Introdução



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Foram realizadas observações fenomenológicas dos alunos em sala de aula e outros ambientes escolares. Foram observados seus comportamentos, formas de interação com o meio , tipo físico e respostas a diferentes situações. Tomou-se como inspiração as fichas de observação da criança propostas no texto METODOLOGIA DA “CONFERÊNCIA DA CRIANÇA” de Johannes Bockemühl ..... (vide anexo).

Foram usadas também a análise de situações vivenciadas pelo grupo em sala de aula e as diversas formas de reação dos diferentes alunos e conversa com uma professora Waldorf.


Descrição do ambiente escolar
O Varjão, a Escola e a turma
O Varjão é uma região administrativa entre o Lago Norte e o Paranoá em Brasíla-DF. Foi constituída a partir de ocupações sucessivas de moradores em uma área de fazenda que posteriormente foi sendo legalizada pelo governo de acordo com seus interesses políticos. Ainda hoje existem dentro dele áreas, chamadas de transição, cujos moradores estão em situação provisória , o que siginifica que moram em barracos, em terrenos ainda não demarcados e sujeitos a deslocamentos que nem sempre são feitos de maneira pacífica. Recentemente houve uma desocupação onde a policia derrubou muitos barracos entre eles a casa de um dos alunos da turma.

As profissões mais comuns dos pais são pedreiros, domesticas, servidores e comerciantes.

As famílias são grandes e o grau de parentesco entre os moradores é alto pois a maioria são migrantes nordestinos da zona rural que vieram para Brasília buscar melhores condições de vida e que decidiram lutar por um lote. Um parente puxa o outro e eles chegam em qualquer mês do ano e colocam suas crianças na escola. Nem todos conseguem ficar. Muitos desistem e voltam ou mandam os filhos de volta para serem criados por tios ou avós até que a situação melhore. Também não são baixos os índices de violência doméstica o que é um dos motivos pelos quais os alunos podem deixar a escola repentinamente, a mãe sai de casa e foge com os filhos, por exemplo. Este também é o caso de uma menina da turma.

Há ainda aqueles que, atingida uma determinada situação econômica ou social, preferem colocar seus filhos em outras escolas consideradas melhores, no Lago Norte ou no Plano Piloto.

Há crianças que estudam na escola mas não moram no Varjão, geralmente são do Paranoá, bairro vizinho, mais antigo mas com uma historia semelhante a do Varjão, seu número é pequeno.

O local tem avançado em termos de luz, saneamento básico, asfalto, tem um comercio razoável e muitos órgãos sociais. A policia tem feito uma ação sistemática e recentemente foram comemorados os 100 dias sem assassinatos no local. A ação da policia no local pode ser uma das razões pelas quais tantas crianças na turma analisada disseram que querem ser policiais.

A escola é grande tendo quase mil alunos e funciona de manhã e de tarde. Vai desde a educação infantil até o 5o ano e é a única escola pública no local. É uma escola inclusiva tendo vários alunos com necessidades especiais. Eles contam com um monitor para dar suporte aos alunos PNEE, além de uma sala de recursos pedagógicos com duas profissionais . A escola tem ainda uma orientadora educacional mas sua ação é pouco evidente.

O corpo docente é composto de um grupo fixo que trabalha geralmente de manhã e um grupo altamente flutuante na parte da tarde. É uma espécie de portal para as escolas do plano piloto para os professores que estão recém contratados pela secretaria de educação ou um espaço de comodidade para aqueles que moram no Lago Norte ou nas proximidades.

Não se pode falar de um eu da escola a partir do corpo docente pois ele não chega a justificar a expressão corpo, são docentes esparsos que pouco se relacionam.

A gestão também é flutuante, sendo que nos últimos anos esta flutuação se deu mais em termos da vice direção e das coordenações.

Em termos físicos a escola conta com muitas salas, um refeitório, duas quadras, uma biblioteca, sala de informática , sala de professores, sala de reuniões e espaço para o turno integral e está dividida entre educação infantil e series iniciais. O espaço é íngreme estando as quadras acima das salas e tanto a biblioteca quanto a sala de informática estão pouco funcionais pois não há projetos ou pessoas que cuidem destes locais pedagogicamente. O refeitório é pequeno e assim como a quadra há um ritmo para o seu uso entre as turmas.

Eles tem um lanche na escola, mas sua concentração fica no lanche que trazem. Uma vez disse que não tinha almoçado. O lanche na escola é único para todos e tanto pode ser doce como salgado. Nem sempre as crianças gostam do que consomem neste lanche mas muitas ficam ansiosas por comer seu lanche que geralmente é composto de doces, ou salgadinhos e as vezes frutas.

Este ano os alunos estão freqüentando um dia por semana a Escola Parque no plano piloto onde desenvolvem ações de artes e educação física.

A escola tem muitas saídas e recebe alguns projetos e os professores também fazem cursos de formação continuada oferecidos pela secretaria de educação.

É uma escola agitada e confusa na sua índole. As quebras de ritmo são muito freqüentes e também o movimento dos docentes e discentes, o que gera um certo sentimento de cansaço e impotência. Poderíamos arriscar dizer que seu temperamento é sanguineo.

Desenvolvi um trabalho com os professores no ano passado. No inicio eram 20 mas so 5 permaneceram até o final. De um ano para o outro so uma professora das 5 permaneceu na escola e é com esta que estou trabalhando neste momento.

Comecei as observações desta turma no ano de 2012 quando eles ainda estavam no 1o ano. Foram algumas aulas assistidas e uma aula (4 horas) de atividades desenvolvidas. Observei várias turmas e escolhi esta para dar continuidade. Em parte porque a professora já estava trabalhando comigo e aceitou pegar a mesma turma no ano seguinte,mesmo achando que eles eram muito indisciplinados e difíceis, em parte porque tive uma empatia grande com o grupo.

Neste ano a turma, agora um 2o ano, mudou um pouco de configuração pois vários alunos saíram da escola ou mudaram de turno. Hoje temos 18 alunos mas este número ainda está flutuante pois há alunos que estão chegando e outros que não sabem se vão permanecer na escola. As razões para esta flutuação que dura o ano todo, e é comum na escola, é que a própria população do bairro é flutuante.

Há na turma dois alunos diagnosticados com necessidades especiais. Um com diagnóstico de autismo e outro que não fala e está sem um diagnóstico claro entrando como TGD (transtorno global do desenvolvimento).

