José Reis a trajetória de um educador



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II Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho

Florianópolis, de 15 a 17 de abril de 2004




GT História do Jornalismo
Coordenação: Prof. Dra. Marialva Barbosa (UFF)

José Reis - A trajetória de um educador.

Linair de Jesus Martins


Este trabalho tem o objetivo de divulgar a história de um dos mais importantes divulgadores da ciência e tecnologia em nosso País: José Reis. Ele não foi apenas um médico, um pesquisador, um administrador, um jornalista. Foi um dos precursores da divulgação da ciência e tecnologia no Brasil através dos meios de comunicação de massa como revistas e jornais, feiras de ciência e concursos para formação de cientistas. Tinha como lema “aprender para repartir” e entendia os meios de comunicação como “magistério sem classes”. Sua trajetória é um exemplo de dedicação e perseverança e deve servir de exemplo para qualquer um que tenha o ideal de construir pontes para uma sociedade mais justa e equilibrada.

I - INTRODUÇÃO


A divulgação da ciência e tecnologia no País de forma mais séria teve início depois da década de 30, quando o médico e divulgador científico José Reis tomou posse como bacteriologista no Instituto Biológico. José Reis nasceu no Rio de Janeiro a 12 de junho de 1907. Era o décimo segundo de uma família com treze filhos, sendo seus pais Alfredo de Souza Reis e Maria Paula Soares Reis. Casou-se com Anita Swensson Reis com quem teve dois filhos.

José Reis faleceu às 10 horas da manhã do dia 17 de maio de 2002 aos 94 anos de idade no Hospital São Luís em São Paulo em decorrência de pneumonia. O precursor da divulgação científica no País e fundador da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) estava internado desde o dia 29 de abril do mesmo ano com problemas digestivos e pulmonares. Quase um mês antes de falecer José Reis se alimentava somente através de uma sonda no estômago.

No dia de sua morte a Folha de S. Paulo dedicou uma página do seu jornal para falar de um dos seus mais ilustres jornalistas. Além de mostrar um panorama geral do que foi o trabalho do pesquisador-jornalista reuniu uma série de depoimentos de profissionais ligados à ciência e amigos. Impressionante a admiração e respeito com que todos se dirigiram ao trabalho de Reis.

Rogério Cezar de Cerqueira Leite, físico e professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em seu depoimento frisou que “ele foi muito importante no cenário científico brasileiro pela constância com que fez divulgação da ciência. Era um exemplo de amor à ciência porque escreveu até morrer. Ele é um exemplo de que o cientista não precisa ficar dentro de uma redoma, de que ele pode conversar com a sociedade”.

Esper Cavalheiro, médico, presidente do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), por sua vez afirmou que “Zé Reis é uma pessoa que conheço há muito tempo, desde quando eu era estudante de graduação. Era uma referência para nós, que íamos às reuniões da SBPC. Ele teve o vislumbre de que o cientista tem dificuldade de expressar o seu cotidiano e ajudou a desfazer a imagem do cientista como um lunático que não tem nenhum contato com a realidade. E isso na década de 50! Até hoje discutimos essas coisas. A gente sente a perda de um orientador de um paizão”.

Warwick Estevan Kerr, geneticista, membro da Academia Nacional de Ciências do EUA e fundador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (Inpa) lamentou a perda do “convívio com o médico, pesquisador, jornalista e educador José Reis, pioneiro na divulgação científica no País, um exemplo indelével de vigor intelectual”. Frisou ainda que José Reis “cedo compreendeu que não há outro caminho para ampliar o conhecimento em ciência e tecnologia senão aumentar o alcance e a compreensão dos textos científicos, em permanente diálogo com a sociedade. José Reis deixa um legado: só o conhecimento permitirá ao país avançar econômica e socialmente para integrar, no futuro, o grupo dos países avançados. Um dos grandes méritos de José Reis foi a obsessão pela ciência e a obstinação por sua divulgação e melhor compreensão”.

A vida de José Reis se resume, praticamente, em adquirir conhecimentos e reparti-los com quem não tem acesso a eles. Já na infância alfabetizou a empregada e lhe repetia os sermões que ouvia na igreja todos os domingos com o intuito de repassar as informações que julgava importante. Assim passou uma vida tentando levar o conhecimento através de feiras científicas, artigos em jornais, livros e revistas a quem interesse tivesse em aprender. Partindo de seu livro em fase de publicação, “O Caixeiro Viajante da Ciência e Outros Perfis” foi elaborada uma breve biografia de José Reis.

II - História

a) Tempo de Escola


Apesar de ter nascido no Rio de Janeiro José Reis nunca esteve na praia. Desde cedo ajudava seus pais. Segundo Reis, cada um dos membros da família tinha suas responsabilidades. Reis se orgulhava do pai que apesar de não ter uma educação formal aprimorada havia aprendido contabilidade chegando a dirigir a “Cia. Do Porto do Rio de Janeiro”. Falava de sua mãe com carinho demonstrando o quanto ela era meiga, religiosa e carinhosa com ele no dia-a-dia. “Minha mãe era, como muitas mães antigas, silenciosa e mansa, agarrada ao lar, só deixando a casa aos domingos para a missa, à qual muitas vezes me levava consigo, presenteando-me, no caminho de volta, com pés de moleque, de que também ela gostava muito” (REIS, 2002 pg. 01).

Reis conta que como sua família era grande (treze irmãos) e desprovida de recursos era hábito dos pais darem os filhos mais novos aos irmãos mais velhos para serem batizados. Essa era uma forma de repartir a tarefa de criação e educação. Sendo assim, seus padrinhos eram: Nossa Senhora e o irmão Alfredo Reis. Descrito como “melhor coração do mundo” (REIS, 2002 pg. 02) seu irmão Alfredo preocupava-se muito com a saúde de seu afilhado e irmão mais novo, por isso, às vezes, praticava alguns exercícios e o levava para longas caminhadas pelas encostas do Rio Comprido e morro de Santa Tereza.

