IntroduçÃo ao estudo das conseqüÊncias da proibiçÃo da gnose pela igreja católica



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INTRODUÇÃO AO ESTUDO DAS CONSEQÜÊNCIAS DA PROIBIÇÃO DA GNOSE PELA IGREJA CATÓLICA
Fonte: http://www.symbolon.com.br/html/artigos/introducao.htm

Conceito de Gnose

Gnose é o substantivo do vergo gignósko, significa conhecer. Gnose é conhecimento. No grego clássico e no grego popular, koiné, seu significado é semelhante ao da palavra epistéme. Em filosofia, epistéme significa "conhecimento científico" em oposição a "opinião", enquanto gnôsis significa conhecimento em oposição a "ignorância", chamada de ágnoia.

A gnose é um conhecimento que brota do coração de forma misteriosa e intuitiva. É a busca do conhecimento, não o conhecimento intelectual, mas aquele conhecimento que dá sentido à vida humana, que a torna plena de significado porque permite o encontro do homem com sua essência.

O objeto do conhecimento da Gnose é Deus, ou tudo o que deriva dele. Toda gnose parte da crença firme na existência de um Deus absolutamente transcendente, existência que não necessita ser demonstrada. "Conhecer" significa ser e atuar, na medida do possível ao ser humano, no âmbito do divino. Por isso, "conhecer" implica na salvação de todo o mal em que possa estar imerso o homem que venha a possuir esse "conhecimento".

Gnose era ao mesmo um conceito religioso e psicológico. A partir desta visão, o significado da vida aparece como uma transformação e uma visão interior, um processo ligado ao que hoje se conhece como psicologia profunda.

O desejo e as tentativas de conseguir amor e felicidade são a saudade inesgotável do Pleroma, da plenitude do Ser, que é o verdadeiro lar da alma.

O desejo desse "conhecimento" é uma nostalgia das origens e procede do anelo humano de alcançar a unidade, do desejo de fusão do homem com o Ser, do qual acredita ter sido originado.

A Gnose é o comportamento religioso, que traduz esta profunda e dolorosa sensação que sentem os homens e mulheres pelas separação dos pólos humano e divino. É, no fundo, uma tentativa de compreensão das relações entre o homem e a divindade.

Para Jung, muitos gnósticos nada mais eram do que psicólogos. "A gnose é, indubitavelmente, um conhecimento psicológico, cujos conteúdos provêm do inconsciente. Ela chegou às suas percepções através de uma concentração da atenção sobre o chamado "fator subjetivo" que consiste, empiricamente, na ação demonstrável do inconsciente sobre a consciência. Assim se explica o surpreendente paralelismo da simbologia gnóstica com os resultados a que chegou a psicologia profunda."



Fontes do gnosticismo antigo

FONTES DIRETAS

São os escritos gnósticos que chegara à atualidade diretamente dos autores gnósticos.

O Núcleo Principal das Fontes Diretas: Biblioteca de Nag Hammadi. Foi encontrada dentro de uma urna de argila em 1945 pelos irmãos Califa e Muhamad Ali al Salmman, a 11 km da cidade de Nag hammadi, na montanha Jabal al-Tarif, que tem mais de 150 cavernas. Sofreu uma série de aventuras.

Esta biblioteca compõe-se de 53 textos, encadernados em couro, em 13 livros de papiro, procedentes de várias fontes: revelações de profetas da gnose anteriores ao cristianismo; escritos gnósticos contendo alguns elementos cristãos; escritos do cristianismo gnóstico; tratados relativos à alquimia.

Jung, através de informações um amigo, um historiador holandês, Gilles Quispel, comprou um dos livros, que havia sido contrabandeado e estava à venda nos Estados Unidos, que veio a ser The Jung Codex.

Há controvérsias quanto às datas: traduções feitas em torno do séculos II e IV de manuscritos ainda mais antigos.

FONTES INDIRETAS

São os escritos de autoridades eclesiásticas com o objetivo de refutar as obras gnósticas.

Dentre os autores destacam-se :

Irineu de Lyon, Hipólito de Roma, Epifânio de Salamina. Estes autores nem sempre foram fiéis às fontes que citavam, alguns trazem resumos fidedignos.



Características Gerais da Antiga Gnose

Quando o cristianismo chegou, foi aceito sem reservas, com fé total. Mas, ao acolher a nova doutrina as pessoas não abandonaram suas antigas crenças e mesclaram a doutrina que chegava aos antigos rituais. Desta maneira, ao invés das pessoas se converterem à nova religião, o que ocorreu na prática foi o cristianismo converter-se à antiga religião. As palavras do Evangelho misturaram-se aos antigos rituais.

Nos séculos I e II d.C., as novas idéias, surgidas desta fusão do cristianismo com antigas religiões, expandiram-se por todo o Oriente Médio, pela Grécia até a Gália. E em cada região que se fixavam iam se amalgamando aos costumes locais, fazendo surgir novas correntes marcadas pelos principais mestres e pelos locais onde chegavam.

