Ivan Pavlov: a psicopatologia Clínica Russa Adalberto Tripicchio md phd resumo



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Ivan Pavlov: A Psicopatologia Clínica Russa

Adalberto Tripicchio MD PhD

Resumo

A atividade do córtex cerebral é reflexa. O reflexo é uma propriedade de todo o Sistema Nervoso Central. O reflexo condicionado é a unidade elementar de toda a dinâmica cerebral e a palavra o principal instrumento desta dinâmica.

A palavra - "Sinal dos Sinais" - possibilita a abstração e se presta à generalização, propriedade específica do pensamento humano e base de toda Ciência.

Graças à força deste instrumento de comunicação, surgiu a psicoterapia, ou terapia verbal que tem a capacidade de corrigir pensamentos, emoções e comportamentos inadequados, desde que usado com boa técnica e conhecimento de causa.

A psicoterapia é agente indispensável no tratamento dos distúrbios funcionais da Atividade Nervosa Superior, no tratamento das neuroses, segundo a nomenclatura tradicional.

Neste momento em que as teorias subjetivas ainda têm grande influência no cenário da Psicopatologia Ocidental e, em particular, da brasileira, é importante tirarmos Ivan P. Pavlov (1849-1936) do esquecimento. E nos reportarmos às suas descobertas no campo da fisiologia da Atividade Nervosa Superior, sem nenhuma dúvida, de grande importância para a psicopatologia clínico-biológica.

Pavlov descobriu os reflexos condicionados observando que os cães de laboratório salivavam ao ouvir os passos dos empregados encarregados de sua alimentação. A princípio não entendeu o fenômeno. Como explicar a salivação como resposta a um estímulo auditivo? Naquela época já era bem conhecido dos fisiologistas o reflexo.

Já se sabia como o mesmo se faz através de uma via nervosa centrípeta que leva o estímulo do órgão sensitivo para o Sistema Nervoso Central, de sua transformação nessa região e de uma resposta motora ou secretora que chega ao órgão efetor - glândula ou músculo - através das vias nervosas centrífugas ou eferentes. A princípio ele denominou o fato como "secreção psíquica salivar", expressão que na verdade não trazia nenhum esclarecimento. Pouco tempo depois abandonou este conceito e passou a investigar o fenômeno em seu laboratório com trabalhos experimentais que culminaram com a descoberta do reflexo condicionado - unidade funcional dos grandes hemisférios cerebrais - cuja atividade é infinitamente complexa.

Em 1897 Pavlov termina sua obra "Lições sobre o Trabalho das Principais Glândulas Digestivas", que lhe deu o Prêmio Nobel em 1904. Mais tarde, em 1927, publica o livro "Lições sobre o Trabalho dos Grandes Hemisférios Cerebrais" que o imortalizou.

Para Pavlov o reflexo é a base fisiológica da adaptação. Ele divide os reflexos em dois tipos: os incondicionados e os condicionados. São incondicionados os reflexos alimentar, de defesa, de investigação, de liberação e sexual. Eles são inatos, filogenéticos, necessitam de vias de condução e são estáveis ou permanentes. O instinto é considerado como uma série de reflexos em que a resposta de um é o estímulo do subseqüente.

Por exemplo, se um gato é jogado de certa altura cai sempre de pé. A mudança de posição dos canais semicirculares no espaço provoca uma contração reflexa dos músculos do pescoço que restabelece a posição da cabeça do animal à normal em relação ao horizonte. Este é o primeiro reflexo. A posição do pescoço se converte por sua vez no estímulo de outro reflexo que ativa os músculos do corpo e das extremidades. É assim também que uma série de reações em cadeia permite a posição de pé, a marcha e o equilíbrio.

Os reflexos condicionados

Ao contrário dos anteriores, os reflexos condicionados são adquiridos, não são estáveis, mas temporários, são ocasionais e ontogênicos.

Os arcos reflexos se processam em dois planos; os arcos inferiores passam pelo plano dos centros nervosos "subcorticais" do cérebro, e os arcos superiores, através do córtex dos hemisférios. Os elementos corticais destes arcos equivalem à representação cortical dos reflexos incondicionados. Ao atuarem separadamente sobre o organismo o estímulo visual e o alimentar cada um dos arcos de dois planos destes diferentes reflexos será excitado isoladamente, originando-se também separadamente, os dois reflexos mencionados.

Quando estes mesmos estímulos atuam sobre o organismo simultaneamente, e põem em estado de excitação seus arcos reflexos, entre os elementos corticais excitados destes diferentes reflexos incondicionados se produz uma conexão condicionada mediante o surgimento de novas vias em conseqüência do encontro da irradiação das ondas de excitação de ambas as vias corticais bem como resultado da atração exercida pelo ponto mais intensamente excitado, o alimentar que é dominante, sobre os impulsos do outro ponto mais fracamente excitado. A ponte que se estabelece entre os dois pontos corticais mencionados pode estender-se através da massa do córtex ou através da substância branca subcortical. A repetição da combinação de ambos os estímulos conduz à consolidação da conexão criada e a formação do arco reflexo condicionado.

