Jogo corporal e comunicultura a capoeira como fenômeno civilizatório



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CAPOEIRA
JOGO CORPORAL E COMUNICULTURA

a capoeira como fenômeno civilizatório

com real aptidão comunicativa e transcultural
por

Nestor Capoeira

Outras obras do autor:

- No Brasil:



O pequeno manual do jogador de capoeira. São Paulo: Ground, 1981.

Ed. rev e atual.: Rio de Janeiro, Record, 1998.



Galo já cantou. Rio de Janeiro: ArteHoje, 1985.

Ed. rev. e atual.: Rio de Janeiro, Record, 1999.



Capoeira, os fundamentos da malicia. Rio de Janeiro:Record,1992.

A balada de Noivo-da-Vida e Veneno-da-Madrugada. RJ: Record, 1997.
- Nos Estados Unidos:

The little capoeira book. Berkeley: North Atlantic Books, 1995.

Capoeira, roots of the dance-fight-game. Berkeley: NAB, 2001.

Capoeira, the streetsmart song. Berkeley: NAB, 2005.
- Na França:

Le petit manuel du jouer de capoeira. Paris: Budo/L'Eveil, 2003.
- Na Dinamarca:

Com BORGHALL, J. Capoeira, kampdans og livsfilosofi fra Brasilien.

Odense: Odense Universitetsforlag, 1997.

- Na Holanda:



Capoeira, een handboek voor speeler. Holand: Elmar, 2003.
- Na Alemanha:

Capoeira, Kampfkunst und Tanz aus Brasilien. Berlim: Weinmann, 1999.
- Na Polónia:

Capoeira. Wroclaw: Purana, 2005.

Agradeço aos professores, funcionários e colegas da ECO-UFRJ.


Dedico ao Muniz Sodré, mestre Leopoldina e todos os outros que já se foram.

SINOPSE


O Jogo de Capoeira como prática pertinente à identidade cultural de afro-descendentes e brasileiros em geral, inserido no campo da comunicação, eticidade e cultura pública.

Os eixos da constrção da identidade no Brasil, tanto do ponto-de-vista das classes hegemônicas quanto do ângulo das subjetividades ditas subalternas.

Uma ética com raízes na africanidade e na marginalidade, alternativa à hegemônica.

A inesperada expansão e sucesso da capoeira nos chamados Países Centrais em plena era de globalização. O choque de culturas - a sensualidade e sexualidade.

A vitalidade contínua de um jogo comunitário em confronto com o lúdico mediático.

SUMÁRIO


ETC.ETC.ETC.

PREFÁCIO


ETC.ETC.ETC.

INTRODUÇÃO


"Com fé e coragem para ensinar a mosidade do futuro estou apena zelando para esta maravilhosa luta que é deixa de erança adequerida da dança primitiva dos caboclos, de batuque, e cadobré originada pelos Africanos de Angola ou Gejes; muitos admira essa belissima luta quando dois camaradas joga sem egoismo, sem vaidade; é maravilhosima e educada."(1)

Mestre Pastinha (1889-1981)


"Capoeira é mardade"

Mestre Bimba (1900-1974)


A capoeira, prática pertinente à identidade cultural de afro-brasileiros e brasileiros em geral, é também fenômeno transcultural e tem ganho uma significação e peso ainda não avaliados, apesar de sua imensa e crescente popularidade - especialmente entre os jovens - e do surpreendente sucesso no exterior através de capoeiristas brasileiros que, por conta própria, se aventuraram em terras de além-mar após 1970.
Estimam-se vinte e cinco mil professores de capoeira no Brasil e talvez um milhão de praticantes - após o futebol, seria a segunda prática mais popular em nosso país -, a grande maioria jovens e adolescentes.

Em 2000, aproximadamente trezentos centros de capoeiragem na Europa; trezentos e cinquento nos Estados Unidos; outros cem espalhados pelo Japâo, Austrália, Américas do Sul e Central, África; com um total de uns vinte mil praticantes.


Por isso - e pelo fato de não ter sido atingida diretamente pelo impacto do grande capital nacional ou internacional, nem tampouco pela normalização e institucionalização impostas por orgãos governamentais -, trata-se de excelente e raro objeto de pesquisa relacionado a um importante aspecto da construção do campo identitário brasileiro: uma forma artística e lúdica, quase "intocada" (pela mídia, meios de comunicação e consumo de massa, capital, orgãos governamentais, etc., como é o caso do samba e da MPB, do futebol e dos desfiles das Escolas de Samba, etc.) interagindo como estratégia popular de continuidade institucional com a cultura hegemônica.
Curiosamente, a capoeira se expandiu e se firmou durante a implantação - década de 1960 - do que poderíamos chamar de uma tecnoburocracia, no Brasil, paralelo à popularização de um dos vetores mais fortes dos meios de comunicação - a televisão.

Um pouco mais tarde, também testemunhamos o projeto de ampliação da noosfera ocidental, de natureza tecno-organizacional com desdobramentos estruturais de ordem civilizacional - a chamada globalização.

Assim, a capoeira também constitui um objeto de estudo pertinente às relações entre cultura popular, meios de comunicação de massa, aparatos tecnológicos contemporâneos, ideologia e poder.

ÁREA DE PESQUISA


Muniz Sodré, no início de um de seus cursos (2), assim sintetizou sua linha de pesquisa:
Procuro determinar os eixos da construção da identidade no Brasil, tanto do ponto-de-vista das classes hegemônicas quanto do ângulo das subjetividades ditas subalternas.

Isto implica a análise do pensamento identitário em obras já clássicas da produção intelectual brasileira, dos dispositivos de produção de sentido montados por meios de comunicação de massa e, por outro lado, compreender as estratégias populares de continuidade institucional que interagem com a cultura hegemônica - formas religiosas, lúdicas, atividades cooperativas, etc. -, fixadoras de normas de conduta capazes de configurar alternativas para a ética social imediata. Em resumo: as pesquisas se inserem no campo da comunicação, eticidade e cultura pública.


Nossa tese se enquadra nas amplas linhas de pesquisa desta campo identitário brasileiro, enfocando principalmente a "era da globalização" e algumas décadas anteriores - após 1960 - caracterizadas, por um lado, pelo aparecimento e popularização da televisão no Brasil - a face mais visível de um novo modelo tecno-burocratico - e, por outro lado, pela grande expansão da capoeira, aqui e lá fora.

METODOLOGIA


Meu ponto-de-vista é "interno"; "orgânico", diriam alguns. Acho difícil enquadrar minha visão do objeto na categoria de "observação participante": a "participação" foi longa demais - 40 anos de capoeiragem como atividade básica, inclusive como meio de sustento.
No final da adolescência - década de 1960 - a capoeira era um hobby. Continuou assim quando - engenheiro recém-formado - comecei a ensina-la. Finalmente, em 1971, chutei o balde e sai pedalando - como diria a rapaziada -: troquei a engenharia pela capoeiragem.

