JOÃo quirino de carvalho



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EDUCAÇÃO MATEMÁTICA ENTRE JOVENS E ADULTOS GUATÓ:

RELATO DE EXPERIÊNCIA NA ESCOLA ESTADUAL INDÍGENA

JOÃO QUIRINO DE CARVALHO” – TOGHOPANAÃ, CORUMBÁ, MS


Giani Ramona da Silva

Universidade Católica de Brasília (UCB)

gianiramonasilva@bol.com.br
Considerações Iniciais1

Dados como “extintos” por antropólogos e indigenistas, ao longo do século XX, os indígenas Guató “ressurgiram” no cenário étnico brasileiro no final da década de 1970, em parte graças aos trabalhos desenvolvidos por missionários ligados à Igreja Católica (Pastoral Indigenista), do município sul-mato-grossense de Corumbá. Nas duas décadas que se seguiram ao “ressurgimento” do grupo, os Guató lutaram para reaver as terras tradicionais a que tinham direito e que, durante anos, lhes haviam sido usurpadas. Apenas no início de 2003 estes índios puderam, finalmente, ver parte de seu antigo território demarcado (a Terra Indígena Guató) e homologado. Entre 2003 e 2005, foi construída na aldeia Uberaba, Ilha Ínsua, a Escola Estadual Indígena “João Quirino de Carvalho” – Toghopanaã, oferecendo as séries iniciais do Ensino Fundamental às crianças e adolescentes Guató.

Entretanto, até 2006, os jovens e adultos Guató não tiveram a oportunidade de retornar aos bancos escolares, pois a unidade que se encontra em terra indígena possuía apenas duas salas de aula e atendia somente a crianças e adolescentes, nos períodos matutino e vespertino, de 1ª a 4ª séries. O acesso à Ilha Ínsua, às margens do rio Paraguai, é um outro fator complicador para a manutenção permanente de educadores habilitados na escola, pois fica a mais de 300 quilômetros, rio acima, de Corumbá e possui irregular abastecimento de água potável e de energia elétrica. Os Guató são conhecidos como índios canoeiros e no passado eram chamados de “senhores do Pantanal”. São falantes de uma língua, hoje quase desaparecida, pertencente ao tronco Macro-Jê.

Nos dias de hoje, jovens e adultos indígenas Guató desejam prosseguir os estudos em sua própria terra e, para tanto, solicitaram à Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul (SED/MS) a instalação do Projeto Saberes da Terra na escola da aldeia. Trata-se de um Curso de Educação de Jovens e Adultos (EJA) relacionado ao segundo segmento do Ensino Fundamental (5ª a 8ª séries) e financiado com recursos federais. Em levantamento prévio (diagnóstico histórico-econômico), verificou-se que a totalidade dos jovens e adultos Guató, moradores da Ilha Ínsua, já domina parcialmente a leitura, a escrita e as quatro operações matemáticas fundamentais, realidade que é, em grande parte, fruto do trabalho realizado pelo único educador Guató habilitado em Curso Normal em Nível Médio (Magistério), ex-coordenador pedagógico na Escola Estadual Indígena “João Quirino de Carvalho” – Toghopanaã.


Caracterização da aldeia e da população indígena envolvida na experiência

A Terra Indígena Guató, é uma área de aproximadamente 10.000 hectares de extensão, homologada definitivamente, no início de 2003, pelo Governo Federal (Decreto Nº. 1.775/96). Está localizada inteiramente na parte noroeste do município de Corumbá, Estado de Mato Grosso do Sul e possui, atualmente, uma única aldeia: Uberaba. A Fundação Nacional do Índio (Funai) administra a área, mas não mantém Posto Indígena no local. O acesso à aldeia Uberaba é realizado por via fluvial ou aérea. A Funai estima em 150 habitantes a população da aldeia e desse total, a maioria é Guató, havendo uma pequena parcela da população formada por não-índios, cuja presença é resultante de uniões inter-étnicas.

Os Guató são hábeis caçadores e pescadores de rios e corixos, utilizando o peixe e o jacaré como base alimentar. Plantam mandioca, milho e cereais, coletando nas matas o que mais lhes é necessário, como frutas e mel de abelhas. Os índios mantêm, ainda, a tradição de construir canoas com troncos de árvores de madeira leve, escavadas a fogo e aparadas com instrumentos rudimentares. Além da comunidade de Mato Grosso do Sul, há ainda um outro contingente de índios Guató em Mato Grosso, estimando-se em aproximadamente 650 pessoas o total, incluindo-se os dispersos por fazendas no Pantanal e nas periferias das cidades, tais como Cáceres, Poconé, Barão de Melgaço (no Estado de Mato Grosso) e Corumbá.

Sendo o Guató um típico representante dos grupos canoeiros que se estabeleceram nas áreas inundáveis do Pantanal, as estratégias utilizadas de ocupação desse espaço estão relacionadas a fatores cultural e ecologicamente importantes à subsistência do grupo, em que cada família depende fundamentalmente da sua capacidade autônoma em obter os recursos necessários para a sobrevivência. Por outro lado, a diversidade biológica que caracteriza o habitat Guató favorece a exploração de uma gama de recursos faunísticos e florísticos, através de atividades de caça, pesca, coleta e cultivo. Nesse aspecto, cabe ressaltar a importância dos aterros para a agricultura e na própria constituição da identidade étnica do grupo (OLIVEIRA, 1996).

A Escola Estadual Indígena “João Quirino de Carvalho” – Toghopanaã procura privilegiar os aspectos citados acima nos trabalhos pedagógicos que são desenvolvidos entre os Guató, inclusive no tocante à Educação de Jovens e Adultos (EJA), realizada através do Projeto Saberes da Terra. O Saberes da Terra – Projeto de Educação de Jovens e Adultos Integrado com Qualificação Social e Profissional para Agricultores(as) Familiares/ Projeto Experimental/ MS – tem por objetivo específico proporcionar a qualificação social e profissional inicial de agricultores familiares nas comunidades ribeirinhas, pantaneiras, de assentados, de acampados, indígenas e de trabalhadores rurais em geral. Um dos requisitos de acesso é apresentar noções de leitura e escrita e noções matemáticas (que são detectados através de preenchimento de ficha de inscrição pelo próprio aluno). O público matriculado entre os Guató é de 33 indígenas, sendo 18 homens e 15 mulheres, com idades que variam entre 15 e 60 anos.

Na proposta do Saberes há uma área estudo denominada Linguagem Matemática, cujo componente curricular Matemática é trabalhado em 4 aulas semanais, de 45 minutos, totalizando uma carga horária bianual de 360 horas, sendo 270 horas em Tempo Escola (TE) e 112 horas em Tempo Comunidade (TC). Trata-se, portanto, da chamada pedagogia da alternância, em que o tempo na escola é parcial, mas o tempo formativo na escola e fora dela é integral. As áreas de estudo do componente curricular Matemática são: Números e operações; Espaços e formas; Grandezas e medidas; Dados, informações e o uso social; Tratamento de informação.

É importante lembrar que há cerca de uma década, muitos Guató saíram da sede do município de Corumbá, onde viviam em localidades periféricas, sendo também que havia pessoas que jamais saíram das imediações da Ilha Ínsua. Em ambos os casos, esta população indígena foi excluída da oferta de Ensino Fundamental

Cerca de 10 adolescentes com idade máxima de 14anos estão aguardando o inicio das aulas para o Ensino Fundamental, regular, o que equivale hoje ao 6º ano, com aproveitamento do corpo docente do Projeto Saberes da Terra.

Ressalta-se que a língua utilizada na comunidade escolar (L1) é a Língua Portuguesa. O trabalho com a língua indígena vem sendo realizado através de um professor Guató junto às séries iniciais, por meio de depoimentos, falas e cantos gravados e transcritos, a partir dos registros orais dos mais velhos. A língua Guató não é falada intensamente e extensamente devido aos poucos falantes da mesma morar em outras localidades ou estar nucleados (como viviam antes) ao longo do Rio Paraguai e, portanto, distantes da Aldeia Uberaba. A recuperação de uma língua indígena é um trabalho tímido, porém permanente/ insistente/ resistente da manutenção e sobrevivência desta língua, traço cultural importante.