Em 1914 José Reis entra para o curso primário em escolas públicas do Rio de janeiro. O início de seu aprendizado, como para qualquer outro garoto de sua idade, tinha suas dificuldades. A separação (mesmo que por poucas horas) de sua mãe e do gato “Joli”, com quem brincava nas suas horas de folga, foi uma experiência dolorosa. Como a escola nem sempre era perto de casa Reis fizera longa caminhada debaixo de sol e de chuva para poder estudar até o final da escola primária.

Foram seis anos (um a mais facultativo) em que José Reis confessa ter aprendido muito bem o português e ter despertado o gosto pela poesia, desenho e composições literárias de fundo moral. Já nessa época escrevia livros em letras de forma. Um pouco mais tarde com o irmão Ernani começou a editar revistas escritas à mão, porém em letra de forma, onde escrevia crônicas e fazia ilustrações da revista.

Uma experiência em um retiro espiritual no Colégio Regina Coeli como preparação para a Primeira Comunhão, na Tijuca, marcou significativamente o espírito de José Reis que contou: “Um padre muito sábio e umas irmãs muito meigas, ajudados por aquele ambiente de paz e recolhimento, produziam efeito muito grande em minha personalidade. Algo mudou em mim, tornei-me algo místico e menos revoltado contra o peso da vida. Ao mesmo tempo nascia em mim o espírito da comunicação, que se manifestava na alfabetização, que fiz, da empregada e nos sermões que todo o domingo eu lhe fazia, repetindo mais ou menos o que ouvira do padre, na missa”, (REIS, 2002 p 5).

De 1920 a 1924 fez o curso secundário no Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. As provas de ingresso no Colégio assustavam o pequeno Reis que se via pressionado por tamanha responsabilidade. “Terminara o curso primário. Na sombria sala de jantar, reunida a família em torno à mesa, minha irmã mais velha diz que no ano seguinte um astro ia brilhar no Pedro II. Senti como se me colocasse sobre os ombros frágeis um terrível encargo. Agora teria de aplicar as férias em preparar-me para o difícil exame de admissão” (REIS, 2002 p 6).

Depois da torturante fase dos exames para conseguir entrar no ginásio, José Reis guardou uma doce lembrança da época e lembra dela como “morder uma fruta suculenta, cujo caldo quase me asfixiasse” (REIS, 2002 pg. 7). De acordo com Reis, o Colégio Pedro II tinha um quadro de docentes de dar inveja a qualquer instituição de curso superior do País e ressalta os professores como o de português (Carlos de Laet), matemática (Artur Thiré), geografia (Fernando Raja Gabaglia), línguas (José Cavalcanti de Barros), desenho (não nomeou), entre muitos outros (REIS, 2002 pg 7).

Reis fala com carinho do professor João Ribeiro que o fez sentir-se “gente” pela forma educada e amigável com que o tratou logo na primeira vez. “Levado por seu filho Joaquim, fui à casa do grande professor, que eu muito admirava. Recebeu-me amigavelmente, tratando-me, desde logo, como se eu fosse um dos professores, seu colega. Com toda a paciência, esclareceu os trabalhos em que se encontrava empenhado e mostrou-me sua excelente biblioteca” (REIS, 2002 pg 84).

José Reis comenta em seu livro autobiográfico que os cursos de ciências eram os mais fracos no Colégio Pedro II. No entanto, foi neles que mais se empenhou. “Por minha conta dei de estudar essas matérias, especialmente História Natural e a Biologia com enorme paixão. Freqüentava o Museu e o Jardim Botânico e ia à Biblioteca Nacional consultar textos antigos e novos relativos à História Natural. Eu era um menino que lia as obras de História Natural de Aristóteles. E como adquirira facilidade em manejar as línguas, podia valer-me de livros estrangeiros para enriquecer meus conhecimentos”. (REIS, 2002 pg 10).

De 1925 a 1929 fez o curso superior na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Para Reis uma grande decepção já que acreditava que na faculdade iria alargar seus conhecimentos, principalmente nas áreas de ciências físicas e naturais, pelo qual tinha se apaixonado. “A sonhada Faculdade foi, de um modo geral, decepcionante. Para quem vinha de um Pedro II cujos professores, em sua maioria, tinha um nível cultural muito alto e grande largueza de vistas e conhecimentos, os professores das cadeiras básicas, em regime de tempo parcial e geralmente, clínicos não especializados a fundo nas matérias que ensinavam, davam a idéia de uma regressão” (REIS, 2002 pg 14).

No entanto, José Reis continuou os estudos à sua moda. Continuava dando suas aulas particulares para poder se manter sem ser um peso no orçamento familiar. Freqüentava os cursos regulares na faculdade e visitava freqüentemente o Museu Nacional, o Jardim Botânico e à Biblioteca Nacional. Nesta, lia importantes tratados de biologia, botânica, zoologia, geologia e mineralogia. Estudou ainda livros antigos como o de história natural de Aristóteles. Lia ainda nos arquivos do Museu Paulista as contribuições de Herm von Lhering, obras de Lund, Warming, Lindman. Loefgren e outros que escreveram sobre a história natural do Brasil.

Sentia-se em posição muito privilegiada para estudar sozinho todos esses assuntos, em obras originais, porquê obtivera um bom domínio de várias línguas estrangeiras durante o curso no Colégio Pedro II. Reis não gostava de estudar em traduções com medo que pudesse ter deturpações de interpretação. Outro elemento que reforçou a formação do divulgador científico foi a abertura para a importação no País de livros franceses de divulgação de temas mais atuais em ciência escritos pelos maiores cientistas da época.