Quarenta anos de prática - dez na Europa em quatro diferentes estadias -, acompanhei e fui um dos vetores da divulgação e expansão no Brasil e exterior. O material de campo adquirido neste período, de maneira inortodoxa e caótica, tem pouco a ver com a pesquisa clássica - formulários, entrevistas, acompanhamento de um "grupo-amostra", pesquisa-acão, etc. Mesmo assim foi organizado de forma não acadêmica e publicado (três livros no Brasil, dois nos EEUU e um na Alemanha, França, Holanda e Dinamarca).

Essa vivência, fundamentada pelas grades e ferramentas fornecidas pelo mestrado e doutorado (3) na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro - sob orientação de Muniz Sodré -, desaguou no presente livro.

OBJETIVOS


Minha tese de doutorado aprofundava e ampliava a dissertação de mestrado.

Tentava apreender o processo de expansão de uma forma artística brasileira que, sem o apoio do capital, da grande mídia ou de instituiçoes governamentais, sem o (re)conhecimento das áreas artística/"intelectual"/acadêmica, tem presença no imaginário nacional; cresce e "viaja", migrando para o estrangeiro (curiosamente) em plena era de globalização; é a expressão de uma ética - diversa da do esporte, das artes marciais, etc. - da cultura negra e da marginalidade, alternativa da ética social imediata; é, cada vez mais - vide sua popularidade entre os jovens - vetor ativo e atuante na construção da identidade, não só dos capoeiristas e da capoeira, mas também do povo brasileiro.


No fundo, trata-se de testemunhar uma prática artesanal, do corpo, regional, completamente descentralizada, em sua dinâmica desde o início dos 1800s mas, em especial, após 1960 e, mais fortemente, 1990.
Esta trajetória entra em confronto com algumas "verdades" típicas dos tempos da globalização: algo "local" só poderia ter peso "global" se fosse veiculado por um dos grandes canais do capital transnacional e da grande mídia mundial. Penso que o estudo desta fenômeno - a capoeira como fenômeno civilizatório com real aptidão comunicativa e transcultural - pode ajuda a esclarecer a dinâmica civilizacional e as trocas culturais contemporâneas.

Neste estudo, também fica evidente a vitalidade contínua de um jogo comunitário em confronto e interação com a cultura hegemônica e, em nossos dias, o lúdico virtual.

OUTROS OBJETIVOS
Também gostaria que este livro fosse, semelhante à dissertação de mestrado e tese de doutorado,uma espécie de interface, de canal de comunicação vivo e atuante entre a universidade e a capoeiragem - isto é, o universo das ruas.
Os poucos trabalhos escritos, a partir da virada do sec.

XIX para XX, a respeito da "brincadeira de angola" tnfluenciaram a prática e os ensinamentos de diferentes mestres de diferentes gerações, assim como o próprio imaginário do jogo - fato desconhecido e que causa espanto no mundo acadêmico... Esta influência aumentou nos últimos dez anos (texto de 1995) e é comum encontrarmos estudiosos (não capoeiristas) como Julio Cesar de Souza Tavares e Muniz Sodré como palestrantes em encontros regionais, nacionais e internacionais de capoeira (hoje, nos anos 2000, este leque se ampliou com Carlos Eugenio Libano Soares, Fred Abreu, Mathias XXXXXXX, Leticia Vidor de Souza Reis, etc.)...

Existe um trabalho prático e objetivo a ser feito pela comunidade acadêmica em relação ao mundo da capoeiragem e quanto maior este intercâmbio - até agora caracterizado quase que exclusivamente (4) pelos professores de capoeira que dão aulas informais e extra-curriculares, alguns com grande sucesso, em muitas universidades brasileiras e algumas do exterior - melhor para a capoeira, que terá a oportunidade de se afirmar e legitimar por canais outros que, p.ex.:

- os orgãos de turismo (capoeira para turista, um "folclórico" folclore prostituído);

- a Confederação Brasileira de Capoeira, subordinada ao Conselho Nacional de Desportes (capoeira-esporte, com graduação e uniforme, campeonatos, racionalização e metodificação do ensino visando uma "luta objetiva" em detrimento da "brincadeira", do ritual, da criatividade);

- os valores do consumo e de uma sociedade tecno-burocrática que irradia uma tele-realidade "sobre" outras possíveis realidades (uma capoeira homogeneizada e pasteurizada que mede o "sucesso" de determinado estilo ou mestre pelo número de alunos e quantidade de dinheiro amealhado pelas mensalidades; uma capoeira com a espetacularização típica da linguagem da televisão esvaziando a identidade e essência de um segmento da cultura popular que tem suas raízes na africanidade). (5)

ESTRATÉGIA
Com a proposta de ser um canal vivo e atuante entre a capoeiragem e a universidade, nossa estratégia foi escrever uma primeira versão e apresentá-la a diverso estudiosos e - de maneira informal, em bate-papos e conversas de bar - mestres de capoeira atuantes no Brasil e exterior.

As respostas a este material - feedback -, foram incorporadas à versão original. Esta segunda versão, por sua vez, foi novamente apresentada aos mestres e estudiosos e, a partir destas últimas discussões, saiu a versão final.

Paralelo a isto, o material foi sendo veiculado nas palestras que faço anualmente durante os workshops - cursos práticos e teóricos de três a cinco dias - que ministro todo ano, durante os meses de verão do hemisfério norte, nas academias de mestres e professores da Europa e América do Norte.

Espero, desta maneira, ajudar a ativar mais fortemente a interface universidade/capoeiragem.

NOTAS

(1) PASTINHA, V.F. (Mestre Pastinha). Caderno e álbum do Centro Esportivo de Capoeira Angola. Salvador: caderno manuscrito, s/data (aprox. 1960). P. 11a. A grafia original foi mantida.



(2) Identidade e Cultura. Problemas Teóricos da Comunicação VIII. Rio de Janeiro: Doutorado da Escola de Comunicação da UFRJ, 1º semestre de 1998.

(3) PASSOS NETO, N.S. Ritual roda, mandinga x tele-real. Rio de Janeiro: Dissertação de Mestrado, ECO-UFRJ, 1966

________ . Jogo corporal e comunicultura, a capoeira como fenômeno civilizatório com real aptidão comunicativa e transcultural. Rio de Janeiro: Tese de doutorado, ECO-UFRJ, 2001.

(4) Existem, no entanto, faculdades, como a Educação Física da UFRJ, que veiculam a capoeira como disciplina de seu currículo.

(5) PASSOS NETO, N.S., 1996. Op.cit., pp. 13-14.

1 - GLOBALIZAÇÃO


Ianni (6)_ diz que a globalização desenha o novo mapa do mundo, na realidade e no imaginário, e propõe mapear as principais teorias que descortinam em termos de integração e fragmentação novas perspectivas para a interpretação do presente, a releitura do passado e a imaginação do futuro.

