João Paulo Borges Coelho «É através de Moçambique que eu vejo o mundo»



Baixar 19.81 Kb.
Encontro31.07.2016
Tamanho19.81 Kb.
João Paulo Borges Coelho
«É através de Moçambique que eu vejo o mundo»

 

João Paulo Borges Coelho é um escritor moçambicano cujo seu país é o principal pano de fundo do seu trabalho. Foi vencedor do Prémio José Craveirinha com o seu livro «As Visitas do Dr. Valdez » e tem cinco obras publicadas.



 

 

Tem feito a sua carreira académica na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, onde ensina e investiga a história económica e social do período colonial e do ciclo do pós-independência. Na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa colabora como professor convidado para dirigir o tema «Fronteiras, Nações e Estados», no Mestrado de História de África.



 

 

O futuro, e como próprio indica é composto por muitas ideias que «atropelam-se».



 

 

 



Nasceu no Porto em 1955. O que o levou até Moçambique, Maputo onde reside actualmente?

 

Curiosamente, muita gente me tem colocado esta questão nos últimos tempos. Digo curiosamente porque, na actualidade, o mais comum é pertencer-se a muitos lugares. Não deveria causar estranheza o facto de se pertencer a mais que um lugar. Nada me levou a Moçambique, fui antes levado pelos meus pais, com cerca de um ano de idade. A família do meu pai é de Trás-os Montes mas o meu pai amava, acima de tudo, Moçambique. A família da minha mãe (incluindo ela própria) é desde sempre de Moçambique, e ela, todavia, sempre mostrou uma grande inclinação por Portugal. Fui, portanto, gerado por um cruzamento quase perfeito num mundo imperfeito. Sou, nesse sentido, filho de um tempo próprio que atravessa o acaso do império colonial e o nascimento do Moçambique actual. Não conheço bem o Porto, mas daquilo que conheço acho que é uma cidade muito bela. Todavia, Moçambique é, para mim, não um ponto de chegada mas um ponto de partida. É através de Moçambique que eu vejo o mundo.



 

 

Como se fascinou pela História de África?

 

Antes da História de África, tem-me fascinado a História de Moçambique. É através desta que tenho «partido» para a História de África. Somos um país pobre em recursos, mas com uma história muito rica, veloz nas transformações, não apenas no que respeita a acontecimentos luminosos e dispersos, «barulhentos», mas também em termos daquilo a que Braudel chamou o «recitativo da conjuntura». Num escasso século vivemos um ciclo de ocupação/resistências, um ciclo colonial, um ciclo socialista e, agora, um ciclo neo-liberal. Esta velocidade e riqueza, em termos de transformações e complexidades, fascina forçosamente quem se dedique a estas matérias.



 

 

Gostava que me falasse do seu percurso profissional onde concilia a carreira de Professor na Universidade de Maputo e na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e a carreira de escritor?

 

Não se trata, penso, de conciliar duas carreiras, por duas razões principais. Primeiro, porque o conceito que aqui se aplica, mais que conflito, é o de complementaridade. O espaço académico é um espaço de operação demasiado racionalizada e programada, enquanto que na literatura procuro deixar que se soltem forças mais intuitivas e emocionais, que me facilitam a respiração. Depois, não há também conflito porque não encaro a escrita literária propriamente como uma carreira. Vejo-a mais como um prazer ou, se quiser, uma necessidade de procura dessa difusa liberdade. Quando necessitamos de uma coisa arranjamos sempre um espaço para ela. Evidentemente que no pequeno tempo de todos os dias é por vezes difícil a conciliação de que fala. Mas eu gosto de escrever de manhã bem cedo, quando todas as outras pessoas, os outros deveres e ocupações, ainda dormem.



 

 

Gostaria de saber a razão que o leva a dedicar-se, tão assiduamente, ao estudo das guerras civil e colonial em Moçambique?

 

No espaço curto de trinta anos nós vivemos duas guerras terríveis, separadas entre si por menos de meia-dúzia de anos. Lembro-me bem das duas, de como submeteram todos os aspectos de funcionamento da sociedade à sua lógica devoradora. Ocorre talvez a necessidade «orgânica» de tentar compreender como foi possível tudo aquilo. O mal exerce um poderoso fascínio.



 

 

«As duas sombras do rio »(2003), a sua primeira obra literária publicada fala de histórias em Moçambique, os «Índicos Indícios I. Sentrião e II- Meridião »(2005), falam também de aventuras passadas no país da África Austral. Assim, considera-se um cronista de Moçambique?

