Lc 11,2 / Mt 21,31). Contudo, a dimensão presente e a futura estão intimamente ligadas, como que se complementam. Estão vinculadas, não são duas realidades contrapostas.

Esta vinculação está na origem da conhecida tensão entre o ‘já’ (atuação do Reino na ambigüidade de nossa história) e o ‘ainda não’ (o Reino na plenitude futura), tensão essa que faz parte, de maneira básica, da existência histórica cristã (RUBIO, 1994, p. 49).


A pregação de Jesus é marcada pelo paradoxo entre o anúncio do Reino e o seu pleno cumprimento no fim dos tempos. Contudo, ao que parece, sua missão está muito mais voltada à primeira dimensão. Mais que anunciar o Reino, Jesus busca a sua realização. Realização esta que só será possível se cumprir mediante a graça de Deus.

3.2 O Reino de Deus é Dom e Graça

O Reino de Deus é dom, puro dom de Deus, independe da ação humana, pois não pode ser forçado ou rejeitado. É uma realidade que está aí presente. É pura gratuidade que se transforma em doação.

Embora pareça, esta gratuidade de Deus não se opõe à atividade humana. Ela não significa a não-ação para com o Reino. O que não compete a nós é querer, por nosso mérito, forçar a vinda do Reino, o que era muito comum pelos grupos contemporâneos de Jesus. “Deus vem por amor gratuito, não como resposta à ação dos homens” (SOBRINO, 1994, p. 119).

Acontece com o Reino de Deus o mesmo que com o homem que lançou a semente na terra: ele dorme e acorda, de noite e de dia, mas a semente germina e cresce, sem que ele saiba como. A terra por si mesma produz fruto: primeiro a erva, depois a espiga e, por fim, a espiga cheia de grãos. Quando o fruto está no ponto, imediatamente se lhe lança a foice, porque a colheita chegou (Mc 4,26-29).


Desta forma, o Reino de Deus não é mérito de alguns, mas está sempre presente. Ele é oferecido por primazia aos pobres que nada têm (Mt 5,3), àqueles que se colocam com simplicidade e obediência como às criancinhas que são aclamadas por Jesus fazendo parte de sua ceia.

O reino é dádiva de Deus. É dado aos pobres que não têm nada (Mt 5,3). Por isto, as criancinhas entram no reino (Mc 10,15). Aí não se fala da inocência infantil merecedora do céu. As crianças são aqueles que sabem que não podem fazer mais do que deixar que os adultos, superiores a elas, lhes dêem presentes. Sendo que o reino nunca é merecido, mas sempre dado de presente, os pecadores, as prostitutas e os publicanos entram nele antes dos justos (Mt 21,31). Como herança (Mt 25,34), ele é sempre dádiva; como herança, dom imerecido. (SCHELKLE, 1979, p. 24).


Contudo, ao ouvirem a mensagem, são exortados a permanecerem voltados a Deus para entrar no Seu Reino.

O Reino dos Céus é semelhante ao tesouro escondido no campo; um homem o acha e torna a esconder e, na sua alegria, vai, vende tudo o que possui e compra aquele campo. O Reino dos Céus é ainda semelhante ao negociante que anda em busca de pérolas finas. Ao achar uma pérola de grande valor, vai, vende tudo o que possui e a compra (Mt 13,44-46).


Encontrar o reino provoca uma enorme alegria, chegando a ponto de abandonar tudo para ficar com ele. Ele é uma riqueza inegociável, insubstituível. Contudo, para perceber esta riqueza inegociável é preciso abrir-se ao dom gratuito do Reino, resultando assim, na sua aceitação. De nada vale Deus, no seu imenso amor, nos oferecer o Reino se não o recebermos. Por isso, diante da graça de Deus, é necessário abertura e acolhimento. Somente recebe o dom do Reino aquele que reconhece sua pequenez diante da majestade de Deus. O Reino é para os simples, humildes, para aqueles que reconhecem “a própria incapacidade de auto-salvar-se” (RUBIO, 1994, p. 39).