Das diversas ramificações destacam-se:

  a.. os docetas, que tinham como representantes principais Dociteu e Saturnino. Negavam a realidade carnal de Jesus Cristo e por isso não aceitavam seu Nascimento, Paixão e Ressurreição. Consideravam -no um "corpo sutil";
  b.. os ebionitas, liderados por Ebion, acreditavam que Jesus havia nascido de forma natural de José e Maria e só depois, na hora do batismo, fora adotado por Deus;
  c.. os ofitas, para eles a serpente representava o princípio espiritual e acreditavam ter sido a serpente a primeira a se rebelar contra o demiurgo e a propor a liberação do homem através da gnose, a serpente era considerada boa, era o princípio da gnose;
  d.. os barbelognósticos, (palavra que significa barba-eló, "o Deus em quatro") afirmavam que o pensamento da divindade contém em si a própria explicação: pensamento, pré-conhecimento, incorruptibilidade e vida eternas;
  e.. os marcionistas, que precederam o maniqueísmo, liderados pelo padre cristão Marcião, contrapôs o Antigo Testamento ao novo Testamento, como o faria também Lutero, mais tarde;
  f.. o maniqueísmo, fundado por Manes, no século III, baseava-se no dualismo, e o Supremo era rodeado por inúmeros Eões. Satanás era o agente da disputa que ocorria tanto nos planos superiores quanto nos planos inferiores. Dessa disputa surge o mundo visível. A redenção se daria na volta dos elementos luminosos presos no Cosmos à sua origem;
  g.. os sethianos;
  h.. os sethianos ofitas.
As idéias principais são:

A Divindade Suprema - Todos os sistemas gnósticos partem do pressuposto da existência de Deus. Deus está no "princípio e na origem de tudo. Ele não necessita de nada, mas isto não impede que ele esteja acompanhado de um "ser que é como que a outra cara de si mesmo", o seu cônjuge, sua Consciência, seu Pensamento, sua Paz, seu Silêncio, etc.

Em alguns sistemas aparece como o Eão Sabedoria ou Pneuma (vocábulo feminino, em hebraico), também chamada Ruah, (palavra hebraica feminina), que significa Espírito, e desempenha um papel importante na geração do Cosmos. Sofia, ou Sabedoria, criou o visível com a ajuda dos quatro elementos.

Assim aparece uma Trindade nos sistemas gnósticos.

  a.. Pleroma - O Deus Uno, em determinado momento, através de emanação, projeção ou geração, projeta-se no exterior, desdobrando-se, "gerando" uma série de entidades divinas, os Eões.
  b.. Os Eões são, portanto, entidades divinas procedentes do Uno, e são o inteligível ou o perceptível do Uno. Essas emanações, ou gerações intradivinas, originadas do Uno-Transcendente, constituem o Pleroma* , ou Plenitude da Divindade.
Na formação do Pleroma há que se distinguir dois momentos: em um primeiro estágio é formada a substância ou ser dos Eões, em um segundo momento é formada a gnose ou conhecimento.

O Transcendente dá a esses Eões, formados substancialmente, o conhecimento de si mesmos só num momento posterior. É quando passam a ser divinos. Esta duplicidade de momentos mostra que a gnose é pura graça, e que só a gnose, outorga a um ser, por mais divino que seja, a sua plenitude substancial.

A queda pleromática - Dentro do Pleroma acontece uma falha. Esta "falha" irá explicar o nascimento do cosmos e a origem do mal.

Entre os dois momentos do Pleroma, quando ocorre a formação dos Eões, segundo a substância e segundo o conhecimento, ocorre esta falha. Um dos entes divinos, a Sabedoria (ou Logos), quer chegar ao conhecimento do Uno antes do tempo. Isto seria um desejo correto, justo se acontecesse no momento certo, de acordo com a vontade do Transcendente, mas, como acontece antes da hora, passa a ser uma paixão.

Porém esta paixão, este desejo prematuro pelo conhecimento pleno do Uno, continua sendo efetivo, apesar de imperfeito, pois é o desejo de uma entidade divina. Ainda assim esta paixão provoca a queda do Eão e por isto este Eão será expulso do Pleroma.

Este lapso de tempo em que o Eão Sabedoria fica fora do Pleroma tem uma dupla dimensão conceitual: teológica e cosmológica.

Teologicamente representa o nascimento do pecado, da deficiência, do Mal, que exigirá a necessidade de um Salvador. Com o Salvador se inicia, dentro do Pleroma, um processo de salvação, que mais tarde se repetirá neste mundo. Cosmologicamente, este "pecado" do Eão Sabedoria significará o princípio da matéria, do universo todo. É da paixão deste Eão que surgirá a substância informe e espessa da qual irá brotar todo o universo material.

O Eão caído se arrepende de seu pecado e para que o Pleroma não fique incompleto, para que a Totalidade divina não seja abalada por isto, o Uno, através do Eão Salvador, resgata o Eão Sabedoria. Separa-o da substância informe e espessa que resultou da sua paixão e que deu origem ao universo e o faz retornar ao Pleroma.