Até julho de 2006, havia muita expectativa para que essa população de alunos fosse atendida no Ensino Fundamental. Importante destacar que a escola tem um papel de espaço de socialização da comunidade, pois há poucos espaços para se estar juntos, discutindo, avançando, criando um ambiente de vivência de comunidade. As aulas acontecem no período da tarde das 13h00min às 17h45min. O prédio atual é de alvenaria, com duas salas de aulas que comportam 15 alunos cada uma, banheiros masculino/ feminino, sala de informática com 08 computadores, sendo que podem ser ligados, ao mesmo tempo, apenas 02 aparelhos (utilização de energia solar, que é uma energia alternativa, porém limitada).

O maior desafio em todos esses anos, especialmente com a chegada do Projeto Saberes da Terra é fazer com que esse espaço opere com o mínimo de condições: transporte do corpo docente, contratação de pessoal qualificado, merenda escolar, água tratada, e que se contemple a elaboração de material pedagógico específico. Baseado no diagnóstico realizado no ato da matricula, adequações pedagógicas ao projeto foram discutidas em quatro ocasiões, em duas oficinas de capacitação e em dois seminários, mas para isso as informações foram trazidas do ambiente escolar, onde são constantemente revistas, refeitas, adaptadas à realidade e necessidades locais, por meio de discussões em sala de aula. O resultado então passa a ser uma construção coletiva dos alunos entre si e com os professores.

A princípio o projeto foi elaborado para atendimento em escolas do campo pelo Brasil afora (SECRETARIA DE ESTADO DE EDUCAÇÃO DE MS, 2006). Em Mato Grosso do Sul, um dos Estados da Federação com o maior número de população indígena e que conta atualmente com a presença de nove etnias (Atikum, Guarani-Kaiowá, Guarani-Ñandeva, Guató, Kadiwéu, Kamba, Kinikinau, Ofaié e Terena) o Saberes da Terra acontece nas seguintes localidades: Anastácio, Corumbá, Dourados, Itaquiraí, Nioaque, Ponta Porã e Sidrolândia. No município de Dourados são atendidas duas escolas da etnia Guarani-Kaiowá. Em Corumbá, além dos Guató são atendidos também ribeirinhos e profissionais que trabalham no rio Paraguai.


Percepções e vivências matemáticas Guató, a partir da horta escolar

A proposta pedagógica partiu das necessidades dos alunos em fazerem/ melhorarem/ ampliarem/ retomarem o que já existia: a horta escolar, transportando conhecimentos já sabidos, porque o Guató é um grupo indígena que pratica a agricultura através de roças de milho, feijão, mandioca, batata, abóbora, dentre outros, com trocas/ acréscimos/ aquisição de conhecimentos/ saberes por investigações, experiências/ experimentações/ indagações. Aliados aos conhecimentos adquiridos fora da aldeia, em um contexto não-indígena, estão, portanto, os chamados etnoconhecimentos, aqueles desenvolvidos tradicionalmente pelo grupo ao longo dos tempos.

A autora, acompanhada pelo professor Carlos da Silva Dias (indígena Terena e técnico agropecuário participante do Saberes) oportunizou/ construiu os espaços educativos, seja na sala de aula, na horta ou na casa dos alunos, por meio de visitações programadas, não se prendendo à rigidez de horários de aulas determinados/ definidos. Isso também faz parte do Projeto Saberes da Terra, daí a necessidade de se preparar aulas conjuntamente e estar em sintonia, estudando, revendo, avaliando, conhecendo, aprendendo um pouco das áreas especificas do outro, pois neste caso não há isolamento nem esgotamento de assuntos. Assim, espera-se estar realizando a interdisciplinaridade (professores de diferentes disciplinas trabalhando em conjunto para viabilizar a aprendizagem de conceitos e/ou habilidades).