O Reino só se estabelece para aqueles que, sem mérito ou auto-suficiência, acolhem com humildade e alegria a Boa Nova. Para aqueles cuja única segurança está em Deus, ou seja, para os pobres (Lc 6,20), os publicanos, as prostitutas (Mt 21,31), e as criancinhas (Mc 10,13-16).



3.3 Os destinatários do Reino

A gratuidade do Reino é melhor visualizada quando analisamos os destinatários do Reino. Não está fundada sobre méritos ou grupos sociais de Israel. Os destinatários são as pessoas mais vulneráveis e desprovidas de segurança do tempo de Jesus. São os deficientes de seu tempo, que estão à margem da sociedade. Para estes o Reino de Deus é Boa Nova.

Jesus compreende que a sua missão deveria estar direcionada aos pobres6. Fui enviado para anunciar a boa-nova aos pobres (Cf. Lc 4,18). Diante da situação de injustiça e opressão o Deus do Reino vem em socorro aos mais pobres, aos marginalizados e indefesos.

O pobre é convidado a participar do Reino não porque seja melhor, mais hospitaleiro ou mais solidário do que o rico. O pobre pode ser tudo isso, mas Lucas não está falando no merecimento nem nas qualidades do pobre. É a situação miserável e injusta em que a pessoa do pobre se encontra que faz com que o Deus do Reino intervenha em seu favor (RUBIO, 1994, p. 40).


O Deus da justiça e acima de tudo, do amor, não poderia deixar de intervir exclusivamente em favor dos excluídos e desprezados da sociedade, por aqueles que nada têm.

Podemos compreender, a partir dos Sinóticos, que os pobres são caracterizados por dois aspectos. Os que sofrem pela falta das necessidades básicas, os famintos, os que lhe são privados do mínimo básico. E os que são desprezados e excluídos da sociedade.

Pobres são os que gemem sob algum tipo de necessidade básica na linha de Is 61,1s. Assim, pobres são os famintos e sedentos, os nus, os forasteiros, os enfermos, os prisioneiros, os que choram, os que estão oprimidos por um peso real (Lc 6,20-21; Mt 25,35s). Neste sentido, pobres são os que vivem curvados sob o peso de alguma carga – que Jesus interpretará muitas vezes como opressão –, aqueles para quem viver e sobreviver é uma carga duríssima.

Pobres são os desprezados pela sociedade vigente, os tidos por pecadores, publicanos, prostitutas (Mc 2,16; Mt 11,19; 21,32; Lc 15,1s), os simples, os pequeninos, os menores (Mt 11,25; Mc 9,36; Mt 10,42; 18,10.14; Mt 25,40.45), os que exercem profissões desprezadas (Mt 21,31; Lc 18,11). Neste sentido pobres são os marginalizados, aos quais sua ignorância religiosa e seu comportamento moral fechavam, segundo a convicção da época, a porta de acesso para a salvação. Poderia ser dito que são os pobres sociológicos, no sentido de que lhe é negado o ser socius (símbolo de relações inter-humanas fundamentais) e, com isso, o mínimo de dignidade (SOBRINO, 1994, p. 125-126).


Independentemente se são pobres economicamente ou se são pobres por não ter dignidade e serem socialmente desprezados, Deus, em Jesus, está ao lado deles. As diversas pregações e atitudes de Jesus mostram que os pobres são os destinatários7. O Reino de Deus pertence àqueles indefesos, que são marginalizados. É o caso das crianças que eram desvalorizadas. “Traziam-lhe crianças para que as tocasse, mas os discípulos as repreendiam. Vendo isso, Jesus ficou indignado e disse: ‘Deixai as crianças virem a mim. Não as impeçais, pois delas é o Reino de Deus’” (Mc 10,13-14).

