Introdução: o conceito de Mente e a Revolução Darwiniana



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A IMPORTÂNCIA DAS EMOÇÕES ANIMAIS NA TEORIA DA MENTE

EM CHARLES DARWIN - OBSERVAÇÕES PRELIMINARES

André Luis de Lima Carvalho1
Introdução: O Conceito de Mente e a Revolução Darwiniana

O conceito de mente constitui matéria de pauta de infindáveis debates filosóficos e científicos, nos mais diversos ramos das ciências humanas, naturais e da saúde. O período moderno, especialmente na voz de René Descartes, assinala o coroamento da concepção da mente como marca da singularidade humana, do homem como único portador de uma mente racional, em oposição aos animais, meros autômatos biológicos desprovidos de mente, com os quais o homem só compartilharia seu corpo físico, sujeito às leis mecânicas.



O cartesianismo foi alvo de fortes críticas e exerceu profundas influências até a metade do século XIX. Mas a partir da publicação de Origin of Species, por Charles Darwin em 1859, operou-se profunda e revolucionária transformação na percepção do lugar do homem no mundo natural. Retirando do homem seu status especial de criatura única dotada de alma imortal, e nivelando-o com os demais seres vivos como apenas mais um ator no palco do drama evolutivo, o darwinismo substituía a explicação teológica pela naturalística (Mayr, 1998; Bowler, 1989). Após acirrados e prolongados debates entre darwinistas e seus opositores, a teoria darwiniana foi ganhando terreno, e a evolução tornou-se tema central no pensamento biológico. Mas foi uma conquista gradual, marcada por diversas disputas teóricas. Alvar Ellegard (1990) relata as várias frentes de debate entre os darwinistas e seus opositores, adeptos da teologia natural, e mostra como os últimos eram obrigados a ceder e reformular suas teses na medida em que os partidários de Darwin reuniam argumentos e evidências em prol da evolução. O acúmulo de descobertas fósseis forçou os criacionistas a abrir mão da perspectiva fixista, e admitir como fato a evolução das espécies. O passo seguinte desse debate envolvia uma questão crucial: a origem do homem e sua inserção no reino animal. Esse tema constituía capítulo à parte, pela ameaça que representava às concepções religiosas vigentes na vida social da Inglaterra vitoriana.
A Teoria da Origem Comum e a Questão da Mente Humana

Numa discussão conceitual, Ernst Mayr (1998) defende ser mais adequado falar em duas revoluções darwinianas1. A segunda delas é a teoria da seleção natural, mas a primeira revolução darwiniana corresponderia à teoria da origem comum (‘common descent’) de todos os seres vivos a partir de um único ancestral primitivo. Mas dentro do universo de autores darwinistas não foi Darwin o primeiro a fazer uma defesa mais direta de uma origem comum entre homem e animais. Disso incumbiu-se um aliado seu. Com a publicação, em 1863, de Man’s Place in Nature, Thomas Huxley (2001) declara de forma explícita o que Darwin não havia senão insinuado no Origin: o íntimo parentesco entre o homem e os grandes primatas, que partilhariam uma herança biológica comum (Bowler, 1989). Mas, como aponta Ellegard (1990), os adversários do darwinismo não desistiam facilmente; recuavam de suas posições ou as reformulavam em novas bases à medida que suas teses se tornavam insustentáveis dentro da comunidade científica. Uma vez que Huxley concentrara seu foco na anatomia comparada, a linha argumentativa de seu discurso em Man’s Place dizia respeito unicamente a estruturas físicas. Assim, muitos anti-darwinistas passaram a admitir a continuidade física entre animais e homem, mas não a continuidade mental. Mesmo dentro do núcleo de darwinistas, o próprio Alfred Wallace - co-autor junto a Darwin da teoria da seleção natural - defendia que a teoria da seleção natural era suficiente para explicar o comportamento animal, mas não a inteligência humana, que exigia uma explicação sobrenatural (Wallace, 1870). Como instância mais diretamente relacionada à alma e aos valores morais e religiosos, a mente humana restava, assim, como última cidadela sitiada pelos incessantes bombardeios evolucionistas. E redobrados foram os esforços para salvar a mente das ameaçadoras garras do darwinismo e das perturbadoras implicações filosóficas de seus postulados. Sendo a mente a morada da consciência, reivindicada por teólogos como seara exclusiva do dogma cristão, não caberia à ciência gerar questionamentos capazes de abalar os alicerces da teologia então vigente.

Mas o embate, embora adiado, foi inevitável, e em 1871 o próprio Darwin publicou The Descent of Man and Selection in Relation to Sex, obra que reunia argumentos em reforço da noção da continuidade entre as mentes animal e humana. Ao longo de todo o texto do Descent Darwin apresenta incontáveis argumentos e evidências de que diversas espécies animais são possuidoras, em maior ou menor grau, da maioria das faculdades mentais consideradas por muitos como exclusivas da espécie humana. Darwin enfatiza que reconhece as imensas diferenças entre o homem e os outros animais - na evolução cultural e tecnológica, processo civilizatório, complexidade moral. Mas como tenaz defensor do ‘princípio de continuidade’ (resumido na frase “a natureza não dá saltos”), afirma que essa diferença não é de tipo, mas meramente uma (significativa) diferença de grau.


Mente Animal em Darwin na Visão de Robert Richards

Em artigo historiográfico publicado na década de 1980, Burkhardt (1985) apontava que os pensamentos de Darwin sobre o comportamento permaneciam relativamente inexplorados, e explorava os prováveis motivos desse fato. Mas tal lacuna foi em grande parte preenchida com a publicação de Darwin and The Emergence of Evolutionary Theories of Mind and Behavior, de Robert Richards (1989). Nessa ampla revisão sobre o papel das teorias da mente e comportamento no programa de pesquisa darwinista, Richards elegeu para sua discussão sobre o papel e desenvolvimento das teorias darwinistas da mente e comportamento três temas: o instinto, a razão e a moral, pois - sustenta o autor - são esses os três aspectos ligados às questões da mente e comportamento que recebem maior destaque na obra de Darwin e seus contemporâneos.

A obra supracitada de Richards conta 700 páginas, mais o prefácio. Dessas 700 páginas, 627 são de texto corrido, distribuídas em 12 capítulos e dois apêndices. O autor discute à exaustão o papel dos três tópicos por ele escolhidos (instinto, razão e moral) nas teorias de Darwin, Wallace, Spencer e outros autores implicados no programa darwinista. O estudo da mente humana e animal, no entanto, inclui um aspecto importante que o autor mal toca: a questão das emoções. No índice remissivo do livro de Richards, o termo emotions remete a apenas 8 páginas, dentre as quais apenas 5 dizem respeito a Darwin, comparando as teses deste às de Charles Bell a respeito da expressão das emoções. Ou seja, de um total de 627 páginas escritas, o autor dedicou menos de 4 (0,64 %) à visão específica de Darwin a respeito das emoções. A análise de Richards do papel das emoções na teorização de Darwin sobre mente e comportamento é focada basicamente na obra The Expression of The Emotions in Man and Animals (Darwin, 1998), publicada em 1872, um ano depois do Descent. Richards comenta que o Expression fora originalmente concebido como parte do próprio texto do Descent, mas por motivos práticos e estratégicos Darwin optara por lançar esse texto em volume independente. Richards faz uma breve descrição dos três princípios de expressão emocional enumerados por Darwin no Expression, demonstrando que na teoria darwiniana essas formas de expressão emocional seriam instintos adquiridos meramente pela força do hábito. Assim, comparando a teoria de Darwin à dos cientistas atuais, afirma que “enquanto os etologistas modernos atribuem às expressões dos animais funções comunicativas vitais, Darwin negava que as respostas emocionais tivessem qualquer uso que fosse, motivo pelo qual ele não invocou a seleção natural para explicá-las” (Richards, 1989, p. 230). Com esse raciocínio, parece considerar justificada sua decisão (que não chega a ser assim explicitada) de deixar de lado a questão das emoções na discussão das teorias de Darwin sobre mente e comportamento.