Os alunos foram ao espaço escolar já existente como horta, com o propósito de ampliá-la, fazendo medições. Abriram buracos, colocaram postes e tela (perfazendo novo perímetro), integrando as medidas existentes no trabalho. Prepararam novos canteiros, com posicionamentos diferentes do original, e, assim, novos conceitos/ necessidades foram trazidos para as aulas: arco ocupacional e produção rural, especificamente horticultura. Alguns fizeram a medição por trena, outros com vara, instrumento pessoal do aluno, relatando/ informando também outras possibilidades, tais como o uso de pés, passos, braças, nesta e em outras situações cotidianas.

Trabalhou-se, também, a variação ou alternância de alimentos (legumes, verduras e até frutas) com produção contínua e regular com menos mão-de-obra, já que certas culturas são rápidas, entre o tempo de plantar e colher; a tabela de vitaminas/ benefícios orgânicos; a utilização do fogo, solo e água, além do controle biológico de pragas e ervas daninhas. Concluiu-se que a roça requer mais tempo entre o preparo, plantio e colheita, e, quando possível, o armazenamento, além da exigência de maior número de pessoas envolvidas, dependendo do tamanho e quantidade que estará sendo plantada, visto que em alguns casos ainda predomina a monocultura.

Com isso, houve a valorização da relação com a natureza, atribuindo-se significados que variam de acordo com as necessidades, desejos, condições e circunstâncias em que se vive. Princípios e regras sobre direitos, obrigações e deveres são discutidos e trabalhados na EJA, através do Saberes da Terra. Dessa forma, foi proposto trabalho no TC cuidados com a horta para os meses de dezembro/2006 e janeiro/2007, que foram organizados através de escala de equipes com seqüência de tarefas. Houve produção de textos escritos registros em caderno de freqüência, atividades físicas, manifestação de tradições culturais, pois o ethos Guató está essencialmente ligado às águas do Pantanal. Foram ainda trabalhadas noções de cidadania e democracia, sociedade e convívio social; espaço geográfico, calendário agrícola, recursos da terra e qualidade de vida, além de saúde, ecologia, água, solo e ar.


Algumas considerações teóricas a partir da experiência em Educação Matemática entre indígenas

A partir da experiência brevemente relatada nesta comunicação podem ser apontadas algumas considerações de ordem teórica. Parte-se da definição de Educação como:


[...] conjunto de estratégias desenvolvidas pela sociedade para (i) possibilitar a cada individuo atingir seu potencial criativo (ii); estimular e facilitar a ação comum, com a finalidade de viver em sociedade e de exercer a cidadania (D’AMBRÓSIO In: BICUDO, 1999: 99).
Assim, em sala de aula o maior desafio é conquistar o aluno, em particular no componente curricular Matemática, instigá-lo a mergulhar no ambiente matemático já existente/ sabido/ conhecido, mas não raras vezes com os traumas e medos que carrega dentro de si de algumas experiências anteriores negativas, apenas com conteúdos sem conexão alguma com sua realidade, sem finalidade para que esteja sendo feita esta ou aquela atividade, levando/ induzindo ao erro/ fracasso, desinteresse. Fazê-lo perceber que seu mundo sociocultural é cercado de saberes matemáticos é outro grande desafio. Os Guató ainda estão se reconhecendo enquanto indígenas, com potencial e talento, não percebidos por si mesmos, buscando/ aprimorando/ conhecendo o conceito e prática de vivência comunitária. A baixa auto-estima existe não só neste grupo de trabalho atual, mas em todas as condições/situações de vivência da exclusão, seja ela social, política, cultural, etc.

