Jenkins jr, H. W



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JENKINS JR, H.W. Uma crise do mundo burguês. OESP, 10-9-1998

Em todo o mundo, a Lei de Gresham está tendo efeito. Uma boa moeda, o dólar, está empurrando papéis menos confiáveis, seja o ringgit da Malásia, o rublo ou as ações de companhias muito bem administradas cujas esperanças de vendas e lucros adicionais estavam ligadas ao desenvolvimento rápido no Leste Europeu, Ásia e América Latina.

Países como a Malásia, que já se beneficiaram de moedas comercializadas livremente no mercado internacional para investidores que queriam comprar ações locais ou converter lucros locais, agora olham com ansiedade e arrependimento para a China e a Índia, que ainda permanecem do outro lado da linha, entre as economias pouco abertas e muito abertas.

Há um ano, os que insistiam que as ações estavam "supervalorizadas" tinham de explicar seus argumentos para um mundo que enfrentava a perspectiva improvável de progresso ininterrupto em direção à democracia e aos mercados abertos. Mesmo que a história sugira que um quadro tão lindo tem poucas chances de durar, o mercado não consegue assimilar más notícias que ainda não aconteceram.

Agora, as más notícias aconteceram. O que determinará o quão profunda será a queda das ações é a extensão pela qual meros infortúnios financeiros levarão a brigas políticas e imposições de política econômica que pioram as condições para a recuperação.

Demorou três anos a partir de outubro de 1929 para que o Dow Jones alcançasse o fundo, com uma queda de 90%. Hoje, não há nenhuma República de Weimar, desmoralizada pela derrota, hiperinflação e desemprego maciço e suspensa desconfortavelmente em um limbo estratégico entre o Oriente e o Ocidente. Há a Rússia, desmoralizada pela derrota, hiperinflação e desemprego maciço, mas mais inclinada a implodir.

Também não há uma alternativa abrangente ao mercado global, como era o caso quando a União Soviética parecia um modelo auspicioso para países em desenvolvimento; ou quando o Japão, como sempre antes nunca do que tarde, tentou imitar o colonialismo de estilo europeu na Ásia usando um modelo que a própria Europa já achava moribundo.

Jovens gostam de soluções radicais, mas o mundo parece velho agora e, nos países que interessa, é mais provável que os governos se dediquem a um retrocesso incremental (que, em alguns casos, pode até ser construtivo) que ao abandono completo da única idéia que temos de como administrar o mundo. A Rússia tem uma trilha razoável para a recuperação: renacionalizar a indústria de gás e petróleo, tirando-as das mãos dos gânsteres e arrendando-as para a Exxon, a BP e a Shell para gerenciá-las eficientemente e produzir lucros para acabar com o problema de dívida externa; instituir um imposto fixo para introduzir os russos ao estranho conceito de que eles têm de sustentar o Estado e não o contrário; estabilizar o rublo com um conselho monetário e tornar o país seguro para empreendimentos ao acabar com a máfia.

A Malásia e Hong Kong, por alguma estranha razão, tornaram-se exemplos para os que vêem um novo ataque aos mercados livres. O primeiro-ministro da Malásia, o bastante neurótico Mahatir Mohamad, até alguns meses atrás estava gastando bilhões em símbolos de modernidade: o prédio mais alto do mundo, uma fábrica de automóveis, um corredor high-tech que seria o Vale do Silício do oriente.

Agora, ele gaba-se de usar a China e a Índia, dois países com níveis de pobreza quase africanos, como seu modelo de reforma monetária. Ele culpa judeus e especuladores, mas seu problema é o sistema de protecionismo étnico institucionalizado, ou "ação afirmativa", que criou uma classe de ricos pedintes no país. Eles formavam sua base eleitoral crucial, agora ameaçada de falência por seus credores internacionais. Outros figurões preferem mercados abertos, mas seu protegido, o vice-primeiro-ministro Anwar Ibrahim, foi demitido na semana passada e pode ser preso sob uma draconiana Lei de Segurança Interna que os malásios deixaram Mahatir impor, mesmo sendo contra os seus interesses.

Hong Kong tem o troféu Milton Friedman de mercado mais livre do mundo, mas seu banco central não é imune aos problemas repentinos. Operando segundo a teoria de que os especuladores estavam pressionando a moeda para lucrar ao vender o hang seng a descoberto, comprou ações e agora é dono de 9% do HSBC, um dos maiores bancos do mundo, sem mencionar outros blue chips locais. Isso deveria poupar os proprietários locais da dor de taxas de juros mais altas para preservar a moeda.

Não importam os prós e contras das medidas da Malásia e de Hong Kong, elas representam uma tentativa bastante mundana de proteger a burguesia local - de acordo com o espírito e os ensinamentos literais da democracia.

Ao contrário do que diziam os relatórios, a China não se desvalorizou em 1994: ela deu reconhecimento oficial ao índice do mercado de swaps, pelo qual a maioria dos lucros de exportação e investimento já está sendo convertida. Isso foi facilmente negligenciado porque a maioria do comércio e dos investimentos não chegou via Departamento de Comércio de Ron Brown, mas fluiu com o sangue de Hong Kong e Taiwain para Guangdong e as províncias do Fuji.

O Partido Comunista ganhou legitimidade ao erradicar a inflação de Chiang Kai-chek e perdeu-a de novo em 1989 quando, com preços aumentando 25%, trabalhadores urbanos juntaram-se aos protestos estudantis. A China pode continuar a atrair investimentos estrangeiros dando aos investidores mais espaço para servir o mercado local em vez de exportar. Essa é a oportunidade que as empresas ocidentais sempre quiseram. Certamente, também, Pequim tem uma chance de pular para as fileiras de potências financeiras respeitadas.

Nós temos uma obsessão por instituições financeiras porque sua evolução contínua tem um sentido. Esta é uma crise da burguesia mundial. Lênin estaria se divertindo. O Japão não pode fazer muita coisa parcialmente por causa da extrema aversão ao risco de seu eleitorado cada vez mais velho. Muito do dinheiro passeando pelo mundo e atrapalhando mercados locais vem de poupadores americanos, que têm dúvidas quanto à capacidade da Previdência Social de socorrê-los na velhice.

A ânsia de poupar caracteriza a classe-média, mas o localismo da moeda é um obstáculo à burguesia mundial emergente. A solução está na direção de um punhado de moedas que valem em todos os lugares, em vez de em algumas centenas produzidas por políticos locais e válidas apenas em sua própria jurisdição. Talvez o dinheiro privado voltará, impresso pela Fidelity, o Citigroup, a Merryll Lynch e outros depositários de poupanças da classe média. Em nossa própria era de bancos livres antes da Guerra Civil, os americanos, em média, perdiam menos poder de compra com negligências dos bancos que, depois, com a inflação. Ou talvez o dólar, o euro e o yuan se tornarão moedas universais.



Qualquer das duas possibilidades parece improvável, mas tentar segurar a riqueza com medidas de controle da moeda, como a Malásia está tentando fazer agora, é aconselhável apenas para países que queiram voltar para trás em seus níveis de desenvolvimento econômico. Pergunte para a América Latina, que ainda está tentando alcançar de novo o nível relativo atingido nos anos 40.
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