Embora Richards demonstre vasto conhecimento da obra de Darwin, penso que fechar uma análise e definir uma posição (como parece fazer esse autor) sobre a importância das emoções no discurso de Darwin baseado unicamente no Expression talvez resulte num empreendimento incompleto. Janet Browne, num artigo no qual analisa o Expression, aponta que o objetivo básico desse livro (Darwin,1998) era “demonstrar que até mesmo as características mais ‘humanas’ eram, em sua raiz, derivadas dos animais”. Por isso, continua a autora, “a chave para o Expression é encará-lo como uma continuação do Descent.”. Afirma que “é essencial ler um volume depois do outro para compreender qual é realmente o ponto central de seus argumentos, pois muito do que aparece no Expression é apenas resumido no Descent, e vice-versa”. (Browne, 1985, p. 309). Cabe aqui a questão: desempenhariam as emoções papel tão secundário na teoria darwiniana quanto nos sugere a leitura de Richards? Meu objetivo é que ao fim desse artigo o leitor esteja convencido do contrário.
Emoções na Obra de Darwin: O Expression e o Descent

Para uma análise da questão das emoções na obra de Darwin, comecemos pelo Expression. Esse volume é dedicado a estabelecer o que Darwin chamou de ‘princípios gerais de expressão’ (Darwin, 1998). Descrever ou discutir tais princípios fugiria ao escopo desse trabalho. O que importa para nós aqui a respeito dessa obra é que Darwin defende que tais princípios de expressão seriam partilhados pelos ditos animais superiores, incluido o homem. Quero salientar, porém, que o foco do Expression - como sugere o título - não são as emoções em si, e sim uma análise comparativa das expressões emocionais.
Analisemos agora o Descent, publicado um ano antes. Os capítulos 3 e 4 - os mais relevantes quanto à discussão das emoções animais e humanas - são ambos intitulados Comparison of the Mental Powers of Man and the Lower Animals. Logo no início do capítulo 3, Darwin explica que seu objetivo neste é “demonstrar que não há qualquer diferença fundamental entre o homem e os animais superiores em suas faculdades mentais” (Darwin, 1998a, p. 67). Nesses dois capítulos Darwin lista inúmeras faculdades mentais, muitas das quais nomeia como emocionais, conforme veremos no estudo de caso.
Emoções Humanas e Animais na Inglaterra Vitoriana: o Cão como Estudo de Caso

A questão das emoções tem uma relação histórica com uma questão ética: a atitude do homem para com os animais. E aqui importam tanto as emoções que os homens experimentam em relação aos animais quanto às emoções que os próprios animais vivenciam. Keith Thomas (2001) declara que “a metade do século XVIII presenciou um culto da sensibilidade, uma voga das lágrimas (...) e na relação com os animais “esse novo modo de pensar pressupunha que o importante eram os sentimentos da criatura sofrente, não a sua inteligência ou capacidade moral.” (p. 210). Essa discussão conquistava dimensões e fóruns cada vez mais amplos: “em seu discurso de jubileu, em 1887, a rainha Vitória notou (...)‘com sincero prazer, a expansão de sentimentos mais humanos para com os animais inferiores’” (p. 178). A respeito da publicação do Descent, já em 1871, Thomas comenta que “não é demasiado ver [no Descent] (...) a influência de uma longa tradição de histórias de classe média sobre a sagacidade e o caráter animais” (p. 169).

Thomas chama, porém, atenção para o fato de que essa mentalidade e atitude de maior sensibilidade na lida com os animais era característica das classes mais privilegiadas: “por trás da evidente distinção de classes havia uma fronteira muito nítida entre as sensibilidades. (...) A maioria dos trabalhadores continuava a considerar os animais de uma perspectiva funcional, em que não entrava sentimento” (Thomas, 2001, p. 223). E mesmo nas classes médias havia “espécies privilegiadas”: o cavalo, o falcão, certas aves silvestres, o gato, o cão. Dentre esses animais havia um predileto: “O cão era o preferido de todos os animais. Havia cães por toda a parte na Inglaterra do início dos tempos modernos.” (p. 122). Os “alicerces dessa obsessão pelos cães” foram lançados no princípio do período moderno: “No século XVIII o cão já era geralmente conhecido como ‘o mais inteligente de todos os quadrúpedes conhecidos’, e louvado como o mais fidedigno e a companhia mais humilde do homem” (...) Houve também uma tendência acentuada a encarar o cão como símbolo nacional.” (p. 130). Mas “a publicação de obras sentimentais sobre os cães só começou no século XIX”, período de ascensão das exposições caninas e fundação do Kennel Club (p. 130). A predileção aristocrática pelo cão se vê no provérbio: “não pode ser fidalgo quem não ama um cão” (Thomas, 2001, p. 124).

