Introdução 7 Guirlande Pour Louis Braille 9



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ÍNDICE
Apresentação 2

Prefácio 3

Introdução 7

Guirlande Pour Louis Braille 9

I - José Alberto Leitão Barata 10

II - Marco Aurélio Maltez Branco 14

III - Ana Maria de Almeida Fontes 16

IV - Fernando Manuel Abreu Matos 21

V - Claudino Arieira Pinto 23

VI - Graça Maria Martins de Brito Gerardo 28

VII - José António Lage Salgado Baptista 31

VIII - José Fernandes da Silva 35

IX - Maria Antónia Rodrigues de Carvalho Moreira Pereira 39

X - Francisco Manuel Rodrigues Alves 41

XI - Henrique Pires Ribeiro 45

XII - Maria Amália dos Santos Meira 48

XIII - Carlos Jorge Barata Gonçalves 51

XIV - Isidro da Eira Rodrigues 54

XV - Susana Alexandra Marques Cordeiro 57

XVI - José Joaquim da Silva Batista 61

XVII - José António Saraiva De Oliveira 65

XVIII - Augusto Deodato Guerreiro 71

XIX - José Adelino Figueira Guerra 75

XX - Joana Belarmino de Sousa 78

XXI - Vítor Reino 83

XXII - Jerónimo Nogueira da Silva 86

XXIII - Pedro Zurita 90

XXIV - Tim Cranmer 95

Notas 98

APRESENTAÇÃO


Mãos que lêem corações que escrevem aquilo que a alma lhes dita.

São pouco mais de duas dezenas de pessoas que testemunham a sua gratidão pelo muito que o Sistema Braille lhes deu.

Muitos e muitos milhares - talvez milhões - de outras pessoas, noutras línguas, em diferentes estilos, em todo o mundo, há mais de 175 anos poderiam manifestar o mesmo sentimento expresso neste livro.

Também eu na qualidade de pessoa cega recordo sempre com emoção aquele dia 15 de Janeiro de 1942 em que, pela primeira vez, tacteei um livro escrito em braille.

De então para cá, este sistema de leitura e escrita tem sido uma constante na minha vida e hoje, na qualidade de Presidente da Comissão de Braille, permito-me em meu nome e em nome de todos quantos comigo têm participado nas diversas Comissões de Braille e grupos de trabalho, criados para tratar desta matéria, manifestar um testemunho colectivo de gratidão pelo muito que Luís Braille fez pelos cegos de todo o mundo.

Não adianta que alguns, felizmente poucos, ignorantes ou mal intencionados pretendam fazer crer que o braille é um factor de separação entre os cegos e os que vêem. Não adianta que esses mesmos pretendam associar o braille e a bengala branca a estigmas traumatizantes da cegueira. Pelo contrário, esses dois instrumentos são como que os olhos dos que não vêem e permitem-lhes que partilhem o mundo com os demais cidadãos, como gente de corpo inteiro.

Bem haja pois, Luís Braille, pela sua sublime invenção!

Ao conceber a publicação deste livro a Comissão de Braille pretende manifestar o seu perene testemunho de gratidão ao inventor do sistema que constitui a razão de ser da sua própria existência.

O Presidente da Comissão de Braille
Orlando Monteiro

PREFÁCIO
Quando aceitei escrever uma breve introdução a este volume comemorativo dos cento e cinquenta anos da morte de Louis Braille ignorava por completo a sua natureza e, muito menos ainda, o teor dos depoimentos que o compunham. Terá sido, pensarão alguns, uma aceitação irreflectida ou, pior ainda, presunçosa, se eu estivesse convicto de que poderia acrescentar algo ao que já estava escrito.