Como os livros eram muito baratos e estavam ao alcance da bolsa que recebia para estudar, formou rapidamente uma biblioteca que denominava de divulgação ou especializados em várias línguas. Ao mesmo tempo, influenciado pelo irmão Ernani que estudava direito e gostava muito de música e literatura, acabou sendo um grande comprador de romances.

Por acreditar que a Faculdade tinha muitas deficiências, Reis se inscreveu em dois cursos de histologia com André Dreyfus e Mário Magalhães, na própria faculdade, que dava oportunidade de exercícios práticos.O curso não ensinava só histologia, mas sim ciência em geral, psicanálise, biologia e literatura. Para Reis era um “curso-fermento” que contribuiu fortemente para estimular seu gosto pela ciência e se especializar em Manguinhos.

O curso de especialização no Instituto Oswaldo Cruz propiciou a José Reis a convivência com grandes nomes da ciência brasileira como Carlos Chagas, Olimpo da Fonseca Filho, Aristides Marques da Cunha, José Gomes de Faria, Costa Cruz, Carneiro Felipe, Cardoso Fontes e outros. E mais uma vez, uma mudança significativa tomava conta da vida de José Reis. A partir da experiência em Manguinhos José Reis deixa de pensar como objetivo de vida o magistério secundário para ser cientista.

Na época do curso em Manguinhos ocorreu o surto de febre amarela no Rio e Reis foi convocado a prestar serviços no hospital do Instituto fazendo análises clínicas das pessoas supostamente contaminadas. Foi uma época cansativa já que José Reis além do curso de especialização dava aulas particulares e continuava freqüentando o Museu, Jardim Botânico e a Biblioteca. Foi nessa época também que Reis cumpriu as obrigações com o tiro de guerra, as quais não foram nada fáceis e nem agradáveis.


b) Instituto Biológico


No segundo semestre de 1929, José Reis é convidado a trabalhar no Instituto Biológico de São Paulo como bacteriologista. O salário de dois contos de réis por mês e a oportunidade de iniciar a carreira científica “em ambiente de melhor qualidade” (REIS, 2002 pg. 22) fez com que Reis se mudasse para São Paulo sem pestanejar. No entanto, Reis tinha algumas dúvidas “o chamado me atraiu e até quase desnorteou porque surgia em momento de grande decepção e dúvida. Chegara eu, de fato, a uma inesperada encruzilhada. A idéia de abraçar a medicina surgira quando eu era criança, empolgado com a figura do médico de família. Ao fim do ginásio, porém, as cadeiras que neles eram menos ensinadas – ciências físicas e naturais me atraíam de tal modo que compensei por meus próprios esforços as deficiências práticas e teóricas do ensino e passei até a ensinar essas matérias a alunos particulares, naquele tempo numerosos.” (REIS, 2002 pg 22).

A experiência que teve nas enfermarias durante o curso de medicina também foi um outro fator que proporcionou uma grande decepção em José Reis quanto à profissão. “Até hoje guardo em meus olhos a tristeza, o desencanto, a derrota que, jovem, li nos olhos grandes e fixos no distante teto da enfermaria, de uma moça a quem o mestre desnudava sem o menor respeito ante a mocidade também em grande parte pouco respeitosa. A enorme tristeza que se apoderou de mim serviu de inspiração para que eu procurasse nortear minha vida pelo respeito às pessoas, e muito em particular, pelas pessoas doentes” (REIS, 2002 pg 23).

A partir dessa experiência José Reis percebeu o que verdadeiramente aspirava. “O curso de medicina decepcionou-me, não fosse a sugestão que nele colhi de que em Manguinhos poderia encontrar a formação superior a que verdadeiramente aspirava, o que era bem alta” (REIS, 2002 pg 23). Reis descobriu que não era mais medicina clínica que gostaria de seguir, mas sim a carreira de pesquisador. A oportunidade, então, de trabalhar em São Paulo com Rocha Lima e Artur Neiva no Instituto Biológico se mostrava mais do que atraente.

Outro fator que o estimulou a ir para São Paulo foi a implantação das escolas Oswaldo Cruz e Emílio Ribas, no Rio e em São Paulo. A iniciativa proporcionou a sistematização da ciência no País com o objetivo de assegurar a obtenção de novos conhecimentos básicos e originais, além de mobilizar os cientistas para a solução de problemas nacionais.

José Reis lembra sua chegada a São Paulo como se estivesse vivendo pela primeira vez. Para tanto cita uma frase de Goethe “Ah, como sinto a vida. Agora pela primeira vez!” Tudo em São Paulo lhe parecia novo e surpreendente. Sua primeira surpresa foi o frio. “Desembarquei em São Paulo numa manhã do meado de julho de 1929. E ao meio-dia pude sentir plenamente a alegria de um frio intenso, que se agüentava bem encapotado, sob um sol que brilhava intensamente num céu muito azul. Aquilo era novo e auspicioso. À noite, no antigo Hotel Rex, recém-instalado na esquina de Santa Efigênia com Duque de Caxias (ou Vitória, não me lembro bem), a agradável sensação de adormecer sob uma porção de cobertores” (REIS, 2002 pg 30).

A segunda surpresa foi o ambiente do Instituto Biológico onde diz ter encontrado “o sonhado ambiente de trabalho” que com Rocha Lima o ajudou a completar sua formação intelectual. No Instituto, o contrato de José Reis era para o estudo das mastites bovinas. Sua dedicação ao caso fez com que descobrisse logo que a causa da doença não estava no “streptocococcus agalactiae”, mas sim em vários outros. (REIS, 2002 pg 30 e 32).

