Investigação Artística: Pontos em Desencontro



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Investigação Artística: Pontos em Desencontro

Resumo


O artigo apresenta uma reflexão em torno do conceito de investigação artística, com incidência na sua problematização em termos epistemológicos e metodológicos. Apresentam-se diferentes perspectivas com base bibliográfica com a finalidade de evidenciar a pluralidade de significados e a necessidade de clarear as fronteiras do seu uso.

Palavras-chave (4/5): investigação – prática -arte – fronteira

Introdução

A simbiose gerada na história da ciência entre o método cientifico e a investigação, com base no empirismo e positivismo que lhe deu corpo, delimitou inicialmente o conceito de investigação à relação primária com a ciência. O método científico procura um maior entendimento do mundo recorrendo a mecanismos de controlo e observação dos fenómenos, orientado à produção de conhecimento, este reprodutível, verificável, factual e sistemático, viabilizado pela clara separação entre o investigador e o objeto em estudo. O conceito de investigação extrapolou os limites da ciência, expandiu e ampliou o seu uso para outras narrativas de investigação, inclusivamente para o campo artístico, aportando novas indagações e significações do que significa investigar. Atualmente constitui-se um problema definir com claridade a orientação do uso de investigação artística, dada à singularidade da matéria em questão e à pluralidade de posições entre artistas, críticos e académicos. A exploração e o debate focalizado na natureza da investigação artística promove encontros e desencontros entre a atividade criativa -processo revelador de subjetividade e imprevisibilidade -e a investigação, que num sentido lato pretende produzir conhecimento de referência teórica.



A título de aluna do terceiro ciclo de estudos e face ao desafio de investigar no campo artístico, o tema surge como um convite à reflexão e desconstrução de conceitos basilares, processo este que longe de oferecer respostas, clarifica instancias epistemológicas e metodológicas na prática de investigação artística.

Revisão Bibliográfica

A dicotomia entre razão e emoção do pensamento cartesiano, legado do filósofo Decartes, foi questionado por diferentes autores, nomeadamente, por John Dewey (1934), Susanne Langer (1951, 1953), Rudolf Arnheim (1954, 1966), Harry Broudy (1972), David Best (1993), Elliot Eisner (2004), que exigiam uma aproximação da esfera cognitiva à emocional, nomeadamente na prática artística. Christopher Frayling (1993) de modo a introduzir e responder à questão basilar do artigo “Research in Art and Design”, parte da génese do conceito-base “research”, definindo as configurações tradicionais do seu uso; bem como, desconstrói a imagética associada aos homens da ciência e da arte. Seguindo o autor na contextualização, de acordo com o Oxford English Dictionary, o uso da palavra, diferenciado com a representação da letra “r” e “R” deu origem a duas definições, correspondendo a primeira à procura meticulosa de algo específico, em contexto quotidiano, e a segunda ao estudo que visa o desenvolvimento de produtos ou processos, em contexto especializado ou profissional; evidencia-se também, que a palavra tradicionalmente não estava restrita ao campo científico, era igualmente utilizada no âmbito artístico. No contexto da definição formal, a Investigação implicaria o estudo de um objeto exógeno ao próprio investigador e a possibilidade de comunicar a outrem o objeto em estudo. Contudo, as palavras ganham novos sentidos e expressões, não correspondendo, por vezes, a definição ao uso que se faz da palavra; exemplo do fenómeno, a utilização da palavra investigação (artística) mediante diferentes concepções e contextos. O cinema deu um importante contributo na construção da imagética associada aos conceitos de investigação e de arte, protagonizado por personagens como o artista, representado como um excêntrico, o designer, como ícone de modernidade e superficialidade, e o cientista, como génio racionalista em laboratório. Estas representações propuseram uma relação da área artística ao idioma expressivo e da científica ao idioma cognitivo; sendo que segundo o Frayling (1993:4): “There is a lot of common ground. There is also a lot of private territory” (Frayling, 1993, p. 4).

Várias são as vozes que se levantam em torno da questão -O que significa investigar no campo artístico? De forma a responder a essas questões, Hernandez (2008) introduz duas relações passíveis entre a prática artística e a investigação: a perspectiva tautológica, admite que em toda a prática artística existe o propósito de investigar e a posição complementária, sustenta que algumas práticas artísticas contêm e revelam elementos que afetam a própria investigação.