Direi em minha defesa simplesmente que, por razões profissionais, me tenho aproximado cada vez mais do mundo dos cegos e não quis deixar fugir a oportunidade de saldar duas dívidas. A primeira é a da ignorância, pois eu, como infelizmente uma larga fatia da sociedade, desconhecia por completo uma realidade que até há algum tempo só tocava a epiderme das minhas preocupações. A segunda nasceu da leitura dos textos que integram este livro e é a dívida da gratidão pelo que aprendi e, mais do que isso, pelo modo como o aprendi. É que o que aqui está escrito irradia um calor humano único que me aqueceu a alma de uma forma imprevista e inesquecível. No fundo a dívida não se amortizou mas, pelo contrário, cresceu.
***
Há mais de vinte e cinco anos, mais precisamente em 1975, estava eu ainda em Nova Iorque trabalhando na Universidade de Columbia, vi-me envolvido num projecto experimental destinado a criar uma prótese visual. Era um trabalho discreto, conduzido por um cientista genial, Bill Dobelle, que desenhara um protótipo que consistia numa câmara de televisão montada num par de óculos, ligada a um computador, por sua vez conectado a uma placa de eléctrodos que quando excitados produziam um pequeno ponto luminoso.
Desde o início se reconheceu que provavelmente o poder de resolução deste sistema não iria permitir reconhecer uma fisionomia ou ler um jornal. Procurava-se apenas garantir autonomia e independência nas actividades do dia-a-dia. Os resultados dessa investigação persistente, ao longo de mais de duas décadas de um notável aperfeiçoamento da tecnologia, são agora bem conhecidos e todos nós que continuamos envolvidos no projecto, admitimos que o sonho está próximo de se tornar uma realidade.
O que não é sabido é que, no início da nossa investigação, trabalhávamos simultaneamente num outro projecto que pretendia explorar a possibilidade de transformar o estímulo visual em percepção táctil. Para tal aplicavam-se placas contendo pequenos eléctrodos em zonas do corpo como o abdómen ou o antebraço. Aqueles estavam incluídos uma pequena placa de teflon e dispostos em três filas de três elementos como as teclas de um telefone digital. A experiência consistia não só em determinar o limiar de intensidade do estímulo - de modo a não chegar a um choque doloroso - mas também a distância entre os pontos, a fim de serem percebidos de forma independente. Tal como na escrita Braille procurava-se assim criar letras ou números, e eu passei largas horas como voluntário nesta experiência na tentativa de criar um "novo" Braille. Devo dizer que era um processo de aprendizagem complexo, tal como sucede, com a leitura e escrita Braille. Suponho que no início a aprendizagem destas deve confundir os sistemas neuronais porque isto de escrever da direita para a esquerda, para depois ler da esquerda para a direita puxa certamente pelo miolo. É certo que Leonardo da Vinci também escrevia desse modo mas para ler a sua escrita servia-se, ao que consta, de um espelho...
***
Tenho ensinado que na minha profissão a mão serve três propósitos. Em primeiro lugar para segurar utensílios, no meu caso instrumentos cirúrgicos. Em segundo, para investigar, através da palpação da superfície ou do toque das cavidades acessíveis. Finalmente, e esta função tem sido cada vez mais esquecida, serve também a mão para consolar e afagar.
A mão que se celebra nestas página é a segunda das três, também chamada mão "noética" ou do conhecimento. Eu, que pensava que tinha todas três bem domesticadas, quando acabei de ler este volume resolvi passar timidamente os dedos pelos caracteres inscritos no topo da carta que o acompanhava. Percebi então que os meus pobres dedos não estavam preparados sequer para separar os caracteres, quanto mais para discriminar um sentido naquilo que eu percebi apenas como uma erupção de vesículas sem regra.

É claro que na minha profissão de médico se utilizam quatro sentidos. O quinto, o do gosto, caiu em desuso, embora há alguns séculos atrás cabesse aos provadores de urina o diagnóstico do excesso de açúcar da diabetes. Ao longo destes anos tenho cuidado sobretudo das moléstias que afligem os nervos da audição e da visão. Se, na aparência apenas, me é possível talvez imaginar o mundo da escuridão, mais difícil é perceber o mundo do silêncio "É um mundo diferente, este do silêncio", dizia-me uma doente na manhã a seguir a uma intervenção que a deixara irremediavelmente surda. Talvez por isso me tocaram particularmente os depoimentos de quem não via e não ouvia. Um deles assinalava como o Braille lhe tinha permitido escrever um diário, no fundo a expressão escrita mais pura do diálogo íntimo com nós próprios. Mas também, não raramente, tenho aliviado o sofrimento de quem, por lesão da medula espinhal ou dos nervos da periferia tem entorpecido o sentido do tacto.


