Issn 1519-6178 a arte Semântica dos primórdios do Cristianismo: a Disciplina do Arcano e o Simbolismo Cristão



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Revista Urutágua – revista acadêmica multidisciplinar – http://www.urutagua.uem.br/015/15bilheiro.pdf

Nº 15 – abr./mai./jun./jul. 2008 – Quadrimestral – Maringá – Paraná – Brasil – ISSN 1519-6178


A Arte Semântica dos primórdios do Cristianismo:

a Disciplina do Arcano e o Simbolismo Cristão

Ivan Bilheiro*


Resumo: A arte dos primórdios do Cristianismo, praticada por homens do povo, em sua maioria autodidatas, ou sem qualquer tipo de técnica, cumpria a tarefa, determinada pela Disciplina do Arcano, de não deixar explícita qualquer aparência dos mistérios da religião. Ocultou-se, por trás de símbolos (apropriados e re-significados em muitos casos), a doutrina da nascente religião. A partir daí, o simbolismo, algo extremamente poderoso e útil, em especial à linguagem religiosa, passou a ser largamente utilizado pelos cristãos e muitos dos símbolos utilizados pela Igreja, hoje, são produtos da época das perseguições a estes nos tempos do Império Romano, antes de Constantino e o Édito de Milão de 313.

Palavras-chave: História do cristianismo, arte cristã, arte catacumbária, simbolismo cristão, disciplina do arcano.

Abstract: The art of primordial Christianity, practiced by common people without any kind of technique, went through the rule of Arcane’s discipline, which is to keep the religion mysteries dark. At the beginning, this religion was replaced by symbols (sometimes appropriated and resignified). From this time, the symbolism started to be used by Christians, mainly in religious language. Many of Church symbols used nowadays were produced when persecutions took place, before Constantino and Edito de Milan (313).

Key words: Christianity History, Christian Art, Art from catacombs, Arcane’s discipline.


1) Intróito1

A arte do assim chamado Cristianismo Primitivo é usualmente dividida em duas grandes fases: a Arte Paleocristã ou Catacumbária e a Arte Triunfal (Bizantina no Oriente e Românica no Ocidente) (GAUER & POZENATO, 2006, p. 31). O grande marco divisor entre as duas fases, as quais correspondem, necessariamente, a fases distintas de todo o cenário do Cristianismo, é o Édito de Milão promulgado pelo imperador romano do Ocidente, Constantino, e seu co-imperador do Oriente, Licínio.

O Édito de Milão de 313 d.C. proclamou a liberdade de culto no Império e, conseqüentemente, permitiu que os cristãos saíssem da “clandestinidade”. A partir daí, começou a rápida ascensão da religião cristã até se tornar estatal em 380, com Diocleciano e, depois, chegar a colocar o próprio Estado sob seu jugo (ROUGIER, 1995, p. 80-81).

A liberdade de culto iniciou o triunfo do Cristianismo. No entanto, houve um período anterior a este acontecimento, no qual os cristãos sofreram variadas e violentas perseguições, das quais pode-se destacar, para exemplo, as ações do imperador Nero.

Foi neste contexto de perseguição e “clandestinidade” que teve início o desenvolvimento da Arte Cristã.

O presente trabalho trata especificamente do período da arte cristã encontrada no Império Romano anterior ao Édito de Milão, ou seja, a Arte Paleocristã; e da característica semântica2 (simbólica) desta arte, oriunda de um contexto que gerava necessidades peculiares, justamente o que propiciou o início da prática da Disciplina do Arcano, também tratada aqui.



2) Contexto

Para compreender a arte praticada e desenvolvida pelos primeiros núcleos de cristãos, é preciso compreender também o contexto no qual esta se manifestou.

A Arte Paleocristã desenvolveu-se, especialmente, dentro do Império Romano. No período deste início das práticas cristãs, no que tange ao campo artístico, havia uma relativa tolerância para com todas as religiões que se mostravam presentes dentro do vasto Império. Entretanto, havia um culto oficial voltado ao imperador, o qual deveria ser seguido por todos. “O culto imperial era o equivalente do juramento cívico, da saudação à bandeira” (Ibid, p. 86).

Os cristãos enxergavam neste culto imperial uma apostasia, uma prática errônea, e, portanto, negavam-se a seguí-lo. O Império Romano colocou-se, portanto, como perseguidor dos cristãos, e estes se viram obrigados a colocar suas práticas na “clandestinidade”. É necessário salientar que não só a “desobediência civil”, ou seja, a negação do culto imperial padrão, fez com que o Império se voltasse contra os cristãos. Trata-se, na verdade, de uma série de fatores, que inclui a pressão da opinião pública que, em geral, tinha completa ignorância a respeito das práticas usuais dos cristãos e os atacava veementemente por vários crimes e delitos. Também alguns imperadores colocaram sobre os cristãos a culpa por alguns fatos esporádicos, até de ordem natural. “Nas palavras de Tertuliano: ‘se o Tibre atinge as muralhas, se o Nilo não consegue subir até os campos, se o céu não se move ou se a terra o faz, se há fome ou peste, o clamor é um só: ‘aos leões os cristãos!’’” (JOHNSON, 2001, p. 87-88).

Muitos cristãos se tornaram mártires, neste período, por fazerem oposição à submissão de sua religião ao Império e/ou ao culto imperial. Visando evitar profanação dos túmulos, estes mártires, bem como os demais falecidos cristãos (cronologicamente, em fase posterior) passaram a ser sepultados em cemitérios subterrâneos, as chamadas catacumbas.

Estes sepulcros subterrâneos, que objetivavam inumar os cristãos, constituíram, justamente, o ponto de nascimento da Arte Cristã. Por tal motivo, a Arte Paleocristã é, também, chamada de Arte Catacumbária.

Faz-se mister ressaltar que, “antes de Constantino, Roma ainda não era o centro oficial da fé; comunidades cristãs maiores e mais antigas existiam [...] e provavelmente tinham suas próprias tradições artísticas” (JANSON & JANSON, 1996, p. 89). Porém, as fontes sobre tais comunidades cristãs são extremamente escassas e, para se tratar da Arte Paleocristã, quase inexistentes. Excetua-se Roma que, por certos motivos, manteve intactas algumas catacumbas e algumas outras pouco danificadas.

3) Arte Catacumbária

Do ponto de vista econômico, os cristãos dos anos anteriores ao imperador Constantino3 não eram abastados. Muito ao contrário, eram muitas vezes pobres (tal fato remete à característica inicial do Cristianismo de atrair a grande parcela da população de poucos recursos financeiros; e é este um dos fatores que permitiu a expansão e, mais tarde, o triunfo da religião).

Este atributo dos primeiros cristãos é importantíssimo para o estudo da arte do período: justamente por tal situação de poucos recursos, “[...] essa arte cristã primitiva não era executada por grandes artistas, mas por homens do povo, convertidos à nova religião. Daí sua forma rude, às vezes grosseira, mas, sobretudo, muito simples” (PROENÇA, 1999, p. 45).

Partindo desta característica inicial, é inevitável não fazer uma observação e uma reflexão de importância considerável: a princípio, a Arte Cristã foi praticada por homens do povo, pobres, sem domínio técnico. Vista sob certos aspectos, era realmente “[...] uma arte pobre, pela própria situação de vida dos cristãos” (GAUER & POZENATO, 1996, p. 32)4. Contudo, assim como a própria religião que, ao mostrar seu poder e seu potencial, foi incorporada pelos poderosos do Império, sua arte também o foi. O que, a princípio, foi uma arte tosca, praticada sem técnicas por homens simples, acabou se tornando um estilo elaborado e próprio à época da ascensão do Cristianismo, e, obviamente, passou a ser executada por técnicos e artistas importantes e, por vezes, de renome. A arte cristã deixou de ser, após o triunfo da religião, arte do povo – o que a tornava peculiar em relação às demais. Houve uma forte mudança, e por isso existe a divisão já citada entre Arte Catacumbária e Arte Triunfal.

Contrariamente ao que se pensa usualmente, as catacumbas não serviam de locais de culto para os cristãos. Eram elas utilizadas, somente, para sepultamento dos mártires e dos fiéis comuns, ou seja, constituíam somente cemitérios subterrâneos, e não locais de reunião. As investigações arqueológicas mostraram que os cultos eram praticados em residências, tanto em Roma quanto em outras cidades.

São características da arte do período não só a pintura e a escultura, mas também a música e a poesia. “A música não utilizava [...] nenhum instrumento musical, porque os instrumentos estavam, no conceito cristão, ligados às orgias romanas. Os cantos realizados nos cultos eram [...] a uma só voz (monódicos), de estrutura musical simples e austera” (Ibid., p. 33).

A escultura e a pintura – mais essa que aquela – eram mais largamente utilizadas. Serviram, inicialmente, para adornar os sepulcros exclusivos aos mártires da religião, estendendo-se depois para os demais túmulos cristãos.

A pintura era “[...] mural, ornamental e figurativa, em afresco. [...] A escultura, mais rara do que a pintura, aparece em túmulos e sarcófagos, quase sempre em baixo-relevo [...]” (Ibid., p. 32).



4) Disciplina do Arcano e Simbolismo

Como já mostrado, “a primeira manifestação da arte cristã está ligada à decoração dos cemitérios subterrâneos” (MONTERADO, 1968, p. 65).

Além das já expostas peculiaridades da arte cristã inicial, de técnica, de aplicação, de local, de produtores e alvos da arte, etc; o contexto do Império Romano e das condições de vida dos primeiros cristãos contribuiu para que um novo elemento surgisse: a Disciplina do Arcano. “No primeiro século, os sepulcros são ainda particulares, privados, e a decoração é geométrica, enriquecendo-se com elementos tirados da flora e da fauna, segundo o tipo pagão” (Ibid., p. 65).

A influência do paganismo, neste início, é tida como inevitável, visto que era esta a idéia arraigada na consciência coletiva, incluindo-se aí os cristãos. Também, é preciso dizer, algumas obras eram executadas por “pessoas de fora” (pagãos), e os temas do paganismo apareciam para evitar que recaíssem suspeitas sobre aqueles que solicitavam o serviço.

“Os artistas recorriam [...] a motivos pagãos, dando-lhes, no entanto, uma interpretação cristã” (MAHLER; UPJOHN; WINGERT, 1974, p. 92). Conforme se vê, o cristianismo foi (e ainda é) “[...] uma religião que conseguiu incorporar elementos oriundos de uma variedade de fontes [...]” (BATTISTONI FILHO, 1989, p. 43).

“No segundo século, quando as catacumbas se tornam cemitérios comuns, entra o simbolismo, prevalecendo a disciplina do arcano que proibia, rigorosamente, representar os mistérios da religião, por medo de profanação” (MONTERADO, 1968, p. 65 – Grifo do autor).

A partir do segundo século, portanto, a arte cristã passou a ser composta, principalmente, por simbolismo. Em síntese, tornou-se uma arte semântica.

O surgimento da Disciplina do Arcano – regra não expressa, mas difundida de não retratar, explicitamente, mistérios da religião para evitar reconhecimento pelos leigos – refletia o contexto das seguidas perseguições aos cristãos: era preciso que a religião não ficasse discriminável nas obras, que estas só pudessem ser percebidas e interpretadas por iniciados, por integrantes da religião.

Assim, a arte cristã voltou-se para a representação de símbolos. Até mesmo as simples estruturas geométricas, mais largamente utilizadas no século I, foram reinterpretadas a fim de cumprir um novo papel.

O simbolismo deu, logicamente, grande força ao Cristianismo. Ao mesmo tempo em que protegia os cultos e a expressão dos fiéis, auxiliava na representação e na compreensão de conceitos religiosos: “A idéia de Deus não pode ser expressa por um quadro; não pode ser plenamente expressa nem mesmo em palavras; o símbolo é um meio de transmitir uma idéia demasiado tremenda para a expressão humana” (ANSON & CONALY, 1969, p. 1104). “Um dos aspectos mais importantes dessa iconografia diz respeito aos fenômenos sincréticos de transposição de temas não-cristãos em temas cristãos.” (ALET, 1994, p. 51)

Houve, então, um processo de mistura de elementos diversos e de variadas fontes. Imagens simples que muitas vezes somente adornavam obras foram re-significadas, bem como imagens dos cultos pagãos e outras imagens de elementos simples da vida cotidiana.

Contrariamente à arte usual (e ao conceito que se faz desta), a arte cristã do período das perseguições passou a ser criada a fim de ter conceitos embutidos, significado interno de coisas e/ou idéias exteriores.

Assim, por exemplo, a simples forma geométrica do círculo passou a representar Jesus Cristo, e quando vinha este símbolo sobre uma cruz, significava a crucificação (considerado o fato de que as cruzes eram, geralmente, evitadas, por serem um símbolo bem óbvio da perseguida religião), e, nesse caso, nota-se o sincretismo simbólico com o Deus-sol do paganismo; ou o mesmo símbolo podia servir para representar a eternidade de Deus.

Muitos outros símbolos foram sendo criados, como o peixe, que representava, também, Jesus. Este símbolo foi escolhido porque, em grego, a palavra peixe forma um acróstico das iniciais de “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”, também em grego. O símbolo do peixe também era utilizado para reconhecimento mútuo entre os cristãos.

