Inventário historiográfico da criaçÃo do ensino agrícola no brasil e do aprendizado agrícola de barbacena, mg (1812-1910)



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INVENTÁRIO HISTORIOGRÁFICO DA CRIAÇÃO DO ENSINO AGRÍCOLA NO BRASIL E DO APRENDIZADO AGRÍCOLA DE BARBACENA, MG (1812-1910)

Marli de Souza Saraiva Cimino

UERJ - msscimino@yahoo.com.br

Palavras-chave: História do Ensino Profissional e Agrícola no Brasil; Ensino Agrícola em Minas Gerais; Aprendizado Agrícola de Barbacena, MG.

Introdução

“O Brazil abunda em riquezas naturaes cuja extracção e utilisação racional bastam para dar o bem estar aos habitantes e assegurar a sua prosperidade. Porem, a sua fonte mais certa de riqueza reside na exploração agricola do solo e na transformação industrial dos productos que delle se pode retirar pelo trabalho. O que importa, pois, antes de tudo, é fornecer aos habitantes os meios de adquirir os conhecimentos geraes e as aptidões profissionaes que hão de tornal-os capazes de retirar o maximo proveito do patrimonio que a natureza lhes doou. Antes de tudo, convem tratar, sem tardar, de formar homens instruidos theorica e praticamente, habilitados para as carreiras agricolas, emancipados dos costumes rotineiros e primitivos que prevaleceram até hoje, a par dos processos methodicos modernos, capazes, emfim, de dedicar-se com proveito aos trabalhos da agricultura e das industrias que utilisam seus productos. O momento chegou de instituir no Brazil o ensino profissional agricola, adequado ás condições do paiz” (LEDENT, 1910, p. 16).


No longínquo 1910, com o Brasil ainda noviço na arte da vivência republicana e há poucos anos de se ter livrado do regime escravocrata, Ledent já identifica a vocação agrícola do Brasil e preconiza a necessidade de formação de mão de obra para a adequada exploração da terra. Por outro lado, a historiografia nos revela que, no início do século XX, emergia uma consciência sobre a necessidade de se implantar, em nossa terra, um sistema de educação profissional e agrícola voltada para as nossas necessidades. O cenário pós-escravatura, com as fazendas carentes de mão de obra, apontava para um horizonte sombrio de carência de alimentos, despertando nos políticos o interesse pela formação profissional na área agrícola.

Foi pensando na economia baseada na agricultura e pecuária de nosso país que optamos por pesquisar a área agrícola. Vamos, então, percorrer a trajetória histórica da criação do Aprendizado Agrícola de Barbacena, MG, em 1910, pondo em destaque as contingências políticas, sociais e econômicas, tendo como referência a criação do ensino agrícola no Brasil, em 1812. O estudo dessa trajetória histórica, que se dá em determinado horizonte sócio-histórico-político-cultural, foi realizado em torno do atual Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sudeste de Minas Gerais, Campus Barbacena, MG. A pesquisa terá como recorte o período que compreende as primeiras iniciativas junto ao Ensino Agrícola no Brasil, em 1812, até a criação da instituição, em 1910, como “Aprendizado Agrícola de Barbacena, MG”.

Nas fábricas de um Brasil que ensaiava os primeiros passos na indústria, havia carência de mão de obra tecnicamente preparada. Era necessário começar. As cidades escolhidas para oferecerem os cursos de ensino profissional localizam-se nos grandes centros ou em cidades de porte médio. As escolas podem ser construídas próximas ou, até mesmo, dentro das fábricas e indústrias, podendo ser patrocinadas por grandes empresários, bem como, serem públicas ou privadas. O ensino profissional tem como objetivo preparar seus alunos para as profissões dos setores industriais e fabris. As escolas agrícolas, por sua vez, estão sempre localizadas em áreas rurais ou em cidades de pequeno porte, podendo ser públicas ou privadas e objetivam preparar seus alunos para o setor da agricultura e/ou pecuária. Como ponto em comum, ambas foram criadas com o objetivo de instruir jovens que não tinham recursos financeiros e/ou instrução básica adequada que lhes permitisse acesso ao ensino superior.

A Revolução Industrial, em pleno curso na Europa, repercute no Brasil, levando as lideranças políticas a se preocuparem com a evolução do setor industrial. Enquanto em 1791i o governo francês já ensaiava um ensino especial para as classes operárias, no Brasil a preocupação com a institucionalização da instrução por um ofício como base da economia brasileira só teve seu início em 1812, com D. João VI no poder.


Atentos ao cenário sócio-político de então, traremos à luz uma investigação histórico-sociológica com o objetivo de elucidar fatos e acontecimentos que antecederam a criação do Aprendizado Agrícola de Barbacena. Esta Instituição inaugurou a série de outras escolas da rede federal, dentro do Estado de Minas Gerais, para que seja ministrado o ensino agronômico. Questionando informações que ficaram no vazio de seu tempo, utilizamos, como fontes, as correspondências trocadas entre os presidentes provinciais e os ministros da agricultura, os relatórios da província de Minas Gerais ligados à educação; os debates legislativos mineiros acerca da questão agrícola, os decretos, as leis, os jornais oficiais, estaduais, regionais e locais da época, pertinentes ao inventário historiográfico, além da bibliografia de autores que nos antecederam nesse estudo. Nesse sentido, questionamos cada aspecto do objeto pesquisado e as abordagens feitas anteriores a ele. Foi, outrossim, possível identificar rupturas com determinado status quo e as novidades que foram introduzidas.
História do Ensino Profissional e Agrícola no Brasil
A implantação do ensino profissional no exterior se deu antes da institucionalização do ensino agrícola, como se este tivesse acontecido a reboque daquele. Isso nos deixa uma dúvida: “seria o ensino profissional berço do ensino agrícola?” A experiência histórica nos mostra que o setor industrial sempre caminhou na frente do agrícola sob o ponto de vista tecnológico. Mas, nenhuma sociedade industrial sobrevive sem a agricultura. E no Brasil, o que era mais necessário: a educação profissional para atender as indústrias ou a educação agrícola para a população? Na procura por dados, foi-nos possível dialogar com José Ricardo Pires de Almeida, em Officina na escola. Esse texto foi utilizado pelo autor para homenagear a “Serenissima Princeza Imperial, a Senhora D. Isabel”, em 29 de julho de 1886, no Rio de Janeiro. Nesse texto ele apresenta o ensino profissional posto em prática nas escolas particulares de Sua Majestade, o Imperador.
Pesquisas historiográficas recentes nos afirmam que antes mesmo da institucionalização do ensino profissional, havia uma diversidade de formas de educação e de processos múltiplos de socialização de indivíduos e grupos sociais, que de modo informal, instruía a população no Brasil. A esse respeito, é pertinente o ponto de vista de Gondra & Schueler, (2008)
“A educação, como prática social e histórica, é constituída por processos educativos formais ou informais, intencionais ou não, diversificados e difusos entre os grupos sociais, como a educação familiar, as oficinas de artistas e artesãos, os sistemas de aprendizagem do trabalho agrícola e rural, os professores domésticos ou preceptores, as associações religiosas e leigas, entre outros. Nesses processos educativos, participaram indivíduos oriundos das classes populares, brancos, livres, indígenas, escravos, forros e a população mestiça, não obstante a exclusão e os preconceitos sofridos por tais grupos sociais nas instituições formais de educação” (GONDRA & SCHUELER, 2008, p. 19).
Os processos educativos, a que se referem Gondra & Schueler, estão também presentes no Brasil do século XIX. Haja vista a heterogeneidade de sujeitos, a diversidade de processos de ensino, de metodologias e de espaços destinados à instrução. Essas práticas tiveram, como primeiros aprendizes, índios e escravos. Por isso, tal ensino ficou marcado pelo estigma de servidão em nosso país. A população começou a vê-lo, de forma preconceituosa, como ensino destinado aos menos favorecidos. Segundo Celso Suckow, outros fatores influíram para a disseminação dessa mentalidade.
O primeiro, de extraordinária importância, foi a entrega dos trabalhos pesados e das profissões manuais aos escravos. Êsse fato não só agravou o pensamento generalizado de que os ofícios eram destinados aos deserdados da sorte, como impediu, pela feição econômica de que se revestia, aos trabalhadores livres exercerem certas profissões (FONSECA, 1986, p. 22).
A passagem de Fonseca, acima citada, mostra que a abundância de mão de obra escrava contribuiu para o baixo custo da execução das tarefas. É nesse contexto que se inicia a separação do ensino braçal, para os pobres e desvalidos, e o ensino intelectual para os filhos de colonos, ministrado pelos jesuítas. Em conseqüência dessa dicotomia, surge o afastamento dos elementos da camada mais alta da sociedade de qualquer trabalho físico ou de profissão manual, conforme Celso Suckow comenta
Vem, pois, dos primeiros tempos de nossa civilização a mentalidade de desprezo pelos trabalhos que requerem o uso das mãos. Agravaram-na o fato de ter sido o desempenho das profissões manuais entregue aos escravos e o ensino de ofícios ministrado aos índios e africanos, enquanto o de humanidades era destinado a uma camada mais elevada da sociedade (FONSECA, 1986, p. 23).
Para Celso Suckow, tal problema poderia ser menos agravado se houvesse um espaço comum para que todos freqüentassem, independente da classe social
Assim, amalgamaram-se todos os artífices de uma mesma profissão, quer fossem livres, quer escravos. Era a êste agrupamento profissional que se chamava “colégio”. Cada colégio tinha a sua assembléia, perante a qual todos os seus componentes, livres ou escravos, eram considerados iguais (FONSECA, 1986, p. 28).
A institucionalização, como um espaço próprio ao ensino profissional, a que Celso Suckow se refere, havia sido pensada por D. João VI. De fato, em 12 de agosto de 1816, D. João VI cria a primeira Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, hoje, Escola de Belas Artes. Contrapondo a diversidade de ofícios instituídos na Escola Imperial da Quinta da Boa Vista, à educação agrícola, Pires de Almeida (1886) afirma que
“embora de forma tímida e modesta a escola agrícola não é menos útil que aquelas oficinas: nestas se adestram e formam bons operários, naquelas se amestram e robustecem bons lavradores, e, conjuntamente, assim se vai criando uma geração de trabalhadores que, em futuro não muito remoto, darão viço e vigor á lavoura intensiva daquela localidade onde, como toda a parte, é quase nula” (ALMEIDA, 1886, p. 22).
Essa escola, edificada em Santa Cruz, próximo à estrada de ferro Dom Pedro II, no Rio de Janeiro, possuía um grande diferencial em relação às muitas outras estudadas, inclusive as do exterior, pois eram oferecidas instruções a alunos de ambos os sexos, porém, um jardim os separava. As escolas da Quinta da Boa Vista, tinha por único e especial objetivo educar os filhos de seus fiéis servidores.
Sua Majestade, o Imperador, procurou, com a paternal solicitude que o distingue entre os mais ilustres soberanos de seu tempo, encaminhar a infância para honrosa entrada da vida, quis que os filhos de seus criados fossem, antes de tudo, cidadãos independentes, aptos em todo o tempo para viver honestamente do fruto do seu trabalho. As oficinas que, desde já funcionam na escola da Quinta da boa vista, abrangem: carpintaria, marcenaria, torno de madeira e de metais e serralheria (ALMEIDA, 1886, p. 24).
Tal ensino, gratuito e obrigatório, compreende dois cursos, o de Ciências e Letrasii, e o de Belas Artes e Ofíciosiii propriamente ditos. Os programas eram amplos e organizados por mãos de mestre. Junto a essas aulas havia as oficinas para o aprendizado de profissões úteis, tendo, como conteúdo, a mecânica, em nível escolar, a serralheria, as regras clássicas de arquitetura e a carpintaria, para os rapazes. Para as moças, oficinas especiais de ensino de fabricação de flores, confecção de modas, pintura e aplicação de tintas em ornamentação decorativa O horário de funcionamento era o turno diurno para os menores e o noturno para os adultos. O número máximo de alunos aceitos não excedia a 100. Pires de Almeida nos apresenta a fala do Imperador, um idealista, em um de seus discursos
[...] bastam as humildes escolas primárias, onde os filhos de seus velhos servidores aprendem a ler aprendendo um ofício, formando-se assim, súditos em tudo dignos desse Monarca, cujo espírito, tão livre quão filosófico apraz-se em passar algumas horas de lazer naquele recesso de paz, criado e mantido por sua munificencia, indagando com solicitude paterna do adiantamento de seus pequenos protegidos, examinando-os pacientemente, e com eles entretendo-se em instrutivas palestras escolares (ALMEIDA, 1886, p. 25).

