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Manual Prático do Guerrilheiro

IVAR HARTMANN

Editora Ltda.

Av. Capitavari, 1141

Fone (051 2) 49-0340

90650 - Porto Alegre - RS – Brasil

Editor Airton Ortiz

Edição de texto: Paulo Bentancur e Edgudo Xavier

Capa: Gilberto José Kipper

Revisão: Enimar Pires

Arte-final: Luciane Nunes

Fotolito: Vilnei Machado

Impressão: Pallotti - Santa Maria – RS

© Ivar Hartmann

Todos os direitos desta edição estão reservados à

Tchê! Editora Ltda.

Impresso em novembro de 1988.
A leitura de cabeceira que faltou aos americanos no Vietnã,

aos russos no Afeganistão e a Guevara na Bolívia.
TEXTO INTEGRAL

Sem cortes graças à Nova (?) República


O Autor agradece ao pessoal ligado ao GEV e ao F L.

Sua colaboração tornou possível esta obra.

A Villa e Guevara. Mão e Ho Chi Min.

Ocidente e Oriente unidos na causa comum da liberdade. E aos

Maquis e Solidariedade, lutadores anônimos da mesma idéia.

O Autor


Ivar Hartmann nasceu em Passo Fundo (RS), a 15 de dezem­bro de 1940.

Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito de Passo Fundo. Exerceu o cargo de chefe de gabinete em diversas Secretarias. Exerceu o cargo de diretor de ginásio e professor de diversas facul­dades.

Tem editados pela Tchê!, na colecão Esses Gaúchos, uma biografia de Getúlio Vargas, e um romance: O Pais dos Gaúchos. Atualmente é promotor de justiça e professor universitário em Novo Hamburgo.

ÍNDICE
PRÓLOGO 15

ADVERTÊNCIA

Como não se deve iniciar uma guerrilha 19

LIVRO l


  1. - Histórico 27

  2. - Princípios da guerrilha 30

  3. - Estratégia da guerrilha 32

  4. - Táticas guerrilheiras 41

LIVRO II

  1. - Preparação 49

  2. - O capelão 53

  3. - O equipamento 55

  4. - As armas 60

LIVRO III

1 - O Cerco 67



  1. - Aspectos fundamentais do combate.... 70

  2. - Em combate .............................71

LIVRO IV

  1. A sabotagem..........................................77

  2. A espionagem e seus objetivos ..............79

  3. O seqüestro como arma de guerrilha.....81

  4. A guerra em lugares favoráveis..............89

  5. A área de segurança................................95

  6. A guerra em lugares desfavoráveis.........99

  7. O front político ..................................108


PRÓLOGO

Comecemos pelo início.

Antes de nada, é fundamental que o leitor tenha um claro entendimento da matéria a ser abordada.

Assim, no dizer do Mestre Aurélio:

Guerrilha — "Luta armada realizada por meio de pequenos grupos constituídos irregularmente, sem obediência às normas estabelecidas nas convenções internacionais, e que, com extrema mobilidade e grande capacidade de atacar de surpresa, visa ao crescimento progressivo das próprias forças mediante a incorpora­ção de novos combatentes e abertura de novas frentes guerrilheiras até que se possam travar com êxito combates diretos contra as tro­pas regulares inimigas."

Por conseqüência, guerrilheiro é aquele que combate numa guerrilha.

Revolução — "Rebelião armada; revolta, conflagração, suble­vação. Transformação radical e, por via de regra, violenta, de uma estrutura política, econômica e social."

Logo, revolucionário é ...

Terrorismo — "Modo de coagir, ameaçar ou influenciar outras pessoas ou impor-lhes a vontade pelo uso sistemático do terror. Forma de ação política que combate o poder estabelecido median­te o emprego da violência."

Terrorista é o partidário do terrorismo e que usa seus mé­todos.

Assim, aqueles que pretendem aprender como se faz uma re­volução pouco encontrarão aqui. Deverão consultar os maiores ex-perts no assunto, ou seja, os oficiais do exército boliviano, já que as demais armas do mesmo país estão voltadas para suas funções precípuas: a Força Aérea transportando mercadorias de vital inte­resse para os que governam o país e a Marinha com suas belonaves atracadas em La Paz para garantir a independência da Nação ou em manobras de guerra no Lago Titicaca, por isso também chama­do pelos gagos de Titicacaca.