A turma é composta por 6 meninos e 11 meninas, a maioria na faixa dos 7a 8 anos. Há quatro meninas e um menino que não estavam na turma no ano passado.

Ainda não notamos que haja uma grande separação entre meninos e meninas mas ela começa a se esboçar pois há maior interação entre os alunos de mesmo sexo.

A turma é agitada e não é fácil faze-los prestar atenção por muito tempo em alguma coisa. Gostam de brincar e demonstram uma certa preguiça com o trabalho escrito mas se insistimos escrevem palavras e pequenas frases. Gostam de matemática como jogo e respondem bem as atividades artísticas . Com relação a atividades rítmicas tem muitas dificuldades pois se cansam e se desmotivam facilmente alem de brigarem muito entre si.

Os interesses são muito diferentes e parecem competir por atenção o que os faz brigar muito. Certos alunos tem uma força muito grande na sala mas não configuram lideranças, mas presenças que tomam um grande espaço e dão forma ao ambiente como parece ser o caso de Pablo, Kaleb, Pedro, Maria Gabrielle, Tainá, enquanto há um grupo de meninas (Letícia, Luana, Raissa) que parece muito disperso, sem foco. Há também alguns alunos isolados que são minoria (Jamile, Daiane, Mayra). Há ainda os que chegaram recentemente e ainda estão se colocando como Ronaldo, Vitória, Pabline. Dos antigos há ainda um extremamente ponderado Josué que talvez tenha de ir embora e Artur que se liga ao Pablo mas parece menos ativo neste processo.

A professora tem um temperamento colérico e é dura com os alunos quando estão agitados. É rigorosa e costuma adjetiva-los quando briga chamando-os de chantagistas e coisas do gênero. Apesar disto ela gosta da turma e se dedica muito principalmente ao Kaleb que confia muito nela e está bastante a vontade na turma. Toda a turma lida bem com seu autismo e ele é bem recebido entre o grupo que compreende bem suas potencialidades e limitações. Já com o Pedro ela é mais distante e tem dificuldades o que se reflete nas dificuldades do Pedro com o grupo e do grupo com ele. Pedro parecia apático no ano passado mas este está muito nervoso buscando formas de se comunicar. Ele às vezes perde o controle e faz xixi e coco nas calças e isto é uma dificuldade para a professora. Não estou mais assistindo as aulas mas sinto que ela é muito mental. Não sei mais avaliar como estão as relações com a turma sem a minha presença pois agora já tenho um papel e se chego no processo interfiro mesmo sem querer.

Uma coisa importante sobre esta turma é a freqüência com que muitos repetem a frase “...mas eu não sei fazer isto...tia, faz pra mim.” Quando chamados aos trabalhos artísticos. Para alguns um pequeno estimulo já os põe em movimento, mas para outros esta questão é bem séria e a criança pode demorar muito tempo para entrar no processo ou mesmo não entrar.

As atividades que tenho exercitado com os alunos tem como objetivo desenvolver um sentido de ritmo que possibilite a concentração e o trabalho coletivo como preparação para o desenvolvimento do sentido de cuidar. Estas atividades ocorrem toda 5a feira no período antes do recreio (2 horas) e são parte de um projeto de Educação Ambiental e Ecologia Humana que estamos tentando desenvolver na escola.

O trabalho consiste em um primeiro momento onde trabalhamos a construção do sentido de cuidado consigo mesmo e com o outro tendo a sala de aula como foco.

Numa etapa seguinte em que o cuidado na turma tenha se ampliado desenvolve-se, também, com os alunos o sentido de criação em grupo de pequenas plantas e/ou animais além do plantio de uma árvore da turma na escola.

Paralelamente estão também previstas algumas visitas a partir das quais possamos inserir o espaço para além da escola como ambiente de cuidado. A idéia central é caminhar do sentido de cuidado no ambiente mais próximo (incluindo uns aos outros), para o ambiente do lugar onde vivem ( Escola, Varjão) até chegarmos ao ambiente natural (Cerrado) . As visitas devem apenas despertar nas crianças a vontade de entrar em contato com a natureza e sentir-se próxima. Já a atividade de plantio implica em uma ação participante. Em ambos os casos o sentido de cuidado deve ser explorado.

Está prevista também uma atividade com os pais para podermos compreender como vêem as crianças e sua educação, explicar o sentido do trabalho e ver em que eles podem contribuir.

Tudo está sendo organizado de comum acordo com a direção, a professora, e com os conteúdos curriculares que ela pretende desenvolver no ano.

As atividades ainda estão sendo organizadas pois, a medida que o contato com a turma se aprofunda, também fica mais claro o que é necessário para chegarmos ao ponto que desejamos.

A observação dos temperamentos tem servido como um dos pontos de apoio a partir dos quais, como educadora, tenho tentando compreender os caminhos possíveis para construir uma atividade pedagógica saudável.

Abaixo farei a descrição preliminar dos temperamentos das crianças do 2o ano da EC do Varjão dentro do que me foi possível observar, na seqüência farei algumas considerações sobre este elemento na construção do caminho pedagógico que estou tentando trilhar.



Descrições dos temperamentos dos alunos do 2o ano da EC Varjão

As descrições abaixo correspondem ao exercício de tentar reconhecer, em cada um dos alunos da turma, as características de temperamento a partir da experiência direta de convivência e conversas com a professora que já os acompanha desde o ano passado.

É um exercício bastante incompleto e limitado dadas as condições em que se desenvolve com relação ao tempo de convivência que, para algumas crianças é ainda muito pequeno. Assim sendo, cada menção ao temperamento deve ser recebida como uma hipótese atual ainda sujeita a transformações no decorrer do percurso educativo futuro.

Pablo - colérico

O primeiro encontro foi tudo. Loirinho de olhos azuis, baixinho, cheio de energia, muito conversador mas brabo. Quando quer uma coisa luta por ela obstinadamente. Primeiro abre um lindo sorriso sedutor, depois faz cara de brabo e reforça seu querer e se não é atendido tem ataques de fúria e chega mesmo a bater (nos colegas).

Veio conversar comigo no fim da sala. Queria uma moeda. Eu disse que não tinha mas que poderia lhe dar uma estrela. Ele quis. Desenhei a estrela e ele quis outras...toda a sala se agitou e tive que fazer muitas estrelas.