Desta maneira, mediante o estabelecimento de uma conexão entre as representações corticais de dois reflexos incondicionados se forma um arco de um reflexo de nova qualidade, e de um tipo mais elevado - o reflexo condicionado.

Do exposto se deduz que o reflexo condicionado por seu papel fisiológico e por sua importância é como um meio para a regulação cortical ou para a generalização superior (integração superior) das funções do organismo. Com a formação de cada novo reflexo condicionado, o córtex amplia cada vez mais o campo de sintetização, das complexíssimas funções do organismo e estende os limites de seu poder sobre estas funções. Em resumo, resulta que "este segmento superior mantém sob sua direção todos os fenômenos que se operam no corpo"

Pavlov com suas investigações estabeleceu solidamente o postulado fundamental para toda fisiologia, que a formação dos reflexos condicionados de diferentes graus e na natureza é uma das funções essenciais dos hemisférios cerebrais e que estes reflexos, como atos psíquicos elementares, constituem em seu conjunto a função básica da atividade nervosa superior ou psíquica. "De tal forma - ­escrevia Pavlov - com o fato do reflexo condicionado se põe nas mãos do fisiologista uma enorme parte da Atividade Nervosa Superior e, possivelmente, toda".

Em seu laboratório fez a seguinte experiência clássica:

Campainha - - - alimento - - - salivação.

A experiência é repetida várias vezes até se formar o reflexo condicionado:

Campainha - - - salivação.

Uma vez bem consolidado este reflexo, pode-se fazer anteceder ao estímulo sonoro, por exemplo, a luz de uma lâmpada:

Luz - - - campainha - - - salivação.

Depois de algumas repetições, será suficiente a luz da lâmpada para provocar a resposta salivar:

Luz - - - salivação.

Este é um reflexo condicionado de segundo grau e o anterior de primeiro grau. Os animais, normalmente, só conseguem estabelecer conexões até de segundo grau. No ser humano, entretanto, não tem limite o número de conexões e este é um dos fundamentos do surgimento da linguagem.

O reflexo condicionado, sendo temporário, necessita ser reforçado periodicamente, pelo estímulo incondicionado, o alimento, no exemplo acima, do contrário ele se inibe e o som da campainha passa a frear a salivação, dá-se a inibição por extinção.



O segundo sistema de sinalização - a palavra

O estímulo de um reflexo condicionado chama-se SINAL, ele sinaliza algo importante do ponto de vista biológico. Existem dois sistemas de sinais; o primeiro comum aos homens e aos animais. É formado por qualquer agente do meio externo, até então indiferente, como som, luz, odor, enfim qualquer mudança no meio ambiente. O segundo, especificamente humano, é constituído pela palavra ouvida, lida ou mesmo pensada.

Pavlov dizia em 1924: "Para o homem a palavra é evidentemente um estímulo condicionado tão real como aqueles que lhe são comuns com os animais, mas, por outro lado, a palavra possui uma extensão, abraça uma multidão de objetos, como nenhum outro estímulo. Neste sentido a palavra não pode comparar-se qualitativa ou quantitativamente com o estímulo condicionado dos animais. Mais adiante ele caracteriza de maneira rigorosa a natureza própria da linguagem como Segundo Sistema de Sinalização: "Se nossas sensações e representações, que se relacionam com o mundo que nos rodeia formam para nós os primeiros sinais da realidade, os sinais concretos, a palavra e, antes de tudo, as excitações sinestésicas que vão desde o órgão da palavra até o córtex cerebral, constituem os segundos sinais, OS SINAIS DOS SINAIS.

Eles representam uma abstração da realidade e se prestam a uma generalização, o que forma precisamente nosso modo de pensamento suplementar, especificamente humano, superior, que cria, primeiramente o empirismo próprio de todos os homens e, por fim a Ciência, instrumento superior que permite ao homem orientar-se no mundo que o rodeia e em si mesmo.

A origem e desenvolvimento das funções da fala contribuíram para a formação da linguagem, que é um dos fatores fundamentais da existência da sociedade. A linguagem, por estar ligada com a atividade complexa chamada pensamento, registra e consolida em palavras e orações, o trabalho do pensamento, o trabalho cognitivo do homem, e desta maneira torna possível o intercâmbio de idéias na sociedade (humana).

A significação complexa, generalizadora e ideativa da palavra é precisamente o que a diferencia qualitativamente não só como estímulo condicionado do Segundo Sistema de Sinalização, e também como unidade estrutural fundamental da linguagem. Nisto reside a força com que a palavra, como estímulo condicionado real, atua sobre os processos da Atividade Nervosa Superior do homem.



A psicoterapia ou terapia verbal

Graças a esta força da palavra ela pode ser usada como instrumento terapêutico, no tratamento dos transtornos funcionais da Atividade Nervosa Superior, provocados pela sobrecarga de suas funções fundamentais, a excitação, a inibição e a mobilidade dessas funções, por agentes reflexo-condicionados patogênicos, os chamados traumas psíquicos. As infecções e intoxicações, os traumas encefálicos e os transtornos da alimentação, entre outros fatores, enfraquecem as estruturas do Sistema Nervoso Central e predispõem o indivíduo aos transtornos denominados pela nomenclatura clássica de neuróticos.