O estudo fez com que José Reis se especializasse no assunto alcançando vôos mais largos na sistemática bacteriana. Começou a cogitar uma classificação estatística da espécie chegando a publicar um trabalho a esse respeito (associação de caracteres na identificação do chamado esterococo). Chegou a pensar que sua carreira seria essa, a estreptocologia. Nesta época José Reis conhece Annita Sodré Swensson, farmacêutica, que vem a colaborar no trabalho técnico de laboratório e mais tarde (20 de janeiro de 1932) se torna a senhora Reis.

José Reis conhece pessoalmente Rodolfo von Lhering por quem tinha profunda admiração e logo de imediato se estabeleceu uma forte amizade. Reis conta que Lhering viajava muito pelo interior estudando peixes e gostava muito de conversar com os “caipiras” para inteirar-se dos seus problemas. Foi dessa forma que Lhering tomou conhecimento da enorme dificuldade que tinham os sitiantes em criar galinhas em larga escala. “Assim que a criação atingia certo porte, vinha a ‘peste’ e matava tudo”. (REIS, 2002 pg 34).

Reis conta que estava distraído certa manhã em suas “purezas” estreptocócicas quando Lhering se aproximou com um sitiante que trazia uma galinha morta. De um jeito todo peculiar, Lhering mostrou a Reis como seria importante estudar as doenças de aves para ajudar a população que desejava dedicar-se à criação desses animais. Sem pensar duas vezes Reis inicia o trabalho de necropsia na tentativa de descobrir a causa da morte do animal. A causa da morte das aves era a cólera. Uma doença que serviria mais tarde de base para os trabalhos de Pasteur sobre vacinação (REIS, 2002, pg 34)

Foi assim que José Reis iniciou o trabalho chamado de “ornitopatologia” o qual resultou na publicação em 1932 do livro “Doença das aves domésticas” destinada a criadores. O manual foi encaminhado a um patologista da Rutger University (Fred R. Beaudette em New Brunswick) que teceu vários elogios sobre o trabalho resultando na criação de uma seção independente de bacteriologia em 1934 no Instituto Biológico.

Em 1935, José Reis consegue através do professor Thomas M. Rivera do Instituto Rockfeller uma bolsa de estudos para trabalhar em seu laboratório a fim de se aperfeiçoar em novas técnicas sobre vírus. Em agosto deste mesmo ano embarca para Nova York com sua esposa onde ficou por um ano. Reis recebeu convite para permanecer nos estados Unidos, mas rejeitou por achar que havia estudado lá para “melhor servir meu País” e o que lhe interessava era mesmo a ciência como havia cultivado no Instituto Biológico (REIS, 2002 pg. 43).

A experiência pessoal, documentação e dados bibliográficos permitiram a Reis a preparação do livro chamado “Tratado de Ornitopatologia” em parceria com Paulo Nóbrega e Annita Swensson Reis em 1936. A obra foi reconhecida como uma das mais completas do mundo sobre o assunto, de acordo com Reis. O livro foi adotado nos Estados Unidos na “Rutgers University” em português. No entanto, Reis não se limitava apenas, já nesta época, a trabalhar com pesquisa, sentia uma necessidade crescente em divulgar ou “repartir” como ele mesmo dizia sua descoberta com a sociedade. Assim, preparou folhetos padronizados contendo informações aos criadores e ainda ministrou palestra em todo o Estado no combate a disseminação da doença. O espírito de divulgador científico começa, então, a aflorar em Reis.

A partir de 1937 Reis volta para o Instituto Biológico com o objetivo de reorganizar a seção de vírus e logo sente uma estranha sensação que as coisas não corriam muito bem para a ciência. O Estado Novo inicia um movimento de racionalização dos serviços públicos liderado pelo Departamento Agrícola de São Paulo (DASP). O objetivo era criar e manter órgãos semelhantes (como supersecretarias) que unificassem serviços que se referissem à administração geral. Em São Paulo foi criado o Departamento do Serviço Público (DSP) em meio a geral desconfiança do funcionalismo. Depois de algumas tentativas fracassadas de reajustamento dos quadros de funcionários, o interventor Fernando Costa convida José Reis para ocupar o cargo de diretor do órgão.

José Reis lembra: “tratei de conhecer bem o departamento e seu pessoal, aliás, em geral muito bom, e procurei examinar o orçamento a minha disposição. O primeiro fato que me espantou foi uma verba vultuosíssima destinada a armários de aço enquanto na chamada biblioteca uma excelente profissional, a dra Odília Xavier Leite se queixava de dirigir uma biblioteca sem livros. Providenciei imediatamente a transposição da verba dos armários para a biblioteca e comecei a adquirir livros de administração e ciências correlatas, assim como revistas. Traçamos com a bibliotecária, planos para uma biblioteca de livre acesso e circulante, que instalamos no Largo de São Francisco e em breve se tornou uma das mais importantes do Estado e do Brasil em sua área” (REIS, 2002 pg 45).

Esse foi um dos primeiros atos de José Reis na administração do DSP onde implantou também o Regime de Tempo Integral (RTI) e o Departamento Médico do Serviço Civil do Estado. Reis participou ainda da estruturação do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT); mantinha regularmente a publicação da revista “Administração Pública”; elaborou a primeira lei que disciplinou o Regime de Tempo Integral (RTI) criando a Comissão Permanente do Regime de Tempo Integral (CPRTI); organizou o projeto de criação da Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas na USP; entre outros.

Para auxiliá-lo no DSP, Reis não quis ter chefes e muito menos oficiais de gabinete. Preferiu ter uma secretária que já ocupava o cargo, por concurso, de quinta escrituraria e servia na Divisão de Organização. Nair Lemos Gonçalves lhe servia de recepcionista, assessora e ainda de secretária. Tornou-se colaboradora indispensável de Reis que a orientava na ciência da administração e lhe transmitia o modo de pensar científico. Fez vários cursos de aperfeiçoamento no DSPG. Cursou a escola de direito, aprendeu inglês e alemão e por fim Reis orientou-a no preparo de tese de livre docência. Foram amigos inseparáveis.