Ele queria mais que estrelas. Pediu um quebra-cabeça à professora pois enquanto os outros ainda estavam fazendo a lição ele já tinha acabado. Montou rapidamente o quebra-cabeça brigando com outros colegas. Comandou um ataque ao interruptor da sala, a professora enlouqueceu pois agora eram três. No final brigou com um outro aluno, suas brigas são violentas ele bate pra valer, só sossegou quando um terceiro menino, mais forte lhe deu um soco e ele caiu chorando.

Depois que eu o vi soube que não poderia deixar de estar naquela turma ....pude ver ali algumas grandes lideranças no futuro mas...precisando de educação.

Quando a professora o confronta e ele não tem como reagir fica pálido e sua energia desaparece da superfície, pode-se se sentir a implosão.

Muitas vezes se recusa a participar das brincadeiras e atividades que não o agradam e vai fazer outra coisa, mas se for chamado da forma correta ele vem.

É provocador e não permite que a turma esteja concentrada a menos que ele esteja no comando.

Um dia encontrou um cristal, começou a joga-lo no chão para ver se quebrava, depois perguntou quanto deveria valer. Quando lhe disse que ali dentro morava uma fada e era preciso ter cuidado pensou na fada do dente mas não deu muita importância de inicio.....na seqüência porém, quando mostrei a ele que o cristal era capaz de produzir um arco-iris ficou encantado e então começou a inventar novos arco-iris projetando a luz numa superfície plana ...envolveu boa parte da turma no processo e ficou muito tempo entretido com isto. No final da aula eu lhe contei que era possível fazer arco íris com outros materiais e ele quis saber mais sobre como fazer uma lente. Quando tudo acabou virou pra mim e perguntou “será que a fada ainda esta ai dentro?”

Ele é considerado pela professora um problema. Ela freqüentemente o chama de chantagista porque ele costuma barganhar as coisas. Ele implode muito quando ela briga com ele. Comigo ele fica um pouco mais feliz pois não o deixo ficar de fora das coisas mas é preciso sempre barganhar, ele quer algo mesmo que não seja material. Gosta de ajudar mas nem sempre atende aos chamados. Sai da sala muitas vezes e é muito inquieto. Tem dificuldade de completar atividades artísticas mas faz contas com três números e de cabeça...cognitivamente está à frente da turma. Gosta do belo mas detesta ser comandado.

Muito sedutor tem os olhos azuis brilhantes, os dentes grandes, a cabeça grande, o cabelo liso e muito louro. É baixinho pernas e braços mais curtos. O peito não é muito grande mas impertigado. Seu andar é saltitante mas quando quer alguma coisa pisa firme e faz cara e voz de brabo. Seu querer é muito forte mas não se interessa por qualquer coisa. Quando se sente mais fraco fica num canto pálido e sem dizer nada, geralmente se recupera rápido, muitas vezes chora (um misto de raiva e tristeza). Está sempre em movimento e não consegue fazer uma coisa por muito tempo. Não é fácil despertar seu interesse e não gosta de ser comandado e foge das brincadeiras com regra. É muito rápido em matemática e escreve bem mas não gosta de ficar fazendo isto muito tempo exceto se for como desafio. Gosta de interagir com os demais mas geralmente o faz de forma bruta. Numa ocasião em que estava zangado destruiu o trabalho em argila de todos na sala.

Gosta de comer frutas (goiaba) e biscoitos e como muitas crianças na sala esta sempre com vontade de lanchar. A criança não é tranqüila, parece ter dificuldade de ficar no ambiente e se deixar penetrar por ele. Seu ambiente familiar é pouco conhecido mas sabe-se que ele apanha especialmente do pai. Um dia perdeu o tênis (um outro colega o jogou para cima do telhado) e o pai bateu nele deixando marcas no corpo. Quer ser policial. O Eu parece muito presente, gosta de entender e de explicar coisas. Isto parece deixar pouco espaço para a fantasia e para o sentimento. Há uma relação direta do eu com o querer e ele parece em luta com o mundo pelo que quer o tempo todo. Ele tem 7 para 8 anos mas seu tamanho é de 6 embora não seja franzino, cognitivamente porém poderia ter quase 9 e em seu sentir é de uma criança de 6 para 7 anos. Precisa ter o controle por isso não demonstra seus sentimentos por muito tempo e é preciso captura-lo quando está distraído. É possível percebe-los em alguns momentos em que termina seus desenhos e vem feliz mostrar, ou em que está envolvido com uma brincadeira ou preocupado porque um colega mais próximo está triste. Num momento em que houve um sorteio na sala de algo que ele queria muito ficou pálido e triste e repetia “ não vou ser sorteado mesmo”.....rezei para ele sair e graças a Deus ele foi sorteado, a cor voltou e ele ficou novamente feliz. Prometi que nunca mais faria sorteios pois o resultado foi desastroso não so para ele. Num outro momento o seu colega estava chorando e eu fui perguntar o que estava havendo, ele estava sentado do lado e começou a elaborar hipóteses sobre o por que do choro, sua feição era grave e dava pra notar que ele estava realmente preocupado com o colega.


Maria Gabrielle – colérica-sanguinea

Não estava na turma no ano passado. Nosso primeiro encontro foi este ano. É muito falante e inquieta e quando não está satisfeita ou se sente atacada bate sem dó. Faz parte de um grupo de meninas que fica grudado em mim e que disputa minha mão e o espaço próximo a mim nas brincadeiras. É obstinada pelo que quer mas depois que consegue não se interessa muito. É inteligente, esperta, escreve bem, está na media da faixa etária. É muito carente e obstinada.

É negra, mais alta que a media da turma, não é magra nem gorda , seus olhos são grandes e negros e seus membros são mais longos. Está sempre em movimento e me procura muito. Um dia estava me ajudando em uma atividade e então bateu forte em um menino , eu chamei sua atenção carinhosamente dizendo que ela não precisava reagir assim, que sabia falar e que podia reclamar e que podia me chamar se fosse o caso. Ela retrucou e depois caiu no choro. Ela me abraçou forte, nervosa e longamente e ficou ali por um tempo. Quando saiu disse que ela faria o que eu estava pedindo, que não era preciso bater e que me chamaria mas que so agiria assim comigo e não em outras ocasiões. E cumpriu o que combinamos até o final da aula.