A íntima associação dos sentidos da visão e do tacto, uma sinestesia de singular eficácia, é reconhecida há muito. Bichat, um dos fundadores da anatomia, escrevia que "em anatomia as nossas sensações devem nascer tanto do tacto como da visão". É sabida a tendência proibida que temos, quando contemplamos uma pintura ou uma escultura, para as percorrermos também com as polpas dos dedos. Bernard Berenson, um dos mais famosos historiadores de arte, dizia que o pintor só podia levar a cabo a sua tarefa emprestando valores tácteis às impressões retinianas. Fernando Gil, um eminente filósofo, escreveu que "o tacto percebe as variações da textura das mesmas superfícies que reflectem a luz e a informação visual está, também ela, contida nestas descontinuidades". Os textos que constam deste livro são, além da homenagem justíssima ao homem que devolveu a liberdade a quem a natureza a tinha subtraído, são também a celebração deste sentido discreto, afectivo e eficaz. Por isso cito aqui a observação de Dom Francisco Manuel de Melo referida num dos textos: "sem tacto não é vivente porque a vida está mais formalmente em este sentido que em outro."
***
Confesso que parti para a leitura deste livro com a suspeita que ela era apenas um açucarado exercício hagiográfico. Mas o que afinal encontrei foram testemunhos de vida, a afirmação biográfica de uma luta e de um triunfo, o que muito me consolou pois sou muitas vezes forçado a aceitar a derrota. Todos, sem excepção, estão impregnados de um invencível e contagiante gosto de viver; todos sacudiram a resignação cabisbaixa.
Há um outro traço biográfico que os une. Em todos a cegueira começou cedo. Para alguns a expressão tão bela que usamos para o acto de nascer - "dar a luz" - não se aplica, porque nunca a viram. Outros, perderam-na pouco depois, por um brutal acaso. A todos eles, contudo, se aplica a frase do Padre António Vieira: "fizeram dos olhos uma espécie de espelhos virados para dentro".

Ponto comum nestes testemunhos, que a mim igualmente me tocou profundamente foi o gosto manifestado pela leitura. Costumo dizer que fui educado mais com livros do que com brinquedos. Tal como eu, eles sentiram decerto a diferença que se observa naqueles que não lêem: podem ser cheios de bondade e plenos de bom senso, mas vivem num mundo pequenino. Num dos textos mencionavam-se autores que igualmente me encantaram, Salgari e o seu Sandokan, Simenon e o seu Maigret, Jorge Amado e o seu cortejo de baianas. Li-os todos. Admirei também a espontaneidade do comentário a uma obra do "desgraçado" do Aquilino, um mestre áspero da literatura portuguesa, "que ia desenterrar às profundezas da língua portuguesa cada palavra mais comprida e complicada".


Foram para mim particularmente interessantes os comentários acerca do risco de substituir o livro pelas novas tecnologias. De facto muito se perde quando se perde o livro, objecto quase corpóreo, com o qual se cria uma intimidade que, no caso dos cegos, se reveste, como aqui se escreve, "de uma clareza e luminosidade impressionante". Mas esta intimidade exprime-se também na capacidade escrever nas suas margens notas que assinalam as pegadas da nossa passagem, que é o diálogo que sustentamos com o autor.
Finalmente este livro é também um documento impressionante de gratidão. Todo o ensino é uma dádiva gratuita de nós mesmos cujo valor muitas vezes nos escapa no tempo em que acontece. Aqui, não há que expiar o feio pecado do esquecimento.
O Padre António Vieira, que tanto pregou sobre a cegueira, real e metafórica, dizia que "a natureza quando tira o sentido da vista deixa o sentido da cegueira". Este é um sentido que brota da inteligência e da alma de quem a sofre e que consegue encontrar nas raízes de si mesmo, a força redentora que o liberta. Assim nós, os outros, saibamos aprender com esta lição.