Quanto à imaginação do futuro, no entanto, talvez devêssemos ter em conta as observações de Hobsbawn (7)_: as especulações dos historiadores e outros"profetas" mostraram-se espetacularmente ruins, em especial depois da II Guerra Mundial, e é possível que este desempenho tenha piorado.


Ianni nos apresenta algumas metáforas - reflexão e imaginação -, revelando "problemas específicos e relevantes":

- aldeia global: comunicação, informação e fabulação abertas pela eletrônica; harmonização e homogeneização progressivas causando a desterritorialização e a reterritorialização das coisas e gentes e idéias, promovendo o redimensionamento de espaços e tempos;

- fábrica global: toda economia nacional torna-se província da economia global que dissolve fronteiras, agiliza os mercados, generaliza o consumismo;

- nave espacial: sugere viagem e travessia com a razão iluminista no seu momento negativo extremo; a dissolução do indivíduo como sujeito da razão e da história; "a máquina expeliu o maquinista... a razão tornou-se irracional e embrutecida" (8)_ e o universalismo abstrato da razão ocidental revela-se como mero reflexo da abstração real objetiva do dinheiro. Esconde-se, aí - na metáfora da "nave espacial" -, o arquétipo da Torre de Babel onde inicialmente havia uma língua comum - hoje, o inglês.


Mas, de uma maneira mais ortodoxa, poderíamos entender a história como a sucessão de sistemas coloniais, sistemas imperialistas, geoeconomias e geopolíticas, com o enfoque voltado para a formação, organização, ascenção, ruptura ou declínio do Estado-nação. Ora, o emblema Estado-nação sempre teve características simultâneas e contraditórias de realidade geo-histórica e imaginário - na época da globalização, torna-se mais ficção.

Para Ianni (9), um problema básico da análise da globalização contemporânea são as teorias, adaptações de outras do tempo em que o Estado-nação reinava soberano. Depois da II Guerra Mundial e mais fortemente na última década do século XX, as realidades da "globalização" emergente e a erosão do Estado-nação tornaram estas teorias anacrônicas:

- Braudel, fascinado pelo lugar que a França ocupa no mundo, com sua teoria destacando a"economia-mundo", a história universal, os acontecimentos macro e micro, e a noção de"longa duração" secular;

- Wallerstein, empenhando-se em esclarecer a primazia dos USA e o vaivém das grandes potências, com a idéia de "sistema-mundo"; a história do capitalismo; a anatomia e dinâmica das realidades políticas e econômicas -"capitalismo histórico" -, guerras e revoluções e em especial os movimentos anti-sistêmicos, reconhecendo que o capitalismo expandiu-se pelo mundo - desafiando o pensamento do século XX. Ambos, Braudel e Wallerstein, combinam o olhar do historiador com o do geógrafo com base na primazia do econômico; ou seja, a história como sucessão de sistemas econômicos mundiais enraizados numa área específica, embora também focalizassem relações, processos e estruturas sociais, políticas e culturais;

- Amim e Gunder Frank assim como outros teóricoss, segundo Ianni, situam-se na mesma corrente de Braudel e Wallerstein: a sociedade global a partir da perspectiva do Estado-nação, apesar da linguagem diversa. (10)
Ora, o emblema Estado-Nação sempre teve características simultâneas e contraditórias de realidade geo-histórica e no imaginário. Na época da globalização, torna-se mais ficção.
No entanto, alguns trabalhos recentes - e na época da globalização a velocidade é a mesma das"oportunidades" do ditado chinês ("agarre-as pelos cabelos, ficam carecas rapidamente") - repensam estes enfoques levando em conta suas falhas, se aventuram em terreno desconhecido proporcionando uma melhor compreensão do momento atual.

Por exemplo, Ellhajji (11)_ salienta, na contemporânea semiose hegemônica ocidental, as características e presente/futuros efeitos da convergência. Dentro do contexto de um projeto de ampliação da noosfera ocidental; de natureza tecno-organizacional com desdobramentos estruturais de ordem civilizacional; onde se constata a rearticulação das relações sociais e de produção em torno das novas tecnologias de informação e de comunicação, deslocando-se as instâncias de mediação política/econômica/social da dimensão espacial para a temporal - "espaço-mundo" para"tempo-mundo" -, e instituindo-se o princípio da instantaneidade como base do mercado financeiro e de regulação de nossa experiência significativa; a convergência - integração de diferentes tecnologias que funcionam em sistemas diversos - seria uma característica fundamental, não só dos avanços tecnológicos mas como o vetor de uma nova ordem civilizacional com novas fronteiras, não mais físicas mas eletro-cognitivas ou cogni-computacionais, e uma nova esfericidade, não mais geométrica, mas epistemológica e cognitiva.

As coordenadas dessa esfera cognitiva - semelhante à era do"espaço-mundo" - correspondem aos pontos de projeção dos planos éticos e estéticos, técnicos e tecnológicos, do Ocidente. Ou seja, o modus operandi mudou, mas a questão de fundo continua a mesma.

1.1 - HISTÓRICO DA GLOBALIZAÇÃO


Com efeito, é preciso comprender a mundialização como espírito presente em toda a história da humanidade, por meio do objetivo de ampliação de fronteiras, expansão territorial e construção de impérios. A globalização, por seu lado, consolida esta tendência de "fazer império", não mais pela conquista com armas e exércitos, mas com dispositivos ordenadores da lógica do mercado e do capital, a exemplo dos mass media...

A tendência à globalização instaura-se no momento seguinte ao da Guerra Fria, quando a polarização entre URSS e EUA torna-se anacrônica. (12)_

1.1.1 - MUNDIALIZAÇÃO
Na Renascença, a dinâmica de mundialização - etapa que precedeu à "globalização" - torna-se bastante visível.

Por exemplo ,"perspectiva", "profundidade de campo", "ponto de fuga", são concepções marcantes da arte daquele período. A distribuição linear do espaço, principalmente através da popularização da leitura e da invenção do tipo móvel, e a valorização do olhar em detrimento dos outros sentidos são características emergentes em sincronia e pertencentes a um todo cognitivo orientado pelos princípios da totalidade finita da Terra; da possibilidade de sua apreensão racional; da existência de uma verdade única e absoluta que decretou a falência de todas as outras formas culturais/civilizacionais.

A Renascença, uma perspectiva eurocêntrica, instaurou a idéia de espaço-mundo e propiciou um pensamento cada vez mais abstrato, linear, causal e fragmentário.

A organização física e a gestão material do espaço (estabelecimento de conexões terrestres, marítimas e - já no século XX - aéreas); a dominação militar efetiva (posteriormente, a dominação econômica); as"sociedades repressivas" (13)_ e, a partir da II Guerra Mundial, novas formas de controle ultra-rápidas ao ar livre caracterizando uma "sociedade de controle"; são algumas características e alguns desenvolvimentos do processo de mundialização que antecedeu e anunciou o projeto de globalização.

