IntroduçÃo a teologia pe. Ilson Luis Hübner cm a situaçÃo do ser humano diante da questão de deus



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INTRODUÇÃO A TEOLOGIA

Pe. Ilson Luis Hübner cm

A SITUAÇÃO DO SER HUMANO DIANTE DA QUESTÃO DE DEUS.

No mundo em que vivemos podemos perceber um grande esfriamento da dimensão espiritual do ser humano.

A dificuldade do anúncio da Boa Nova exige muito mais do que somente tirar as vestes, ou mudar a linguagem. Faz-se necessário reconhecer a dificuldade de se fazer entender a fé, bem como, a insegurança do ato crer.

Existe na vida do fiel a ameaça da incerteza que, em momentos de tentação, revela de modo repentino e com toda a dureza a fragilidade de tudo que temos como certo e verdadeiro.

Desta forma o fiel é sufocado pelas suas duvidas e angustias, e dá-se conta que no encontro com o incrédulo, este também é sufocado a respeito de sua incredulidade e da possibilidade da totalidade do mundo por ele criado não ser verdadeiro. Portanto, a duvida faz parte do nosso crer.

As Perguntas: e Se? Pode ser verdadeiro? Faz parte da vida do crente e da vida do não crente.

Ninguém é capaz de colocar Deus e o seu reino diante do outro sobre uma mesa, de tornar este Reino algo palpável. Nem mesmo o fiel é capaz disto. Tanto o fiel como o incrédulo participam cada um a sua maneira, da duvida e da fé. Desde que não se escondam de si mesmos e da verdade do seu ser.

O cristianismo necessita esclarecer o que significa dizer: EU CREIO!

O que quer dizer eu creio na boca de um cristão nos dias de hoje, nas condições de nossa existência atual e do nosso posicionamento, de se fazer presente diante da realidade como um todo?

O Antigo Testamento não tem por principio o testemunho de fé, mas sim, a Lei. Ele é um primeiro lugar uma forma de vida, ela ordenava a vida diária do Povo de Deus.

Na Idade Média, época da cristandade, também não se deve ter a doce ilusão de que todos eram cristãos exemplares, havia somente alguns que davam testemunho de sua fé. E o motivo desta falta de interesse é porque Deus era compreendido como um ser que estava fora de nossa realidade do passível do tocável, longe do campo visual, e continuava sempre fora deste campo mesmo que este campo de visão seja expandido.

Portanto o crer não é simplesmente uma constatação disto ou daquilo, mas sim uma forma básica de relacionar-se com o ser, com a existência, com o próprio e com a realidade. Ter fé a aceitar que no mais intimo de nosso ser há um ponto que não pode ser sustentado pelo que é visível, revelando-se como indispensável para a nossa existência. Portanto a fé sempre, em todos os tempos carrega no seu intimo o risco de aceitar como verdadeira realidade e fundamento, aquilo que é por natureza invisível.

Todo ser humano precisa de alguma forma tomar, quer queira ou não, posição no âmbito das opções fundamentais, e para o ser humano não há outro modo de fazê-lo senão pela fé. Todo ser humano precisa crer de alguma maneira.

Recorrendo a linguagem tradicional podemos dizer: crer segundo o modo cristão de ter fé significa compreender a nossa existência como uma resposta a Palavra, ao Logos, que não podemos produzir mas apenas receber, já nos foi dado de modo que não precisamos tão somente aceitá-lo confiando-nos a ele. É aceitar a opção de que o invisível é mais real que o visível.

A fé cristã se dá no encontro com alguém: Jesus de Nazaré. Jesus é a testemunha do Pai, por meio dele o intocável tornou-se tocável e o distante tornou-se próximo. Ele é a presença do próprio eterno no mundo. Ele se entrega a nós como amor que ama também a mim, dando sentido a minha vida, faz com que a minha vida seja vivida de forma digna, ou seja: “vale a pena ser vivida”.

A fé cristã encontra o sentido de ser vivida na certeza de que sou conhecido e amado, de que posso confiar Nele com atitude de criança que sabe ser acolhida com todos seus questionamentos no intimo do ser de Deus.

Todas estas certezas não fecham a possibilidade da reflexão, do questionamento. És tu realmente? Pergunta João Batista o profeta que havia mandado seus discípulo seguirem Jesus, reconhecendo nele o maior, para o qual pode servir apenas de precursor.

És tu realmente? O fiel experimenta sempre esta escuridão em que o protesto da descrença o envolve como uma prisão escura e intransponível. Esta é uma pergunta que temos que fazer não apenas para resguardar a honestidade de nosso pensamento, mas em virtude da lei interno do amor que quer conhecer cada vez mais aquele que por amor deu o seu SIM, para poder ama-lo cada vez mais: Creio em ti Senhor Jesus de Nazaré, pois tu és o sentido do mundo e da minha vida.



