Issn 0104-1290 Saude soc vol. 14 no. 3 São Paulo Sept./De



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Saúde e Sociedade

Print version ISSN 0104-1290

Saude soc. vol.14 no.3 São Paulo Sept./Dec. 2005

doi: 10.1590/S0104-12902005000300004 



TEMA EM DISCUSSÃO

 

Transdisciplinaridade e o paradigma pós-disciplinar na saúde

 

Transdisciplinarity and the post-disciplinary paradigm in health

 

 



Naomar de Almeida Filho

PhD em Epidemiologia, Professor Titular do Instituto de Saúde Coletiva, Universidade Federal da Bahia. Pesquisador I-A do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq. E-mail: naomar@ufba.br

 

 



RESUMO

O objetivo do presente ensaio é atualizar uma reflexão em curso sobre os conceitos de transdisciplinaridade e complexidade. Com este objetivo, primeiro, discute-se a noção de 'disciplina' no referencial epistemológico do cartesianismo, que aparece como fundamento dos paradigmas dominantes na ciência da modernidade. Em segundo lugar, introduz-se brevemente princípios e elementos constitutivos do que tem sido denominado de "paradigma da complexidade", proposto como marco transformador da ciência contemporânea. Terceiro, apresenta-se uma síntese evolutiva dos projetos metodológicos de organização da prática científica e tecnológica que têm sido denominados de interdisciplinaridade e transdisciplinaridade. Em paralelo, discute-se de modo mais sistemático o desenvolvimento e uso de tais conceitos, a fim de avaliar o que tem sido proposto como perspectiva de integração deles no âmbito da prática científica. Finalmente, algumas das questões epistemológicas e teóricas esboçadas são discutidas, atualizando um debate com interlocutores e críticos no campo da Saúde e em campos científicos correlatos.



Palavras-chave: Complexidade; Transdisciplinaridade; Interdisciplinaridade; Paradigma; Saúde



ABSTRACT

The present paper is aimed at updating an ongoing conceptual research on transdisciplinarity and complexity. With this aim, firstly, the notion of 'discipline' is discussed in the cartesian epistemological frame of reference, foundation of dominant paradigms in modern science. Second, principles and constitutive elements of what has been named "complexity paradigm", supposedly a transforming landmark for contemporary science, are briefly introduced. Third, an evolutive synthesis of methodological projects of organization of techno-scientific practice that have been designated as interdisciplinarity and transdisciplinarity is presented. In paralel, it is discussed, more systematically, the development and use of such concepts, in order to evaluate what has been proposed as their integrative perspective into the realm of scientific practice. Finally, some sketched epistemological and theoretical questions are discussed, updating a debate with interlocutors and critiques in health and correlate scientific fields.



Keywords: Complexity; Transdisciplinarity; Interdisciplinarity; Paradigm; Health

 

 



Introdução

Agrupados sob o rótulo de "novo paradigma" e com diferentes graus de inter-articulação, vários elementos epistemológicos e metodológicos têm sido propostos como tendência alternativa para a ciência contemporânea. A aplicação destes princípios, métodos e lógicas, que às vezes não parecem congruentes entre si, tem sido denominada, particularmente nos países anglo-saxões, de ciência pós-moderna (Santos 1989). Proponentes dos novos paradigmas freqüentemente sugerem que uma nuova scienza encontra-se em pleno desenvolvimento, demandando categorias epistemológicas próprias (como parece ser a categoria da complexidade), novos modelos teóricos (como a "teoria do caos") e novas formas lógicas de análise (como por exemplo modelos matemáticos não-lineares, geometria fractal, lógica borrosa e teoria de redes).

No campo da Saúde Coletiva, vários autores têm defendido a necessidade de novos paradigmas para abordar diferentes questões de pesquisa: Attinger (1985) propõe a análise de políticas de saúde a partir de modelos sistêmicos dinâmicos desde uma perspectiva teórica da complexidade, capazes de integrar os níveis micro e macro e as transformações dos sistemas de saúde. Castellanos (1990) e Almeida-Filho (1990), independentes mas simultaneamente, sistematizaram propostas equivalentes e complementares de uso destas novas abordagens paradigmáticas para a construção metodológica do objeto da pesquisa epidemiológica. Tais propostas vêm sendo ampliadas e difundidas com o objetivo de fomentar uma produção científica concreta, capaz de efetivamente alimentar um possível paradigma novo (Schramm e Castiel, 1992; Castiel, 1994; Breilh, 1995; Almeida-Filho, 1996; Koopman 1996).