Não parece ter sido pequena a influência dessa mentalidade sobre Charles Darwin. No Expression são abundantes as referências ao cão, e há várias pranchas com gravuras de cães em diferentes posturas para ilustrar os ‘princípios gerais de expressão’ por ele concebidos. Também no Descent Darwin faz inúmeras alusões ao cão, como exemplo da posse, pelos animais, das mais diversas faculdades mentais - muitas das quais se encaixam no rol das emocionais. No presente artigo escolhi, por isso, o cão para uma análise de caso, e adotarei aqui o método especime-tipo, adaptado por Hull (1985) da taxonomia para estudos historiográficos. Segundo esse autor, na taxonomia moderna, de orientação não-essencialista, o primeiro exemplar encontrado de uma nova espécie, por mais aberrante que pareça em comparação com os tipos morfológicos mais comumente encontrados, pode ser usado como espécime-tipo, ou seja, como referência para descrição daquela espécie. Da mesma maneira, se desejamos estudar uma comunidade científica ou um sistema conceitual, podemos escolher qualquer membro dessa comunidade ou qualquer conceito dentro de um sistema e acompanhar seu comportamento na rede de relações que estabelece. Meu espécime-tipo foi, aqui, o cão de Darwin, i.e., o cão conforme visto por esse autor. Esse cão foi analisado como portador de emoções, para análise da importância das mesmas na obra de Darwin. Observações preliminares encontram-se nas tabelas 1 e 2.

Numa análise preliminar da tabela 1, podemos listar 23 faculdades mentais atribuidas aos cães, das quais 18 (78,2%) podem ser consideradas emocionais ou emocionalmente motivadas2, contra 5 (21,8%) não-emocionais. Na tabela 2, que analisa a contestação por Darwin de aforismos a respeito da singulairdade humana, a relação se inverte: 1 faculdade emocional (14,3%) contra 6 (85,7%) não-emocionais. Somando os 30 atributos analisados nas duas tabelas para uma análise única, temos apenas no capítulo 3 do Descent 19 faculdades emocionais ( 63,3%) contra 11 não-emocionais (36,7%).



Concluindo: Importância das Emoções em Darwin

Uma leitura preliminar parece indicar que as emoções não figuram, na teoria darwiniana, entre as mais elevadas faculdades mentais, e podemos especular que isso se deva em grande parte à primazia conferida à razão (em contraste com os instintos) e à moralidade como atributos da singularidade humana e da supremacia européia na era vitoriana. Ainda assim, minhas observações preliminares indicam que as emoções enquanto faculdades mentais têm um peso maior na teoria da mente de Darwin do que Richards (1989) parece atribuir às mesmas. Defenderei essa tese nos parágrafos que seguem.

Em primeiro lugar, tanto no Expression quanto Descent as emoções representam um

importante aspecto na argumentação de Darwin sobre a continuidade mental entre os animais e o homem, conforme se vê analisando as Tabelas 1 e 2. Também dentro da própria teoria moral darwiniana as emoções parecem desempenhar importante papel, e não parece possível discorrer sobre a teoria da moral em Darwin sem abarcar o problema das hoje denominadas “emoções morais” (Haidt, 2003). No Expression, por exemplo, Darwin considera a solidariedade (sympathy) - atributo chave de sua teoria moral - uma emoção, e declara haver uma “íntima aliança entre solidariedade e afeição.” (p. 215). A afeição (affection), por sua vez, além de considerada uma emoção, é descrita como uma “qualidade moral” no Descent (p. 83).