UM PONTO DE PARTIDA - DEUS

É necessário antes de começar o estudo teológico propriamente conhecer o ponto de partida. Na tarefa teológica, procura-se expressar de forma nítida e detalhada a natureza de Deus, os seus planos para com a humanidade. Como Deus é além da criação. Deus é maior que a compreensão humana, desta forma, todo esforço para definir a Deus é de início impossível.

Da origem grega, a palavra teologia quer dizer simplesmente “palavras sobre Deus”. É mais especificamente a disciplina referente ao estudo de Deus. “Definir” literalmente quer dizer, “colocar limites”. Assim, a tarefa da teologia é oferecer parâmetros definidos para explicar e comunicar verdades. Qualquer descrição que se possa fazer será sempre limitada.

Em decorrência da finitude humana, há também a questão do ponto de partida no qual se encontra o teólogo. Todos nós temos conceitos, experiências, que são a base para o nosso caminhar, da nossa compreensão e visão do mundo. Estes pontos de partida com as quais cada indivíduo trabalha, são distintos em cada ser humano, sendo frutos de culturas e visões diversas.



ESTUDAR OU FAZER TEOLOGIA?

Uma outra atitude importante a ter presente, é quanto a alternativa: ESTUDAR OU FAZER TEOLOGIA? A opção recai aqui para o FAZER TEOLOGIA não é só um SABER a ser transmitido e que alguém se apropria. Teologia é coisa viva, nos movimenta, nos transcende, nos puxa, impulsiona para frente. Não se pode imaginar que teologia seja resposta pronta e que sirva como um CATECISMO. Nesse sentido para fazer teologia tem que se estar comprometido com ela, é uma obra ABERTA; Uma obra em que o artista principal é o Espírito de Deus.



FAZER TEOLOGIA

O estudo teológico tem como função assegurar que as declarações e posicionamentos teológicos que são vivenciados ou declarados no dia-a-dia sejam coerentes com o desejo de Deus, bem como, corrigir os erros que acontecem tanto nas decisões práticas e nas opiniões no âmbito secular como no religioso.

A Teologia como ciência deve falar ao homem moderno e para os problemas deste ser moderno. Na teologia espera-se fornecer a base para um diálogo entre posições divergentes, abrindo e definindo limites aceitáveis para posicionamentos doutrinários específicos.

“Doutrina” quer dizer “ensino”, posicionamento sobre a verdade que se está sendo repassada a outros. Ao repassarmos estes ensinamentos doutrinários, devemos estar cientes que em certos casos não é possível tomar uma posição com segurança absoluta. Nem sempre é possível chegar a certezas absolutas, pois o ser humano é limitado quando necessita definir aquilo que é além de si. Chega-se também a um ponto a partir do qual é simplesmente necessário depender de Deus e confiar, pois a é relacionamento maduro e necessário para esta caminhada. Nossa capacidade de ver, analisar a realidade é limitada, o olho humano não enxerga além de certo ponto. Isto nos recorda da necessidade de uma entrega de confiança em Deus.

O enfoque, no entanto deve estar em conhecer a Deus e confiar, mesmo quando não se pode acertar com precisão todo detalhe das verdades que devemos aceitar. O essencial a ser declarado na teologia está posto (revelado) aos nosso olhos e corações. Há detalhes, porém, que estão além do alcance de uma definição humana. Quando não se pode estar bem certo em relação a um ponto de estudo teológico o mais saudável é manter o assunto em aberto.

O QUE É TEOLOGIA

Theós: Deus

Logos: tratado, estudo, SABER, CIÊNCIA.

Teologia: atividade da fé que deseja saber:
Teologia - É a ciência do diálogo entre Deus e o homem. Como se faz isso?

O paradigma desse diálogo é a história do povo de Deus na bíblia. E por isso a concentração em temas bíblicos. É importante salientar novamente: É sempre diálogo.


O OBJETO MATERIAL: o objeto material é sobre o que se processa no conhecimento. Em teologia o objeto material é DEUS. Mas não só Deus. É Deus e tudo o mais, a criação a salvação. Tudo pode ser objeto quando lido a luz da fé e da revelação.

É evidente que Deus é o primeiro objeto. O mundo, o homem são objetos segundos. Como diz Tomás: “A teologia não trata por igual de DEUS e das criaturas, mas de Deus principalmente, e das criaturas na medida em que se relacionam com Deus como a seu princípio ou fim”.



TEOLOGIA PARA QUE?

Estamos aqui diante de algo muito importante no universo teológico. Como perspectiva de introdução à teologia é importante destacar qual o da teologia, qual a sua missão.



Qual o objetivo, a finalidade da teologia?