Fica muito nervosa quando se sente rejeitada e isto é fácil de acontecer. No sorteio também estava pálida e com medo de não sair. Graças a Deus também foi sorteada.

Trabalha bem com artes mas tem dificuldade de concentração. Destrói com facilidade o que construiu mas fica zangada se outra pessoa o faz. Não guarda magoa, xinga e bate pra valer quando não gosta de algo. Com os professores é gentil e prestativa. Já disse muitas vezes que me ama e eu já sinto a falta dela quando não estamos juntas.

Não busca muito a comida como outros alunos mas me disse que quando crescer que trabalhar com alimentos. Está sempre bem cuidada mas não sei nada ainda sobre sua família.

Parece que sua energia também se volta para a construção de uma imagem que lhe permita um certo controle sobre o ambiente, tem um nervosismo. Se interessa mais pelas historias e trabalhos de arte mas ainda assim parece estar analisando o que acontece além de denunciar muito o comportamento dos outros.


Kaleb – fleumático

Kaleb é um menino mais alto do que a media da sua turma e também mais forte. Tem um olhar negro hoje bastante expressivo. Kaleb tinha um olhar mais vazio mas neste ultimo ano aprendeu a se expressar com o olhar. Tem um olhar de alegria, um de desafio, um de “olha o que eu fiz” e outros que ainda estou aprendendo a decifrar. Ele não fala, apenas balbucia palavras nem sempre fáceis de entender. Já foi mais arredio mas hoje abraça e brinca e sabe chamar atenção sobre si.

Kaleb gosta muito de comer. A professora relatou que em outras aulas com massinha ele havia comido tudo. Nesta aula ele estava alegre fazendo uma grande bola. Quando terminou pegou seus biscoitos de chocolate (não sabíamos se eram mesmo seus) e começou a comer repetindo nos seus balbucios “menino chocolate” apontando para si mesmo.

Kaleb é alegre a maior parte do tempo. Se alguém bate nele ele chora muito sentido e se abraça na gente ( em mim ou na professora). Até o Pablo tem algum cuidado com ele quando não esta muito irado. Ele tem dificuldade de participar das brincadeiras mas não deixa de estar presente. As vezes na roda há crianças que não querem dar a mão para ele mas a maioria já o acolhe.

Não é fácil trabalhar em grupo com ele pois todos tem de se adaptar a sua dificuldade de fazer as coisas pedidas. A professora conversou com eles desde o ano passado sobre as diferenças de Kaleb.

Ele já sabe escrever o próprio nome e também participa dos desenhos embora não produza imagens muito definidas mas vive num mundo seu embora bem aconchegado pelo mundo de fora.

É difícil não gostar do Kaleb porque ele é muito simpático e expressivo dentro do seu universo de expressão. Em nada lembra a imagem do autista típico embora não goste muito de ser tocado.

Na última aula Kaleb mostrou que também sabe destruir. Vendo as cestinhas fabricadas pelos alunos com massa de modelar Kaleb começou a soca-las e destruí-las tal qual Pablo na aula anterior. Mesmo sendo advertido de que todos ficariam tristes, Kaleb não quis parar e se esmerava como se desafiasse a ordem seu olhar era de “olha o que eu posso fazer”. A maior parte do tempo, porém, ele é pacifico e amistoso e fica no seu canto ou andando pela sala ou buscando algo para fazer.


Pedro – colérico

Pedro não fala. Segundo as professoras da sala de recursos ele consegue pronuciar onomatopéias. Também faz outros sons mas não chegam a caracterizar palavras como no caso do Kaleb. No ano passado Pedro era triste e parecia distante da sala quando em atividades cognitivas. No entanto ele gosta de brincar com os outros mas tem dificuldades em se expressar o que o deixa nervoso. Ele parece querer colocar seu ritmo nas coisas. Não aceita muito bem comandos e fica furioso com facilidade. Na última aula Pedro estava muito zangado. Não sabíamos porque, mas ele pegou o seu boné, botou a mochila nas costas e quis ir embora. Quando a professora o impediu ele começou a chorar e ficou muito emburrado. A turma tem dificuldade em aceita-lo e a professora também, pois ela não compreende bem o que ele tem e o que pode fazer por ele. Ainda assim Pedro também sabe escrever o seu nome. Ela tem um certo nojo da falta de controle dos seus esfíncteres. Quando chamei Pedro no ano passado para se juntar a turma ele ficou feliz, mas logo acabou brigando e se afastando. Na última aula quando não pode ir embora ele resolveu assumir sua solidão, fez um grupo so pra si e trabalhou sozinho. Não fez o que eu pedi, não sei se foi dificuldade de compreensão ou porque decidiu permanecer no seu mundo. Ele e Pablo brigam muito e ele reage , fica zangado de ser provocado mas percebi que quando corria atrás do Pablo estava alegre. Na última aula também ficou muito tempo perto de um trabalho pendurado na sala, uma colagem com figuras e sempre que eu me aproximava ele apontava para duas figuras. Não consegui entender o que ele queria naquele momento, mas mais tarde, na hora do sorteio algo interessante aconteceu. Antes do sorteio todos ganharam livrinhos para ler. Depois as crianças escreveram seus nomes em papeis para serem sorteados. Os que haviam feito belas coroas concorriam a cubos mágicos e os demais a cordas de pular. Não havia para todos e por fim os não sorteados ganharam um premio de consolação (um vasinho) . O Pedro não colocou o nome dele e no final foi um dos que não recebeu nada , na verdade ele se recusou a receber o vasinho e pegava a sacola tentando me mostrar o que queria, mas não dava para entender. Então eu disse para ele que ele precisava encontrar um jeito de me dizer o que ele queria. Se ele fizesse isto eu traria para ele na aula que vem. Ele se afastou chorando mas pouco tempo depois ele voltou e achou um papel com a figura do cubo mágico e me mostrou, então eu entendi o que ele estava fazendo perto das figuras, meu sentimento é de que ele está buscando uma linguagem. Pedro precisa se comunicar e como é muito nervoso esta com dificuldade de parar e se organizar, precisa inventar uma forma e ela nem sempre funciona. Levei isto para o sono e acordei com a linguagem do gatinho vou testar e ver se posso ajudar o Pedro a desenvolver com a ajuda da turma uma linguagem de sinais até que alguém se disponha a ensinar-lhe LIBRAS. É uma historia de um gatinho que não sabia miar como os outros e por isso não era compreendido por ninguém . Eles riam do gatinho e ele ficava muito nervoso. Então veio a senhora gata e ensinou aos gatinhos uma nova língua sem palavras feita por gestos. Ela ensinou quatro verbos eu quero, eu gosto, eu sei e eu posso e as crianças em brincadeira vão dando forma a frases como eu quero comer, beber, etc. Vamos ver se, com isto, a turma e o Pedro podem se aproximar. O Pedro está com o desenvolvimento meio atrasado mas eu acho que pode ser efeito secundário. Vamos ver se desafiado o Pedro desperta sua obstinação. Importante é não desistir dele.
Raissa – sanguinea-colérica

