Jornalismo e Lingüística: uma proposta de InterComunicação Érika de Moraes



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II Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho

Florianópolis, de 15 a 17 de abril de 2004




GT História do Jornalismo

Coordenação: Prof. Dra. Marialva Barbosa (UFF)



Jornalismo e Lingüística: uma proposta de InterComunicação
Érika de Moraes*
1. Uma relação complexa

As reflexões desenvolvidas (e em desenvolvimento) neste trabalho estão relacionadas ao percurso acadêmico e profissional de uma Pesquisadora-Jornalista e Jornalista-Pesquisadora. Atribuir relevância maior à qualquer um desses “papéis” seria, já de início, negar a proposta de InterComunicação. Mas a língua prega armadilhas. De qualquer modo, eu poderia ter escrito o mesmo enunciado de alguma outra maneira (cf. “segundo esquecimento”, Pêcheux, 1969).

As graduações em Letras e em Jornalismo1 deixaram duas preocupações particulares que venho tentando retomar constantemente, em pesquisas realizadas e no exercício profissional, a saber: - o estudo do funcionamento da língua; - como esse funcionamento se dá em um tipo de discurso com ampla penetração social, como o jornalístico. Minha dissertação de mestrado2 (Moraes: 2002) teve como propósito fazer uma análise lingüístico-discursiva da revista Veja Kid+, publicação dirigida ao público infantil, a partir de um ponto de vista fundamentado nos pressupostos teóricos e metodológicos da Análise do Discurso de linha francesa (doravante, AD). Objetivou-se investigar como a figura da criança era construída em uma publicação jornalística dirigida a este público e quais os recursos lingüístico-discursivos utilizados para esse fim. Paralelamente ao objetivo específico (estudar a imagem de criança inerente ao discurso à ela dirigido), a perspectiva era que as descobertas decorrentes dessa pesquisa, somadas a outras já realizadas por outros pesquisadores, fornecessem indícios pertinentes tanto para o campo da comunicação social, em especial ao jornalismo, quanto, em outro nível, para a prática da sala de aula. Com a conclusão do mestrado, passei a dar aulas para o curso de Comunicação Social da Universidade Estadual Paulista (inicialmente, como conferencista e, então, como professor assistente), o que contribuiu para instigar ainda mais o interesse pela relação entre as duas áreas (Lingüística e Comunicação). As questões que me inquietam saíram do papel para serem compartilhadas com estudantes de olhares vivos e quase sempre dispostos a debater idéias (ainda que não concordem com todas elas).

Nesta comunicação, pretendo apontar algumas das reflexões que venho amadurecendo durante minha jornada acadêmico-profissional. Não se trata de reflexão acabada. Gostaria, ao contrário, de instigar a curiosidade a respeito de como a Lingüística pode contribuir para a Comunicação Social na busca por um “jornalismo de maior qualidade”3. Propõe-se ao jornalista a busca por um maior conhecimento do funcionamento da linguagem e não somente uma atenção ao uso técnico dos recursos da língua, cujas “regras” (normativas) são supostamente determinadas pelos manuais de redação das empresas jornalísticas. Embora a preocupação técnica seja legítima, torna-se prejudicial ao se tornar quase exclusiva na área da Comunicação Social. Em contrapartida, propõe-se à Teoria que olhe para a mídia e sua história como “acontecimento vivo” e não mero objeto de estudo.

A reflexão, passa, inevitavelmente, pelo ensino de Lingüística/Língua Portuguesa no curso de Comunicação/Jornalismo. Defendo veementemente que o estudante de jornalismo não tenha uma formação meramente técnica. Mas pretendo ir um pouco além dessa defesa, por meio da seguinte proposta: explorar a relação entre Lingüística (e Linguagem) e Comunicação Social, procurando redefinir, no limite do possível, as fronteiras entre essas duas áreas. Afinal, num certo sentido, Comunicação e Linguagem são conceitos complementares, mas essa relação é muito mais complexa do que o modo como é definida, muitas vezes apressadamente, pela Comunicação Social, para a qual a linguagem seria, tão simplesmente, o “instrumento de trabalho do comunicador” (essa idéia pode ser verificada – de maneira explícita ou não – na redação de muitos manuais e livros de comunicação social). Por hipótese, se a concepção de linguagem a que o jornalista tem acesso fosse outra, sua prática também poderia ser outra, daí a responsabilidade quanto ao ensino dos futuros profissionais de jornalismo. Evidentemente, as dificuldades enfrentadas pelo jornalismo não se resumem apenas a um problema de formação, mas, embora a formação possa não ser suficiente, pode contribuir fortemente para mudanças de atitude. Discussão relevante, inclusive, num momento em que se debate a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista.

Em Moraes: 2002, esbocei algumas sugestões para a prática jornalística brasileira. Entre elas, por hipótese, a idéia de que, uma vez não sendo possível ser plenamente objetivo, o jornalismo poderia, talvez, surtir um efeito de maior rigor (e sinceridade) se assumisse estar lidando com um espaço (o da linguagem) pouco palpável e não-transparente. Na medida que, ao contrário, o leitor lê acreditando que o texto é objetivo e imparcial, tem a sensação de que realmente está diante da objetividade (esta palavra abstrata) e não percebe que um posicionamento está embutido, às vezes mais ou menos disfarçado, no próprio texto.