João Lobo Antunes

Agosto 2002

INTRODUÇÃO


A invenção do Sistema Braille1 (1825) veio possibilitar aos cegos de todo o mundo libertarem-se do analfabetismo e da ignorância em que vinham vivendo e começarem a ascender a patamares de educação e de cultura cada vez mais relevantes, melhorando assim, acentuadamente, a sua condição social. Foi também graças a este notável invento que, poucas décadas volvidas, já se afirmavam entre os deficientes visuais cultos destacadas personalidades, algumas das quais haveriam de ficar na História. Não surpreenderá, portanto, que a Comissão de Braille2, quando se completam 150 anos sobre a morte do inventor deste Sistema, Louis Braille (1809-1852), tenha querido homenagear a sua memória, publicando uma colectânea de testemunhos de alguns utilizadores do braille3, sobre a importância que este Sistema assumiu no processo da sua realização pessoal, nos planos educativo, profissional, cultural, afectivo, interpessoal, etc. É essa colectânea que agora aqui se apresenta.
Os depoimentos nela contidos correspondem aos convites aceites, dentre os que a Comissão de Braille dirigiu a algumas dezenas de potenciais participantes de língua portuguesa, entre os quais se conta uma universitária brasileira. A par destes testemunhos decidiu a Comissão de Braille integrar outros textos, de três autores estrangeiros - dois já falecidos - cujos conteúdos se harmonizam perfeitamente com a matéria versada, ao mesmo tempo que conferem à colectânea uma dimensão histórico-geográfica mais alargada, contribuindo também, deste modo, para ampliar a dimensão e o significado da homenagem.
A Comissão de Braille procurou reunir testemunhos de um conjunto de indivíduos que reflectisse uma participação equilibrada, representativa por sexo, idade e profissão. Dos vinte e três autores de língua portuguesa, dezasseis são do sexo masculino, pertencendo ao sexo oposto apenas sete. Dois não atingiram ainda os vinte e cinco anos, dois estão compreendidos entre os vinte e cinco e os quarenta, quinze situam-se entre os quarenta e os sessenta, ficando quatro acima dos sessenta. Profissionalmente, estes utilizadores do braille apresentam-se distribuídos por actividades como o ensino, o exercício de psicologia, a formação de formadores, a prestação de serviço de leitura, a produção de livros braille, a interpretação musical, o serviço de telefonista e a actividade doméstica. Dois destes utilizadores do braille encontram-se aposentados.
Os textos de autores estrangeiros não foram escritos para figurar nesta colectânea. Mas a Comissão de Braille, convenientemente autorizada, decidiu integrá-los, não só porque se ajustam perfeitamente à intenção que ditou esta publicação e ao espírito que norteou a sua preparação, como por constituírem também um inegável contributo para a sua valorização. Assim, e para manter uma perspectiva histórica, a colectânea abre com o último soneto de "Guirlande Pour Louis Braille", uma série de dez sonetos escritos por Firmin Le Guével em homenagem a este genial inventor, algum tempo depois da sua morte. A finalizar encontram-se os outros dois textos de autores estrangeiros. Um, na forma de carta aberta a Luís Braille endereçada pelo espanhol Pedro Zurita, em 1996, de Montevideu, no decurso da realização de um Fórum para a Alfabetização promovido pela União Mundial de Cegos. Pedro Zurita é uma personalidade bem conhecida em todo o mundo, visto ter sido Secretário-Geral desta Organização Internacional desde a sua fundação, em 1984. Anteriormente, já havia exercido idêntico cargo durante muitos anos no Conselho Mundial para a Promoção Social dos Cegos, uma das duas organizações que se fundiram, em Riade, em 1984, para criar a União Mundial de Cegos. O outro texto é constituído por um apanhado de fragmentos de dois artigos escritos pelo americano Tim Cranmer (1925-2001), que foi Presidente do International Braille Research Center e Director para a investigação na National Federation of the Blind, NFB, dos Estados Unidos. Foi um dos seus mais dinâmicos e esclarecidos impulsionadores no domínio da tiflologia4, um notável pensador e um destacado inventor no campo das ajudas técnicas. Escreveu em várias revistas, participou em grande número de conferências e congressos, proferiu conferências em várias Universidades, nos EU e no estrangeiro. Infelizmente, por motivo de doença não pôde corresponder a dois convites enviados de Portugal, que amavelmente aceitara. Um, da Comissão de Braille, para contribuir com o seu reputado testemunho para esta colectânea. O outro, da ACAPO, para participar na Conferência sobre "A Sociedade da Informação e a Deficiência Visual", que esta Associação promoveu em 19 de Novembro de 2001. Fez-se representar. Mas a Conferência em que esperava estar representado já não decorreu durante a sua vida. Quatro dias antes do início, em 15 de Novembro, a morte pôs termo à doença de Tim Cranmer.
A Comissão de Braille não pode deixar de manifestar aos autores e seus representantes, bem como à Association Valentin Haüy, o mais caloroso reconhecimento pelas colaborações recebidas, tão pronta e incondicionalmente prestadas, que tornaram possível a publicação desta sequência de testemunhos, bem demonstrativos da importância do papel que o braille continua a desempenhar para os deficientes visuais, como meio natural de literacia, capacidade imprescindível ao seu desenvolvimento e integração educacional, familiar, profissional e social.
GUIRLANDE POUR LOUIS BRAILLE
Firmin Le Guével
X
Braille ainsi ne goûta, du festin de la vie,