1.1.2 - DA PENA DE GANSO À TELEVISÃO
Na metade do século XIX, com o desenvolvimento do pensamento abstrato, linear, causal e fragmentário, paralelo ao aparecimento de uma ética individualista do prazer adequada ao consumo, gerou-se a moderna disciplina do controle à distância sem uso da força física. Esta é baseada em grande parte na interiorização em regime de repressão da moral e da vida psicológica individual. Muniz Sodré (14)_ aponta como a pena-de-ganso deflagrou um ciclo da civilização.

A escrita já tinha uma função disciplinadora, e o alfabeto fonético reforçou o caráter linear, causal e seqüêncial da civilização ocidental. A ênfase visual da escrita foi generalizada pelo aparecimento da imprensa - individualização da leitura -, com a invenção do tipo móvel por Gutemberg no século XV.

O livro, teatro, pintura - na Renascença -, induziram ainda mais o aparecimento do ponto-de-vista particular.

O ponto-de-fuga integrou o tempo (linear e irreversível) e o espaço (superfície plana sobre a qual se operam operações em perspectiva) de novas maneiras.

O novo mundo racionalista e abstrato deu-se em consonância com a substituição do universo camponês pelo urbano, Surgiram mapas urbanos: olhar do poder de um ponto vertical, fixo, central - dispositivos essenciais de estratégia -; centralização do olhar, da produção , do poder político. A arquitetura incorporou o ferro e vidro e, no século XVII, o indivíduo através o espelho começou a ver com perfeição a própria imagem exaltiva do "eu". "Efeito vitrine": a mercadoria se converteu em novo estatuto, objeto-signo de novos modelos de vida, triunfo da Revolução Industrial estigmatizando o atraso técnico das sociedades tradicionais.

A lógica da produção capitalista e da racionalidade transparece no cenário urbano - fábrica, usina, etc. - e a cidade é organizada pelas funções dos papéis econômicos realizados pelos sujeitos. Vemos também o fortalecimento da família e da sociedade civil - das instituições hegemônicas às operárias -, como necessidade à consolidação do poder burguês contra as sobrevivências feudais.

Típico é o panóptico de Jeremy Bentham (1792). A eficácia consistia na dissociação de ver e ser visto - um complexo carcerário circular com um núcleo central onde estavam (ou não) os guardas, protegidos por um sistema de janelas com venezianas da visão dos prisioneiros colocados em celas circundantes e visíveis do centro -, o que é correlato à separação pelo indivíduo entre "si mesmo" e o seu papel social.

O "eu" conquista uma autonomia liberadora mas simultaneamente impalpável e abstrata. O indivíduo moderno pode ser panopticamente controlado à distância sem uso da força física porque ele mesmo se controla - interiorização em regime de repressão da moral e da vida psicológica individual.

Começa, também, a aparecer uma ética individualista do prazer adequada ao consumo.
No século XIX a técnica tipográfica - linotipo em 1857, rotativa em 1868 -, aliada à formação dos mercados nacionais e ao aumento populacional das grandes concentrações urbanas, dissocia os termos polares da relação de comunicação - falante/ouvinte, emissor/receptor. Em 1860, já está delineado o perfil da grande empresa informativa nos USA. A imprensa marca o início da moderna disciplina do diálogo, pelo poder. Não se trata de um fenômeno "natural", mas caso particular das renúncias impostas aos indivíduos pela evolução da ordem produtiva.
Cada vez mais, o olho é solicitado pela civilização da escrita:

_ a foto (olho mais importante que a mão na produção da imagem) é simulacro e não mais a duplicação representativa do real; o objeto morre para seu tempo/espaço históricos reaparecendo por artes da química numa dimensão ótica onde espaço/tempo coincidem;

_ o cinema aprofunda o simulacro ao movimentar a imagem (encena um tempo/espaço imaginário, encena o sonho), mas ainda permite rituais para a visão (sala escura especial, etc); oferece-se como uma ruptura do cotidiano do espectador;

_ a televisão incorpora todas as técnicas de reprodução e também o ethos moderno de organização da vida social; invade com projetos de absorção o campo existencial do espectador, oferecendo-lhe um espaço/tempo (simulado) social absolutamente novo (relação com as coisas enquanto podem ser vistas, "ver tudo que se passa"). A discussão agora está no próprio ato de ver (não mais no temor de ser visto - panóptico), pois a visão é literalmente engolida pelo objeto (o espelho): a máquina é, agora, narcísica. "Você é só luz, adorável metade".


Paiva aponta que o poder maior da"pedagogia" da TV talvez não esteja somente na"ideologia" daquilo que ela"mostra", como muitos pensavam e ainda pensam:
Isto leva à suspeita de que mesmo a contra-informação (aquela surgida a partir dos movimentos guerrilheiros, como a homepage dos zapatistas no México) pode não significar coisa alguma no universo e multiplicação metastática de sentido. Pode não querer dizer muito mais do que uma fria estatística que ofereça como demonstrativo o número de canais de TV, ainda que se pretenda - a exemplos de governos tecnoburocrçticos, como o do Brasil atual - esgrimir o argumento de que vigora uma multiplicidade cultural.

Cada vez mais a comunicação converte-se em estratégia de produção da hiper-realidade, orquestrada pela mídia._(15)


Sodré ressalta que, neste jogo mortal da imagem com o real, o olho mais próximo do inconsciente que a fala fica em primeiro plano de importância - e, assim, registra e instaura a ilusão. A civilização "arma" o olho para poder se investir da veleidade da onipotência de um poder de visão universal. O homem moderno privilegia o relacionamento olho-cérebro (em relação ao tato, audição, olfato, paladar), levando o pensamento a se tornar cada vez mais abstrato, demonstrativo e racional.

1.1.3 - A MÍDIA NO PROJETO DE MUNDIALIZAÇÃO


Durante o processo de mundialização, vimos como a imprensa marca o Início da moderna disciplina do diálogo, pelo poder, na metade do século XIX.

Após o aparecimento da imprensa, o rádio.

Milanesi (16)_ aponta como coube às poderosas empresas radiofônicas, "sustentadas pelas indústrias e pelo comércio, levar a toda parte a mensagem, a mais uniforme possível, patrocinada pelos empresários". E que normalmente"era o domínio das letras, habilidade conferidora de status.

O rádio foi o primeiro elemento a romper com essa situação , quebrando a barreira do analfabetismo". Desde a década de 1930, o rádio "caracterizou-se como um veículo publicitário, ou seja, um instrumento da pedagogia de consumo", o veículo mais importante de comunicação até que tivesse a TV como concorrente.

A TV é uma técnica, um eletrodoméstico, com necessidade de ser legitimada socialmente. Um sistema de crescente intervenção dos poderes hegemônicos no âmbito do livre circuito da comunicação social.