Reis conta que na direção do DSP sofreu “verdadeiro martírio” por conta de políticos que desejavam manipular a administração do órgão de forma a beneficiar amigos e parentes. Trabalhava das 8 às 23 horas quando se encerravam os cursos e conta que se sentia “enojado com o ambiente de pérfidas e absurdas pretensões de elementos geralmente bem apadrinhados” (REIS, 2002 pg 49). Para escapar da angústia por ter que presenciar tanta insensatez se refugiou na literatura traduzindo para o português verso do poeta Rilke. No entanto, a literatura não era uma novidade para Reis que chegou até a escrever versos para exprimir seus sentimentos demonstrando sua postura de que o cientista não é apenas um ser prático racional.

José Reis também organizou o projeto de criação da Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas da USP onde criou departamentos em Regime de Tempo Integral (RTI) considerado um dos mais modernos modelos de administração. Reis foi convidado pelo interventor do Estado José Carlos de Macedo Soares e pelo Reitor da Universidade na época para ser o primeiro professor catedrático de Ciência e Administração e diretor da Faculdade que acabara de se instalar, o que foi aceito por ele.

Algum desentendimento surgido entre a USP (não especificou quem) e o interventor do Estado, como também a “ciumeira de alguns professores” provocou uma tristeza em Reis que desabafou escrevendo versos depois que “o tempo passou e com ele as incompreensões sobre minha pessoa” (REIS, 2002 pg. 51).
Tardio Prêmio (J.R. 22/05/74)

“A mão que outrora pedra me lançou

Tentando escorraçar-me, sem piedade,

Agora aperta a minha, fortemente,

E louva o meu trabalho e o meu propósito.

Este o prêmio melhor, tardio embora,

Que minha vida mereceu, vivida,

Sinceramente e pura, acreditando,

Que melhor é servir que ser servido.

Lamento apenas, contemplando os dias

Que se passaram e não voltam mais,

Os caminhos que tanta hostilidade

Impediram-me abrir, servindo mais.”

A tristeza de Reis estava em comparar o ambiente em que havia vivido no Instituto Biológico com o atual decidindo, por vez, voltar a trabalhar no primeiro no cargo de Diretor de Divisão de Ensino e Documentação Científica. Apesar da desilusão com o desenrolar dos acontecimentos na Faculdade de Administração Reis ainda concluiu que “não posso dizer que todas as sementes se hajam perdido” (REIS, 2002 pg 52).

De volta ao Instituto Biológico trabalhando na seção de vírus Reis sente o processo de desintegração atacar os institutos de pesquisas. Mas sua participação na área administrativa ainda não havia se esgotado. Participando de várias Comissões inclusive a CPRTI que apresentou proposta para a organização da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e a reorganização do Instituto Oceanográfico que estava em “verdadeiro estado de revolta” (REIS, 2002 pg.55). Foi nesse período que Reis começa a desenvolver o trabalho de divulgação científica nos jornais diários como o Estado de São Paulo e revistas agrícolas como Chácaras e Quintais. Mais tarde teve ainda um programa semanal na extinta Rádio Excelsior sobre divulgação científica no formato de histórias teatralizadas.

c) Folha de S. Paulo


De acordo com registro de Nair Lemos Gonçalves (secretária e amiga por muitos anos) José Reis começou a trabalhar na Folha da Noite em 1947 escrevendo artigos de administração e de assuntos gerais. José Reis explica que “não me tornei divulgador da noite para o dia. Creio que nasci com vocação para essa atividade. Menino editava revistas de circulação doméstica, com meu irmão Ernani; assim que alfabetizado, alfabetizei a empregada e assim que fiz a primeira Comunhão, a preparei para o mesmo ato, ensinando-lhe o catecismo, além dos sermões que lhe repetia, como já referi noutro lugar.” (REIS, 2002 pg 04)

“No ginásio e na Faculdade era um ativo reformulador de ‘pontos’, que organizava a meu jeito, com as lições aprendidas e com o que encontrava nos muito livros que lia em várias línguas. No Instituto biológico fiz o meu primeiro périplo, para divulgar as boas técnicas de criação de aves e profilaxia e para os criadores organizei folhetos padronizados, que respondiam às perguntas que, ainda longamente em revistas agrícolas e em seções agrícolas de jornais. Mas o trabalho que comecei na Folha tinha maior amplitude e me permitiu tratar, não apenas da divulgação de assuntos científicos para o povo, atendendo às necessidades de uma população carente nesse tipo de informação, mas também pondo em foco questões de política científica.” (REIS, 2000 ).

Na Folha da Noite de 1947 a 1951 José Reis divulga textos de administração, ciências, saúde, medicina e sobre plantas, animais e vegetais (PIA) e assuntos gerais classificados como outros. Em 1947 46.3% dos temas abordam questões de administração contra 31% de ciência e saúde e 22% de outros. A partir de 1948 o quadro muda e Reis vai diminuindo significativamente os temas relativos a administração e valorizando os de ciência, saúde, medicina (aparecem a partir desta data) e os classificados como outros. (GIACHETI, 2003, anexo 2).

Em 1948 José Reis começa o trabalho de divulgação científica pela Folha da Manhã. Reis foi apresentado por Otávio Frias de Moreira, colega de trabalho no DSP, a José Nabantino Ramos, diretor editorial da Folha da Manhã na época. Nabantino procurava alguém que escrevesse sobre problemas gerais de administração. No entanto, Nabantino acaba por propor a Reis mais tarde que desenvolvesse uma seção permanente de ciência (REIS, 2002 pg 86).

Assim, “No Mundo da Ciência” começou a ser publicado na última página do jornal Folha da Manhã a 1º de fevereiro de 1948. Era hábito do matutino ainda publicar na parte final do espaço reservado aos editoriais uma nota científica, adaptada, de revista estrangeira de divulgação. A seção de ciência era dominical e constava de um artigo principal, algumas notas esparsas e uma seção de resenha bibliográfica. Havia outras colunas como “Sabatina Dominical” que eram perguntas relativas a assuntos científicos já publicados; “Ponto de Vista” que reproduzia escritos de cientistas ou pensadores de renome sobre o papel da ciência, em particular, sobre a necessidade de amparar a “ciência pura”; “Em Foco” que tratava de problemas da ciência e sua política de organização no País. (REIS, 2002).

“No Mundo da Ciência” passou por transformações, crescendo ou diminuindo conforme a necessidade. Perdeu o título e passou a se chamar apenas “Ciência” mudando mais tarde para “Periscópio”. Alguns anos depois (José Reis não precisou em que ano na sua autobiografia) o jornal dedicou um caderno à ciência e cultura. Este era representado pela literatura, artes visuais e pela ciência que vinha na última página (hoje “Caderno Mais”). Na última página havia, além de matérias sobre ciência, artigos menores denominados: “Gota a Gota” sobre descobertas recentes, “Grãozinho de Sal” particularidades sobre a vida e o pensamento de cientistas e filósofos e “Daqui e de Longe” notícias nacionais e internacionais.

Ainda em 1948 José Reis funda a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) que tem o objetivo de “incentivar e estimular o interesse público com relação à ciência e à cultura” (REIS, 2002 pg 89). A Folha de São Paulo tem papel importante na divulgação dos trabalhos e reuniões da SBPC.

Em julho de 1948 José Reis lança pela Folha da Noite o concurso “Em Busca do Talento Científico” com o objetivo de revelar novos talentos científicos. Reis acreditava que “o maior desperdício que o homem pode realizar na face da terra é o de sua própria energia e de sua própria inteligência. Mas esse desperdício, santo Deus, é enorme em nosso país”. Para combatê-lo Reis acreditava que deveria descobrir precocemente novos talentos científicos e encaminhá-los à ciência. “Que surjam os cientistas do amanhã, e uma vez surgidos, recebam o apoio e a orientação necessários”. (REIS, 2002 pg 89).

No entanto, a divulgação da ciência através da Folha de São Paulo não teria tanto espaço se não fosse o apoio e interesse de José Nabantino Ramos, proprietário do jornal até 1962, quando o vendeu a Otávio Frias de Oliveira. Reis (REIS, 2002 pg. 88) explica que Nabantino chegou até a sonhar com um departamento de ciência na estrutura do jornal, o que foi rejeitado pelo conselho editorial do órgão. A idéia de Nabantino era fazer da Folha um periódico voltado para as profissões liberais e por isso instituiu seções de “Biologia e Medicina”, “Engenharia e Arquitetura” e “Direito e Justiça”.

Em 1958 José Reis aposenta-se do Instituto Biológico recebendo o título de “Servidor Emérito”. Funda com José Nabantino Ramos e Clóvis Queiroga o Instituto Brasileiro de Difusão de Cultura S.A. (Ibrasa) onde começa a lançar livros que denominou “livros de fermento”. A idéia era lançar livros que trouxessem idéias novas e provocassem debates. Reis foi editor da Ibrasa até 1978.

Em 1962 José Nabantino Ramos vende a Folha de São Paulo para o grupo liderado por Octávio Frias de Oliveira que realizou verdadeira revolução tecnológica na empresa. O novo presidente da empresa, Octávio Frias de Oliveira, convidou José Reis para assumir a direção da redação do jornal. Uma de suas primeiras providências como diretor foi contratar a colaboração de Tristão de Ataíde. “Sabia que minha tarefa seria penosa, num momento de incerteza para o País e, para o jornal, de crise econômica, tudo isso logo agravado pelo advento da Revolução de 64. Tinha, felizmente, colaboradores dedicados e prudentes, que me ajudam a navegar em água mais do que turbulentas sem comprometer o espírito de independência do jornal, que Frias insistia em manter. Uma de minhas primeiras providências foi contratar a colaboração de Tristão de Ataíde.” (REIS, 2002 pg. 91).

A partir do momento em que Reis assume a direção do jornal procurou “desde o início, agir com muita prudência e extrema imparcialidade, evitando sempre radicalismos de toda a espécie. Procurei fazer um jornal moderno, menos austero, de paginação mais arejada. Aproximei-me muito, nesse momento, de Emir Nogueira, que já possuía muitos anos de Folha. Pude conhecer-lhe a sua história no jornal e convenci-me de que era profissional e criatura fora do comum. Convidei-o para meu assessor e meu mais direto colaborador. E nesta posição permaneceu até 1967, quando entendi cumprida minha missão na Folha.” (REIS, 2002 pg. 91).

Em 1962 ainda Reis recebe o prêmio “Governador do Estado de São Paulo de Jornalismo Científico”. Em 1964 Reis recebe o “Prêmio John R. Reitemeyer de Jornalismo Científico” conferido pela primeira vez pela Sociedade Interamericana de Imprensa e União Pan-americana de Imprensa. O Livro “Educação é Investimento” é publicado em 1968 com prefácio de Alceu de Amoroso Lima. O livro foi editado pela IBRASA.

Os anos de 1963 e 1964 foram os mais produtivos da fase em que Reis dirigiu a Folha. O número de textos publicados começa a aumentar em 1961 (87 textos) da média anual de 55 e vai para 126 textos em 1962, 261 em 1963, 229 em 1964, 76 em 1975 e volta para a média de aproximadamente 55 textos nos próximos anos. Neste ano passa também a escrever editoriais que representam 25.7% da produção total. Dentre os 41.8% dos textos escritos na classificação outros 24.7% são de ordem política. Isso implica que metade da produção textual de Reis neste ano estava voltada para a política (GIACHETI, 2003).

Reis conta em que foi uma época difícil para o jornal em face da crise econômica agravada pela revolução de 64. Os editoriais eram escritos por Reis, Emir Nogueira e Paulo Mendonça com a cooperação de editores especializados. Com a definição da linha política adotada pelo jornal, que se tornara “liberal democrático”, a Folha se posicionou contra o governo de João Goulart principalmente contra os discursos do ministro da educação Darcy Ribeiro. Apesar do golpe de Estado ter sido bem recebido pela Folha logo a desilusão se tornaria evidente e o jornal se colocaria bem longe do apoio incondicional de 1964.

“A marginalização dos estudantes e a tempestade que se abateu sobre a Universidade de São Paulo e outras universidades, onde alguns docentes denunciavam colegas, todos brilhantes, que na maioria acabaram com suas carreiras truncadas, apesar de absolvidos nos inquéritos policiais-militares contra eles abertos, mobilizaram o jornal sob minha direção editorial” (REIS, 2002 pg 92).

José Reis presenciou toda a reorganização financeiro-administrativa e tecnológica da Folha de São Paulo com o aumento do seu parque industrial acarretando a expansão das tiragens, bem como o aumento do número de páginas das edições diárias. Outra medida de fundamental importância foi o aumento da frota de caminhões para a distribuição dos exemplares. Em 1960 a empresa possuía 24 veículos, sendo que a distribuição para o interior era feita através de ônibus e trem, o que atrasava muito a chegada dos jornais nas mãos dos leitores. Já em 1965, a frota alcançava 165 veículos.

Foi justamente com a ampliação da frota de veículos que levava os exemplares para o interior que José Reis passou a viajar por todo o Estado desenvolvendo duas campanhas: a primeira combatendo o conceito de educação como bem de consumo e a segunda na divulgação das Feiras de Ciência envolvendo professores e alunos dos cursos primário e secundário. Foi assim que se tornou o Caixeiro Viajante da Ciência onde passou a disseminar suas idéias.

José Reis faz, nesta época, severa crítica aos governantes que “em geral têm feito da educação mais objeto de retórica do que ação sistemática” já que acreditava que pela educação, assim como pela saúde se poderia aproveitar o máximo de potencial de trabalho “dessa gente extraordinária e desassistida” (REIS, 2002 pg. 93). Reis acreditava que com a utilização dessa mão de obra em um trabalho produtivo desapareceriam os problemas cruciais em que viviam sem precisar de soluções teóricas mirabolantes que não levavam em conta o valor do elemento humano.

“Pipocavam as Feiras de Ciência por todo o Estado, ao mesmo tempo em que incentivávamos a criação de numerosos clubes de ciência junto às escolas, contornando assim os problemas de horário que tantas vezes servem, ainda hoje, de defesa dos professores que, por falta de tempo ou vocação, acham mais prático aplicar no ensino a técnica que um educador inglês chama de “jarro e bacia” em que o aluno é a bacia que passivamente recebe a água do conhecimento, derramada pela jarra, símbolo do mestre” (REIS, 2002 pg 94).

Feiras de Ciência, clubes de ciência e o concurso Cientistas do Amanhã nasceram então de um projeto elaborado por Reis na Folha em conjunto com o Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura (IBECC) da Unesco. Reis tentou ainda arregimentar um grupo de pesquisadores de primeira linha para colaboração sistemática no jornal. Mas foi uma grande decepção. Primeiro porque os assuntos escolhidos eram muito especializados e quase se limitavam ao estrito campo de trabalho do pesquisador. Segundo porque alguns deles, muito ocupados escrevendo artigos e livros, acabam por escrever sobre generalidades que também não interessavam. José Reis aqui parece que sente algumas das dificuldades em divulgar a ciência quando entra em contato com seus pares.

Outra iniciativa de Reis foi a inclusão de uma seção de ciência na Folhinha de S. Paulo quando Frias e seus colegas de direção imaginaram criar um suplemento infantil para o jornal. Para a tarefa de criação do novo suplemento Reis chamou a jornalista e escritora Lenita Miranda de Figueiredo e a seção de ciência ficou a cargo da professora Maria Julieta Ormastroni apoiada pela seção paulista do IBECC.

Mais uma experiência interessante foi a publicação de fotos e informações das plantas mais comuns encontradas na cidade de São Paulo. O trabalho foi realizado pelo engenheiro agrônomo Helmut Krug que juntamente com um fotógrafo visitavam praças e logradouros públicos da cidade fotografando o que depois descrevia nomeando as árvores e plantas ali encontradas. Reis afirma que as informações colhidas neste período dariam um interessante livro que a Prefeitura de S. Paulo poderia patrocinar.

Reis também abriu espaço para a Associação dos Amadores de Astronomia que colaborava mensalmente com informações sobre as estrelas e os planetas. A Associação fornecia o mapa celeste que era publicado com a descrição de tudo o que nele se poderia observar. Para Reis a permanência na direção editorial da Folha de 1962 a 1967 foi uma experiência muito rica e comparou a redação do jornal como uma espécie de universidade.

