IV. jornadas de historias de vida en educacióN



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IV. JORNADAS DE HISTORIAS DE VIDA EN EDUCACIÓN

El papel de la investigación biográfico-narrativa en la formación inicial y permanente del profesorado



http://historiasdevida2013.wordpress.com/


NARRATIVAS AUTOBIOGRÁFICAS - METODOLOGIA E PRÁTICAS DE FORMAÇÃO

Mônica Maria Gadêlha Gaspar (Universidade de Pernambuco - UPE), A Fátima Pereira (Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Porto - FPCEUP** e Maria da Conceição Passeggi (Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN)***

monicaggaspar@gamil.com*, e-mail: fpereira@fpce.up.pt ** e mariapasseggi@gmail.com ***



Temática: El relato colectivo: reelaboración de los relatos, reflexionando entre todos.

INTRODUCÃO

Este texto apresenta no âmbito da formação profissional de um Programa de Formação de Professores, uma reflexão sobre as narrativas autobiográficas como método de pesquisa e formação para compreender o acompanhamento da escrita do memorial de formação, enquanto exigência para conclusão do curso de Pedagogia. Este trabalho, situado na perspectiva da pesquisa-ação-formação, faz parte da investigação em desenvolvimento, no Programa de Pós-graduação em Educação – doutorado – da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, na cidade de Natal, Brasil.

Compreendemos narrativas autobiográficas como espaço de reflexão sobre si. Esta escrita remete o sujeito para uma dimensão de "auto-escuta de si mesmo, como se estivesse contando para si próprio suas experiências e aprendizagens que construiu ao longo da vida, através do conhecimento de si" (Souza, 2004, p. 75).

Dessa forma, a opção metodológica da autobiografia justifica-se por propiciar um olhar a partir da experiência dos sujeitos de debruçarem-se sobre seus processos formativos, em um ato contínuo de lembrar e esquecer, selecionar e expor o que expressa suas aprendizagens.


A partir deste olhar pretendemos, nesse texto, refletir sobre: (1) as narrativas autobiográficas como espaço de formação e metodologia de pesquisa, com os gêneros textuais, (1.1) memorial de formação na discussão com o grupo reflexivo1, um diálogo entre aqueles que narram e aqueles que escutam e (1.2) o diário de acompanhamento e o ensaio autobiográfico, produzidos pelas professoras-formadoras ao refletirem sobre sua formação e prática docente.


1.NARRATIVAS AUTOBIOGRÁFICAS - REFLEXÕES TEÓRICO-METODOLÓGICAS

Nos anos de 1990, as pesquisas acadêmicas têm considerado as memórias, lembranças, relatos de vida, biografias, histórias de vida, narrativas memorialísticas e os ensaios autobiográficos como algo importante, com enfoque científico2. Evidenciam-se assim, uma visão de pesquisa centrada no sujeito enquanto produtor de conhecimento (André, 2006).

Tomar as narrativas autobiográficas como corpus/objetos de investigação é compreender que a narrativa é uma forma pela qual os seres humanos experimentam o mundo. Aqui, narrativa é a forma através da qual o sujeito é capaz de significar sua existência narrativamente, de forma simbólica, a partir da ordenação dos fatos experienciados, pois “[...] as formas simbólicas são processos culturais que articulam toda a experiência.” (Ricoeur, 1994, p. 92).

As narrativas autobiográficas possibilitam o ato de reflexão do eu: ator, narrador e espectador de experiências que permitem momentos para além da mera observação, interpretando e interagindo com sujeitos de diferentes espaço-tempo.

Nesse processo, o método autobiográfico toma corpo e distingue-se por ser uma metodologia baseada na narração em que situa a própria história do sujeito, “tratando-se de uma metodologia de pesquisa e de formação orientada por um projeto de conhecimento coletivo e individual, associado a um processo de formação existencialmente individualizado” (Josso 2004, p.85). O método autobiográfico reconhece tanto os saberes formais externos aos sujeitos, quanto os saberes subjetivos e não formalizados que as pessoas transportam consigo, os quais são tecidos nas suas experiências de vida em diferentes contextos socioculturais (Delory-Momberger, 2008).

Compartilhamos com a ideia de Nóvoa e Finger (2010), ao afirmarem que uma das principais qualidades do método (auto)biográfico está em conceder uma atenção particular aos sujeitos e, assim, o respeito pelos seus processos pessoais que os formam.