Ernst Mayr defende que a teoria darwiniana não era na verdade uma, e sim “cinco teorias amplamente independentes”: 1) evolução como fato; 2) origem comum de todos os seres vivos (common descent); 3) gradualismo; 4) especiação populacional; e 5) seleção natural (Mayr, 1998, p. 564). E afirma que o engajamento de um autor no projeto darwinista não requeria sua adesão incondicional a qualquer dessas cinco teorias. Desses cinco componentes da teoria darwiniana defendo que é a concepção de origem comum o que guarda relação mais direta com a discussão das mentes animal e humana em Darwin, por sua relação com a questão da continuidade mental, entre hoeme e animais. Visto dessa ótica, o fato de Darwin não atribuir a origem das emoções à seleção natural não elimina a importância das mesmas no corpo de sua estrutura argumentativa, até porque a seleção natural sempre foi ponto de discórdia e dissenso, inclusive entre darwinistas (Bowler, 1989; Ellegard, 1990; Mayr, 1998; Richards, 1989).

Quando se discute o papel das emoções na teoria darwiniana, a tendência que tenho observado na literatura especializada é a de voltar-se para o Expression (Cornelius, s/d; Gregory,1987; Richards, 1989). Mas, como assinala Browne (1985), “o objetivo do Expression era, no fimdas contas, concentrar-se na evolução das expressões propriamente ditas, e não na psicologia de sua identificação; nos atributos físicos, e não na percepção mental ou convenções” (p. 317). Em outras palavras, não há no Expression uma preocupação com as emoções enquanto conteúdos mentais; não se vê ali uma descrição da experiência mental das emoções. Como nesse trecho: ”Quando um cão aproxima-se de um homem ou cão estranho, num estado mental hostil, ele caminha ereto e muito rígido; sua cabeça é erguida de forma rígida; os pelos eriçados (...)” (Expression, p. 55). Quero defender aqui que uma abordagem do conteúdo mental das emoções aparece, sim, na obra de Darwin, mas no Descent. Como nessa passagem: “Como podemos estar certos de que um velho cão com excelente memória e algum poder de imaginação, conforme demonstrado em seus sonhos, nunca reflete sobre os prazeres e dores passados de saus caçadas?” (Descent, p. 86).

A teoria evolutiva de Darwin exerceu, ainda, grande influência sobre dois importantes autores dos séculos XIX e início do XX: William James (Richards, 1989) e Sigmund Freud (Ritvo, 1992a ). Ambos, nomes de peso na história da psicologia. Além disso, uma das grandes tradições teóricas no estudo atual das emoções é a perspectiva evolucionsita, - chamada de darwinista (Cornelius, s/d).

Penso ter demonstrado, assim, que ainda que as emoções não sejam o tema dominante na teorização da mente animal e humana por Darwin, elas de qualquer modo desempenham papel de considerável importância na estratégia argumentativa e na concepção de mente e de comportamento desse autor.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Bowler, Peter. J. – Evolution: the history of an idea. Berkeley. Univ. California Press, 1989

Browne, Janet. Darwin and The Expression of The Emotions. in Kohn, David, ed. The Darwinian Heritage. Princeton: Princeton University Press, 1985.

Burkhardt, Richard W. Darwin on Animal Behavior and Evolution. in Kohn, David, ed. The Darwinian Heritage. Princeton: Princeton University Press, 1985.

Cornelius, Randolph R. - Theoretical Approaches to Emotion. Página da web: www.qub.ac.uk/en/isca/proceedings/pdfs/cornelius.pdf

Darwin, Charles. The Descent of Man. New York: Prometheus Books, 1998a [1871]

_____________ The Expression of The Emotions in Man and Animals New York: Oxford University Press, 1998b. [1872]

_____________ Origem das Espécies. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2002 [1859]

Dennet, Daniel - Tipos de Mentes. Rio de Janeiro: Rocco, 1997

Ellegard, Alvar. Darwin and the general reader: the reception of Darwin's

theory of evolution in the British Periodical Press, 1859-1872. Chicago: The University of Chicago Press, 1990.

Gregory, Richard L. (ed.) - The Oxford Companion to The Mind. New York: Oxford University Press, 1987.

Haidt, J. The moral emotions. In R. J. Davidson, K. R. Scherer, & H. H. Goldsmith (Eds.), Handbook of affective sciences. Oxford: Oxford University Press, 2003 (pp 852-870).

Hull, David. - Darwinism as a Historical Entity: A Historiographic Proposal. In Kohn, David, ed. The Darwinian Heritage. Princeton: Princeton University Press, 1985.

Huxley, Thomas H. Man’s Place in Nature. New York: Random House, 2001 [1872]

Mayr, Ernst O Desenvolvimento do Pensamento Biológico. Brasília: Editora

Universidade de Brasília, 1998.

Richards, Robert. J. Darwin and the Emergence of Evolutionary Theories of Mind and Behavior. Chicago: University of Chicago Press, 1989.

Ritvo, L. B. A influência de Darwin sobre Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1992.

Thomas, Keith. O Homem e o Mundo Natural: Mudanças de Atitudes em Relação às Plantas e aos Animais (1500-1800). São Paulo: Companhia das Letras, 2001



Wallace, Alfred Russel. Contributions to the Theory of Natural Selection London: Macmillan, 1870.

NOTAS

1 Para fins de clareza conceitual, adotarei nesse trabalho o termo darwiniano para me referir ao que se refere especificamente à teoria da Charles Darwin. Já o termo darwinista como adjetivo será usado para designar aspectos ligados ao programa de pesquisa do darwinismo, e como substantivo para os autores considerados darwinistas. Seguindo Hull (1985), considerarei como darwinistas os autores que participavam ativamente e eram aceitos no círculo social de Darwin e que, com ele, cuidavam de defender e edificar o flexível programa de pesquisa do darwinismo. Já o termo darwinismo será aqui compreendido, ainda seguindo Hull, como uma entidade histórica, que foi sofrendo alterações ao longo de seu desenvolvimento

2 O principal critério de definição aqui adotado para considerar uma faculdade mental como emoção é a nomeação desta como tal pelo próprio Darwin. Assim, atributos que poderiam ser considerados polêmicos, como amor (love) e solidariedade (sympathy) foram considerados emoções por ser assim classificados por Darwin (ver Darwin, 1998b, pp. 82 e. 215, respectivamente)

3 Não fica clara na obra de Darwin a existência de qualquer critério de classificação que defina que grupos animais seriam considerados ‘animais inferiores’ (lower animals) e quais seriam os ‘animais superiores’ (higher animals). Não é raro que num dado trecho ele inclua uma certa espécie entre os animais inferiores, e noutro trecho refira-se ao mesmo animal como um dos animais superiores.
FACULDADE MENTAL
ESPÉCIE / GRUPO ANIMAL
CONTEXTO E PÁGINA
Felicidade
Animais jovens - exs: cãezinhos, gatinhos, cordeiros, etc. “Até os insetos brincam”
Comportamento de brincar como exemplo máximo de felicidade, como nas “nossas crianças” [ 70]
Emoções (geral)*
Coragem e timidez (courage and timidity)
Animais infe-riores3
Cães
São excitados pelas mesmas emoções que nós
[p. 70]
Grande variabilidade individual desses atributos [71]
Mal humor (ill temper) e bom humor (good temper)
Cães e cavalos
Variabilidade individual [71]
Amor (love)
Cão
“O amor de um cão pelo seu dono é notório” [71]
Solidariedade e fidelidade (sympathy and fidelity)
Macacos e cães
Defendem o dono de ataques de terceiros
[72]



“Maioria das mais complexas Emoções”
Ciúmes
(jealousy)



Ani-mais supe-riores (high-er ani-mals)
Cão
Afirma que compar-tilhamos tais emoções com os animais superiores[p. 72]
Sente ciúmes do afeto de seu dono [72]

Amor e desejo de ser amado (love; desire to be loved)
Animais / cão
O caso do cão seria um exemplo desse fato [72]
Auto-complacência ou orgulho (self-complacency or pride)

