J. A. Ferreiro de Almeida



Baixar 26.51 Kb.
Encontro27.07.2016
Tamanho26.51 Kb.
ANTIGUIDADE E RELIGIÃO DAS ESTÁTUAS

por


antónio pereira de figueiredo

PREFÁCIO E NOTAS DE


J. A. Ferreiro de Almeida


I PARTE

PEEFÁCIO


O P.e António Pereira de Figueiredo (1725-1797), cuja humilde origem o não impediu de tornar-se um dos grandes eruditos portu­gueses do século XVIII, deixou obras numerosas e variadas; uma parte foi impressa durante a sua vida, outra ficaria inédita e encon­tra-se actualmente, quase toda, na Academia das Ciências (A). Reli­gioso da Congregação do Oratório, foi um teólogo e latinista consa­grado, sócio da Academia Real das Ciências desde 1779, colaborador do Marquês de Pombal na luta pela supremacia do poder real nas suas relações com a Igreja, deputado da «Real Mesa Censória» (1768), oficial maior de línguas da Secretaria do Estado dos Negócios Estrangeiros e de Guerra, etc., etc. (B). Mais conhecido pela tra­dução da Bíblia Sagrada, segundo a Vulgata, editada inúmeras vezes até aos nossos aias, deixou entre os inéditos a Lusitânia Sacra, valioso trabalho para a história da Igreja em, Portugal, e muitos opúsculos e livros teológicos. Latinista emérito, deixou na mesma várias obras para o ensino do português e do latim, como o Novo Método de Gramática Latina, (com dez edições até 1797) e algumas análises criticas relativas a temas filológicos e literários. A história religiosa e a história nacional também mere­ceram a sua atenção, embora fosse como erudito teólogo que a sua fama atingiu mais nível (a Tentativa Theologica... foi traduzida em várias línguas).

Ora entre as suas produções inéditas encontrava-se uma que nos atraiu a atenção, como documento de interesse para a história da cultura portuguesa do século XVIII. Intitula-se Antiguidade e Religião das Estátuas e pertence à Biblioteca Pública de Évora. Até pela raridade das nossas obras setecentistas dedicadas a matérias de arqueologia artística, se tornaria digno de publicação.

383


Trata-se ao códice C X I da Biblioteca Pública de Évora que,

2 - 12

segundo a referência de Joaquim Heliodoro de Cunha Rivara e Joaquim António de Sousa Telles de Mattos, é o próprio original, retocado pelo autor (C).

Aí traça um quadro da escultura antiga, sem qualquer prurido mani­festo de apreciação estética, para a qual, decerto, lhe faltaria prepa­ração ou capacidade. A informação foi buscá-la aos autores da Antiguidade, historiadores e eruditos (a Plínio, sobretudo) ou aos grandes trabalhos de Johann Friedrich Gronov e de Johann Georg Graevius, entre muitos, como Ezechiel Spanheim ou Josephus Justus Scaliger, sem falar do Léxico de Suïdas e doutras não menos famo­sas compilações e produções da erudição clássica dos séculos XVI a XVIII, como acentuaremos nas anotações finais. Trabalho ãe erudito e não de arqueólogo; o conhecimento das obras de arte é indi­recto: sabe delas apenas por descrições ou gravuras publicadas em livros e não consta que tivesse visitado museus e colecções de está­tuas antigas. Mas neste campo de erudição também revela notáveis falhas: ignorou obras fundamentais publicadas a tempo de lhe ser­virem e largamente divulgadas (D).

Tais defeitos não impedem,, porém, que o manuscrito seja um bom documento de certo tipo de erudição, exprimindo uma caracterís­tica forma de cultura.

As obras desta espécie possuem muitos dados de interesse para o historiador da cultura ou de arte, assim como são índice da história do gosto ou das ideias.

Ainda há poucos meses foi publicado o livro de Félix da Costa, Antiguidade da Arte da Pintura, pela «Yale University Press», com introdução e notas de George Kubler (E). A importância da publicação de trabalhos desta natureza, quase todos inéditos ou hoje praticamente desconhecidos, já foi acentuada muitas vezes (F): a história da arte não se faz apenas através dos monumentos; entre nós, as colecções documentais, como as de Sousa Viterbo, ou as publicações ãe outros textos relativos às artes ou aos artistas, como as que empreendeu o Prof. Doutor Manuel Lopes de Almeida no Arquivo de Bibliografia Portuguesa, ou as que, anteriormente, foram devidas à benemérita Imprensa da Universidade de Coimbra (Sub­sídios para a História da Arte Portuguesa), vieram prestar ine­gáveis serviços aos estudiosos, reunindo uma soma de informações de permanente utilidade. Colecções como as Sources and Docu-

384 —


ments in the History of Art Series, cuja publicação decorre actual­mente, dirigida pelo Prof. H. W. Janson da Universidade de Nova Iorque (G), são prova do interesse científico que estes documentos possuem.

Quanto ao texto que editamos, consta de seis capítulos, precedidos de uma dedicatória, e foi decerto redigido como uma «explicação» da estátua de D. José, «more erudito.» Há neles certo desiquilíbrio e os dois últimos revelam uma acentuada precipitação, talvez imposta pela urgência de terminá-los num prazo curto: parece-nos até que o capítulo final não chegou a ser acabado. A origem e a evolução da estatuária antiga, os temas, as técnicas, os artistas, foram passados em revista, assim como a significação religiosa e política de que esteve investida. A tudo faremos o adequado comentário nas «ano­tações».

A extensa dedicatória é o panegírico empolado e servil do rei D. José, com bastas pinceladas de adulação ao Marquês de Pombal. Talvez por isso mesmo a obra não tivesse sido dada à estampa; a, licença para a impressão é de 3 de Outubro de 1776 e o rei morreria em 24 de Fevereiro de 1777. Os ventos mudaram e os colaboradores directos do odiado ministro não encontrariam decerto um ambiente propicio à publicação de tais páginas (H).

Na transcrição do manuscrito modernizámos o emprego das maiús­culas, suprimindo todas as que o A. prodigamente usara e que não se encontram abrangidas pelas normas oficiais. A ortografia foi respeitada, com excepção de um ou outro lapso da pena; a pontuação e a acentuação só foram corrigidas quando tal se tornava absoluta­mente necessário, para esclarecer o sentido ou para evitar dificul­dades ao leitor. As citações de autores latinos ou outros e as indica­ções bibliográficas, que no original se encontram incluídas no próprio texto, foram colocadas no rodapé das respectivas páginas e nume­radas seguidamente; apenas se deixaram ficar as citações que f azem parte integrante do período e do qual não podem ser desligadas.

Algumas vezes as notas de pé de página completam ou emendam a passagem a que se referem.

Até onde foi possível, corrigiram-se ou completaram-se as nume­rosas citações: o A. procedeu algumas vezes a uma autêntica «com­pressão» dos textos alheios (I). Não foi pequeno trabalho o de des-

385



cobrir as passagens citadas, tantas as omissões ou as insuficiências de informação bibliográfica. Basta comparar os títulos das obras tais como são indicadas no manuscrito e a transcrição que fizemos dos mesmos, com a fidelidade requerida em publicações desta espécie. Os comentários e anotações críticas serão publicados na segunda parte deste trabalho, a sair no próximo número da Cale.

386 —


NOTAS

  1. V. Catalogo das obras impressas e manuscriptas de António Pereira de Figueiredo,
    atribuído ao académico F. M. Trigoso (Lisboa, 1800). Escreve Inocêncio Francisco da
    Silva: «As suas obras inéditas, e outras egualmente importantes, foram compradas
    pela Academia Real das Sciencias em cuja livraria se conservam autografas».
    (Dicionário)... 1,223-4).

  2. V. as «Anotações», da segunda parte deste trabalho. Os dados biográficos
    respeitantes ao P.e António Pereira de Figueiredo já estão bem elucidados e encontram-se
    expostos em qualquer dos grandes dicionários enciclopédicos portugueses (Portugal,
    Grande Enciclop. Port. e Brasil., et c.)

  3. Catalogo dos Manuscriptos da Bibliotheca Publica Eborense, Lisboa, Imprensa
    Nacional, 1870. — III vol., pág. 448: «Antiguidade e religião das estatuas, por António

CXI
Pereira de Figueiredo. Cód. vol. foi. Original, retocado pelo A.» É um

2-12


volume encadernado em pano, com rótulo de carneira preta na face dá pasta superior da encadernação, em que se lê, em caracteres dourados: ANTIGUIDADE E RELIGIÃO DAS ESTÁTUAS/B. P. ÉVORA. Contém: I-IV fls. em branco + 83 fls. manuscritas (a f I. 21 v.° e 22, em branco) + I-IV, em branco. Dim. da fl.: 350 x 222 m/m.

(D) Desconhecia, entre outras, as obras de Winckelmann, como a História de
Arte Antiga, publicada em 1764 ou os Monumenti Antichi Inediti (1767-68), cujas
perspectivas originais vieram revolucionar as concepções correntes sobre a arte clássica,
grega e romana. E nem se pode alegar a sua ignorância da língua alemã, porque
algumas obras de Winckelmann já haviam sido traduzidas para o francês alguns
anos antes: Lettres sur les déconvertes d'Herculanum au comte de Brühl (1762) e a
Histoire de l'art chez les anciens «traduit par Sellius, redige par Rolinet»,Amsterdam
— Paris, Saillant (1766). Também não se compreende a ignorância de alguns trabalhos
franceses que lhe dariam boa cópia de informações, como os sete volumes do Recueil
d'antiquités égyptiennes, étrusques, grecques, romaines et gauloises, do conde de Caylus
(2.a edição, 1770) ou L’antiquité expliquée et representée en figures de Dom Bernard
de Montfaucon, obra monumental de quinze volumes in-folio (1719-1724), ou ainda
a obra de Cochin e Bellicard, Observations sur les antiquités d'Hercolanum... avec
quelques réfléxions sur la peinture et la sculpture des anciens (1757).

— 387


(E) The Antiquity of the Art of Painting, by Felix da Costa. Introduction and Notes
by George Kubler. Translated by George Kubler, George L. Hersey, Robert F. Thom­-
pson, Nancy G. Thompson, and Catherine Wilkinson. New Haven and Lindon, Yale
University Press, 1967.

(F) The exceptional rarity of such writings... (Kubler, obs. cit. p. VII).

(G) Prentice-Hall, Inc., Englewood Cliffs, New Jersey. Num dos volumes já publi­-
cados, The Art of Greece, 1400-31 B. C., editado pelo Prof. J. J. Pollitt da Yale Uni-­
versity, encontram-se muitos dos textos utilizados pelo P.e António Pereira de Figuei­-
redo, assim com em trabalhos fundamentais como o do Prof. Rhys Carpenter: Greek
Sculpture. A critical review. The University of Chicago Press, 1960.

(H) No ano anterior e aproveitando o ensejo oferecido pela inauguração do monu­-
mento a D. José, o P.e António Pereira de Figueiredo publicara nada menos de.três
folhetos alusivos ao acto solene:

  1. O Dia/das tres/Inaugurações/Breve Discurso/sobre/a/Régia Fundação/do dia VI. de
    Junho de M.DCC.LXXV./Dirigido/ao/Illustríssimo, e Excellentísssimo/Senhor/Conde de
    Oeyras,/Gentil Homem da Câmara/Del Rey Nosso Senhor,/e do Sereníssimo/Príncipe da
    Beira,/e Presidente do Senado de Lisboa./ Lisboa/na Regia Officina Typografica./Anno
    M.DCC.LXXV./ Com Licença da Real Meza Censória (10 pgs.). Termina por um:
    Epigramma/Statua/Josephi Lusitani/Cum Statua/Memnonis Aethiopici/Comparata/,
    (10 versos).

  2. Parallelo/de Augusto Cesar,/e de/Dom José/o Magnânimo/Rey de Portugal./Seu
    Author/A. P. F./Lisboa/Na Regia Officina Typografica./Anno MDCCLXXV./ Com
    Licença da Real Meza Censória (36 pgs.).

  3. Josephi Magnanimi/Lusitanorum Regis/Statua Vocalis/Auctore/ António Pereria
    Figueredio/Regiae Curiac Censoriae Decemviro Ordinário/et/Regis Ipsius Ab Epistulis
    Latinis
    /Olisipone/Ex Typographia Regia/Anno MDCCLXXV./Cum facultate Regiae
    Curiae Censoriae (62 pgs.).

(I) Entre os muitos casos desse género aponto apenas um: na nota n.° 32 vem
referida uma passagem de Arnóbio, transcrita pelo P.e Ant.° Pereira de Figueiredo:
Lápis quidem non magnus coloris furvit atque atri, indolatus et asper, et simulacro faciem
minus expressam praebens. Ora o original é o seguinte: «nisi lápis quidam non magnus,
ferri manu hominis sine ulla impressione qui posset: coloris furvit at que angulis promi-
nentibus inaequalis: & quem omnes hodie ipso illo videmus in signo oris positu, indolatum,
& asperum, & simulachro faciem minus expressam simulatione praebentem». ..

388 —
Catálogo: uploads -> ficheiros
ficheiros -> ContribuiçÃo para o estudo de estaçÕes arqueohistóricas em cabo verde os concheiros de salamanza e joão d'Évora ilha de s. Vicente
ficheiros -> DissertaçÕes apresentadas à faculdade de letras da universidade do porto
ficheiros -> Dissertações apresentadas à Faculdade de Letras da Universidade do Porto
ficheiros -> Faculdade de letras biblioteca central
ficheiros -> O homem cartesiano e o homen kantiano
ficheiros -> Universidade do porto faculdade de letras
ficheiros -> Ensaios Filológicos um manuscrito português do século XVI e o problema guanche
ficheiros -> O porto contra Junot
ficheiros -> Breves notas sobre presurias do século IX na terra portucalense
ficheiros -> FundaçÃo calouste gulbenkian serviço de Ciência Ciclo de Conferências 2011 «…uma questão de química»


Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal