Joana Belarmino de Sousa



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Encontro29.07.2016
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Entrevista
Joana Belarmino de Sousa

Joana Belarmino de Sousa é jornalista, professora do curso de Comunicação e Turismo da Universidade Federal da Paraíba. Concluiu o doutorado no ano de 2004 no Programa de Pós- Graduação em Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Sua tese de doutorado intitulada Aspectos comunicativos da percepção tátil: a escrita em relevo como mecanismo semiótico da cultura foi orientada pelo professor José Amálio Pinheiro. Publicou na revista Benjamin Constant, seção Relato, dois trabalhos: O que vê a cegueira - nº 16, agosto/2000 e A cegueira, o braille e o jornalismo: furos de uma reportagem - nº 27, abril de 2004, ambos disponíveis no site do IBC. Em seu site Joana Belarmino de Sousa disponibiliza textos de sua autoria, o endereço é: http://intervox.nce.ufrj.br/~joana - Email: pandora00@uol.com.br



Entrevistadora: Marcia Moraes - Professora do Programa de Pós-graduação em Estudos da Subjetividade, no Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense. Coordenadora do projeto de pesquisa Ver e não ver: o teatro como dispositivo cognitivo entre jovens cegos, desenvolvido no Instituto Benjamin Constant. Email: mmoraes@nitnet.com.br
Marcia Moraes: Fale do seu trabalho de doutorado.

Joana Belarmino: Quando ingressei no doutorado eu estava interessada em investigar a questão do estigma e suas representações dentro do jornalismo. Porém, os conteúdos da semiótica e das ciências cognitivas foram me encaminhando gradativamente para o trabalho sobre os aspectos semióticos da escrita em relevo braille, a percepção tátil e a escrita braille como um mecanismo semiótico da cultura. Tentando esboçar o percurso seguido, eu diria que o trabalho começa fazendo uma contextualização histórica do braille, aproximando-o, entretanto, da realidade comunicativa presente na cultura, e também, daqueles estudos preocupados com a história da escrita em geral. Acho importante esse viés do meu trabalho, isto porque, na história da escritura humana, o braille não é contemplado, sequer é lembrado como uma modalidade de escrita, como uma atualização da escrita manuscrita em uma escrita tátil. Depois eu parto para a compreensão semiótica do braille, sua qualidade de signo tátil, sua multiplicação em signos outros, aquilo que os semioticistas chamam de "semiose", o signo em ação/expansão. O quarto capítulo do trabalho envolve cegueira e cultura, cegueira e cognição e aproxima a realidade estudada das contribuições relevantes e atuais no âmbito das ciências cognitivas. Finalmente, o quinto capítulo focaliza o braille dentro da perspectiva da semiótica da cultura. Esse código já foi reconhecido na cultura? Quais as relações que se estabelecem entre o código braille e a cultura tecnológica? Penso que a intervenção do braille na vida das pessoas cegas é um fenômeno que ainda não foi devidamente estudado em toda sua plenitude. Penso que eu posso ter dado um passo inicial, ao levantar questões neurocognitivas, questões comunicativas, questões culturais.

Marcia: O seu mestrado foi também no campo de pesquisas sobre a cegueira?

Joana: Sim. Mas eu estava preocupada com uma questão sociológica, eu quis entender os mecanismos de organização e de funcionamento do movimento associativista dos cegos.¹ Claro que eu me aproximei dos estudos sociológicos gerais, para constatar que esses movimentos são filhos da cultura social mais ampla, e que, portanto, alimentam-se dos modos de pensar embebidos nesta cultura.

Marcia: Em sua tese de doutorado, você afirma que a modernidade ocidental foi marcada por um paradigma visuocêntrico que identificava ver e conhecer. Ao afirmar a especificidade do conhecer da pessoa cega, você propõe compreender o cego através de uma noção __ "mundividência tátil". Explique um pouco mais o sentido desta noção e as consequências que dela se podem tirar se pensarmos nas práticas pedagógicas dirigidas aos cegos.

Joana: A "mundividência tátil" é o próprio complexo tátil. Com a concepção, eu quis aproximar-me de um conceito desenvolvido pelo biólogo alemão Jakob Von Uexküll, ou seja, o conceito de "Umwelt". Para ele, todo organismo vivo possui um meio ambiente particular no qual se move, aliado a um mundo interno particular, um modo próprio de estar, perceber e aprender o mundo, determinado por suas condições biológicas, que influenciam na construção da apreensão/cognição do mundo à sua volta. Ora, o sujeito cingido pela condição da cegueira serve-se fundamentalmente do complexo tátil para apreender e objetivar o mundo à sua volta, o que nos leva a pensar na "mundividência tátil" como uma espécie de subconcepção particular da concepção de "Umwelt", esse importante conceito criado por Uexküll para compreender como as espécies vivas movem-se no mundo e o compreendem.

A "mundividência tátil" é a chave cognitiva privilegiada das pessoas cegas para a sua apreensão, compreensão, o seu estar/perceber o mundo. Isto não pode ser ignorado pelos programas pedagógicos, os programas artístico/culturais, sob pena de se estar promovendo a exclusão desse "mundo relevante tátil" no processo ensino/aprendizagem. A história tradicional da educação dos cegos revela uma tentativa para uma espécie de homogeinização das práticas pedagógicas, tentativas de aproximação das estratégias de instrução geral desses indivíduos, àquelas que foram pensadas para as pessoas que enxergam. A educação tradicional quase nunca se preocupou em estabelecer no cotidiano da pedagogia o diálogo entre "mundividência tátil" e o mundo da visualidade. Penso que esse seria o passo fundamental para a inclusão social. Reconhecer e incluir a "mundividência tátil" como a chave cognitiva por excelência no processo ensino/aprendizagem das pessoas cegas e propiciar o diálogo complementar entre complexo tátil e complexo visual.



Marcia: Na sua tese, você cita o paradoxo de Molyneu², afirmando que na questão levantada por ele o que está em jogo é uma interrogação sobre o modo de ver e não sobre o não ver, o que mais uma vez, parece reafirmar o paradigma visuocêntrico. No entanto, em muitos outros textos, como por exemplo, no texto do Oliver Sacks³, o paradoxo de Molyneux é apresentado como sendo uma interrogação sobre a cegueira, ou sobre o modo como os sentidos se relacionam. Como você relaciona a sua leitura do paradoxo de Molyneux com estas outras leituras?

Joana: Eu, na verdade, li pouca coisa do Oliver Sacks, quando da pesquisa da minha tese. Já o paradoxo de Molyneux é apresentado por vários estudiosos do fenômeno da visão. Penso que, embora todos esses cientistas do tempo de Molyneux estivessem preocupados em compreender a cegueira, o que parece, os obcecava, era o "como ver", após a supressão da limitação sensorial. É um pouco o que persegue a tele-novela, o cinema, a milagrosa cura, a carga dramática desse episódio. É preciso reconhecer que Oliver Sacks vai fundo na questão da pós-cegueira, se pudermos chamar assim. É ele que apresenta a difícil e, às vezes, impossível readaptação da pessoa cega, agora posta no mundo da visualidade.

Um dos melhores tratados acerca dessa problemática do ver e, mais particularmente, da cegueira, ainda é a carta que Diderot escreveu, A carta sobre os cegos para os que vêem.4 Ao seu tempo, Diderot tratou muito bem da "mundividência tátil", sem, claro, utilizar essa expressão. A linguagem é sensualista, às vezes exagerada em alguns problemas. A carta de Diderot não é bem vista por muitos pesquisadores cegos. A meu ver ela é a matriz filosófica do braille, porque ele clama por uma linguagem tátil que seja simples, à base de números, e o braille é mesmo uma espécie de arranjo lógico-matemático. A carta de Diderot é um impressionante tratado sobre o complexo tátil.



Marcia: Você considera que os atuais programas de computador, como, por exemplo, o DOSVOX, substituem o braille na questão da educação do cego? No futuro, você acredita que poderemos prescindir do braille como ferramenta de ensino da leitura e da escrita aos cegos?