Raissa é como uma pluma, pequena, magrinha, bonitinha e muito fugaz. Some com facilidade, como um passarinho. Gosta de comer especialmente doces, e não presta muita atenção na aula, está sempre entretida com algo que esta na sua lancheira, na sua mochila, conversando com alguém, brincando ou brigando. Faz as coisas direitinho mas quando fica com raiva pode destruir ou praguejar. Não é de lutar pelo que deseja, sua forma de reação tem traços de uma certa inveja ou raiva que vai pipocar em outra oportunidade. Está um pouco atrasada na escrita em relação aos demais (ainda silábica) mas quer saber como é o jeito certo de escrever nos 5 minutos em que consegue se concentrar na tarefa. Ela é calada e desenha bastante bem. Se da bem com o Pablo e com algumas das meninas mas não é fácil entrete-la nas brincadeiras. As vezes ela mente geralmente para negar alguma acusação feita por uma colega. No sorteio não foi sorteada e saiu zangada mas sua zanga foi praguejadora como a raposa e as uvas. Prometi que na semana seguinte (a próxima) levaria as cordas para os que não foram sorteados.


Josué – melancólico?

Foram poucos os momentos de convivência com Josué mas seu jeito calmo de se expressar e pausado faz com que ele pareça uma adulto em miniatura. Ele é pequeno, magro mas bem proporcionado. É mulato, cabelos curtos e olhos negros e calmos. Tem boa memória e interage bem com as historias contadas. Propôs que eu contasse uma historia de terror. Ele desenha normalmente e escreve também normalmente e apesar de seu jeito equilibrado faz bagunça durante as aulas revelando sua criança. Foi uma pequena convivência e não deu para captar muito pois Josué so veio duas aulas. Eu já o conhecia do ano passado, entretanto. Sua casa estava ameaçada de desocupação e seu pai havia falecido recentemente, ainda não sabemos o que aconteceu.


Artur – melancólico?

Artur é um menino alto e um pouco rechonchudo. Sem ser realmente gordo ele lembra uma criança pequena embora seja grande em relação a media da turma. Seus olhos são grandes, castanho claros e meio caídos nas pontas. Seus lábios são grossos e seu nariz é bem desenhado. Ele tem um moicano no cabelo e grandes bochechas que lembram um bebê. Não fala muito mais é esperto embora tenha um ar meio triste. É inteligente e escreve bem e desenha bem também gostando de usar cores. É o melhor amigo do Pablo mas não é de bater nos outros, embora também faça a sua bagunça. Ultimamente tem chorado a toa. Quando perguntado porque diz que não é nada. A professora acha que o Pablo esta fazendo algum tipo de chantagem com ele mas eu não vi nada além da preocupação dele com o Artur.

Ele não chama muito a atenção e cumpre as tarefas de forma calma embora não participe de tudo que é proposto. Tende a acompanhar o Pablo e os outros meninos.

O Artur está saindo da escola.


Daiane – colérica

Nos primeiros dias não percebi bem a Daiane, até esqueci seu nome. Ela ficava quieta na sua. Participava de algumas coisas e se expressava, de outras não queria como nas brincadeiras de batata quente. Um dia porém ela ficou zangada comigo. Foi quando eu trouxe os primeiros cubos mágicos (antes do sorteio). Ela queria um cubo mas quem levou foi o Pablo pois o desafio era para ele. Eu disse (embora não me lembre) quando ela me pediu que eu traria outro para ela e no dia seguinte me esqueci. Ela perguntou “cadê o meu tubinho?” Eu não sabia do que ela estava falando e então tentei entender o que era e percebi que cubo tinha virado tubo. Daí soube que deveria escrever as palavras novas no quadro e foi assim também que descobri que polegar era polega. Então eu disse que traria em outra aula e tudo continuou mas daí houve uma brincadeira e todos queriam ser os primeiros e eu, então, pedi que tirassem pedra papel e tesoura brincadera que conheciam bem para ver quem ia começar. Daiane não foi sorteada e então ela amarrou um grande bico que eu não consegui desfazer por um bom tempo. Ela ficou calada, amuada e não queria mais participar de nada. Foi preciso dizer pra ela que não adiantava muito ficar zangada com a sorte porque hoje ela não tinha saído mas poderia sair num outro dia. Ela custou mas depois desistiu e abriu um sorriso encantador e continuou a brincar. Depois me disse com ar de autoridade “mas eu quero meu tubinho...você prometeu”. Na aula seguinte foi o sorteio e eu disse pra Daiane que se ela não fosse sorteada eu traria o que ela queria mas que ela precisaria dar o nome correto. Mas do que depressa ela corrigiu “cubo”. Então aconteceu que Daiane , embora tenha feito uma das coroas mais bonitas não foi sorteada. Fiquei triste e sem saber o que fazer. Entretanto a Luana que foi sorteada não queria o cubo e sim a corda. Troquei o cubo com a corda e Luana saiu feliz. Então, ao invés de sortear o cubo de novo disse que o daria para Daiana que já o queria há muito tempo. Como ainda havia outras cordas e tudo foi muito rápido, ninguém reclamou, exceto o Pedro no final do jogo, mas não por causa da Daiana mas porque ele não tinha posto seu nome no sorteio. Não foi muito honesto de minha parte mas a maioria dos que queriam o cubo já o haviam ganhado e eu não achei justo que Daiana tivesse que esperar mais uma semana. Ela saiu muito feliz. Hoje não consigo mais esquecer da Daiana.