Nesse sentido, as narrativas autobiográficas que configuram os gêneros memorial de formação, diário de acompanhamento e ensaio autobiográfico expressam através da voz de ambos os sujeitos desta investigação - professoras-formadoras3 e alunas-formandas4 - a reflexão sobre si, o outro e seus processos formativos.

1.1. MEMORIAL DE FORMAÇÃO5 - ESPAÇO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL

Há muitas designações para o memorial como documento institucional. Segundo Passeggi (2010), entre as mais utilizadas, encontramos memorial, memorial descritivo, memorial reflexivo, memorial acadêmico, memorial de formação (escolar, social). O termo memorial autobiográfico é adotado com intuito de diferenciá-lo das demais denominações encontradas. Segundo a autora, o memorial autobiográfico "é uma escrita institucional na qual a pessoa que escreve faz uma reflexão crítica sobre os fatos que marcaram sua formação intelectual e/ou sua trajetória profissional, com o objetivo de situar-se no momento atual de sua carreira e projetar-se em devir" (2010, p. 21).

Para Passeggi (2010), há duas modalidades de memorial. Memorial acadêmico – escrita reflexiva de professores e/ou pesquisadores do ensino superior sobre sua trajetória intelectual e profissional seja para concurso público, progressão funcional. O memorial de formação resulta do memorial acadêmico (Passeggi, 2006), assim como o acadêmico, é uma escrita reflexiva. Diferencia-se por ser uma narrativa escrita, geralmente, durante o processo de formação inicial ou continuada, acompanhada por um professor formador, como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).

Ao adotarmos o gênero memorial de formação na nossa pesquisa, estamos priorizando investigar o seu processo de escrita para compreendermos o papel do professor-formador com o aluno que escreve esta narrativa autobiográfica, entendida como espaço de formação mútua entre aquele que escreve e aquele que acompanha.

O memorial é um gênero discursivo submetido às variações sócio-históricas. Por isso, o ato de biografar é estabelecido por uma questão mais coletiva que individual pois essa escrita não pertence efetivamente a quem narra, ela se constitui de "formas coletivas que refletem e condicionam, ao mesmo tempo, as relações que os indivíduos mantêm com a coletividade e com eles mesmos, em determinada época e no seio de uma cultura" (Delory-Momberger, 2011, p. 335).

No momento da escrita, o narrador se torna personagem de sua história. Ao narrar sobre sua vida profissional cujos personagens são os outros, o narrador, coloca-se na condição de personagem em sua narração. Esses dois papéis (personagem e narrador/autor) não entram em conflito, eles dialogam constantemente, e nesse diálogo, o narrador se percebe "numa coletividade: na família, na nação, na humanidade culta; aqui a posição axiológica do outro em mim tem autoridade e ele pode narrar minha vida com minha plena concordância com ele (Bakhtin, 2010, p. 140).

Ao escreverem seu memorial, as alunas-formadas assumiram dois papéis, de narrador e de leitor, pois a todo instante houve o deslocamento do narrador que escreve para o leitor do próprio texto. Nesse sentido, “O narrador assume o papel de analista do já escrito é o que permite, por assim dizer, o controle de qualidade, do ponto de vista do conteúdo da forma. Aquele que escreve tem de ser, quase ao mesmo tempo, autor, leitor e revisor” (Prado & Soligo, 2007, p. 34).

Diante dessa dimensão complexa de escrita, em que aflora a subjetividade do sujeito, as professoras-formadoras que acompanham não ficam imunes a este processo de formação, são elas que caminham com o narrador (suas alunas) e, neste caminhar, questionam e refletem sobre sua prática e sua formação.

1.2 DIÁRIO DE ACOMPANHAMENTO E ENSAIO AUTOBIOGRÁFICO - REFLEXÕES SOBRE A PRÁTICA E A FORMAÇÃO DOCENTE

A narrativa do diário e do ensaio traz a liberdade do "eu" para narrar os fatos experienciados pelo narrador, no nosso caso, as professoras-formadoras. Há uma dupla vertente que se caracteriza pela liberdade de expressão - o caráter sigiloso e pessoal, e ao mesmo tempo, funciona como um refletir sobre si.