Em resumo daria para se dizer que teologia não existe para si mesma. Ela existe para outra coisa: a fé, o amor, a prática evangélica, enfim a vida cristã. Na história podemos perceber três acentos na finalidade da teologia. Teologia serve para conhecer, conhecer para amar, e amar para praticar. Nessa formulação ficam sintetizadas as três correntes que discutem a finalidade da teologia.



CONHECIMENTO AMOR AÇÃO 1-(TOMISMO) 2- (VICENTINISMO) 3- (LIBERTAÇÃO)

1- Direta e imediatamente a teologia existe para conhecer os desígnos de Deus. É uma finalidade irrecusável. Se a teologia não se propuser esse objetivo ninguém mais se proporá. Isso é fundamental.

2- Indireta e mediatamente existe para amar e servir a Deus. Há uma finalidade decisiva: praticar a vontade de Deus. Esse deve ser um objetivo sempre presente no teólogo cristão.

3- A teologia existe também como práxis de transformação tanto no nível pessoal como no nível estrutural.



TEOLOGIA E MÉTODO

Teologia não se faz espontaneamente. Espontânea é a fé. A teologia, ciência da fé, exige método. Nada se faz com rigor sem método rigoroso. E o que se entende por método?

QUAIS OS ELEMENTOS E QUAIS AS SUAS ARTICULAÇÕES INTERNAS DO FAZER

TEOLÓGICO?















TEOLOGIA








O método tratará de todos esses elementos em sua articulação interna no fazer teológico. É disso que ser trata quando se fala em método em teologia.

REGRAS DE ARTICULAÇÃO: A articulação desses elementos obedece a uma logicidade no fazer teológico, por exemplo:

- A FÉ deve ter a primazia absoluta na teologia

- A Bíblia é o primeiro testemunho a ser ouvido

- A Razão deve estar a serviço da compreensão do dado revelado

- A prática é a uma fonte de teologia, assim como uma de suas finalidades.

- A linguagem da teologia é a da analogia, pois só ela se adéqua ao mistério.

- O magistério é o critério de autenticidade etc...

CRITÉRIOS PRA QUE A TEOLOGIA SEJA CONSTRUTIVA - VALIDA

Fidelidade a tradição: é necessário que o teólogo seja um sujeito fiel, não pode inventar verdades, tudo o que afirma deve estar em sintonia com a Tradição, a Revelação e o Magistério. A teologia é uma atividade que interpreta, atualiza as verdades da fé.

Inteligibilidade: é uma interpretação crítica, questionante, argumentativa, que se faça entender em função da iluminação da fé.

Potencialização da vida cristã: a teologia esta a serviço da vida. Os dados da fé promovem uma relação com Deus, bem como, uma relação com o mundo, com a história humana e pessoal do crente.

A prática teológica com mais forte razão não pode terminar no puro saber, mas no compromisso da fé e da caridade, no ministério da palavra e na luta pela libertação, enfim, na Práxis. TEORIA- PRÁTICA= PRÁXIS (Reflexão feita –ação - ação refletida).

Não basta saber O QUE, mas importa saber para QUE. Em teologia é importante a pergunta: a quem interessa? A verdade teológica deve fecundar a vida e produzir vida. A teologia é portanto um ministério e o teólogo um servidor, servidor da Palavra em favor do POVO. Para isso não se pode fazer teologia alienada, desligada da realidade que deve iluminar.

A FÉ REVELADA COMO FONTE DO CONHECIMENTO TEOLÓGICO:

A pessoa que tem fé busca saber sobre esta fé, quer conhecer a verdade, e de modo especial como esta fé conhecida implica na sua vida e seu caminhar. A fé possui dentro de si a curiosidade: quer se conhecer, tem dentro de si um autodinamismo que a leva a se autocompreender. É portanto: a fé buscando entender (S. Anselmo). Isto veremos a seguir.

A fé se expressa através de três componentes principais: a experiência, a inteligência e a prática.

A experiência relaciona-se sobretudo com o afeto e a intuição;

A inteligência com a cognição;

A prática com as normas.


  1. A fé palavra – na teologia o primado obsoluto é a Palavra de Deus, portanto, a teologia é a reflexão critica da práxis (ação transformadora) histórica, a luz da Palavra de Deus. A teologia não é uma reflexão sobre a doutrina mas sim sobre a própria revelação como evento histórico.

  2. A fé experiência – a experiência da fé é anterior a Palavra da fé e por isto a determina. A Palavra gera a experiência, que determina a palavra e o conhecimento da fé.

  3. A fé prática – a pratica não gera revelação mas a explicita, provoca o conhecimento teológico e verifica a sua profundidade. A prática interpela a fé palavra, atualizando-a e contextualizando-a da mesma forma a Palavra interpela e questiona a prática.

