Jogo, comicidade e improvisaçÃo o sombra da Rua XV e “Os Improvisadores” da “Casa da Comédia”



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5.1. “Chameguinho” ou “O Sombra da XV”

Carlos Roberto Telles talvez seja um nome como outro qualquer em Curitiba ou arredores. Contudo, ao indagar a qualquer cidadão curitibano sobre o “Sombra da XV” ou (para os freqüentadores mais assíduos do local) “Chameguinho”, a indiferença certamente dará lugar a uma descrição do trabalho deste palhaço, do local onde ele se apresenta, a um relato de uma história peculiar que ocorreu no local ou mesmo uma opinião ou julgamento de gosto do interlocutor.

De fato este palhaço é um integrante notório da Rua XV, ou “Rua das Flores”, considerada por muitos o “coração” de Curitiba, por ser um dos pontos turísticos e “aparelhos” urbanos mais característicos da cidade.

A observação teve como primeiro foco a ação performática dos clowns que se apresentavam no local, visto que o palhaço estudado não é o único performer a se apresentar no espaço, tampouco foi o primeiro a utilizar o local, mas tornou-se ao longo da pesquisa o sujeito central da análise, de forma que os outros performers observados serão mencionados apenas como contraponto para a caracterização e análise da performance de Chameguinho. Esta escolha se deu devido ao seu “estilo cênico” e particularidades: o “poder performático” refletido no “domínio do espaço” visivelmente superior ao conquistado pelos outros performers.

Da inter-relação entre os palhaços, atores sociais e espaço, a análise foi direcionada à atuação de Chameguinho, particularmente no que se refere a sua apropriação do espaço, seu poder sobre os transeuntes, a especificidade da sua relação com a platéia e as implicações dos valores e significados veiculados.

O processo de familiarização e de construção de uma relação “amigável” entre pesquisador e “sujeito-objeto-de-estudo” apresentou certas dificuldades, como esperado devido à concorrência e hostilidades variadas dentro do território (a serem tratadas posteriormente), mas não representou qualquer impedimento no decorrer da pesquisa.

Os aspectos relevantes foram anotados em um caderno de campo, e foram realizadas entrevistas informais com os performers, garçons, vendedores e proprietários de estabelecimentos de comércio, funcionários de prédios bem como outros populares que se dispuseram à conversa. Algumas fotografias foram executadas e tiveram o duplo intento de constituir um registro da atuação cênica de Chameguinho (comprovando a partir da informação visual, questões descritas no trabalho), como fornecer uma forma de familiarização e construção de uma boa relação entre os performers e o pesquisador.

Carlos Roberto Telles nasceu em Curitiba em 1977 e com sete anos fugiu de casa, indo morar na rua. Como consta no jornal “Folha da Boca” No.2 da segunda quinzena de Outubro de 2000, entre outras reportagens que têm o artista de rua como tema, Carlos era um menino de rua que, perambulando pelo país, chegou a São Paulo, sendo recolhido em um colégio interno. Foi lá que ele fez um curso de teatro que o levou a trabalhar como palhaço.

Se sua trajetória pessoal parece não ter sido muito fácil, a conquista de seu espaço de trabalho também não ocorreu sem confronto. Iniciou sua atividade na XV por volta de 1990, em um espaço particular da Rua XV já conhecido como “palco” pelos usuários. Além da proximidade com a “Boca Maldita”, lugar tradicional de debates e manifestações políticas, os bares do calçadão já haviam sido transformados em “palco” por um travesti que interagia com os clientes, conhecido como “Gilda”. Foi nas proximidades deste local e para este público que Chameguinho começou a atuar.

Como foi percebido em entrevistas e observações durante a pesquisa, o palhaço provoca alguma hostilidade dos passantes, usuários do local, trabalhadores “convencionais” do espaço, principalmente de alguns garçons, que dizem que a performance do palhaço atrapalha seu trabalho. Em contrapartida, o palhaço possui uma grande malha de “amigos” ou “conhecidos” e várias pessoas vão até o local para ver sua performance.

A “fama” de Chameguinho é inegável: difícil quem não o conheça, apesar deste fato não significar propriamente uma “popularidade” no sentido “positivo” do termo, pois, como mostra o acontecimento de 1997, ele é aclamado por alguns, repudiado por outros, sendo no mínimo “tolerado” pela maioria da população que utiliza a Rua XV.