De acordo com Maria da Conceição Ferreira Reis Fonseca, no texto Educação Matemática de Jovens e Adultos: discurso, significação e constituição de sujeitos nas situações de ensino-aprendizagem escolares (FONSECA In: SOARES; GIOVANETTI; GOMES, 2005), os modos de “matematicar” dos alunos da EJA constituem e refletem sua identidade sociocultural, que, a despeito das diversidades das histórias individuais, é tecida na experiência das possibilidades, das responsabilidades, das angústias e até de um quê de nostalgia, próprios da vida adulta. Delineia-se nas marcas dos processos de exclusão precoce da escola regular, dos quais sua condição de aluno da EJA é reflexo e resgate: aflora-se nas causas e se aprofunda no sentimento e as conseqüências de sua situação marginal em relação à participação nas instancias decisórias da vida pública e ao acesso aos bens materiais e culturais produzidos pela sociedade.

As práticas do aluno de EJA revelam um sujeito responsivo que se posiciona (porque sua condição adulta o obriga a isso) diante das interpelações que a vida lhe impõe ou que ele impõe à sua vida. De acordo com os Referenciais Curriculares Nacionais para as Escolas Indígenas – RCNEI (BRASIL, 1998: 175), por exemplo, o estudo do espaço e das formas, inclui idéias e intuições sobre a forma e o tamanho de figuras e objetos, bem como sua posição ou localização no espaço, noções de direção e de orientação espacial (geometria). O estudo das grandezas e medidas (perímetro e área) criou nos jovens e adultos, pois, a necessidade de elaboração do calendário agrícola que ainda está em debate /confecção.

A produção de subsistência familiar/ agricultura ecológica refere-se aos processos coletivos: conquista dos direitos e da terra, resistência na terra e produção sustentável – familiar, ecológica, apropriada às diversidades regionais (CPT/MS, [s.d.]: 1), além do direito à melhoria da qualidade de vida através da produção de alimentos com conceitos de agricultura familiar e ecológica, desenvolvimento sustentável e solidário. Para os Guató, a relação com a natureza é de muito respeito, mas questiona-se/ afirma-se, avalia-se como crescer enquanto comunidade populacional, sem agressão ao meio ambiente. Hoje eles têm água tratada implantada pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa), retirada do Rio Paraguai por meio de gerador a base de combustível (óleo diesel) e quando o mesmo falta tudo se volta às práticas dos “tempos de antigamente”, diretamente ao rio.


Considerações finais

As experiências em Educação Matemática realizadas no âmbito do Projeto Saberes da Terra, ainda em curso, na Escola Estadual Indígena “João Quirino de Carvalho” – Toghopanaã podem contribuir significativamente para o estudo das idéias matemáticas de sociedades culturalmente distintas (FERREIRA, 2002). A Educação, neste caso, pode ser entendida:


[...] como uma estratégia de estímulo ao desenvolvimento individual e coletivo, gerada por esses mesmos grupos culturais, com a finalidade de se manterem como tal e de avançarem na satisfação de necessidades de sobrevivência e de transcendência (D’AMBRÓSIO, 1996: 08).
Um aspecto fundamental da proposta metodológica de cursos de EJA para indígenas é o desenvolvimento dos educandos como pesquisadores de sua própria cultura, produzindo materiais didáticos diversos em Línguas Indígena e Portuguesa, tais como dicionários, gramáticas, textos literários, jornalísticos, enciclopédicos, instrucionais, teóricos e de uso cotidiano, contemplando, também, estudos de Geografia, História, Ciências, Matemática, etc. A aprendizagem aqui proposta funda-se, assim, em um processo contínuo e global que avança em função das experiências vivenciadas pelos sujeitos em seu contexto sócio-histórico, sendo o etnoconhecimento o pressuposto metodológico que retrata esta concepção de aprendizagem.

Entendendo a aprendizagem como um processo social, não se pode pensá-la como abstrata, universal e desconectada da realidade, pois cada contexto dá origem a modos diferentes de ver, compreender e intervir no mundo. É esse processo de conhecer – denominado aqui etnoconhecimento – que norteia as escolhas e intervenções do projeto Saberes da Terra. A escola indígena que se pretende construir não pode ser espaço/ tempo somente de pensar e discutir, mas também de produzir, de fazer, de viver, sendo também, tempo/ espaço de reflexão sobre o fazer. A escola é também ponto de encontro, fronteira por excelência, local de troca e de negociação de significados (TASSINARI In: LOPES DA SILVA; FERREIRA: 2001).