A educação do ser humano, segundo A. Sviadosch, sua experiência vital, seus pontos de vista, seus ideais, sua ideologia, condicionados por influência do meio ambiente, determinam o valor sinal (em relação com ele a importância patogênica) que tem para ele um agente reflexo-condicionado. Contraem neuroses tanto os homens como as mulheres - sendo que estas com mais freqüência, por serem ainda mais discriminadas apesar de todos os progressos de nossa época - e, por isso mesmo, o sexo masculino ainda se destaca em quase todos os ramos da atividade humana, mas é inegável que tem havido grandes avanços sociais neste aspecto.

Hoje é do conhecimento geral que em várias psicopatologias como a depressão, a fobia e os estados obsessivo-compulsivos, há alterações patológicas nos níveis dos neurotransmissores, principalmente da noradrenalina, da dopamina e da serotonina, o que vem estimulando, na prática clínica, o uso cada vez mais freqüente dos antidepressivos de vários tipos, bem como dos ansiolíticos e hipnoindutores, com excelentes resultados. Embora de recente aparição, 1950 para cá, surgiram estes novos recursos terapêuticos que vieram entrar em confronto, por assim dizer, com os métodos de tratamento tradicionais, os quais recorriam quase que exclusivamente à psicoterapia que freqüentemente se prolonga por anos a fio e na maioria das vezes sem resultados efetivos.

Agora corremos o risco de cair no extremo oposto, tentados a tratar estes distúrbios emocionais apenas com aqueles medicamentos. Embora não conheçamos ainda a relação entre os traumas psíquicos e os distúrbios dos neurotransmissores, não se pode negar a ação dos agentes reflexo-condicionados patogênicos, como os infortúnios afetivos familiares, a perda de seres queridos, as ameaças à vida, o temor de perdas materiais, as dificuldades no trabalho, a perda de esperança etc., na etiologia destes distúrbios.

Na psicopatologia pavloviana, tendo em vista o conhecimento da importância da palavra como instrumento da mobilidade cortical, a psicoterapia é usada como estímulo corretivo, modificando idéias errôneas, procurando tranqüilizar, conscientizando, tentando criar novas perspectivas e esperanças, orientando na busca de outro plano de vida, fortalecendo certos processos psíquicos, encorajando o paciente para tomar iniciativas e adquirir novas experiências que poderão ser valiosas e definitivas na sua recuperação.

Certos recursos da psicoterapia comportamental ou da cognitiva coincidem plenamente com as bases da terapia verbal da escola russa.

A psicopatologia clínica hoje, com o advento das descobertas biológicas, é uma especialidade que avança como ciência com resultados jamais sonhados. Agora, somando estas conquistas com as descobertas de Pavlov e de seus colaboradores, quase desconhecidos em nosso meio, estaremos nos libertando definitivamente das raízes filosóficas idealistas dominantes na psicopatologia tradicional e trabalhando para a cura, em número cada vez maior, dos transtornos mentais.



Conclusão

Partindo da definição do reflexo e de sua classificação estudamos a seguir a importância da palavra como estímulo ou sinal do mais complexo reflexo condicionado. "A palavra é para o homem um estímulo condicionado tão real como os demais estímulos comuns com os animais, mas ao mesmo tempo de uma extensão tão ampla como nenhum outro".

É o principal agente de mobilidade cortical, representa uma abstração da realidade e se presta a uma generalização o que forma especificamente o pensamento humano e serve de base para o surgimento da ciência que capacita o homem para o domínio da natureza e, através do processo histórico, transformar-se a si mesmo.

A palavra denominada por Pavlov de "sinal dos sinais" é um estímulo poderoso e a sua força a torna um excelente instrumento terapêutico dos distúrbios funcionais da Atividade Nervosa Superior provocados pelos agentes patogênicos reflexo-condicionados - os traumas psíquicos. Assim, a terapia verbal, ou psicoterapia,  pode ser usada como estímulo corretivo modificando idéias errôneas, emoções inadequadas, orientando o paciente na busca de novo plano de vida, estimulando na direção de outras experiências que poderão ser especialmente importantes, ou mesmo definitivas na recuperação de sua saúde.

Muitas vezes os medicamentos são os fatores principais no tratamento e a psicoterapia apenas complementar e, em outras, pelo contrário, a terapia verbal é a mais importante e os novos recursos medicamentosos vêm em segundo plano, tudo dependendo do diagnóstico e da gravidade do quadro clínico.

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Psicologia Transpessoal

Adalberto Tripicchio [adalbertotripicchio]

11/7/07


Resumo

O objetivo deste artigo é apresentar a Psicologia Transpessool e tecer algumas considerações sobre este campo de estudo da consciência e dos processos mentais.



A Psicologia Transpessoal é a linha da psico­logia voltada para o estudo dos estados da consciência, normais ou patológicos, que envolvem uma modificação qualitativa da consciência devido a fenômenos mentais subjetivos além da consciência normal em vigília e às limitações do ego em perceber a realidade apenas através dos cinco sentidos. Em outras palavras, implica em uma expansão da consciência e em uma ampliação de seu campo de percepção.