Desta forma, tem origem um duplo Eão pecador: a) um superior que se arrependeu e que volta ao Pleroma e passa a ser denominado Sabedoria Superior; b) outro que permanece fora do Pleroma, filho da Sabedoria Superior e passa a ser denominado Achamot ou Echamot.

A Sabedoria também ficará dividida em duas partes: a superior, redimida, reintegrada ao Pleroma; e a inferior, que ficará fora do Pleroma e impedida pelo Limite de retornar. Será o agente divino no exterior e posteriormente, vai dar origem a matéria.

O Transcendente então gera mais um Eão, denominado "Limite", que tem a função de separar. Separa os Eões do nível superior e do nível inferior, o universo material. O "Limite" entre o Pleroma e o universo, que será o modelo da cruz redentora no gnosticismo cristão, que redimirá o homem e separará os não gnósticos, que serão condenados.

Princípios fundamentais da Teologia Gnóstica

Os princípios gnósticos (do gnosticismo ocidental) têm seu fundamento filosófico em Platão.* Para Platão, as idéias, independentemente das coisas e do intelecto humano, são as causas temporais para os objetos sensíveis. As idéias ou formas são entidades incorpóreas e invisíveis, reais, eternas e sempre idênticas a si mesmas, escapando à ação corrosiva do tempo, que torna os objetos físicos perecíveis.

Para Platão, porém, os primeiros Princípios, o mundo das idéias, têm a função de objeto do conhecimento. Valem para explicar a realidade física tanto da esfera superior como do mundo. Mais tarde, os sucessores de Platão, baseando-se no Uno, como princípio transcendente, alteraram estas bases do platonismo antigo. Os princípios que eram, para Platão, objetos ou meios de conhecimento passarem a ser considerados uma entidade real, dignos de veneração, que poderiam produzir outros seres por meio de geração ou de emanação. O Uno passou a ser objeto real que poderia produzir outros seres através da emanação ou geração.

Para Piñero e Montserrat, estes dois momentos, a passagem de objeto a sujeito e a possibilidade da geração/emanação, ocorrem em todas as vertentes do platonismo e leva a profundas divergências. Alguns grupos gnósticos prescindem do Uno e consideram dois princípios: o Intelecto e a Alma divinos, o que significa uma concepção diádica. Outros grupos mantêm a existência do Uno, porém afirmam que o Uno gera o Intelecto e a Alma como entidades independentes. O Princípios primeiros formariam, sob este ponto de vista, uma tríade, Uno, Intelecto e Alma. E ambos os sistemas consideram uma divisão da Alma em duas subentidades: uma Alma superior e uma Alma inferior ou Alma do mundo.

Considerando-se esta divisão da Alma em Superior e Alma do Mundo, percebe-se que a concepção diádica do princípio Intelecto e Alma; (que prescinde o Uno), parece, superficialmente, triádica: Intelecto, Alma superior e Alma inferior.

Portanto, alguns grupos gnósticos baseiam seu sistema em dois Princípios, (aparentemente três); outros baseiam em três Princípios.

Os que consideram os três Princípios (Uno, Intelecto, Alma do Mundo) insistem que o Primeiro, o Uno, é o Sumo Transcendente, além do ser e do inteligível. Defendem um processo de descida dos Princípios superiores aos inferiores através da emanação ou geração. O segundo Princípio é o Intelecto e contém em si todos os inteligíveis. O terceiro é a Alma/Espírito, que pode ser concebido como dois subprincípios, uma Alma Inteligível e uma Alma do Mundo.

Este sistema triádico aproxima os gnósticos cristãos à Trindade do Novo Testamento. O Deus Supremo, primeiro Princípio, corresponde ao Deus Pai. O segundo Princípio, o Intelecto, corresponde ao Filho, é o Logos, que se faz homem em Jesus. Desse Filho procede a centelha divina, que se encontra nos homens espirituais. O terceiro Princípio corresponde ao Espírito Santo. Em seu desdobramento inferior é o Princípio divino no tempo, a Alma do Mundo.

Os gnósticos afirmavam que os judeus conheceram o terceiro Princípio em seu produto inferior, que é o Demiurgo e apenas através da revelação da Bíblia hebréia. Afirmavam também que os cristãos normais não vão além do segundo Princípio, somente os gnósticos, os espirituais, chegariam ao primeiro Princípio.

Para os seguidores do esquema diádico, a metafísica dos princípios é: o "Deus Supremo" é um Intelecto que é bom, o equivalente ao segundo Princípio dos sistemas triádicos acrescido do Bem. O "Segundo Deus" ou princípio do Cosmos, equivale ao terceiro Princípio dos sistemas triádicos ou Alma da Mundo. Este "Segundo Deus" se desdobra em dois subprincípios um inteligível e outro sensível.