Desde 1990, venho trabalhando em uma revisão sistemática de propostas de produção de conhecimento alternativas ao paradigma dominante, explorando suas possibilidades de aplicação nos campos científicos da saúde, focalizando particularmente a Epidemiologia, minha área de formação e pesquisa. Nessa busca, encontrei uma detalhada classificação evolutiva das alternativas de integração de distintos campos disciplinares proposta por Jantsch (1972), atualizada por Vasconcelos (1997, 2002) e adaptada por Bibeau (1996)1, que funcionou como ponto de partida para uma série de textos sobre temas epistemológicos da Saúde Coletiva e dos corpos de discursos que a estruturam (Almeida Filho, 1989, 1990, 1992, 1997, 1997a, 1998, 2000, 2000a, 2000b).

No presente ensaio, dando seguimento a esse programa de estudo, recupero argumentos e atualizo uma reflexão em curso sobre os conceitos de transdisciplinaridade e complexidade. Com este objetivo, primeiro discuto algumas articulações da noção de 'disciplina' (e seu correlato 'especialidade') no referencial epistemológico do cartesianismo, que aparece como fundamento dos paradigmas dominantes na ciência da modernidade. Em segundo lugar, introduzo brevemente princípios e elementos constitutivos do que tem sido denominado de "paradigma da complexidade", proposto como marco transformador da ciência contemporânea. Terceiro, apresento uma síntese evolutiva dos projetos metodológicos de organização da prática científica e tecnológica que têm sido denominados de interdisciplinaridade (incluindo a série semântica que a precede: pluri-multi-meta) e transdisciplinaridade. Em paralelo, discuto de modo mais sistemático as condições de desenvolvimento e uso de tais conceitos, a fim de avaliar o que tem sido proposto como perspectiva de integração deles no âmbito da prática científica. Finalmente, busco aprofundar algumas das questões epistemológicas e teóricas esboçadas, atualizando um debate em aberto com interlocutores e críticos, com a intenção de contribuir para o avanço do debate epistemológico em Saúde e campos científicos correlatos.

 

Raízes da Disciplinaridade no Paradigma Cartesiano

Com o sentido primitivo de "demonstração", o termo 'análise' compôs o título atribuído a uma das obras de Aristóteles (As Analíticas). Entretanto, o seu uso moderno como uma forma especial de raciocínio em Lógica e em Filosofia foi primeiro estabelecido por Descartes, em 1635, já como postulado de oposição à noção de síntese.2

No sentido cartesiano, conhecer implicava necessariamente uma etapa inicial de fragmentação (para ser mais claro, de destruição) da coisa a ser transformada em objeto de conhecimento. Este seria o preço mínimo que se deveria pagar para ascender ao conhecimento racional. Então o princípio da parcimônia, no sentido da simplificação reducionista, validaria os modelos explicativos do novo modo de produção de conhecimento – pois o conhecer reduzia o agora objeto aos seus componentes elementares.

Apesar da declarada indissociabilidade entre análise e síntese, estava fora de questão, pelo reconhecimento do primado da experiência, que o conhecimento poderia ser de algum modo totalizante, conforme com clareza atesta Locke (1988 [1690] p.188):

Não devemos, pois, incorporar sistemas duvidosos como ciências completas, nem noções ininteligíveis por demonstrações científicas. No conhecimento dos corpos devemos nos contentar a recolher o que pudermos dos experimentos particulares, desde que não podemos, da descoberta de suas essências reais, apreender ao mesmo tempo todo o conjunto, e às pressas compreender a natureza e propriedades de todas as espécies reunidas. (Grifos nossos.)

Como corolário da analítica cartesiana, certamente sua mais poderosa estratégia de operação, a ciência ocidental se desenvolveu com base na noção de especialidade (e seus correlatos: especialista e especialização). O ideal renascentista do sábio-artista-cientista, encarnado na genialidade de Da Vinci, e o movimento iluminista do enciclopedismo, exemplificado pelo talento múltiplo dos pioneiros cientistas (que eram simultaneamente físicos, médicos, filósofos, matemáticos, astrônomos, naturalistas e alguns até literatos e políticos), eram em certa medida marginais em relação à história da ciência normal (Santos 1989, 2003). A ampliação do escopo da nascente prática institucional da ciência, com suas sociedades e academias, produzia campos disciplinares cada vez mais rigorosamente delimitados, como se fossem – e eram – territórios inexplorados, demarcados e apropriados pelos seus desbravadores. Por outro lado, na arena científica, mais e mais se valorizava a especialização, tanto no sentido de criação de novas disciplinas científicas quanto na direção de subdivisões internas nos próprios campos disciplinares; no campo das práticas sociais, novas profissões eram criadas; no âmbito da reprodução ampliada, um novo sistema de ensino e formação estruturava-se com base nesta estratégia "minimalista" de recomposição histórica da ciência e da técnica. Podemos em princípio designar essa estratégia de organização histórico-institucional da ciência, baseada na fragmentação do objeto e numa crescente especialização do sujeito científico, como a disciplinaridade.

Na Roma Antiga, os seguidores de um magister (mestre) eram chamados discipuli; o termo passou em seguida a designar aqueles que aderiam à filosofia de uma escola ou de um grupo ou que se ligavam a um mesmo modo de pensar. Nesta família semântica, disciplina inicialmente significava a ação de aprender, de instruir-se; em seguida, a palavra foi empregada para referir-se a um tipo particular de iniciação, a uma doutrina, a um método de ensino. Posteriormente, veio a conotar o ensino-aprendizado em geral, incluindo todas as formas de educação e formação. Por metonímia, a partir do século XIV, com a organização das primeiras universidades, ainda no contexto escolástico, disciplina passou a designar uma matéria ensinada, um ramo particular do conhecimento, o que depois viria a se chamar de uma "ciência". Assim, a disciplina tornou-se equivalente a princípios, regras e métodos característicos de uma ciência particular e, por extensão, de toda a Ciência (Rey, 1993; Bibeau, 1996)2.

O marco epistemológico do reducionismo cartesiano constrói e trata, muito bem, dos objetos simples. Tem sido designado como um paradigma da explicação, justamente por buscar uma transparência e uma publicidade (sem ironia), termos aliás contidos no sentido original de explicar (ex-plicare, des-enrolar, des-envolver, ex-ternalizar) (Rey, 1993). O velho e bem-firmado reducionismo cartesiano de fato tem subsidiado a maior parte dos avanços científicos e tecnológicos da moderna sociedade industrial. Sem dúvida, o reducionismo valoriza acima de tudo a simplicidade e parcimônia como elementos fundamentais dos seus objetos e modelos. Apenas por brevidade, chamemo-lo de "Paradigma S" (paradigma da simplicidade, ou da simplificação).

Numa fase posterior de expansão do imperialismo científico, já no século XX, a formação de novos campos disciplinares exigiu que os fundamentos da abordagem analítica do problema do conhecimento fossem repensados (Maheu, 1967). Nessa perspectiva, a produção do conhecimento científico visava não mais a fragmentação, mas a construção de objetos através de um processo de composição, ou montagem, de elementos constituintes. Não mais uma busca de desintegração (ou seja, análise) e sim uma integração totalizadora (a síntese). Conforme Morin (1990, 2003), estratégias sintéticas de construção de um dado campo científico configuram uma alternativa para abordar as especificidades e os enigmas dos eventos, processos, fenômenos, na natureza, na história e na sociedade, enquanto síntese provisória de múltiplas determinações. Dessa forma, de algum modo se contemplava a produção de objetos complexos, aqueles que não se subordinam a nenhuma aproximação meramente explicativa, e que nem por isso mereceriam ser excluídos do campo de visão da ciência justamente por serem... indisciplinados. Tratava-se então não apenas de explicar, mas de entender; não somente de produzir a descrição rigorosa ou a classificação precisa mas também a compreensão de uma dada questão científica (Minayo, 1992).

Muitos agora dizem que a ciência contemporânea passa por uma crise paradigmática (Santos, 1989, 2003; Morin, 1990, 2003; Samaja, 1996). No seio de uma prática que flagrantemente reafirma a fragmentação, os melhores cientistas, atuando na vanguarda das chamadas "ciências duras" (principalmente físico-química, genética, biologia molecular, neurociências), se dão conta de que não mais podem deter-se em (ou serem detidos por) questões científicas localizadas, tornando-se especialistas monotemáticos (Maheu, 1967; Powers, 1982; Maturana e Varela, 1984; Prigogine e Stengers, 1986). Em outras palavras, tornam-se conscientes de que é necessário abrir a ciência a questionamentos em um nível mais fundamental, sob pena de terem suas disciplinas transformadas em mero repertório de técnicas e procedimentos desde já superados. Segundo Bibeau (1996),



paralelamente (e contraditoriamente) à superespecialização assistimos a um apagamento de fronteiras (pessoal-político; privado-público; local-global; individual-coletivo; sagrado-profano; objeto-sujeito) que faz com que seja cada vez mais difícil ao pesquisador reencontrar-se nas práticas de pesquisa. Não mais se sabe a que disciplina pertence o autor de uma dada pesquisa ou artigo científico. Esta situação parece provocar um duplo efeito contrário. De um lado, encontra-se ambigüidade, caos e incoerência seguida de fenômenos de fusão, mistura, hibridização e mestiçagem entre métodos e teorias; e de outro lado, uma abertura de fronteiras, uma consideração dos contextos, uma desinsularização das disciplinas.