Com o objetivo de pôr em evidência a pluralidade de visões ao tema, apresentam-se algumas concepções protagonizadas por diferentes autores: Uma primeira definição que advém das reflexões de Dewey (1934), segundo o autor a obra de arte converge o fluxo emocional, intelectual e prático. A prática artística participaria no mesmo método de investigação que a científica, com a distinção que o artista se envolve no objeto de estudo e a comunicação é predominantemente qualitativa. Em contraponto, Sullivan (2004) defende que a prática científica detém os seus próprios paradigmas de investigação; a experiência artística contempla um processo intelectual correspondendo a uma forma de investigação crítica e criativa, levada ao âmbito pessoal, social e/ou cultural. O autor teoriza a atividade artística colocando-a em relação com três paradigmas: o interpretativo, o empirista e o crítico; defendendo que a experiência em contexto de atelier pode apresentar-se como uma forma legítima de investigação. No que se refere a Shaun McNiff (1998), define a prática de investigação em arte como o uso sistemático de processos artísticos que numa primeira instância promovem um entendimento e análise das experiências do investigador e das pessoas envolvidas no estudo. Enquanto que para Rita Irwin (2006), implicada no grupo A/r/tograhy, o processo de investigação em arte remete para o indagar do mundo através do contínuo exercício da arte, interconectando a forma artística e escrita, sem que sejam a ilustração uma da outra, na promoção de novos significados. A autora define como “mestiçagem” o espaço fronteiriço, ponto de convergência do saber, fazer e produzir, este surge como expressão da certeza e ambiguidade, da semelhança e diferença, como metáfora e metonímia. Natascha Haghighian (2011) alerta para o facto da investigação artística, face à sociedade do conhecimento, converte-se num marco de trabalho que mobiliza o saber sobre a forma de conhecimento compactado e controlado, numa relação onde impera a necessidade de justificação da obra e a obtenção de resultados. Desvirtua-se o verdadeiro sentido da prática de investigação em arte, configurando-se de acordo com uma economia de saber -produção de conhecimento em função de marcos económicos. Enquanto Frayling (1993), numa posição de conciliação, assume que a investigação artística pode configurar-se segundo diferentes entendimentos, que abrangem diferentes formas de conceber, praticar e expressar o objeto de estudo, distinguindo três tipos de investigação:


  • Investigação sobre arte e design;

  • Investigação através da arte e design;

  • Investigação para a arte e design;

A primeira tipologia de investigação – investigação sobre arte e design -é a prática mais comum no contexto académico, aproximando-se dos procedimentos e regras mais formais. Envolve-se nesta concepção a investigação histórica, estética, perceptiva e a teorização de aspectos teóricos, éticos, ideológicos, culturais, políticos, etc. na perspectiva artística e do design. Relativamente à segunda tipologia – a investigação através da arte e design – implica o exercício projectual com vista um propósito claramente definido. Neste contexto, o estudo não pode deter um carácter puramente subjetivo e pessoal, parte-se da atividade artística, para a formulação de hipóteses e teorizações assentes em bases teóricas. A terceira tipologia – investigação para a arte e o design – não tem como objetivo primário a comunicação verbal, apela-se aos sentidos e à imaginação para analisarmos o objeto de estudo, sendo este o resultado da investigação.