A nível da vida cristã a teologia não olha somente para a sua profundidade, para a autenticidade de suas afirmações. Ela olha seguramente do mesmo modo para a sua prática, para a sua fecundidade, se suas verdades afirmadas são produtoras de vida.

A unidade destes três elementos se exprime de modo particular no culto, onde a pessoa passa a ter conhecimento acerca das coisas divinas e faz a experiência das mesmas e por fim se dispõe a obedecer as sua exigências.



RELAÇÃO FÉ E TEOLOGIA

É próprio da fé levar o crente a buscar compreender o que acontece em sua vida, desta forma, acaba por gerar neste crente uma auto compreensão (encontro com o eu), fazendo nascer um novo ser. A fé conversão torna-se então a realidade fundadora de uma nova visão de mundo, de uma nova experiência da vida e de uma ética igualmente nova.

A teologia é um trabalho de inteligência da fé, ou, dito de forma mais precisa, é o trabalho da fé que busca se compreender a si mesma, e, nessa compreensão, crescer como fé. Não se trata de uma dialética entre fé e inteligência como dois termos iguais. A fé é o fundamento, e a racionalidade da inteligência é um instrumento e um serviço para a fé.

Mesmo tendo esta consciência de que a fé é anterior ao processo teológico como ciência, podemos afirmar que é impossível que haja fé sem que tenhamos um mínimo de reflexão sobre esta fé. Esse é um momento natural espontânea da própria fé. Desta forma toda pessoa é também teóloga, pelo menos em grau mínimo.



Pode-se fazer teologia sem ter uma experiência de fé?

FÉ NO MISTÉRIO

O pressuposto dos pressupostos é a fé no mistério. Esse pressuposto tem relação com o caráter próprio do fundamento da TEOLOGIA: Deus. E a teologia trata do MISTÉRIO DOS MISTÉRIOS: DEUS. Quem se propõe fazer teologia tem que saber que se está pisando em terreno misterioso e para isso é bom que soe aos ouvidos aquela voz de Deus dirigida a MOISÉS: “Tire as sandálias dos teus pés, porque este lugar em que está é uma terra santa” (Ex, 3,5). Só com essa atitude de reverência religiosa consegue-se penetrar e avançar no mundo da teologia. Sem essa atitude básica corre-se sério risco de praticar uma teologia vazia de Deus.



Nesse sentido é que se diz que não se pode fazer teologia sem fé...E quando se diz FÉ quer-se dizer que estamos diante do sagrado e misterioso. A fé acontece antes e depois de toda a palavra, de toda a tentativa de SABER, não se tem fé porque se conhece, mas apesar do conhecer. A teologia não é a própria fé, a teologia procede da Fé, interprete-a, empenha-se em compreendê-la, especialmente através de uma reflexão sistemática.

Não tenhamos a pretensão e o desejo de tudo conhecer e tudo desvendar, tirar o véu e ver face a face. Isso é uma tentação, é preciso deixar o mistério ser mistério e entrar na dinâmica dele e crer por causa disso. Se buscarmos prova para tudo, a nossa fé não se sustentará.

A teologia é uma auto-compreensão da própria fé. Isso exige que o próprio teólogo, quando faz teologia, seja um sujeito de fé. Teologia não é oração nem propriamente evangelização. A teologia lança mão dos métodos científicos que lhe estão disponíveis, lança seu olhar para o momento anterior e posterior. Anterior porque sua motivação se confunde com a própria experiência que o teólogo faz em sua fé e com a exigência de compreender esta fé a partir desta experiência. Posterior porque ela motiva um crescimento positivo da própria fé, inclusive através da crítica ou purificação, e pode desencadear em evangelização, não apenas em comunicação científica. Em outras palavras: a fé é uma fonte e uma plataforma anterior e mais larga do que a teologia, e não há teologia real sem fé.

A fé é um ato de liberdade e de convicção, uma experiência essencialmente livre, que nunca é captada inteiramente pela ciência. É comparável ao amor, que não se deixa descrever inteiramente pela visibilidade dos gestos do amor. Por mais que se utilizem os instrumentos modernos das ciências para observar, pesquisar, fazer exegese, catalogação, comparação, medição, análise, crítica histórica, etc. a teologia é, antes de tudo, o testemunho do uma experiência mística.

Fé e teologia se integram, há entre elas uma relação vital; podemos afirmar que a fé implica dentro dela a teologia – em todo ato de fé há teologia implícita; e por sua vez, a teologia explicita a fé – há na teologia uma fé explicitada.

Concluindo: a fé é estrutural e temporalmente anterior a teologia: antes do momento teológico, a religiosidade vivida é, em primeiro lugar, a escuta de um coração que deseja intensamente uma palavra de graça e de redenção... para quem chegou a crer, a teologia se torna um modo secundário de escuta. Portanto, é necessário primeiro crer para depois entender.