No ano acima referido, o palhaço foi proibido de trabalhar na rua, por “perturbar a tranqüilidade e o sossego”, tendo realizado por isso protestos que chegaram à mídia: acorrentou-se por dois meses no seu local de trabalho, onde passava também as noites; fez greve de fome e coletou, segundo os jornais locais, cerca de vinte mil assinaturas de abaixo-assinado destinadas à liberação de sua atividade. Em 20 de Agosto de 1997, Chameguinho foi novamente permitido a atuar como palhaço no local, tendo seguido, desde então com seu trabalho, pelo qual diz receber cerca de 600 reais mensais.

Carlos Roberto Teles chega em seu local de trabalho logo após o almoço. Trajando já parte de seu figurino, (normalmente calça, sapato e a camisa), “perambula” pelos arredores da Rua XV, cumprimentando conhecidos, e realizando outras atividades, até o horário próximo de sua performance. Maquia-se nas mesas do próprio local onde, por volta das 15h30min, agora com o colete tradicional, chapéu e maquiagem pronta, entra em cena.

Chameguinho, seu personagem, utiliza-se normalmente de uma combinação de calça, camisa, colete e chapéu, traje que poderia ser de uso habitual se não estivessem desenhados para um palhaço e, portanto, não fossem mais largos do que o necessário para seu corpo. A combinação das cores destes itens não é normalmente exuberante, ou “gritante” como ocorre com o figurino de muitos palhaços. O traje mais habitual é uma calça e colete azul marinho e uma camisa social branca, na cabeça chapéu de feltro preto. O figurino obedece a uma estrutura de “conjunto”, variando em cor e materiais: foi registrado um verde, um azul, um preto, e outro laranja, sendo o colete deste “jogo” de pelica ou imitação de couro. Em toda a etnografia realizada até agora não foi registrada qualquer variação de maquiagem, que é sempre branca em todo o rosto, com o acessório do nariz de palhaço de plástico vermelho, marca registrada deste personagem-tipo. O performer carrega sempre no pescoço um apito preso por um cordão, que utiliza freqüentemente em sua cena, e um relógio no braço direito.

Além de participar de alguns projetos sociais e anti-drogas, como registrados em várias reportagens de jornais que o próprio palhaço disponibilizou, Chameguinho é presidente da Associação dos Artistas de Rua de Curitiba (no momento da etnografia), conseguindo, apesar de ser analfabeto, lidar com questões da classe artística e ter alguns contatos que julga importantes, com políticos como Chaves Leite.

A busca pelo “reconhecimento” ou melhor, pela projeção na mídia, pelo desejo da fama e do “sucesso” foram aspectos muito visíveis e presenciados na inter-relação com o palhaço, que intitulou-me de “assessor de imprensa”, pelo meu interesse nos recortes de jornal que tratavam dele bem como pelas fotografias que realizei. O palhaço frisava enfaticamente os trabalhos que fazia fora de Curitiba, sua relação com artistas de projeção nacional, entre outras questões de “ostentação” incluindo a financeira.

Jacson é o outro performer que no momento da pesquisa trabalhava no local, conhecido como “Mímico”, ou muitas vezes como “o outro palhaço”, pois, entre outros fatores, seu trabalho no local é instável, intermitente, tendo ficado no período da etnografia, cerca de três meses sem aparecer. Normalmente veste um conjunto de calça e camisa com listras horizontais de preto e branco e tem um chapéu preto “de praia” que lembra um pouco o desenho de um chapéu coco. Porta um saquinho do mesmo tecido do figurino, destinado para as contribuições no final da apresentação.

O local escolhido para a performance não é de forma alguma aleatório. A Rua XV, em Curitiba, foi a primeira via no Brasil (em 1972) a ser modificada para formar um calçadão, um espaço de circulação exclusiva de pedestres, de comércio e lazer. É extremamente central e conecta duas praças: a Osório e a Santos Andrade, onde está a sede da UFPR. Há portanto, uma grande circulação de pedestres, trabalhadores, comerciantes, estudantes, entre outras pessoas, que se utilizam dos serviços que ela oferece. A quadra próxima à praça Osório é a “Boca Maldita”, local famoso por sua concentração de cafés e por abrigar inflamados debates políticos e animadas conversas dos freqüentadores do local.