A investigação para a arte e o design, de acordo com a divisão de Fraying (1993), levanta a questão base desta reflexão, dado que se situa na fronteira do que se pode ou não considerar o exercício de investigação. Neste contexto, o estudo parte de um processo invisível, sendo uma investigação pessoal do artista, apenas acessível através do profundo entendimento da obra. Creio que esse encontro está condenado a falhar para alguém exógeno à obra. O trabalho autoral como resultado de uma investigação artística em contexto académico, onde a obra defende-se a si própria perante um júri, parece-me desenquadrado da estrutura e domínio da academia, cujo objetivo é validar objetivamente o processo de investigação e as novas significações aportadas através do estudo; neste processo, somam-se relatórios explicativos, que longe de atribuir significado, reduzem a complexidade da obra. Tal como os autores Frayling (1993) e Haghighian (2011), levanto o véu de uma questão que me parece de grau e poder: procura-se legitimar e reconhecer a linguagem expressiva, obscura e codificada da obra, junto da academia, processo forçado que está mais vinculado a questões de status e classe profissional. Aí, reside a força e o sentido da distinção da palavra “investigação” com inicial em maiúscula ou minúscula. Reconhece-se que a prática artística de cariz autoral ativa uma complexa rede de relações cognitivas e expressivas, cujo processo fomenta e premeia o aparecimento de novos enunciados, que podem servir de base para uma investigação que se enquadre nos parâmetros de avaliação da academia; considera-se ainda, que os moldes da investigação artística e a comunicação do estudo devem adequar-se ao contexto onde está inserida. Aqui, não se questiona a relevância das aportações do processo artístico autoral, nem tão pouco se avalia a legitimidade e o grau de condicionamento promovido pela estrutura académica, a discussão seria outra, e igualmente complexa: a universidade com ou sem condição. Compreendeu-se através da introdução de Frayling (1993) que a semântica e a imagética associada ao conceito em discussão, está intimamente veiculada a uma história que se revelou controversa e cujo processo de evolução léxico é natural -as palavras ganham novos significados e/ou representações.

É na academia e noutras instituições associadas, que surge a maior necessidade de definir claramente as fronteiras do uso da palavra “investigação” no contexto artístico, sendo que a questão basilar não se encontra no conceito e nos limites do mesmo, mas na definição dos limites da academia e nos parâmetros de avaliação que a suporta, aí onde reside a problemática e o sentido da discussão. Fazendo um balanço final à reflexão, assume-se que a investigação artística surge de uma emergência do autor, que partindo das suas experiências e indagações, constrói narrativas autónomas, cujo processo inaugura novos enunciados e relações no conhecimento, sobre as mais diversas formas. Neste processo de indagação, prática, interpretação e conhecimento, o investigador fabrica as próprias ideias, sempre no entendimento e particularidade do meio onde está inserido. Estas narrativas estão em constante mutação, dado que o investigador posiciona-se num continuo exercício vivo de questionamento e reflexão, a investigação artística não tem um ponto final, é um ponto em desencontro.

Conclusão

A investigação artística partindo da pluralidade de perspectivas dos autores que se desencontram na definição, na forma e apresentação, no método e relação estabelecida entre investigador e objeto de estudo, revela um campo que detém os seus próprios paradoxos; por um lado acolhe em si uma pluralidade de significados, por outro identifica-se uma linha invisível que une todas as concepções, onde a investigação se debate com a singularidade da natureza artística, esta que carrega em si a resistência, a questão e o inerente processo de reflexão.

Comentários:
Tem que ter atenção à bibliografia, assim como à normalização das referências.

O texto esta bem estruturado e claro,

Implica outras visões e autores,

A conclusão deveria ser o reflexo da explanação do texto...

Bom trabalho!
Referências Bibliográfica

Allison, B. (1990). Research in Art and Design: Research Problems, Programmes and Databases. Internacional Journal of Technology and Design Education, p. 03-12.

Frayling, C. (1993). Research in Art and Design. Royal College of Art. London.

Irwin, R. & de Cosson, Alex. (2004). A/r/tography: Rendering self through arts based living inquiry. Vancouver, BC: Pacific Educational Press.

Hernandez, F. y A. Aguirre (compiladores) (2012) Investigacion en las Artes y la Cultura Visual. Barcelona: Universitat de Barcelona. Dipòsit Digital.

Hernández, F. H. (2008). La investigación basada en las artes . Propuestas para repensar la investigación en educación. Educatio Siglo XXI, No 26, 85–118.

McNiff, S. (1998). Art-Based Research. London: Jessica Kingsley Publishers.

Schneider, B. (2007). Design Research Now Essays and Selected Projects. Berlin: R. Michel Ed.

Sullivan, G. (2005). Art practice as research: Inquiry in visual arts. University of Illinois Press.

Verwoert, J.; Haghighian N.; Echevarria, G.; García, D.; Lesage, D.; Tony Brown. (2011).



En Torno a la Investigación Artística Pensar y enseñar arte: entre la práctica y la especulación

teórica. Museu d´Art Contemporani de Barcelona. doi: 978-84-92505-49-4


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