CARÁTER COMUNITÁRIO E ECLESIAL DA TEOLOGIA CRISTÃ

Todo teólogo estuda, reflete, produz, enquanto membro de uma comunidade de fé. É próprio da fé cristã - da Revelação, da salvação - ter uma básica dimensão comunitária. Pode-se afirmar sem rodeios: fora da comunidade não há revelação, não há experiência, não há salvação, não há linguagem ou teologia cristã.

Mesmo em tempos de globalização, e exatamente nesses tempos de embates e de diluição, é necessária uma intensa interação entre teólogo e comunidade, e um reconhecimento mútuo. No caso da teologia, há o sensus fidei, que, além do magistério, é sensus fidelium, a fé vivida da comunidade, sua sabedoria inata da fé. A teologia não é uma obra de arte puramente gratuita, um fim em si mesmo, nem somente uma estética, uma expressão da reta percepção da fé, mas tem uma utilidade prática em vista da comunidade, da fé e do bem, do estimulo e do amadurecimento, da comunidade.

Em termos práticos, a teologia, sendo um ministério eclesial, está intimamente ligada ao ministério pastoral. Na patrística, o pastor e o teólogo facilmente coincidiram. A evangelização e os ministérios pastorais são o terreno fértil para o estudo e a produção teológica, que, por sua vez, deve se pensar como trabalho fecundante da prática da comunidade eclesial.



UMA TEOLOGIA PARA QUE NOS TORNE BONS

Para um trabalho fecundo, o teólogo deve gozar de grande liberdade, de respiro e de segurança, para que sua criatividade e fecundidade não fiquem amordaçadas ou cooptadas por medo ou interesse menor. Mas, para isso, precisa ter compromisso com altos interesses. São Boaventura resumiu esses altos interesses na expressão "para que nos tomemos bons". É uma indicação metodológica de grande rigor. Trata-se do Bem, uma visão prática, uma responsabilidade ética e uma busca de felicidade, Bem que move o pensamento, o conhecimento, a pesquisa da verdade. É também um critério de verificabilidade de uma boa teologia.



AMOR ÀS “COISAS” DA REVELAÇÃO

Além dessa atitude, ou pressuposto básica que é a fé no mistério, há uma segunda que é o AMOR pelas coisas da fé. Amar é desejar. Desejo é sempre algo que nos falta. Não se ama algo que não se tem. Se já temos desfrutamos. Essa lição que vem da filosofia e da psicologia é importante também na teologia. É preciso desejar o que nos falta. Em teologia nos falta o aprofundamento, a reflexão, sobre um dado primeiro que é a fé. E não uma reflexão pela reflexão, não o conhecimento pelo conhecimento. O saber só tem sentido para nos tornar melhores. Amor às coisas da revelação. É preciso alimentar o amor, e aqui se alimenta com LEITURA, com participação, com busca, com desejo mesmo, com gosto pelas coisas da revelação.... gosto pela bíblica sem ser carola ou fundamentalista.... mas para não ser é preciso esforço, leitura, aprofundamento...



PARTE II

REVELAÇÃO - AÇÃO DE DEUS NA HISTÓRIA HUMANA

A Bíblia toma por certo a existência de Deus. No mundo antigo, a existência de seres supra-humanos era pressuposto básico da vida, de tal forma que os escritores bíblicos jamais se preocuparam em explicar ou provar a existência de Deus. Tal assunto teria sido absurdo, dado as atitudes da época. As narrativas bíblicas revelam “um tempo em que a existência de seres sobrenaturais era inquestionável”. Assim, os narradores bíblicos não procuraram explicar a existência de Deus, mas apontar para a sua identidade através do que fazia. Mais propriamente, o narrador bíblico procura especificar qual dentre os deuses conhecidos pelos povos foi Aquele que chamou a Abrão e com ele selou uma aliança.

A Bíblia não procura provar a existência de Deus, o que procura é especificar a singularidade a originalidade de Javé e a necessidade humana de depender completamente em Javé seu Criador. A única “prova” que se dá na Bíblia são as interpretações dos eventos da intervenção de Javé na vida do seu povo.

Conhecer Deus depende do desvelar do próprio Deus que se dá a conhecer a humanidade. Algo de Sua natureza se reflete na própria criação, mais na maior parte, conhecer a Deus depende de Deus e de que o ser humano esteja atento a esta revelação. A dificuldade é do ser humano se desprender dos seus próprios conceitos para aceitar realidades que não se encaixam nas suas definições, logo a compreensão de Deus depende da receptividade humana à revelação divina.



REVELAÇÃO DE DEUS NA HISTÓRIA HUMANA

Deus falou na sagrada escritura por meio de homens e de maneira humana” DV 12.