A Psicologia Transpessoal, mais de 40 anos após ter sido criada, tem lugar de destaque entre as linhas de psicologia. Sua origem está ligada a nomes consagrados como Abraham Maslow, Viktor Frankl, Antony Sutich e Arthur Koestler dentre outros. Sua principal publicação, The Journal of Transpersonal Psychology, é indexada em Psychological Abstracts e listada em Chicoral Health Science Index, Mental Health Abstracts e Psychologica



l Reader's Guide. A difusão da Psicologia Transpessoal nos USA, Canadá e Europa levou a criação de institutos de ensino e pesquisa que atraem psicoterapeutas e pes­quisadores de todo o mundo.





Desde 1966, centenas de trabalhos têm sido publicados, destacando-se os de Grof12-16, Levy20, Mintz23, Plank & Richards24, Sutich28-30 e Tart32-34, dentre muitos outros.

No Brasil, podemos citar os trabalhos de Weil36-39, Garcia11, Tabone31 e Tripicchio35,36.

Mesmo sendo uma área em franco desenvolvimen­to, no Brasil ainda se limita a um grupo pequeno de pesquisadores e psicoterapeutas, devido à associação pre­conceituosa que profissionais de outras abordagens fazem da Psicologia Transpessoal com linhas filosóficas e psico­lógicas orientais, que não têm valor como Ciência no Oci­dente, onde predomina o positivismo. Em 1978, o Brasil sediou o IV Congresso Internacional de Psicologia Trans­pessoal, realizado em Belo Horizonte. A partir dessa época, a Psicologia Transpessoal foi se fortalecendo, e em 1985, criou-se a Associação Brasileira de Psicologia Transpes­soal, que funciona em convênio com a Associação de Psicologia Transpessoal da Finlândia e em cooperação com várias associações da Europa e dos Estados Unidos. A Associação Brasileira forma especialistas nesta aborda­gem e promove congressos e reuniões científicas.

A importância em se fazer uma pesquisa bibliográfica em Psicologia Transpessoal está na possibilidade de des­crever aos profissionais do Campo Psi um estudo sis­tematizado sobre uma abordagem em psicologia que apre­senta uma nova visão da consciência e uma concepção de vida e educação holísticas que ganha força nas Ciências Humanas. Didaticamente pode servir como organizador de trabalhos já publicados que, revisados conjuntamente, contribuam para que os profissionais da área tenham uma visão global de artigos, livros e pesquisas existentes em Psicologia Transpessoal.
Psicologia Transpessoal. A Quarta Força em Psicologia

Experiências ditas transcendentais acompanham o ho­mem há milênios. No Ocidente, na maioria das vezes, estas vivências são associadas à religião, caracterizando-se como um encontro com um estado místico indescritível e não vivido pela maioria dos indivíduos. Ao contrário, porém, no Oriente estas experiências obtiveram atenção e estudo que desenvolveram métodos e técnicas para vivenciá-las. O Zen-Budismo, a Ioga e o Sufismo, por exemplo, são três doutrinas orientais que, além de uma preocupação com o funcionamento da mente, sua relação com o Cosmos e o desenvolvimento da personalidade, têm implicitamente em seu pensamento a evolução interior do indivíduo visando atingir experiências transcendentais.

No Ocidente, uma fundamentação científica cartesiana e mecanicista impôs limites ao estudo do homem e da consciência, relegando as experiências transcendentais ao campo da religião ou da psicopatologia.

Esta concepção foi mudando, principalmente a partir da década de 60, quando surgiu a Psicologia Transpessoal. Neste período, se questionou como nunca a necessidade de transformação geral dos valores da sociedade, trans­formação esta que só ocorreria a partir de uma "trans­formação pessoal", portanto, a partir do indivíduo, um pensamento bastante próximo da filosofia oriental.

Esta década foi marcada por grandes tumultos na so­ciedade ocidental que estava descontente com os valores e o sistema político-social vigente. Protestos contra a Guer­ra do Vietnã, o movimento hippie, o feminismo, eclodiram nessa época e representavam a insatisfação diante de uma ideologia de vida que começava a ser questionada.

Fadiman & Frager8 relacionam os conflitos desta época com a chegada, nos USA, das filosofias orientais:

"Numa época de contínuo questionamento a respeito dos pontos de vista estabelecidos sobre religião, ciências e sistemas políticos organizados, há uma busca correspon­dente por modelos de comportamento humano suplementares, modelos que sejam baseados em uma observação diferente e que conduzam a novas conclusões."

"A proliferação de professores, livros e organizações baseadas em diversos modelos orientais é uma indicação deste interesse. Um número crescente de estudantes, ami­gos e colegas de nossas relações dedicaram-se a um estudo intensivo ou à prática de doutrinas orientais em busca de novos valores e de crescimento pessoal e espiritual. A psicologia torna-se cada vez mais um campo de estudo internacional, menos amarrado aos pressupostos intelec­tuais e filosóficos dos USA e da Europa Oci­dental" .

O pensamento oriental influenciou notadamente o sur­gimento da Psicologia Transpessoal, que sintetizava os anseios de psicólogos na busca de um modelo de com­preensão do homem diferente da visão ocidental tradi­cional e das linhas de pensamento reducionistas.

A Psicologia Humanista já mostrara essa insatisfação e foi uma primeira tentativa de valoração do crescimento interior do homem, do desenvolvimento de suas poten­cialidades e da capacidade infinita para expansão de sua consciência levando o homem a procurar as suas respostas nele mesmo, tendo em Carl Rogers (1902-1987) e Abraham Maslow (1908-1970) seus maiores expoentes.

Citando Maslow21 "a Psicologia Humanista, ou Ter­ceira Força em Psicologia, (é) apenas transitória, uma pre­paração para uma Quarta Psicologia, ainda 'mais eleva­da', transpessoal, transumana, centrada mais no Cosmos do que nas necessidades e interesses humanos, indo além do humanismo, da identidade, da individuação (...)".

Outros teóricos da psicologia, como Jung, Assagioli e Tripicchio, destacam em seus estudos tentativas com êxito de abor­dar e entender o homem a partir de um enfoque que privilegia o desenvolvimento da totalidade da psique, ou seja, modelos que ultrapassam a concepção cartesiano­-newtoniana da Ciência e de visão-do- homem e visão-do-mundo.

O conceito de individuação de Jung se aproxima da expansão da consciência proposta pela Psicologia Trans­pessoal e é uma maneira de pensar a realidade e a inte­gração do homem com o Cosmos cujos postulados têm eco na Psicologia Oriental.

Jung18 se refere à capacidade de auto-atualização atra­vés do auto-conhecimento e da integração do consciente com o inconsciente:

"(...) quanto mais conscientes nos tornamos de nós mes­mos através do auto-conhecimento (...) vai emergindo uma consciência livre do mundo mesquinho, susceptível e pes­soal do eu, aberta para a livre participação de um mundo mais amplo de interesses objetivos. Essa consciência am­pliada não é mais aquele novelo egoísta de desejos, te­mores, esperanças e ambições de caráter pessoal, que sempre deve ser compensado ou corrigido por contra-­tendências inconscientes; tornar-se-á uma função de re­lação com o mundo dos objetos, colocando o indivíduo numa comunhão incondicional obrigatória e indissolúvel com o mundo".

O psiquiatra italiano Roberto Assagioli, criador da Psi­cossíntese, é incluído entre os precursores da Psicologia Transpessoal. Seus estudos destacam a exploração do ego e o crescimento interior e, segundo Tabone31, os aspectos transpessoais da psicossíntese são: "ênfase na necessidade do desenvolvimento da dimensão espiritual; os conceitos de superconsciente e de inconsciente coletivo; o conceito de controle dos diversos aspectos da psique, por uma experiência de identificação total e a substituição do "pa­tologismo" pela noção de que certos estados psicóticos correspondem ao de crises espirituais e à transformação da personalidade".

Citando ainda Tabone31, "na prática, a Psicossíntese propõe uma psicoterapia holística, cujo objetivo é permitir à pessoa o acesso a todas as áreas de sua personalidade... (e) enfatiza que as necessidades de significado de vida, de valores universais e de vivência espiritual são tão reais quanto as outras necessidades biológicas ou sociais".

O psiquiatra e psicólogo brasileiro A. Tripicchio, na década de 80, propôs a sua Psicossíntese Analítico-Compreensiva36, se valendo de instrumentos de trabalho já tradicionais no Ocidente, como, também, da Filosofia da Mente35, para atingir a expansão da consciência e, tendo como meta sistematizada, a Experiência Fora do Corpo, que marca sua grande distinção das demais escolas de psicoterapia.

Tanto Jung quanto Assagioli e Tripicchio, ao proporem modelos voltados para um paradigma científico além da realidade concebida pela ciência ocidental, contribuíram para a se­dimentação dos conceitos utilizados pela Psicologia Trans­pessoal, que também buscou na Física, na Parapsicologia e na Neurologia, fundamentos para a elaboração de sua teoria.

A Psicologia Transpessoal, portanto, sistematiza teorias, conceitos, práticas e filosofias que foram desevolvidos independentemente entre si e por pesquisadores de várias áreas do conhecimento, que têm em comum, o estudo dos fenômenos que transcendem a realidade objetiva.

Sua caracterização como Quarta Força em psicologia é decorrente da penetração das linhas psicológicas nos USA, desde o Behaviorismo (Primeira Força), passando pela Psicanálise (Segunda Força) e a Psicologia Humanista (Terceira Força), culminando com o desenvol­vimento de uma abordagem totalmente inovadora para os padrões materialistas da ciência ocidental: a Psicologia Transpessoal.
Psicologia Transpessoal e os Estados Alterados de Consciência

No Ocidente, o pensamento científico dos últimos 300 anos foi notadamente influenciado por uma filosofia es­treita e rígida, limitada a uma visão concreta e materialista da realidade, onde conceitos de tempo, espaço e matéria eram considerados grandezas absolutas. Somente fenô­menos percebidos pelos cinco sentidos ou comprovados por medição de aparelhos poderiam ser considerados co­mo reais.