Os dois performers cuja performance analisamos, Chameguinho e Jacson (apesar de termos registrado apenas as contribuições do primeiro) apresentam-se no mesmo local, separadamente, em uma área próxima à “Boca Maldita”, popularmente conhecida como “Bondinho”, devido ao veículo ali presente que foi transformado em espaço de recreação infantil. Esta área é também a única da Rua XV em que se pode sentar em cadeiras na calçada sob um peculiar toldo roxo, e ser atendido por garçons de um dos três bares/lanchonetes que funcionam no local. Desta forma, a prática de encontrar os amigos para um chope, aguardar algum compromisso ou simplesmente “matar um tempo” é recorrente neste ambiente. A incidência de turistas (tanto nacionais quanto estrangeiros) também é recorrente e deve ser registrada.

Tudo isto faz com que toda a Rua XV seja um espaço muito disputado por artistas, políticos, “personalidades populares”, e outros atores urbanos, sendo os palhaços apenas mais uma manifestação. As estátuas vivas, que passam grandes períodos de tempo imóveis; a bailarina “Ticlau”, que se move segundo uma música particular como aquela que se escuta ao abrir uma caixinha-de-jóias; músicos de rua, ou performers com trabalhos mais atuais, de estética “pós-moderna” são alguns dos artistas que dividem o local com engraxates, panfleteiros, indigentes, mágicos, vendedores de jogos de loteria, animadores de “bonequinhos” que com seu canto e palmas os fazem pular de forma misteriosa. E a cada dia, descobre-se um outro ator social com mais uma novidade.

O espaço é recorrentemente utilizado para manifestações políticas, passeatas, barracas de divulgação e venda de produtos de partidos políticos, bem como as campanhas de prevenção, divulgação e informação para a população, levadas a cabo pela prefeitura e outras instituições. Richard Schechner em seu texto “The Street is the Stage” (IN: The Future of Ritual) revela que determinados espaços, ruas, praças, equipamentos urbanos das cidades são eleitos para as manifestações populares, sendo exatamente este, ao nosso ver, o caráter da Rua XV. Não seria portanto exagero caracterizar este ambiente como um dos locais mais típicos da cidade de Curitiba, e a principal “malha” de lazer do centro da cidade. (MAGNANI e TORRES, Na Metrópole,2000).

Dentro do recorte no qual os palhaços agem, estão, de um lado do calçadão: um fliperama, lan house e snooker bar; os bares-restaurantes La Gôndola, Bar Triângulo, Bar Mignom e Savoy (proprietários das mesas e cadeiras dispostas no calçadão); e uma série de estabelecimentos comerciais, no andar térreo dos prédios: Cia da Calça; Loteria Tesouro; Restaurante e Bar Mata Fome; Claro; Ponto de Visão; Vivo; 2 Corações; Tim; W. Friends e a relojoaria Aristides. Do outro lado vemos: Tecidos 5ª Avenida; Restaurante Bella Vista; Zutti Calçados; Kopenhagen; Savina; Janjão; Prata chik: Princess hair; Prata Fina; Wing; Bergerson; Zalem Jóias e Tecelagem imperial. No meio do corredor formado por estas lojas, encontram-se uma banca de jornais e revistas e o Café do Bondinho, que serve muitas vezes como abrigo ao palhaço, quando este quer esconder-se, seja para pregar uma peça em um transeunte ou induzir a passagem de alguém que possa servir de contracena para ele.

A performance de ambos consiste, portanto, em interagir com os passantes do calçadão, local de grande movimento da cidade por consistir em um espaço de locomoção de pedestres extremamente central e também um pólo de lazer e comércio.

Logo que o palhaço ganha a rua, os passantes, que já conhecem o “show” (como Chameguinho mesmo se remete à sua apresentação) aglomeram-se entre as vitrines e os bancos, cestas de flores e cadeiras dos dois lados do calçadão, evitando passar pelo grande espaço aberto no meio da rua, para não estarem sujeitos aos comentários do palhaço. Mas há sempre alguém desavisado, aventureiro ou inocente que, por distração ou “ato de coragem”, desfila pelo corredor aberto no calçadão servindo, então, de material humano, de coadjuvante forçado para a interação dos palhaços.