A historia da bíblia é a história da palavra de Deus aos homens: “Deus, que por muitas vezes e de muitos modos falou, outrora, aos Pais pelos profetas, agora nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio de seu Filho...”(Hb 1,1-2).

Tudo o que na bíblia esta escrito pode ser traduzido como a itinerário da palavra de Deus: Esta Palavra :



  1. Cria o mundo Gn 1.

  2. Chama Abraão Gn 12,1ss.

  3. Chama Moisés Ex 3,7ss.

  4. Leva a termo a promessa da terra Js 1,1ss;21,43-45.

  5. É dirigida aos profetas de Israel Os1,1;Jr1,1,2ss.

  6. Assume o rosto de homem em Jesus de Jo1,1-14.

  7. Difunde-se, cresce e se afirma como força como dilatação da igreja apostólica At 6,7;12,24;19,20.

  8. Regula o fim deste universo e o início de um novo mundo Ap 19,11-16;21,1.

Apesar de a bíblia conter a palavra de Deus, não é possível encontrar nela nada que seja escrito de modo direto por ele, pois esta Palavra nos é dada por diferentes homens e mulheres, sempre segundo a maneira e a linguagem humana. Deus ama os homens; falando a sua linguagem, Deus se comunica com eles, se faz compreender e, ao mesmo tempo, restitui a linguagem humana a sua veracidade.

A Revelação de Deus é um dialogo amigável com o ser humano. Deus falou aos seres humanos e usou a linguagem humana da amizade com vistas a uma finalidade precisa que é uma comunhão de vida.



  1. Natureza e objeto da Revelação

Aprouve a Deus em sua bondade e sabedoria revelar-se: é livre e gratuita iniciativa de Deus o ato de se revelar. A Revelação é graça, dom de Deus. A grande novidade trazida pelo VATICANO II na Dei Verbum é esta iniciativa de Deus que se revela na história de modo pessoal culminando na encarnação do Verbo. Esta revelação sendo iniciativa de Deus e Sobrenatural, não necessita da vontade e da inteligência do ser humano em querer conhecê-lo. Também podemos conhecê-lo de forma natural, ou seja, através das coisas criadas.

  1. Revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade:

Este é o objeto da Revelação – Revelar-se a si mesmo. A Revelação antes de fazer conhecer alguma coisa, nos coloca diante de alguém, o Deus vivo em Jesus Cristo. Faz-nos conhecer o mistério de sua vontade: esta vontade que se traduz no desígnio salvífico desvendado por Jesus Cristo, destacando a relação existente entre Revelação e Salvação que se expressa mediante a possibilidade do ser humano ter acesso ao Pai e tornando-se participante da Vida divina.

  1. Em virtude desta revelação, Deus invisível, na riqueza do seu amor fala aos homens como amigos e convive com eles, para convidá-los e admitir à comunhão com Ele:

Exprime toda a amizade que a Reveação trás consigo. Jesus nos diz que os que estão com ele são tratados como amigos e não como servos. Ao chamar os apóstolos de amigos lhes dá o conhecimento de toda a Revelação pois o amigo sabe, conhece o que o outro pensa. Com os apóstolos cessa toda a Revelação nada há para ser revelado, conhecemos em Jesus o desejo pleno de Deus – que todos tenham vida em plenitude e participem da gloria eterna.

  1. Esta «economia» da revelação realiza-se por meio de ações e palavras ìntimamente relacionadas entre si, de tal maneira que as obras, realizadas por Deus na história da salvação, manifestam e confirmam a doutrina e as realidades significadas pelas palavras; e as palavras, por sua vez, declaram as obras e esclarecem o mistério nelas contido:

A riqueza da revelação se traduz em palavras e ações de Deus dentro de nossa história. Nosso Deus age em nossa história não de forma manipuladora, mas revelando seu plano de amor através dos profetas, homens e mulheres inspirados, e de modo especial através de seu Filho Jesus Cristo.

A BIBLIA PALAVRA DE DEUS – TESTEMUNHA DO CARÁTER DIALÓGICO-AMIGAVEL DA REVELAÇÃO.

A Dei Verbum nos diz que a Revelação é uma conversa de Deus com homens e mulheres devido a sua iniciativa. Isto podemos ver através dos seguintes textos bíblicos



  1. Ex 33,11 – “O Senhor falava com Moisés face a face, como um homem fala com seu amigo”.

Moisés aqui não é somente o mediador da ação do Êxodo, é o personagem sobre o qual através de sua experiência se realiza e se torna conhecido o projeto de Deus para Israel e para toda a humanidade. É modelo da caminhada vivida por todo cristão na busca de sua espiritualidade que passa pelo primeiro Moisés, procurado pelo faraó, foge para o Deserto onde encontra Deus na sarça que não se consome. E do meio do fogo escuta a voz de Deus que o envia para a missão de libertação: Eu estarei contigo diz Deus.