A Física moderna, porém, propôs novos conceitos que revolucionaram as teorias clássicas fundamentadas pela concepção newtoniano-cartesiana de ciência.

Como relata Tabone31, as transformações introduzidas pela Física Moderna referem-se ao conceito de inter-mu­tabilidade da matéria e energia, proposto por Einstein; aos estudos da Mecânica Quântica; a própria teoria da relatividade, que atribui ao dualismo espaço/tempo uma característica quadrimensional e relativa a um sistema referencial, ou seja, o limite existente entre os conceitos de espaço e tempo é ilusório, ou, pelo menos, criado pelo homem.

Este novo pensamento traz implicações para o desen­volvimento de novos conceitos que reforçam a hipótese da existência de estados de consciência que vão além daquele percebido pelos cinco sentidos, ou seja, os estados alterados de consciência que a mente humana pode atingir.

Cumpre esclarecer que é preciso entender o significado do termo Estados Alterados de Consciência, como estágios com potencialidades adormecidas e não utilizadas pela consciência, e que acontecem fora dos limites de tempo e espaço conhecidos. São estudados pela Parapsicologia, juntamente com as percepções extra-sensoriais e a psico­cinesia, destacando-se trabalhos de diversos autores, como Rhine (1948; 1953), Andrade(1), Blackmore(2), Tart(32), Pratt<25), Faria(9), Cavvan(6), Mendes(22), Jacobson(17), Tripicchio35.

Estes estados alterados quando percorridos em conso­nância com uma orientação psicoterápica ou espiritual (como fazem os orientais) que vise a integração da per­sonalidade total, levam o indivíduo ao conhecimento máximo de si, ou, como afirmam Fadiman & Frager8, a "(...) relacionar-se mais intimamente com algo maior do que o self individual (...) e fortalecer o self objetivando o de­senvolvimento da autonomia, da autodeterminação, da auto-realização, libertação de processos neuróticos e saúde mental"

Descritos por Weil39,40 e Jacobson17, dentre outros, os estados de consciência são assim classificados:

a) Estado de Consciência de Vigília: é a consciência desperta normal, é o estado comum, voltado para o pen­samento lógico de causa e efeito; a pessoa está consciente de si mesma (Jacobson)17. É o estado de consciência no qual nos encontramos quando estamos acordados, pen­sando, trabalhando, planejando. Neste estado predomi­nam as funções do ego (Weil40).

b) Estado de Consciência de Devaneio: é o estado in­termediário entre o de vigília e o de sonho, quando estamos prontos para dormir em estado de relaxamento (Weil40).

c) Estado de Consciência de Sono Profundo: no estado de sono profundo sem sonhos, as funções do ego desa­parecem, assim como a noção de tempo/espaço. Inexiste a dualidade eu-mundo exterior e o indivíduo entra em unidade com a Consciência Universal, havendo uma re­vigoração energética (Weil40). Pode-se supor que equivale a uma experiência transpessoal que é esquecida pelo indi­víduo.

d) Estado de Consciência de Sonho: neste estado, além dos conteúdos oníricos estudados por Freud e Jung, o indivíduo pode vivenciar experiências mais profundas, como a premonição e a experiência de sair do corpo Weil40; Jacobson17; Tripicchio35,36.

e) Estado de Consciência de Despertar: é um estágio intermediário entre a Consciência Cósmica e a consciência individual no seu estado de vigília (Weil40). O campo da consciência se amplifica e os três outros estados de consciência (o de devaneio, de sonho e de sono profundo) tornam-se claros e interligados, possibilitando ao indivíduo que, pos­teriormente, perceba a unidade do Cosmos e de si.

f) Estados de Consciência Cósmica: é o estado resultante da integração entre todos os estados de consciência; é o estado em que há o controle da atividade cerebral (Weil40). Designa um estado de consciência além da consciência comum do homem. O indivíduo passa a compreender o funcionamento e a razão de ser do universo, a relatividade das três dimensões do tempo e do espaço (Weil39).

Os Estados de Consciência, isoladamente, constituem um padrão normal de funcionamento psicológico, por exemplo, o sonho; ou um estado de devaneio numa sessão de psicanálise.

Certas manifestações psíquicas estudadas pela Parap­sicologia (como as Percepções Extra-Sensoriais - PES) vão ocorrer em um determinado estado alterado de consciência e podem não culminar numa Experiência Transpessoal ou Cósmica, dependendo da evolução pessoal e de como o indivíduo percebe a integração destas manifestações consigo mesmo e com o Cosmos.

A percepção desta integração é fundamental para se entender se o estado mental do indivíduo é normal ou patológico, pois o "êxtase" da Experiência Transpessoal passa por uma ausência de mediação dos órgãos senso­riais, vão além dos limites de tempo e espaço e podem mostrar uma realidade totalmente fora do mundo tridi­mensional ao qual estamos acostumados. Tanto a Expe­riência Transpessoal ou Cósmica quanto as alucinações esquizofrênicas e os fenômenos paranormais estudados pela Parapsicologia se dão em estados de consciência alterados, que levam o indivíduo (ou sua mente) a ter um estado alterado de sensibilidade.