A etnografia, após uma análise inicial mais ampla, que incidia sobre o espaço e os atores sociais deste recorte foi dando ênfase, a medida que avançava no registro, às “narrativas performáticas” do palhaço, suas “esquetes”, suas construções simbólicas e no processo de aplicação destes comentários aos transeuntes. A partir da observação recorrente, pudemos enumerar algumas estruturas cênicas regulares que Chameguinho realiza e que constitui o seu repertório performático. Estes “jogos” ou “narrativas” são sua forma particular de atuação, e são aplicados a partir da coleta de informação instantânea que os palhaços operam sempre que algum transeunte aparece na sua área de atuação.

O princípio fundamental da atuação performática dos palhaços é transformar a situação cotidiana do caminhar na rua em uma cena de implicações simbólicas. Com a interação com o transeunte, os palhaços transformam a rua em palco, o passante em co-autor e os usuários do espaço em platéia.

A triangulação é evidente: Chameguinho torna-se o protagonista, pinçando dentre o grande fluxo de pessoas da Rua XV, quem será seu “coadjuvante” na cena que realizará para os clientes dos bares, que estão confortavelmente sentados nas cadeiras, de frente para a ação.

Trata-se de um fenômeno polêmico na cidade, pois a cena acarreta a exposição do transeunte, que passa a não mais ser um anônimo dentro da “multidão” não-personificada. Além disso, a linha de trabalho de Chameguinho é satírica. Ao antepor-se ao passante com suas “tiradas satíricas”, o palhaço se aproxima dos que não estão ali apenas de passagem, realizando antes um “diálogo” com os espectadores do que com seus “atores coadjuvantes”.

De fato, o palhaço construiu um repertório de possibilidades dentre as quais ele seleciona o “argumento” que deseja, segundo a “informação visual” que cada passante lhe apresenta. A escolha do coadjuvante e da cena ocorrem de forma simultânea e endereçada à platéia dos bares da “Boca”.

A imitação do caminhar, da postura, de particularidades físicas, expressões ou vestuário, por mais que seja a característica fundamental do trabalho de palhaços conhecidos como “Sombras”, não é a característica da performance de Chameguinho. As “interferências”, sustos e “peças” ocupam boa parte da performance, e muitas vezes superam em incidência a própria mimese dos transeuntes.

Interferir no trajeto dos passantes a partir de comentários e construções corporais e vocais pode ser visto como uma possível definição “abstrata” do trabalho deste palhaço. Estes comentários veiculam valores, julgamentos e a opinião do performer sobre a “primeira impressão” que os transeuntes lhe causam. Neste momento, por intermédio de seu desempenho cênico, Chameguinho torna-se “juiz” da Rua XV, transferindo uma ordem (ou uma nova ordem) ao que era apenas um momento da vida cotidiana. A partir da contra-cena que faz, da interação que impõe, visto que a maioria dos transeuntes não escolhe interagir com o palhaço mas é surpreendido por este, Chameguinho consegue canalizar a atenção de todo o entorno para um indivíduo específico através de seu desempenho cômico.

Deve-se notificar que este espaço da Rua XV é um território “popular” que concentra indivíduos de diversas classes sociais. No recorte do bondinho, especificamente, o flerte é muito comum e é praticado pelos freqüentadores do local. O palhaço reflete este “ambiente” em suas “narrativas”, utilizando-se de informações da mídia, alguns comentários políticos e muitas vezes evidenciando elementos de machismo, preconceitos e estereótipos que encontram eco no senso comum da população.

A interrupção do trajeto de moças que chamam a atenção representa grande parte da performance do palhaço, visto que o tema da conquista, da escolha de uma companheira, da preferência de algumas (em detrimento de outras), dos atributos estéticos e da sexualidade é algo muito explícito nas cenas. Chameguinho na interação com mulheres, orientado seja pelo vestuário, pela beleza física ou pela postura, normalmente escolhe uma entre as construções cômicas registradas, trazendo à tona sua “opinião” e transformando-a em algo público e comum.

A solicitação de beijos como forma de pagamento, para deixar as mulheres prosseguirem, ora de um lado do rosto, ora de outro, e por fim, na boca, (que é sempre rejeitado) é uma das “narrativas” que melhor exemplifica esta dimensão do flerte.

O pedido da mão ou do entrelaçar do braço para acompanhar a caminhada da transeunte. Se consentido, o palhaço comemora, seja com gestos ou com comentários sonoros (sendo “Bingo!” o mais freqüente). Esta comemoração nos remete à especulação do palhaço que esta atitude de consentimento da acompanhante nos indicaria que uma relação futura estaria assegurada com a moça. Um exemplo disso é uma variação deste quadro, em que o palhaço assovia e desfila como em seu próprio casamento com uma moça que julga bonita que aceitou caminhar junto com ele.

