Irmão Silvestre



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Irmão Silvestre


RELATA

MARCELINO CHAMPAGNAT


--- Lembranças pessoais

--- As que recolheu de outrem

--- O relacionamento com o Fundador

--- Reflexões sobre sua obra

APRESENTAÇÃO
Entre os relatos que possuímos, concernentes ao Padre Champagnat, ressalvada a biografia oficial, o do Ir. Silvestre se reveste de importância particular, primeiramente pelo volume, depois, pelo caráter pessoal das recordações apresentadas. Se bem que a composição do texto, no conjunto, veja-se também nos detalhes, deixe muito a desejar, os fatos em si guardam o valor de testemunho de uma forma de viver hoje muito ultrapassada, mas ao mesmo tempo significativa de um espírito sempre adaptável à nossa mentalidade moderna. Daí o interesse pela nova edição deste documento.
O AUTOR
Jean-Félix TAMET nasceu em Valbenoîte, Saint-Etienne, Loire, a 12 de janeiro de 1819. Relata nas páginas a seguir o ingresso e os inícios de sua vida religiosa. O que não conta, é que apenas lhe foi possível emitir votos, na primeira vez, somente por três meses, em 08.09.1832, votos que renova por igual período em 08.12.1832, em seguida, por seis meses em 17.03.1833 (RVT 1, p. 33), tão incerta era sua aceitação no Instituto.

Obteve o certificado para o ensino em Grenoble em 08.04.1839, enquanto lecionava na Côte-Saint-André. Pelo que sabemos dos anos levianos de sua juventude, podemos pensar que adquiriu certo domínio da profissão de educador. Se acrescentarmos a isso que era conhecido do Ir. Luís Maria, seu diretor durante alguns anos, subitamente projetado nas esferas administrativas, compreende-se que, em breve, seria colocado na casa-mãe como formador dos Irmãos. Será fato consumado quando assumir o compromisso definitivo com o Instituto pelos votos perpétuos, emitidos em 13.09.1843. Em primeiro lugar como professor, depois como diretor, exercerá essa função por 43 anos, seja em N.D. de l´Hermitage, seja em Grange-Payre e em Saint-Genis-Laval. Será exonerado desse encargo apenas um ano antes da morte, ocorrida em 1886. Ora, nesse ano, pela circular de 2 de fevereiro, o Irmão Teofânio, Superior geral, anunciava a introdução da Causa do Fundador. Nessa circular o Superior «solicita aos Irmãos que tiveram a ventura de conhecer o Padre Champagnat, aos que ouviram falar dele pelos primeiros Irmãos ou outras pessoas, de colocar por escrito tudo o que soubessem...Para redigir essas notas, os Irmãos lerão, com muita atenção, a biografia do Padre Champagnat e indicarão, conforme virem ou souberem, os pontos da vida que confirmam, modificam ou seria necessário acrescentar...» (C. VII, pp. 256-257). O Ir. Silvestre, apesar de seus 67 anos bem vividos, faz-se o dever de responder escrupulosamente ao apelo do Superior geral. Restar-lhe-á pouco mais de ano para executar a tarefa, porque falecerá em 16 de dezembro de 1887. (Veja-se a notícia biográfica nas Cartas de M. Champagnat, vol. 2, Repertório, pp. 476-478).


A OBRA
O resultado do trabalho é um conjunto de 12 cadernos, formato escolar, totalizando perto de 400 páginas manuscritas. Esses cadernos foram numerados de 1 a 12.

Os 7 primeiros seguem-se sem transição; devem ser considerados obra única em diversos folhetins. O segundo caderno apenas leva título, a saber: Capítulo IV (seqüência) o que prova muito bem que não pode ser separado do primeiro que contém o início desse capítulo IV. Os 5 outros seguem-se da mesma forma sem interrupção passando, às vezes, de um para o outro no meio de uma frase, como é o caso do Nº 3 ao Nº 4.