Para o autor é de fundamental importância a adequação da instrução a um ambiente agradável, para que os alunos tenham prazer nas palestras instrutivas. Para isso, não precisa ser oferecido em suntuosos espaços, mas até mesmo nas mais humildes instituições.


História do Ensino Agrícola no Brasil
O primeiro ato legislativo sobre o ensino agrícola no Brasil foi a Carta Régia, de 23 de junho de 1812, dirigida ao Conde dos Arcos por D. João VI
“Sendo o principal objeto dos meus vigilantes cuidados elevar ao maior grau de opulência e prosperidade de que forem susceptíveis pela sua extensão, fertilidade e vantajosa produção os meus vastos estados do Brasil, atendendo que a agricultura quando bem entendida e praticada é, sem dúvida, a primeira e a mais inexaurível fonte de abundância e de riqueza nacional. Portanto a por em prática essas minhas paternais, há por bem que, debaixo de nossa inspeção e segundo as disposições provisórias, que com estas baixam assinadas pelo Conde dos Arcos, se estabeleça imediatamente um Curso de Agricultura na cidade da Bahia para instalação da habitação desta Capitania e que servirá de norma ao que me proponho estabelecer em todas as outras capitanias dos meus estados” (CARTA-RÉGIA, dirigida ao Conde D´Arcos, em 23 de junho de 1812).
No presente estudo, toma-se, como referência e como ponto de partida, o surgimento do Ensino Agrícola no Brasil, a partir de 1812. Isso, porque D. João VI pensava ser a agricultura a mais inexaurível fonte de abundância e de riqueza nacional pela fertilidade e extensão dos campos do Brasil. Em tal contexto, sancionou o primeiro ato legislativo sobre o ensino agrícola no Brasil, através da Carta Régia, dirigida ao Conde dos Arcos. A partir daí, foram criados Institutos Imperiais de Agricultura, para que houvesse, em cada província, um instituto agrícola como colônia orfanológica de escola primária, agrícola e profissional, com verbas subvencionadas pelos cofres provinciais. Como se vê, no império a agricultura surgia como um instrumento para sustentação da economia do país. Cotejando a realidade imperial com a republicana, verificamos que não há divergência quanto à situação socioeconômica dos dois períodos, pois em ambos figurava a agricultura como solução para os problemas que o país enfrentava. Desse modo, o corpo que compõe a nação se define pela distribuição do ensino agrícola, a partir do Brasil imperial até a primeira década republicana. Para isso, daremos particular atenção a duas obras de Primitivo Moacyr: A Instrução e a República: ensino agronômico (1892-1929), de 1942 e a Instrução e o Império (1854-1889), de 1938. Ambas buscam difundir a instrução pública no período imperial e republicano.
Nosso itinerário começa pela Bahia. Em 1812, foi decretado o primeiro ato ministerial do Sr. Imperador, D. João VI, instituindo o ensino agrícola no Brasil. A semente lançada por D. João VI, floriu em ação em 1845, quando o presidente da Província, cria na Bahia, a disciplina de Agricultura, no Liceu. E, no elenco das disciplinas da Escola Normal, é criada a disciplina “ensino das noções gerais da agricultura”, em 1862. Quanto à criação do Imperial Instituto Agrícola da Bahia, encontramos distorções nas informações. Enquanto Primitivo Moacyriv (1942), em ensino agronômico, não cita a data de sua criação, o Instituto de Pesquisas do Rio de Janeirov afirma que foi criado em 1859 e Araújovi, historiador sobre assuntos agronômicos da Bahia, diz que sua criação aconteceu em 1861. No regulamento de 1872, que estabelece o ensino do Liceu, há elementos de botânica e zoologia nas aplicações gerais, especialmente de agricultura. Em 1876, inaugura-se a Escola Agrícola de São Bento das Lages, fundada pelo Instituto Baiano de Agricultura, oferecendo os Cursos Elementar e Superiorvii. No ano seguinte, em 1877, foi criada a Escola Agrícola da Bahia, na cidade de São Francisco do Conde, BA. No mesmo ano de 1877, houve a autorização legislativa para a conversão do Asilo dos Órfãos de São Joaquim, da capital, em uma Colônia Orfanológica Industrial e Agrícola. Diante de tantos feitos, envolvendo o ensino agrícola, a Bahia pode ser considerada palco pioneiro de uma série de iniciativas em torno do conhecimento científico na área da agricultura.
Outros institutos foram fundados no Brasil Império. O da Paraíba foi criado, também, pelo presidente da Província, em 1839, com o objetivo de se aplicar a cadeira de agricultura para que os lavradores tivessem “conhecimentos úteis”.
Pela Lei de 1854, que torna obrigatória a cadeira de agricultura teórica e prática, o Presidente da Província funda, em 1858, em Belém, a Escola de Agricultura Teórica e Práticaviii. No Maranhão, em 1844 o presidente da Província cria, por lei, uma cadeira de agricultura no Liceu do Estado. Em 1863, funda, no mesmo Estado, a Escola Agrícola de Cotrim, em que o regulamento dizia: “Haverá na Escola Prática de Aprendizes Agrícolas de Cotrim duas espécies de aprendizes, subvencionados e pensionistas internos” (MOACYR, 1942, p. 12)ix. Em setembro de 1873 foi criado um estabelecimento rural, em São Pedro de Alcântara, MA. Moacyr (1942) complementa que o objetivo não é só o de acolher ingênuos e menores libertos a fim de dar-lhes educação física, moral e religiosa e instrução primária, industrial e zootécnica, mas também de aperfeiçoar a indústria pastoril. Em 1884 é sugerido, no relatório presidencial, a inclusão no programa da Escola Normal e das escolas do 2º grau do estado do Maranhão os “princípios de agricultura e horticultura”. No Estado do Alagoas, o relatório de 1850 diz: “Em matéria de instrução de segunda ordem para cima, as escolas mal fundadas teem mais de nocivas que de proveitosas”x. Para cobrir tal falha, em 1859, atendendo ao governo através de um decreto legislativo, o Colégio dos Educandos Artífices passa a ser convertido em Asilo Agrícola pois, segundo o presidente da Província, “das escolas profissionais são das agrícolas as que mais precisamos”xi.
Em 1857 o presidente da Província cria o Ensino Prático de Agricultura, no Paraná. E, em 1876, reconhece a necessidade de uma cadeira de “noções de agricultura” na Escola Normal, autorizando o governo a criar aula de agricultura no Instituto Paranaense. O programa da Escola Normal, em 1883, de forma reorganizada, passa a prescrever lições de geologia e agricultura em seu curso. Em Pernambuco, foi fundada a Escola de Agricultura, em 1858. E, em 1859, é criado o “Imperial Instituto Agrícola de Pernambuco”xii. No programa do Ensino Normal, foi introduzida a cadeira de noções gerais de agricultura teórica e prática, em 1875. Com o objetivo de se criar um asilo para crianças desvalidas e, ao mesmo tempo, um centro de educação e ensino, foi fundada a Colônia Orfanológica Isabel, em 1878. Essa instituição se localizava na extinta Colônia Militar de Pimenteiras, no Estado de Pernambucoxiii.
No Pará, foi criada, por lei, em outubro de 1860, a Escola Rural D. Pedro II, na fazenda provincial “Pinheiro”.xiv
No Rio Grande do Sul, para superar a falta de ensino profissional e seguindo o pensamento das criações dos institutos agrícolas em outras Províncias, foi criado, em 1864, o Instituto Rio Grandense de Agricultura. Mas esse instituto não chegou a funcionar. Duas décadas depois, em 1883, foi criada a Imperial Escola de Medicina e Veterinária e de Agricultura Prática, em Pelotas, RSxv. E, atendendo à solicitação do diretor da Escola de Agricultura e Veterinária de Taquary, RS, foi criado um Curso Superior de Agronomia, denominado “Escola Superior de Agronomia Taquariense”, pelo Decreto nº 2. 028, de 27 de maio de 1895. No ateneu de Santa Catarina, foi criada uma aula de agricultura prática para todos os candidatos ao magistério público efetivo, em 1875. Nas escolas rurais, se ensinava “agricultura adaptada ao melhoramento da lavoura”.
O ensino da agricultura se disseminou no Amazonas a partir de 1884. Com a lei de criação, autorizava-se a dar regulamento ao Museu Botânico e criar um Curso de Ciências, dividido em Agricultura e em Agrimensura. Outros Estados, como o Sergipe, já em 1938, mesmo com precários recursos orçamentários, dedicaram-se à instrução agrícola e pecuária baseada no pescado, instruindo “escravo maior de 12 anos e menor de 50 anos de idade, residentes nas cidades, vilas e freguesias” (MOACYR, 1942, p. 17).
No Sudeste, iniciaremos os apontamentos pelo Estado do Rio de Janeiro. Aí, o marco é a assinatura da lei de 1850, pelo presidente da Província, solicitando que a cadeira de agricultura integre o programa de estudos do Liceu de Campos. Através do Decreto n. 2.607, de 30 de junho de 1860, foi criado o Imperial Instituto Fluminense de Agricultura, e, em 21 de junho de 1868, o Asilo Agrícola da Fazenda Normal, no Jardim Botânicoxvi, destinado à instrução profissional agrícola de meninos desvalidosxvii. Em 1884, o Imperador D. Pedro II inaugura o Instituto Fluminense de Agricultura, RJ, iniciando suas atividades com 17 alunos para instrução primáriaxviii, ficando a seu cargo a conservação e o melhoramento do Jardim Botânico e da Fazenda Normal. Em Valença, RJ, foi criado, pela Associação Protetora da Infância Desamparada, o Asilo Agrícola Santa Isabelxix, em 1886. Esses asilos tinham, como precípua finalidade, dar instrução primária e elementos de ensino profissional, especialmente de agricultura prática, subsidiados pelos governos federal e estadual, aproveitando todos os elementos possíveis para a lavoura e para a criação. Em 1872, o governo autoriza o estabelecimento da Escola Normal de Agriculturaxx, no Rio de Janeiro.
No Estado de São Paulo, a Assembléia Legislativa decreta, em 1836, que o governo estabeleça, não longe da capital, uma “Fazenda Normal de Agricultura”xxi. O governo Imperial cria em 1855, as Escolas de Instrução Primária e Superior para meninos, em Iguape e, para meninas, em Sorocaba, SP. Segundo o presidente da Província, esta instrução podia se denominar de nível médio e seriam escolas adaptadas às necessidades agrícolas da população. Em 1879 são criadas as Escolas Práticas de Agricultura ou Fazendas-Modelo. Lê-se no relatório presidencial que, com o auxílio da Província, o governo imperial parece disposto a manter nesta Província todas as demais escolas desta natureza. No Espírito Santo, só registra-se que foi criada a cadeira de botânica agrícola no Liceu de Vitória, ES, em 1843, mas o mesmo registro afirma sua extinção em 1859. Um decreto legislativo suprime o curso de agricultura em 1885xxii.
De propósito deixamos os relatos finais para abordar os começos do ensino agrícola em Minas Gerais. Justifica-se a relevância porque a Escola, objeto de nossos estudos, encontra-se no Estado das Alterosas. Em razão disso, procuramos nos aprofundar na pesquisa sobre as raízes políticas e socioeconômicas, que condicionaram e possibilitaram o surgimento da educação agrícola no referido Estado, desde o Império e início da República. Pomos em destaque o momento histórico em que Minas Gerais recebeu as instituições profissionais e agrícolas que antecederam o Aprendizado Agrícola de Barbacena, MG.