O Segundo Moisés que liberta Israel e o conduz ao Sinai para que todo o povo possa ter a experiência de escutar a voz de Deus de dentro do fogo (Ex 19-24). A terceira experiência de Deus se dá na tenda de reunião quando lá adentra sozinho para conhecer aquele Deus que lhe fala como amigo. A partir desta ultima experiência, Moisés coloca-se a caminha para o terceiro êxodo gritando: Senhor! Faze-me ver a Tua faca, a Tua gloria (Ex 33,18-23).



  1. Br 3,38 – “A Sabedoria apareceu sobre a terra e no meio dos homens conviveu”.

A sabedoria é a Palavra-Revelação que Deus comunicou aos filhos de Abraão, para que estes por sua vez a partilhassem com os filhos de Adão (universalidade). Convivendo com seu povo Deus quer conversar com todos os homens. Jesus é a Sabedoria de Deus que aparece definitivamente sobre a terra, Ele é a nova tenda de reunião: “O Verbo se fez carne e plantou sua tenda entre nós e nós vimos sua glória” (Jo1,14).

  1. Jo 15,14-15 – “Vós sois meus amigo. Não mais vos chamo de servos, mas chamo-vos amigos”.

Em Jesus o rosto de Deus desconhecido se torna conhecido: Felipe quem me vê, vê o Pai (Jo14,8-9). Crer em Jesus significa segui-lo a exemplo dos primeiro discípulos dos quais se lê: foram atrás dele, viram onde morava e ficaram com ele (Jo 1,38-39).

Este primeiro encontro desencadeia uma longa convivência com longas conversas que culmina com o discurso da ultima ceia (Jo 13,17). Os discípulos tornam-se realmente amigos de Jesus. Para os discípulos tornados amigos não existe mais segredos: Jesus comunicou-lhes toda a Revelação (14,6-7), e mediante o dom do Espírito Santo, fará com que a compreendam (14,25-26; 16,12-15).

Concluindo:

Revelando-se Deus fala a linguagem da amizade e do amor onde:



  1. Deus chama, convoco os homens e mulheres, interpela os crentes que ouvem, acolhem e vivem a palavra como cristãos, isto é, os chamados; a comunidade dos chamados e a igreja, a assembleia dos convocados.

  2. Deus narra, interpela o ser humano a existência. Com isto a Palavra de Deus se torna ameaça, promessa, consolação, ensinamento. Faz com que o ser humano diante dela se auto compreenda, visto que” não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra saída da boca de Deus”(Dt 8,3). O homem passa a conhecer seu ser e seu destino em plenitude, ouvindo a Palavra de Deus e não através de seus próprios conhecimentos. Deus dá o sentido de vida a todo cristão.

  3. Deus se exprime, fale de si, revela aos seres humanos a si mesmo e a sua vida intima, para convidá-los e admiti-los a participação e comunhão de vida. Não fala de longe , mas se aproxima, chega bem perto. A palavra de Deus se chama Jesus Cristo.

  4. Sendo Jesus a Palavra (verbo) definitiva do Pai que nos chama a comunhão de vida com ele podemos destacar que

  1. O objeto da Revelação é o desejo da vida eterna que se mostra para nós como verdade e vida.

  2. O modo desta vida eterna desejada por Deus se manifesta na presença histórica de seu Filho, no qual Deus se revela por palavras e de modo especial como presença ativa. Nele a Palavra de Deus se faz não só ouvir, mas também ver e tocar.

  3. A transmissão é o testemunho e o anuncio da comunidade fundamentada no testemunho dos apóstolos. A comunidade antes de ser mestra deve ser discípula, antes de ser anunciadora da palavra deve se colocar em religiosa escuta desta Palavra, antes de comunicar a vida a comunidade deve recebê-la.

  4. A finalidade ultima da Revelação é a comunhão com o Pai e com o Filho Jesus Cristo. Este encontro, esta comunhão não é algo vivido de modo pessoal, mas sim passa por seu sacramento a Igreja, sinal visível da comunhão dos homens e mulheres com Deus e de sua comunhão fraterna.

HISTÓRIA E REVELAÇÃO.

A Revelação pode ser datada e localizada.

Deus fala aos profetas e ao povo por meio dos profetas. Esta Palavra é dirigida em determinado tempo, lugar histórico onde podemos identificar um modelo de vivência religiosa e determinada política como a história da vocação de Jeremias (1,1-30), e João Batista (Lc 3,1-2). É a história que constitui o cenário da Revelação bíblica. Um homem concreto Jesus de Nazaré nascido na Palestina sob o imperador César Augusto no início da nossa época (Lc3,1), ingressando na vida pública sob o seu sucessor Tibério César (Lc 3,1) e, por fim, justificado pelo procurador imperial Pôncio Pilatos (Lc 23; Jo 18,19), este homem se torna a Revelação definitiva de Deus aos homens.