Muitas vezes, com mulheres que não reproduzem o “padrão de beleza” difundido pela mídia, o palhaço solicita o entrelaçar do braço, e após o consentimento da acompanhante, este retira seu braço, nega o convite feito por ele próprio em uma cena de exposição da passante, que nos leva a interpreta-la como “indigna” para o palhaço.

Em oposição a esta narrativa está aquela em que, uma vez que a passante se enquadre em um padrão de beleza, Chameguinho simula que irá parar de trabalhar e continuar o trajeto com sua nova companhia, escolha demonstrada com os acenos de tchau para a platéia e o “abandono temporário” do espaço da performance, visto que o performer deixa-se levar para longe.

Se há acompanhantes com a contra-cena, seja aparentemente namorado, mãe ou amiga, o performer faz algum comentário como “tchau sogra/o”, busca afastar o suposto namorado, ou faz um sinal de chifres com a mão, referindo-se ao parceiro supostamente traído. Nesta cena, a mulher é utilizada como intermediário, para a exposição de outra pessoa que a acompanhe.

Em outra “narrativa” ocorre justamente o contrário: o palhaço faz a moça parar no meio da rua, o que leva a companhia a seguir caminho ou ficar indecisa se ajuda ou não a primeira. O desconforto mútuo é visível, entretanto ele é maior na “escolhida” que está impossibilitada de tomar qualquer atitude. Uma variação desta cena é quando alguém carrega algo como sacolas, uma mala, pasta, etc. e o palhaço algumas vezes simula um furto, outras vezes pega um dos volumes para auxiliar o passante e pára, ou muda de direção, caminhando no outro sentido.

Com mulheres vestidas de modo a chamar a atenção, particularmente quando usam minissaia, Chameguinho aplica um quadro que geralmente provoca grande quantidade de riso na platéia: ao “copiar” seu visual, o palhaço abaixa as calças e levanta a cueca samba-canção usando-a para cima do umbigo, exagerando no rebolado, e mantendo a mão “desmunhecada” na altura do obro, caminha pela rua, emitindo sons como “ai, ui”, para o divertimento geral.

Outra possibilidade é de breve comentário é quando este estabelece um foco da audiência em uma morena/negra bonita e/ou bem vestida, e em seguida grita o termo: “Globeleza!”.

Um exemplo peculiar da dimensão “moral” e “valorativa” da performance é a “imitação” que Chameguinho faz de corporalidades que não combinem com o padrão estético, seja pessoas obesas, a partir do deslocamento dos ombros para trás e a projeção do quadril para frente; de indivíduos de estatura baixa; apressados; senhoras idosas, as quais representa com uma idade muito mais avançada.

Neste aspecto os exemplos são variados: com pessoas calvas ou carecas, simula um avião com uma das mãos, que quando sobrevoa a cabeça do transeunte, produz um som que lembra de atrito, como se a hélice do avião fosse a responsável pela falta de cabelos no passante. Outra possibilidade é o transporte, através da mímica, do cabelo de uma pessoa para outra que seja calva.

Benze-se como que pedindo proteção, ou faz o sinal da cruz como que indicando algo sobrenatural, um defunto-humano ou algo do gênero para passantes vestidos de forma exótica, agressiva, ou não condizente com a moda/estética, como punks, hippies, mendigos, bêbados. Muitas vezes grita, assusta-se ou corre deles. Abaixa as calças até metade da coxa, imitando a moda de um skatista, que usava sua calça com a cueca bem aparente.

Se alguém porta ou possui algo com o objetivo de chamar muita atenção (como cabelo colorido ou com um design incomum, uma roupa muito ousada, muitos piercings etc.), Chameguinho normalmente aponta o transeunte à “platéia” dando gargalhadas ou fazendo cara de deboche.