Consideramos a escrita desses gêneros como uma ferramenta social, pois enquanto testemunhos autobiográficos trazem os laços e os nós individuais e, ao mesmo tempo coletivos, visto que somos seres relacionais, como nos afirma Josso (2012). Diferentemente do memorial de formação que segue normas estabelecidas pela instituição de ensino superior e é acompanhado por um professor formador, o diário de acompanhamento e o ensaio autobiográfico produzidos pelas professoras-formadoras objetivam a reflexão sobre a sua prática docente e sua formação.

Escritos à mão em um caderno escolhido para esse fim, capa colorida aspirada, dura. A dureza encontra-se só na parte externa do caderno, pois ele compõe os relatos de uma prática prazerosa, inquietante, complexa, formativa. Nele encontramos uma escrita sobre si mesmo para si mesmo, um momento de intimidade, com relatos de situações muitas vezes questionadoras de um fazer pedagógico, momentos lembrados para pontuar o como proceder em sua prática. Este é o diário do acompanhamento das professoras-formadoras.

Ao escreverem em seu diário, elas refletem sobre suas práticas, apontando para uma potencial desconstrução e reconstrução das próprias experiências. Nos diários, as narrativas trazem traços singulares de como foram representadas as vivências no acompanhamento da escrita do memorial com questões práticas, mas, também, questões subjetivas em que emergiram sentimentos, emoções.

Companheiro nas horas de intimidade e confidente fiel das angústias e inquietações das professoras-formadoras, o diário traduziu-se como um espaço de criação discursiva que se constituiu no modo de se conhecer e, assim, se inventarem pelas práticas dessa escrita, partilhando esse momento de sensibilidade com si mesmo, com o outro e com suas alunas, mesmo na ausência e com suas histórias ainda fragmentadas pelo texto em produção. E é assim, entre o narrar sobre si, no pensar sobre a sua prática que o diário foi um instrumento valioso para nossa investigação.

Diferentemente do diário que centrou no acompanhamento da escrita das alunas, o ensaio trouxe o "eu", professora- formadora. O termo ensaio foi entendido como aventurar-se a escrever. Nessa escrita, o autor coloca-se como um elemento subjetivo, mas, nem por isso, “revelador absoluto de um sujeito”, pois estamos a cada dia experienciando e reavaliando nossos conceitos, nossa forma de ver e estar no mundo, o que transforma o ensaio em um ponto no qual “a subjetividade ensaia a si mesma” (Larrosa, 2004, p. 37).

É nessa perspectiva de dar-se a ver que essa escrita possibilitou às professoras-formadoras ensaiar sobre si, falando e experienciando-se enquanto atoras/autoras de sua formação.

Ao ensaiar-se biografando-se, as professoras reviveram em suas lembranças os cenários, os autores principais e os coadjuvantes que fizeram parte de sua história de formação profissional, entrelaçada pela sua história de vida. As influências formadoras da família, da escola, das vivências quotidianas com o grupo de pertença foram revividas nesse narrar-se. Amores e dissabores de uma escolha profissional; a voz emudecida pelo tempo vem com força quase como um grito na busca de reconhecimento profissional e, mais além, de sujeito não passivo, reprodutor, mas de construtor de conhecimento.



CONCLUSÕES EM ANDAMENTO

Dessa forma, as narrativas autobiográficas dos gêneros textuais apontados: memorial de formação, diário de acompanhamento e ensaio autobiográfico trazem evidências de que escrever sobre si e sobre a formação é um processo que se faz em três dimensões: autoformação, heteroformação e ecoformação (Pineau, 2005). Nelas podemos explorar as possibilidades de reflexões que o professor nem sempre coloca ao seu dispor para pensar acerca de sua formação e reconstruir seus modos de ser e fazer na prática docente. A partir delas, é ainda possível teorizar aspectos de suas ações cotidianas com um olhar reflexivo.

Acreditamos nas mudanças que a escrita dessas narrativas provoca à medida que busca compreender o si mesmo e o outro e o seu fazer docente. E nesse exercício reflexivo produz conhecimento individual e coletivo. Importante é salientar, ainda, que o distanciamento que se realiza na narração se faz pelo movimento de reflexão de quem narra e de quem acompanha, e que esse movimento, ao mesmo tempo heurístico e hermenêutico, fundamenta a teorização da prática alicerçada na experiência.

REFERÊNCIAS

André, M. (2006). Pesquisa em Educação: Trajetórias e desafios contemporâneos. In:

Ibiapina, M. I. L. de M.; Carvalho, M. V. C. de. Educação, práticas socioeducativas e formação de professores. Teresina: EDUFPI.