Mas a folha de experiência destes cavalheiros está acima de quaisquer dúvidas e o grau de evolução destas revoluções é tão grande que hoje não se trocam mais tiros entre o general do dia, o do Palácio do Governo — e o que quer dormir na cama presi­dencial.

Simplesmente se "trocam figurinhas", isto é, pelo telefone os dois rivais informam quantos generais, coronéis, capitães e tenen­tes cada um tem ao seu lado.

Quem tiver mais, deita na cama, quero dizer, toma posse em nome da democracia, promete eleições para o próximo ano, conse­gue alguns milhares de dólares dos Estados Unidos para sua conta pessoal e, em nome da coesão nacional, manda o ex-presidente para alguma embaixada na Europa.

Aliás, como a Europa é um continente decadente, não têm surgido novas nações por aquelas bandas, razão porque, como atualmente são poucas as embaixadas disponíveis e o dólar se des­valoriza, é de supor que os próximos "ex" terão de se contentar

em viajar pela África.

Por oportuno o jargão dos políticos e militares que convivem com este tipo de coisas entende que se chamam revolucionários os golpistas vencedores e golpistas os revolucionários derrotados.

É uma questão semântica mas de tal profundidade que um

leigo não pode assimilar.

De qualquer forma, vale este primeiro ensinamento: nunca

chame um vencedor por:

— Parabéns, o senhor é um grande golpista!

Isto pode significar, em tempos duros, a cadeia, e em tempos de abertura, um inimigo figadal.

Assim, quando necessitar algum favor, emprego, empréstimo a juros subsidiados ou financiamento para aquela sua empresa fali­da diga:

— Parabéns, o senhor é um grande revolucionário!


Você conhece a história de Ali Babá e os 40 ladrões?

Não, não, não é por causa dos 40 ladrões; é por causa da montanha.

Esta frase vale mais do que o "abre-te, Sésamo", frase que abria a porta para todos os tesouros.

Ditas estas coisas fica claro que este livro irá ensinar apenas o que você deve fazer para ser um guerrilheiro.

Revolução e terrorismo são coisas distintas, como bem disse o nosso maior maestro de vocábulos.

A guerrilha no entanto pode levar a uma revolução.

Se esta obra tiver boa aceitação, ou se o leitor, ao cabo deste curso, entender que sua vocação é para a revolução ou para o ter­rorismo, escreva à editora, que, com muito prazer — o preço deste volume já o demonstra —, iremos escrever sobre o assunto.

Um último lembrete.

A presunção mundial é de que a guerrilha é própria de países subdesenvolvidos o que transmite a idéia de multidões de maltra­pilhos com armas modernas olhando avidamente para as câmeras dos cinematografistas das grandes cadeias de TV americanas, espe­rando serem reconhecidos.

Ao redor, crianças famintas, casas destruídas, veículos em chamas e a voz do entrevistado dizendo: "estamos lutando pela democracia e pela liberdade, o povo está conosco e o inimigo está fugindo em todas as frentes".

Como ambas as partes em combate dizem a mesma coisa nos mesmos lugares, o ouvinte distraído até poderia perguntar: "mas então, para que a guerra?"

É uma pergunta válida.

Que nos levaria à mesma proposta de dois soldados inimigos na Grande Guerra: e se todos os soldados parassem de atirar?

Felizmente, enquanto o homem for um ser racional, esta espécie de pergunta, que só pode partir de tolos, não será respon­dida.

Mas a guerrilha não é privilégio dos países terceiro-mundistas.

Estão aí os jovens japoneses em guerra contra a destruição da natureza, em combates permanentes com a polícia quando não surrados e presos.

E os estudantes franceses, que fizeram o grandalhão De Gaulle fugir para a Alemanha, durante os distúrbios com incên­dios, saques e destruições em Paris, a Meca do saber.

Ou os jovens húngaros que iniciaram com táticas de guerri­lha uma luta contra a Rússia, para libertar sua pátria e acabaram trucidados pelos soldados russos.

Ou ainda os moços americanos moradores dos guetos de Nova York, formando guerrilhas para lutarem entre si na defesa de terri­tórios onde possam explorar os mais fracos, os comerciantes e os

pontos de drogas.