À ramificação triádica da tradição platônica pertencem os neopitagóricos, os valentinianos, os basilidianos e Plotino. Ao ramo diádico pertencem Filón, Numenio, Albino e Poimandres e, entre os gnósticos: os sethianos e Justino Gnóstico. Os teólogos da ortodoxia cristã antes do concílio de Nicéia* são teologicamente trinitários, porém filosoficamente diádicos. Pode-se reconhecer, também, nas diversas escolas ou correntes influências de outras tradições filosóficas, em particular do estoicismo.

Para os sethianos, os Princípios (Intelecto/Alma do Mundo) não são concebidos como substâncias. Há uma multiplicidade de graus ou estratos de emanação descendente da divindade:

Primeiro estrato - Formando pelo Uno.

Segundo estrato - Os Eões Superiores Femininos - O sujeito deste estrato recebe o nome de Barbeló. Barbeló se "ergue" diante do Espírito Transcendente e é definido como sua Imagem e seu Pensamento. Ela recebe os nomes de Inteligência, Providência, Incorruptível, Vida Eterna e Verdade. Barbeló vai desempenhar a função de Princípio dos estratos inferiores e Princípio do Universo.

Terceiro estrato - Os Eões Superiores Masculinos - O sujeito deste estrato recebe o nome de Unigênito e Filho. Os Eões do segundo e terceiro estratos formam o Pleroma Superior que virá a ter o momento de queda ou "deficiência".

Quarto estrato - Os Eões do Pleroma Inferior - estes Eões foram engendrados pelo Deus que foi engendrado, o Cristo.

Quinto estrato - o Eão Sabedoria - A função da Sabedoria (Sophia ou Pistis) é a criação do universo, é a "mãe do universo". Sabedoria é "a que olhou para baixo". Esta descida da Sabedoria é concebida como "inocente".

Há dois motivos para a queda da Sabedoria: primeiro, produz uma obra sem o consentimento do Pai e, segundo, o faz separada de seu consorte. O resultado desta ação é um trabalho imperfeito, o arconte demiúrgico ou uma sombra que, através da matéria, produz o arconte demiúrgico. Em função desta obra, a Sabedoria é denominada material (gr. Hylikós).

A Sabedoria busca a luz que a havia porém não pode alcançá-la por causa do impedimento do Limite. Por não poder ultrapassá-lo, por continuar misturada à sua paixão e, ao permanecer abandonada fora do Pleroma, a Sabedoria cai em todo tipo de paixões, multiformes e variadas. Destas paixões (também divinas), nasce a primeira matéria, primordial e inteligível, não sensível, tem origem o Demiurgo. As demais coisas nasceram de seu temor e de sua tristeza. Das lágrimas da Sabedoria vieram as substâncias úmidas; de seu riso, a sabedoria luminosa; de sua tristeza e de seu estupor, os elementos corporais do mundo.

Esta matéria primordial não é o mundo corpóreo, porém o substrato a partir do qual se plasmará o mundo corpóreo. O mundo visível será criado, posteriormente, pela Sabedoria de modo indireto, graças ao Demiurgo.

O Demiurgo - A criação do mundo físico é atribuída ao Arconte Demiurgo.

Esta figura intermediária entre o universo material e o Transcendente serve para afastá-lo do universo de modo que o Ser Supremo fique livre de ter criado diretamente o material porém, o universo, em última instância, foi originado do último termo da divindade, já que o Demiurgo pertence ao âmbito do divino. Com a existência da matéria permaneceram confirmados também a Deficiência, a oposição ao Transcendente e, em último caso, o Mal.

Os gnósticos se dividem quanto à substância da qual é formado o Demiurgo. Para a maioria, possui somente a substância psíquica, para outros, tem dentro de si uma centelha divina que procede da substância de sua mãe, ainda que logo a perca ao criar o homem.

O demiurgo engendra ou produz auxiliares para a obra da criação. Estes auxiliares, os arcontes inferiores, correspondem a dois modelos: o planetário e o zodiacal.

O modelo planetário puro consta de sete arcontes, um para cada círculo planetário. O modelo zodiacal puro consta de doze membros. Há também um modelo misto, zodiacal e planetário.

A criação demiúrgica - A função do Demiurgo é operar a matéria inteligível, preexistente a ele, por meio de uma forma recebidas do alto Isto significa plasmar o mundo, pelo desejo indireto do Transcendente, a partir da substância primitiva e incorpórea gerada pela sua mãe Sabedoria. Porém, executa esta tarefa sem saber exatamente o que fazer, pois o faz por mímesis e por ordem do Pleroma, sem disso ter consciência.

Com a criação já concluída pelo Demiurgo, aparecem três substâncias que desempenham papel muito importante na soteriologia:

A substância espiritual, "pneumática" ou divina (que se acha dentro do Pleroma) e, fora dele, na Sabedoria que também é um ente divino e, posteriormente, no espírito ou parte superior do ser humano.

A substância "psíquica"; engendrada pela Sabedoria inferior; é própria do Demiurgo e de alguns níveis intermediários entre a matéria e o espírito, por exemplo, no princípio vital, ou alma do homem.

Em terceiro lugar, a substância puramente material, ou hílica, representada pela matéria toda do cosmos.