A construção de uma relação de afinidade, parentesco ou relacionamento fictícia é explorada pelo palhaço também a partir de outras esferas. Além de separar casais, fazendo-se passar por namorado, amigo, amante etc., Chameguinho também busca apresentar casais com uma diferença gritante de idade, ou ambos em idade já muito avançada. Outras vezes, Chameguinho simula relações irreais de parentesco, ao vincular pessoas desconhecidas a algum integrante da família: “mamãe” para alguém mais velha, ou “vovó”, trazendo eventualmente incoerências de gênero que indicam um possível apontamento de homossexualismo. Eventualmente faz passar-se por filho de algum passante, imitando uma criança, fazendo escândalo e jogando-se no colo deste.

Na contracena com crianças que estão deslumbradas com a figura do palhaço, Chameguinho alterna entre uma postura dócil, acenando para elas e uma certa “ameaça” ou careta, quando mostra os dentes e faz suas mãos parecerem garras assim que as crianças se distraem ou viram as costas.

Quando há alguém que caminha no espaço utilizando um telefone celular, ele acompanha-o, muitas vezes fingindo um diálogo fictício em um telefone, mas sempre com um discurso veiculado através do apitaço constante que promove para dificultar a comunicação do transeunte.

Ao ver pessoas que se enquadrem em “tipos físicos” específicos, o palhaço constrói uma relação cômica através da atribuição de nomes de celebridades ou personagens da mídia a este indivíduo. Se uma senhora já mais idosa foi colocada em foco, Chameguinho eventualmente a chamará de Hebe Camargo, um homem de barba seria associado com o Lula, um rapaz magro vestido com apuro ou com roupas modernas seria rotulado como Lacraia com os dizeres: “Pocotó, pocotó, pocotó!”

O trabalho sobre o ritmo do andar dos passantes também é uma fonte a ser explorada na performance: o palhaço apressa ainda mais um transeunte que já aparentava afobado. Interrompe a passagem de um passante ou família inteira e deixa o resto do trânsito dos pedestres fluir enquanto o escolhido é obrigado a aguardar. Pára um ciclista, retira sua mão do guidão, coloca-a no selim e senta-se no quadro da bicicleta, ganhando uma carona de alguns metros.

Quanto a trajes sociais, a construção da narrativa se modifica. Se um senhor de terno aproxima-se, ele fala seu maior texto, em tom jornalístico: “Deputado rouba mais de quinze mil” ou algo similar, e em seguida cumprimenta o passante com “Oi deputado”ou então faz uma arma com a mão e dedos e diz “Vem Lalau, por aqui”, atribuindo sempre a estes “executivos” o rótulo de corruptos.

Quando avista dois homens que julga terem atitudes heterossexuais, ou pelo simples fato de andarem juntos pelo calçadão, constrói sobre estes uma ação que torne pública esta suposta relação homossexual, seja jogando pétalas de rosas ou arroz imaginárias e assoviando a valsa nupcial, ou apenas enunciando, (dizendo: “Aháaa”) e atritando os indicadores das duas mãos. Se um transeunte aparentemente homossexual passa, normalmente diz: “lacraia” ou “pocotó-pocotó-pocotó”. Satiriza homens que não aparentem ter pêlos nas pernas levantando a calça de forma a mostrar a panturrilha e finge depilá-la.

Com pessoas de descendência oriental, os ameaça com movimentos estereotipados e exagerados de artes marciais, dizendo “Arigatô”, “Sayonará” e outros termos conhecidos. Com homens refere-se ao suposto tamanho diminuto do órgão sexual.

Se um grupo grande caminha junto, busca constituir uma fila e em seguida os coloca em movimento seja construindo corporalmente a idéia de um trem ou de cavalos. Ou então busca fazer com que estes (geralmente uma família) dêem as mãos e em seguida brinca de roda com eles.

Assusta as pessoas que por ali passam distraidamente seja fingindo uma mordida de um cachorro, seja escondendo-se atrás de outro transeunte e pulando e gritando para surpreender os desprevenidos.

Interrompe o caminhar de certas pessoas que passariam no centro do calçadão e “expulsa-os” de “seu” lugar, fazendo com que passem pelas laterais, próximo das vitrines. Algumas vezes chega a “revistar” ou “dar uma geral” nos passantes.

Multa alguns carrinhos que passam na XV, indicando uma possível crítica quanto ao devido lugar destes atores urbanos. Entretanto esta “cena” possivelmente pode ser realizada apenas com carrinheiros que Chameguinho conhece (como me confessou, referindo-se a certa ocasião).