Os saberes trazidos pelos jovens e adultos Guató (incluindo seus etnoconhecimentos) são respeitados pela escola como ponto de partida para a aquisição de outros saberes. Assim, os jovens e adultos indígenas compreendem que os conhecimentos que irão construir no espaço escolar têm relação com aqueles já construídos em sua vida cotidiana e que é útil e interessante relacioná-los e ampliá-los. “Remar contra a correnteza” é o que fazem literalmente os índios Guató localizados em Mato Grosso do Sul na atualidade. Depois de anos sem poder viver em terras tradicionais, abandonados à própria sorte em fazendas do Pantanal ou nas periferias das cidades, estes índios voltaram a se reunir. Contrariando as expectativas de que estariam “extintos”, os Guató almejam se reafirmar novamente “senhores do Pantanal”, tal como eram conhecidos no passado. Para tanto, decidiram se utilizar do espaço institucional escolar, dentre outros, como efetivo locus de reafirmação da identidade étnica do grupo e expressão de alteridade frente ao outro. Acredita-se que a Educação Matemática tem destacado papel neste complexo processo.

Referências Bibliográficas

BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial curricular nacional para as escolas indígenas. Brasília: MEC/ SEF, 1998. 339 p.

CPT (Comissão Pastoral da Terra) – Regional Mato Grosso do Sul. Produção de subsistência familiar. Agricultura ecológica. Campo Grande: CPT, [s.d.]. 20 p.

D’AMBRÓSIO, U. A História da Matemática: questões historiográficas e políticas e reflexos na Educação Matemática. In: BICUDO, M. A. V. (Org.). Pesquisa em Educação Matemática: concepções & perspectivas. São Paulo: Unesp, 1999. p. 97-115.

D’AMBRÓSIO. U. Educação Matemática: da teoria à prática. 10. ed. Campinas: Papirus, 1996. 120 p.

FERREIRA, M. K. L. (Org.). Idéias matemáticas de povos culturalmente distintos. São Paulo: Global, 2002. 336 p.

FONSECA, M. da C. F. R. Educação Matemática de Jovens e Adultos: discurso, significação e constituição de sujeitos nas situações de ensino-aprendizagem escolares. In: SOARES, L.; GIOVANETTI, M. A.; GOMES, N. L. (Orgs.). Diálogos na educação de jovens e adultos. Belo Horizonte: Autêntica, 2005. p 225-240.

JOSÉ DA SILVA, G. “Remar contra a correnteza”: Educação de Jovens e Adultos indígenas Guató, no Pantanal de Mato Grosso do Sul. Bodoquena, 2006. 30 p. Mimeografado.

OLIVEIRA, J. E. Guató: argonautas do Pantanal. Porto Alegre: Edipucrs, 1996. 179 p.

SECRETARIA DE ESTADO DE EDUCAÇÃO DE MS. Saberes da Terra – Projeto de Educação de Jovens e Adultos Integrado com Qualificação Social e Profissional para Agricultores(as) Familiares/ Projeto Experimental/ MS. Campo Grande: SED/MS, 2006. 39 p. Mimeografado.



TASSINARI, A. M. I. Escola indígena: novos horizontes teóricos, novas fronteiras de educação. In: LOPES DA SILVA, A.; FERREIRA, M. K. L. (Orgs.). Antropologia, história e educação: a questão indígena e a escola. São Paulo: Global, 2001. p. 44-70.

1 As informações contidas nesta e em outras seções, a respeito da comunidade indígena Guató que vive em Mato Grosso do Sul, foram retiradas do texto não-publicado “Remar contra a correnteza”: Educação de Jovens e Adultos indígenas Guató, no Pantanal de Mato Grosso do Sul, de autoria do antropólogo e historiador Giovani José da Silva (JOSÉ DA SILVA, 2006).


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