Os cadernos 8 a 11 seguem-se do mesmo jeito formando no conjunto apenas uma obra cujo título é :«Apêndice», título posteriormente explicitado a lápis da maneira seguinte: «compreendendo 3 capítulos:

1º Meu relacionamento com o Venerável Pai;

2º Algumas de suas virtudes principais;

3º Notas particulares».

Enfim, o caderno 12 está completamente à parte. É mais volumoso do que os outros. É caderno de 96 páginas cujas três últimas estão em branco. Leva o título :«Pequeno apêndice à Vida do Padre. Champagnat em dois volumes in-doze – Notas, fatos, reflexões – Seu espírito». Diversas passagens desses cadernos já se encontram, por vezes, textualmente, no «Apêndice» (cadernos 8 a 11). Por outra parte, esse caderno assemelha-se ao caderno N.º 1: mesmo papel, que não resistiu ao tempo, amareleceu, tornou-se quebradiço e se pulveriza, seu formato de alguns centímetros menos longo que os demais e mesmas faixas vermelhas, ao passo que o papel dos outros é menos espesso, mais resistente e não é colorido. Tudo isso faz pensar que o caderno N.º 12 é de fato anterior aos demais e deve ser classificado cronologicamente, não após os onze outros, como o fez mecanicamente algum arquivista, mas no começo e levar o Nº 1, se a gente quiser absolutamente guardar a numeração.

No entanto, depois de tudo o que se acaba de dizer, essa numeração nada representa de significativo e não tem razão de ser preservada. Por conseguinte, a obra do Ir.Silvestre apresenta-se em três parte;

1)Pequeno Apêndice à «Vida do Padre Champagnat» do Ir. João Batista;

2)Resumo da Vida do Padre Champagnat;

3)Apêndice ao Resumo da Vida do Padre Champagnat.

É o plano que esta edição seguirá.


O TEXTO
Essa estrutura não altera em nada o texto aqui reproduzido na íntegra.

O original comporta muitas correções feitas a lápis, seja de palavras ou de passagens riscadas, seja, na maioria dos casos, de acréscimos entre as linhas. Dada a natureza destes últimos, tem-se o direito de pensar que são do próprio autor, sem contudo ter certeza absoluta. Sem dúvida, pela escrita não é possível fazer o confronto: facilmente aplicável no texto escrito a tinta é menos espontâneo nos acréscimos a lápis. Julgue-se isso pela adenda final, que encerra a obra. A última frase enunciava-se primeiramente como segue: «Possam os Pequenos Irmãos de Maria mostrar-se em tudo e em toda a parte e sempre fotografias vivas e eloqüentes de N.V. Fundador. Assim seja». Posteriormente riscou-se o «Assim seja» e continuou-se a frase por: «e não borrada como tive a infelicidade de ser uma delas. Assim seja». Como pensar que alguém, além do próprio autor, se tenha permitido acrescentar esse complemento? Baseando-se sobre essa probabilidade, esta edição apresenta o texto corrigido, mesmo sem o aparato crítico julgado de pouca utilidade, visto a natureza da obra, e, o conjunto dos leitores a que se destina. As correções mais importantes, contudo, especialmente quando modificam a idéia da frase ou lhe acrescentam alguma coisa, são assinaladas em nota.

Os erros de ortografia que escaparam ao autor aparecem igualmente corrigidos. Aliás são pouco numerosos; erros são principalmente as omissões de termos, as faltas de concordância ou de acentos circunflexos nos imperfeitos do subjuntivo.

A pontuação, de que o autor não se mostra pródigo, fica retificada segundo as regras atualmente em uso.

As abreviações, como PP., FF. ou simplesmente f. e v. foram transcritas por extenso padres, Irmãos ou Irmão e Venerável. Outras abreviaturas mais comuns como R.P. ou Mgr. não foram modificadas.

Esta edição desejaria responder à preocupação de apresentar texto claro, fácil de ler, embora ficando escrupulosamente fiel ao original.