O mito cosmológico gnóstico significa que o Uno não intervém de modo direto na criação do mundo. Está demasiado distante para atuar "pessoalmente", pois a matéria é uma entidade degradada, que ocupa um posto muito baixo na escala do ser. O princípio imediato da criação do cosmos é o Intelecto divino no qual se acham as idéias, modelos ou princípios que serviram para criar o cosmos.

Desta cosmologia se deduz algumas conseqüências importantes para a antropologia, a ética e a soteriologia:

  a.. Ao final das contas tudo procede de uma única fonte, o sumo Transcendente por emanação-degradação;
  b.. existe uma separação entre o mundo superior/espiritual (o Pleroma) e o mundo inferior/ material (o kénoma, ou vazio);
  c.. a matéria é degradação, a última escala do ser, ainda que proceda de Deus, é fruto de uma deficiência, de uma falta do ser divino;
  d.. o mal está incluso na deficiência, na paixão da Sabedoria. O universo, criado pelo demiurgo, é mau. O corpo do homem é a prisão do espírito;
Antropologia - a criação do ser humano é efetuada também pelo Demiurgo, assistido pelos anjos. Na maioria dos sistemas gnósticos, a criação do homem acontece porque o Transcendente, ou um dos Eões superiores, em determinado momento, envia aos anjos do Demiurgo, ou a este diretamente, a forma ou imagem do Homem Celeste ou primordial. Um dos Eões do Pleroma, o Salvador, ou o Pleroma completo, se reflete nas águas inferiores e desencadeia o processo de criação.

A humanidade não é toda igual. Há três classes:

  a.. uma puramente material: os hílicos (do gr. Hýle, matéria), que não recebem centelha divina;
  b.. uma que recebe do Demiurgo o hálito de sua própria e única substância: a psíquica ou anímica,
  c.. e uma terceira classe, que recebe a insuflação psíquica e a espiritual ou pneumática.
Os pagãos, ou materiais, ou hílicos, eram destinados à aniquilação. Os judeus e cristãos eram os psíquicos, viviam a fé e estavam submetidos às regras morais, poderiam salvar-se. Os verdadeiramente espirituais eram os únicos que possuíam o conhecimento, a gnose. Os gnósticos observavam as leis morais por amor, não por imposição e se salvariam de fato, não somente pela conduta.

Deste mito, gerado em torno do Gênesis, fica o seguinte:

  1.. o ser humano, completo, é composto de três partes, a material, o corpo; a anímica ou vital, responsável pelo movimento e pelas funções vitais; e a espiritual, divina, independente da matéria, aprisionada no corpo. Esta é uma centelha do divino que desceu até a matéria.
  2.. O processo pelo qual a centelha divina está aprisionada ao corpo explica a situação atual do ser humano. Porém, o verdadeiro é o espírito, a centelha, que não é deste mundo, mas da divindade.
  3.. Há uma distinção entre alma e corpo e também entre alma superior (o espírito: objeto da salvação) e a alma inferior, ou simplesmente alma.


CONTROVÉRSIAS ENTRE A IGREJA CATÓLICA E OS GNÓSTICOS

No início da Era Cristã havia grande diversidade de pensamentos. Nos primórdios, quando não havia Igreja constituída, todos os Evangelhos eram aceitos e nenhum era considerado mais ou menos verdadeiro. Com o passar do tempo, as opiniões foram se firmando cada vez mais, o desentendimento levou a uma cisão mais radical e os evangelhos cristãos foram o instrumento da separação das idéias.

Os Evangelhos foram classificados em:

  a.. canônicos - os que passaram a compor o Novo Testamento;


  b.. pitorescos e romanescos sobre a vida de Jesus, foram deixados de lado e;
  c.. uma terceira categoria dos que foram considerados heréticos, por trazerem idéias muito diferentes das idéias aceitas pelos cristãos ortodoxos. Foram mandados destruir e foram proibidos. Dentre estes, encontra-se a literatura gnóstica.
A palavra heresia, do grego haíresis, hairen significa escolha. O cristianismo deu a essa palavra uma conotação pejorativa de "a doutrina que está fora da Igreja", isto é, contrária aos princípios da fé cristã, aquele que se afasta da verdadeira fé. Herege pode ser qualquer pessoa cuja visão alguém não goste ou denuncie. "No fundo, heresia nada mais é do que divergência de opinião."

As heresias dos primeiros séculos da era cristã se referem a reflexões filosóficas e teológicas em torno de dogmas cristãos, principalmente as que dizem respeito à Ressurreição de Cristo, à Trindade e à natureza humana e divina de Cristo.

Hoje, com base nos textos da Biblioteca de Nag Hammadi e nos textos do Novo Testamento, levanta-se a hipótese de que, junto com o aspecto teológico, o centro de interesse do pensamento da época, havia uma acirrada disputa política, de poder e de dominação.