Joana: A tecnologia não pode ser substituta do braille no processo de alfabetização da criança cega. Privar uma criança do aprendizado da escrita manual, seja esta em relevo, seja manuscrita, é algo como privá-la de uma importante conquista cultural. Em 4 de janeiro do próximo ano estaremos comemorando o bicentenário de Louis Braille; a escrita em relevo já tem quase duzentos anos. Nada melhor surgiu até agora. Difícil fazer previsões nesse terreno, mas penso que a vida do braille ainda será longa. Lamentavelmente, enquanto que na educação especial se negligencia um pouco o braille, ao nível da cultura, a nossa escrita ganha espaços nos produtos mercadológicos, nos bens de serviços, como elevadores, terminais de atendimento bancário e outros. O mundo está se braillicizando. Será que os educadores de crianças cegas vão ficar à margem?

Marcia: Em seu trabalho você menciona uma estreita relação entre o braille e o desenvolvimento da percepção entre cegos. Fale mais sobre este ponto.

Joana: Esta questão definiu-se melhor em minha mente quando eu estava estudando neurociências e ciências cognitivas. Pensei nos cegos da era pré-braille, na sua prodigiosa memória e na sua comunicação oral, e pensei nos cegos pós-braille. Nestes, o gesto de ler e escrever abriu possibilidades novas de conexões neuronais, aprendizado cerebral ou reaproveitamento de sinapses e conexões que nunca por certo haviam sido ativadas antes. A alfabetização da criança cega, se for bem feita, se for ensinado à criança utilizar as duas mãos no ato da leitura, promove o diálogo entre mão e cérebro, que é o diálogo da competência, da estruturação da linguagem, da ampliação da sua formação intelectual. Cada vez mais os pesquisadores debruçam-se em questões como: O que acontece com o cérebro de um cego de nascença quando ele está lendo em braille? Que setores do seu cérebro são ativados? E com aqueles cegos que já enxergaram, o que acontece? Os resultados são curiosos. Nos cegos de nascença, parece, ativam-se os centros responsáveis pela visão, que em seu cérebro, supostamente estão subutilizados. Nos que já enxergaram, ativam-se os centros da constituição do discurso. Por quê? Essas perguntas são tão impressionantes! Elas acenam para a profundidade dos mistérios da nossa cabeça. Elas apontam para a plasticidade do nosso cérebro. Isso tudo é fantástico e nos diz que o braille é ferramenta indispensável para nosso crescimento neurossensório-motor.

NOTAS DE RODAPÉ

1.Joana Belarmino concluiu o mestrado no ano de 1996, no curso de Ciências Sociais da Universidade Federal da Paraíba. A dissertação intitulada A luta dos grupos estigmatizados pela cidadania plena: um estudo sobre o movimento associativista dos cegos na Paraíba foi orientada pelo professor Gilvandro de Sá Leitão Rios.

2. No século XVII o cientista irlandês William Molyneux endereça carta ao filósofo John Locke, levantando uma questão acerca de um cego de nascimento que recupera a visão na vida adulta. Eis o problema: "Supõe-se um cego de nascença que se tenha tornado homem feito, e a quem se ensina a distinguir, pelo contato, um cubo e um globo de mesmo metal e quase de mesma grandeza, de modo que, ao tocar em um ou em outro, possa dizer qual é o cubo e qual é o globo. Supõe-se que, estando o cubo e o globo colocados sobre uma mesa, o referido cego venha a usufruir da visão; e se lhe pergunta se, vendo-os sem tocá-los, poderá discerni-los e dizer qual é o cubo e qual é o globo" . Diderot, D. Carta aos cegos para o uso dos que vêem, p. 21. In: Textos escolhidos. Diderot. São Paulo: Abril Cultural 1979.

3. Sacks, O. Um antropólogo em Marte. São Paulo: Cia. das Letras, 1999.

4. Diderot, D. Carta aos cegos para o uso dos que vêem. In: Textos escolhidos. Diderot. São Paulo: Abril Cultural, 1979.


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