É interessante perceber que, em vez de reproduzir uma visão pouco crítica de linguagem, a Mídia poderia, ao contrário, por meio de sua atuação e visibilidade, contribuir, por sua vez, com a divulgação de uma visão mais abrangente de lingua(gem). A colaboração, portanto, poderia ser recíproca: a Lingüística compartilharia pontos de vista teóricos com a Comunicação Social e esta, por sua vez, colaboraria com a divulgação das (às vezes velhas) descobertas da Lingüística. As duas áreas já atuam com toda força (evidentemente, a Lingüística com menos visibilidade), mas poderiam ser menos estanques.

Infelizmente, ainda circula entre o senso comum a opinião de que estudo de linguagem se resuma a regras padronizadas de norma culta, embora seja tão óbvio aos lingüistas o quão complexa ela é. Pretendo que este trabalho seja mais uma contribuição rumo à ruptura dessa visão distorcida.



2. (Em busca de) Uma visão crítica de Jornalismo

Com base nos propósitos expostos acima, toma-se como ponto de partida uma visão crítica do próprio jornalismo, que implica o questionamento e a desmistificação dos supostos ideais de objetividade; neutralidade e imparcialidade da imprensa – ideais comumente difundidos pelos manuais de redação das empresas jornalísticas, os quais definem regras de estilo e bom jornalismo.

Sabemos que estabelecer regras implica efetuar escolhas, e tais escolhas não são neutras. Segundo Abramo (1991), a existência de um documento que regulamenta a padronização (o manual de redação) e a divulgação das normas da empresa jornalística ao público produzem o efeito de “incutir no leitor a impressão de que o jornal é, de fato, confeccionado de acordo com todos aqueles rigores e estipulações jornalísticas” (1991: 41), incluindo entre esses “rigores” a busca da objetividade e neutralidade. De acordo com tais manuais, informar jornalisticamente seria informar da maneira o mais neutra e objetiva possível.

Partindo da concepção de narrativa de Benjamim (1983)4, Corrêa (2002) caracteriza a oposição entre narrativa e informação – esta última, considerada o princípio norteador dos veículos de comunicação:


enquanto a narrativa traz em si a marca de quem narra, mergulhando a coisa tratada na vida de quem relata, a fim de extraí-la outra vez dela, a informação se relaciona, em vários sentidos, com a economia. A economia de tempo, a economia na quantidade, a economia na complexidade. O trabalho de quem informa é o trabalho de quem abrevia.

Nesse sentido, quem informa se coloca na posição de quem busca o puro ‘em si’ da coisa tratada, isto é, coloca-se na posição de quem fala com objetividade (Corrêa: 2002: 75, grifos no original).


Essa oposição evidencia ao jornalista o grande risco de “acreditar que o fato existe por si só, e que se dá à descrição já pronto” (op. cit. 2002: 75). Para exemplificar, Corrêa levanta um questionamento sobre a Guerra do Golfo, ocorrida em 1990 (questionamento válido para qualquer guerra veiculada pela mídia, como a mais recente empreitada dos EUA contra o Iraque, 2003): a guerra que vimos pela TV, descrita pela CNN de forma espetaculosa, seria a mesma guerra vivida pelas pessoas no Golfo? É inegável que o fato tenha acontecido, mas a sua cobertura jornalística corresponderia à realidade mesma do fato? Corrêa ressalta que não é nova essa “substituição” (fato substituído por sua descrição), bem como a visão do jornal como “uma instituição formadora de opinião”. E, na condição de formador de opinião:
seu propósito é legitimar uma opinião sobre os fatos, aquela que, na melhor das hipóteses, coincide com sua linha editorial – pois pode coincidir com interesses mais imediatos. Ora, se isso que se chama de opinião pública pode ser forjado por diversos veículos, é de se esperar que caiba a cada um deles construir os fatos de uma certa forma. Obviamente, o público (e o alcance) de cada um desses veículos é diferente e essa diferença se deve aos interesses que sustentam uns e outros. Podemos, pois, afirmar que o fato tal como o recebemos enquanto notícia é uma construção (Corrêa: 2002: 75-6).
Se, para Benjamin (1983), “informar é abreviar”, podemos acrescentar, com Corrêa (2002), que “é também escolher o que vai ser considerado como excesso”. E, como sabemos, toda escolha implica um posicionamento – o que elimina a possibilidade de objetividade e neutralidade.

Ao menos em teoria, o conceito de objetividade jornalística tem sido revisto e atualizado pelas empresas jornalísticas. O Novo Manual da Redação da Folha de São Paulo traz as seguintes considerações nos verbetes “objetividade” e “exatidão”:


Objetividade – Não existe objetividade em jornalismo. Ao escolher um assunto, redigir um texto e editá-lo, o jornalista toma decisões em larga medida subjetivas, influenciadas por suas posições pessoais, hábitos e emoções.

Isso não o exime, porém, da obrigação de ser o mais objetivo possível. Para relatar um fato com fidelidade, reproduzir a forma, as circunstâncias e as repercussões, o jornalista precisa encarar o fato com distanciamento e frieza, o que não significa apatia nem desinteresse (...)”

(Novo Manual da Redação da Folha de São Paulo: 1998: p. 19)
Exatidão – Qualidade essencial do jornalismo. A credibilidade de um jornal depende da exatidão das informações e da fiel transcrição de declarações. Para escrever reportagens exatas, não menospreze os detalhes. Seja obsessivamente rigoroso. O jornal tem obrigação de publicar apenas informações corretas e completas.”

(Novo Manual da Redação da Folha de São Paulo: 1998: p. 33)


O caráter ilusório da noção de objetividade foi questionado por Abramo (1991), que criticou os conceitos embutidos nas definições dos verbetes. Embora Abramo tenha analisado uma edição mais antiga do Manual, suas observações permanecem pertinentes. Assim, o autor percebe que:
As concessões que se fazem à ‘subjetividade’, e que contaminam a ‘objetividade’, são aquelas típicas do psiquismo: gostos, hábitos, emoções. (...) O risco que o observador corre é o de não controlar de modo adequado o funcionamento de suas emoções (...) (Abramo: 1991: 45).
Em outras palavras, bastaria ao jornalista controlar suas emoções psíquicas e não se influenciar por suas experiências de vida para chegar ao “fato puro”. Abramo ressalta que não só as “emoções do observador” influenciam na retratação de um fato, mas também (e principalmente) o “arcabouço conceitual”, a “superestrutura teórica”, a partir da qual se apreende um dado observacional. O autor contesta também a definição de “notícias” como “puro registro dos fatos” e de “fatos” como algo que o jornalista deve “revelar”, mais do que “relatar a respeito”. Para Abramo, tais definições obscurecem a questão de que não é possível “revelar fatos em si” (op. cit.: 45-6). A propósito, o verbete sobre “fatos” aparece modificado no Novo Manual da Redação da Folha de São Paulo. Vejamos:
Fatos – São a matéria-prima de qualquer tipo de jornalismo. É mais valioso revelá-los do que relatar declarações a respeito deles. (Definição “antiga”: apud Abramo: 1991: 45)
Fato – entre um fato e uma declaração prefira o primeiro. Descrever um fato com correção e inteligência exige sensibilidade, informação sobre o assunto e conhecimento do idioma. (Definição do Novo Manual de Redação da Folha de São Paulo: 1998, p. 33)
A definição atualizada, no entanto, continua a conter a crença de que os “fatos” valem mais do que as “declarações” sobre eles. Ou seja, permanece a idéia, passível de questionamento, de que “fatos falem por si”.

Evidentemente, saber que objetividade e neutralidade são ideais utópicos, portanto inatingíveis, não isenta o jornalismo (e o jornalista) de trabalhar de maneira consciente com a difusão de acontecimentos por meio da linguagem – longe de ser esta uma mera ferramenta para a divulgação de fatos, uma vez que age de forma relevante no modo de construção desses fatos.

Gostaria de propor aos Jornalistas e Estudantes de Comunicação a observação mais atenta dos discursos, conflitantes ou complementares, sobre o próprio jornalismo (o discurso dos Manuais de Redação, por exemplo) e, por meio de textos tidos como jornalísticos, observar como se dá a materialização desses discursos na prática da profissão, através das marcas lingüísticas e discursivas. É possível, em muitos casos, perceber a contradição existente entre discurso sobre jornalismo e sua prática.

O intuito é propor a observação da construção lingüística, verbal ou não verbal, desses textos, bem como os discursos e posicionamentos ideológicos neles arraigados. É emblemático para a teoria do discurso o exemplo de diferença ideológica entre militantes do MST (movimento dos trabalhadores rurais sem terra) e proprietários de terra. Os primeiros dizem que “ocupam” terras que, por direito, lhes pertencem. Os segundos dizem que os outros “invadem” terras cujas escrituras comprovam a propriedade. Não é simplesmente uma questão de escolha de palavras, mas de posicionamentos. Nem uma das duas atitudes é menos ideológica do que a outra, ambas carregam um valor arraigado, a diferença é a “qual” ideologia cada uma delas pertence. O problema é quando se considera que uma palavra é ideologicamente “marcada” (marca, por exemplo, o vocabulário do MST) e a outra é “neutra”, traduz a “realidade”. É o que geralmente fazem os jornais quando utilizam (assumem) o termo “invasão” nos textos jornalísticos5. Os Manuais de Jornalismo recomendam a objetividade, mas em geral, não tratam da questão ideológica inerente a qualquer modo de expressão. Se a ideologia pode estar contida em uma única palavra, o que se poderá dizer em relação aos discursos? Todo e qualquer discurso advém de alguma formação discursiva, vinculada, por sua vez, a uma formação ideológica. Não se trata de defender uma das posições.

Os posicionamentos estão presentes mesmo quando se tenta objetivar a informação com dados numéricos e estatísticos. Vejamos um breve exemplo. Uma pequena matéria publicada na Folha de São Paulo traz o seguinte trecho:
“No Hospital Veterinário da USP, uma consulta médica para cães custa R$ 25 – para exames clínicos que podem salvar vidas humanas, poucos convênios pagam mais que esse valor.” (Convênios vedam tabela de preços. Matéria assinada por Julio Abramczyk. Folha de São Paulo, 27/7/03, p. C6)
O dado é numérico, sob este ponto de vista, um dado preciso. No entanto, a comparação legitima uma conclusão que compactua uma determinada ideologia, a de que vidas humanas valem mais do que a vida de outros animais. Ainda que se concorde com o argumento, ele não pode ser visto como uma verdade geral. Entidades defensoras de direitos de animais não humanos, provavelmente, não partiriam do mesmo pressuposto.

3. Propostas para um estudo de Comunicação com base num arsenal crítico de linguagem
Fischer (2000: 76) considera que estudar a mídia e, no caso de suas pesquisas, seu estatuto pedagógico significa “tratar o objeto de investigação de modo a constitui-lo justamente nas fronteiras, nos interstícios ou nos ‘entre-lugares’ da cultura”. Isso implica ultrapassar os temas até então freqüentes nos estudos sobre a mídia – como a espetacularização da cultura popular ou a imposição ideológica de determinados comportamentos. A autora sugere que busquemos outros modos de pensar questões veiculadas pela mídia.

Diante disso, acredito que o arsenal teórico da Lingüística, em especial da AD, segundo o qual a linguagem é concebida em sua materialidade histórica, muna o pesquisador de uma concepção crítica de linguagem que vem ao encontro de uma também crítica concepção de jornalismo. A AD fornece um instrumental teórico adequado para a leitura crítica de materiais midiáticos, favorecendo a busca, como propõe Fischer, pelos “entre-lugares” do discurso. Ressalte-se que uma leitura crítica como propõe a AD não se limita ao “achismo pseudo-interpretativo”, mas se respalda na materialidade da língua. Sugiro que a interpretação não seja totalmente excluída da análise (embora muitos analistas do discurso possam discordar dessa afirmação), mas que ela se respalde numa argumentação bem fundamentada. Ora, endeusar a teoria e dizer que ela garante a “plena objetividade” seria cair na mesma crítica que pretendemos combater em relação ao jornalismo.

Surpreende que, após a existência de variados estudos a respeito, a relação entre comunicador e público ainda se paute quase unicamente, como se vê em muitos livros e manuais, no esquema de R. Jakobson (1960), segundo o qual o processo de comunicação se dá entre emissor e receptor (este último, embora o esquema não preveja assimetria, acaba ocupando uma posição passiva em relação ao primeiro) como uma decodificação da mensagem, sendo a língua tida como mero código, e o “outro” (aquele ao qual uma mensagem se dirige) como mero decodificador . O esquema tem seus méritos, não se pretende negar, especialmente a sua funcionalidade, mas deixa muitas lacunas. Não se trata de criticar o autor R. Jakobson, cujas idéias em muito contribuíram ao seu campo, mas criticamos sim a comodidade de apostilas, livros e outros materiais didáticos que se fundamentam apenas nesse único autor.

Citarei alguns autores e conceitos que, acredito, em muito acrescentam ao estudante de comunicação e ao jornalista no aprofundamento do estudo da relação entre comunicador/jornalista e público-alvo.6

Uma das formas possíveis de se pensar essa relação, para citar um exemplo entre outros possíveis, pode ser via formações imaginárias e antecipações, noções estabelecidas por Pêcheux (1969): Qual a imagem que o jornalista/produtor do texto faz do público? Que antecipação ele faz sobre a imagem que o público faz do jornalista e de si mesmo? Esses conceitos (e questionamentos implicados) já são suficientes para derrubar a noção de público como “receptor passivo” e do processo de comunicação como algo “esquemático”, pois esse jogo de imagens entre interlocutores não é algo prévio e inflexível, mas se constrói processualmente durante a interação. O esquema de Jakobson prevê a existência de “ruídos” de comunicação entre emissor e receptor, no entanto, os ruídos não dão conta, entre outras coisas, da questão das diferenças de posicionamento ideológico que geram incompreensão, mal-entendidos e leituras distintas de um mesmo texto, por mais que esse texto seja escrito com palavras “simples”, como sugerem os (bons, inclusive) jornalistas7. Se assumíssemos o esquema, houvesse um meio de evitar os ruídos, a interação comunicativa seria sempre “perfeita”. O esquema, por assim dizer, apaga a ideologia. E, num certo sentido, a ideologia está vinculada ao “arcabouço conceitual” de que fala Abramo (1991).

A necessária atenção ao leitor/interlocutor, proposta como um tipo de relação intersubjetiva e de relação com a própria linguagem, converge para a importante afirmação de que a linguagem não é um mero instrumento de comunicação. Nos termos da pragmática, Austin (1962) já concluíra que a linguagem não é apenas a descrição de coisas no mundo, é uma forma de ação ao dizer. Do ponto de vista da AD, essa constatação é evidenciada pela noção de Condições de Produção.

É válido lembrar que a AD nos possibilita um espaço de reflexão sobre as noções de sujeito, linguagem e história, tendo o (inter)discurso como lugar onde se dá a relação entre essas noções cruciais para o campo das Ciências Humanas.

Sabemos que Pêcheux, partindo da tese de Althusser (1970) de que a ideologia interpela os indivíduos em sujeitos, contribuiu decisivamente para a definição da AD francesa. Para a AD, o sentido dos discursos passa a ser considerado como efeitos de sentido, tendo em vista, pelo menos, a relação entre a ideologia (influência do marxismo e de Althusser) e o inconsciente (influência da psicanálise).

Sobre a concepção não reducionista de linguagem proposta por Pêcheux, Paul Henry (1969) aponta que:
Pêcheux recusa completamente a concepção da linguagem que a reduz a um instrumento de comunicação de significações que existiriam e poderiam ser definidas independentemente da linguagem, isto é, ‘informações’. Esta teoria ou concepção da linguagem é, para ele, uma ideologia cuja função nas ‘ciências humanas e sociais’ (onde ela é dominante) é justamente mascarar sua ligação com a prática política, obscurecer esta ligação e, ao mesmo tempo, colocar estas ciências no prolongamento das ciências naturais (Henry: 1969:25).
A criticidade da AD em relação à evidência do sentido nos permite a problematização de conceitos tido como pilares do jornalismo, tais quais a simplicidade; clareza; objetividade; neutralidade; imparcialidade. Não se trata de discordar inteiramente da necessidade de algum compromisso (utópico?) com esses “ideais”. Contudo, pode-se sugerir que, se esses fossem os “ingredientes” infalíveis de uma “receita” de “bom jornalismo”, a prática da profissão seria muito fácil (e não acredito que seja) e passível de ser ensinada com uma única frase/orientação (“redija de maneira, simples, clara e objetiva”). Nesse caso, a existência do curso universitário de Comunicação/Jornalismo não faria sentido algum, realmente. A idéia é questionar tais premissas e, a partir da análise de marcas lingüísticas e discursivas, o modo como elas se materializam no texto jornalístico8.

A noção de ideologia concebida por Althusser em Aparelhos Ideológicos do Estado interessa por acreditarmos que o(s) discurso(s) veiculado(s) pelos meios de comunicação social, mesmo com a tentativa de buscar o modo de expressão “o mais neutro possível”, reafirme(m) valores culturalmente estabelecidos, servindo para (r)estabelecer supostas “verdades”, que legitimam determinada(s) visão(ões) de mundo. O caráter ideológico dos discursos fica ainda mais proeminente quando se considera um veículo de comunicação como “um lugar de poder” (instituição “formadora de opinião”) situado num campo discursivo configurado por discursos heterogêneos.

As noções de ideologia e de discurso, influenciadas respectivamente por Althusser e por Foucault, levam Pêcheux a elaborar os conceitos de Formação Ideológica (FI) e Formação Discursiva (FD)9, que se tornam centrais para a AD. Através das FD/FI, os indivíduos são interpelados em sujeitos lingüísticos. Para Pêcheux (1975), o sentido não é imanente, sendo determinado pelas formações ideológicas (FI), relacionadas, por sua vez, a formações discursivas (FD). Para o autor, as palavras “mudam de sentido, segundo as posições sustentadas por aqueles que as empregam” (1975: 160). Ou seja, conforme mudam de formação discursiva, as palavras também mudam de sentido.

Contrariamente a uma visão de linguagem inequívoca e transparente, Pêcheux (cf. 1975: 97) propõe o trabalho com a oposição entre base lingüística (sistema comum a todos os falantes) e processos discursivos (sendo estes diferenciados conforme a influência de processos ideológicos). O autor destaca que o sistema lingüístico (conjunto de estruturas fonológicas, morfológicas e sintáticas) é dotado de uma “autonomia relativa que o submete a leis internas”, as quais constituem o objeto da Lingüística. Quanto aos processos discursivos, é “sobre a base dessas leis internas que se desenvolvem (...) e não enquanto expressão de um puro pensamento, de uma pura atividade cognitiva, etc., que utilizaria ‘acidentalmente’ os sistemas lingüísticos (Pêcheux: 1975: 91, grifos no original).

O discurso é concebido como um dos aspectos da materialidade histórico-ideológica. Pêcheux lembra que a materialidade histórica da AD deve ser pensada “fora da negação marxista da interpretação: isto é, encarando o fato de que a história é uma disciplina de interpretação e não uma física de tipo novo” (1983b: 6). Trata-se de uma história como configuração das relações sociais num determinado momento, pensada a partir do material lingüístico. Para a AD, o discurso não tem um início e não pode ser limitado ao funcionamento interno do texto, uma vez que está ligado a suas condições de produção, à história, às relações humanas.

Como diz Foucault,

todo discurso manifesto repousa secretamente sobre um já dito; mas (...) este já dito não é simplesmente uma frase já pronunciada, um texto já escrito, mas um ‘jamais dito’, um discurso sem corpo, uma voz tão silenciosa quanto um sopro, uma escritura que é apenas o oco de seu próprio traço (Foucault: 1968: 21).
Um conceito relevante, portanto, para a AD é o de interdiscurso, definido como “‘o exterior específico’ de uma FD enquanto este irrompe nesta FD para constituí-la em lugar de evidência discursiva” (Pêcheux: 1983a: 314). Para Maingueneau (1984), inclusive, o interdiscurso não é apenas uma eventual relação empírica entre discursos. Ao contrário, os discursos já nascem como efeitos da relação interdiscursiva: todo discurso tem seu “Outro” e se constitui enquanto “simulacro”.

Para melhor compreender a presença das vozes que compõem os enunciados dos textos analisados, também é relevante o conceito de “heterogeneidade(s) enunciativa(s)” como o propõe Authier-Revuz (1982). Para Authier-Revuz, as marcas de heterogeneidade mostrada – processos de constituição do sujeito, que inscrevem o outro na seqüência do discurso – mostram uma espécie de “negociação” com a heterogeneidade constitutiva. Propõe-se o estudo de como essa “negociação” entre as heterogeneidades pode resultar o discurso jornalístico. Uma vez que a heterogeneidade mostrada é concretamente representável no discurso, é com ela, naturalmente, que os meios de comunicação trabalham (os manuais, a seu modo, discorrem a respeito de formas de marcação do discurso de outrem), sem, no entanto, considerarem esse conceito e sua contraparte – a heterogeneidade constitutiva do discurso.

Considera-se, neste trabalho, o discurso tal como concebido por Maingueneau, a partir de Foucault: “uma dispersão de textos cujo modo de inscrição histórica permite defini-lo como um espaço de regularidades enunciativas” (Maingueneau: 1984: 1). O discurso não é um sistema de “idéias”, mas um “sistema de regras que define a especificidade de uma enunciação” (op. cit.: 4). Em outras palavras, situar-se historicamente num lugar permite dizer certas coisas e não dizer outras, já que as regras determinadas pelos lugares enunciativos impõem restrições ao dizer. Tais restrições levam em conta também o público/leitor a quem os discursos são dirigidos. Ao propor a concepção de uma semântica global, Maingueneau caracteriza a questão do “público” nos seguintes termos: “a própria rede institucional desenha uma rede de difusão, as características de um público, indissociáveis do estatuto semântico que o discurso atribui” (1984: 87).

A AD também se revela um lugar possível para se pensar na questão da subjetividade no discurso, particularmente relevante diante do impasse Subjetividade X Objetividade que permeia o jornalismo. O sujeito do discurso não é um elemento neutro, mas também não é autônomo. O conceito de alteridade é trazido para o discurso. A AD assume uma postura de “recusa (...) de toda suposição de um sujeito intencional como origem enunciadora de seu discurso” (Pêcheux: 1983a: 311). No entanto, a terceira época da AD (AD-3) deixa brechas em alguns de seus questionamentos para se repensar a questão do sujeito: “o sujeito seria aquele que surge por instantes, lá onde o ‘ego-eu’ vacila?” (idem: 317), sem, contudo, retroceder à concepção de sujeito em termos intencionais.

Creio ainda que um arsenal teórico-crítico de linguagem não exclua o estudo a respeito da comunicação visual não-verbal. Em que medida uma “análise lingüística” pode se dar na linguagem não-verbal? Parto do princípio de que, em jornalismo, fotos, charges e outras ilustrações também comunicam. Informam? Opinam? Enfim, não se aplicam às ilustrações necessariamente as mesmas regras do texto jornalístico. Muitas vezes, um ponto de vista não assumido num texto verbal o é em uma ilustração. Da mesma forma que palavras, expressões e discursos são “escolhidos” também o são fotos, ilustrações e seus respectivos ângulos.10

Pode-se tomar como ponto de partida para uma reflexão sobre aspectos não verbais da comunicação o conceito de semântica global, de Maingueneau (1984)11. O autor considera enunciados o material propriamente lingüístico - ou seja, os textos verbais – e texto, qualquer tipo de manifestação, seja ela verbal (enunciado) ou visual (fotos, desenhos, ilustrações, obras de arte). Daí a possibilidade de se considerar o discurso não só como uma prática de enunciados verbais, mas algo que se manifesta também através da comunicação não-verbal. A noção de texto comportaria também, portanto, elementos visuais não-verbais do discurso, os quais, assim como os enunciados verbais, também atuam na construção de efeitos de sentido. Assim, pode-se pensar a concepção do fazer jornalístico com base nos textos (segundo essa acepção “mais ampla” de texto, de Maingueneau) veiculados em outros formatos que não somente o verbal, incluindo, por exemplo, a fotografia e a diagramação – elementos essenciais do jornalismo.



São todos esses formatos textuais que estão em jogo na constituição do chamado Ethos de um produto jornalístico. Roland Barthes (apud Maingueneau: 2000) define o Ethos como “os traços de caráter que o orador deve mostrar ao auditório (pouco importa a sua sinceridade) para causar boa impressão: são os ares que assume ao se apresentar. [...] O orador enuncia uma informação e, ao mesmo tempo diz: eu sou isto, eu não sou aquilo”12. Maingueneau acrescenta que “a eficácia do ethos se deve ao fato de que ele envolve de alguma forma a enunciação, sem estar explícito no enunciado” (2000: 98). E diferentemente de como era entendido pela retórica antiga, esse Ethos não diz respeito apenas aos enunciados orais, eloqüentes e/ou jurídicos: é válido também para o discurso escrito, assim como para qualquer outro:
Com efeito, o texto escrito possui, mesmo quando o denega, um tom que dá autoridade ao que é dito. Esse tom permite ao leitor construir uma representação do corpo do enunciador (e não, evidentemente, do corpo do autor efetivo). A leitura faz, então, emergir uma instância subjetiva que desempenha o papel de fiador do que é dito. (Maingueneau: 2000: 98)
A presença velada desse fiador pode ser percebida, por exemplo, nos editoriais, cuja voz enunciadora tenta assumir o tom de uma voz consensual, que atesta uma verdade. Quanto às condições de produção desses editoriais, sabe-se que eles são constituídos a partir de ponderações de um conselho editorial, formado por profissionais do “alto escalão” da empresa jornalística. O “tom consensual” não deixa se ser, de certo modo, uma “máscara” que caracteriza um determinado Ethos.
4. Em vez de concluir, instigar

Nesse momento, creio valer a pena conferir trechos de texto redigido por um estudante de comunicação. Trata-se de resenha crítica do livro “A Aula”, de Roland Barthes. A atividade propunha que os alunos relacionassem as idéias de Barthes à profissão de Jornalista. A leitura desse texto foi proposta depois de outras relacionadas à linguagem. Em boa medida, o amadurecimento das idéias em torno de questões de linguagem se deu de forma processual, podendo-se notar mudança(s) de concepção entre os primeiros textos elaborados pelos alunos e os posteriores. Justamente por essa mudança, o aluno citado toma como ponto de partida questões debatidas em sala de aula, retoma “mitos lingüísticos” para, em seguida, refutá-los. No processo de constituição de sua autoria, o aluno parece querer “pregar um susto” na professora. Logo em seguida, mostra o quanto as reflexões de sala de aula foram por ele refletidas.




O universo da comunicação na Aula de Barthes13

Língua e Linguagem na terra do Poder



A língua é um instrumento. Assim como a linguagem, trata-se de um conjunto de normas que deve ser seguido rigorosamente para que haja uma utilização adequada. Como todos os instrumentos, língua e linguagem são objetos passivos e manipuláveis, cuja existência está condicionada ao universo e à maneira do homem, neste caso presente na figura do enunciador.

Definitivamente, não é esse o entendimento que Roland Barthes tem sobre o assunto e descreve na sua Aula. (...)


Jogos e trapaças: um olhar sobre a linguagem da e na comunicação jornalística

O poder das palavras, o conflito do jornalista
A Aula de Roland Barthes deixa suficientemente claro que as palavras, e a língua como um todo, podem não só falar por si, mas também deixar marcas profundas nos discursos das pessoas. E isso vale para qualquer forma de expressão que dependa da língua: escrita, falada ou pensada, nada escapa ao alcance e ao poder da linguagem.

Algumas pessoas têm de lidar com essa questão diariamente no seu trabalho. É o caso dos jornalistas, talvez as vítimas – e às vezes algozez – mais cruéis do poderio da língua. Cobra-se do texto jornalístico, ao menos os do gênero informativo: objetividade e, mais do que tudo, imparcialidade. Como pode um redator se utilizar da linguagem para construir um texto com essas características, sem que seja ele também instrumentalizado pelas palavras para carregar de sentido a mensagem? É possível um jornalista, sem recorrer à liberdade literária descrita por Barthes, equilibrar essa questão?

(...)

Durante toda a Aula, Barthes reforça que vê a comunicação como um jogo. E como em todo jogo, nenhum resultado é definido por antecipação. Assim, sob esse ponto de vista, o caso dos jornalistas não é perdido. As condições são adversas, a língua é um desafiante – para não taxar de adversário – bastante forte. Mas, se a literatura pôde se desvencilhar do Poder, o jornalismo também pode desenvolver uma linguagem competitiva para o jogo.



Para tanto, o primeiro passo é a consciência da situação. O jornalista tem de ter a consciência de que não é senhor absoluto do processo, e de que a linguagem também pode se expressar por meio dele. Tendo sempre esses conceitos guardados, um profissional da comunicação já tem armas suficientes para ao menos não reproduzir levianamente discursos autoritários que nem sabe como adquiriu.

Quando se está num jogo, conhecer regras e em especial o adversário é fundamental. (...)

Ao jornalista, cabe ter Aulas como essa, refletir os poderes extra-textuais, analisar a influência prática e direta que a língua exerce sobre seus próprios textos até estabelecer uma relação ideal com a linguagem: simples, honesta e favorável para os dois lados. Como deve sempre ser um jogo.

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A densa discussão presente no texto de Edgar permite ser otimista quanto ao futuro do jornalismo, já que os estudantes de hoje são a próxima geração da profissão. O exemplo não é único. Gostaria de poder citar várias turmas com que venho trabalhando e, certamente, marcaram meu percurso de jornalista-pesquisadora e pesquisadora-jornalista. É claro que não é fácil transpor as reflexões teóricas para a prática. Mas poderemos presenciar os resultados com o tempo. Permito-me, portanto, basear meus “sonhos” em “fatos” – esta última palavra bastante cara ao jornalismo. Creio não ser impossível “sonhar” com um jornalismo que refletirá antes de assumir uma palavra qualquer, como invasão.

Poderíamos “sonhar” com o texto jornalístico que, num determinado momento, trouxesse uma “pitada” de reflexão lingüística. Algo como:



Ato do MST. Invasão, para uns. Ocupação para outros.

Evidentemente, a idéia não é perfeita. Não acredito na perfeição, e sim na busca constante do melhor possível. Poderão dizer que a palavra “ato” também não é vazia de ideologia. E não é mesmo. Mas não seria essa uma forma (mínima) de trazer à tona uma reflexão lingüística? Alguém também poderá dizer que simplifico a questão. De minha parte, defendo ser mais válido dar um “passo pequeno” do que continuar tratando teoria e prática como lugares estanques. Inimigas, em vez de aliadas.

Creio que essas idéias ainda tenham muito a amadurecer. Mas arrisco um palpite. Um caminho interessante para o Jornalismo seria não ter medo da subjetividade. Em vez de negá-la, desfrutá-la. Trabalhá-la. Mas não se trata daquela subjetividade resumida ao psíquico. Penso que as reflexões da AD a respeito da subjetividade (que não “leio” como negação) possam dar uma luz a essa idéia.

Transcrevo o “desfecho” de minha dissertação de mestrado (Moraes: 2002, p. 134):



Que não sejamos tão teimosos, que saibamos a hora de acreditar no novo. Que não tenhamos medo de olhar por outras lentes. Que não ignoremos o (ou até debochemos do) ponto de vista do(s) outro(s). Que não sejamos podadores. Assim, encontraremos um mundo mais saboroso, onde as pessoas tenham um pouco mais de liberdade para a ousadia salutar.

Que sejamos jornalistas e professores dotados de uma certa dose de ousadia. Que tenhamos a coragem de ser sujeitos e de nos dirigirmos a sujeitos.

Não somos plenamente autônomos, tampouco plenamente indefesos.

Saborosamente, somos. Apenas (será apenas?).
5. Referências Bibliográficas

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* Doutoranda em Lingüística pelo IEL/Unicamp e Professora Assistente do Departamento de Ciências Humanas da FAAC-Unesp, campus de Bauru/SP.

1 Cursei Letras (Português/Inglês) na Universidade do Sagrado Coração, Bauru-SP, de 1994 a 1997; e Jornalismo na Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, da Universidade Estadual Paulista, Unesp, campus de Bauru, de 1995 a 1998.

2 Mestrado cursado no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp, de 1999-2002.

3 A noção de “qualidade jornalística” merece ser refletida. Não se trata de assumir o mesmo conceito de “qualidade” proposto pelos meios de comunicação (“precisão” da linguagem; cuidado com a diagramação, etc.), embora não necessariamente os exclua. Propõe-se a problematização da própria idéia do que seja um “jornalismo de qualidade”.

4 BENJAMIN, W. (1983) “O narrador”. In: Textos escolhidos. Walter Benjamin e Outros. 2ed., São Paulo, Abril Cultural. (Os Pensadores).

5 Para exemplificar: a matéria “MST diz que intensificará invasões de terra até abril”, Folha de São Paulo, 05/03/04, p. A4, traz a palavra ocupação (ou ocupações) quatro vezes, sendo todas entre aspas, incluídas no “discurso do outro”, nas fala do entrevistado. Toda vez, exatamente toda vez, que o discurso não está marcado por aspas ou qualquer outro tipo de “heterogeneidade mostrada”, a palavra utilizada é invasão (ou invasões, ou verbo invadir conjugado), num total de sete vezes, incluindo a manchete e o título de um infográfico.

6 Tive meu primeiro contato com boa parte desses autores e conceitos na graduação em Jornalismo, por meio das aulas do prof. Dr. Manoel Gonçalves Corrêa, a quem muito agradeço e estimo.

7 A esse respeito, instaurou-se uma salutar polêmica entre o Lingüista da Unicamp, Sírio Possenti, e o jornalista Sérgio Rodrigues. Possenti lembra que os signos, sendo sempre ideológicos, não refletem, mas refratam a realidade. Rodrigues contra-argumenta: todo signo refrata a realidade, está certo. Mas alguns abusam. Rodrigues defende que a saudável prática (...) de chamar as coisas por seus nomes mais simples, mais diretos, mesmo que eles soem um tanto crus seja um dos pilares do jornalismo. O jornalista considera, por exemplo, que o termo “crise de empregabilidade” seja, mais do que ideológico, desonesto no sentido de forjar um eufemismo para o “desemprego”. Possenti (como leitor e cidadão, frisa) não discorda do efeito de desonestidade, mas, como lingüista, problematiza a respeito de que tanto uma quanto a outra expressão pode ser vista como integrante de, chamemos assim, um campo discursivo e ideológico (cf. coluna Littera, de Sírio Possenti - “Sobre Precisão”, de 21/07/03 e “Discordância ou Mal-entendido”, de 28/07/03 - no site www.primapagina.com.br e texto de Sérgio Rodrigues – “Partido da Conversa Fiada”, 22/07/03 - no site www.nominimo.com.br).

8 Há, por parte dos manuais, uma tentativa de padronização da enunciação jornalística, no sentido de divulgar os fatos supostamente “como eles são”, delegando ao público a tarefa de tirar conclusões. É o que o Manual de Redação da Folha de São Paulo traduz na seguinte orientação: “O réu fumou 45 cigarros em quatro horas de julgamento é melhor que O réu estava visivelmente nervoso” (Manual FSP, p. 71). Pode-se perguntar: não são duas formas diferentes de se dizer, de certo modo, a mesma coisa? No entanto, tenta-se transmitir a ilusão de que, mesmo selecionando uma atitude a ser divulgada, o jornalismo lida com uma informação objetiva, não influenciada pelo campo do opinião.

9 Formação Ideológica (FI): definida por Pêcheux, Haroche e Henry (1971) como a forma pela qual a instância ideológica se materializa, um conjunto complexo de atitudes e representações, envolvendo posições de classe em conflito. A FI pode compreender várias formações discursivas.

Formação Discursiva (FD): conjunto de enunciados marcados pelas mesmas regularidades ou “regras de formação”. Define-se por sua relação com a formação ideológica e determina “o que pode e deve ser dito” a partir de um lugar social historicamente determinado.

10 A importância da fotografia em jornalismo é atestada pelo comentário de Bernardo Ajzenberg, ombudsman (espécie de ouvidor) da Folha de São Paulo, na edição de 27/07/03, p. A6. Ele comenta sobre as fotos publicadas pelos jornais “Folha de São Paulo” e “Agora” (do mesmo grupo editorial) nas reportagens sobre a morte do repórter fotográfico Luis Antônio da Costa, da revista “Época”, assassinado ao lado do acampamento dos sem-teto em São Bernardo do Campo, em 23/07/03. A seqüência de fotos registra um homem com uma arma na mão em fuga logo após o disparo, além de outros suspeitos. Considera este um dos momentos raros em que as fotografias ganham vida própria, intensidade, relevância e repercussão superiores, até mesmo, às do texto.

11 Alguns(mas) pesquisadores(as) brasileiros(as) estão se aprofundando no estudo desse conceito. Cito Fernanda Mussalim e Graziela Zanin Kronka.

12 “L’ancienne rhétorique”, in Communications, 16 (1966), p. 212.

13 “O universo da comunicação na Aula de Barthes” - texto produzido por Edgar Garcia Alencar, aluno regular do Curso de Comunicação Social/Jornalismo da Unesp - Universidade Estadual Paulista - Bauru, SP, para a disciplina Técnica Redacional, ministrada pela prof. Ms. Érika de Moraes, no 2º. sem. de 2003.






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