Ir. P.S. (Paul Sester)
Roma, 8 de setembro de 1991.
1
BREVE APÊNDICE

À VIDA DO PADRE CHAMPAGNAT


Em 12 volumes em doze

Notas, fatos, reflexões.

Seu Espírito.
1ª parte1

ADVERTÊNCIA


O que relato neste escrito sobre o Venerável Padre Champagnat não são coisas extraordinárias, tais como se encontram em sua vida em dois volumes ou no sumário em único volume2; são detalhes mínimos que, considerados do único ponto de vista histórico, poderão parecer até algo prolixos, mas que, encarados sob o aspecto do espírito de fé com que o Padre Champagnat os fez, merecem outro apreço. São pedrinhas preciosas que não se pode deixar de recolher; ou, querendo, algumas espigas colhidas no campo em que o autor de sua Vida fez tão rica e abundante colheita. De resto, nunca se alcança elevada perfeição aos trancos e barrancos, mas constumeiramente por escada cujos degraus são constituídos de coisinhas feitas constantemente com fé, amor e pureza de intenção.

No intuito de romper a monotonia de meu relato, me permiti algumas digressões, às vezes longas; perdoem-me, ainda mais porque me dizem respeito, embora menos diretamente.


V.J.M.J A. M.D.G.
PRÓLOGO
§ I. Minha apreciação a respeito da autenticidade da «Vida do Padre Champagnat», escrita por um de seus primeiros discípulos.
Direi, em primeiro lugar, que estou plenamente convicto de que a Vida do Padre Champagnat, escrita por um de seus discípulos, em dois volumes, formato in-doze, contendo o primeiro: sua vida propriamente dita, e, o segundo: seu espírito e virtudes, é de exatidão incontestável, seja no tocante aos fatos relatados, seja nas instruções contidas cujo enunciado é, geralmente, textual. Além disso, acredito que o relato feito sobre as virtudes e a maneira de praticá-las é antes diminuído do que exagerado. Há semelhança tão impressionante entre o que vi durante os nove anos que passei sob a direção do bom Padre e o que o autor relata, na mesma época, que haveria má vontade de (minha parte)3 em não acreditar no conteúdo da obra.
§ II. O que penso do autor.
E, agora, que dizer do autor? No que me diz respeito, posso asseverar, e ninguém dos que o conheceram, em grande número ainda vivos hoje, me incriminará de ser inexato ou exagerado, posso assegurar, digo eu, porque para escrever essa Vida tão edificante, realizou numerosas e minuciosas pesquisas. Muitas vezes não apenas inquiriu Irmãos que viveram em sua época, mas ainda pessoas estranhas à Congregação que se relacionaram com esse padre santo, solicitando que relatassem detalhadamente tudo o que viram ou ouviram dizer referente ao Venerável Padre, assegurando-se da veracidade do relato, valendo-se dos processos que os juízes de instrução empregam para chegar a conhecer toda a verdade; porque, acima de tudo, queria ser franco e exato como seu caráter exigia.

Devo acrescentar ainda que o autor compulsou todos os escritos do Venerável Padre que conseguiu encontrar, bem como a volumosa correspondência, seja com os Irmãos, que, em grande número, lhe entregaram as cartas pessoais ou particulares, seja com as autoridades eclesiásticas, civis e outras, isso para conhecer a fundo seu espírito e virtudes.

Foi depois de recolher esses dados, após longo e judicioso exame que pôs mãos à obra anotando4 no relato apenas o que lhe pareceu de escrupulosa exatidão; digamos ainda que Deus o tinha dotado de memória surpreendente, de juízo pronto e seguro, de inteligência rara e, sobretudo, de tato particular para esclarecer com precisão o essencial de um fato com seus pormenores e desenvolvimentos, a fim de apreciá-lo em seu justo valor.