Existem é claro, outras possibilidades, de narrativas cênicas, e foi possível perceber que o repertório do performer modifica-se ao longo do tempo em algum grau, mantendo, entretanto, a “lógica” e “estrutura geral” como descrita acima. As personagens em voga na mídia (como “Hebe” ou “Lacraia” nos exemplos citados) são sempre utilizadas, e as formas de construir narrativas que levantem questões de grande apelo popular como o flerte, a moda, a sexualidade, relações ilegítimas, dinheiro, escândalos políticos etc. são os objetivos últimos do palhaço.

Há também o fator “improviso”, que aparece mais claramente na relação entre imprevisto e repertório. Foi colocado que o performer possui um repertório extenso de narrativas, as quais o palhaço aplica sobre os passantes, tendo sempre e infalivelmente algum comentário a fazer sobre qualquer passante. Entretanto, a dinâmica da rua não pode ser controlada, e o palhaço “improvisa” em seu “jogo” de escolher as “narrativas” que melhor se enquadrem em determinado passante e se revertam em um poder sobre o território, no caráter satírico, provocativo e popular de sua performance. É interessante notar ainda que sempre há um caráter imprevisível quanto a contra-cena entre palhaço-transeunte, o que pode ser uma forma de descoberta ou criação de narrativas diferentes e inovações no repertório do palhaço.

Há uma situação relacionada a este assunto que não pode passar despercebida: trata-se de uma cena “ensaiada”, ou melhor, “combinada” com um rapaz, que passa “desatento” pelo calçadão e leva um susto do palhaço. A diferença é que a reação é amplificada, bem como a indignação e irritação do “suposto transeunte” surpreendido pelo palhaço.

Este fenômeno, bem como a análise do repertório e da atuação de Chameguinho nos leva a perceber que a abertura da performance para quaisquer participações de outros é mínima. As narrativas não são “negociadas” com o transeunte, mas sim “outorgadas” pelo palhaço, que busca o “domínio” das situações de improvisação que o “acaso” da rua pode gerar, visto que a voz que se ouve quando a rua torna-se palco é apenas a de Chameguinho.

A estética da sátira encontra-se assim ligada ao espaço urbano, público e movimentado da Rua XV e na busca da contracena como forma de expressar “narrativas” prontas. O transeunte, antes de ser um ator coadjuvante é colocado no papel de Augusto pelo palhaço, apontando o particular no comum, amplificando e re-modelando as características individuais das pessoas segundo a sua sensibilidade.

Percebemos então que, Chameguinho, apesar de ir buscar o molde de sua expressão na figura ambígua, liminar e política do clown, acaba realizando apenas a sátira dos outros atores do local onde se apresenta, operando desta forma segundo as noções morais já consolidadas pela estrutura social. O que a atuação do Sombra acarreta é a articulação de valores sociais (coletivos), sempre segundo a lógica da sátira e da hierarquia, que produz a comicidade instantânea e não reflexiva, atualizando representações já estabelecidas. A performance do palhaço não propõe, busca ou negocia alternativas, não constrói significados, não articula o passado, a experiência com a representação, mas apenas cria em um limitado período de tempo expressões de valores existentes nas representações coletivas, acabando por reforçar as noções já estabelecidas da moral. É uma necessidade de articular o “devir ser” da moral com os dados coletados na esfera real, utilizando a inversão para criar comicidade, exposição, poder.

Desta forma pudemos compreender como certo indivíduo buscou uma linha consagrada de atuação cênica e construiu sua efetivação dentro de uma sociedade de exclusão. Como uma manifestação popular, o espaço em questão, a mídia, os valores sociais, o individualismo, entre outros fatores, constituíram então pontos de extrema influência no trabalho cênico que se criou. Se este tipo particular de atuação, urbana e cômica nos levam a refletir sobre o caráter ambíguo, político e gerador da figura do palhaço ou clown, a vertente satírica e de exposição dos performers nos remetem ao conservadorismo e mera inversão temporária dos valores e da moral da sociedade.

Admitindo os esforços para a máxima isenção possível de julgamentos de valor, registramos que Chamguinho é um dos responsáveis por uma das opções de lazer mais centrais da cidade. O palhaço integra e articula uma teia impressionante de relações sociais e representa uma forma de adaptação de estilos cênicos que conseguiu sua viabilização, com o retorno financeiro e sua institucionalização, se não de todo legítima, ao menos consentida pelas autoridades, e desfrutada pelos “populares”.

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