Figura 1 - Localização geográfica das cidades do Estado de Minas Gerais e em destaque a cidade de Barbacena, onde foi criado o Aprendizado Agrícola, pela União.

Verificamos, em nossos registros, que foi criada por Lei, em 1840, no Jardim Botânico de Ouro-Preto, uma Escola Normal para que fossem ensinadas regras de agricultura e o melhor método de plantação, cultura, preparação e fabrico de chá, recebendo alunos externos e os órfãos, como internos. Mas, em 1858 o governo pede a supressão desse Jardim Botânico por não realizar adequadamente a finalidade a que se propunha. Em 1875, o governo é autorizado a fundar três escolas agrícolas industriais, nos vales a que se destinam as vias férreas do Rio Verde, do Leste e de D. Pedro II. Essas escolas se situam nos municípios de Curvelo; nas sesmarias do Melo, de propriedade da Província, e em Campanha, podendo despender anualmente com o custeio de cada uma delas a quantia não excedente a 15 contosxxiii. Foi criada e mantida pela Companhia União e Indústria, em 1884, a Escola de Agricultura de Juiz de Fora. Entretanto, a continuidade de seu funcionamento, com os próprios recursos, foi considerada impossível, enquanto escasseavam os recursos oficiais..
Assim como havia vários movimentos por todo o país em prol da introdução de ensinamentos básicos de agricultura para os cursos de formação primária, havia, também, alguns outros que almejavam a criação de instituições públicas de ensino agrícola, de nível técnico secundário. Com a falência da Escola de Agricultura de Juiz de Fora, em 30 de julho de 1897, o presidente da Câmara Municipal da mesma cidade, Dr. Penido Filho, enviou um ofício ao Presidente do Estado de Minas Gerais, Dr. Chrispim Jacques Bias Fortes, com sede localizada na cidade de Ouro Preto, MG, capital mineira na época, solicitando a urgência de se criar uma escola agronômica nesta cidade ou em sua redondeza. Segundo o relator, tal ofício é o resultado de várias reuniões com políticos da cidade na Câmara Municipal de Juiz de Fora. O requerimento retrata a necessidade e interesses dos lavradores da região. No documento, deixa-se claro a falência das lavouras de café e cana-de-açúcar e a urgência de se criar uma outra forma de agricultura de alternância.
Em resposta ao documento, datado de 28 de agosto de 1897, o Sr. Secretário das Obras Públicas do Estado, Dr. Francisco de Salles, responde em nome do Dr. Chrispim Jacques Bias Fortes, afirmando “vos communico que, oportunamente, será attendido vosso pedido”. (JORNAL DO COMMERCIO de 24-08-1897, nº 244)xxiv.
Localizamos uma nota datada do primeiro dia do mês de fevereiro do ano seguinte, em que traz em seus dizeres a promessa de se atender à solicitação dos políticos e da população juizdeforense, veja

(JORNAL DO COMMERCIO de 01-02-1898, nº 402)xxv.


O Ginásio a que o Jornal do Comércio de Juiz de Fora se refere é o Gymnasio Mineiro de Barbacena. Este ginásio foi criado em 1º de dezembro de 1890, pelo Decreto Estadual nº 260 e assinado pelo então governador Dr. Crispim Jacques Bias Fortesxxvi. Seu primeiro reitor foi o Dr. Virgílio Martins de Melo Franco. Quinze dias após a publicação da resposta vinda por parte do Presidente do Estado de Minas, Dr. Chrispim Jacques Bias Fortes, o Jornal Comércio de Juiz de Fora publica outra nota

(JORNAL DO COMMERCIO de 15-02-1898, nº 416)xxvii.


O texto acima exprime a incredulidade e o espanto ante a preferência por Barbacena: “sabemos que na cidade de Barbacena será installado um desses estabelecimentos. Dar-se-á o caso que Juiz de Fóra, a cidade industrial de Minas, não seja escolhida para sede de um delles?xxviii
Em o “Jornal do Commercio”, em 1901, de circulação na cidade de Juiz de Fora, nota-se que é feita uma crítica ao governo da época por negligenciar o setor agrícola, junto a um pedido de socorro por esse momento agrícola.
Não indiferente às críticas, o governo de Minas ensaia algumas iniciativas para fomentar a instrução agrícola junto à sua população. O Jornal Correio de Minas publica a Lei n. 443, de 03 de outubro de 1906xxix, como as disposições relativas ao ensino técnico prático e profissional com as necessárias adaptações para o Estado de Minas Gerais, de acordo com o que já havia sido instituído pela Lei n. 203 de 18 de setembro de 1896 que teve seu regulamento aprovado pela Lei n. 1. 127 de 14 de abril de 1898. De acordo com o que rege os dispositivos, o governo do Estado tem autonomia para administrar o ensino técnico prático e profissional cabendo a ele a responsabilidade pela instrução em dois segmentos: o ensino simples e elementar nas escolas primárias, em nível de curso técnico primário; e aqueles que melhor se distinguirem no ensino primário, poderiam ser admitidos nas Fazendas-Modelo, na forma de instrução secundária. Ou, ainda, ficaria autorizado o Estado a enviar os alunos, que se sobressaírem no ensino secundário, para o estrangeiro, onde poderão se destacar como operários. Esses dispositivos que regem as atividades do “Ensino Technico”, de 1906, estão atrelados ao dispositivo na alínea 3ª, art. 9º, da Lei n. 454, de 06 de setembro de 1907. A Lei permite que o governo do Estado adquira algumas fazendas, tornando-as Fazendas-Modelo, assim como, subvencione algumas fazendas particulares, por determinado tempo, tornando-as Fazendas Subvencionadas. As 05 primeiras Fazendas-Modelo de propriedade do governo são Gamelleira. em Belo Horizonte, Retiro de Recreio, em Santa Bárbara, Fabrica, no Serro, Diniz, em Itapecerica e Bairro Alto, em Campanhaxxx. De outra forma, as Fazendas Subvencionadas são propriedades particulares que contam com o apoio financeiro do governo por 02 anos e, ao se reestabelecerem e adquirem estabilidade econômica, elas retornam aos seus proprietários e, dessa forma, o governo passa a subvencionar outras em estado precário de ascensão, em uma espécie de rodízio, não ultrapassando a 10 propriedades por vez. Porém, em todas elas, indiscriminadamente, o governo estadual orienta, supervisiona, equipa de todo o maquinário necessário e exige que seja cumprido o objetivo de se oferecer instrução básica e elementar a aprendizes agrícolas. Com a crescente demanda de fazendeiros solicitando que suas lavouras fossem subvencionadas pelo Estado e o crescente número de aprendizes distribuídos pelas várias lavouras do Estado, começam-se a definir as responsabilidades por órgãos públicos. Fica, então, estipulada a responsabilidade de cada órgão quanto ao apoio financeiro que se dará a cada tipo de instrução agrícola, assim definido

(RELATÓRIO DO PRESIDENTE DA PROVÍNCIA, 1911, p. 24)


Dessa forma, normas oficiais, estabelecidas pelo Decreto n. 3.356, de 11 de novembro de 1911, passam a responsabilizar o Estado pelo ensino prático elementar e básico de agricultura e a União pelo ensino agronômico técnico secundário e superior. Tal decreto atém-se a uma realidade que vinha sendo desenhada e que parece ter vindo à tona com mais força, a partir de 1910. Pode ter sido este um dos motivos que engrossam a lista das razões de se institucionalizar um aprendizado agrícola em Barbacena, em 1910.