As demais obras que compôs, sobretudo as intituladas «Avisos e Sentenças do Padre Champagnat» e «O Bom Superior» são provas incontestáveis do que expus acima. Mas, o que revela sobretudo sua memória e apreciação justa em tudo, são inquestionavelmente os «Princípios de perfeição» em que condensou, com clareza e precisão tudo o que os Santos Padres e os Doutores da Igreja disseram de mais sólido a respeito do ascetismo e da perfeição religiosa.

De quanto acabamos de dizer, é necessário concluir que a Vida do Padre Champagnat, de que damos pequeno apêndice, reveste caráter de exatidão incontestável; pode-se em consciência atestar-lhe a veracidade sob fé de juramento.
§ III. Reflexões sobre a Vida.

Li e ouvi ler diversas vezes a Vida do Padre Champagnat; embora me tenha causado sempre impressões salutares, nunca, e não sou o único a dizer, me impressionou tão fortemente depois de sermos mandados pelo Reverendo Irmão Superior geral de fazer leitura atenta a fim de que cada um, sobretudo aqueles que o conheceram, pudessem dar por escrito, sua apreciação sobre o conjunto de seu conteúdo; isso para servir de documento para a introdução da causa de nosso Venerado Fundador na corte de Roma. Sentia-se que bênção particular acompanhava essa leitura, do mesmo jeito que acontece ao ler com piedade e respeito a Escritura Sagrada ou a vida de algum santo canonizado.

Sim, o Padre Champagnat é santo, sua vida escrita é prova incontestável. Todos os Irmãos que o conheceram o proclamam unanimemente; jovens e antigos fazem votos ardentes para que a introdução de sua causa junto à Santa Sé tenha resultado feliz e os confirme na crença de que seu Fundador praticou as virtudes teologais e morais em grau heróico.

Sim, repitamos felizes, o Padre Champagnat é santo, mas santo que levou vida obscura e escondida, igual à da Santíssima Virgem em Nazaré. Tinha-a tomado por modelo, e, no pensamento, desejava que a congregação lhe traçasse a vida humilde, simples e modesta e levasse o nome bendito de Maria com o de Pequenos Irmãos para recordar a devoção filial que devem ter a essa boa Mãe, além disso, o hábito que os deve distinguir das outras congregações é a humildade. Digamos ainda que, se diversos mestres da vida espiritual comparam as sociedades religiosas com magnífico ramalhete de flores variadas, que a Igreja apresenta ao Esposo Celeste, atraindo os olhares pela beleza, esplendor e cores brilhantes, a Congregação dos Pequenos Irmãos de Maria deve figurar qual modesta violeta, que atrai a atenção pelo perfume espalhado em seu redor.

Esse é o espírito de nosso Fundador. Leia-se a Vida e ver-se-á que a obra de sua Congregação é resultado de profunda humildade, (de grande devoção a Maria e de sede ardente pela salvação das almas)5.
CAPÍTULO 1º
AS VIRTUDES
§ I. Presença de Deus
Desejaria agora fazer o elogio de suas virtudes, mas isso constitui quadro tão detalhado, tão exato e tão edificante no segundo volume de sua Vida que vou contentar-me em expor brevemente o que mais me impressionou nele durante o noviciado e em algumas outras circunstâncias, correndo risco de repetir o que já foi dito e de passar por pueril em certos detalhes. Será sempre confirmação a mais.

Em primeiro lugar, é de ressaltar como estava bem estereotipado no coração e no espírito de nosso piedoso Fundador o pensamento da presença de Deus. Pode-se dizer que essa santa presença era a alma de sua alma, o alimento de sua piedade; era tão calmo, grave e recolhido que tudo levava a crer que nunca a esquecia. Lembrar-me-ei sempre de quando iniciava a meditação, muitas vezes, com as palavras do salmo 138: «Quo ibo a spiritu tuo etc.»6. Pronunciava-as com tom de voz tão acentuado e solene que produziam na alma impressão inexplicável, levavam a recolhimento tal que não se ousava mexer-se nem por necessidade. Esse «quo ibo» me sobreveio seguidamente ao pensamento, serviu-me muitas e muitas vezes de preservativo contra o pecado e de preparação imediata para a meditação. Era a tempo e a contratempo que nos falava dessa divina presença, nos recomendava que se chegássemos a esquecê-la de não omitir de nos recordar pelo menos quando o tilintar da sineta ou o bater do relógio anunciava a oração da hora.



Não se deveria crer que o exterior imponente do Venerado Pai que, na primeira abordagem inspirava respeito e até certo receio, o impedia de ser alegre quando as circunstâncias e as conveniências pareciam exigir. Assim, no recreio, sempre tinha chistes para nos divertir; mais do que isso, nos ensinava e nos propiciava jogos inocentes muito agradáveis. Não receava dispor-se a jogar, mas depois que a diversão estava em andamento, desaparecia sem ser percebido. Mas era sempre, como diz o apóstolo são Paulo, no Senhor que se alegrava; apesar dessa simplicidade de um bom pai com os filhos, conservava, sem falhar nunca, a qualidade de superior e a dignidade de ministro de Jesus Cristo, e, acima de tudo, a lembrança da presença de Deus. Nunca o ouvi dizer palavra que pudesse ferir a caridade ou chocar as conveniências mais ínfimas e, por razão mais forte, dizer ou fazer algo contra a lei de Deus, mesmo em matéria muito leve. Nunca o vi, em momentos em que parecia mais familiar, permitir-se tocar quem quer que fosse; se alguém era inclinado a certas familiaridades que o jogo parecia tolerar, mas que pareciam levar a infligir as regras concernentes ao respeito mútuo, nunca faltava de fazer ouvir secamente este provérbio que lhe era familiar nessas circunstâncias: «Jogo de mão, jogo de vilão».
§ II. Temor do pecado
Compreende-se sem esforço que a lembrança habitual que o Padre Champagnat tinha da presença de Deus lhe inspirava temor, repugnância ou melhor, espécie de espanto por toda a ofensa feita contra à soberana Majestade; em resumo, para falar vulgarmente, o pecado era sua bête noire (coisa detestável). Nas instruções voltava com freqüência a falar sobre esse mal que designava o mal dos males. Oh! Meu Deus! Como estava cheio de horror contra ele. Fazia tremer todo o auditório quando lhe descrevia as características e as funestas conseqüências. Os mais sérios e os mais levianos ficavam espantados. Passava-se na alma não sei o quê a causar calafrios, sobretudo, quando se tratava de certos pecados que nomeava raramente, seguindo o conselho do grande Apóstolo. Então, seu tom enérgico, desdobrando-se em toda a extensão, remoía as consciências mais relaxadas e aterrorizava os que se sentiam culpados nessa matéria. Recordo-me que dizia a esse respeito: «Se me apresentassem um jovem com seu peso em ouro, mas sujeito a maus hábitos, não o receberia nesta casa; suposto que entrasse, porque seus costumes parecessem exteriormente bons, se não trabalhasse forte e prontamente para se corrigir, não duvido que a Santíssima Virgem não o vomitasse logo do seio da comunidade». «O menino, acrescentava, precocemente caído no mal e que se deixa arrastar por ele, não pode nunca ser corrigido senão pelo raio que caia a seus pés, por alguns castigos corporais fortes, por boa primeira comunhão ou por milagre obtido por orações fervorosas».
§ III. Vigilância
O antídoto do pecado é, segundo Jesus Cristo mesmo, a vigilância, a oração e a mortificação. Apenas direi uma palavra a respeito da maneira como praticou essas três virtudes, visto que na biografia tudo está bem exposto a esse respeito. Em primeiro lugar, era necessário que vigiasse muito sobre si próprio com atenção escrupulosa para que não tenha sido surpreendido realmente em falta contra as mínimas observâncias regulares. Era pontual em obedecer ao primeiro toque sagrado do sino, que detém nos lábios uma palavra começada ou suspende o trabalho quase concluído, seja para pôr fim à conversa agradável, seja para passar de certa ocupação ou de algum exercício para outro. Ora, desconheço tê-lo visto faltar a esse ponto do regulamento que custa tanto à natureza.
§ IV. Meditação, Oração
E o quê dizer de seu amor à meditação e da exatidão em fazê-la todos os dias, apesar das numerosas ocupações? Recordo-me que, na sala em que era feita, não havia bancos nem cadeiras nem genuflexórios. Todos rodeávamos o Reverendo Padre que, por sua piedade, fervor, atitude grave e recolhida e, algumas vezes, pela palavra animada, excitava à devoção os mais tíbios; mantinha acordados os que a tentação do sono pudesse surpreender; aquecia os que o frio tivesse entorpecido, no inverno, durante este santo exercício. Não havia outro aquecimento além de uma lâmpada vacilante ou de um candeeiro meio extinto. O Venerado Padre, não tinha frio algum; o coração abrasado lhe aquecia o corpo; quanto a mim, jovem leviano, por vezes, com o interior tão gélido quanto o exterior, necessitava muitas vezes contemplá-lo para não ser igual à estufa apagada. Ao rezar, o tom de voz era tão respeitoso, tão enérgico, a pronúncia tão acentuada que a gente se sentia completamente compenetrado. Era algo mais rápido do que lento, apenas fazia as pausas necessárias para compreender o sentido do pensamento expresso pela natureza da oração. Em suma, não lia a oração, mas a recitava com ardor e inteligência. Fazia questão que se agisse assim; repreendia e até castigava, se fosse necessário, os que precipitassem as orações. Entendia que fossem recitadas pelo menos com atenção, respeito e expressão que convêm ao saudar algum grande personagem.