Jesus pede que as criancinhas não sejam barradas e possam ir até Ele, pois, diferentemente dos adultos que estabeleciam relações comerciais com Deus, elas aceitavam o que os adultos lhe ofereciam como gratuidade, assim como também acolhem o Reino como dom, presente.

Igualmente os pequeninos, os camponeses, pescadores, os simples, que não têm nenhum mérito ou títulos, que não têm nada para apresentar a Deus, são os merecedores do Reino de Deus. Este é oferecido àqueles que o recebem simplesmente como um dom, àqueles que não exigem pagamento por suas falsas virtudes (Cf. Mt 10,25).

Para escândalo de muitos, Jesus apresenta os pecadores: – publicanos, prostitutas, os que exerciam profissões impuras – como merecedores do Reino de Deus. Ao serem considerados pecadores passavam a ser marginalizados e desprezados pelo sistema social. “Em verdade vos digo que os publicanos e as prostitutas vos precederão no Reino de Deus” (Mt 21,31).

Diante dessa realidade de exclusão, Jesus se põe do lado deles e estes o seguem. Pois, frente à exclusão e condenação da sociedade só lhes restava a misericórdia infinita de Deus. Estes, que estavam abertos à proposta libertadora do Reino, reconheceram a necessidade de conversão e mudança. Contudo, muitos ‘piedosos’ que se diziam fiéis seguidores acreditavam não necessitar da misericórdia de Deus pois já eram ‘puros’.

Frente à “realidade de pobreza” (SOBRINO, 1994, p. 127), Jesus busca ser um sinal de esperança no meio deles. Não uma esperança isolada, mas que vai contagiando a todos para a construção e vivência do Reino desde já.

O reino de Deus é desses pobres. Aqueles para quem é sumamente difícil dominar o fundamental da vida, aqueles que vivem no desprezo e na marginalização, aqueles que vivem oprimidos, aqueles, em suma, para os quais a vida não oferece horizonte de possibilidades, aqueles, além disso, que se sentem afastados de Deus porque sua sociedade religiosa introjetou isso neles, a esses Jesus diz para terem esperança, que Deus não é como seus opressores fizeram pensar, que o fim de suas calamidades está perto, que o reino de Deus se aproxima e é para eles (SOBRINO, 1994, p. 128).
Há universalidade do Reino quando a todos é dada a possibilidade de viver. A possibilidade de restituição da vida plena. Sendo os pobres os grandes destinatários desta Boa Nova. Sendo eles a grande maioria e até a eles, os quais nunca chegou, é chegada a vida, então podemos falar da universalidade do Reino. Do resgate da vida à todos, começando pelos mais debilitados.

3.4 Sinais do Reino

O anúncio do Reino vem acompanhado de ações, sinais de que o Reino já é uma realidade presente. A esses sinais de Jesus chamamos de milagres. Estes não entendidos como algo sobrenatural, mas sim por apresentarem a ação salvífica8 de Deus.

Os milagres são manifestações de Jesus em socorro do povo oprimido. Não são mágicos. Há uma ação por parte daquele que os busca, ou seja, “há uma busca, um pedido, um encontro e por último uma autorização”9. A pessoa, impelida pela força e necessidade interior vai ao encontro de Jesus e este tem “a capacidade de despertar na pessoa a fé do poder legítimo de Deus”10.

Esses sinais não são só curas “os cegos recuperam a vista, os coxos andam, os leprosos são purificados e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados” (Mt 11,5), mas também, e principalmente, libertação de toda forma de exclusão e opressão (Lc 8,26-39). “Os milagres não são, pois, só sinais benéficos, são também sinais libertadores” (SOBRINO, 1994, p. 138).

Toda libertação decorrente da atitude de Jesus revela o Deus do Reino que age e que busca a transformação da sociedade. Em contraponto ao Reino está o anti-reino, que oprime e massacra. Frente a estes ‘contra-sinais’, Jesus opera sinais de libertação e cura.

Os milagres fazem parte integrante do anúncio do Reino. Jesus inaugura o Reino não apenas na Palavra, mas também no combate contra as potências do mal, ‘vivificado’, seja corporal como espiritualmente. Os “retornos à vida”, dos quais alguns são miraculosos, isto é, sinais perceptíveis ao nível da experiência humana, antecipam o reino escatológico (DUQUOC, 1977, p. 80-81).


Não só com sua pregação, mas através de sinais libertadores Jesus desmascara as falsas compreensões de Reino, além de apresentar as atitudes e comportamentos dignos para fazer parte da Glória de Deus.

Outro grande sinal libertador do Reino acontece quando Jesus perdoa os pecados. Diante de uma sociedade marcada fortemente pela opressão e exclusão, Jesus acolhe e integra a pessoa restituindo sua dignidade física, moral e espiritual (Lc 15,1-2). O acolhimento de Reino produz conversão que se expressa em seguimento (Mt 9,9).

A radical atitude de Jesus resulta em escândalo para alguns, mas para a grande maioria não é só alegria, mas esperança de um mundo novo. Resulta numa verdadeira reviravolta das estruturas opressoras de seu tempo (Lc 16,19-31). Em dar comida a quem tem fome, água a que tem sede, roupa a quem está nu e a libertar os cativos, os oprimidos (Mt 25,35-36; Mc 6,30-44), pondo toda e qualquer estrutura a serviço da vida. Por isso, quando o sábado passa a ser motivo de opressão e discórdia, Jesus diz que o sábado é feito para o homem e não o homem para o sábado (Mc 2,27).

Além destes, Jesus operou muitos outros sinais de vida e libertação. Muitos reconheceram Nele a salvação manifesta (presente) no Pai. A sua vida não esteve empenhada unicamente na pregação de eminente vinda do Reino, mas através de sua vida-doação realizou sinais libertadores diante da comunidade que sofria.


Conclusão

O Reino de Deus é caminho, construção. É transformação histórica de opressão pela de libertação e justiça. É compromisso pela causa dos indefesos e vulneráveis a todo o tipo de exploração. É o paradoxo entre o , o possível de ser realizado e o ainda não, ou seja, a sua plenitude na dimensão escatológica.

Tamanha é a importância do Reino de Deus, que Jesus fez de sua vida uma doação total em vista do anúncio do Reino. Toda sua missão visava, estando em sintonia com o Pai, a instauração do Reino. Ele não fez de si o centro desta mensagem, mas sabia perfeitamente que o Reino só aconteceria na simplicidade e doação da vida.

Grande era a expectativa histórica da vinda do Reino, e muitos pseudos grupos se diziam portadores dessa Boa Notícia, contudo Jesus, dando continuidade a esta expectativa, apresenta uma nova proposta, de um Reino possível de se viver desde já, mas que antes de tudo exige conversão e mudança. Para muitos sua proposta causava escândalo, mas para a grande maioria era a Boa Nova esperada a tanto tempo.

A grande novidade da proposta do Reino era a restituição da vida, iniciando lá nos esquecidos, nos lançados para longe da sociedade, nos que não viam mais a esperança frente a situação opressora instaurada pela sociedade. Estes acolheram o Reino e fizeram dele uma nova proposta de vida que resultou no seguimento.

Anterior a toda e qualquer ação humana, o Reino é dom e graça de Deus. Não é mérito de alguns, como compreendiam os grupos contemporâneos de Jesus, mas dom imerecido. Dom este que ao ser interiorizado transforma nossa ação. Pois, não há como acolher a novidade do Reino e permanecer estáticos. Ele nos provoca, nos desafia à ação. Assim como o Reino é dom, nós devemos ser dom uns para os outros, devemos nos colocar numa atitude de serviço e humildade para com os excluídos de nosso tempo, com os menores, os pequenos.