Que des mets par les autres dîneurs repoussés:

Le jour, béni à peine, ôté aux yeux blessés;

Une existence austère et jusqu'aux bords remplie;


Et, pour en voir finir les jours si tôt passés,

Quelque chambre anonyme en une infirmerie;

Enfin la tombe étroite et pas souvent fleurie

Dans l'enclos villageois, parmi ses trépassés.


Mais, sachant où trônait l'unique récompense

Qu'eût jamais ambitionnée son espérance,

De la gloire d'en bas il dédaignait le lot.
Elle veillait pourtant, débitrice fidèle,

Et c'est son vol qui court lui porter d'un coup d'aile



La bénédiction secrète des yeux clos.
I - JOSÉ ALBERTO LEITÃO BARATA
Nasceu no começo da década de 50. Após um grave descolamento de retina que lhe sobreveio quando frequentava a 3ª classe, iniciou-se no braille com nove anos no Centro Infantil Helen Keller. Professor de História no Ensino Secundário há cerca de 25 anos, nutre uma paixão especial pela investigação histórica, particularmente no domínio da Expansão Portuguesa.
OS PONTINHOS DE UMA VIDA
Para mim, o braille teve um rosto e um nome. Deveria talvez antes dizer que, para mim como para tantas outras crianças da minha geração, o braille teve um perfume próprio, uma voz meiga; foi uma presença, uma mão amiga que soube conduzir as nossas sobre aquele emaranhado confuso de pontinhos que se amontoavam na superfície rugosa do papel. Para mim, como para elas, o braille chamou-se Déline; Dona Déline.
Todas as manhãs lá estava ela, a dona Déline, à nossa espera. Sentava-se connosco à mesma mesa, naquela sala grande, iluminada por três imensas janelas que se rasgavam sobre o verde das árvores do jardim. Nunca se zangava; nunca levantava a sua voz, (uma voz fresca e doce que soubera cantar, quando jovem), mais do que uma senhora deve fazê-lo; dona Déline era uma senhora.
Um pontinho é um a; Dois já fazem um b. E já dava para escrever aba. E se fossem os seis pontinhos, todos juntos, era um e agudo; e já se podia escrever bébé!
O problema era só que, para se poder ler da esquerda para a direita, tinha que se escrever da direita para a esquerda; e lá ficavam os pontinhos todos ao contrário! Mas não era nada que não se pudesse aprender, com um pouco de paciência... Por isso: ao trabalho!...
E lá voltava o ruído monótono dos ponsons (dona Déline disse sempre em Francês; e tinha razão, que punção5 não é palavra que se ensine a uma criança!), furando o papel para dentro dos buraquinhos das pautas6, sobre a mesa: tuk, tuk, tuk... E os dedos iam aceitando, com o tempo, aquela aspereza, compreendendo a linguagem dos pontinhos que começavam a agrupar-se, obedientes, em letras primeiro, em palavras depois, desembocando por vezes em frases, em ideias. Lentamente, regressando quantas vezes atrás, para abarcar o tamanho todo das palavras mais compridas, iam os dedos tentando abrir caminhos entre as linhas que começavam, finalmente, a ser rectas.
E, no entanto, aquela palavra braille, não fora fácil de pronunciar, lá em casa; sei-o agora; ou melhor: posso adivinhá-lo, hoje, que sou pai, por minha vez. Como deve ter sido comprida aquela tarde em que a professora chamou a mãe à escola, para lhe dizer que o garoto parecia mostrar algumas dificuldades na leitura; que, talvez estivesse a perder a visão... que convinha avisar o médico... Depois, as consultas multiplicando-se; os meses passados em casa, os olhos tapados, como que para tentar guardar lá dentro a luz que parecia querer escapar-se, numa procura desesperançada de evitar o que se adivinhava: o descolamento da retina; (é curioso como esta expressão ainda hoje me soa estranha, como se não tivesse nada a ver comigo!)

