J. R. R. Tolkien contos inacabados



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J. R. R. TOLKIEN
CONTOS INACABADOS

De Númenor e da Terra-média




J. R. R. TOLKIEN
CONTOS INACABADOS

De Númenor e da Terra-média


Editado por Christopher Tolkien
TRADUÇÃO

Ronald Eduard Kyrmse


Membro da Tolkien Society e do grupo lingüístico – Quendili
Nota
Foi necessário distinguir o autor do editor de diferentes maneiras em várias partes deste livro, visto que a incidência de comentários é muito diversificada. O autor aparece em tipo maior nos textos primários em toda parte; quando o editor interfere em algum desses textos, ele aparece em tipo menor, recuado da margem. No entanto, em A história de Galadriel e Celeborn, onde o texto editorial predomina, emprega-se o recuo inverso.

Nos apêndices (e também em O desenrolar posterior da narrativa de “Aldarion e Erendis”, tanto o autor quanto o editor estão no tipo menor, e as citações do autor são recuadas.

As notas aos textos dos apêndices são dadas como notas de rodapé, e não como referências numeradas; e a anotação de um texto pelo próprio autor, em algum ponto particular, é indicada em toda parte com as palavras “[Nota do Autor]”.
Introdução
Os problemas com que depara alguém que recebe a responsabilidade pelas obras de um autor falecido são difíceis de resolver. Algumas pessoas, nessa posição, podem decidir que não tornarão disponível para publicação nenhum material, exceto talvez as obras que à época da morte do autor se encontravam em estado praticamente acabado. No caso dos escritos inéditos de J. R. R. Tolkien, esse poderia a primeira vista parecer o caminho adequado, uma vez que ele mesmo, peculiarmente crítico e exigente com sua própria obra, não sonharia permitir que fossem publicadas nem mesmo as narrativas mais completas deste livro sem uma elaboração muito maior.

Por outro lado, a natureza e a amplitude de sua invenção, ao que me parece, colocam até mesmo suas historias abandonadas em posição singular. Para mim estava fora de questão que O Silmarillion permanecesse desconhecido, a despeito de seu estado desordenado, e a despeito das intenções, conhecidas porém em sua maioria irrealizadas, que meu pai tinha de transformá-lo; e nesse caso ousei, após longa hesitação, apresentar a obra não em forma de estudo histórico, um complexo de textos divergentes interligados por comentários, mas sim como entidade completa e coesa. As narrativas deste livro repousam, de fato, sobre uma base totalmente diferente: juntas, não constituem uma unidade, e o livro nada mais é que uma coletânea de escritos, díspares na forma, na intenção, no acabamento e na data de composição (e no tratamento que eu próprio lhes dei), que tratam de Númenor e da Terra-média. Mas o argumento a favor de sua publicação não é de natureza diversa daquele com que justifiquei a publicação do Silmarillion, embora sejam menos fortes. Aqueles que não renunciariam às imagens de Melkor e Ungoliant olhando, do cimo de Hyarmentir, — os campos e as pastagens de Yavanna, dourados abaixo do alto trigo dos deuses; das sombras das hostes de Fingolfin, lançadas pelo primeiro nascer da lua no Ocidente; de Beren, esgueirando-se em forma de lobo sob o trono de Morgoth; ou da luz do Silmaril subitamente revelada na escuridão) da Floresta de Neldoreth — esses descobrirão, creio, que as imperfeições da forma destes contos são de longe compensadas pela voz (agora ouvida pela ultima vez) de Gandalf, provocando o altivo Saruman na reunião do Conselho Branco no ano de 2851, ou descrevendo em Minas Tirith, após o término da Guerra do Anel, como havia enviado os anões a célebre festa no Bolsão; pelo surgimento de Ulmo, Senhor das Águas, do oceano em Vinyamar; por Mablung de Doriath escondendo-se “como um rato silvestre” sob as ruínas da ponte em Nargothrond; ou pela morte de Isildur ao sair chapinhando da lama do Anduin.

Muitos textos desta coleção são elaborações de assuntos tratados com maior brevidade, ou pelo menos mencionados, em outros lugares; e deve-se dizer logo que muito do que existe neste livro não será considerado gratificante por leitores do Senhor dos Anéis que, afirmando que a estrutura histórica da Terra-média é um meio e não um fim, e o modo da narrativa e não o seu propósito, pouco desejam continuar explorando pela exploração em si, não querem saber como se organizavam os Cavaleiros da Terra de Rohan, e deixariam os Homens Selvagens da Floresta de Druadan exatamente onde os encontraram. Meu pai certamente não lhes tiraria a razão. Ele disse em uma carta escrita em maio de 1955, antes da publicação do volume 3 do Senhor dos Anéis:
'Desejaria agora que não tivesse sido prometido nenhum apêndice! Pois acho que sua publicação em forma truncada e comprimida não satisfará a ninguém: sem dúvida não a mim; certamente, a julgar pelas cartas (em quantidade estarrecedora) que recebo, não àquelas pessoas — espantosamente numerosas — que gostam desse tipo de coisa; enquanto aqueles que apreciam o livro apenas como “romance heróico”, e consideram os “panoramas inexplicados” parte do efeito literário, desprezando os apêndices, e farão muito bem.

Agora não tenho muita certeza de que seja realmente boa a tendência de tratar tudo isso como uma espécie de vasto jogo — certamente não para mim, que considero esse tipo de coisa de uma sedução fatal. O fato de tantos clamarem por simples “informações”, ou “tradições”, é, suponho, um tributo ao curioso efeito que tem as histórias, quando se baseiam em elaborações muito detalhadas de geografia, cronologia e língua.'


Em uma carta no ano seguinte, ele escreveu:
...enquanto muitos como você pedem mapas, outros desejam indicações geológicas e não lugares; muitos querem gramáticas, fonologia e espécimes élficos; alguns querem métricas e prosódios.... Os músicos querem rnelodias, e notação musical; os arqueólogos querem cerâmicas e metalurgias; os botânicos querem uma descrição mais precisa do mallorn, de elanor, niphredil, alfirin, mallos e symbelmynê, os historiadores querem mais detalhes sobre a estrutura social e política de Gondor; pesquisadores em geral querem informações sobre os Carroceiros, o Harad, as origens dos anões, os Homens Mortos, os Beomings, e os dois magos faltantes (de um total de cinco).
Mas, qualquer que seja a visão que tenhamos desta questão, para alguns, como eu mesmo, existe um valor maior que a mera descoberta de detalhes curiosos em saber que Veantur, o Numenoriano, conduziu sua nau Entulesse, o “Retorno”, até os Portos Cinzentos com os ventos primaveris do sexingentésimo ano da Segunda Era, que o túmulo de Elendil, o Alto, foi construído por seu filho Isildur no topo da colina do farol de Halifirien, que o Cavaleiro Negro que os hobbits viram no escuridão nevoenta do outro lado da Balsa de Buqueburgo era Khamul, chefe dos Espectros do Anel de Dol Guldur — ou até mesmo que o fato de Tarannon, décimo segundo Rei de Gondor, não ter filhos (fato registrado em um apêndice do Senhor dos Anéis) estava associado aos gatos, até agora totalmente misteriosos, da Rainha Berúthiel.

A construção do livro foi difícil, e resultou um tanto complexa. Todas as narrativas estão “inacabadas”, porém em maior ou menor grau, e em diferentes sentidos da palavra, e exigiram tratamentos diferentes; mais abaixo direi algo sobre cada uma delas, e aqui apenas destacarei algumas características gerais.

A mais importante é a questão da “consistência”, mais bem ilustrada pelo trecho intitulado “A história de Galadriel e Celeborn”. Esse é um Conto inacabado no sentido mais amplo: não uma narrativa que se interrompe abruptamente, como “De Tuor e sua chegada a Gondolin”, nem uma série de fragmentos, como “Cirion e Eorl”, mas sim um fio fundamental na história da Terra-média que nunca recebeu definição conclusiva, muito menos uma forma escrita final. A inclusão das narrativas e dos esboços de narrativa inéditos sobre este tema, portanto, implica imediatamente a aceitação da história não como realidade fixa, como existência independente, que o autor “relata” (em sua persona como tradutor e redator), e sim como uma concepção crescente e cambiante em sua mente. Quando o autor não mais publica ele mesmo as suas obras, tendo-as sujeitado a sua própria crítica e comparação detalhadas, o conhecimento adicional sobre a Terra-média que se pode encontrar em seus textos inéditos muitas vezes conflitará com o que já se “sabe”; e, em tais casos, novos elementos encaixados na estrutura existente tenderão a contribuir menos para a história do mundo inventado em si do que para a história de sua invenção. Neste livro aceitei desde o inicio que assim devia ser; e, exceto detalhes insignificantes, como mudanças de nomenclatura (onde a retenção da forma dos originais geraria despropositada confusão ou um despropositado espaço ocupado pelas explicações), não fiz alterações em prol da consistência com obras publicadas; mas, sim, chamei sempre a atenção para conflitos e variações. Portanto, sob este ponto de vista, os Contos inacabados diferem essencialmente do Silmarillion, onde um objetivo primordial, porém não exclusivo, da edição era obter coesão tanto interna quanta externa; e, a exceção de alguns casos especificados, de fato tratei a forma publicada do Silmarillion como ponto fixo de referência da mesma ordem que as obras publicadas por meu pai, ele próprio, sem considerar as inúmeras decisões “não-autorizadas” entre variantes e versões rivais que influenciaram sua produção.

Em termos de conteúdo o livro é inteiramente narrativo (ou descritivo): exclui todos os escritos sobre a Terra-média e Aman que fossem de natureza essencialmente filosófica ou especulativa, e nos trechos em que tais assuntos surgem, de tanto em tanto, não lhes dediquei mais atenção. Impus uma estrutura simples e conveniente ao dividir os textos em partes que correspondem as primeiras Três Eras do Mundo, o que inevitavelmente gerou alguma sobreposição, como no caso da lenda de Amroth e sua discussão em “A história de Galadriel e Celeborn”. A quarta parte é um apêndice, e pode exigir alguma explicação em um livro chamado Contos inacabados, pois os textos que contém são ensaios generalizados e discursivos com poucos elementos de “história” ou nenhum. A seção sobre os Drúedain, de fato, deve sua inclusão original a história de “A pedra fiel”, que constitui pequena parte dela; e essa seção levou-me a incluir as que tratam dos Istari e dos Palantíri, pois esses (em especial os primeiros) são temas sobre os quais muitas pessoas expressaram curiosidade, e este livro pareceu um lugar adequado para expor o que há para ser contado.

As notas poderão parecer um tanto excessivas, em alguns trechos, mas ver-se-há que, lá onde estão mais aglomeradas, são devidas menos ao editor que ao autor, que nas suas obras tardias tendia a compor dessa maneira, avançando vários assuntos por meio de notas entrelaçadas. Em toda parte procurei deixar claro o que é editorial e o que não é. E, por causa dessa abundancia de matérias originais que constam em notas e apêndices, preferi não limitar as referências de páginas do Glossário aos textos propriamente ditos, mas sim abranger todas as partes do livro, exceto a Introdução.
Em toda parte, supus que o leitor tivesse um razoável conhecimento de obras publicadas de meu pai (mais especialmente O Senhor dos Anéis), pois agir de outro modo teria ampliado excessivamente o elemento editorial, que com certeza já seria considerado bem suficiente. No entanto, incluí em quase todos os verbetes principais do Glossário definições curtas, esperando poupar ao leitor as constantes referências a outras obras. Se minhas explicações forem insuficientes ou se tiver sido involuntariamente obscuro, o Complete Guide to Middle-earth de Robert Foster representa, como descobri pelo uso freqüente, uma admirável obra de referência.

As referências em O Silmarillion são feitas em geral apenas às páginas; em O Senhor dos Anéis, ao título do volume, livro e capítulo.

Seguem-se notas essencialmente bibliográficas sobre cada um dos textos.

***
PRIMEIRA PARTE


I
De Tuor e sua chegada a Gondolin
Meu pai disse mais de uma vez que “A queda de Gondolin” foi o primeiro conto da Primeira Era a ser composto, e não há evidências que contradigam sua lembrança. Em uma carta de 1964, declarou que o escreveu — 'da minha cabeça' durante uma licença por enfermidade no exército, em 1917”, e em outras ocasiões indicou a data como 1916 ou 1916-17. Em uma carta que me escreveu em 1944, disse: “Comecei a escrever O Silmarillion em barracas de campanha do exército, apinhadas, cheias do barulho dos gramofones”: e de fato alguns versos onde constam os Sete Nomes de Gondolin foram rabiscados atrás de uma folha de papel que estipula “a cadeia de responsabilidades em um batalhão”. 0 manuscrito mais antigo ainda existe, e ocupa dois pequenos cadernos de exercícios escolares; foi escrito rapidamente, a lápis, e depois, em grande parte de sua extensão, foi recoberto com escrita a tinta, e intensamente revisado. Com base nesse texto minha mãe, ao que parece em 1917, fez uma cópia a limpo; mas essa, por sua vez, continuou a ser substancialmente revisada, em época que não consigo determinar, mas provavelmente em 1919-20, quando meu pai estava em Oxford na equipe do Dicionário, então ainda incompleto. Na primavera de 1920, foi convidado a ler um trabalho perante o Essay Club do seu college (Exeter); e leu “A queda de Gondolin”. Ainda sobrevivem as anotações do que pretendia dizer à guisa de introdução no “ensaio”. Nelas, desculpava-se por não ter conseguido produzir um trabalho crítico, e prosseguia: “Portanto tenho de ler algo que já está escrito, e em meu desespero recorri a este Conto. Naturalmente nunca antes viu a luz do dia (...) Um ciclo completo de eventos num Mundo Élfico que eu próprio imaginei vem crescendo (melhor, sendo construído) há algum tempo em minha mente. Alguns dos episódios foram rascunhados (...) Este conto não é o melhor deles, mas é o único que até agora chegou a ser revisado, e que, por insuficiente que seja essa revisão, ouso ler em voz alta.

A história de Tuor e dos Exilados de Gondolin (como “A queda de Gondolin” está intitulada nos primeiros manuscritos) permaneceu intocada por muitos anos, apesar de meu pai em certa etapa, provavelmente entre 1926 e 1930, ter escrito uma versão curta, comprimida da história, para que fizesse parte do Silmarillion (um título que, aliás, apareceu pela primeira vez em sua carta a The Observer em 20 de fevereiro de 1938); e essa versão foi em seguida alterada para que se harmonizasse com conceitos modificados em outras partes do livro. Muito mais tarde, ele começou a trabalhar em um relato totalmente remodelado, intitulado “De Tuor e da queda de Gondolin”. Parece muito provável que este tenha sido escrito em 1951, quando O Senhor dos Anéis estava acabado, mas sua publicação era duvidosa. Profundamente alterada em estilo e perspectivas, e no entanto mantendo muitos dos pontos essenciais da história escrita em sua juventude, “De Tuor e da queda de Gondolin” teria contado com detalhes precisos toda a lenda que constitui o breve capítulo XXIII do Silmarillion publicado; mas desafortunadamente ele não foi além da chegada de Tuor e Voronwe ao último portão, e da visão que Tuor teve de Gondolin do outro lado da planície de Tumladen. Não há pista sobre as razões que o fizeram abandoná-la nesse ponto.

Esse é o texto que consta aqui. Para evitar confusão renomeei-o “De Tuor e sua Chegada a Gondolin”, pois nada conta sobre a queda da cidade. Como sempre acontece nos escritos de meu pai, há leituras variantes, e em uma curta seção (a aproximação de Tuor e Voronwe ao rio Sirion, e sua passagem por ele) há várias formas concorrentes; portanto foi necessário algum trabalho editorial de pequena monta.

Assim, persiste o fato notável de que o único relato completo que meu pai jamais chegou a escrever sobre a história da estada de Tuor em Gondolin, sua união com Idril Celebrindal, o nascimento de Earendil, a traição de Maeglin, o saque da cidade e a escapada dos fugitivos — uma história que era um elemento central na sua imaginação da Primeira Era — foi a narrativa composta na juventude. Não se discute, no entanto, que essa narrativa (deveras notável) não é adequada para ser incluída neste livro. Está escrita no estilo extremamente arcaico que meu pai usava na época, e inevitavelmente incorpora conceitos desalinhados com o mundo do Senhor dos Anéis e do Silmarillion como foi publicado. Pertence ao restante da fase mais primitiva da mitologia, “a Livro dos cantos perdidos”: obra em si muito substancial, do máximo interesse para quem se ocupa das origens da Terra-média, mas que precisa ser apresentada, se é que pode sê-la, em um estudo longo e complexo.



II
O canto dos filhos de Húrin
A evolução da lenda de Túrin Turambar é, sob alguns aspectos, a mais emaranhada e complexa dentre todos os elementos narrativos da história da Primeira Era. Como a história de Tuor e da queda de Gondolin, remonta aos verdadeiros primórdios, e existe como uma primitiva narração em prosa (um dos “Contos perdidos”) e como um longo poema inacabado em versos alternativos. No entanto, embora a “versão longa” posterior de Tuor jamais tenha ido muito longe, meu pai chegou muito mais perto de completar a “versão longa” posterior de Túrin. Foi chamada Narn i Hín Húrin; e essa é a narrativa apresentada neste livro.

Há, porém, grandes diferenças no decurso do Narn longo, referentes ao grau em que a narrativa se aproxima de uma forma aperfeiçoada ao final. A última seção (desde O Retorno de Túrin a Dor-lómin ate A Morte de Túrin) sofreu alterações editoriais tão somente marginais; porém a primeira seção (até o fim de Túrin em Doriath) exigiu grande esforço de revisão e seleção e, em alguns pontos, uma leve condensação, pois os textos originais eram fragmentários e desconexos. Mas a seção central da narrativa (Túrin entre os proscritos, Mim, o anão-pequeno, a terra de Dor-Cúarthol, a morte de Beleg pelas mãos de Túrin e a vida de Túrin em Nargothrond) constituiu um problema editorial muito mais difícil. Aqui o Narn está menos acabado e, em alguns trechos, reduz-se a esboços de possíveis evoluções da história. Meu pai ainda estava elaborando essa parte quando parou de trabalhar nela; e a versão mais curta para O Silmarillion devia esperar pelo desenvolvimento final do Narn. Ao preparar o texto do Silmarillion para ser publicado, necessariamente tive de derivar boa parte dessa seção da história de Túrin a partir desses mesmos materiais, que são de complexidade extraordinária em sua variedade e seus interrelacionamentos.

Para a primeira parte dessa seção central, até o início da estada de Túrin na habitação de Mim em Amon Rúdh, construí uma narrativa, de escala comensurável com outras partes do Narn, a partir dos materiais existentes (com uma lacuna); mas desse ponto em diante, até a chegada de Túrin a Ivrin após a queda de Nargothrond, não considerei vantajoso tentar o mesmo procedimento. Aí as lacunas do Narn são grandes demais, e só puderam ser preenchidas com o texto publicado do Silmarillion; mas em um Apêndice citei fragmentos isolados dessa parte da narrativa projetada, mais ampla.

Na terceira seção do Narn (começando em O Retorno de Túrin a Dor-lómin), uma comparação com O Silmarillion mostrara muitas correspondências próximas, e até mesmo identidades de expressão; embora na primeira seção haja dois extensos trechos que exclui do presente texto, vista que são variantes próximas de trechos que aparecem em outros lugares e foram incluídos no Silmarillion publicado. Essa sobreposição e interrelação entre uma e outra obra podem ser explicadas de diversos modos, a partir de diversos pontos de vista. Meu pai deleitava-se em recontar em escalas diferentes; mas alguns trechos não exigiam tratamento mais extenso em uma versão mais ampla, e não havia necessidade de reformulá-los por essa razão. Por outro lado, quando tudo ainda estava indefinido, e a organização final das diferentes narrativas ainda estava muito longe, o mesmo trecho podia ser experimentalmente colocado em qualquer delas. Pode-se, porém, encontrar uma explicação em outro nível. Lendas como a de Túrin Turambar haviam recebido uma determinada forma poética muito tempo atrás — nesse cubo, o Narn i Hîn Húrin do poeta Dírhavel — e frases, ou mesmo trechos inteiros, dessa obra (especialmente em momentos de grande intensidade retórica, como a fala de Túrin a sua espada, antes de morrer) seriam preservadas intatas por aqueles que mais tarde fizeram condensações da historia dos Dias Antigos (como me concebe que O Silmarillion seja).



SEGUNDA PARTE
I
Uma descrição de ilha de Númenor
Apesar de serem descritivas, e não narrativas, incluí seleções do relato que meu pai fez sobre Númenor, muito especialmente no que concerne a natureza física da ilha, pois esse relato esclarece e acompanha naturalmente a história de Aldarion e Erendis. Certamente esse relato existia por volta de 1965, e provavelmente não foi escrito muito antes dessa época.

Redesenhei o mapa a partir de um pequeno esboço rápido, só que parece o único que. meu pai jamais fez de Númenor. Apenas os nomes ou traços que se encontram no original foram registrados no redesenho. Adicionalmente, o original mostra outro porto na baía de Andúnie, um pouco a oeste da própria Andúnie. O nome é difícil de ler, mas é quase certo que seja Almaida. Ao que eu saiba, esse nome não ocorre em outra parte.



II
Aldarion e Erendis
Essa história foi abandonada no estado menos desenvolvido de todos os textos desta coletânea, e em alguns lugares exigiu um grau de remontagem editorial que me fez duvidar se seria adequado incluí-la. No entanto, seu enorme interesse, por ser a única história (ao contrário dos registros e anais) que sobreviveu das longas eras da Númenor antes da narrativa do seu fim (o Akallabêth), e o fato de ser uma história de conteúdo singular entre os escritos de meu pai persuadiram-me de que seria errado omiti-la desta coletânea de Contos inacabados.

Para se dar o devido valor a essa necessidade de tratamento editorial, é necessário explicar que meu pai usou frequentemente, ao compor as narrativas, de “esboços de enredo”, atentando meticulosamente à datação dos eventos, de modo que esses esboços se parecem um pouco com registros de anais em uma crônica. No caso em questão há não menos de cinco esquemas desse tipo, que variam constantemente na sua plenitude relativa em diferentes pontos, e com freqüência estão em desacordo entre si, em geral e nos detalhes. No entanto, tais esquemas sempre tinham a tendência a transformar-se em pura narrativa, especialmente através da introdução de curtos trechos de diálogo; e, no quinto e último esboço para a história de Aldarion e Erendis, o elemento narrativo é tão pronunciado que o texto se estende por cerca de sessenta páginas manuscritas.

Esse movimento, que se afasta de um estilo staccato no tempo presente característico de anais até uma narrativa plena, era no entanto muito gradativo, a medida que progredia a composição do esboço; e nos trechos iniciais da história reescrevi grande parte do material, tentando conferir-lhe um certo grau de homogeneidade estilística em toda sua extensão. Essa reescritura é sempre uma questão de fraseado, e jamais altera o significado nem introduz elementos não-autênticos.

O mais recente “esquema”, o texto que segui essencialmente, intitula-se A sombra da sombra: o Conto da esposa do marinheiro; e o Conto da rainha pastora. O manuscrito termina abruptamente, e não consigo dar uma explicação certa do motivo pelo qual meu pai o abandonou. Um texto datilografado, que chegava até esse ponto, foi completado em janeiro de 1965. Existe também um texto datilografado de duas páginas que julgo ser o último de todos esses materiais; trata-se evidentemente do início de algo que deveria se tornar a versão acabada de toda a história, e deriva daí o texto deste livro (onde os esboços de enredo são mais escassos). Chama-se Indis i Kiryamo “A esposa do marinheiro”: um conto da antiga Númenóre, que relata o primeiro rumor da Sombra.

Ao final dessa narrativa expus as escassas indicações que é possível dar sobre o curso subseqüente da história.

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