Bakhtin, M. (2010). Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes.

Delory-Momberger, C. (2008). Biografia e Educação: figuras do indivíduo-projeto. Tradução Maria da Conceição Passeggi. Natal, RN: EDURN; São Paulo: Paulus.

Delory-Momberger, C. (2011). Fundamentos Epistemológicos da Pesquisa Biográfica em Educação. Educação em Revista, Belo Horizonte, v.27 (01), 333-346.

Josso, M. C. (2004). Experiências de vida e formação. Tradução: José Claudino e Júlia Ferreira. São Paulo: Cortez

Josso, M. C. (2012). Fecundação mútua de metodologias e de saberes em pesquisa-formação experiencial. Observações fenomenológicas de figuras do acompanhamento e novas conceituações. In: Abrahão, Maria Helena Menna Barreto; Passeggi, Maria da Conceição (Orgs). Dimensões epistemológicas e metodológicas da pesquisa (auto)biográfica. TII. Porto Alegre: EDIPUCRS; Natal: EDUFRN (pp. 113-146).

Larrosa, J. (2004). .A Operação Ensaio: sobre o ensaiar e o ensaiar-se no pensamento, na escrita e na vida. In: Dossiê Michael Foucault. Educação e Sociedade, Porto Alegre, v. 29 (1), 27-43.

Nóvoa, A (org.) (1992). Os professores e sua formação. Lisboa: Dom Quixote.

Novoa, A. & Finger, M. (Org.). (2010). O método (auto)biográfico e a formação. Natal, RN: EDUFRN; São Paulo: Paulus.

Passeggi, M. C. (2006). A formação do formador na abordagem autobiográfica. A experiência dos memoriais de formação. In: SOUZA, Elizeu Clementino; Abrahão, Maria Helena Menna Barreto (Org.). Tempos, narrativas e ficções: a invenção de si. Porto Alegre: EDIPURS; Salvador: EDUNEB (pp. 203-218).

Passeggi, M. C. (2008). Mediação Biográfica: figuras antropológicas do narrador e do formador.In M. C. Passeggi (Org.). Memórias, memoriais: Pesquisa e Formação docentes Natal, RN:EDUFRN; São Paulo: Paulus (pp. 43-58).

Passeggi, M. C. (2010). Memoriais autobiográficos: escritas de si como arte de (re) conhecimento. In: Memoriais, literatura e práticas culturais de leitura. VERBENA, M. R.C. & SOUZA, E. C.(orgs.). Salvador: EDUFBA (pp. 19 - 42).

Pineau, G. (2005). Emergência de um paradigma antropoformador de pesquisa-açãoformação transdisciplinar. Saúde e Sociedade, v.14 ( n.3), 102-110.

Prado, G.V.T & Soligo, R. (2007). Memorial de formação – quando as memórias narram a história da formação. In: PRADO, G.V.T.(org.) Porque escrever é fazer história. Revelações Subversões Superações. Campinas: FE.(pp. 47-62).

Ricoeur, P. (1994). Tempo e Narrativa. Tradução: Constança Marcondes César. Campinas: Papirus, Tomo I.

Souza, E. C. (2004). Narrativas de si - narrativas do itinerário escolar e de formação de professores. Tese (Doutorado). Universidade Federal da Bahia - Faculdade de Educação, Brasil.



 Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

1 Cf: Segundo Passeggi (2008, p.44), o grupo reflexivo se caracteriza por ser um "grupo de pessoas que reconhecem o seu engajamento num projeto comum de pesquisa-formação através da prática de narrativas autobiográficas".

2 Cf: Nóvoa, A. (org.) Os professores e sua formação. Lisboa: Dom Quixote, 1992.

3 Professora-formadora - identificação da professora que acompanha a escrita do memorial de formação das alunas-formandas, como trabalho de conclusão de curso (TCC). Desta pesquisa fizeram parte duas professoras-formadoras.

4 Aluna-formanda - identificação das alunas que escrevem o memorial como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). O Grupo Reflexivo foi composto por sete alunas-formandas.

5 Essa temática é bastante investigada no Grupo Interdisciplinar de Pesquisa, Formação, AutoBiografia e Re-presentações – UFRN/CNPq. coordenado pela Dra Maria da Conceição Passeggi.


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