Cão
É o que exibe um cão que carrega a cesta para seu dono [73]
Vergonha (shame)
Darwin não tem dúvida de que um cão sente vergonha, que diferencia do medo [73]
Modéstia (modesty)
Demonstra um sentimento semelhante a esse ao implorar por comida [73]
Magnanimidade (magnanimity)
Exibida pelo cão grande que desdenha os rosnados de um caõzinho [73]

Senso de humor

(sense of humour)


Em certa forma de brincar com o dono [73]


Emoções e
Facul-dades mais
Inte-lectuais


Emoções e
Facul-dades mais
Inte-lectuais

(Cont.)
Excitação (excitement)
Animais / Cão / macacos
Formam a base para o desenvol-vimento de poderes mentais supe-riores
Animais apresentam excitação e sofrem de tédio, como os cães e os macacos [73]
Tédio (ennui)
Imitação*
Macacos, aves, papagaios, gato
Relato de cães criado por gatas, que imitam movimentos de gatos [75]
Lembranças (memories)*
Babuíno / Cão / formigas
Um velho cão que o reconheceu após uma ausência de 5 anos
[77]
Imaginação*
Cão, gato, cavalo, aves, provavelmente a maioria dos animais superiores
 Sonham, portanto têm alguma imaginação [76]

Deve haver algo [imaginário]que faz os cães uivarem ao luar. [77]


 Se realmente são perturbados pelos vagos contornos de objetos, “podem quase ser chamados de supersticiosos” [77]
Razão* / Associação de Idéias*
Cão, lobo, lúcio (peixe), macacos, elefante, urso, mula
 Estratégias de cães para marchar no gelo fino [77]

 habilidade em encontrar água, cavando [78]

 soluções deliberadas para buscar patos alvejados [80 ]




Tabela1: Faculdades mentais atribuidas ao cão no cap. 3 do Descent. Asteriscos indicam atributos que serão considerados não-emocionais. Os demais estão sendo considerados faculdades emocionais ou emocionalmente motivadas. Os critérios de atribuição são explicados no texto do artigo.


AFORISMO DE SINGULARIDADE CONTESTADO

 FACULDADE(s) MENTAL(is)



ANIMAL / GRUPO

CONTEXTO, PÁGINA

Capacidade de auto-aperfeiçoamento*  “Certas Qualidades Morais”: afeição, confiabilidade (trust-worthiness), temperamente, inteligência geral

Animais de peleteria / Cão


Cão progrediu em “certas qualidade morais - aqui enumeradas [83]



Poder de Abstração* /

Formação de conceitos genéricos*



Cão

Quando um cão vê outro à distância, este é percebido no abstrato [86]

Auto-consciência*

Cão

Um velho cão com excelente memória e algum poder de imaginação poderia “refletir sobre seus prazres e dores passados” [86]

Individualidade Mental*

Cão

O mesmo cão que o reconhecera após 5 anos [86]

Posse de Linguagem*  expressão de emoções: avidez (eagerness); raiva (anger); desespero (despair); alegria (joy); demanda ou súplica (demand or supplication)

Cebus (macaco) / cão / aves / formigas

Cão:  Sons distintos para expressar esses diferentes estados [87]

 entende várias palavras e sen-tenças (“inteligência vocal”) [88 /92]



Atribuição de vida animada por agentes espirituais a objetos inanimados*

Cão

Seu cão rosnava quando o vento movia seu guarda-sol [98]

Devoção

Cão

O profundo amor de um cão pelo dono é como devoção religiosa [99]



Tabela 2: Contestação por Darwin de aforismos então comuns que tentam estabelecer a singularidade mental humana, .no cap. 3 do Descent. Somente foram listados aqueles nos quais figura o cão como portador das faculdades mentais em questão. Asteriscos indicam atributos que serão considerados não-emocionais. Os demais estão sendo considerados faculdades emocionais ou emocionalmente motivadas. Os critérios de atribuição são explicados no texto do artigo.



1* Mestrando em História das História das Ciências da Saúde pela Casa de Oswaldo Cruz, FIOCRUZ, RJ, sob Orientação do Prof. Dr. Ricardo Waizbort





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