A renovação da força do Cristianismo propiciada pelo simbolismo nascente foi um dos elementos constituintes das bases que asseguraram o triunfo da religião pós-Constantino.

As catacumbas deixaram de ser usadas somente no século V, ainda que já houvesse liberdade de culto no Império, extensiva ao Cristianismo, bem como esta religião já fosse estatal. Já o simbolismo não foi totalmente suprimido, embora tenha perdido a força que o fez nascer por conta da liberdade de culto e tenha diminuído em muito, dando lugar às representações menos misteriosas, geralmente de passagens bíblicas.



5) Considerações finais

Como se pode notar, a perseguição aos cristãos fez nascer uma das armas utilizadas por eles para propagação da fé. A Disciplina do Arcano deu origem ao simbolismo da religião cristã, o qual é utilizado até os dias atuais.

O estudo da arte deste período permite observar o dinamismo da Igreja, quando ainda embriônica, e a capacidade de adaptação, não só da instituição em si, mas também dos fiéis.

As apropriações e re-significações de temas pagãos e laicos são provas disso, bem como a capacidade criativa de escapar da perseguição ao culto quando ainda se mantinha à margem da sociedade romana.

Todo esse cenário que permitiu o aparecimento da Disciplina do Arcano e do conseqüente e inevitável simbolismo cristão foram, sem dúvida, fundamentais na história da Igreja, para que esta pudesse se tornar uma das instituições mais bem sucedidas na história da humanidade.

A força de comunicação dos símbolos é inquestionável e adaptou-se muito bem à linguagem religiosa (ou esta adaptou-se muito bem à linguagem dos símbolos), e a junção das duas permitiu, em aliança com outros fatores, a construção da base de uma das instituições mais bem sucedidas na história da humanidade.



Referências

ALET, Xavier Barral I. História da arte. 2 ed. Campinas: Papirus, 1994.

ANSON, Peter F. & CONALY, Iris. A arte na igreja. Rio de Janeiro: Renes, 1969.

BATTISTONI FILHO, Duílio. Pequena história da arte. 9 ed. São Paulo: Papirus, 1989.

GAUER, Mauriem & POZENATO, Kenia. Introdução à história da arte. 3 ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1998.

JANSON, Anthony F. & JANSON, H. W. Iniciação à história da arte. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

JOHNSON, Paul. História do cristianismo. Rio de Janeiro: Imago, 2001.

MAHLER, Jane Gaston; UPJOHN, Everard M.; WINGERT, Paul S. História mundial da arte: dos etruscos ao fim da idade média. v. 2. São Paulo: Difel; Círculo do Livro, 1974.

MONTERADO, Lucas de. História da arte. São Paulo: São Paulo, 1968.

PROENÇA, Graça. História da arte. São Paulo: Ática, 1999.



ROUGIER, Louis. O conflito entre o cristianismo primitivo e a civilização antiga. Lisboa: Vega, 1995.

Referências eletrônicas


Arte Crsitã Primitiva. Disponível em: <http://www.brasilescola.com/historiag/arte-crista.htm>. Acesso em: 29 out. 2007.

Símbolos litúrgicos. Disponível em: <http://www.ielb.org.br/recursos/rec_liturgia/Simbolos>. Acesso em: 29 out. 2007.

* Graduando em História pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora - MG. Email: ivanbilheiro@bol.com.br

1 Além de significar introdução ou início, a palavra “intróito” designa também a primeira oração da missa católica, aquela que inicia o culto.

2 Utiliza-se a expressão “Arte semântica” para fazer referência a uma arte embasada na significação, na interpretação do que é retratado, fazendo ligação a algo exterior à arte propriamente dita e o que nela está explícito.

3 Aqui e em outras passagens, a referência a Constantino não remonta exatamente à pessoa do imperador, mas ao período de seu governo, contemporâneo ao de Licínio no Oriente, o qual representou a etapa de mudança de pensamento e de ação, do Estado, em relação à crescente religião cristã.

4 “Sob certos aspectos” fazendo referência ao campo artístico e restringindo a ele. Considerando-se a força da expressão “arte pobre” utilizada, do ponto de vista antropológico poderia ser uma visão etnocêntrica. No entanto, consideradas as técnicas e o percurso de evolução destas na arte, os autores citados acabam por utilizar a expressão “arte pobre”. Deve-se, conforme visto, manter o foco no campo da arte.





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