No caso da Experiência Cósmica, Weil39 nos dá a se­guinte conceituação:

"O termo traduz uma experiência em que determinadas pessoas percebem a unidade do Cosmos, se percebem dentro dela (e não fora, como muitos poderiam imaginar); a experiência é acompanhada de sentimentos de profunda paz, plenitude, amor a todos os seres. Compreende-se, de um relance, o funcionamento e a razão de ser dos universos, a relatividade das três dimensões do tempo e do espaço, a insignificância e a ilusão do mundo em que vivemos, os erros monumentais cometidos por muitos seres humanos; uma iluminação acompanha muitas destas percepções. A morte é vista apenas como uma passagem para outra espécie de existência e o medo dela desaparece totalmente. A Experiência Cósmica pode ser, e é em geral, o resultado de uma longa e lenta evolução; às vezes, no entanto, ela constitui o início de uma profunda trans­formação no sentido dos valores mais elevados da hu­manidade; neste último caso ela acontece em momento inesperado" .

Se por um lado, a experiência cósmica constitui um fenômeno ou um conjunto de fenômenos não psicóticos e não se enquadra como manifestação de uma doença mental, vale dizer que a esquizofrenia e suas manifestações alucinógenas podem se dar a partir de estados alterados de consciência sem se traduzirem como uma experiência cósmica. O esquizofrênico não consegue dirigir esta ex­periência interior e rompe com o mundo, perdendo o controle.

Os fenômenos paranormais, como a psicocinesia ou as percepções extra-sensoriais, tanto podem ser verificadas em indivíduos que conseguem ter controle destas mani­festações, quanto em indivíduos incapazes de comandar esta experiência interna.

Estas considerações são feitas para se entender que, como afirma Grof12, "o termo estados alterados da consciência inclui as experiências transpessoais, mas exis­tem outros tipos de experiências que se dão em estados alterados de consciência ou até podem ser qualificados de estados alterados de consciência mas que não atingem o critério para serem transpessoais".

Viver uma experiência cósmica leva o indivíduo a um crescimento interior, porém não implica numa "santifica­ção" ou em ausência de conflitos. Muda sua visão de mundo, amplia a percepção de si, valores são reformu­lados, o que implica num amadurecimento que possibilita que o indivíduo tenha melhores instrumentos para ela­borar ou lidar com seus conflitos.
Psicologia Transpessoal e psicoterapia

Nas abordagens não-transpessoais, o objetivo da psi­coterapia é mais direcionado ao alívio de sintomas ou à modificação de comportamentos indesejáveis, à resolução de conflitos inconscientes, à reestruturação da personali­dade, a capacitar o ego a integrar ou resolver conflitos, e, ainda que possam visar o crescimento pessoal do in­divíduo, acabam limitando-se a uma ação sintomática (como a terapia comportamental) ou, como a psicoterapia psicanalítica, fundamentada na etiologia da doença ou sintomas (Dewald7; Wolpe42; Kaplan & Sadock19).

Pelo fato da Psicologia Transpessoal ter-se desenvolvido a partir da Psicologia Humanista, inclusive com autores humanistas como Maslow e Sutich encabeçando o movi­mento transpessoal, as diferenças entre elas não são tão acentuadas como em relação à Psicanálise e ao Behaviorismo.

A Psicologia Humanista também tem uma visão holís­tica do homem e se orienta mais para a promoção da saúde do que para a patologia, porém suas metas básicas voltam-se para auto-realização, enquanto que a Psicologia Transpessoal volta-se para a auto-transcendência.

Sutich30 descreve a Psicoterapia Transpessoal como " aquela direcionada, direta ou indiretamente, para o reco­nhecimento, a aceitação e a percepção dos estados últi­mos", ou seja, os estados alterados de consciência e sua integração na consciência do indivíduo.

Tabone31 completa esta idéia e afirma que "além das necessidades próprias à sobrevivência, o alimento, o abri­go, relacionamento, etc., devem ser supridas as necessi­dades outras, ditas 'espirituais', para que possa haver um funcionamento completo do ser e para que se obtenha um nível ótimo de saúde psicológica. (...) Na Psicoterapia Transpessoal os impulsos dirigidos para o crescimento espiritual são considerados básicos para a humanização completa do homem".

Weide37 amplia a comparação entre as abordagens transpessoal e não-transpessoal, e fala que "a maior parte do que comumente consideramos sob o nome psicoterapia pode, apropriadamente, ser chamada de terapia pessoal e/ou interpessoal. Essas diversas terapias convencionais estão primária ou inteiramente relacionadas com o corpo, a mente e as emoções, as inter-relações entre a experiência física, mental ou emocional - tudo dentro de um contexto social. Em contrapartida, a terapia transpessoal diz respeito às inter-relações entre o corpo, a mente, as emoções, e aquilo que podemos chamar de espírito, às vezes num contexto social, às vezes num contexto impessoal".