Depois, foi a viagem ao estrangeiro; a operação; aquele tempo todo longe da escola, a saudade dos amigos... E, ao regressar, a decisão que tinha que ser tomada: Era melhor transferir desde logo a criança para a sala do braille; a adaptação seria simples; afinal a escola era a mesma, era apenas uma questão de mudança de sala!


Para mim, foi verdade: foi tão somente entrar na sala de Dona Déline; a tal, das janelas grandes, dando para o verde do jardim. Lá em casa, deve ter sido mais do que isso: o miúdo ia aprender braille... Já não se podia fechar mais os olhos: atrás da palavra braille seguia, de perto, aquela outra, mais curta e portuguesa: cego; como deve ter custado a pronunciar, a princípio...
Mas, afinal, não há nada a que uma pessoa se não habitue... Nem que seja por amor... Ora, por sorte minha, (que sorte a minha!), era a minha mãe dessas pessoas que, falando pouco em amor, têm o jeito de o praticar todos os dias, mesmo sem dar por isso; o jeito, e a inteligência, que também é uma coisa que convém que se tenha!
E assim, com inteligência e amor, lá se foram abrindo as várias portas: depois da da sala de braille, muitas outras. Algumas provações chegariam ainda. Por exemplo: a bengala, foi muito mais difícil do que o braille... E, quem diria, hoje é uma boa amiga, vai sempre à minha frente, onde quer que eu vá! Mas houve tempos em que tive medo, em que senti vergonha, em que a escondia sempre que pudesse! Pois é: nem sempre é fácil fazer uma amizade... Quanto ao braille: esse, mostrou desde logo o que podia fazer por mim: lembro-me ainda bem da alegria que foi poder levar para férias o meu primeiro livro. Podia agora sentar-me ao lado da minha irmã, nos degraus daquelas escadas compridas (eram 23, os degraus; sempre gostei muito de números!) que levavam à varanda, por onde se entrava para a cozinha; ela lendo o seu livro; eu, lendo o meu! Nunca esquecerei o título: O Romance da Raposa; do enredo, francamente, já não me lembro; é que o desgraçado do Aquilino ia desenterrar às profundezas da língua portuguesa cada palavra mais comprida e complicada! Na realidade, creio que não escrevia para crianças da minha idade, muito menos iniciando-se no braille; mas... o que fazer, se era a única coisa que havia disponível, lá na imprensa do Porto7?! Não sei, de facto, o que aconteceu à raposa; mas lembro-me ainda bem da alegria que foi chegar ao fim da leitura, virar a última página do livro!
Muitos outros livros se seguiriam; e depois, vieram as máquinas de escrever: a de braille8 e a outra; e o tuk tuk dos ponsons transformou-se num mecânico e rápido tchak tchak. E depois, chegou a cassete, e o livro gravado; tão prático, tão sonoro... boa parte dos livros das livrarias, esses livros que eu tanto gostava de tocar, de sentir, de folhear e de cheirar, estava agora ao meu alcance; podia agora ouvir três livros, por cada um que lia dantes!
E estava quase a esquecer-me do meu velho braille, quando recebi, da minha namorada, (a primeira namorada), uma das mais doces prendas que alguém jamais me deu.
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