 

Interessa-me uma escrita que indague sobre a natureza humana, também sobre a natureza propriamente dita. Se fosse tudo como a racionalidade dita, chegaríamos a um dia em que a espécie humana seria uma verdadeira e previsível monocultura, e a natureza um conjunto de objectos de museu. Embora não haja evidentemente a mínima possibilidade de aí chegarmos, tenho pressa de tratar destas questões antes que tal aconteça. Acho que a literatura não se compadece de fronteiras, não acredito muito em «literatura nacionalista». No entanto, parece-me natural que reflicta sobre o que se passa à minha volta, o meu mundo imediato. Que seja esse o ponto de partida. Temos um país belíssimo, virado para o Índico, que é um oceano mágico. Temos uma savana única, habitada por gente única também, e uma história que, como todas as outras histórias, é povoada de grandezas e misérias, ou de acontecimentos normais, nem grandes nem miseráveis. É compreensível que me custe libertar desta teia.



 

 

O seu livro «As Visitas do Dr. Valdez »(2004) ganhou recentemente o prémio José Craveirinha pela Associação de Escritores Moçambicanos e pela empresa de Cahora Bassa. Qual foi para si o significado dessa distinção?

 

Este prémio é o grande prémio literário nacional. Além disso, carrega o nome de um poeta grande da nossa literatura, que era uma pessoa com uma postura inquieta, que aliava o desafio e uma certa sobranceria a uma grande sensibilidade. O prémio significa um reconhecimento do meu trabalho que me deixa muito contente.



 

 

 



Fale-me um pouco desse seu livro e da inspiração que o levou a escrevê-lo.

 

Embora não sendo um livro autobiográfico, o tema foi-me sugerido por um episódio ocorrido dentro da minha própria família. Com ele quis simplesmente contar uma história e, ao mesmo tempo, questionar a interpretação maniqueísta que domina este período das vésperas da independência. Onde tudo costuma ser lido a preto-e-branco, quis introduzir cinzentos, matizes. Ao mesmo tempo, divertiu-me, digamos, experimentar uma técnica de narração fragmentada, uma espécie de puzzle duplo, no tempo e no espaço. Não parto para um livro com uma história feita. Pelo contrário, tinha um episódio muito breve, e a ideia de o explorar com base em questões que me parecem interessantes.



 

 

Recentemente lança a «Crónica da Rua 513.2» onde mais uma vez Moçambique é o pano de fundo. Fale-me do que a rua 513.2 tem para revelar ao leitor?

 

A história deste livro acontece num tempo imediatamente a seguir ao tempo do Valdez, e corresponde àquilo a que poderiamos chamar o «ciclo socialista». É, portanto, um livro fortemente subsidiário de uma visão de historiador. Com ele quis tratar das franjas «não épicas» de uma história que até agora tem sido povoada, em grande medida, por vanguardas e massas operárias e camponesas. Quis falar das outras pessoas - pessoas «normais» - que não cabem nestas categorias. A acção ocorre no espaço estreito de uma rua. Na minha rua real (não nesta, imaginária), assisti à chegada de moçambicanos para ocupar as casas deixadas vazias pelos portugueses que partiam. Dez anos depois, vi esses mesmos moçambicanos vender essas mesmas casas e retornar aos lugares de onde tinham vindo, normalmente nos subúrbios da cidade. É este ciclo que trato, e quis fazê-lo num registo menos melancólico, mais arejado.



 

 

Projectos futuros?



 

Em termos da literatura, muitos. Atropelam-se. Tantos que não consigo perceber a «angústia da página branca» de que por vezes se fala. Tenho alguns temas, farrapos de histórias e, sobretudo, maneiras diferentes de as contar, que quero explorar. Tenho um romance quase pronto, em termos formais talvez mais «distante» de Moçambique, mas debruçando-se sobre temas que considero muito relevantes para Moçambique. Trata do poder e da tensão entre a tradição e a modernidade. E, claro, há ainda a questão do português, língua tão mágica como o Oceano Índico o é. Quero continuar a «combater» com ele por muito tempo, procurar os sentidos expostos e calados das palavras, o pulsar das frases, tanto que por vezes me pergunto se os enredos que se criam não passam de pretextos para o fazer funcionar.



 

Rita Pablo

EXPRESSO AFRICA – 13.04.2006


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal