Jamais vemos Paris pela primeira vez; sempre a vemos de novo



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Introdução

Uma História Impossível de Paris?
Jamais vemos Paris pela primeira vez; sempre a vemos de novo...”

Edmondo De Amicis (1878)

Escrevendo a História Impossível de Paris


Em 1975, o escritor vanguardista Georges Perec decidiu registrar o que ocorria numa única praça parisiense num período de menos de vinte e quatro horas, ao longo de três dias consecutivos de outubro. Na sua Tentative d’épuisement d’um lieu parisien (1975), Perec esclarece que escolheu a Place Saint-Sulpice no sexto arrondissement para realizar seu experimento. O local era moderadamente bem equipado com os adornos de uma cidade moderna: prefeitura, escritório da receita, delegacia de polícia, três cafés (um dos quais era ainda tabacaria), um cinema, uma igreja histórica e famosa, editora, funerária, agência de viagens, ponto de ônibus, alfaiate, hotel, fonte, quiosque de jornaleiro, loja de artigos religiosos, estacionamento, salão de beleza – “e muitos outros serviços.” O objetivo dele, todavia, era deixar todas esses itens fora do seu ângulo de visão e descrever o resto: “o que acontece quando nada acontece além da passagem do tempo, das pessoas, dos carros e das nuvens”.

A crônica se estende por quase sessenta páginas. É escrita num estilo conciso, lapidar, informativo.


Três crianças conduzidas à escola. Outro carro deux-chevaux verde-maçã.

Os pombos tornam a voar ao redor da praça.

Um ônibus 96 passa, pára no ponto de ônibus de Saint-Sulpice;

Geneviève Serreau desce e toma a Rue de Canettes. Eu a chamo pra fora, batendo na janela do café, e ela sai para me cumprimentar.

Um ônibus 70 passa.

O sino da igreja pára de tocar.

Uma jovem come metade de um bolo.

Um homem de cachimbo carrega uma valise preta.

Um ônibus 70 passa.

Um ônibus 63 passa.

São duas e cinco da tarde.
O experimento “termina”:
Quatro crianças. Um cão. Uma nesga de raio de sol. O ônibus 96. São duas horas.
Os esforços de Perec de fazer a crônica “exaustiva” de um local parisiense – cobrindo o equivalente a menos de um dia na vida dos lugares vazios de uma única praça de Paris – produziram um pequeno livro.

Examinemos agora, através do prisma de Perec, a tarefa a ser enfrentada por historiadores que pretendam escrever a história de toda a cidade de Paris, em vez de um momento fugaz na vida de uma única praça urbana da mesma. A História é geralmente definida como uma disciplina que registra o que ocorreu no passado (e não apenas a passagem “do tempo, das pessoas, dos carros e das nuvens”). E, na história de Paris, de fato houve muitas ocorrências. Portanto, ao escrever sua história, nós historiadores tentamos alcançar consideravelmente mais do que o objetivo de Perec de fazer a crônica, em um único local, do “que acontece quando nada acontece”. Mesmo assim, nos vemos deparando com os seguintes “fatos” assustadores sobre o nosso tema (os quais eu listo de um modo perecquiano):


total de praças: 670

total de ruas e bulevares: 5.975

extensão das vias públicas: 5.959 quilômetros

total de prédios municipais: 318

total de fontes: 536

total de monumentos públicos: 40.000

total de lojas: 62.546

total de ônibus: 4.364

total de rotas de ônibus: 275

total de pontos de ônibus (com exceção da banlieue) : 1.754

total de táxis: 14.900

total de semáforos: 10.800

total de cafés: 2.050

total de cabeleireiros: 2.845

total de salões de beleza: 67

total de casas funerárias: 157

total de pombos: 60.000

total de cães: 200.000

total de sanitários públicos: 498

extensão de túneis subterrâneos visitáveis: 300 quilômetros

total de indivíduos residentes na cidade de Paris: 2,1 milhões

total de residências particulares: 1,1 milhão

duração da história: mais de 2.000 anos (fora a era pré-histórica)

total possível de indivíduos que já moraram em Paris ou apenas visitaram, cada um com suas próprias histórias: incontáveis


É tentador concluir a partir destas estatísticas um tanto quanto alucinantes – de praças, ruas, casas, ônibus, pombos, cães, pessoas, etc. – que escrever a história de Paris (certamente à maneira de Perec) é uma aventura impossível. Mas essa não é a única moral a ser tirada da Tentative d’épuisement. Claro, não se pode escrever uma história completa de uma cidade tão antiga, diversa e complexa como Paris – mas, de qualquer modo, isso já era sabido. Nenhuma história de coisa alguma jamais incluirá mais do que deixa de fora. Um número infinito de histórias de Paris é possível – e um número quase infinito já foi inclusive escrito. Como já observara em 1765 Piganiol de la Force, autor de um dos primeiros guias para visitantes, “estaria muito errado quem, ao ver o vasto número de livros dedicados à história de Paris, (...) imaginasse que nada mais havia a ser dito. (O meu esforço em identificar o número de livros na Biblioteca Nacional francesa com as palavras-chave histoire e Paris fez o pobre computador desistir de tão exausto). Mas nenhuma obra desta série infinita pode jamais pretender contar toda a história – de fato o propósito da atividade heróica de micro-cronista de Perec é sublinhar a impossibilidade sublime de realizar tal tarefa de forma “completa” mesmo quando se restringe o relato a um único lugar num único dia.

A história de Paris pode, portanto, ser infinitamente rica e diversa demais para que se possa abrangê-la em uma única narrativa. Porém abrangê-la é o que tentarei fazer neste livro. Em minha introdução, dou uma idéia menos do que incluí ou omiti, do que dos critérios a partir dos quais tomei minhas decisões. Ao fazê-lo, me inspirei em Georges Perec em minha tentativa de escrever uma história “impossível” de Paris.

Memória e Mito
“Paris já foi tão descrita”, observava o Barão de Pöllnitz em 1732, “e já se ouviu falar tanto dela, que a maioria das pessoas sabe como ela é sem jamais tê-la avistado.” “Jamais vemos Paris pela primeira vez,” concordou o escritor italiano e turista parisiense Edmondo De Amicis no final do século XIX, “sempre a vemos de novo...” Como sugerem essas frases, a tendência no passado era que o envolvimento com Paris viesse carregado de expectativas. Para De Amicis, as mesmas originavam de sua extensa leitura de literatura francesa, muitas obras das quais se passavam, como dizia Balzac, “na cidade dos mil romances”. Como resultado, De Amicis não podia, por exemplo, visitar a catedral de Notre-Dame ou os esgotos da cidade sem pensar em Victor Hugo, nem os jardins de Luxemburgo nem o Quartier Latin sem experimentar uma sensação de déjà vu a partir da Vie de Bohème, de Murger; nem o cemitério de Père Lachaise sem refletir sobre a Comédie humaine de Balzac, nem os quais e pontes sem evocar a poesia de Baudelaire.

A idéia de que expectativas culturais pudessem atrapalhar a experiência de conhecer Paris “pela primeira vez” não é mera percepção do final do século XIX. “Um homem pode morrer sem jamais ter visto Paris”, confirmou Konstantin Pausovsky. “E, todavia, ele terá estado lá, terá visto a cidade em seus sonhos e em sua imaginação.” Os viajantes medievais também tinham expectativas próprias quando se aproximavam da cidade pela “primeira” vez: muitos antecipavam Jerusalém ou a Babilônia (e alguns, Sodoma e Gomorra num único lugar). Em comparação, os visitantes dos séculos XX e XXI carregavam uma bagagem cultural ainda maior, que lhes pesava a partir de uma sucessão infinita de influências, tais como pintores impressionistas, poetas surrealistas, filósofos existencialistas, escritores de ficção policial, cineastas clássicos, fotógrafos urbanos, cartões postais turísticos – e outras histórias de Paris.

A noção ressaltada por De Amicis de que a experiência da cidade seria refratada por expectativas culturais sem dúvida se aplica a outros locais históricos e cidades importantes. Se no caso de Paris parece que sempre foi assim, talvez mais do que ocorra com outros destinos, isso parcialmente se deve ao fato de que a cidade há muito desfruta de um status mítico. Os historiadores nos acostumaram com a idéia de que Paris foi mitificada como a cidade da modernidade no século XIX. A cidade que Napoleão III e o Barão Haussmann redesenharam completamente nos anos de 1850 e 1860 forneceu para várias gerações o modelo de modernidade que as outras cidades faziam força para alcançar – e em que ainda habitamos quando fisicamente presentes na cidade. Mas a história parisiense foi mitificada muito antes do nascimento de Haussmann. Por exemplo, uma narrativa que se propagou a partir do século VIII sugeria que Paris era o resultado de uma diáspora troiana que se seguira à queda da cidade perante os gregos. A partir da Alta Idade Média pelo menos, Paris sempre foi miticamente moderna. O topos medieval de que Paris era “a oficina especial da sabedoria”, a concepção pós-renascentista de que a cidade era uma nova Roma, e a noção iluminista e revolucionária de que seria a líder e o mais alto patamar da civilização são três exemplos anteriores ao mito da Paris “moderna” e haussmannizada que encontramos no século XIX. Parte do mito de Paris se deve ao fato de a cidade ter gerado tantos mitos sobre ela mesma.

Se Paris sempre foi moderna, também sempre foi histórica. A crônica de Perec sobre a “passagem do tempo, das pessoas, dos carros e das nuvens” exclui o que a maioria dos versados sobre Paris saberá a respeito da Place Saint-Sulpice provavelmente antes mesmo de conhecê-la pessoalmente, ou seja, que se ergue dominando a praça uma das mais interessantes e históricas igrejas da cidade. A igreja é um exemplo notável, na verdade, daquilo que um grupo influente de historiadores sob a liderança de Pierre Nora nos últimos anos denominou de “um local de memória” – um lieu de mémoire. Com este termo, Nora indica uma instituição ou local (não necessariamente um prédio) sob o qual se focou a consciência histórica do povo francês e que ao longo do tempo recebeu como incremento incrustações da memória coletiva. É digno de nota que a grande maioria dos lieux de mémoire a que Nora e seus colegas dedicaram sua erudição são prédios, eventos ou instituições parisienses: o Panthéon, o funeral de Victor Hugo, a Exposição Colonial de 1931, o Mur des Fédérés, o Louvre, as estátuas parisienses, a Academie française, o Collège de France, o Palais-Bourbon, a catedral de Notre-Dame, a Sacré-Coeur, a torre Eiffel, etc. É tentador concluir que a própria Paris é um “local de memória” gigante, não só para os parisienses, nem mesmo apenas para o povo francês. O argumento é ainda mais irresistível quando se alarga a perspectiva e se consideram os incomparáveis museus e galerias da cidade, que desde o século XIX têm servido como um dos mais importantes repositórios da cultura artística ocidental.



Se a memória cultural, portanto, jaz armazenada e codificada no ambiente construído da cidade, é apropriado lembrar que se trata de um ambiente habitado. Afinal de contas, seria um tanto quanto grosseiro excluir os parisienses de sua própria história. Data do tempo dos gregos a noção de que uma cidade é ao mesmo tempo um local e uma comunidade. Desse reconhecimento binário deriva a conclusão de que a história de uma cidade é o resultado da interação entre os indivíduos e o tempo, e entre a ecologia e a comunidade. Aqui podemos permanecer fiéis ao projeto de Perec, tomando um lugar físico e incluindo como fonte de informações tanto os indivíduos (“pessoas”) quanto os objetos cuja passagem constitui uma história, sejam eles naturais (“nuvens”) ou fabricados (“carros”). O pequeno estudo de Perec também é útil de outro modo: ele mostra como os micro-eventos que ocorrem na praça correm em contraponto à influência que a praça tem naquilo que nela ocorre. A passagem do ônibus 96, por exemplo, é parte da história da praça, mas o local também é um evento na história do ônibus 96. Do mesmo modo, os indivíduos que aparecem como agentes livres seguindo seus próprios interesses à medida que atravessam a praça são também, vistos por outro ângulo, produtos da praça como um local de sociabilidade comunitária ou de fluxo de tráfego. A história de Paris é uma narrativa sobre um lugar que veio a ser chamado de Paris e aqueles que lá viveram ou que, como os passageiros do ônibus 96 de Perec, apenas passaram por lá.

O experimento de Perec também nos lembra que os indivíduos cuja presença na praça é registrada por ele não parecem constituir uma comunidade homogênea. Ao contrário, constituem uma coleção aleatória de indivíduos que têm – pelo que podemos julgar a partir da evidência fugaz que nos é permitido recolher – vidas, objetivos, intenções e destinos muito diversos. Para Perec, não existe o Saint-Sulpiçois médio. Trata-se de uma conclusão importante. Ela nos compele, ao escrevermos uma história de Paris, a não pressupor a existência de um parisiense médio, nem a construir uma narrativa em que – igualmente ruim – uma comunidade parisiense pensa, age ou reage em uníssono. Isso nos deixaria muito longe da realidade.


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