Jorge Uilson Clark



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A ATUAÇÃO DAS ESCOLAS PROTESTANTES DURANTE O PERÍODO DE RENOVAÇÃO DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA.

Jorge Uilson Clark*



1- Introdução
A importância deste estudo está no entendimento da forma de criação das escolas de origem protestante e de sua atuação no cenário paulista, elas tomaram como base o pensamento liberal capitalista, cujos princípios exerceram forte influência sobre a elite nacional no período de 1930.

Anterior a esse período citado, mais precisamente, após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), quando o mundo apresentava algumas tensões e dificuldades de convívio diante do novo reordenamento do poder mundial e a busca de um novo equilíbrio nas relações internacionais, já se percebia nitidamente que os Estados Unidos passava a exercer influência em todos os setores da economia mundial e também na brasileira, inclusive ideologicamente, atingindo diretamente o nosso sistema educacional. Este fato podia ser observado através da implantação de colégios de orientação americana em várias regiões do Brasil, e mais particularmente na Região Sul e Sudeste, principalmente no período de 1889 a 1930.

A aceitação das escolas protestantes junto à classe média e a elite nacional, se devem principalmente pela aplicação de uma pedagogia inovadora e progressista, que a colocava em terreno oposto aos colégios católicos institucionalizado e de estilo tradicional, sem com isso constituir uma ameaça à estrutura de dominação aqui existente.

As instituições protestantes ofereceram uma nova experiência de vida e diferente explicação de visão de mundo, daquelas até então conhecidas pela elite nacional dominante e classe média, que sentiam necessidade de buscar conhecimento mais próximo da realidade concreta, uma vez que o mundo passava por mudanças, assim como a própria economia.

Com o desenvolvimento do capitalismo a nível mundial, fortalecia a presença de certas idéias básicas da ideologia liberal em nosso país, principalmente após 1930, quando também fortalece o ideal democrático das Igrejas, predominando a liberdade de expressão (livre análise da Bíblia e o sacerdócio universal dos crentes). A doutrina protestante adota como filosofia, a necessidade de que seus membros adquiram maior responsabilidade pessoal, o destaque é dado ao culto do trabalho, relevando os aspectos morais dos indivíduos (honestidade, austeridade, temperança, etc) e a busca de êxito com expressões de racionalidade e eficiência. Segundo Camargo (1973:143):

Missionários de procedência predominantemente norte-americana difundiram concepções de vida e maneira de agir coerente com o sistema valorativo prevalecente em sua cultura de origem. A ética protestante aqui introduzida estimulava e dava legitimidade a padrões de comportamento correspondente a estilo de vida apropriado para a sociedade capitalista mais desenvolvida“.


Os missionários norte-americanos tendo uma visão de mundo diferente dos brasileiros, consideravam o sistema educativo nacional inadequado e atrasado. Isto os motivou a criar suas escolas, impondo através dela seus valores, ideologia, hábitos e costumes de natureza liberal capitalista.

Para os missionários e educadores norte-americanos aqui instalados, essa discussão envolvendo educação e religião se apresentava como uma nova experiência a ser vivida. Originários de uma sociedade onde a maioria era protestante, ainda não haviam se defrontado com o problema de atuar numa sociedade que adotava princípios religiosos diferentes aos seus. E a única "forma de conciliar essas ambigüidades foi apresentar a religião como base de uma vida digna, útil e patriótica através de um sólido testemunho de seus professores e diretores”, apresentados como "exemplo vivo" de moral cristã protestante e dotados de um caráter firme e imaculado.

Além de valorizar os dirigentes da sua igreja e escola, os missionários-educadores também procuravam desenvolver um plano de ensino inovador, que valorizasse tanto o raciocínio como as atividades práticas, cuja pedagogia mesclava as idéias dos pensadores "escolanovistas", com o valor moral religioso cristão, tendo como fonte principal de preocupação a instrução do indivíduo e a valorização de sua auto-estima.

Um dos meios de divulgar o trabalho educacional dessas escolas, foi através da veiculação nos órgãos de imprensa, difundindo o sucesso alcançado pelos seus alunos mais expressivos, tanto no campo social quanto na política, comprovando assim, o elevado grau de eficiência e competência da prática educativa de seu corpo docente, bem como de seus dirigentes em comparação às outras escolas.

No Brasil, o protestantismo, logo no seu início, priorizou o espírito ecumênico como forma de atendimento das necessidades espirituais dos imigrantes. Essa idéia prevaleceu durante os primeiros anos da imigração (1870-1890), assim como a conversão dos brasileiros à fé protestante. Com o advento da Proclamação da República entre o período de 1889 a 1930, houve uma proliferação de igrejas e de escolas por todo o território nacional.

Este crescimento, demonstra o grau de aceitação das escolas protestantes junto à elite nacional, especialmente, por parte da elite paulista, fazendo com que a preocupação com o proselitismo declarado dos protestantes fosse abandonado. Essas escolas passaram a difundir os ideais do cristianismo com base nos princípios liberais de valorização da liberdade de consciência, do respeito e defesa dos direitos individuais, estimulando a competição, a concorrência e a eficiência, dentro do estilo e dos princípios que nortearam o capitalismo na Europa e nos Estados Unidos. São estes princípios liberais que vai estar presente na educação protestante difundida no Brasil, e transformada em prática educativa por essas escolas que adotaram um modelo educacional com menor rigidez disciplinar e maior flexibilidade no plano de ensino.

Ramalho (1985:194), comentando a adoção do princípio geral do liberalismo pelo protestantismo, afirma:

"O indivíduo é que determina as suas próprias condições econômicas e situação social, onde os destaques na escola e principalmente na vida são obtidos por aqueles que mais se esforçam, os que têm força de vontade e possuem bom caráter (...), a sociedade se aperfeiçoa, a medida em que tem indivíduos livres e úteis, estando a educação a serviço dos privilegiados" .
Ao valorizar os conceitos de inspiração capitalista, as escolas protestantes definiam seus objetivos como sendo o de transmissão de cultura, crenças, hábitos e boas maneiras, característica essa de uma cultura desenvolvida, para uma classe privilegiada ainda em desenvolvimento. A participação de seus membros no grupo social e na comunidade era fator relevante não só para a integração do indivíduo, como para o aperfeiçoamento da própria sociedade. Esta prática de ensino priorizava tanto a instrução como as experiências concretas e produtivas que cada indivíduo desenvolvia na sociedade, conforme os modelos preconizados por Dewey, Kilpatrick, Horace Mann, especialmente o primeiro, que encara a educação como sendo produto de uma "função social". De acordo com Dewey (1979: 11):
"A capacidade de crescer decorre do estado de dependência de outras pessoas e de plasticidade. Estas duas condições encontram-se em sua plenitude na infância e na adolescência. Plasticidade ou capacidade de aprender com a experiência significa formação de hábitos. Os hábitos dão-nos o domínio sobre o meio e a capacidade de utilizá-lo para fins humanos. Os hábitos tomam forma passiva ou de equilíbrio geral e persistente da actividade orgânica do meio” .
As experiências ocorrem através da produção da existência humana configurando-se num processo de aprendizagem de conhecimento e de valores que foram preservados pelas antigas gerações e transmitidas para as mais novas como meio de conservar as conquistas, os valores e hábitos de uma determinada classe social ou de uma sociedade. Esse poder de aprender é o poder de adquirir hábitos, que segundo Teixeira (1929, p.20):

hábito é, antes de tudo, uma habilidade de execução, um commando das condições naturaes do meio para certos determinados resultado. A educação é muitas vezes definida como a formação dos hábitos que ajustam o individuo ao seu meio.



Mas esse ajustamento e adaptação não são qualquer cousa passiva, mas, antes, eminentemente activa. Não somente se podem adaptar as nossas actividades ao meio, mas se adapta o meio às nossas actividades.

Hábito, no sentido educativo, não é o hábito rígido ou fixo ou rotineiro. Hábito significa facilidade, economia, efficiencia de acção, e ainda uma disposição intellectual a mudar, a progredir, a desenvolver”.

O desenvolvimento dos hábitos e sua mudança, de acordo com Teixeira (que por sua vez, vai beber na fonte de Dewey), se dão através de um ambiente que assegure o pleno e largo uso da inteligência pelo educando, sendo esse desenvolvido não propriamente através de métodos, mas através de uma eficiente prática educativa menos rígida que ofereça condição para que esse educando desenvolva habilidade intelectual e tenha uma estreita ligação com o sentido prático de sua vida, resultado de suas experiências. “O acompanhamento da efficiência e habilidade de pensamento, é o processo de manter uma plasticidade (capacidade de retenção de uma experiência) constante e uma constante capacidade de progresso”.1

Deste modo, o processo educativo, no pensamento de Teixeira, é um processo que se encontra em contínua transformação, reconstrução e de reajustamento do homem ao seu ambiente social móvel e progressivo. Aproximando assim, do conceito de educação elaborado por Dewey, (1980, p.116) onde a educação é definida como “o processo de reconstrução e reorganização da experiência, pelo qual lhe percebemos mais agudamente o sentido, e com isso nos habilitamos a melhor dirigir o curso de nossas experiências futuras.” Neste sentido, a educação é um fenômeno inevitável como a vida. Ë reorganizada e reconstruída através da reflexão das experiências dos sujeitos que a transmitem para as gerações futuras.

Partindo do conceito acima, tentamos observar se a atuação e a prática educativa das escolas protestantes instaladas no Brasil, têm alguma proximidade ou similaridade entre o pensamento de Dewey e a educação protestante, entre essa educação e o pensamento dos difusores do escolanovismo (como nosso estudo ainda se encontra na fase inicial, acho prematuro esboçar qualquer opinião). Mas. tanto para Dewey, como os principais representantes do escolanovismo e para as Instituições protestantes, a educação assume um papel relevante. É onde se difunde o conhecimento, valoriza a competência, comprova a eficiência dos educandos, desenvolve a habilidade intelectual desses. Enfim, a educação torna-se um instrumento da sociedade, que “alcança os seus fins na medida em que, proporcionando instrumentos eficientes de sucesso para os indivíduos (vistos numa perspectiva integral), possibilita a construção de uma sociedade livre, onde o progresso é uma constância, desenvolvida dentro de uma linha evolutiva” 2. Assim, a idéia de evolução, de mudança, de transformação e modernização, vai estar presente no interior dessas escolas, que também, se preocupam com a elevação social dos indivíduos dentro de uma ordem social e de hierarquia, sem entrar em choque com o conceito próprio de liberdade que adotam, tornando-se traço marcante dos seus princípios básicos.

Os princípios que predominam nessas escolas, refletem as categorias ideológicas do liberalismo norte-americano e se fundamentam no capitalista, cujo ingrediente principal vem a ser o pietismo.
1.1- Fundamento Ideológico do Pietismo

O pietismo teve sua origem na Europa após o rompimento de seus adeptos que se opuseram ao conservadorismo dos luteranos e à ostentação dos anglicanos. O fundamento do pietismo tomou como base o pensamento de J. Wesley, esse por sua vez, desenvolve a sua teologia identificada com alguns elementos fundamentais no liberalismo dos séculos XVIII e XIX: graça universal de Deus X democracia; obra de misericórdia X trabalho; santificação e perfeição cristã X progresso; aceitação ou recusa da graça divina X liberdade e individualidade. Estes são alguns elementos presentes no liberalismo inglês e absorvido por Wesley e pelo movimento metodista desde seu início.

A experiência de vida de Wesley e seus valores morais, influenciaram a concepção filosófica de natureza dialética que marcaram o desenvolvimento de sua doutrina. Assim, o otimismo se sobrepõe ao pessimismo; o sentido da educação (independente da crença) se sobrepõe a educação proselitista; o sentido pessoal se sobrepõe ao da responsabilidade pessoal; as várias denominações religiosas são sobrepostas pelo sentido universal da igreja (idêntico ao que predominou nos primeiros anos da implantação do protestantismo no Brasil), portanto, dentro da concepção pietista, os fatores como equilíbrio e a liberdade religiosa se revelavam como essencial para que os homens alcançassem a experiência individual, que “tinha primazia sobre a razão e o social , onde o corpo de doutrina que ligou os metodistas, tinha como ponto central a salvação do indivíduo”.3

Deste modo, a idéia de salvação ocorre com a mudança de conduta do indivíduo e no auxílio que este presta à comunidade na qual ele se acha inserido, através da aceitação e desenvolvimento do espírito ecumênico, da tolerância religiosa e do respeito à liberdade de culto de cada um, onde o importante, não é as denominações religiosas no qual o indivíduo tem afinidade e freqüenta, mas sim, ele próprio. Neste caso, de acordo com Boaventura (1987: p.29):

o espírito ecumênico tem sido sustentado pelas Igrejas Metodistas que, na medida em que avança através dos anos, mais ênfase dá ao pensar e deixar pensar. As Igrejas Metodistas em geral filia-se às organizações ecumênicas institucionais e incentivam os movimentos de reaproximações das denominações cristãs”.
A permanência do espírito ecumênico no Brasil se iniciou com a chegada dos imigrantes norte-americanos e sua instalação na Região de Santa Bárbara, a partir de 1860. Estes imigrantes, por um bom tempo encontraram dificuldades de receber os ministros das suas igrejas, pois a visita desses, tornava-se cada vez mais rara em virtude da distância e dos diversos núcleos imigratórios que faziam com que esses ministros tivessem que se deslocar por várias regiões e ao mesmo tempo cuidar de seus negócios; por esse motivo os imigrantes aderiram ao culto de caráter universal, onde o espírito de liberdade e tolerância religiosa existente naquele momento era essencial para superar as divergências existentes em relação às diferenças dogmáticas de cada seita. A superação deste problema e de outros foram motivados pela necessidade imperiosa desses imigrantes americanos se manterem unidos numa terra onde eles eram minoria.

Isto os levou a fundar escolas, primeiramente as escolas dominicais, também denominadas escolas paroquiais, que atendiam somente os filhos de imigrantes e aqueles que haviam se convertido à fé protestante. Mais tarde, essa educação passa a ser realizada nas grandes cidades através da criação das grandes escolas. Uma das primeiras, foi o Colégio Internacional de Campinas, instalado na cidade de Campinas, interior paulista, em 1869. Mais tarde, fundado o Colégio Americano, que depois se transforma no Mackenzie, precisamente a partir de 1871. Durante esse período, a educação ainda era utilizada como meio de evangelização.



1.2- A educação como meio de evangelização

Os missionários que introduziram o protestantismo no Brasil no final do século passado, procuraram fazer uma delimitação clara entre a prática educativa desenvolvida nos seus colégios e a prática religiosa ligada às funções específicas de propagadores da fé cristã protestante.

O programa educativo é uma das primeiras e mais importantes expressões da obra missionária. A natureza e a profundidade das mudanças que se pretende introduzir na sociedade, não condizem com o analfabetismo dos convertidos, nem com a pouca instrução reinante. É necessário que esses convertidos, sigam a risca a ética protestante, onde o sentido de aprendizagem da leitura tem como objetivo principal à interpretação da Bíblia.

É em razão disso que a religião e a comunidade global valoriza e expande a educação, sendo essa considerada como “a mola propulsora de ascensão social”. Nesse sentido, valorizam-se categorias como eficiência pessoal, competência individual, colaboração, princípio de liberdade e de compreensão mútua etc,. Categorias que também são valorizadas pelo capitalismo e que estão presente nas práticas pedagógicas dessas escolas, que ainda nessa fase a utilizavam como meio de propaganda e de conversão dos brasileiros à doutrina protestante. Este fato, é observado na carta do primeiro missionário batista ao desembarcar no Brasil, em 1882, vindo dos Estados Unidos, onde depois de apresentar várias sugestões para o desenvolvimento de um programa educativo, assim afirma:

tais colégios prepararão o caminho para a marcha das igrejas...Colégios fundados nestes princípios, triunfarão sobre todo o inimigo e conquistarão a boa vontade dos nossos próprios adversários. Mandai missionários que estabeleçam colégios evangélicos, e o poder irresistível do evangelho irá avante na América do Sul e a terra do Cruzeiro do Sul brilhará com a luz resplandecente do reino de Cristo”.
Durante esse período, grupo de protestantes de várias denominações históricas se fixam no Brasil, tendo como objetivo divulgar seus trabalhos religiosos e implantar colégios. As escolas protestantes, apresentando um modelo educacional inovador para a sociedade, resultante de um capitalismo mais moderno e diferenciando do tipo de escolas que existia no Brasil, no estilo das práticas pedagógicas, conseguem atrair a atenção da elite nacional. De acordo com Ramalho (1987, p151):

Dentro do princípio liberal de que a sociedade e os indivíduos vivem num constante processo de aperfeiçoamento, a prática pedagógica deve ser a mais aberta e flexível. Todos os colégios se apresentam disponíveis para romper com o dogmatismo com o espírito de rotina, com técnicas tradicionais e indicam atitude constante de pesquisa na busca de novos métodos de ensino que possam ser aplicados na sociedade em que estão situados. Não se trata portanto de um simples transplante de métodos modernos, mas uma atitude renovadora dentro da circunstancias concretas de trabalho”.


Enquanto as escolas católicas utilizam um método tradicional, conservador, fundamentado no ensino religioso e vinculado à visão moral cristã, onde o conceito de educar é “educar o homem integral”, portanto, pautado no ensino humanístico, enciclopédico e restrito às elites. As escolas protestantes vão se preocupar com um ensino inovador, pioneiro, fundamentado no pensamento dos grandes educadores, como por exemplo, Dewey, Kilpatrick, Horace Mann, etc. Deste modo, existia uma garantia da posição de vanguarda na educação dos colégios protestantes. Esses colégios se orientavam por um tipo de filosofia no sentido das mudanças e uma revisão constante de seus métodos, acompanhando assim, o processo acelerado do mundo em que vivemos, onde a prática e as necessidades atuais da sociedade são seu marco de referência.

Esta diferença de método educacional fez com que as escolas protestantes conseguissem alcançar sucesso, atraindo para seu interior alunos provenientes das elites e da classe média, que tinham como ideal ter o mesmo tipo de formação dos jovens norte-americanos, ao qual, convinha imitar e seguir os passos, pois representavam o caminho do progresso e da modernização.


1.3-Principais Instituições Educacionais e suas características

Existiram dois tipos de escolas fundadas pelas Instituições protestantes. A primeira delas foi à escola junto às igrejas, também denominadas de escolas paroquiais. A outra, foi as grandes escolas.

1.3.1. As escolas junto às igrejas ou paroquiais. Surgiram com o objetivo de apoiar o trabalho missionário emergente. Os relatórios pastorais registram a instalação de várias escolas desse tipo por todo o Brasil. Essas escolas, tinham objetivos definidos. Ensinar as primeiras letras e também ministrar o ensino religioso bíblico, além de iniciar os jovens e aqueles que abraçavam o protestantismo no catecismo. A prática religiosa compreendia o culto diário com orações, cânticos religiosos. Entretanto, o ensinamento não somente se dava no terreno religioso, mas também tinha por objetivo “suprir a ineficiência do sistema pedagógico brasileiro e garantir instrução àquelas crianças que fossem constrangidas por práticas católicas romanistas”.4 Nas primeiras décadas do Século XX, em razão do domínio dos sacerdotes no campo educacional, era muito comum, existir pressões e perseguições por parte desses à aqueles que não professavam a fé católica ou, que tinham pais simpatizantes à partido político, que fosse contrário ao Estado, assim como existia uma certa aversão para os que eram ligados à Loja Maçônica. Este fato, colaborou para que vissem a expansão dos colégios protestantes, como uma alternativa positiva.

Isto ocorreu a partir de 1920, quando a maioria das escolas junto às igrejas ou escolas paroquiais entra em declínio, em razão da obra missionária voltar-se para a criação das escolas em virtude da crise financeira e do esvaziamento que as escolas paroquiais passaram a sofrer.

1.3.2- A expansão dos Colégios Protestantes. A partir de 1920, observa-se o crescimento das instituições de ensino dos colégios protestantes por todo o Brasil, especialmente dos metodistas. Esta expansão se deu em número de prédios, alunos e professores. Inúmeras instituições foram criadas. No Sul, o Instituto Porto Alegrense, Centenário de Passo Fundo, Americano de Florianópolis. Em São Paulo, o Instituto Americano de Lins, Instituto Noroeste de Birigui, Instituto Piracicabano, Instituto Moore, em Campinas. No Rio de Janeiro, o Instituto Bennet e, em Minas Gerais, o Uberabense.

Estas escolas, em 1920, apresentavam um número de 1080 alunos, e em 1930, 2900 alunos, com um acréscimo de 168% na década. O funcionamento dessas Instituições se dava em regime de internato e semi-internato para meninos e meninas (funcionavam em prédios separados). A existência do internato nas escolas, se deve pelo grande número de alunos vindos de cidades distantes, muitas delas, situadas em outros Estados, ou por serem filhos de fazendeiros ou comerciantes, que eram mandados para esses colégios para serem instruídos dentro do princípio da educação liberal.

Com o crescimento das Instituições, seus dirigentes são obrigados a modificar sua filosofia de conversão à fé protestante, assumindo a partir daí, uma postura de maior tolerância religiosa para com seus alunos e de plena liberdade ao culto.

O desenvolvimento da aprendizagem na maioria dessas escolas, mais precisamente no Colégio Piracicabano onde grande parte dos professores era norte-americanos, era realizado com livros escritos em inglês em que o aluno tinha que dominar a língua. Também se aprendia o grego. A conservação das Instituições com sua cultura original, agradava tanto aos adeptos do protestantismo brasileiro como os missionários.

Entretanto, a partir de 1925, o país foi invadido pelo espírito nacionalista que a de longa data já começava a predominar na sociedade, principalmente nos meios políticos e educacionais, exigindo das escolas estrangeiras, especialmente a alemã, sua adaptação à realidade nacional, ou seja o seu “abrasileiramento”. Destaca-se a Reforma de Sampaio Dória, e sua preocupação com o pensamento nacionalista, caráter nacional e com a questão nacional.

Ainda durante esse período, as escolas protestantes apresentavam um número significativo de alunos matriculados em seus cursos, embora não tenha crescido a quantidade de escola.



Esta minha pesquisa encontra-se ainda na fase inicial, muitos dos dados ainda não são definitivos, assim como não são definitivos algumas das minhas afirmativas, pois quando se trabalha dentro de uma linha de pesquisa histórica documental é necessário ter o material em mãos para depois, no desenrolar do processo investigativo comprovar os fatos.
Referências Bibliográficas

Boaventura, E. Instituições metodistas de ensino na República Velha. In: Revista do Cogeime, nº5, dezembro/94

Camargo, Cândido P. Católicos, Protestantes, Espíritas. Petrópolis: Vozes, 1973.

Carvalho, Marta M. Chagas de, A Escola e a República. São Paulo, Ed. Brasiliense, 1989

Clark, J. U. A Imigração norte-americana para a região de Campinas: análise da educação liberal no contexto histórico e educacional brasileiro. Campinas, FE-Unicamp, 1998, (tese de mestrado).

Crabtree, A.R.H. História dos Batistas no Brasil. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1962

Expositor Cristão 07/12/91,

Hack, O Henrique. Protestantismo e Educação brasileira, Presbiterianismo e seu Relacionamento com o sistema pedagógico. São Paulo: Presbiteriana, 1985.

Leonard, E. O Protestantismo Brasileiro. São Paulo: ASTE, 1963.

Ramalho, J. Prática Educativa e Sociedade. Rio de Janeiro, Zahar, 1976.

Teixeira, A Aspectos Americano de Educação. Editora Guanabara, 1929.


* Doutorando do programa de pós-graduação da FE.


1 Conf. Cit. De Teixeira, Spinola, Anísio. Aspectos Americanos de Educação, 1929, 21.

2 Conf. Cit. Ramalho, J. Prática Educativa e Sociedade. 1976, p.151


3 conf. Cit. Stokes, M. As crenças fundamentais dos metodistas, 1975, p.1

4 conf. Cit Hack, O, Henrique Protestantismo e educação brasileira, presbiterianismo e seu relacionamento com o sistema pedagógico. São Paulo. Presbiteriana, 1985. p.79.


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