Além dos exercícios de piedade ordinários, tais como meditação, breviário, terço, exame particular, leitura espiritual, celebração da santa missa, que nunca omitia, mesmo quando estivesse muito cansado ou sobrecarregado por numerosas ocupações, tinha algumas particulares que Deus apenas conhece, de maneira que se pode dizer que a oração era seu alimento, como a presença de Deus seu elemento.


§ V. Mortificação
Deveria passar por alto a respeito de seu espírito de mortificação, visto que o autor de sua Vida relata fatos tão numerosos e impressionantes, contudo, permitir-me-ei de trazer alguns mais modestos e minuciosos, não menos edificantes. Repetia seguidamente esta máxima: «O religioso quase não deveria ocupar-se do corpo». Praticava-a ao pé da letra. Pode-se asseverar que tratava a carne como escrava rebelde de que sempre se deve desconfiar. Recusava-lhe tudo que a pudesse lisonjeá-la, contrariando-a nos gostos, nas comodidades, nas fantasias, chegando por vezes a privar-se do necessário. Na verdade, não chegava a compreender como físico tão grande pudesse viver com tão pouco alimento enquanto, de minha parte sendo tão pequeno, apenas podia me saciar, porque o padre era geralmente o primeiro ocioso à mesa; eu, sempre o último.

Mas o que fazia nesse momento de repouso? Interrogava tanto novatos como antigos a respeito do assunto da leitura e dava explicações, caso fosse necessário. Apenas o leitor ordinariamente escapava a essas interrogações, sempre espicaçantes e interessantes. Sei, por experiência, que as cabeças levianas e ventoinhas não conseguiam sair-se bem e passavam vergonha com o silêncio perante suas perguntas.

Nunca tomava algo entre as refeições, a menos que por necessidade absoluta. Era de tal rigor contra os que se permitiam comer frutas ou mesmo bagos de uva que chegou a proibir a sagrada Comunhão a todos os que infringissem essa ordem, a menos que manifestassem a falta a quem de direito. Conheço um Irmão a quem essa proibição, que data pelo menos 50 anos, causou impressão tal que ainda não se atreve a transgredi-la.