Vitória – colérica

Vitória entrou faz pouco tempo na turma. Ela é obstinada e carente. Luta pela minha mão como nenhuma outra e sósossega quando eu a deixo me ajudar. É braba e em um momento ficou como Pablo sem energia, sem fala sem vontade..bum implodiu por um longo tempo sem que eu soubesse o que a tinha afetado. Ela é esperta mas um pouco preguiçosa. Pedi que escrevesse as palavras mas ela relutou, ainda tem dificuldades na escrita. Quando escreveu porém fez com muito capricho. Sua coroa foi das mais enfeitadas embora tenha ficado um pouco pesada. Teve sua cesta de massinhas destruída várias vezes e chorou mas acabou reconstruindo. No dia da argila foi quem mais se sujou e inventou coisas. Ela é divertida quando não está zangada mas ainda está aprendendo a conviver com a turma e achar seu lugar e proteger suas coisas, o que parece que a maioria ainda não sabe fazer.


Pabline – melancólica?

Também entrou depois na turma. É pequena , franzina, morena, tem o os olhos negros meio caídos e uma aparência de alguém mais velho. Suas faces são pálidas e ela não tem muita energia, não se move tanto como os outros e tem preguiça de escrever estando um pouco atrasada em relação ao resto da turma. Ela trabalha bem com a arte e faz tudo conforme solicitado. Parece inteligente e mais centrada mas ainda não consigo defini-la completamente. Tem um ar de sofrimento misturado com um certo peso do mundo que paira sobre suas costas.


Letícia – sanguinea

Loura , esguia, meio desarrumada, Letícia não para. As vezes parece cheia de energia, as vezes meio cansada mas está sempre fazendo alguma coisa, brincando e correndo com sua amiga Luana. Concentra-se pouco e foi a única que conseguiu destruir a própria coroa. Quando consegui fazer uma outra do tipo tiara (havia pouco papel e mesclei com barbante) ficou feliz da mesma maneira e em pouco tempo já havia deixado de lado a nova coroa. Não consegue ficar por muito tempo fazendo algo mas já escreve e desenha bem. Com a massinha e com a argila conseguiu ficar um pouco mais.



Luana – sanguinea

Luana é a amiga da Letícia, moreninha, redondinha e bonitinha mas pouco presente.

Geralmente está com Letícia envolvida em alguma empreitada que muda rapidamente ou estão mexendo no lanche ou arranjando um motivo para não pararem na sala. Para Luana e Letícia eu sou alguém distante pois elas tem outras preocupações. Está um pouco atrasada na escrita, faz direito suas tarefas de arte, fez uma bela coroa. Gosta de movimento e preferiu trocar seu cubo mágico por uma corda de pular. Ela participa das brincadeiras iniciais mas não se destaca muito.


Íris – melancólica ?

É difícil defini-la e durante o sorteio em que ela não ganhou nada eu a confundi com a Luana e foi preciso a professora me socorrer. Foi a única das meninas que verdadeiramente se manifestou quase chorando por não ter ganhado nada e eu tive que inventar um premio de consolação (o vasinho). É morena meio alta e como o Artur tem um jeito de bebê. Fica mais quieta e parece estar no seu mundo, especialmente quando desenha. Ainda não tenho uma idéia muito clara de como ela é.



Ronaldo – colérico

Está chegando na turma e aprendendo a disputar o seu espaço. É um pouco machista e faz pose de adulto. Não participa de muitas atividades e não domina a escrita ainda. Faz as atividades de arte mas parece ainda deslocado. Sua energia é diferente do resto do grupo mas parece que quando fica brabo também bate. Ele é um dos que freqüentemente ressalta que não sabe fazer as coisas e pede para fazer por ele, mas é posto em movimento e da conta das tarefas depois do primeiro momento.


Jamile - melancólica

Jamile pode passar despercebida pois está sempre muito concentrada nas suas atividades. Ela não se dispersa com o fuzuê da turma. Escreve bem, desenha bem e demora para realizar suas tarefas pois investe bastante nelas. É mais alta, morena, seus membros são longos, não é magra e tem cara de bebê. Sua energia é tranqüila e às vezes parece um pouco enfadada com o ambiente mas nunca a vi reclamar. Durante os processos de sorteio e outros não me lembro de vê-la esboçando reações marcantes, simplesmente estava la e só.


Tainã - (colérica)

É baixinha, tem uma cabeça grande e um sorriso engraçado. É esperta e muito falante, fantasia bastante e também se estimula quando há novidades ,mas é muito braba quando está zangada e bate. É carente e parece um gatinho embora tenha uma força impressionante. É uma das que disputa minha mão e propõe situações para que eu fique com elas. Um dia na saída a vi chorando pois não encontrava sua mãe (que por sinal estava lá). Atualmente não tem vindo a aula pois seus pais estão se separando e sua mãe esta escondida pois esta ameaçada de violência.


Mayra – sem hipótese

As vezes esqueço que ela esta lá. É pequena, magrinha e de pele escura e cabelos compridos. É a melhor amiga da Tainá . Escreve, desenha mas não tenho uma imagem muito clara dela, só sei que adora desenhar corações em tudo que faz.


Gabriela – sem hipótese

Ainda não foi possível formar uma imagem de Gabriela pois so a vi uma vez. É magra , pequena e calada. Fez as tarefas demandadas e não se manifestou muito nem mesmo quando ganhou uma corda no sorteio.



Luiz Henrique – sem hipótese

Acabou de entrar na turma, só o vi uma vez não foi suficiente para fazer nenhuma hipótese.



Frutos do trabalho na Escola Classe do Varjão

A observação das crianças tentando descobrir seus temperamentos tem sido muito importante no sentido de conhece-las , aprender a nomeá-las e percebe-las como seres humanos individuais e parte de uma entidade humana maior.

Não é um esforço fácil, embora seja muito rico em aprendizagens e mesmo para a construção dos relacionamentos.

Para alguém como eu , de temperamento sanguineo mesclado com o colérico, esta prática traz a necessária novidade pois cada dia a criança mostra um aspecto diferente, uma nova nuance que te faz recompor toda a sua identidade e perceber sua trajetória e por outro lado o necessário desafio pois não é fácil manter o foco (tantos focos) e ter os pés no chão e os olhos abertos para a realidade ao redor. Todavia, não é fácil conhecer o próximo, compreender seu movimento, transcender os preconceitos para poder de fato enxergar o que está a nossa frente. É um exercício de paciência, de objetividade, de construção de uma confiança grupal que, em muitos momentos, gera medo e um sentimento de que estamos realizando uma tarefa que está muito além de nossas forças. Nestes dias rezamos e pedimos ajuda ao mundo espiritual.