Felizmente para estes povos tão a d ia n ta dos, a guerrilha é pró­pria dos países mais atrasados.
ADVERTÊNCIA Como não se deve iniciar uma guerrilha
Quando nos interessamos por um determinado livro, nestes tempos de cultura cara, buscamos na contra-capa e nas orelhas do mesmo algumas informações que podem nos levar a adquiri-lo ou devolvê-lo à estante.

Mais importante ainda se torna estas informações quando trata-se de um compêndio destinado a nos ensinar sobre uma nova forma de comportamento, tão importante quanto a escolha de uma profissão ou de uma religião.

E a notícia que mais interessa é: mas e o autor, ele sabe algo sobre o que escreve?

A pergunta, longe de ser impertinente, é totalmente proce­dente. Senão iríamos a uma livraria e compraríamos uma obra inti­tulada Como governar os Estados Unidos e, quando chegássemos em casa, veríamos que o autor é o galã do filme antigo que está passando na TV. Ou nos arriscamos a um livro recém saído do prelo: Como ficar rico em um ano.

Quando abrimos o pacote em nosso quarto vamos ver na últi­ma capa a fotografia do autor, um risonho senhor de cavanhaque, vestido como o Filho do Sheik ou como aqueles beduínos sujos e burros que a Legião Estrangeira não cansava de matar quando ata­cavam, à galope, pelas areias do deserto, gritando e brandindo enor­mes espadas, permitindo assim o aparecimento de As quatro penas brancas ou Beau Geste, que mostraram à sociedade, que um bran­co vale muito mais do que cinquenta ou cem árabes.

Tese defendida por todas as grandes nações colonialistas va­lendo para árabes, amarelos e negros e que, com pequenas modifi­cações, foi muito difundida por aquele sósia do Carlitos, o Hitler. Assim, para não nos alongarmos, queremos dizer que temos alguma experiência de guerrilha.

Pelos meus dezoito anos fundei, entusiasmado por uma gran­de troca de cartas com um ex-Ministro da Educação do Paraguai , dr. Juan Dario Quiroga, hoje, trinta anos depois, ainda asilado no Uruguai, uma célula chamada FULNA — Frente Unida de Liber­tação Nacional: Comité de Auxílio ao Povo Paraguaio.

A referida célula (eram outros os tempos) tinha papel timbra­do e tudo o mais.

Por sugestão de um irmão aluguei uma caixa postal por onde recebia a correspondência revolucionária.

Alguns meses depois meu irmão, prestes a mudar-se para ou­tra cidade, pediu-me uma chave da caixa postal, bem como o es­pecial favor de eu não abrir a correspondência que lá chegaria en­dereçada para uma senhora cujo nome fictício deu-me na ocasião.

Nos meses seguintes as cartas para a tal pessoa ocuparam mais espaço no escaninho do que os planos subversivos.

Cumpria eu religiosamente a promessa, não tocando nelas. Certo dia, chegando ao corredor do prédio antigo dos Cor­reios e Telégrafos de Porte Alegre, lá deparo com a Senhora X (pa­rece novela do séc. XIX), pessoa de nossas relações familiares, que muito vermelha ficou ao ver-me chegar ao mesmo local, quando ela guardava uma chave no bolso.

Cumprimentamo-nos, ela saiu nervosa e, é claro, quando abri a caixa postal esta estava vazia.

Minha mente guerrilheira sofria a primeira grande decepção ao estar colaborando insuspeitadamente para uma causa burguesa, o que fiz ver por carta a meu irmão, terminando assim com aquela subversão dentro da subversão.

Passaram-se mais alguns meses, outro irmão, engenheiro cons­trutor de estradas no velho e querido município gaúcho de Itaqui, na fronteira com a Argentina, propôs-me pagar minhas despesas até o Paraguai, ponto maior de convergência de minhas idéias ju­venis, em troca de quinze dias de trabalho para sua firma, dirigin­do um caminhão-basculante.

Aceitei e em julho viajei de ônibus à Itaqui.

Lá cumpri a quinzena de trabalho e com o dinheiro no bolso atravessei de chalana o rio Uruguai rumo à aventura e aos primeiros contatos revolucionários que seriam mantidos com pessoas cujo nome não lembro, em Assunção.

Tomei o trem naquela noite na estaçãozinha de Alvear.

Sacolejamos toda a noite até Posadas.