Desde o final do século passado, cresce no campo científico a consciência de que a ciência se configura cada vez mais como uma prática de construção de modelos, de formulação e solução de problemas num mundo em constante mutação (Samaja, 1996; Maturana, 2001). De certo modo, o narcisismo antropocêntrico típico do cientista de tradição cartesiana parece não ter lugar em uma ciência que mais e mais valoriza a descentração e a relatividade (Morin, 2003). Por outro lado, essa crise ocorre porque a prática da ciência continuamente produz objetos novos. Não somente novas formas para referenciar os mesmos velhos objetos, mas de fato objetos radicalmente novos, realmente emergentes.

 

O Paradigma da Complexidade

Hoje em dia, em muitos campos científicos anuncia-se que o Paradigma S teria exaurido sua capacidade de apreender as complexas realidades concretas da natureza, história e cultura humanas e, por conseguinte, teria alcançado os seus limites como um terreno fértil para o avanço da ciência. Desde a inauguração da perspectiva sistêmica, ilustres pensadores e cientistas de diversas áreas de pesquisa (uma curta lista: Wiener, von Bertallanfy, Prigogine, Thom, Boulding, Maturana, Simon, Atlan, Lorenz, Morin, entre outros), vêm propondo formas alternativas de superação das debilidades do reducionismo. A articulação sistemática desse desenvolvimento crítico resultou na composição de novos campos interdisciplinares como a Ciência da Informação e a Cibernética. Mais recentemente, essas propostas foram finalmente unificadas, conformando o que veio a ser designado como "paradigma da complexidade" ou, abreviadamente, Paradigma C (Morin, 1984, 1990).

Alguns proponentes desses enfoques privilegiam componentes analíticos formais que pretendem justificar a denominação genérica, para essas propostas, de teoria do caos ou da não-linearidade (Ruelle, 1991; Lorenz, 1993; Percival, 1994). Tais propostas se apresentam quase como um "neo-sistemismo", atualizando e expandindo algumas posições da teoria dos sistemas gerais que havia alcançado uma certa influência no panorama científico dos anos 50 e 60 (Boulding, 1956; Buckley, 1968). Por esse motivo, a terminologia "teoria dos sistemas dinâmicos" tem sido empregada com certa freqüência para designar os modelos complexos gerados no contexto de propostas de um paradigma científico alternativo (Gleick, 1986; Lewin, 1992). Portanto, a abordagem da complexidade não constitui rigorosamente uma nova concepção. Apesar disso, concordo com Morin (2003) que a categoria 'complexidade' designa um paradigma que, apesar de não trazer novidades, tem uma chance de tornar-se dominante em diversos campos de conhecimento neste milênio.

A idéia de complexidade seria dessa forma tomada como eixo principal que unificaria parcialmente as diversas contribuições em direção a um paradigma científico alternativo. Trata-se de uma aplicação generalizada da premissa de que, ao contrário da abordagem reducionista do positivismo, que tem como objetivo uma simplificação da realidade, a pesquisa científica dentro de um novo paradigma deve respeitar a complexidade inerente aos processos concretos da natureza, da sociedade e da história (Robson, 1986; Santos, 1989, 2003). Na minha opinião, o Paradigma C, produto da cultura e da história humanas como qualquer outra construção social, resulta de uma prática social-intelectual-institucional chamada ciência, não sendo definível, em uma perspectiva essencialista, por sua maior ou menor aproximação a processos factuais de uma realidade absoluta.



Várias possibilidades se apresentam no sentido de uma definição da complexidade a partir de uma perspectiva mais rigorosa do ponto de vista epistemológico (Edmonds, 1996). Assim, podemos catalogar os seguintes elementos teóricos da complexidade:

Sistemas dinâmicos – Definição que compreende estruturas sistêmicas abertas, em constante transformação, totalidades formadas por partes inter-relacionadas, elementos, conexões e parâmetros mutantes. A complexidade de um modelo pode ser entendida como a sua natureza não-finalista, correspondendo na linguagem da teoria dos sistemas à propriedade de retroalimentação de um modelo explicativo sistêmico. Estou convencido que, de fato, complexidade implica a noção de transformação. Nenhum dos modelos baseados na complicação, por mais sofisticados e articulados que sejam, considera a "flecha-do-tempo" no sentido prigoginiano (Prigogine e Stengers, 1986; Coveney, 1994). Mesmo nas suas versões mais desenvolvidas, tais modelos têm se mostrado reducionistas, monótonos ou finalísticos e, acima de tudo, abordam a realidade complexa através de "cortes de congelamento", ou seja, através da paralisia do seu elemento mais fundamental, a natureza dinâmica do ser (Delattre e Thellier, 1979). Um sistema dessa ordem, por mais intricado seja, que sempre converge para o mesmo output fixo, nunca será um sistema dinâmico. É por isso que a noção de retroalimentação revelou-se tão crucial para a teoria dos sistemas. Na mesma medida, isso explica porque a idéia de 'iteração' torna-se chave para definir não-linearidade nos sistemas dinâmicos.

