Introdução



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Os frutos da observação na Escola Moara e o diálogo com a professora

Na Moara pude observar, ainda, como a professora trabalha com os temperamentos. Vi que ela exige das crianças (todas) muita disciplina, concentração e silêncio enquanto trabalham e então, quando terminam eles podem relaxar e conversar e ter momentos de expressão livre. Quando alguém está muito ativo ela escolhe para que faça alguma coisa, ajude quando isto é possível, o Gustavo é um dos que ela faz isto. Procura dar a ele desafios nos quais possa investir sua energia. Para o Francisco que às vezes tem uma expressão meio teatral e fora de hora ela sempre o acalma com abraços, é uma das poucas crianças por ela abraçadas mas funciona muito e ele se sente bastante acalmado com isto. Vi, também, que em situações onde ele demonstrou algumas dificuldades como no pular corda, ela interferiu diretamente para lhe proporcionar um sentido de auto-confiança. “Pule com os dois pés” uma, duas, três, quatro vezes até que ele acertou e não parou mais.

No diálogo com ela perguntei como ela encara esta questão dos temperamentos, se reconhece isto nas crianças se acha útil ou não e que outros parâmetros ela usa para organizar sua percepção da sala e para dividir os alunos e lidar com eles durante as atividade pedagógicas, como usa o que descobre das crianças para compor o processo pedagógico e quais as maiores dificuldades que encontra. Também perguntei o que a Pedagogia Waldorf tinha acrescentado de especial à sua formação como Pedagoga.

Ela disse que os temperamentos são um dos elementos que ela utiliza mas também presta atenção a se a criança é mais aterrada ou sonhadora, visual ou auditiva, personalidade , etc.

Acha que começou a observar a turma no 1o ano e no 2O os temperamentos foram ficando mais claros mas que muitas crianças são misturadas em seu temperamento, difícil de definir. O mais claro para ela são os melancólicos com os quais tem mais dificuldade pois se considera colérica-sanguínea e sente uma certa dificuldade de lidar com os sofrimentos dos melancólicos, embora esteja aprendendo sempre. Sente dificuldades em achar alunos de temperamento fleumático, na turma só identifica dois. Com relação às atividades, tem o currículo como base e o que inspira para ir construindo a trajetória cotidiana é o que vem dos alunos, seu entusiasmo com algo, deu o exemplo do estudo da gramática que não é muito definido no currículo e que vai sendo guiado pelas perguntas dos alunos ou dificuldades de crianças específicas.

Quanto às dificuldades, aponta aquelas mais subjetivas determinadas crianças que vai trazendo os desafios e o pouco comprometimento de alguns pais para ajudar a lidar com estas dificuldades. Também algumas dificuldades mais subjetivas do professor decorrentes da sua vida como um todo que faz com que em algumas épocas sintam necessidade de mais apoio. Aponta ainda a questão da construção da autonomia da turma que é uma tarefa importante e difícil.

Por fim coloca a importância das vivências práticas para a formação de um bom professor. Diz que os cursos universitários no geral são muito teóricos e que na sala o que conta é o sentir , a vivência, a relação professor aluno, a abertura para ver o outro.
Considerações finais

Durante o desenvolvimento deste trabalho pude retomar minha questão inicial sobre a importância das categorias intermediárias holísticas para que o educador possa perceber seus alunos e organizar melhor seu processo pedagógico. Até onde pude vivenciar esta experiência pedagógica atual, percebo que o caracterizar a partir da lente dos temperamentos exige que o professor olhe para cada aluno de forma mais intensa e detalhada e que veja quem as crianças realmente são. Pude perceber, a partir do meu próprio olhar, que, como professora, não posso evitar que alguns alunos chamem mais minha atenção e me envolvam mais do que outros. Acredito, pela experiência, que isto é um padrão inconsciente comum a todos os educadores. Meu olhar para a turma do Varjão, sem dúvida, se desenvolve de um foco que começa sempre no Pablo e depois se prolonga pela Maria Gabrielle, pelo Pedro , Kaleb, Letícia e depois vai se espalhando como uma onda pelos demais. Alguns alunos não chegam a ser percebidos a menos que se manifestem e alguns podem passar despercebidos mesmo quando se manifestam como no caso em que passei vários minutos ouvindo a Íris e chamando-a de Luana até perceber que eram duas crianças distintas. Pude perceber também na professora da Moara este mesmo movimento. Embora a turma já seja antiga e ela conheça a todos, há alguns que estão mais presentes do que outros no seu campo de percepção. Neste sentido, a observação das crianças e a busca de compreensão de seus temperamentos, ter que escrever sobre elas, compreender individualmente seus desafios e ao mesmo tempo posiciona-las em relação às demais tem sido um exercício de mudança deste foco padrão ou mesmo de despertar para este foco padrão e poder amplia-lo para perceber o que fica “invisível” no percurso pedagógico cotidiano. Prestar atenção na Jamile, perceber a invisibilidade da Mayra, poder distinguir a Íris da Luana são alguns dos movimentos que esta experiência tem me proporcionado.