A TV é um sistema informativo homólogo aos códigos econômicos de mercado, acionado pelos desenvolvimentos tecnológicos. Jornais, rádio, revistas, integram este sistema com a função de justificá-la culturalmente. Este sistema é um complexo institucionalizado de meios de informação interdependentes, com uma tendência à homogeneização de suas mensagens; encontra pleno apoio na teoria econômica - uma "cadeia" a partir de cada medium (indústria de aparelhos, publicidade, telecomunicações, etc).

Este mesmo modelo - um sistema harmônico com interfaces extremamente eficazes operando entre diferentes formas de mídia - será, de certa forma, retomado no processo de globalização, já no final da década de 1990, com a convergência - integração de diferentes tecnologias que funcionam em sistemas diversos.

Em alguns de seus trabalhos, Fausto Neto (17)_ apontou de que modo o discurso da política - um exemplo entre muitos - está completamente encapsulado pelo da TV.

Para muitos estudiosos, a televisão - mais do que os outros meios de comunicação de massa - foi o principal agente responsável pelo controle do imaginário no modelo tecnoburocrático instaurado com o golpe militar de 1964 no Brasil. A televisão teria sido a principal responsável pelas alterações na organização do espaço social; nas relações que os sujeitos mantêm com o real; e, é claro - o que nos interessa diretamente -, uma grande modificadora da cultura popular. E o panorama, de 1960 a 1980, parecia confirmar as previsões mais sombrias.

Miceli (18)_ , por exemplo, em 1972, responsabilizava especificamente a televisão, como "a instância simbólica responsável pelo processo de imposição do arbitrário cultural dominante", oferecendo para as classes médias já incluídas no mercado de trabalho e de consumo, "sucedâneos eficazes às suas aspirações de consumo e estilo de vida hegemônico", "esperanças de ascenção social e participação no estilo de vida dos que estão muito acima e distantes do 'homem comum'". E, em relação à massa de excluídos: "procurando compensar, no plano simbólico, a exclusão social total que caracteriza os contingentes que integram esta faixa (faixas C e D)" e enquanto "não ocorrer a absorção deste contingente humano por parte dos setores de vanguarda da economia capitalista" deverá existir para estes grupos uma "cultura de antecipação" através dos meios de comunicação de massa. E no caso particular da cultura popular (e da capoeira), Milanesi_(19), em 1978, apontava: "as formas de expressão popular transformaram-se entre estas alterações, alteradas pelos padrões estereotipados da cultura de massa".

E, apesar do tom um tanto "apocalíptico" e dos estudos mais recentes, não pensamos em descartar Miceli (20)_ quando este diz que a mídia, em especial a televisão, "constituem agentes de uma segunda ação 'pedagógica' " que ressocializa amplos contigentes pela imposição de um habitus da "classe dominante" e ao mesmo tempo consolida a formação simbólica dos contingentes (setores médios) "já integrados no mercado material e simbólico dominante".

Kehl (21), em 1979, nos diz que falar sobre a televisão brasileira da década de 70 (mais precisamente a partir de 68 com o AI-5, com o arrocho da ditadura, e a definição de uma política de programação) é escrever sua história. Foi aí que a TV criou o seu próprio modelo (a Rede Globo, síntese da TV brasileira naquela década) e tornou-se um fenômeno social significativo intimamente relacionado com a expansão da indústria cultural no Brasil.

A partir de 73, firmemente estabelecida e voltada para um programa de integração nacional que acabaria com os programas regionais, o Sistema Globo de Comunicações - com a TV Globo em posição dominante e central - inicia uma campanha visando a legitimação de sua posição.

Cria a Fundação Roberto Marinho que prestaria serviços à comunidade; o telecurso de 2º grau (e em 79, 46% dos alunos que prestaram exames tinham estudado pela televisão); cria o Departamento de Projetos Especiais, onde um anunciante pode prestar um "serviço comunitário ou cultural" (como a campanha televisiva "Guie sem ódio", etc.). Enfim, vemos o capital financeiro de braços dados com a Globo se colocar como tutor da Caridade, Fé e Solidariedade.

Rodrigues (22)_ nos alertava que, até pouco tempo, a TV tinha um enraizamento territorial mas, " hoje em dia (1989), ignora as fronteiras/línguas/culturas" e "realiza tecnicamente a promessa do Pentecostes, 'cada qual os ouvia falar na sua propria língua', e superava a maldição de Babel".

Rodrigues nos diz que ainda há uma modalidade arcaica de funcionamento na televisão - a da narratividade - produzindo variantes modernas das estruturas narrativas ancestrais, desempenhando papel imprescindível na remitificação do mundo, mas sob "o modo da traição " em função da natureza racional desmitificante que caracteriza a mídia televisiva.

Teixeira Coelho_(23), em 1992, pergunta que imaginação é produzida pela televisão, geradora de uma profusão de imagens sobrepostas. Numerosos indícios apontariam para a entrada de uma era iconoclasta resultante de uma cultura doente, onde o pensamento perde o seu poder de analogia e os símbolos desimpregnam-se de sentido. Coelho se propõe a identificar o imaginário construído pela TV e chega à conclusão de que, sob a máscara da limpeza visual e da tecnologia, da modernidade sintática, da juventude bela e eterna, existiria um imaginário pré-moderno, discursivo, antagonístico, agônico, intolerante e violento. Um imaginário dominado pelo princípio da morte.
No entanto, na época da passagem do projeto de mundialização para o de globalização - década de 1990 -, o conceito de enfoques transdisciplinares se impunha e já haviam estudos analisando a televisão de uma forma bastante abrangente. Foucault, Deleuze, Muniz Sodré, Guattari, Virilio, entre outros, estavam na pauta de um expressivo segmento de estudiosos do fenômeno mídia.

Eis, por exemplo, alguns dos assuntos abordados no curso ministrado por Caiafa_(24), na pós-graduação da Escola de Comunicação da UFRJ, em 1993: o curso apontava para a produção de subjetividade; a mídia teria influência mais profunda que poderia supor o pensamento marxista, atingindo nosso desejo, uma influência "ao nível molecular", e os afetos e desejos deveriam existir de tal forma que o capital pudesse fluir pelos canais característicos e necessários ao capitalismo tecnoburocrático. Mas, ao mesmo tempo, desmistificava a mídia como onipotente e investigava a possibilidade de processos de singularização em locais específicos a partir das forças dominantes; uma interferência local (micro) afetando o macro.

Paiva refere-se a este mesmo tema em O espírito comum: comunidade, mídia e globalismo. Semelhante aos nossos esforços sobre a possibilidade de uma manifestação local - a capoeira - se inserir no global sem o apoio do grande capital ou mídia, mudando o retrato contemporâneo das trocas culturais internacionais; Paiva demonstra como microvetores de comunicação comunitária - jornais, rçdios, TVs - alteram o retrato da grande mídia contemporânea.
Paradoxo inquietante: o apogeu da universalização, a proposta do micro-universo. Uma procura que passa a reforçar essa comunidade disposta a erguer-se em favor de seus anseios, a mais chamar seus pares e tornar audíveis seus objetivos. Essas "partículas" se dispõem a entrar no circuito por meio dos mass media: algumas vezes, a mídia incorpora essa tendência e cria concessões, numa proposta de conceder espaço. Mas, por se pretender ser mais do que uma concessão, formula-se a perspectiva da comunicação comunitária...

Equivale a dizer que propor um pensamento sobre comunicação, hoje, comporta uma abordagem centrada não apenas na grande mídia, mas também nas alternativas que têm sido tentadas. Nesse panorama, surgem a comunicação comunitária, o jornal mural, alguns sistemas de TV e rádio. A visão da mass society precisa, pois, ser alinhada junto a outras facetas capazes de compor a comunidade contemporânea. (25)

1.1.4 - A ORGANIZAÇÃO SOCIAL CONTEMPORÂNEA
A complexidade, heterogeneidade - coexistência harmoniosa ou não de diferentes tradições de diferentes contextos -, e o aspecto metropolitano são características bastante visíveis da organização social contemporânea, fruto da era moderna e da Revolução Industrial - tecnologia e abundância material para alguns segmentos - que chegou ao atual contexto de globalização.

Elhajji_, baseado em Velho, Park, Maffesoli, Simmel, Wirth, Cammilleri, Carneiro da Cunha, Hogben - entre outros -, nos aponta os três pilares da vida moderna urbana - pontualidade, calculabilidade, exatidão - e nos apresenta um abrangente retrato da sociedade complexo-moderna:


Entre as características mais marcantes, pode-se salientar: o crescimento da divisão de trabalho proporcionalmente à expansão do mercado; a hegemonia da grande empresa; a extrema especialização dos diferentes atores econômicos e sociais e sua interdependência objetiva; a substituição da cooperação e ajuda mútua pela competição e pela exploração recíproca; a organização da vida em rotinas significativas e a sua submissão a um ritmo cada vez mais célere; o confinamento de seus membros em módulos sócio-profisssionais estruturalmente isolados das outras áreas da sociedade; a dependência de cada um de todos (mas enquanto categorias e não como indivíduos) através da mega-articulação que permite o funcionamento da máquina social; o enfraquecimento dos relacionamentos interpessoais diretos, ao torná-los dispensáveis e sem valor de troca financeiro (enquanto o nível econômico constitui a base da organização social moderna); a articulação dos indivíduos e agrupamentos de indivíduos em função da estrutura econômica e do dado temporal marcado pela velocidade e a gestão minuciosa do tempo. (26)
Talvez pudéssemos ainda ressaltar o esgarçamento da sensualidade e do erotismo na direção de uma sexualidade banalizada e pornográfica; a desvalorização da criatividade artística, em paralelo ao sucesso de fórmulas clonadas e repetitivas; a substituição de um lúdico corporal pelo virtual; a progressiva e sistemática invasão do imaginário pessoal e coletivo por formas veiculadas/proporcionadas pela mídia e pelos novos meios de comunicação.

Por outro lado, o advento e expansão da AIDS lançaram uma sombra sobre a liberação sexual que tinha sido uma das tônicas dos anos 1960/1970; liberação favorecida pelo popularização da pílula anticoncepcional e dos antibióticos desenvolvidos na Segunda Guerra Mundial, tambem usados nos tratamentos de doenças venéreas, anteriormente, de difícil tratamento e cura. A desvinculação do sexo livro e liberado da possibilidade de uma gravidez indesejada e do perigo de perigosas doenças venéreas durou pouco - pouco mais que 20 ou 30 anos.

E, dentro deste panorama geral, a "uniformização do mundo e a negação do outro" se constituem como os princípios civilizacionais e filosóficos do Ocidente, uma pretensão universalista totalizante baseada em mecanismos e estratégias de dominação militares, culturais, econômicas, ideológicas e discursivas.
A partir daí, observamos a instalação do processo de globalização e o triunfo da mercantilização da sociedade (com sua organização característica e acumulação flexível, toyotismo, economia de 3ª onda; e a financeirização de suas relações de produção não mais centralizada ou garantida por um Estado-nação); com as corporações transnacionais dominando a àrea econômica; a classe capitalista transnacional dominando as práticas políticas; e o contexto cultural-ideológico expresso pela cultura do consumo ancorado na mídia - "intelectual orgânico da classe capitalista transnacional"_.(27)
A nova ordem elege a circularidade e transnacionalidade como padrões de comportamento, o que justifica o acesso e a manipulação de dados como valores. Neste horizonte, operacionaliza-se uma mudança substancial do que constitui bem e riqueza, que deixam de ser representados pelo acúmulo de propriedades, para cada vez mais consolidarem-se pelo acesso à educação e informação. Aqueles que puderem ter a melhor formação educacional vão ingressar na estrutura de poder por meio do conjunto específico das profissões que o americano Robert Reich (O trabalho das nações, preparando-nos para o capitalismo do século 21, São Paulo, Educator, 1994) chamou de analistas simbólicos - cuja atividade é definida pela consultoria. Trata-se de identificar problemas e promover a venda de soluções através da manipulação de símbolos, no propósito de desenvolver recursos e transferir patrimônios financeiros de forma mais eficiente.

Uma das propriedades dessa elite é a valorização do que possui um caráter global e moderno em detrimento do regional e do tradicional, que assumem, cada vez mais, feições retrógradas. Reich avança em sua perspectiva ao definir duas outras categorias de trabalho, que ao lado dos analistas simbólicos integrarão o perfil da força produtiva. São elas os serviços rotineiros de produção (tarefas repetitivas de supervisão e gerência) e os serviços pessoais (empregados de hotéis, restaurantes, salões de beleza, motoristas de taxi, etc., onde não é preciso alto nível escolar e, ao contrário dos anteriores, vendem seus serviços diretamente aos usuários)._(28)


No entanto, Paiva aponta que este talvez não seja um movimento de mão única. O "sistema", mesmo na era da globalização, não é onipotente. As reações, por vezes marcadas pela violência, e as estratégias de contra-ação e de resistência e de esquiva (já que, no mundo atual, a fuga não é possível) se fazem presentes.

Estas reações marcadas pela violência e pela tragédia - por exemplo, os sangrentos conflitos em regiões específicas nesta útima década -, são veiculadas pela mídia como elemento de "espetacularidade". Na Guerra do Golfo, o bombardeio só começou após as c‚meras de TV estarem prontas e a postos.

Mas as estratégias de reação, resistência, esquiva, de determinados grupos e segmentos, muitas vezes operando num circuito micro, em geral passam despercebidas dos que não estão diretamente ligados àquele contexto e quase sempre são completamente ignoradas pela grande mídia. No entanto elas existem, são operantes, e o conjunto de suas ações muda sensivelmente o quadro geral da contemporaneidade.

É justamente uma destas estratégias populares - a capoeira -, descentralizada e caótica (no sentido de fenômeno extremamente complexo e não como ausência total de ordem), materializada por indivíduos de diferentes idades, sexo, cor, ideologia, situação econômica/social e background cultural, que tentaremos analisar e visualizar neste trabalho

1.2 - GLOBALIZAÇÃO E VELOCIDADE; ESPACIALIDADE E TEMPORALIDADE; INSTANTANEIDADE
Tivemos as sociedades de "souveraineté: prélever plutôt qu'organizer la production"; decidir sobre a morte, mais do que gerar a vida (29)_. Napoleão foi um ponto de conversão deste modelo para o das "sociedades repressivas" - séculos XVIII e XIX, com apogeu no começo do século XX -, que se caracterizavam pelos locais de "encarceramento". O indivíduo não cessava de passar de um universo fechado a outro: família, escola, serviço militar, fabrica. De vez em quando o hospital. Eventualmente, a prisão - o lugar de encarceramento por excelência.

A partir da II Guerra Mundial, começa uma crise generalizada dos "locais de encarceramento" e novas forças - formas de controle ultra-rápidas ao ar livre - começam a se manifestar: uma "sociedade de controle". Na sociedade de controle, as massas são encaradas como banco de dados; o dinheiro=ouro transformou-se em câmbio variável; o homem, um produtor descontínuo de energia, agora funciona num regime ondulatório de produção constante.

A "toupeira" das sociedades de lugares fechados transformou-se na "serpente" da sociedade de controle - tanto no regime de dominação quanto na nossa maneira de viver e de nos relacionarmos com os outros. Não se trata, aqui, de uma evolução tecnológica, mas de uma mutação do capitalismo. Nós estamos assistindo ao começo de algo novo: a instalação progressiva e dispersa de um novo regime de dominação, e os anéis da serpente podem ser mais perigosos que os buracos da toupeira.

Vejamos alguns fenômenos citadinos típicos do Estado contemporâneo. Caiafa (30) nos fala de duas grandes metrópoles norte-americanas: Nova Iorque e Los Angeles.

As imagens de ambas as cidades são desterritorializadas, parecem pertencer ao imaginário do planeta.

Idéias e imagens arrancadas = desinserção = desterritorialização.

Reterritorialização = volta das regras tradicionais, mas já afeitas à necessidade de fluxo do capitalismo tecnoburocrçtico.

No entanto em NY há uma intensa ocupação do espaço urbano em oposição às cidades "car-oriented" como LA. A "contaminação" urbana, em NY, reúne os vários grupos e etnias em confronto e não em harmonia; espécie de irresolução que não se equilibra numa população, anexação de culturas que não se sintetizam. Neste contexto vemos, por exemplo, a importância do subway - o metrô de Nova Iorque (em oposição ao carro e a carência de transportes urbanos, característica das cidades "car-oriented" -, e uma possibilidade de dessegregação episódica.

Nas cidades "car-oriented", como LA, tudo acontece no eixo lar-trabalho-shopping. Conexão no tempo via carro e dispositivos de alucinação (TV, VT, fax, telefone, secretária eletrônica, Internet, etc.); filtros contra a exterioridade; eliminação do outro e da diferença em oposição às zonas de pobreza circundantes.

Quanto à heterogeneidade, em NY ainda encontramos manifestações de singularidades expressa, por exemplo, na moda. Em LA temos uma moda "chapada", usada a partir de um modelo irradiado sobre a sociedade.

A pressa tecnológica e a vertigem do movimento a velocidades fascinantes vêm associadas a violento conservadorismo e racismo. Este estilo de vida - impingido via mídia -, incluiu a perda do corpo, a imobilização política/social, o truncamento do desejo.

Trabalho, lar, hierarquia, governo, "desenvolvimento", consumo: "civilização"! Aliàs, sempre é bom lembrar que há usos violentamente conservadores do termo "civilização": um estado ideal de perfeição que as nações deveriam perseguir. Os processos de anexação em geral empunham esta bandeira.

No entanto, segundo Guatari_(31), a idéia de "cidade" pode estar em extinção substituída por bolsões de riqueza e tecnologia dentro das cidades atuais, conectados entre si - no tempo - por dispositivos de alucinação em oposição a enormes áreas de pobreza circundantes (caso atual das áreas entre os aeroportos e as cidades).

Ora, até o século XIX a sociedade estava fundada no freio (muralhas, leis). Com a Revolução Industrial ou dos Transportes (Dromocrática), vem a possibilidade de multiplicar objetos similares e, sobretudo, um meio de fabricar velocidade.

Idade do freio -> acelerador.

Hierarquia da riqueza -> velocidade.

Supremacia da velocidade = supremacia militar.

Por sua vez, a avalanche de técnicas de reprodução comprometeu a genuidade da obra. A "aura" (expressão de autenticidade, Benjamim) é uma realidade longínqüa, segundo Caiafa_(32). As técnicas de reprodução tendem a neutralizar qualquer profundidade; a trazer para perto (Benjamim), ou chegar logo (Virilio), uma questão de velocidade.

No entanto, seria bom lembrar que há diferentes modos de uso da velocidade, ao contrário do ensinado por Virilio_(33):

- velocidade do controle do Estado (Goebels, por exemplo);

- velocidade de tendência nomádica (ativismo urbano);

_ velocidade de organizações mundiais (transnacionais, Máfia, etc.).

Movimento e velocidade são diferentes. O movimento vai de um ponto ao outro, objetivo e racional. Na velocidade, as partes de um corpo enchem um espaço liso à maneira de um turbilhão. Quando o Estado se apropria da máquina-de-guerra nômade, p.ex., transformando-a em exército, ele quebra este movimento turbilhonante através da fortaleza e da parada militar.

O lento e o rápido não são graus quantitativos, mas duas qualidades diferente de movimento.

No entanto, apesar de todos estes enfoques sobre velocidade continuarem válidos, no contexto da globalização o aspecto mais característico é o da instantaneidade e a consequente imediatez das relações sociais, políticas e econômicas. Ou, como coloca Elhajji_: a realização simultânea de uma ação em mútiplos pontos do espaço.
... o que pressupıe uma total sincronicidade entre as várias cenas do processo e a sua submissão a um tempo único e universal... (a esta nova forma de aceleração) chamamos de fator V2 (velocidade/virtualidade): ponto crítico de velocidade a partir do qual se desencadeia um movimento de virtualização do mundo e das relações sociais; como quando o simulacro precede o real, o nega ou a ele se refere apenas por ricochete. (34)

1.3. - CONVERGÊNCIA


Elhajji_(35) nos fala como o atual processo de convergência, conjugado à abertura do setor das telecomunicações e ao crescimento espetacular da Internet e dos serviços online, está modificando as estruturas do mercado e redistribuindo os papéis tradicionais dos atores econômicos; transformando as bases técnicas e materiais de todas as esferas da atividade humana; revolucionando os padrões estabelecidos de organização social, de trabalho e de consumo; originando novos conteúdos e formas de expressão artística, resultado do encontro entre produção, vídeo e concepção computacional (jogos online, programas de TV com dados facultativos ou paralelos, etc.). De um ponto de vista teórico, os sistemas de comunicação funcionariam como dispositivos de articulação do conjunto organizacional social.