Não-linearidade – Trata-se da propriedade de interconexões sistêmicas que vão além das relações dose-resposta, produzindo efeitos que tendem a exceder a previsão, dado um conjunto de determinantes. Os modelos de predição que se baseiam em modelos teóricos de distribuição de eventos baseados em funções caóticas ou não-lineares, descontínuas ou críticas têm sido preconizados como úteis para a descrição das relações determinantes complexas (Thom, 1985). Dois sentidos têm sido em geral agregados à noção de não-linearidade: Por um lado, não-linear pode significar não finalístico, recursivo ou iterativo, no sentido de efeito de sistemas dinâmicos não convergentes (Philippe, 1993). Por outro lado, a não-linearidade pode estar associada à propriedade de relações entre séries de eventos que não seguem a lógica do efeito dose-resposta específico (Lorenz, 1993).

Caos – O emprego do termo grego 'kaos', equivalente a "desordem", antônimo de 'cosmos' (também originário do grego, designando "ordem"), no sentido da descrição de sistemas de relações não-lineares, indica que esta perspectiva abre-se à consideração de paradoxos, intoleráveis na epistemologia convencional, como por exemplo a concepção de "ordem a partir do caos" (Atlan, 1981). De todo modo, o uso consagrado em um jargão instituído pela prática incorpora formas alternativas de determinação que emanariam de transições de fase aparentemente desordenadas, ou seja, "caóticas". Esta referência particular, portanto, incorpora um determinismo especial, distinguindo com clareza caos de indeterminação ou de aleatoriedade, ambos corolários do famoso princípio da incerteza que inaugura a crítica à física relativista contemporânea (Ruelle, 1991).

Na prática, caos tem sido definido como a sensitividade às condições iniciais mais a imprevisibilidade do sistema como um todo (Gleick, 1986; Lorenz, 1993). Em termos analíticos, algumas noções de base aparecem com freqüência referidas à teoria do caos: "atratores estranhos" e efeitos "fracos". Primeiro, os "atratores estranhos" constituem uma forma de expressão gráfica de associações de elementos dos sistemas iterativos, portanto apropriada para a representação de relações não-lineares no chamado "espaço-fase" (Eckman e Ruelle, 1985). Segundo, a noção de "sensibilidade às condições iniciais" enquanto uma propriedade essencial dos sistemas dinâmicos abre caminho para os modelos explicativos baseados em efeitos "fracos" ou efeitos sensíveis (interações), ou seja, modelos com menor grau de precisão ou de estabilidade preditiva com base em configurações conhecidas de fatores ou determinantes (Coveney, 1994). A consideração dos efeitos "fracos" ou fatores de interação possibilita a operacionalização de modelos de sistemas dinâmicos sob a forma de redes complexas (Newman, 2003; Strogatz, 2003), a nosso ver com alto potencial para tratar a questão do objeto saúde (Schramm e Castiel, 1992; Castiel, 1994; Almeida Filho, 1997a; Chaves, 1998).



Emergência – Definida como a ocorrência imprevista, a categoria 'emergência' remete à transgressão das leis conhecidas da determinação, engendrando o "radicalmente novo" (Castoriadis, 1982). Em outras palavras, trata-se de um processo de determinação ignorada, concernente à ocorrência de algo (objeto, força, vetor) que previamente não existia no sistema. Este é um problema teórico fundamental das diversas perspectivas paradigmáticas alternativas, abrindo-se a ciência à possibilidade da "emergência", no sentido de algo que não estaria contido na síntese dos determinantes em potencial (Morin, 1990). Novamente, tolera-se um paradoxo como parte integrante da lógica científica do novo paradigma: "o novo a partir do existente". A propósito, a questão da descontinuidade tem recebido um tratamento matemático bastante sofisticado através da chamada teoria das catástrofes (Arnold, 1989), elaborada e difundida principalmente por René Thom na década de 80 (Thom, 1985). Essa questão vincula-se estreitamente ao chamado "problema da irreversibilidade", em que a concretude dimensional do tempo é posta em causa.



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