Não apenas as refeições do Padre Champagnat eram de curta duração, mas também não queria que os pratos servidos fossem exageradamente preparados e, sobretudo, que os condimentos estivessem em excesso. Certa vez, vi o bom Irmão Estanislau, seu braço direito, uma das colunas mais sólidas do Instituto, que era ao mesmo tempo procurador, sacristão, roupeiro etc., e quando necessário, cozinheiro, vi-o ir ao refeitório para fazer uma penitência, porque o Venerado Padre tinha observado que havia ficado resto de manteiga no fundo do prato de legumes que lhe tinha sido servido; no entanto, havia apenas (eu era então auxiliar da cozinha) o suficiente para preparar passavelmente um ovo.

Vinho puro, café, licores, embora mais raros naquela época do que hoje, apenas os conhecia; pelo menos que eu saiba nunca foi visto servir-se deles. Se bem que nas grandes solenidades, no fim da refeição fosse servido vinho em lugar da bebida ordinária, queria que ao litro de vinho, para oito, se acrescentasse uma colherada de água, considerada mais higiênica.

Em questão de alimentos, não se sabia de que gostasse ou não. Poderia ser presumido que, de preferência, a qualquer outro alimento muito comum gostava do queijo branco. Vê-se na biografia que certo Irmão Diretor, cujo estabelecimento era pobre, lhe serviu apenas esse alimento, não tendo outra coisa. Por isso recebeu muitas vezes elogios devido aos queijos brancos. Escondia debaixo disso rude mortificação, porque as circunstâncias o obrigaram a permanecer diversos dias em referido estabelecimento e, para o bom Padre, sair do regime habitual era sempre grande sofrimento.

A mortificação que mais lhe custou e mais custa aos jovens é a exatidão em levantar ao primeiro sinal da campainha. Confessou a certo Irmão antigo, ao passar pela aldeia de Creux, que era para ele sacrifício terrível cortar rente o sono e nunca se pudera acostumar.

O fato, que confirma o que se diz na Vida a esse respeito, foi-me relatado pelo próprio Irmão. É a opinião unânime de todos os Irmãos que conheceram o Venerado Pai que fez generosamente esse sacrifício todos os dias até que a doença o obrigou a se acamar. Não é isso ato de virtude heróica, senão em si, mas pela longa e constante duração?

Embora o Padre tenha usado o cilício e a disciplina, conforme se verifica na Vida, e mesmo extraordinariamente tenha permitido esse gênero de penitência a alguns Irmãos, pode-se dizer que a mortificação em que mais primou e nos recomendava como mais agradável a Deus, foi a mortificação dos sentidos, das paixões e a inerente ao cargo ou ao emprego imposto pela obediência. Nesse gênero de mortificação, colocava sempre na primeira linha o cumprimento perfeito do regulamento, especialmente, o referente ao silêncio, de que fazia questão particular. Os infratores desse ponto importante eram primeiro advertidos rispidamente, depois se recidivos, sobretudo, se por hábito, punidos severa e publicamente. Os retardatários nos exercícios de piedade eram quase tratados da mesma maneira. Além dessas penitências pessoais e satisfatórias de que acabamos de falar, o Venerado Padre, não julgou conveniente dar algumas gerais, além do jejum aos sábados de que nunca se dispensava. A razão apresentada era que o ensino cristão e religioso, praticado conforme o regulamento requer, é penitência das mais severas e mais austeras. Para se convencer disso, leia-se com atenção o capítulo do Regulamento a esse respeito, e os outros que versam sobre o ensino e ver-se-á a verdade do que dizia. Ademais, essas espécies de mortificações, ocultas sob o véu da humildade, não eram as que praticavam a Santíssima Virgem e são José na casa de Nazaré? Em conseqüência, não serão as que os Pequenos Irmãos de Maria devem preferir às demais e de que nosso piedoso Fundador nos deu numerosos exemplos?

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