Tendo uma visão holística, a Psicoterapia Transpessoal não elimina as contribuições que outras linhas psicoterá­picas oferecem, porém vai além dos limites destas abor­dagens, pois tem uma concepção de consciência que não se prende às funções do ego vigil. Isto não significa que ela não trabalhe com resolução de conflitos neuróticos, alívio de sintomas, modificação de comportamentos, mas que, ao trabalhar com indivíduos que têm estas necessi­dades, tem como objetivo ulterior, também prepará-Io para atingir um nível de desenvolvimento espiritual ele­vado que implique numa ampliação da consciência.

Weil38 estabelece a necessidade de ligação entre as técnicas não-transpessoais, no caso a psicoterapia psica­nalítica, como o faz a Psicossíntese Analítico-Interpretativa de Tripicchio35,36, e a Psicoterapia Transpessoal:

"Para atingir os limites da consciência cósmica, é ne­cessário reviver os grandes conflitos da vida, reagir a eles, mantê-Ios no campo da consciência. Não se trata, portanto, como se poderia acreditar de obter estados transitórios ou fugazes de "paz interior", o que seria uma espécie de fuga aos nossos conflitos deixando-os sem solução; isto redundaria conseqüentemente ou na impossibilidade de se chegar ao estado de consciência cósmica, ou em se chegar cedo demais (...) Não se trata, também, de se fazer acreditar que exista uma vida sem conflito; sendo o conflito próprio da energia, é, por conseqüência, próprio do ho­mem. Trata-se, em Psicanálise, de aprender a vê-Io, a tomar uma certa distância para administrá-Io. Uma vez que a paz interior é uma resultante deste poder adminis­trativo do ego, é este poder por sua vez o início da experiência cósmica. A Psicanálise constitui, assim, uma das vias iniciais da experiência transpessoal".

O enfoque da terapia transpessoal não é exclusivamente transpessoal e depende do nível de desenvolvimento em que o cliente se encontra, da qualidade dos conflitos tra­zidos para a terapia e de toda sua experiência de vida.
Considerações teóricas finais

A Psicologia Transpessoal nos oferece um universo rico de conceitos inovadores, descreve a consciência fun­damentando-se em proposições subjetivas que carecem de uma verificação dentro do domínio da ciência tal como é concebida no Ocidente, utiliza técnicas psicoterápicas que enfocam o homem em sua relação corpo-espírito-cos­mo, opondo-se ao enfoque das linhas psicoterápicas tra­dicionais.

Rompe com o modelo-padrão de Psicologia e vai de encontro com proposições muito atuais da Física, da Bio­logia, da Neurologia (Capra4,5), baseando-se em conceitos modernos de espaço, tempo, matéria; numa visão holística do homem; e na integração dos pensamentos Ocidental e Oriental.

Sua difusão entre os psicólogos e psiquiatras é cada vez mais acen­tuada, os resultados de estudos e de tratamentos psico­terápicos são relatados em publicações respeitáveis, e cada vez mais pesquisadores, terapeutas e professores realizam trabalhos em universidades e institutos de todo o mundo.

Qualquer restrição que se faça a tentativas de se de­senvolver estudos e pesquisas que visem apresentar, sis­tematizar ou organizar a Psicologia Transpessoal como teoria e sistema, será fundamentada em um preconceito de­corrente da inexistência, no Paradigma Científico Ocidental, de elementos conceituais que coloquem esta linha psico­lógica dentro das linhas estabelecidas pelo que hoje é considerado Ciência.

A própria Psicanálise fica fora das fronteiras da Ciência, porém sua penetração no meio médico e psicológico, e na própria cultura ocidental, se deu de forma tão profunda, com resultados terapêuticos tão significativos, que conquistou seu espaço como linha psicológica respeitável, como sistema e teoria aceita por considerável número de terapeutas, pesquisadores e professores de universidades em todo o mundo.

Vale lembrar Bachrach3, renomado autor de livros e artigos sobre pesquisa científica em psicologia, que nos ensina o seguinte:

"(...) se a observação não for clara e replicável dentro dos limites de uma observação definida, ela não é passível de um estudo científico. É possível que isto venha a ocorrer no futuro quando os instrumentos ampliarem a capaci­dade de medir e observar (...). Muitas áreas de estudo podem ser abordadas, experimentalmente, com técnicas estatísticas e de planejamento sofisticadas e acessíveis à Ciência; e no entanto, podem permanecer fora do domínio da investigação científica. Uma delas, escolhida porque ilustra muito dos aspectos que desejo considerar, é a área da parapsicologia, o estudo dos fenômenos paranormais, tais como a telepatia e a percepção extra-sensorial (PES). Não há dúvidas que existem investigadores diligentes, laboriosos e produtivos na parapsicologia. Até o momento, contudo, apesar do uso de instrumentos científicos(...) exis­tem fatores que colocam a parapsicologia fora das fron­teiras da Ciência. (...) Isto não condena tais dados ao limbo do qual não possam retornar".

Ou seja, ainda que a Ciência Ocidental não possua um referencial onde os resultados de abordagens como a Psi­cologia Transpessoal possam se basear, tais resultados podem ser considerados, pois o que pesquisadores estão buscando é justamente ampliar o paradigma científico vigente hoje no Ocidente, o que, oportunamente, poderá permitir que a Psicologia Transpessoal seja analisada de forma diferenciada da que comumente ocorre no meio científico.
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