A Igreja, em torno do ano 220 d.C., criou uma estrutura organizacional dividida em hierarquias bem definidas: bispos, padres e diáconos, e passou a ditar as normas da "fé verdadeira". A base desta estrutura hierárquica foram: 1o.) as afirmações de que Cristo delegou poderes a Pedro de representá-lo na terra, 2o.) que os primeiros a verem Cristo ressuscitado foram os Onze Apóstolos,* e 3o.) que a ressurreição foi um fato físico, que aconteceu em carne e osso. Todos os pontos de vista que não estivessem de acordo com o dos componentes desta estrutura hierárquica passaram a ser considerados heréticos.

O aval mais significativo para a disputa da Igreja vem do Evangelho de São Mateus que Em Mateus 16:18-19 lê-se: E eu, eu te digo: 'Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e a Potência da morte não terá força contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino dos céus; tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.' Pedro, por esta afirmação, recebeu de Jesus, a única autoridade que era reconhecida por todos, a liderança do movimento.

Porém, a leitura do Evangelho de São Marcos, 10:42-45, mostra um Jesus contrário à idéia de autoridade. Marcos conta que Jesus responde aos apóstolos indignados com Tiago e João quando estes lhe haviam pedido para assentar-se respectivamente à sua direita e esquerda na glória: Como sabeis, os que são considerados chefes das nações as mantêm sob seu poder, e os grandes, sob seu domínio. Não deve ser assim entre vós. Pelo contrário, se alguém quer ser grande dentre vós, seja vosso servo, e se alguém quer ser o primeiro entre vós, seja o escravo de todos. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate pela multidão. Estas palavras de Jesus denotam que ele não tinha a preocupação em criar uma organização com autoridade e poder na terra, ou no céu.

Como conseqüência de Jesus ter nomeado Pedro o substituto de sua autoridade incontestável, somente ele e seus legítimos sucessores, dali para frente, teriam credibilidade para manter as rédeas da organização que se formava. Esta não poderia ser questionada ou contrariada. Tudo o que ela "ligasse ou desligasse" na terra seria "ligado ou desligado" também no céu.

Os gnósticos contestavam os ortodoxos afirmando que enquanto eles (os ortodoxos) confiavam apenas nos ensinamentos públicos que Cristo oferecia aos "muitos", os gnósticos ofereciam também os ensinamentos secretos conhecidos de alguns poucos.

A teoria de que toda a autoridade provém da experiência de certos apóstolos com o Cristo ressuscitado, "experiência agora definitivamente encerrada" - tem tremendas implicações na estrutura política da comunidade.

O terceiro item da base da estrutura hierárquica, a ressurreição como fato físico, que aconteceu em carne e osso, tem uma função política importante, legitima a autoridade dos sucessores do Apóstolo Pedro. "Do século II em diante, essa doutrina serviu para validar a sucessão apostólica dos bispos, que é o fundamento da autoridade papal até os dias de hoje. Os cristãos gnósticos que interpretam a ressurreição de outras maneiras teriam assim menos direito à autoridade; e, quando afirmam prioridade sobre os ortodoxos, são denunciados como hereges."

Tertuliano, um bispo historiador, define a posição ortodoxa: "O que ressuscita é essa carne, regada de sangue, sustentada por ossos, entremeada de nervos, entrelaçada de veias; uma carne que nasceu e que morre, indubitavelmente humana", e acrescenta: "É preciso crer porque é absurdo".

No entanto, para os gnósticos, a ressurreição poderia ser interpretada de diversas maneiras. A primeira delas seria a possibilidade de vivenciar a experiência de Cristo dentro de cada indivíduo, em qualquer momento do presente ou futuro e não um fato que aconteceu e não mais se repetirá. A ressurreição, para os gnósticos, não era um acontecimento do passado. Ela simbolizava a maneira que a presença de Cristo poderia ser vivenciada a qualquer momento. Alguns gnósticos consideravam a idéia da ressurreição da carne, numa interpretação literal, "extremamente repulsiva, repugnante e impossível" e para outros, essa interpretação da ressurreição era considerada "a fé dos tolos". Acreditavam que isto se devia à falta de compreensão do significado de uma verdade espiritual, que era uma confusão com um fato real. Para eles, o não ter convivido com Cristo podia transformar-se em vantagem pois a pessoa, impossibilitada de encontrá-lo fisicamente, poderia experienciá-lo internamente, da mesma maneira que Paulo encontrou Cristo no caminho de Damasco: uma vivência interior. "O que importa não é ver literalmente, mas sim a visão espiritual."

Outra interpretação dos gnósticos era que as aparições de Cristo, após a sua morte, seriam visões recebidas em êxtase ou em sonhos ou em momentos de iluminação espiritual. E as visões, para os gnósticos, não eram consideradas fantasias ou alucinações mas sim a maneira pela qual a "intuição espiritual revela a natureza da realidade".