A imprensa correspondeu à emergência da individualidade ocidental e aos modos de organização políticos/econômicos/sociais de sua época.

A mídia de massa (como correlato do fordismo) estabilizou os novos moldes organizacionais e preencheu o vazio deixado pela desestruturação das formas comunitárias pré-industriais; foi necessária para a gestão do imaginário coletivo.

Na sociedade pós-industrial - modernidade tardia, globalização -, se fez necessária a reformulação das relações da sociedade com seus meios de produção de sentido. Daí, a mídia interativa, as redes de comunicação, e o processo de convergência.


O sucesso de uma inovação tecnológica depende de sua aceitação social e de sua rentabilidade econômica.

O processo de convergência representa um verdadeiro filão cuja exploração está cada vez mais disputada.

Ora, para dominar tecnologias que levam à produção do equipamento único é necessário controlar todas as indústrias ligadas ao processo - o processo de concentração evolui paralelo ao da convergência. Como conseqüência, testemunhamos o aparecimento de verdadeiros monopólios horizontais ou as alianças (horizontais e verticais) entre parceiros de atividades conexas.

As fusões verticais estariam ligadas às mudanças de estruturas do setor alvo, e as horizontais significariam que a maioria dos atores atuais não dispõe de força suficiente para cobrir todos os segmentos do processo.


É difícil antecipar a evolução das novas tecnologias ou o seu impacto sobre a organização social. O satélite de teledifusão direta, por exemplo, foi concebido para prestar serviços à cultura - obras de cinema e do repertório musical clássico -, mas resultou no triunfo do "mais" (programação quantitativa e variedade ilusória) sobre o "melhor".

No entanto, apesar da imprevisibilidade, Elhajji arrisca algumas possibilidades:

- o fim da TV (convencional, a cabo ou via satélite) tal como a conhecemos hoje, com a intervenção do usuário; não se tratará de escolher entre opções pré-determinadas, mas de dar livremente forma ao seu programa;

- um novo impulso às formas organizacionais "à dist‚ncia" (tele-trabalho, tele-educação, tele-medicina, tele-shopping, vídeo por encomenda, etc.);

- o domínio do software, na medida que o hardware perderá sua importância devido à simplificação do computador doméstico (ou de sua absorção pelo equipamento convergente total), abrindo espaço para empresas de variados portes com a presença de atores pequenos ou médios sem investimento de um grande capital, mas com intenso cohecimento técnico;

- a ampliação da banda de freqüências a uma escala quase infinita com o aumento da utilização das fibras óticas (dependendo, todavia, do desenvolvimento de semi-condutores mais rápidos e de maior potência);

_ ao nível do terminal doméstico, a tela de televisão também será um terminal de recepção audiovisual, de trocas comerciais e um veículo de comunicação com transformações ainda mais radicais se o novo equipamento for integrado a redes inteligentes (no caso da implantação da computação de rede).

Elhajji salienta que a maioria das tecnologias dos próximos anos já são operacionais, embora ainda não tenham sido disponibilizadas no mercado. Parte delas poderá entrar como up-grading da infra-esrutura já instalada.

NOTAS

(6) _IANNI, Octavio. Teorias da globalização. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. Pp.11-24.



(7) _HOBSBAWN, Eric J. Era dos extremos, o breve sec.XX, 1914-1991. São Paulo: Cia. das Letras, 1995. pp. 598. Pp.15-21.

_(8) HORKHEIMER, M. Eclipse da razão. Rio de Janeiro: Editorial Labor doBrasil, 1976.

Consultar tb. ADORNO, T.W., e HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.

(9) _IANNI, Octavio. Op.cit., 1995, pp.26-44.

(10) AMIM, S., e FRANK, A.G., e WALLERSTEIN, I. Le grand tumulte? Paris: Éd.La Découverte, 1991.

_____. L'empire du chaos. Paris: Éd. L'Harmattan, 1991.

FRANK, A.G. Crisis: in the world economy. London: Heinemann Educational Books, 1980.

_____. Critique and anti-critique. London: The Macmillan Press, 1984.

(11) _ELHAJJI, Mohammed. Globalização e convergência, da semiose hegemônica ocidental. Tese de doutorado em çomunicação e çultura, ECO-UFRJ, 1999.

(12) _PAIVA, Raquel. O espírito comum: comunidade, mídia e globalismo. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998. P.24.

_(13) DELEUZE, G. Pourparlers. Paris: Les Éditions de Minuit, 1990. Pp.240-247

_(14) SODÉ, Muniz. O monopólio da fala. Rio de Janeiro: Vozes, 1977. Pp.14-22.

(15) _PAIVA, Raquel. Op.cit., 1998, p.44.

_(16) MILANESI, Luiz Augusto. O paraíso via Embratel. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978. Pp.78-126

_ (17) FAUSTO NETO, A. O presidente da televisão, Rev. Comunicação e Política, n.11. São Paulo: 1990. Pp. 7-27.

_(18) MICELI, Sergio. A noite da madrinha. São Paulo: Perspectiva, 1972. P.72 e p.248.

_(19) MILANESI, Luiz Augusto. Op.cit.,1978, p.215.

(20) _MICELI, Sergio. Op.cit., 1972, p.213.

_(21) KEHL, Maria Rita. Um só povo, uma só cabeça, uma só nação, Anos 70, nº5, televisão. Rio de Janeiro: 1979. Pp.5-29.

(22) _RODRIGUES, Adriano. Do dispositivo televisivo, Rev. de Comunicação e Linguagem, nº9. Maio de 89. Pp.61-72

_(23) COELHO, Teixeira. O imaginário da morte. São Paulo: Rede Imaginária, Cia.das Letras,. 1992. Pp.109-125

(24) Teoria dos Meios de Comunicação V. Veicularidade e território. ECO-UFRJ, 2º sem., 1993.

_(25) PAIVA, Raquel. Op.cit., 1998, pp.13-15.

_(26) ELHAJJI, Mohammed. Op.cit., 1999, p.38.

_(27) Ibidem, p.157.

(28)_PAIVA, Raquel. Op.cit., 1998, pp.35-37.

_(29) DELEUZE, G. Op.cit., 1990, pp.240-247.

_(30) CAIAFA, J. Fast trips and foreignesses, tese de doutourado, Cornell University. 1991. Pp.109-124

_(31) GUATTARI, F. As três ecologias. Campinas, SP: Papirus, 1991. Pp.171-172

_(32) CAIAFA, J. Movimento punk na cidade: a invasão dos bandos sub. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. P.90

_(33) CAIAFA, J. Op.cit., 1991, pp.20-22.

_(34) ELHAJJI, Mohammed. Op.cit., 1999, pp.207-214.



_(35) Ibidem, pp.294-31


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