Joaquim Inojosa e o jornal Meio-Dia (1939-1942)



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Joaquim Inojosa e o jornal Meio-Dia (1939-1942)

João Arthur Ciciliato Franzolin (UFRJ)

Em 1989 e 1990, em meio à agitação causada pela queda do Muro de Berlim, a reunificação da Alemanha e o fim do bloco soviético, além do término da ditadura militar brasileira, os repórteres Geneton Moraes Neto e Joel Silveira, que esteve presente na Europa como correspondente de guerra, lançaram Hitler/Stalin: o pacto maldito. Concebido como uma ampla reportagem sobre o pacto nazi-soviético de 1939, Joel Silveira responsabilizou-se pela descrição dos acontecimentos europeus enquanto a Geneton Moraes Neto coube dar conta do contexto brasileiro. O livro parecia mais um volume sobre a guerra, a exemplo dos muitos produzidos a cada ano, não fosse por um pequeno detalhe: em suas páginas encontrava-se a obscura história de um jornal brasileiro que teria se colocado ao lado da Alemanha, de Hitler e do seu regime. Além disso, a trajetória do diretor do jornal, autor conhecido e considerado importante difusor dos ideais do movimento modernista no Nordeste e próximo de seus líderes, era, no mínimo, intrigante. Entretanto, a obra não suscitou debates ou reflexões mais profundas quando do seu lançamento e, em pouco tempo, foi praticamente esquecida.

O referido jornal chamava-se Meio-Dia e foi fundado e dirigido por Joaquim Inojosa. O intuito da pesquisa foi o de esclarecer a trajetória do vespertino, identificar sua linha editorial e mapear as representações difundidas em suas páginas a respeito do Estado Novo, da Segunda Guerra Mundial e dos países em luta. Trata-se de tomar o jornal como fonte e objeto.

As primeiras pistas foram fornecidas pelo já citado livro de Joel Silveira e Geneton Moraes Neto, que se referiram à agência de notícias alemã Transocean como responsável pelo financiamento de alguns jornais brasileiros, dentre eles o Meio-Dia. Entretanto, a afirmação não é investigada em profundidade, razão pela qual se procurou esclarecer exatamente quando a agência passou a ocupar as páginas do jornal e qual teria sido o seu significado para os rumos do vespertino. Vale lembrar que, embora o partido nazista no Brasil tenha sido proibido em 1938 (DIETRICH, 2007, p. 177), as atividades de empresas alemãs, como a Transocean, continuaram até 1942, quando o Brasil entrou efetivamente na Segunda Guerra Mundial ao lado dos Aliados.

Na impossibilidade de dar conta da integralidade do vespertino, optou-se pela leitura sistemática dos editoriais, que não eram assinados, e pelos artigos de Inojosa, que expressavam a opinião do cotidiano. A partir desses textos, foi possível perceber as oscilações no posicionamento do jornal durante o período em que circulou (1939-1942).

O trabalho com a fonte periódica demanda cuidados específicos, já que sua estrutura, materialidade e conteúdo devem ser problematizados. Além disso, é importante não perder de vista que a matéria-prima da pesquisa é de conteúdo opinativo e, como bem destacou Capelato (1988, p. 15), “todos os jornais procuram atrair o público e conquistar seus corações e mentes. A meta é sempre conseguir adeptos para uma causa, seja ela empresarial ou política, e os artifícios utilizados para esse fim são múltiplos.” Na mesma direção, deve-se ter em vista que

[...] jornais e revistas não são, no mais das vezes, obras solitárias, mas empreendimentos que reúnem um conjunto de indivíduos, o que os torna projetos coletivos, por agregarem pessoas em torno de idéias, crenças e valores que se pretende difundir a partir da palavra escrita. [...] Daí a importância de se identificar cuidadosamente o grupo responsável pela linha editorial, estabelecer os colaboradores mais assíduos, atentar para a escolha do título e para os textos programáticos, que dão conta de intenções e expectativas, além de fornecer pistas a respeito da leitura de passado e de futuro compartilhada por seus propugnadores.(LUCA, 2005, p.140, grifo da autora)


Assim, os periódicos possuem um projeto político, apresentado diariamente aos seus leitores: enganam-se os que acreditam que um jornal tem conteúdo e missão puramente informativos. De fato, os editoriais e artigos de Inojosa no Meio-Dia exprimiam uma visão particular a respeito dos acontecimentos da guerra, e eram divulgados com fins determinados, ou seja, procuravam influenciar a opinião do público leitor. Daí a importância da análise dos textos publicados.

A pesquisa insere-se na interseção entre a História Cultural e a História Política e valeu-se da noção de representação, tal como apresentada Roger Chartier. De acordo com o autor, estas são construídas por grupos e vinculam-se aos interesses dos mesmos, razão pela qual não produzem discursos neutros (CHARTIER, 1990, p. 17). O historiador alertou, ainda, para o significado do suporte e enfatizou como a materialidade é decisiva para capturar a atenção do leitor, sugestioná-lo e prescrever leituras (CHARTIER, 1990).

No caso específico dos periódicos, é importante destacar que

[...] o conteúdo de jornais e revistas não pode ser dissociado das condições materiais e/ou técnicas que presidiram seu lançamento, os objetivos propostos, o público a que se destinava e as relações estabelecidas com o mercado, uma vez que tais opções colaboram para compreender outras como formato, tipo de papel, qualidade da impressão, padrão da capa/página inicial, periodicidade, perenidade, lugar ocupado pela publicidade, presença ou ausência de material iconográfico, sua natureza, formas de utilização e padrões estéticos. A estrutura interna, por sua vez, também é dotada de historicidade e as alterações aí observadas no decorrer do tempo resultam de complexa interação entre técnicas de impressão disponíveis, valores e necessidades sociais. Observações semelhantes aplicam-se aos anúncios, que tem sido alvo de estudos individualizados (LUCA, 2008, p. 118).


Vale ainda ressaltar que, devido à falta de documentação relativa à recepção do periódico pelo público leitor, tornou-se impossível analisar quais teriam sido as apropriações feitas por aquele a respeito da matéria opinativa e da publicação em si.
Meio-Dia - uma análise de sua trajetória e materialidade:
A trajetória do jornal Meio-Dia, que circulou de março de 1939 a outubro de 1942, praticamente confunde-se com a biografia de seu diretor-proprietário, Joaquim Inojosa. Para a compreensão do jornal, é importante ter em conta a atuação de Inojosa enquanto jornalista durante os anos de 1930 a 1945, período particularmente turbulento tanto nacional quanto internacionalmente.

Com o advento da Revolução de 1930, conseguiu Inojosa, por meio de um salvo-conduto, abandonar o Nordeste e chegar ao Rio de Janeiro, onde se empregou em O Jornal, órgão da cadeia dos Diários Associados de Assis Chateaubriand. Em 1934, reorganizou uma indústria de tecidos em Minas Gerais, a “Companhia de Fiação e Tecelagem Industrial Mineira” (SILVEIRA; MORAES NETO, 1990, p.355), que faliu em 1939. Em março do mesmo ano fundou o vespertino Meio-Dia, que circulou até outubro de 1942, data a partir da qual Inojosa afastou-se da imprensa, atividade que retomou apenas em 1948.

O Meio-Dia circulou em pleno Estado Novo e, por certo, teve que se registrar no Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Para compreender a história do vespertino é necessário retroagir a outubro de 1938, quando Inojosa firmou um contrato com a Linotipo do Brasil, representante da Mergenthaler Linotype Company, para a compra de equipamentos de impressão para um jornal (SILVEIRA; MORAES NETO, 1990, p.412). Este surgiu alguns meses depois, em 1º de março de 1939 e contou, durante sua tumultuada existência, com vários colaboradores importantes: Oswald de Andrade, que escrevia a coluna “Banho de Sol” e “De Literatura”; Jorge Amado, encarregado da página “Letras-Artes-Ciências”, além de Joel Silveira, já na época um expoente do jornalismo carioca.

Sua edição inaugural foi efusivamente saudada por várias personalidades políticas e jornalísticas da época, como o ministro da Justiça Francisco Campos, autor da carta constitucional de 1937, o diretor do DIP, Lourival Fontes, Assis Chateaubriand, dono da cadeia dos Diários Associados, Herbert Moses, então presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Pouco depois da estreia, chegou mesmo a receber uma mensagem de congratulação de Getúlio Vargas.

Segundo consta na reportagem de Geneton Moraes Neto, o jornal teve existência conturbada, pois sua orientação pró-Eixo causou-lhe inúmeros problemas e desentendimentos com o DIP e o Conselho Nacional de Imprensa, até o seu fechamento em outubro de 1942.

O vespertino circulou, originalmente, em três edições (surgindo às vezes uma quarta edição, chamada de extra pelo jornal), sendo que a primeira continha 16 páginas. A princípio, as edições subsequentes aumentavam o número de páginas até o final do dia, chegando a 20 ou 24 e, para tanto, se utilizavam de material proveniente das agências telegráficas, bem como rearranjavam o conteúdo publicado na primeira edição a fim de ampliar o exemplar. Isso se modificou com o passar do tempo e, no início de 1940, o jornal mantinha três edições diárias (agora denominadas primeira edição, ante-final e final), com 8 páginas cada.

Em dezembro de 1939, as dimensões do periódico foram alteradas para formato maior; o uso de caricaturas de personalidades foi artifício utilizado unicamente em março daquele ano, e não foi detectado seu emprego novamente em 1939. No mês de dezembro passou a ocorrer maior utilização de fotos, que ilustraram todas as edições a partir de então.

O ano de 1940 trouxe, ainda, nova reorganização, com o aparecimento de editoriais não assinados e uma profusão de articulistas alemães da Transocean, bem como o suplemento literário do Meio-Dia, chamado “Letras, Artes, Ciências”, que, a princípio, esteve sob o comando de Jorge Amado. Ao mesmo tempo, as fotos passaram a ser fornecidas pela já citada agência alemã Transocean. Em 1941, já não contava o jornal com Jorge Amado ou qualquer outro colaborador da esquerda ou de tendências esquerdistas, pois a invasão da União Soviética por Hitler colocou novamente nazistas e comunistas em lados opostos, o que pôs um fim ao dilema iniciado em agosto de 1939, com o pacto de não-agressão germano-soviético.

O expediente do vespertino, tal como nas suas edições, foi sempre alvo de mudanças, com inúmeros secretários de redação. Nele estampavam-se o nome do diretor-proprietário no cabeçalho (no caso, Joaquim Inojosa) juntamente com o do secretário (se houvesse) e o do gerente, cargo este ocupado por Mário da Trindade Henriques durante o período já consultado. José Mandina era o responsável pela publicidade, mas foi substituído, por um curto período, em dezembro de 1939, por Oswaldo Soares de Pinho. A partir de 1941, passaram a figurar também naquele espaço todas as sucursais do Meio-Dia, no Brasil e no exterior. Segundo dados presentes no próprio jornal, a sucursal do exterior localizava-se em Berlim e seu diretor era Silva Monteiro, que também exercia a função de articulista. Já as filiais brasileiras localizavam-se em São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte, Recife, Goiás e Porto Alegre.

A publicidade também apresentou significativas mudanças, aliás, como todo o conteúdo do vespertino. Em março de 1939, havia anúncios da Tecelagem de Seda e de Algodão de Pernambuco S.A, que, conforme revelou a consulta aos arquivos, era propriedade do sogro de Joaquim Inojosa, João Pessoa de Queiroz; da Companhia de Fiação e Tecelagem Industrial Mineira, a já citada empresa de Inojosa; Casas Pernambucanas; Antarctica; Klabin Irmãos & Cia., além da Westinghouse, a única empresa estrangeira. Tal situação transformou-se em 1940, quando os anúncios tornaram-se, predominantemente, germânicos. Alguns exemplos: Linhas Aéreas Condor; Banco Germânico da América do Sul; Banco Alemão Transatlântico; Bayer; Siemens; Merck, entre outras. Deve-se levar em conta que a publicidade foi peça importante para a averiguação do grau de envolvimento do periódico com a Transocean.

O artigo de Joaquim Inojosa, publicado como editorial, localizava-se na primeira ou segunda página da primeira edição. Nas seguintes, podia figurar na terceira ou quarta páginas, já que os exemplares tinham sempre sua diagramação alterada no decorrer do dia. De forma mais frequente, o texto de Joaquim Inojosa era publicado na segunda página, no canto superior esquerdo, e variava de tamanho. Sua periodicidade era irregular, passando a ser publicado diariamente apenas a partir de 1940. Os editoriais, por sua vez, surgiram em 1939 e ocuparam geralmente a segunda página, embora sem lugar definido. Sua periodicidade também era inconstante, e tornaram-se correntes no vespertino apenas depois do ataque alemão à Bélgica, Holanda e Luxemburgo em maio de 1940.

Outro dado importante a ser considerado é o fato de que a orientação ideológica do Meio-Dia não foi sempre nazista. Em março de 1939, o jornal contava com uma linha editorial com alinhamento próximo às democracias ocidentais. Curioso notar que, nesse período, não havia extensa colaboração da Transocean, nem tampouco possuía o periódico publicidade apenas de empresas alemãs, embora estivessem desde o princípio presentes esses dois elementos. Os dois fatores mencionados, alterados a partir de 1940, são indícios importantes da mudança de rumos que se processou. Para exemplificar a mudança na linha editorial, eis dois artigos de Joaquim Inojosa. O primeiro foi publicado em 23 de março de 1939, chamado “Princípio Democrático”, no qual se louvava a política inglesa:


Eden, o simpático ex-secretário do Foreign Office, é uma das inteligências políticas mais expressivas da Inglaterra. A sua palavra dia a dia se reveste de mais autoridade, sobretudo no instante em que os acontecimentos confirmam certas previsões, feitas quando ocupava uma pasta no Gabinete. O ânimo frio do inglês receou, então, que o ministro precipitasse o país numa guerra. Ele apenas reagia, no momento, contra o previsto desfecho dos fatos que atualmente sacodem os nervos da Europa.

Eden tinha razão, se considerarmos o movimento de reação que ora se esboça entre as democracias européias. Mas os adversários apresentavam, naquela época, motivos ponderosos, dentre os quais o de se não encontrar a Inglaterra devidamente armada. E foi por isso que Chamberlain resolveu pacificar a Europa, enfrentando a tempestade com um guarda-chuva sem aspas...

Nada, porém, como a experiência dos fatos... Para Eden, quando no poder, apresentava-se pouco sedutora qualquer aliança da Inglaterra com os países totalitários. Hoje, a interpretarmos bem o seu último discurso, modificou-se-lhe a linguagem. Não lhe importam mais os regimes. Podem ser estes “branco, preto, cor de rosa ou vermelho”. O que interessa à velha Albion é “saber se esse governo está disposto a ligar-se a outros, caso se torne necessário defender a paz”.



A expressão reflete bem o sentimento da democracia inglesa. Cada povo tem o regime que merece, embora, muitas vezes, seja digno de regime diferente... Mas a Inglaterra quer saber apenas da conduta internacional dos diversos países, desprezando-lhes as formas de governo. Pensassem todos assim, traçassem os ditadores essa norma de “boa vizinhança” (porque os continentes, hoje, são todos vizinhos), e talvez maior confiança mútua e certa tranqüilidade reinasse entre os povos...

Esse é, porém, um princípio democrático, que só encontra eco nos espíritos formados em regimes de liberdade.

As palavras de Eden não têm oportunidade na América, onde a “conduta internacional” é clara, tradicional e coerente; onde cada povo vive bem com o seu regime, que por sinal é todo ele cor de rosa, e não inveja nem estranha o regime do vizinho.

Na Europa, entanto, deveriam servir de paradigma, como remédio mais pronto à cura de certas enfermidades políticas, que ameaçam destruir civilizações milenares [...] (INOJOSA, 1939, p.02, grifo meu).
Já em 1941, quando o periódico recebia farto material da Transocean, Inojosa editou “Missa de 7º dia...” em 30 de abril, cujo tom era particularmente virulento em relação à Inglaterra:
Winston Churchill proferiu palavras de desalento. Verdadeira missa de sétimo dia, o seu discurso. Frases de um vencido, que não sabe por onde recomeçar a vida. Falou em situação moral quando é essa, justamente, a que mais lhe deve pesar no ânimo.

Porque, prometendo vitórias ao seu povo, não lhe dá senão sucessivas derrotas, de tal ordem que passa a não merecer fé o que promete. É esse, hoje em dia, o aspecto real de sua posição na política britânica: de um chefe de governo que de tanto fracassar não tem mais autoridade para prometer.

Quando o homem público desce a um grau tão persistente de descrédito, ele está com a sua carreira irremediavelmente encerrada.
O povo inglês acha-se cansado de derrotas. Os políticos lhe ocultaram a verdadeira situação, que ele, somente agora, começa a compreender. Por isso mesmo, Churchill teve de proferir uma de suas arengas, não para justificar a “estratégica retirada” da Grécia, mas para anunciar que na África e no Atlântico é que ajustará contas com os inimigos da judiaria inglesa...
Entanto, devemos convir em que para a Inglaterra não está esgotada a lista de vítimas. As seculares e afiadas garras do Leão Britânico ameaçam erguer-se contra Espanha e Portugal, ou, do outro lado, contra a Turquia. O desembarque de tropas no Iraque entremostram que os ingleses querem mesmo “combater, recuando”, até os confins do seu Império...

Até lá, porém, irão os exércitos do “eixo” em perseguição tenaz aos seculares inimigos da humanidade. (INOJOSA, 1941, p.02, grifo meu).
Tais excertos ajudam a exemplificar a mudança da linha editorial - a qual passou de uma posição pró-Aliados para a defesa incondicional do Reich alemão - e demonstram até que ponto o discurso do jornal foi permeado pela doutrinação de guerra nazista. Por conseguinte, foram essenciais para determinar a participação de empresas e da Embaixada Alemã nas páginas da publicação.
Conclusões
Os editoriais, como já se ressaltou, surgiram no final de 1939 e desde o princípio foram quase sempre publicados na segunda página, aparecendo, eventualmente, na primeira. Os textos eram sempre divulgados sem nenhum tipo de assinatura, e possuíam títulos diferentes a cada edição, de acordo com o desenrolar da guerra. Não raro eram discutidas realizações do Estado Novo, bem como era exaltada a figura do presidente Getúlio Vargas. O que diferenciava o editorial do resto do conteúdo era o fato do mesmo ser publicado em um Box, que podia aparecer em qualquer parte da segunda página, porém, sempre em destaque. Em períodos nos quais os acontecimentos da guerra tomavam grandes proporções, podiam ser publicados mais dois ou até três editoriais que mantinham, no entanto, a mesma diagramação. Convém lembrar que o editorial deve “ter sempre em vista a orientação da casa, para evitar freqüentes mudanças de opinião” (RAMOS, 1970, p. 97). O material analisado revelou que os editoriais coadunavam-se perfeitamente com a linha ideológica dos artigos de Joaquim Inojosa nos anos de 1940 e 41, quando o escritor pernambucano passou a apoiar as forças do Eixo no Meio-Dia. Para exemplificar, eis alguns trechos do editorial “Palavras de um vencedor”, publicado em 05 de maio de 1941. Nele está escrito:

O chefe da nação alemã, Adolf Hitler, falou ontem perante o Reichstag, dando uma extensa explicação dos últimos acontecimentos bélicos que terminaram com a derrota da Iugoslávia e da Grécia, as duas últimas vítimas de Londres. Não só os homens que compõem o Reichstag alemão ouviram com a máxima atenção as palavras do Führer e sim o mundo inteiro. Ali estava falando um homem que com mão férrea e vontade inquebrantável devolveu ao seu país, humilhado em 1918, o lugar de esplendor que lhe compete no concerto das nações.

[...] Fechem seus olhos e tapem seus ouvidos aqueles que se negam, na sua falta de lógica, a acreditar nas palavras sensatas dum homem que se baseia em fatos e unicamente em fatos e que não obstante os inomináveis ataques diários de seus inimigos possui a grandeza de espírito de afirmar àqueles povos que foram instigados na luta contra a Alemanha que os alemães não lhes guardam ódio ou rancor.



Falou ontem um vencedor de batalhas travadas quer pelas armas quer por fecundo trabalho para reerguimento duma nação. Adolf Hitler mostrou-se mais uma vez um gênio criador, não um fanático, nem um político ambicioso, e sim um homem que o destino escolheu para salvar a humanidade para sempre do jugo daqueles políticos para os quais os povos apenas significam simples fatores de lucros que se condenam à miséria e mesmo ao extermínio, desde que os interesses dos capitalistas internacionais assim o determinem. (MEIO DIA, 1941, p.02, grifo meu).
Em 1940 e 1941, o jornal continuou apoiando as forças do fascismo se utilizando de um artifício próprio da propaganda nazista: a ideia de que seu inimigo no momento, a Inglaterra, era uma nação governada por uma plutocracia, sistema de governo no qual o poder é exercido pelos mais ricos. Além disso, foram veiculadas, a partir de 1941, pesadas críticas a respeito da União Soviética (URSS), nas quais se ressaltava a desumanidade do regime comunista, algo que igualmente foi alvo de críticas por parte da propaganda alemã. Como foi possível observar, o jornal tornou-se, a partir de 1940, um baluarte do nacional-socialismo alemão e de seus ideais, devido à constante participação de agências de notícias da Alemanha, como a Transocean, que fornecia imagens, textos e fotos e até dinheiro para a manutenção do vespertino.

Pode-se precisar o momento em que dinheiro alemão passou a financiar o Meio-Dia, uma vez que suas páginas foram inundadas com propaganda, editoriais e textos do proprietário que glorificavam a Alemanha, suas conquistas na guerra e seu regime. As semelhanças entre o material publicado em revistas alemãs e o presente no vespertino carioca reforçaram o argumento segundo o qual o Meio-Dia foi transformado em órgão difusor da propaganda nazista no Brasil, isso num momento em que o partido já fora proibido de atuar em terras brasileiras. No final de 1941, com o ataque japonês a Pearl Harbor, e principalmente em 1942, com o rompimento de relações do Brasil com a Alemanha (janeiro) e a posterior declaração de guerra ao Eixo (agosto), foi impossível para o jornal manter sua linha editorial. Some-se a isso o fato da Transocean e da própria embaixada alemã terem sido fechadas logo no começo do referido ano.

Os editoriais e textos de Joaquim Inojosa podem ser classificados em três fases distintas: a primeira, em 1939, na qual se defendeu o pacifismo e os países democráticos; outra entre 1940 e 1941, marcada pela estridente adesão do jornal ao nazismo e um ataque feroz à Inglaterra, que então enfrentava sozinha a máquina de guerra alemã e, por fim, uma terceira em 1942, quando minguaram os editoriais e os textos de Inojosa relativos à guerra. Dessa forma, é patente que a orientação política do jornal flutuou em função do momento e que a opção pelos Aliados só se deu quando o periódico já definhava e não mais podia contar com o apoio dos alemães.
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