Tenho pensado incessantemente sobre um caminho que possa trazer para dentro da sala um pouco de paz e confiança, elementos que precedem a construção de qualquer sentido de cuidado. Percebendo a sanguinidade do grupo e também a força de expressão de sua cólera bem como as nuances de sua melancolia e de suas paixões em geral, sua carência e dificuldade de lidar com regras tenho trabalhado na construção de uma rotina que comece com uma brincadeira rítmica para a qual organizamos a sala de uma determinada maneira (com um centro vazio onde seja possível rodar e organizar filas), um verso, em seguida uma contação de historias (contos e fábulas), a partir da qual desenvolvemos com argila, massa de modelar e outros materiais alguns elementos da historia. A história escolhida para começar foi a do Pequeno Polegar. Das que eu dominava e poderia contar sem ler esta me pareceu conter os elementos necessários para mobilizar os temperamentos presentes na turma. Terminei de contar recentemente e de fato tive uma boa participação. Trabalhei nas artes vários elementos da história. Algumas crianças já conheciam. Modelamos cestinhas com a comida que a família do Pequeno Polegar ganhou, brincamos com as pedrinhas que o pequeno polegar usou para fazer contas de matemática, construímos as coroas das filhas do gigante e desenhamos nossos pés e as botas de sete léguas. Para a atividade artistica a sala é arrumada em grupos com panos sobre as mesas e há a criação de uma atmosfera de beleza e ordem que tentamos preservar.Na seqüência vem o lanche feito no refeitório e para alguns em sala. Ao final a tentativa de trazer algumas palavras ou quantidades e outros símbolos que as crianças tenham percebido na historia ou simplesmente a contemplação do que desenvolveram, este momento final ainda não está muito bem articulado. Percebo que a sala precisaria de um quarto formato para podermos finalizar mas creio ser demais mudar quatro vezes a disposição das carteiras. Talvez a brincadeira devesse ser externa mas haveria outra desvanagens.

A percepção dos diferentes temperamentos tem me ajudado a construir as formas de envolver as crianças nestes processos. Para o Pablo é preciso paciência, desafios, pedir ajuda a ele, não deixar que ele seja consumido pela raiva e desista de fazer e comece a destruir o que está feito. Para a Maria Gabriele amor incondicional e foco, para a Letícia e a Luana encanta-las com novas possibilidades coroas inteiras, tiaras, coroas de barbante, para os melancólicos a história dos meninos abandonados na floresta pelos pais e seu resgate usando as pedrinhas, os longos desenhos com muitos detalhes, para a fleuma a força da participação em todas as atividades junto com os demais.

Para a Vitória, transformar seu sentimento de ver suas coisas destruídas em um desafio para que não se deixe vencer e possa fazer melhor. Lidar com seu sentimento de não ser querida e transforma-la em uma ajudante de primeira linha.

No Pedro que estava no ano passado meio apático e distante, descobrir a cólera abre uma possibilidade encantadora e assustadora de poder ajuda-lo pois é também parte do seu temperamento o gosto por desafios, a comunicação é seu desafio, envolver a turma e a professora neste desafio com ele pode ser redentor.


Descrições de observações Escola Waldorf Moara
Situação de observação
As observações foram feitas num terceiro ano por duas horas durante uma semana em três circunstâncias: nas aulas de classe regulares com a professora em sala, em aula de campo (plantio) e num processo de substituição. A sala tem 28 crianças, 16 meninas e 12 meninos.

No período observado a professora estava trabalhando uma época de português e a âncora era a atividade de plantio e colheita de milho e trigo que haviam começado a desenvolver numa chácara próxima a Brasília. Acompanhei também a contação da história de Adão e Eva e nos dias em que estive a professora trazia a parte de Caim e Abel até a morte de Abel.

Além de acompanhar o processo de adubação da terra e plantio das sementes de milho, pude também acompanhar o desenvolvimento de produção de textos individuais e coletivos e de pinturas e desenhos sobre o tema plantio. Na sala eles desenvolvem também um minhocário. Há ainda as atividades de pular corda, musica, verso que geralmente acontecem no inicio do dia . Eles estão aprendendo a música Cio da Terra tocada na flauta e já conseguem pular todo o alfabeto na corda.

A professora tem um bom controle da turma que a respeita e na sua presença se acalma bastante. Ela sempre tem o cuidado de deixar bem claro o que vão fazer naquele dia e também de dar um encadeamento a todas as atividades desenvolvidas. Procura, ainda, equilibrar a participação dos alunos no processo. É sempre comedida mas é rigorosa com a disciplina.Durante um dia pude também acompanhar uma atividade coletiva de toda a escola que cantou e dançou junta dando uma impressionante demonstração de harmonia.

A lousa é impressionantemente bela. Na frente ficam as atividades de inglês e no interior as atividades de classe. Há margens coloridas e ainda uma lousa na parede lateral onde está desenhada a Arca de Noé, mito que trabalharam na época anterior.Os alunos conhecem tudo que está organizado na sala inclusive suas carteiras e o lugar onde devem estar. A professora é cuidadosa com esta disposição, entretanto o numero de crianças é muito grande o que cria uma impressão de amontoamento. Não percebi que estivessem agrupados por temperamentos, os critérios para a distribuição parecem ser outros.

As crianças me pareceram menos espontâneas em relação a demonstrar seus afetos do que as do Varjão. Demoraram muito para se dirigir a mim e quando o fizeram sempre foi de forma mais distante. A referência forte é a professora que tem sobre eles um grande controle e que também tem uma afetividade controlada. Parece-me ter um temperamento colérico. No dia da substituição estavam perdidos e descontrolados e foi bastante difícil para a nova professora, com um temperamento bem diferente da outra (talvez sanguíneo), conseguir realizar com eles qualquer tarefa. A sala estava fora de ordem (carteiras amontoadas) e enquanto isto não foi resolvido eles não se acalmaram. Foram bastante cruéis com a professora havendo quase nenhuma manifestação de apoio e nenhuma manifestação de afeto. Neste dia também brigaram muito entre si.