A Revelação tem como objeto não verdades abstratas, mas eventos concretos.

A palavra quando pronunciada acaba gerando transformação, algo passa a existir. O Deus da Revelação é um Deus que age mediante a Palavra, Deus fala e cria, os acontecimentos importantes da história da salvação são efeitos da Palavra de Deus. Estes eventos históricos, criados pela Palavra de Deus, são também conteúdo da fé, que os proclama e os narra.

Jesus Cristo ungido de Espírito Santo, faz o bem, cura as pessoas doentes, expulsa demônios, liberta, pregou a Palavra de Deus e foi morto. Deus o ressuscitou apareceu aos seus e disto os apóstolos são testemunhas da história da salvação. Ao testemunhar estes ventos nos mostram que a nossa fé parte da historicidade dos fatos e os transforma no seu sentido, passando a proclama-los com seu significado revelador e seu alcance salvífico. O fato passa a ter para o cristão um novo sentido e lhe oferece uma nova perspectiva de vida, da sua história.

A Revelação consegue credibilidade através de alguns eventos.

No discurso de Pentecostes Pedro nos apresenta Jesus: “Jesus de Nazaré foi por Deus aprovado entre nós com milagres, prodígios e sinais que Deus operou por meio dele entre vós, como bem o sabeis” (At 2,22). Os milagres exprimem uma salvação, uma cura, um levar ao estado de plenitude e de vida o que jazia numa situação de enfermidade, de sofrimento, de escravidão, de morte. Os milagres de Jesus não são realizados em vista de propaganda ou admiração, nem para afirmar sua divindade, estão dentro da história sagrada que narra o desejo de salvação. Eles nos mostram que o poderio de Deus se faz presente na história, são sinais da presença do Reino, são demonstrações práticas da realização da Palavra-Promessa.



CONSEQUÊNCIAS TEOLÓGICAS E PASTORAIS

Uma teologia mais histórica.

Se a Revelação acontece na historia e através da historia, a teologia enquanto reflexão sobre o dado deve ser mais histórica, mais narrativa.

Para entender quem é o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, para compreender quem é Jesus Cristo, devemos antes de tudo narrar (conhecer) as grandes ações do Deus bíblico e de Jesus Cristo em toda a extensão histórica da salvação.

Para compreender o que é a Igreja, devo antes tomar conhecimento sobre a história primitiva, voltar as fontes, que estão narradas nos Atos dos Apóstolos e cartas do Novo Testamento. Olhar para a história milenar de Igreja e perceber como seu povo através dos séculos, traduziu em ações, suas escolhas, instituições, como na sua reflexão e no seu ensinamento se concretizaram o seguimento a Jesus Cristo.



Uma fé obediente na vida

Crer não significa ter uma atitude de submissão de viver um eterno assim seja (amém). Mas crer significa dar um sim que compromete o ser humano em sua totalidade na real obediência a Deus, um abandonar-se livremente nas mãos da Providencia, abrindo o coração e a mente vivendo na acolhida da Revelação.



Experiência de fé e compreensão da Palavra

A igreja é a comunidade dos que ouvem a Palavra de Deus para pô-la em prática e a põem em prática para melhor compreende-la, portanto, para compreender o Cristo Revelado e Salvador e anuncia-lo ao mundo, deve-se viver evangelicamente, deve-se viver santamente, praticando o Evangelho. Somente na fé é que podemos experimentar a mensagem revelada e assim ser possível compreende-la, e viver uma nova realidade a qual a Palavra de Deus nos aponta, guia e sustenta.



Existência e história reveladoras

Assim como a Revelação é um fato histórico, Deus continua falando no meio da existência de cada um e através de grandes eventos da história contemporânea, desde que se saiba ler e compreender a vida e a história com os mesmos critérios que a historia da salvação, profeticamente interpretada, nos oferece. Deus se revela ao homem e a mulher em sua vida, entrando nela, configurando-a dando-lhe sentido. A partir da experiência histórica e da Revelação que a acompanha o ser humana é capaz de compreender o sentido de cada momento de sua vida. Desta forma a sua vida se torna reveladora para si e para a comunidade.



Os sinais dos tempos

É dever da Igreja escutar os sinais dos tempos e interpreta-los a luz do Evangelho, desta forma faz-se necessário compreender o mundo em que estamos inseridos, seus problemas, seus desafios, suas perspectivas, sonhos. Conhecendo a realidade somos chamados sob o cuidado do Espírito Santo a discernir qual é o desejo de Deus para o momento em que vivemos. Este discernimento se realiza através da leitura da Sagrada Escritura, e da verificação eclesial.




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