Deste início de carreira revolucionária o mais que lembro é de ter entrado no sanitário do trem e encontrado escrito em uma das paredes de madeira: "Perón, hijo de Ia putana".

Como não se deve participar de dois movimentos políticos ao mesmo tempo, fechei a porta após fazer meus deveres e troquei de sanitário nas outras horas.

Como deveria ser, hospedei-me em um pequeno hotel de se­gunda categoria, o Majestic, aguardando o dia seguinte para cruzar o Paraná de lancha, rumo a Encarnación.

No almoço conheci um viajante argentino que tinha ido visi­tar as Cataratas do Iguaçu e falava extasiado do movimento da­quelas águas.

A discrição fez-me dizer apenas que viajava em férias e cruza­ria o rio no outro dia, rumo a Assunção.

O entusiasmo do argentino no entanto convenceu-me.

Pensei: se o ditador está a tanto tempo no poder uns dias a mais não prejudicarão a arrancada libertadora. Assim, no dia se­guinte, presenteado com um Guia Peuser com dedicatória de 1 5 de julho, um dos poucos exemplares de minha biblioteca dos quais ainda não fui golpeado — se me permitem usar a palavra —, avancei rumo ao norte.

Como aqui não se trata de recordar viagens de turismo, infor­mo que voltei dois dias após e finalmente tomei o vapor para En­carnación.

Na minha última noite na capital missioneira, lendo o jornal local, deparei-me com a notícia de a polícia ter resgatado do rio dois ou três cadáveres de homens com traços indiáticos, vestidos razoavelmente e coti sinais de tortura.

Como já naquela oportunidade o ditador prestigiava mais o Brasil, o jornal argentino seguia dizendo que provavelmente eram mais algumas vítimas da polícia ou exército paraguaio que estavam envolvidos em desbaratar os inimigos, sob o pretexto de que estes estariam preparando uma revolução.

Fiquei tranqüilo porque, por maior importância que eu des­se a minha missão salvadora do povo irmão, sabia poder contar com a discrição de Deus e do dr. Juan Dario, únicos seres a saber dos meus objetivos.

Ao cruzar o rio conheci três moças argentinas também viajan­do à Assunção. A amizade prolongou-se pela viagem de micro-ônibus até a Capital, através de uma noite invernal. Na estrada, de tempos a tempos, barreiras do Partido Colorado apareciam na noite, índios mal encarados travestidos de milícia e de exército, saindo emponchados desde algum rancho ou barraca na frente da qual formava-se a barreira e queimava-se um fogo.

Aos estrangeiros era pedida a carteira de identidade, com al­guma cordialidade para os brasileiros, mas sem destempere para com os argentinos.

Os paraguaios, coitados, dependendo dos sonhos dos coman­dantes das barreiras, eram obrigados a abrirem suas malas e valises que eram revistadas grosseiramente à luz de lanternas ao lado da estrada, sob os olhares dos colorados portando fuzis que eu conhe­cera no CPOR e que, por muito antigos, tinham sido vendidos ou doados ao Ditador.

Finalmente chegamos.

Credito ao frio, mais do que às notícias, às guardas índias co­loradas e a minhas amigas argentinas, o arrefecimento de meu ímpe­to guerrilheiro.

Nos dias seguintes conheci todos os pontos históricos e turís­ticos de Assunção e cidades vizinhas.

Passeamos os quatro até o lago de Ipacaray; tomamos chimarrão no parque da casa de Madame Linch; estivemos na casa de Artigas; compramos rendas de nhandutí; vimos os estragos dos ca­nhões da Tríplice Aliança durante o genocídio de 1870, na igreja de Yaguarón; tiramos fotografias no teto da Catedral; conversamos com Solano Lopez e Estigarribia no Panteón dos Heróis.

Quando terminou o mês, estava sem dinheiro na hora de vol­tar, e as pessoas que deveria procurar nem sabiam da minha che­gada.

Concordo pois que minha experiência guerrilheira ou revolu­cionária não se compara a de Guevara, Mão, Ho, Agostinho ou Fidel, para falar apenas dos maiores especialistas do ramo.

Em compensação eu saí vivo de meus contatos com os índios, nunca tive incômodos com amarelos e negros e não tive de vender a alma aos cossacos.

E o ditador paraguaio?