A gratuidade do Reino é melhor visualizada quando analisamos os destinatários do Reino, sendo eles as pessoas mais vulneráveis e desprovidas de bens e de segurança. São àqueles que estão à margem e sofrem pela exclusão, tendo como único horizonte a própria sobrevivência. Visando recuperar a humanidade que de mil maneiras foi se perdendo, Jesus opera sinais de salvação e libertação; sinais de transformação e restituição da vida e dignidade.

Embora a plenitude do Reino, isto é, o seu pleno cumprimento, só se concretize na dimensão escatológica, Jesus empenhou todas suas forças em prol de que o Reino já fosse uma realidade presente. Não basta achar bonita a atitude de Jesus, é necessário acolher este dom do Reino e, também nós, hoje, operar sinais do Reino, sinais de libertação, sinais de esperança, frente os contra-sinais presentes na nossa sociedade. O caminho já foi apresentado, o exemplo foi dado, agora resta sermos sinais uns para os outros, sermos o fermento na massa do mundo de hoje.

Muitas foram as concepções de Reino de Deus durante a história, o que resultou num certo relativismo ou, talvez, desvirtuamento do sentido originário do Novo Testamento. A Igreja, em certos momentos, acreditou ser a realização presente do Reino de Deus. O apresentou, muitas vezes, como prêmio para os justos, quando não apenas como algo escatológico. Ela se ateve em exaltar a pessoa de Jesus como revelação do Reino, ao invés de apresentar as atitudes e propostas de Jesus como modelo de seguimento. Desta forma, a realidade do Reino permaneceu como algo distante e não possível de se concretizar neste mundo.

A partir de uma nova concepção de Igreja, baseada na atuação e participação ativa do povo, buscou-se resgatar a dimensão presente do Reino. Na América Latina, através da Teologia da Libertação, realizou-se um processo de volta às fontes do ideal cristão. Através de uma pastoral engajada na luta do povo que sofre, deu-se primazia à causa do pobre por acreditar que o Reino está presente no compromisso com a realidade dos pobres e excluídos de forma a transformar a realidade de morte em realidade de vida.



Referências

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THEISSEN, Gerd e MERZ, Annette. O Jesus Histórico: um manual. São Paulo: Loyola, 2002.

1 “As traduções e comentários oscilam entre as duas fórmulas sem fugir de certo modismo. Há algumas décadas, davam preferência a Reinado. Atualmente, Reino é mais corrente” (QUESNEL, 1997, p. 9). Desta forma, será mais utilizada a expressão Reino.

2


3 O sistema tribal visava o interesse comum igualitário. Não havia pobres ou ricos, sendo o poder partilhado com leis que primavam por esta igualdade, bem como pela economia comum e principalmente pela vida.

4 “O reino de Deus é uma utopia que responde a uma esperança popular secular no meio de inumeráveis calamidades históricas; é, por isso, o bom e o sumamente bom. Mas é também algo libertador, porque vem no meio de e contra a opressão do anti-reino. Necessita e gera uma esperança que é também libertadora da compreensível desesperança historicamente acumulada deste fato: quem triunfa na história é o anti-reino” (SOBRINO, 1994, p. 113).

5 A conversão não era igual para todos. Cada um devia responder de acordo com a sua realidade, a partir do grupo a que pertencia (Cf. Lc 3,10-14).

6 “Pobre é todo aquele cujos direitos são violados e que é oprimido por poderosos” (THEISSEN, 2002, p. 294).

7 Embora a fórmula de Mateus “pobres de espírito” (Mt 5,3) enfatize o espírito de pobreza, tanto no rico como no pobre, parece que Jesus quer salientar em geral é a pobreza efetiva, sendo Ele mesmo tornou-se exemplo para os demais.

8 Salvar é curar, exorcizar, perdoar, por meio de ações que afetam o corpo e a vida, restituindo a dignidade da pessoa (Cf. SOBRINO, 1994, p. 139).

9 Idéia exposta pelo professor Vanildo Zunho na aula do dia 12/05/2006.

10 Idéia exposta pelo professor Aldir Crócoli na aula do dia 19/05/2006.


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