Pagels conta que uma carta encontrada em Nag Hammadi, de autor desconhecido, Tratado Sobre a Ressurreição, escrita ao discípulo de nome Rheginos, diz: "Não suponha que a ressurreição seja uma aparição. Não é uma aparição, e sim algo real. Deveríamos, ao invés sustentar que o mundo é uma aparição e não a ressurreição." Prossegue em outro trecho da carta: "A existência humana comum é morte espiritual, mas a ressurreição é o momento de iluminação. É a revelação do que verdadeiramente existe, e uma migração em algo novo. Aquele que compreender torna-se espiritualmente vivo. Podemos ressuscitar dentre os mortos. Será você mera corrupção? Examine-se a si mesmo, e verá que já ressuscitou"

Outro texto de Nag Hammadi, O Evangelho de Felipe, ensina: "Aqueles que afirmam que primeiro haverão de morrer para depois ressuscitar incorrem em erro. Seria preciso, receber a ressurreição enquanto vivem. É necessário ressuscitar nesta carne, pois tudo existe nela".

Pagels declara em Os Evangelhos Gnósticos que Irineu afirma que a prova da validade dos evangelhos é o fato de terem sido escritos pelos próprios discípulos e seguidores de Jesus que testemunharam o que escreveram. Hoje alguns estudiosos da Bíblia contestam esta afirmação. Da mesma forma, os autores gnósticos atribuíam os seus escritos secretos a diversos discípulos. Alguns podem até ter recebido parte do material de antigas tradições, mas alguns admitem que obtinham a gnose através de sua própria experiência.

Pela maneira que os cristãos gnósticos interpretavam a ressurreição, essa autoridade seria esvaziada e quando faziam tal interpretação, eram acusados de hereges. Há que se salientar que os gnósticos tinham consciência do aspecto político da questão.

Conseqüências para a Cultura Ocidental

  O homem aqui, deus lá. A fraqueza e o nada aqui, lá o poder eternamente criador. Aqui, nada além de trevas e gélida umidade. Lá completamente sol.

    JUNG, C.G. Septem Sermones ad Mortuos : VII Sermão

As conseqüências políticas da prevalência das idéias defendidas pelos pontífices da Igreja foram: os líderes da Igreja até hoje pertencem a um quadro restrito com autoridade incontestável; em virtude de somente os apóstolos terem permissão para ordenar seus sucessores, as lideranças conseqüentemente só puderam partir destes legítimos delegados de tal maneira que não houve quebra na cadeia sucessória. A Igreja conseguiu atravessar dois mil anos de história com poder político, com a prevalência de seus princípios e idéias.

Como resultado da prevalência de suas idéias, do Cristo material, ressuscitado em "carne e osso", preocupado com a sua representação na terra, que após a ressurreição se mostrou a alguns poucos especiais, houve o desligamento da possibilidade da revivescência do percurso de Cristo, como pensavam os gnósticos que fosse possível. Houve uma completa reformulação do modo de pensar do mundo ocidental.

A conseqüência foi a divisão do planeta em duas maneiras de pensar radicalmente diferentes.

O pensamento Oriental vincula intimamente filosofia e religião que influenciam a vida intelectual, social e cultural. O objetivo principal das filosofias orientais é a experiência direta da realidade.

Segundo Northrop, a base do Pensamento Oriental é o conceito por intuição. enquanto a base do Pensamento Ocidental é o conceito por postulação.

CONCEITOS POR INTUIÇÃO

O significado do conceito por intuição provém do que é imediatamente percebido, sem a contribuição da razão. O significado completo é dado pela "coisa". É um conceito sem qualquer recurso aos postulados da razão.

CONCEITOS POR POSTULAÇÃO

No conceito por postulação, o significado é dado em função das propriedades ou relações atribuídas a este significado pelos postulados da teoria dedutiva. Fora destas relações de postulados, o significado é um signo sem sentido. A cor, no conceito por postulação, é percebida enquanto comprimento de onda na teoria eletromagnética.

A unidade do homem é algo que Jung retomou recentemente. Até o século passado não era cogitada. A idéia de um Deus pessoal era inadmissível. A fragmentação psíquica, resultante da falta de relação com o Deus interior, leva o inconsciente à relação compensatória destrutiva e avassaladora com o consciente, típica da unilateralidade. Rejeitar um lado da psique é soltar os demônios, é permitir que este lado tome tanto o indivíduo quanto a humanidade de assalto. É permitir crises que levam à beira de catástrofes: armas nucleares, desequilíbrio ecológico, regimes autoritários, purificação da raça ariana, guerras... O homem busca no trabalho - o alcaholic é festejado; na bebida - utilizada desde a adolescência; no consumo - a sociedade globalizada é a sociedade mais evoluída -; dar vazão à necessidade da experiência religiosa. A vida perde seu significado. A unilateralidade da cultura cristã, com sua rígida interpretação do monoteísmo, levou muitas pessoas a, decepcionadas, afastarem-se definitivamente do seu Deus, interior ou exterior, e a serem arrastadas para a frustração. Jung escreve:

    O ocidente é cristão em todos os sentidos, apesar de tudo. O "anima naturaliter Christiana" de Tertuliano vale para todo o Ocidente, não somente no sentido religioso, como ele pensava, mas também no sentido psicológico. A graça provém de uma outra fonte; de qualquer modo, ela vem de fora. Qualquer outra perspectiva é pura heresia. Assim compreende-se perfeitamente que a alma humana tenha complexos de inferioridade. Quem ousa pensar em uma relação entre a alma e a idéia de Deus é logo acusado de psicologismo ou suspeito de misticismo doentio. O Oriente, pelo contrário, tolera compassivamente estes graus espirituais 'inferiores' em que o homem se ocupa com o pecado devido à sua ignorância cega a respeito do carma, ou atormenta a sua imaginação com uma crença em deuses absolutos, os quais, se ele olhar um pouco mais profundamente, perceberá que não passam de véus ilusórios tecidos pelo seu próprio espírito.

O pensamento ocidental reduz o espírito universal ao nível do conhecimento, da consciência individual. Abandona um mundo que "pulsava com o nosso sangue e respirava com o nosso sopro" e em troca, fica com os fatos concretos. No Oriente, o espírito continua a ser universal.

    A meu ver, teremos aprendido alguma coisa com o Oriente no dia em que entendermos que nossa alma possui em si riquezas suficientes que nos dispensam de fecundá-la com elementos tomados de fora, e em que nos sentirmos capazes de desenvolver-nos por nossos próprios meios, com ou sem a graça de Deus. Mas não podemos entregar-nos a esta tarefa ambiciosa, sem antes aprender a agir sem arrogância espiritual e sem uma segurança blasfema.

O homem oriental é introvertido, o conhecimento é para ele mais uma manifestação psicológica do que o resultado de experimentos e observações. Para o homem ocidental, ao contrário, a extroversão é algo inferior. No Oriente, o espírito continua a ser universal e impessoal, não existe conflito entre ciência e religião. Nas palavras de Jung:

    De modo análogo, o homem ocidental é cristão, independentemente da religião à qual pertença. Para ele, a criatura humana é algo infinitamente pequeno, um quase nada. Acrescenta-se a isso o fato de que, como diz Kierkegaard, 'o homem está sempre em falta perante Deus'. O homem procura conciliar os favores da grande potência mediante o temor, a penitência, as promessas, a submissão, auto-humilhação, as boas obras e os louvores. A grande potência não é o homem, mas um 'totaliter aliter', o totalmente outro, absolutamente perfeito e exterior, a única realidade existente. Se modificarmos um pouco a fórmula e em lugar de Deus colocarmos outra grandeza, como, por exemplo, o mundo, o dinheiro, teremos o quadro completo do homem ocidental zeloso, temente a Deus, piedoso, humilde, empreendedor, cobiçoso, ávido de acumular apaixonada e rapidamente toda a espécie de bens deste mundo tais como riqueza, saúdo, conhecimentos, domínio técnico, prosperidade pública, bem estar, poder político, conquistas, etc. Quais são os grandes propulsores de nossa época? Justamente as tentativas de nos apoderarmos do dinheiro ou dos bens dos outros e de defendermos o que é nosso. "

Até há bem pouco tempo, somente o pensamento científico era valorizado. Os primeiros filósofos foram saudados pelo "milagre grego", a passagem do pensamento místico para o racional e filosófico.

Augusto Comte explica o desenvolvimento do ser humano pelo abandono do pensamento mítico e religioso e a adoção do pensamento positivo, lógico, mensurável e controlável. Opõe o mito à razão e coloca o mito num patamar inferior, significando que a humanidade vem percorrendo um trajeto evolutivo, do pensamento mítico, irracional para o lógico, da razão.

É Nietzsche quem diz a palavra final:

    Os gregos não viam os deuses homéricos acima de si, como senhores, e não se viam abaixo deles, como servos, ao modo dos judeus. Viam como apenas a imagem em espelho dos exemplares de sua própria casta que melhor vingaram, portanto um ideal, não um contrário de sua própria essência. Há o sentimento de parentesco recíproco, subsiste um interesse de lado a lado, uma espécie de simaquia. O homem pensa nobremente de si quando dá a si mesmo tais deuses e se coloca em uma relação como é a da nobreza inferior para com a superior enquanto os povos itálicos têm uma boa religião de camponês, com constante inquietação contra potências más e caprichosas e espíritos torturantes. Onde os deuses olímpicos se retiravam, ali a vida grega era também mais sombria e inquieta. O Cristianismo, por sua vez, esmagou e alquebrou completamente o homem, e o mergulhou como que em um profundo lamaçal de uma piedade divina, de tal modo que o surpreendido, aturdido pela graça, lança um grito de embevecimento e por um instante acreditava carregar o céu inteiro em si. Sobre esse doentio excesso do sentimento, sobre a profunda corrupção de cabeça e coração necessária para isso, atuam todas as invenções psicológicas do cristianismo: ele quer aniquilar, alquebrar, aturdir, inebriar, ele só não quer uma coisa: a medida, e por isso é, no sentido mais profundo, bárbaro, asiático, sem nobreza, não-grego.

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