Este transformou-se no primeiro sheik americano, ao vender um rio para o Brasil tornando seu país dono de milhões de quilos-dólares, ou seja, os dólares que os brasileiros pagarão pelos quilovates de Itaipu.

Pela esperteza que tantos benefícios traz aos guaranis, peço escusas por um dia ter pensado em ajudar a derrubar seu tutor.

Assim, passemos ao Manual.

LIVRO l


  1. — Histórico

  2. — Princípios da guerrilha

  3. — Estratégia da guerrilha

  4. — Táticas guerrilheiras

1 — Histórico

Desde a antiguidade os grupos humanos minoritários, buscan­do a ascensão ao poder ou na derrubada de ditadores, têm se vali­do da luta armada para conquistar a liberdade.

Como vimos pela definição do significado da palavra guerri­lha, não podemos aos primeiros humanos agrupados, improvisando meios para lutar contra os monstros pré-históricos, em busca de alimentos e segurança, dizer que usavam de guerrilha contra os en­tão donos do mundo.

Faltava um dos elementos para que se tratasse de uma revolu­ção: os animais, por serem animais, não buscavam consolidar sua força ou criar tropas anti-homens.

É verdadeiramente certo que nunca os dinossauros, por exem­plo, chegaram a um consenso em suas assembléias para formar um batalhão armado, capaz de liquidar com aquelas pulgas de duas pernas que andavam atrás de si.

Assim, quando restavam poucos espécimes deste colosso e de outros igualmente perigosos e feios animais, eles fugiram para um vale desconhecido cuja única entrada foi posteriormente destruída.

Só no século vinte foram novamente encontrados, graças ao trabalho perseverante dos produtores de Hollywood, e ainda agora mostram sua barbárie e maus costumes ao tentarem comera moci­nha — imaginem — que é salva no último instante pelo mocinho o qual, de certo, também quer.

Dando um salto no tempo vamos, agora sim, encontrar um movimento guerrilheiro típico quando os judeus revoltaram-se contra os romanos e, face à desproporção entre as armas e adestra­mento de uns e outros, usaram pequenas sortidas armadas para fus­tigar as legiões romanas.

O movimento só foi vencido quando os romanos cortaram os meios de comunicações com a base guerrilheira que, desta forma, foi destruída.



é um exemplo histórico importante porque esta derrota par­cial permitiu aos judeus usarem depois as grandes sortidas financei­ras que abriram o caminho para sua liberdade, sem a necessidade de empregar outra forca que não a do dinheiro.

Durante a Idade Média e Moderna, quando as Nações ou eram pequenos Estados e Feudos, ou posteriormente, quando se conso­lidaram os grandes Reinos e ainda quando estes lutavam uns contra os outros, as condições para a guerrilha inexistiram.

Mais tarde os brancos americanos buscaram a independência de suas pátrias do colonialismo europeu, e o fizeram constituindo pequenos exércitos, lutando por meios regulares e — por um maci­ço apoio popular — capazes de serem reconstituídos após cada der­rota, enquanto os europeus, longe do teatro de operações, envolvi­dos em custosas e prolongadas guerrilhas, viam esvair-se suas possi­bilidades de vitórias ante uma população hostil.

Já na Idade Contemporânea os movimentos revolucionários africanos usaram a guerrilha como única forma de conquistar a in­dependência de suas tribos.

Estão bem registrados os horrores que ambas as partes infligi­ram aos adversários e às populações civis estranhas à luta armada.

Os guerrilheiros "mão mão" de Keniata, que depois torna­ram-se Ministros de Estado, até poucos meses antes trucidavam mulheres e crianças indefesas nas fazendas brancas atacadas.

Os franceses, donos da cultura universal, matavam indiscrimi­nadamente, e com selvageria, os habitantes das aldeias argelinas suspeitas de protegerem os guerrilheiros que lutavam pela indepen­dência da Argélia.

A luta africana para livrar-se dos brancos causou tantos danos à população civil quanto a caçada entre judeus e palestinos pelas cidades européias.

Alguns movimentos guerrilheiros tornaram-se célebres e fize­ram o nome de seus dirigentes.

Mão Tsé Tung, o autor do maior best seller chinês, O Livro Vermelho, nas horas vagas era guerrilheiro.

Infelizmente este promissor homem de letras, capaz da proe­za de em uma única obra ter uma tiragem de milhões de exempla­res, preferiu a política, trocando as vantagens de ser um autor fes­tejado pelo sacrifício de ser ditador da China.