Além disto, a descoberta dos temperamentos e a experiência de aplicar algumas atividades pedagógicas a partir desta compreensão tem parecido bastante frutífera no meu caso, especialmente em relação aos alunos coléricos que por alguma razão sempre me chamam mais atenção.

O percurso de conciliar os temperamentos na turma é ainda um desafio em aberto pois não estamos mais no inicio do século XX onde o amor incondicional das crianças dava ao professor uma autoridade tranqüila que possibilitava definir vários parâmetros inclusive o lugar dos alunos na turma. Não é fácil levar crianças a obedecer comandos sem questionamentos. Além da vontade forte, as crianças querem sempre compreender os por quês e quando não estão satisfeitas dizem não e não obedecem mesmo. Vi na Moara, durante um processo de substituição, a professora dizer para um aluno parar de fazer algo que estava incomodando e ele retrucar “ e se eu não parar você vai fazer o quê?” e como não obteve resposta ele continuou e ela teve de desistir. É bem verdade que o encantamento e a amorosidade ajudam bastante mas, em alguns momentos, é difícil saber como organizar o ambiente, isto exige tempo e confiança.

No Varjão pude notar que as crianças tem uma certa tendência a produzir agrupamentos por similares, especialmente entre os coléricos e os sanguineos. Os melancólicos estão mais esparsos e como só registrei um fleumático ele não tem um lugar fixo.

Também a necessidade de estudar mais , estar mais atento na construção das atividades e no sentido anímico que elas devem ter para os sujeitos que delas participam é um desafio que ajuda a aprofundar a construção pedagógica para além das categorias cognitivas de que o professor dispõe hoje, obrigando-o a inserir o cognitivo no contexto mais global do desenvolvimento do aluno.

Neste sentido, acredito que a utilização da categoria temperamento enriquece sobremaneira a construção educativa incluindo ai o processo de auto-educação do professor para o qual suas próprias características não podem passar despercebidas.

Quanto às categorias temperamentais e sua descrição precisaria ainda de mais tempo para poder fazer uma avaliação mais clara do quanto correspondem, de fato, à realidade de nosso momento histórico atual que, como já foi dito por alguém, tem uma preferência pela sanguinidade. Chamou bastante atenção a dificuldade de encontrar indivíduos fleumáticos nos dois processos observados. Também com relação aos melancólicos não me parece que as descrições que li , especialmente do ponto de vista físico, correspondam ao que tenho visto nos dois ambientes observados. Noto em todos os que descrevi como melancólicos uma qualidade felina que não vi citada em texto algum, ao mesmo tempo que não percebi, até agora, uma identificação tão grande com o sofrimento mas sim com a concentração e profundidade.

De todas a maior contribuição para o meu desenvolvimento como educadora tem sido a necessidade de lidar com meu próprio temperamento que hoje não tenho mais duvidas que é sanguíneo mesclado com colérico o que tende a me levar a ter mil idéias e não querer repetir, ou fixar ou aprofundar os processos ou a me aborrecer e querer desistir e destruir tudo. O trabalho com crianças nessa faixa etária que ainda precisam de referência constante, de rotina, ritmo e repetição para firmarem sua segurança e sentido de autoridade é um desafio gigantesco em que preciso nadar contra minha própria corrente, educar minha própria criança interior. Educar meu próprio temperamento tem sido uma atividade permanente na vida, mas diante deste desafio aqui colocado, vejo o quanto preciso de uma vontade firme e de um amor profundo pelas crianças para poder não perder o foco e o sentido daquilo que estou propondo causando mais confusão na mente destes infantes. É uma grande responsabilidade e um desafio sem precedentes na minha história de auto-educação.

Referências bibliográficas
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PASSERINI, Pecci Sueli. O fio de Ariadne-um caminho para a narrativa de histórias. São Paulo: Ed. Antroposófica, 1998.

PILLA, Christiana de Brenner Os Contos, as Lendas, as Fábulas e os Mitos como ferramenta para uma Educação Integral , Monografia apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Licenciado em Pedagogia pela Faculdade de Educação – FE da Universidade de Brasília – UnB, 2013


STEINER Rudolf O mistério dos temperamentos as bases anímicas do comportamento humano, São Paulo ed Antroposófica, 1994
STEINER Rudolf A arte da educação I e III, Discussões pedagógicas São Paulo,ed Antroposófica, 1999
STEINER Rudolf A educação da criança segundo a Ciência Espiritual, São Paulo ed Antroposófica, 2007




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