No último dia das minhas observações quando me despedi da turma e agradeci por eles terem me permitido estar ali e disse que tinha aprendido muito com eles e com a professora, eles manifestaram seu afeto. Houve sorrisos de simpatia, alguns pareceram meio surpresos e tristes por eu estar indo embora, alguns disseram “já vai embora?” outros bateram palma e um deles ( que eu nem sequer descrevi) me deu um lindo desenho de presente.

Falo deste sentimento de controle e disciplina porque creio que, nestas circunstâncias torna-se mais difícil distinguir nuances de temperamento no tempo de convivência dado.

As observações foram muito ilustrativas porém não foi possível arriscar conjeturas sobre o temperamento de todos os alunos e por isto falarei mais daqueles que me chamaram particularmente atenção pelas características mais emblemáticas.

Descrição das observações de alguns alunos do 3o ano

Gustavo colérico

Dentro do grupo pode ser considerado de estatura media. É mulato, com cabelos encaracolados, corpulento e tem os olhos brilhantes. Tem sempre algo a dizer mesmo quando não é perguntado. É provocador e , em algumas situações, bate. Responde a tudo e nem sempre gosta de ser comandado. Participa dos processos e gosta de ser chamado para ajudar mas geralmente tem uma reclamação (chamado para ajudar a distribuir os panos na aquarela diz: preferia as tintas..eu amo as tintas). Fala muito sobre o seu videogame, no ônibus insistiu em uma piada suja muitas vezes e procura muitas vezes chamar a atenção sobre si. Parece ser um aluno novo na turma mas sua presença é muito forte e tem de ser limitada muitas vezes pela professora.

A professora acha que o Gustavo, além de seus aspectos coléricos e também um pouco sanguíneo.

Descrição física- Rosto redondo, queixo marcado, tronco comprido em relação ao resto do corpo, membros de tamanho normal, orelhas grandes, pescoço forte, lábios grossos, olhos negros não muito abertos com olhar firme, nariz ainda sem forma definida.
Íris e Luiza sanguineas

Difícil distinguir as duas que sempre estão por último na fila e que sempre tem muito o que conversar. Durante o trabalho de campo muitos novos interesses chamaram a atenção das duas que não pararam de conversar um só segundo. No dia da substituição inventaram mil maneiras de se esconder nas cadeiras amontoadas, ficaram fora vendo a turma mais velha dançar quadrilha e foi preciso separa-las para que acalmassem um pouco.



Descrição física-

Íris- Cabelos castanho claros não muito longos, comprida e magra, nariz fino, olhos negros não muito grandes como que semi-cerrados, lábios finos, membros longos, orelhas grandes, muito expressiva.

Eu e a professora concordamos quanto ao temperamento da Isis.

A professora vê Luiza mais como sanguinea-colerica pois em certas situações ela pode ter acessos de cólera.

Luiza – Loira, cabelos longos , rosto redondo, lábios grossos, nariz arredondado e pequeno, olhos grandes, negros brilhantes, corpo bem proporcionado, meio arredondado, dentes grandes, bochechas proeminentes, guarda um quê de bebe na aparência.
Camila e Dara- melancólicas

São compridas e seus membros são longos. Os movimentos de ambas lembram os felinos. Camila tem os olhos grandes amendoados e Dara tem os olhos pequenos apontando para baixo. Ambas tem um ar calmo e estão sempre muito concentradas. No dia do plantio em que todos distribuíam cama de frango (adubo) nos canteiros, com um potinho, Dara graciosamente ia e vinha espalhando o adubo e cantando numa voz moderada e doce “chuva de cocô, chuva de cocô” como se algo mágico estivesse caindo do céu.

Camila é atenta, foi uma das primeiras a me perceber. Não conversa muito, mas no dia das aquarelas, ofereceu o jogo completo dos seus desenhos anteriores para que eu pudesse entender o que estavam fazendo. Parece não se alterar com o rebuliço da turma e na pintura como no trabalho de campo apresentou-se com grande concentração sendo das últimas a terminar.

Eu e a professora concordamos quanto a temperamento da Camila.



Descrição física -

Dara - Comprida e magra, loira, pernas muito longas, nariz pequeno voltado para baixo, lábios delicados, olhos escuros e voltados para baixo. Parece extremamente leve.

A professora tem dúvidas sobre a melancolia de Dara pois sente que, em grupos menores ela muda seu padrão de comportamento.



Camila- Alta, magra, olhos amendoados com grossas sombrancelhas, lábios claros nem finos nem grossos, queixo curto, orelhas pequenas

Francisco –melancólico

Francisco tem um diagnóstico de TGD. É um menino diferente. Está na Moara desde o inicio de sua vida escolar e é bem conhecido. Sofre uma certa discriminação da turma por seu jeito “ estranho”. Francisco tem um mundo próprio difícil de descrever. Não tem dificuldades de aprendizagem mas é exigente com os relacionamentos. Seu corpo é frágil, muito leve, seu movimento é meio bamboleante e no dia do campo ficou muito cansado. Sua aparência muito branca com cabelos pretos da a ele um certo tom de maturidade precoce, como se algo fosse muito velho, porém suas falas são muito carregadas de um tom de fantasia o que o faz parecer mais criança do que os demais. É bom de pintura e há algo de original no seu trabalho que como pude perceber avançou mais rápido que os outros. Seu mundo parece meio solitário ou só seu. Tem dificuldades com os coléricos e sofre um certo bullying na ausência da professora, porém também sabe provocar e às vezes se torna chato ´pois precisa de bastante atenção.



Descrição física – Baixo, cabeça grande, orelhas grandes,membros não muito destacados, lábios finos, nariz reto nem grande nem pequeno, queixo pequeno, dentes grandes, aparência geral parece lhe dar um ar envelhecido que contrasta com o comportamento às vezes muito infantil.
Alice sanguinea

Alice foi a primeira a perguntar quem eu era. Na atividade de campo esteve bastante envolvida, sua vida em chácara a deixou disposta ao trabalho e quis mostrar que sabia fazer. Usou a enxada com alegria, enrolou biscoitos e sempre muito falante disse que adorava mel e coisas doces. Esta sempre disposta a ajudar. Na turma não aparece muito exceto quando a professora a chama para ajudar ou lhe diz “Alice preste atenção”.

Para a professora, Alice é colérica , pois em situações de confronto ela pode ficar bastante furiosa.

Descrição física – Morena, magra, tamanho médio, membros proporcionais, nariz um pouco arqueado, olhos pequenos e escuros amendoados, lábios médios, queixo pequeno.



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