Desta forma trocou a pena pelo penacho, mas, creio, não se arrependeu.

Ao menos esteve a salvo da Guarda Vermelha.

Ho Chi Min, o "velho Ho" para os íntimos, é um persona­gem lendário saído diretamente de um livro de gravuras vietnami­tas, velho, seco, com caprichoso cavanhaque e olhar manso: mo­delo ideal para pintura chinesa em vasos de porcelana.

Para azar do Japão, França e Estados Unidos, ele não era nada do que parecia, e assim, comandando os subdesenvolvidos e subnu­tridos de sua pátria, pôs em debandada os grandes gigantes da eco­nomia, da cultura e da guerra.

Mas o Ocidente também teve carismáticas lideranças, capazes de transformar idéias em ações que levaram â luta milhares de ho­mens, dispostos a morrer por seus ideais, mesmo quando estes ideais não fossem bem compreendidos pelos contingentes de analfabetos que os seguiam e para quem a liberdade, muitas vezes, significava apenas o não ter de trabalhar atrás de um arado ou de um balcão.

Isto fez a glória de Zapata e Villa no México, Saraiva e Prestes no Brasil, Guevara e Fidel em Cuba.

De todos eles o único que conseguiu galgar o poder e propor as modificações estruturais pelas quais lutava foi o barbudo Castro.

Com resultado conhecido.

Saraiva e Prestes nunca foram derrotados e suas colunas móveis, no Séc. XIX e XX, eram o terror do exército brasileiro.

Zapata e Villa conquistaram pela força o governo mas não puderam lutar contra a astúcia dos políticos mexicanos.

A conclusão histórica importante, quanto a guerrilha, é de a fé poder remover montanhas; nem sempre os guerrilheiros vitorio­sos sabem que fazer com elas depois.

Afinal, uma montanha não da' para pôr no bolso e sair asso­biando até a choperia da esquina como se nada tivesse acontecido.

2 — Princípios da guerrilha

À primeira vista o princípio de "atacar e fugir" presta-se a rápidos e errôneos julgamentos de que bastaria atacar o objetivo cau­sando o máximo de prejuízos, fugindo antes que a resposta possa causar ao atacante qualquer dano.

Se assim fosse, bastaria aos iniciantes buscarem as ruas mais movimentadas das capitais nacionais e acompanhar o trabalho de pivetes e assaltantes em geral, que usam a mesma idéia inicial de "atacar e fugir": suas ações no entanto não têm a aura do roman­tismo, um dos princípios fundamentais do guerrilheiro.

Tão ou mais importante do que deixar crescer a barba, usar jeans e botas, é conservar em torno de si o mito de herói românti­co.

É fácil entender por que: as grandes cadeias de rádio, jornal e televisão possuem em número crescente jornalistas mulheres, sem que isso signifique uma maior capacidade feminina para o setor. Resulta apenas de, num mercado de trabalho tão competitivo, com tantas faculdades formando tantos profissionais, a mulher aceitar trabalhar por um salário menor que o do homem. Inexplicavel­mente isto não as deixa felizes quando se sabe que elas têm defici­ências sérias e impeditivas de equiparar-se aos homens, haja visto a sua inapetência para a guerra, um dos brinquedos mais sérios que a mente humana já criou, e para a política, atividade humana das mais importantes (para os políticos que desejam um canal de rádio ou TV).

Assim, na medida em que a guerrilha for crescendo, a impren­sa abrirá mais e mais espaço para noticiá-la. Isso porque os lacaios capitalistas da imprensa ocidental vivem apenas buscando o lucro, vendendo suas publicações a custa da luta entre os povos.

Nada mais justo, portanto, usá-los para disseminar as idéias guerrilheiras entre a população leitora, usando o inimigo para di­fundir os programas da luta.

Agora suponhamos: numa certa manhã (ou noite, não impor­ta) chega ao acampamento onde você está uma repórter, trazendo atrás de si um valete — prova a origem burguesa da coisa —, ho­mem carregado de maletas, tripés e estojos de couro — a mente aguçada pela luta diária do guerrilheiro logo compreenderá serem máquinas fotográficas ou cinematográficas.