Com o cruzamento de dados de outras fontes, observamos que esse era, também, um momento de crescente declínio da economia do país. Havia um aumento desordenado e aglomerado do contingente populacional nos grandes centros em estados miseráveis de mendicância, de ladroagem e o problema do menor abandonado. A crise afeta de modo muito forte Minas Gerais com o aumento da densidade populacional. A população rural prefere trocar a “pobreza da roça pela miséria da cidade” na ilusão de se buscarem melhorias sócio-econômicas. Surge o fenômeno da favelização. Uma das razões para essa deserção dos campos para a cidade, seria a queda da produção agrícola, sobretudo a do café. De uma ou de outra forma, Fernando de Azevedo não exime o governo da responsabilidade em manter essa população no campo. Segundo ele “toca certamente aos governantes fixar essas populações no interior, já impedindo a corrente, que se estabeleceu, de êxodo para as cidades, onde vem engrossar a legião dos desocupados” (AZEVEDO, 1937, p. 36).


Na esfera federal, algumas iniciativas haviam sido tomadas nessa época. Nilo Peçanha, então Presidente do Estado do Rio de Janeiro, foi o responsável pela criação das primeiras escolas profissionais oficiais. Por decretoxxxi, em 1906, criou quatro escolas profissionais no Estado do Rio de Janeiro. A primeira a ser inauguradaxxxii foi a Escola de Campos dos Goytacazesxxxiii, sua terra natal. Na seqüência, surge o acontecimento que mais marcou o ensino profissional, na malha federal, da Primeira República. Em 1909, o governo federal funda dezenove Escolas de Aprendizes Artífices, instaladas nos grandes centros de dezenove capitais do Brasil, que previa o ensino técnico, profissional e industrial. Foram criadas para obedecer a uma finalidade moral de repressão, de educar, pelo trabalho, os órfãos, pobres e desvalidos da sorte, retirando-os da rua, conforme Fonsecaxxxiv (1986), conceitua. De seu turno, o MEC afirma: As Escolas de Aprendizes Artífices foram destinadas ao ensino profissional primário e gratuito para os “desafortunados” (MEC, 2010)xxxv. Com o passar do tempo, várias nomenclaturas surgiram para referendá-las tais como, Liceus Industriais, Escolas Industriais e Técnicas, Escolas Técnicas Federais, momento em que se tornaram autarquias com autonomia didática e de gestão e, hoje, os atuais Centros Federais de Educação Tecnológica – CEFETs. O Aprendizado Agrícola de Barbacena e os CEFETS foram criados em 1910. Embora ambas as instituições sejam do âmbito federal, enquanto os CEFETs foram fundados nos grandes centros, os aprendizados Agrícolas o foram em cidades de pequeno porte.
O Decreto aponta as especificidades próprias desse estabelecimento que, aos poucos, nos vai revelando em suas entrelinhas e com o cruzamento das demais fontes, a identidade do referido Aprendizado Agrícola. Embora esse aprendizado tenha sido criado em 1910, juntamente com o de Campos, RJ e de São Simão, SP, apenas em 1913 foi inaugurado. Assim o Ministro do Estado da Agricultura, Indústria e Comércio, Sr. Dr. Pedro de Toledo, descreve seu ato de inauguração

(RELATÓRIO DO MINISTRO DA AGRICULTURA-BARBACENA, 1913, p. 15)


Junto à sua descrição, o ministro detalha o que lhe é peculiar em relação aos outros estabelecimentos espalhados pelo país, sua altitude, seu clima, a salubridade da região e fácil acesso pela estrada de ferro como meio de transporte. Destaca, também, a presença do Diretor Geral Interino da Agricultura, Sr. Dr. Armando Ledent, um dos autores em que nos baseamos para realizar esta pesquisa.

Figura 2 – Aprendizado Agrícola de Barbacena, em 1910.


A primeira república cria, como já assinalamos, a “primeira escola agrícola federal de Minas Gerais”xxxvi, por decretoxxxvii, no governo Nilo Peçanha, tendo como Ministro da Agricultura, Indústria e Comércio, Dr. Rodolfo Nogueira da Rocha Miranda, a quem era subordinada.
Considerações Finais
Neste artigo, estabelece-se a distinção entre ensino profissional e agrícola, identificando as características e finalidade de cada um, ao mesmo tempo em que se traça o percurso histórico de um e de outro. Põe-se em relevo uma síntese do ensino profissional e agrícola, de acordo com a realidade brasileira e, no confronto dessas práticas, socorre-se principalmente do fazer político com o pensar a educação, no Império e na República. Destaca-se a iniciativa de Dom João VI, que, em 1816, cria a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios. A seguir, faz-se referência à Escola Imperial Quinta da Boa Vista. Ambas são instituições embrionárias do ensino profissional e agrícola em nossa terra e inauguram um modelo de ensino que associa a teoria com a prática. Percorrendo a historiográfica do ensino agrícola no Brasil, vimos que foram abertos novos leques de oportunidades, alargando-se os interesses e os campos de atuação, ditados pelos órgãos públicos para a área agrícola. Dada a economia do presente trabalho, enfocamos, de modo particular, o Estado de Minas Gerais. Com isso, buscamos investigar não só a trajetória do ensino agrícola no território mineiro, como também quais as contingências políticas, sociais, econômicas e educacionais que levaram à abertura do primeiro aprendizado agrícola federal, em Minas. Nessa empreitada, identificamos interesses do governo estadual pelas aberturas das fazendas-modelo, pelas fazendas subvencionadas e por professores ambulantes. No cenário educacional mineiro, surgiram ensaios para se institucionalizar o Ensino Técnico Agrícola, e, posteriormente, o Agronômico.
Verifica-se que, à medida que se vão definindo os âmbitos de responsabilidades no que se refere à educação profissional e agrícola, entre o Estado e a União, novas perspectivas se abrem para o ensino agrícola, o que se torna evidente pelo investimento em modernas tecnologias e pelo crescente interesse de fazendeiros e agricultores da região em confiar seus filhos às instituições de ensino agrícola. Primeiramente, entretanto, o governo federal investiu na área profissional ao criar, nos grandes centros, as escolas de Aprendizes Artífices, hoje CEFETs, em 1909. Depois, em 1910, cria o regulamento do Ensino Agronômico, e inaugura novo modelo institucional de ensino: os Aprendizados Agrícolas.

A escola, Aprendizado Agrícola de Barbacena, é uma instituição federal, fundada pelo Decreto nº 8.358, de 09 de novembro de 1910, pelo presidente Nilo Procópio Peçanha. Essa Instituição, subordinada ao Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, foi criada com o objetivo de instruir os filhos de agricultores da região, ensinando-lhes determinado ofício, pontuado de novas e modernas tecnologias. Qualquer fato histórico é sempre filho do próprio tempo. Igualmente, as instituições voltadas para o ensino rural brotaram de um húmus social, com características próprias da época em que surgiram. Por outro lado, é preciso dar atenção às mudanças de comportamento e de modos de viver, conseqüentes à educação ministrada. Essas escolas teriam provocado importantes mudanças na mentalidade do homem rural, no Brasil do início do século XX.




i Em setembro de 1791, foi promulgada a primeira Constituição da França que resumia as realizações da Revolução Francesa, dentre elas o estabelecimento de linhas gerais para o surgimento de uma sociedade burguesa e capitalista em lugar da sociedade anterior, que era feudal e aristocrática.

ii Segundo Pires de Almeida (1886), o curso de letras compunha-se das matérias: instrução religiosa, português, francês, inglês, matemáticas elementares, história brasileira, geografia, história geral, noções de física e de química, botânica, zoologia e mineralogia.

iii Para o Curso de Belas Artes e Ofícios, Almeida (1886) cita as disciplinas de ginástica, música, desenho geométrico (clássico, de ornamentos, de flores e de animais), desenho de arquitetura, regras de construção e pintura (estudos e tempera, estudo particular de diversas tintas, mordentes, vernizes, processos empregados na pintura, tintura, douradura de certos artefatos, com a respectiva demonstração prática).

iv Moacyr, Primitivo. A Instrução e a República: ensino agronômico (1892-1929), 1942.

v Fonte: Jardim Botânico do Rio de Janeiro Instituto de Pesquisas, de Begonha Bediaga e Renato Pizarro Drummond, 2007, no site www.jbrj.gov.br.

viAraújo, Nilton de Almeida. Pioneirismo e hegemonia: a construção da agronomia como campo científico na Bahia (1832-1911). UFF, 2010.

viiA freqüência nesses dois cursos tem sido pequena, não havendo compensação pelo dispêndio. O comissário do governo a uma inspeção à Escola, em 1880, atribui a limitada freqüência e o pouco incremento que a Escola tem tido, ao caráter altamente científico e teórico de seus programas de ensino, e à má natureza dos terrenos em que está colocada a que não se prestam à prática do ensino agrícola, segundo levantamentos feitos por Moacyr (1942), pp. 17, 18.

viii Em A Instrução e a República: ensino agronômico, de 1942, p. 14, Primitivo Moacyr explica que essa escola foi criada para servir de asilo a muitas crianças que, privadas de família ou tendo-as sem fortuna, assa a la tem coomo obl do Pará torna obrigatcola im nas tivas, o que segundo el pode ser fornecido atpassam a ser educadas sob os auspícios da Província.

ixPrimitivo Moacyr (1942), p. 12, afirma que, embora o professor de primeiras letras ensine leitura e escrita, aritmética, doutrina cristã, contabilidade agrícola, geografia agrícola do Império e particularmente da Província, há uma sensível falta de sala própria para o ensino que é dado em uma varanda da casa, sobre a mesa de jantar, vendo-se o professor quase confundido com os alunos. Alunos, esses, que sequer sabem ler, escrever, contar ou fazer o sinal da cruz ou a primeira oração do cristão. Não são as terras que faltam; entretanto seriam necessários 15 anos de cuidados à cultura para torná-la boa.

x Idem, p. 16.

xi Idem.

xii Jardim Botânico do Rio de Janeiro Instituto de Pesquisas, 2007, site www.jbrj.gov.br.

xiii Eram oferecidos no ensino primário, os conhecimentos de arte mecânica e as noções de agricultura prática. Essa entidade foi subvencionada pelo governo federal (Do relatório do ministro da agricultura).

xiv É uma escola primária de agricultura, é uma fazenda-escola mais prática que teórica, mais especulativa que experimental, que faz experiências e observações sobre a agricultura da Província. Os educandos, nessa fazenda, são distribuídos em três classes: a) pensionistas internos provinciais; b) pensionistas internos, mediante paga; c) externos gratuitos (MOACYR, 1942, p. 8).

xv Jardim Botânico do Rio de Janeiro Instituto de Pesquisas, 2007, site www.jbrj.gov.br.

xvi Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Instituto de Pesquisas, 2007, site www.jbrj.gov.br.

xvii Consta nos arquivos que o Asilo da Fazenda Normal tinha, em seu programa: a) instrução primária e b) agricultura prática. Em instrução primária os alunos recebiam os seguintes conteúdos: conhecimentos sobre os instrumentos agrários e das máquinas destinadas a beneficiar os produtos; manipulação para preparar os terrenos a fim de receber as culturas apropriadas; tratamento dos vegetais, desde sua germinação até o completo desenvolvimento; colheita e beneficiamento dos produtos; estudos práticos sobre os estrumes e adubos; tratamento dos animais domésticos e seu melhoramento e noções práticas sobre os alimentos. Em agricultura prática, recebiam os conteúdos de horticultura que, além das aulas de estudos práticos sobre tecidos e elementares dos vegetais; seus órgãos e funções respectivas, aprendiam, também, enxertia, poda, mergulhia e outras operações próprias de horticultura; tinham o ensino prático de jardinagem e de embelezamento de parques, além do conteúdo de irrigação e drenagem (MOACYR, 1942, p. 19).

xviii Idem.

xix O Asilo Agrícola Santa Isabel, contava em seu programa de ensino com as disciplinas: a) Instrução primária: noções de coisas, leitura, escrita, noções de gramática nacional, caligrafia...; b) Agricultura prática: Conhecimento dos instrumentos agrários e das máquinas destinadas a beneficiar produtos, manipulações práticas para preparação de terreno para plantio, colheita e beneficiamento de produtos, tratamento dos vegetais desde a germinação até o desenvolvimento, estudos práticos sobre estrumes e adubos; c) Zootecnia: noções práticas sobre animais domésticos, seus alimentos, serviço que se pode exigir deles e cuidados necessários, tratamento dos animais, ração, disposição preferíveis nas estrebarias, redis, galinheiros e outros compartimentos análogos, melhoramentos das raças, aproveitamento dos estrumes animais; d) Horticultura: estudos práticos sobre tecidos elementares dos vegetais, seus órgãos e funcções respectivas, enxertia, poda, decote, mergulhia e outras operações, ensino prático de jardinagem, embelezamento de parques, drenagem e irrigação (MOACYR, 1942, p. 19).

xx Os estudos serão divididos em três cursos: a) de humanidade; b) curso técnico em agricultura em três anos: física, química, elementos de mecânica racional, mecânica industrial e agrimensura, zoologia, botânica, elementos de mineralogia e geologia, agricultura teórica, máquinas, economia política e rural, veterinária, exercícios práticos agrícolas e lições de desenho; c) curso prático de agronomia: português, aritmética, sistema métrico, agricultura prática, exercícios de carpintaria ou ferraria e veterinária usual (MOACYR, 1942, p.19).

xxi Para o governo é necessário que a instituição tenha por objeto: a) recolher, melhorar, aclimatar e distribuir pela Província todas as plantas de utilidade conhecida tanto indígenas como exóticas e, igualmente, as melhores raças de animais domésticos; b) ensaiar, aperfeiçoar e praticar os melhores métodos de agricultura e de fabricação rústica; c) fabricar todos os instrumentos e máquinas úteis à agricultura e manufatura rústica, bem como todos os objetos em uso na economia doméstica do campo; d) ensinar as primeiras letras, doutrina cristã, os deveres do cidadão, noções de geometria, de mecânica, de química aplicada às artes, noções de botânica e regras práticas de agricultura; e) plantar matas de construção que no futuro hajam de servir o uso público. Serão educados na Fazenda normal os meninos de nascimento livre, de 7 anos de idade, órfãos de pai, não tendo parente que se obrigue a dar-lhe igual educação. Haverá alunos pensionistas que paguem mensalmente. Serão admitidos adultos para aprenderem qualquer ofício. Os órfãos serão obrigados a trabalhar na Fazenda até 21 anos de idade e a indenizá-la com seu trabalho do valor da pensão e mais 25% para o que, na sua entrada, lhes abrirá conta. Os pensionistas podem se retirar quando os pais ou tutores quiserem contando que pago o que nela estiverem devendo. Serão admitidas meninas, sob as mesmas condições dos meninos, mas só aprenderão as primeiras letras, doutrina cristã e indústria rústica e doméstica, própria do sexo (MOACYR, 1942, p. 21).

xxii Idem, p. 23.

xxiii Em seu regulamento de criação consta: essas escolas receberão gratuitamente o ensino profissional em cada uma delas, por tempo que não exceda de três anos, até 12 moços, maiores de 15 anos e menores de 25, preferindo os órfãos e os que nas escolas primárias se tenham distinguido em inteligência, aplicação e procedimento. Aos alunos, dará o governo, habitação, vestuário e alimentação. Os indivíduos que a expensas suas terão cômodos e alimentação em separado, cobrando-se-lhes anuidades. Nos cursos das escolas de Curvelo, Melo e Campanha serão dadas lições em três anos, dos quais, no 1º ano ministrar-se-ão economia rural e contabilidade; no 2º ano: elementos de física experimental e de química aplicada à agricultura, noções de botânica, de geologia e zoologia e no 3º ano: noções gerais de veterinária e teoria dos sistemas agrícolas. Quanto ao ensino prático, ministrar-se-ão: a) composição geológica, física e química dos terrenos aráveis; b) fertilizadores ou estrumes e suas aplicações e maneira de prepará-los; c) cultura das terras nas regiões frias, temperadas e quentes; d) arbicultura; e) estabelecimento e conservação dos pastos; f) horticultura e jardinagem; g) criação e engorda de gado; h) irrigação, saneamento e drenagem e i) mecânica agrícola (MOACYR, 1942, pp. 25, 26).

xxiv Jornal do Commercio de Juiz de Fora de 24-08-1897, nº 244.

xxv Jornal do Commercio de Juiz de Fora de 01-02-1898, nº 402.

xxviGymnasio Mineiro, aliás, Colégio Estadual, 120 anos à educação. Anuário da Academia Barbacenense de Letras, Mário Celso Rios, 1990.

xxvii Jornal do Commércio de Juiz de Fora, de 15-02-1898, nº 416. Esta nota consta nos anexos.

xxviii Grifo nosso.

xxix Jornal Correio de Minas, de 07 de outubro de 1906, n. 234, 1ª, 2ª e 3ª colunas.

xxx Essas fazendas cultivavam cereais, batatas, cana-de-açúcar, abacaxi, amendoim, algodão, forragens diversas e trigo, com resultados compensadores, de acordo com o Relatório da Presidência de 1909.

xxxi Decreto Presidencial nº 787, de 11 de setembro de 1906, pela criação das primeiras escolas federais profissionalizantes, no Estado do Rio de Janeiro.

xxxii Das escolas criadas em setembro de 1906, o CEFET-Campos de Goytacases foi a primeira a ser inaugurada, ato registrado em 17 de outubro do mesmo ano.

xxxiii Fonte baseada na revista Vértices, do CEFET de Campos dos Goytacazes, 2003, pp. 55-56).

xxxiv Celso Suckow da Fonseca, em História do Ensino Industrial no Brasil, 1º volume, 1986.

xxxv Site www.mec.gov.br, acessado em 22-11-2010.

xxxvi O título de ser a primeira Escola Agrícola Federal no Estado Minas Gerais, se deve por ter sido criado 04 anos antes, 1906, a Escola de Aprendizes Artífices de Campos de Goytacazes, no Estado do Rio de Janeiro e em 1910 por decretos as Escolas de São Simão, no Estado de São Paulo e de Barbacena, no Estado de Minas Gerais.

xxxvii DECRETO PRESIDENCIAL Nº 8.358, de 09 de novembro de 1910.

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BRASIL. Decreto Presidencial Nº 7.566, de 23 de setembro, 1906.

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BRASIL. Decreto Presidencial Nº 8.358, de 09 de novembro, 1910.

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Jornais

JORNAL DO COMMERCIO, de 24 de agosto de 1897, n. 244.

JORNAL DO COMMERCIO, de 01 de fevereiro de 1898, n. 402.

JORNAL DO COMMERCIO, de 15 de fevereiro de 1898, n. 416.

JORNAL DO COMMERCIO, de 23 de agosto de 1901, n. 1.540.

JORNAL CORREIO DE MINAS, de 07 de outubro de 1906, n. 234, 1ª, 2ª e 3ª colunas.





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