O trabalho de divulgação científica de José Reis continuou a ser divulgado pela Folha de S. Paulo até a data de sua morte em 17 de maio de 2002. O cientista-divulgador ainda recebeu outros prêmios como o “Prêmio kalinga” da Unesco em 1975 pelo seu trabalho como divulgador científico. Em 1979 O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) institui o Prêmio José Reis de Divulgação Científica. Em 1986 Reis deixa suas funções na revista “Ciência e Cultura” da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Em 1992 foi criado o Núcleo José Reis de Divulgação Científica na Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo em homenagem a Reis. O Núcleo tem o objetivo de promover e realizar pesquisas, cursos, seminários, consultorias, edição de publicações e outras atividades de natureza acadêmica. A idéia é contribuir para o estudo e aperfeiçoamento das teorias, técnicas e formas da divulgação da ciência e tecnologia.

Pelo avançado da idade (94 anos) José Reis deixou suas atividades de educador e pesquisador. No entanto, a coluna “Periscópio” continuou a ser alimentada por matérias de ciência, medicina e tecnologia no caderno “Mais” da Folha de São Paulo aos domingos até a data de sua morte. A obra de Reis é composta de vários livros como “Tratado de Ornitopatologia”, “Rasgando Horizontes”, “Methoden der Virusforschung”, “Educação é Investimento”.

Para crianças, com o objetivo de divulgar a ciência, publicou: “A Cigarra e a Formiga” (adaptação da fábula à realidade brasileira), “As Galinhas de Juca”, “Que Formiga!”, “O Menino Dourado”, “Aventura no Mundo da Ciência”, além de várias traduções de obras literárias e de divulgação e especialidade científica.

José Reis deixa gravado em seu memorial-currículo encaminhado a Unesco para justificar a proposição do seu nome ao “Premo Kalinga” que percebeu logo cedo em sua carreira que a poesia e a filosofia satisfazem mais do que a ciência, principalmente quando exercida esta friamente, sem preocupação com suas implicações na sociedade. Sendo assim, data desta época a sua preocupação com a filosofia, a história da ciência e comunicação da ciência ao público.

Nas suas divagações filosóficas Reis deixa transparecer que o seu trabalho de pesquisador só foi completo porque não ficou reduzido na dissecação de animais e plantas para identificação de doenças. O que o satisfazia era observar que o seu trabalho era um meio de servir a coletividade humana. “Essa busca de um sentido humano em toda ciência parece-me fundamental à felicidade do cientista. Ela o coloca em harmonia consigo mesmo e também em harmonia com a natureza”. (REIS, 1978 pg. 62).

Ele completa que “no humanismo e na comunicação, no amor pelas pessoas como pessoas, no interesse pelas minorias desprotegidas, na procura da sabedoria além da ciência, na busca de uma visão geral dos problemas e na convicção de que a ciência, por mais elaborada, jamais será tudo, encontro-me, não raro surpreso, muitas vezes, na velha sala de “Refrat” do Instituto Biológico, ouvindo Artur Neiva dizer-nos, a nós ainda muito jovens, que era preciso ‘sair da placa de Petri’. Acredito que consegui sair dela a tempo de não me tornar um cientista cuja satisfação se esgota no ato de dissecar ou registrar os fatos, incapaz todavia de perceber a beleza que existe embutida neles” (REIS, 1978 pg. 69).

Reis termina seu relato no memorial com um verso de Novalis:


WENH NICHT MEHR ZAHLEN UMD FIGUREN - NOVALIS

Quando afinal os números e os dados

Não forem mais a chave de todas as criaturas,

Quando o poeta e os amantes

Disso entenderem mais do que os doutores,

Quando o mundo retornar

À vida livre a si mesmo,

Quando novamente a luz e as sombras

Gerarem a verdadeira claridade,

E o homem das lendas e nos cantos

Reconhecer a eterna história deste mundo,

Então bastará o mistério de uma palavra

Para que à ordem volte o que jaz em desordem.




III – Conclusão


Através da bibliografia de José Reis observa-se que o autor tinha um grande sonho: o de ser um difusor do conhecimento em geral. Apesar da sua formação médica e do seu trabalho de pesquisador no Instituto Biológico, Reis não se contentava apenas em adquirir o conhecimento para diagnosticar as doenças e resolver as patologias ou em adquirir conhecimentos na área de administração e por em prática na reestruturação de diversos órgãos. Reis queria compartilhar com o maior número de pessoas o saber que havia adquirido. Seus dois maiores prazeres na vida: aprender e repartir.

José Reis foi um educador, acima de tudo, seu objetivo sempre foi o de levar a informação a todos indistintamente. Esse comportamento pode ser observado desde criança quando alfabetizou a empregada sem ao menos ter terminado o curso primário. Reis também se dedicava a ensinar aos colegas com dificuldades nas disciplinas cursadas no Colégio D. Pedro II. Hábito que se tornou seu sustento até terminar o curso de medicina. Já no Instituto Biológico, além de estudar os assuntos relativos a doenças de animais, Reis divulgava através de revistas e jornais suas descobertas e tratava de ensinar aos criadores como diagnosticar e combater as doenças. Chegou até a proferir palestras no interior do Estado e preparar folhetos padronizados com as informações sobre o diagnóstico das doenças para os criadores e como tratá-las.

Assim, a conclusão é de que José Reis entendia o jornalismo como “magistério sem classes” como ele mesmo já o havia afirmado. Sua intenção era de fazer chegar à informação como forma de educar a todos indistintamente. Reis não via a informação como notícia deteriorável, mas sim algo que pudesse ser acumulado como conhecimento.

Bibliografia


CANDOTTI, E. Cientistas do Brasil: Depoimentos. São Paulo: SBPC, 1998.

GIACHETI, L.J.M. José Reis – A ciência que fala. São Paulo, 2003. Dissertação de Mestrado (Curso de Jornalismo e Editoração). Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP). São Paulo, 2003.



REIS, J.. O caixeiro viajante da ciência e outros perfis. São Paulo, inédito.


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