Se você tiver uma aura romântica, imediatamente ela virá ao seu encontro, quer para a primeira entrevista, quer para a segunda entrevista, que poderá bem ser a primeira depois de uma longa abs­tinência. Em qualquer dos casos você estará sendo recompensado. O Comandante Zero, na Nicarágua, suplantou todos os outros guer­rilheiros sandinistas por um encontro como este.

Para não entenderem estar você corrompendo-se pelo poder discricionário a cujo soldo estão os órgãos de imprensa, querendo aparecer na imprensa internacional, poderá displicentemente, en­quanto limpa a faca de lâmina rubra de sangue (porque foi cortar-se logo quando chegou a jornalista?), afirmar estar a guerrilha em franca evolução para colocar o povo no poder e as mulheres como importantes colaboradoras do processo de reconstrução nacional.

Ninguém irá ler em sua mente que reconstruir também signi­fica eliminar os claros populacionais deixados pela revolução.

Agora, não adianta passara usar diariamente loção após barba e perfumes saqueados do último confisco revolucionário, ter as cal­ças e camisas engomadas como se fosse para uma parada. Nem tampouco tomar banho todo o dia esperando a jornalista encanta­da.

Ela pode não vir, e você todo perfumado, de calça e camisa engomada e banho tomado, pode ser surpreendido pela patrulha do exército que desemboca de repente na picada, trazida pelo faro do cão- pastor da fazenda que vocês assaltaram, o qual, sentindo de longe o perfume do dono, veio ao seu encontro. Vexame!

A destruição de um ideal por um vidro de Paço Rabane.

O guerrilheiro deve acostumar-se à idéia de fazer parte de um exército menor, com pouco armamento, sem condições de reposi­ção imediata do homem ou arma que cair. Por isso, triunfar, ani­quilando o inimigo, é tarefa a longo prazo.

Nenhum guerrilheiro até hoje conseguiu conquistar o poder em poucos dias. É missão árdua, pacienciosa, como a conquista da primeira namorada. Avanços, recuos, trampas, tudo vale.

Dizia o Che Guevara, se ainda vivo e com este Manual à mão: a surpresa, a perfídia e a atividade noturna são da própria essência da vida guerrilheira.

Exemplificando, abraçar a vizinha quando ela entra no eleva­dor distraída é a surpresa, levá-la para o seu apartamento soba promessa de boa música e um jantar real, equivale a perfídia; e a atividade noturna, bem, atividade noturna é a redundância dos pas­sos anteriores.

Na guerrilha, é bom que se diga. Muitos e muitos notáveis guerrilheiros já se perderam pela atividade noturna. Quem não co­nhece a história de Sansão?

Para não nos alongarmos é fundamental ao leitor que busca neste Manual a especialização ou uma nova (e brilhante) carreira, memorizar: romantismo, surpresa, perfídia e atividade noturna são as bases para uma guerrilha prosperar.
3 — Estratégia da guerrilha

Contam os antigos que os mais brilhantes generais da história foram Napoleão, Casanova e Al Capone, cada um em sua respecti­va atividade, todos eles com um ponto em comum: a conquista.

Outra não é a mola propulsora de uma célula guerrilheira se não a conquista.

A tomada do poder, a luta para chegar ate ele, a possibilidade de dar novas diretrizes á pátria, de alinhar a Nação com seu real destino, de satisfazer as necessidades dos oprimidos, de redimir os pobres, de repartir o dos ricos, de um novo Japão, Alemanha e Es­tados Unidos etc. Me perdoem alguns leitores, incluo também a Rússia, e por afinidade aquelas nações onde a revolução bolchevista entregou o poder ao povo, como a Romênia, a Hungria, a Alemanha Oriental, sem falar das minorias étnicas da URSS.

Por insólito que pareça, no entanto, quando perguntamos aos fascistas de direita, aos comandos do centro, aos socialistas de es­querda, em qual país gostariam de morar, a resposta tem sido Ja­pão, Suécia, Alemanha, Canadá, Estados Unidos ou Suíça. Ninguém postula para morar a República Democrática da China, a União das Repúblicas Soviéticas ou a centrista índia.

Como este não é um Manual de psicologia, passemos por cima destas aspirações.

Por estratégia guerrilheira entende-se o planejamento e a exe­cução de atividades que garantam resultados positivos com o má­ximo de garantias, merecendo especial cuidado o local da guerrilha.

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