José vasconcelos calderón a raça cósmica missão da raça ibero-americana



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JOSÉ VASCONCELOS CALDERÓN

A RAÇA CÓSMICA

Missão da raça ibero-americana



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A primeira edição da Raça Cósmica: missão da raça ibero-americana apareceu em 1925 em Barcelona. Esta edição segue a segunda edição (Buenos Aires: Espasa-Calpe, 1948), corrigida por Vasconcelos, em que se incorpora o "prólogo".



Prólogo

A tese central do presente livro é que as distintas raças do mundo tendem a mesclar-se cada vez mais até formar um novo tipo humano composto com a seleção de cada um dos povos existentes. Publicou-se pela primeira vez tal presságio na época em que prevalecia no mundo científico a doutrina darwinista da seleção natural que salva aos aptos e condena aos fracos, doutrina que, levada ao terreno social por Gobineau, deu origem à teoria do ariano puro, defendida pelos ingleses, levada a imposição aberrante pelo nazismo.

Contra esta teoria surgiram na França biólogos como Leclerc du Sablon e Noüy, que interpretam a evolução em forma diversa do darwinismo, acaso oposta ao darwinismo. Por sua parte, os fatos sociais dos últimos anos – muito particularmente o fracasso da última grande guerra, que deixou a todos desgostosos, quando não arruinados – determinaram uma corrente de doutrinas mais humanas.



E eis que até darwinistas distintos, velhos defensores do spencerianismo que desdenhavam às raças de cor e às mestiças, militam hoje em associações internacionais que, como a Unesco, proclamam a necessidade de abolir toda discriminação racial e de educar a todos os homens na igualdade, o que não é outra coisa que a velha doutrina católica que afirmou a aptidão do índio para os sacramentos e, por isso, seu direito de casar-se com branca ou com amarela.

Volta, pois, a doutrina política reinante a reconhecer a legitimidade das mestiçagens e com isso assenta nas bases de uma fusão inter-racial reconhecida pelo Direito. Se a isto se acrescenta que as comunicações modernas tendem a suprimir as barreiras geográficas e que a educação generalizada contribuirá a elevar o nível econômico de todos os homens, compreender-se-á que lentamente desaparecerão os obstáculos para a fusão acelerada das estirpes.

Consequentemente, as circunstâncias atuais favorecem o desenvolvimento das relações sexuais inter-raciais, o que dá apoio inesperado à tese que, na falta de nome melhor, intitulai de: A Raça Cósmica Futura.

Fica, entretanto, por averiguar se a mescla ilimitada e inevitável é um fato vantajoso para o incremento da cultura ou se, ao contrário, tem que produzir decadências, que já não só seriam nacionais, porém, mundiais. O problema revive a pergunta que se fez freqüentemente o mestiço: "Pode comparar-se minha contribuição à cultura com a obra das raças relativamente puras que têm feito a historia até nossos dias, os gregos, os romanos, os europeus?" E dentro de cada povo, como se comparam os períodos de mestiçagem com os períodos de homogeneidade racial criadora?

A fim de não nos estender muito, limitar-nos-emos a observar alguns exemplos.



Começando pela raça mais antiga da História, a dos egípcios, observações recentes demonstraram que foi a egípcia uma civilização que avançou do sul ao norte, do Alto Nilo ao Mediterrâneo. Uma raça bastante branca e relativamente homogênea criou, em torno de Luxor, um primeiro grande império florescente. Guerras e conquistas debilitaram aquele império e o puseram a mercê da penetração negra, mas o avanço para o norte não se interrompeu.

Entretanto, durante uma etapa de vários séculos, a decadência da cultura foi evidente. Presume-se, então, que já para a época do segundo império formou-se uma raça nova, mestiça, com caracteres mesclados de branco e de negro, que é a que produz o segundo império, mais avançado e florescente que o primeiro. A etapa em que se construíram as pirâmides, e em que a civilização egípcia alcança seu apogeu, é uma etapa mestiça.

Os historiadores Gregos estão hoje de acordo em que a idade de ouro da cultura helênica aparece como o resultado de uma mescla de raças, na qual, entretanto, não se apresenta o contraste do negro e do branco, mas sim se trata de uma mescla de raças de cor clara. Mesmo assim, houve mescla de linhagens e de correntes.

A civilização grega decai ao estender o Império com Alexandre e isto facilita a conquista romana. Nas tropas de Julio César já se adverte a nova mestiçagem romana de franceses, espanhóis, britânicos e até germanos, que colaboram nas façanhas do Império e convertem Roma em centro cosmopolita. Sabido é que houve imperadores de sangue hispano-romano. De toda maneira, os contrastes não eram violentos, já que a mescla no essencial era de raças européias.

As invasões dos bárbaros, ao mesclar-se com os aborígines, franceses, hispanos, celtas, toscanos, produzem as nacionalidades européias, que foram à fonte da cultura moderna.

Passando ao Novo Mundo, vemos que a poderosa nação americana não foi outra coisa que crisol de raças européias.

Os negros, na realidade, mantiveram-se à parte no que faz à criação do poderio, sem que deixe de ter importância a penetração espiritual que consumaram através da música, a dança e não poucos aspectos de sensibilidade artística.

Depois dos Estados Unidos, a nação de mais vigoroso impulso é a República Argentina, aonde se repete o caso de uma mescla de raças afins, todas de origem européia, com predomínio de tipo mediterrâneo; o reverso dos Estados Unidos, aonde prepondera o nórdico.



Resulta então fácil afirmar que é fecunda a mescla das linhagens similares e que é duvidosa a mescla de tipos muito distantes, conforme ocorreu no caso de espanhóis e de indígenas americanos. O atraso dos povos hispano-americanos, onde prepondera o elemento indígena, é difícil de explicar sem remontar ao primeiro exemplo chamado da civilização egípcia. Acontece que a mestiçagem de fatores muito diferentes demora muito tempo em plasmar.

Entre nós, a mestiçagem suspendeu-se antes que acabasse de formar-se o tipo racial, com motivo da exclusão dos espanhóis, decretada com posterioridade à independência. Em povos como o Equador ou o Peru, a pobreza do terreno, além dos motivos políticos, conteve a imigração espanhola.



Em todo caso, a conclusão mais otimista que se pode derivar dos fatos observados é que até as mestiçagens mais contraditórias podem resolver beneficamente sempre que o fator espiritual contribua a levantá-los. Com efeito, a decadência dos povos asiáticos é atribuível o seu isolamento, mas também, e sem dúvida, em primeiro termo, ao fato de que não foram cristianizados.

Uma religião como a cristã fez avançar aos índios americanos, em poucos séculos, do canibalismo até a relativa civilização.

I - A Mestiçagem

Opinam geólogos autorizados que o Continente americano contém algumas das mais antigas zonas do mundo. A massa dos Andes é, sem dúvida, tão velha como a mais do planeta. E se a terra é antiga, também os traços de vida e de cultura humana se remontam aonde não alcançam os cálculos. As ruínas arquitetônicas de maias, quéchuas e toltecas legendários são testemunho de vida civilizada anterior às mais velhas fundações dos povos do Oriente e da Europa. À medida que as investigações progridem, afirma-se a hipótese da Atlântida como berço de uma civilização que faz milhares de anos floresceu no Continente desaparecido e em parte pelo que é hoje a América. O pensamento da Atlântida evoca a lembrança de seus antecedentes misteriosos. O Continente hiperbóreo desaparecido, sem deixar outros rastros que os rastros de vida e de cultura que às vezes descobrem abaixo das neves da Groenlândia; os lemurianos ou raça negra do Sul; a civilização da Atlântida dos homens vermelhos; em seguida a aparição dos amarelos, e por último, a civilização dos brancos. Explica melhor o processo dos povos esta profunda hipótese legendária que as elucubrações de geólogos como Ameghino, que põem a origem do homem na Patagônia, uma terra que certamente se sabe é de formação geológica recente. Em mudança, a versão dos Impérios étnicos da pré-história afirma-se extraordinariamente com a teoria de Wegener1 da translação dos Continentes. Segundo esta tese, todas as terras estavam unidas, formando um só Continente, que se desagregou. É então fácil supor que em determinada região de uma massa contínua desenvolvia-se uma raça que depois de progredir e decair era substituída por outra, em vez de recorrer à hipótese das emigrações de um Continente a outro por meio de pontes desaparecidas. Também é curioso advertir outra coincidência da antiga tradição com os dados mais modernos da geologia, pois segundo o mesmo Wegener, a comunicação entre a Austrália, a Índia e Madagascar interrompeu-se antes da comunicação entre a América do Sul e da África. O qual equivale a confirmar que o local da civilização lemuriana desapareceu antes que florescesse a Atlântida, e também que o último Continente desaparecido é a Atlântida, posto que as explorações científicas demonstrem que é o Atlântico o mar de formação mais recente.

Confundidos mais ou menos os antecedentes desta teoria em uma tradição tão obscura como rica de sentido, fica, entretanto, viva a lenda de uma civilização nascida de nossos bosques ou derramada até eles depois de um poderoso crescimento, e cujos rastros estão ainda visíveis em Chichen Itza e em Palanque e em todos os locais onde perdura o mistério atlante. O mistério dos homens vermelhos que depois de dominar o mundo, fizeram gravar os preceitos de sua sabedoria na Tábua de Esmeralda, alguma maravilhosa esmeralda colombiana, que na hora das comoções telúricas foi levada ao Egito, onde Hermes e seus adeptos conheceram e transmitiram seus segredos.

Se, pois, somos antigos geologicamente e também no que diz respeito à tradição, como poderemos continuar aceitando esta ficção inventada por nossos pais europeus, da novidade de um Continente que existia desde antes que aparecesse a terra de onde procediam descobridores e reconquistadores?

A questão tem uma importância enorme para quem se empenha em procurar um propósito na História. A comprovação da grande antigüidade de nosso Continente parecerá ociosa aos que não vêem em os acontecimentos outra coisa que não uma cadeia fatal de repetições sem objetivo. Com preguiça contemplaríamos a obra da civilização contemporânea se os palácios toltecas não nos dissessem outra coisa fora que as civilizações passam sem deixar mais fruto que umas quantas pedras lavradas postas umas sobre outras, ou formando teto de abóbada arqueada ou de duas superfícies que se encontram em ângulo. A que voltar para começar, se dentro de quatro ou cinco mil anos outros novos emigrantes divertirão seus ócios refletindo sobre os restos de nossa corriqueira arquitetura contemporânea? A história científica confunde-se e deixa sem resposta todas estas reflexões. A história empírica, doente de miopia, perde-se no detalhe, mas não acerta a determinar um só antecedente dos tempos históricos. Foge das conclusões gerais, das hipóteses transcendentais, mas cai na infantilidade da descrição dos utensílios e dos índices cefálicos e tantos outros pormenores, meramente externos, que carecem de importância desliga-lhes de uma teoria vasta e pormenorizada.

Só um salto do espírito, nutrido de dados, poderá nos dar uma visão que nos levante por cima da micro-ideologia do especialista. Sondamos então no conjunto dos acontecimentos para descobrir neles uma direção, um ritmo e um propósito. E justamente ali onde nada descobre o analista, o sintetizador e o criador iluminam-se.

Ensaiemos, pois, explicações, não com fantasia de novelista, mas sim com uma intuição que se apóia nos dados da história e da ciência.

A raça que conviemos em chamar Atlântida prosperou e decaiu na América; depois de um extraordinário florescimento, depois de cumprir seu ciclo, terminar sua missão particular, entrou em silêncio e foi decaindo até ficar reduzida aos minguados Impérios asteca e inca, indignos totalmente da antiga e superior cultura. Ao decair os atlantes, a civilização intensa transladou-se a outros locais e trocou de estirpes; deslumbrou no Egito; alargou-se na Índia e em Grécia enxertando em raças novas. O ariano, mesclando-se com os dravídicos, produziu o Industão, e ao mesmo tempo, mediante outras mesclas, criou a cultura helênica. Na Grécia funda-se o desenvolvimento da civilização ocidental ou européia, a civilização branca, que ao expandir-se chegou até as praias esquecidas do Continente americano para consumar uma obra de recivilizar e repovoar. Temos então as quatro etapas e os quatro troncos: o negro, o índio, o mongol e o branco. Este último, depois de organizar-se na Europa, converteu-se em invasor do mundo, e acreditou-se chamado a preponderar o mesmo que acreditaram as raças anteriores, cada um em uma época de seu poderio. É claro que o predomínio do branco será também temporário, mas sua missão é diferente da de seus predecessores; sua missão é servir de ponte. O branco pôs ao mundo em situação de que todos os tipos e todas as culturas possam fundir-se. A civilização conquistada pelos brancos, organizada por nossa época, pôs as bases materiais e morais para a união de todos os homens em uma quinta raça universal, fruto das anteriores e superação de todo o passado.

A cultura do branco é emigrante; mas não foi a Europa em conjunto a encarregada de iniciar a reincorporação do mundo vermelho às modalidades da cultura pré-universal, representada, há séculos, pelo branco. A missão transcendental correspondeu aos dois mais audazes ramos da família européia; aos dois tipos humanos mais fortes e mais diferentes: o espanhol e o inglês.

* * *


Desde os primeiros tempos do descobrimento e da conquista, foram castelhanos e britânicos, ou latinos e saxões, para incluir por uma parte aos portugueses e por outra ao holandês, os que consumaram a tarefa de iniciar um novo período da História conquistando e povoando o hemisfério novo. Embora eles mesmos somente sentire-se colonizadores, transplantadores de cultura, na realidade estabeleciam as bases de uma etapa geral e definitiva de transformação. Os chamados latinos, possuidores de gênio e de arrojo, apoderaram-se das melhores regiões, das quais acreditaram mais ricas, e os ingleses, então, tiveram que se conformar com o que deixavam pessoas mais aptas que eles. Nem Espanha nem Portugal permitiam que a seus domínios se aproximasse o saxão, já não digo para guerrear, nem sequer para tomar parte no comércio. O predomínio latino foi indiscutível no começo. Ninguém suspeitou, nos tempos da bula papal que dividiu o Novo Mundo entre Portugal e Espanha, que uns séculos mais tarde já não seria o Novo Mundo português nem espanhol, mas sim inglês. Ninguém imaginou que os humildes colonos de Hudson e de Delaware, pacíficos e trabalhadores, apropriar-se-iam passo a passo das melhores e maiores extensões de terra, até formar a República que hoje constitui um dos maiores impérios da História.

A nossa época chegou a ser e continua sendo um conflito de latinidade contra saxões; conflito de instituições, de propósitos e de ideais. Crise de uma luta secular que se inicia com o desastre da Armada Invencível e agrava-se com a derrota de Trafalgar. Só que após o local do conflito começa a deslocar-se e translada-se ao Continente novo, onde teve ainda episódios fatais. As derrotas de Santiago, de Cuba e de Cavite e Manila são ecos distantes, mas lógicos, das catástrofes da Invencível e de Trafalgar. E o conflito está agora exposto totalmente no Novo Mundo. Na História, os séculos revistam ser como dias; nada tem de estranho que não acabemos ainda de sair da impressão da derrota. Atravessamos épocas de desalento, seguimos perdendo, não só em soberania geográfica, mas também em poderio moral. Longe de sentirmo-nos unidos frente ao desastre, a vontade nos dispersa em pequenos e vãos fins. A derrota trouxe-nos a confusão dos valores e dos conceitos; a diplomacia dos vencedores engana-nos depois de nos vencer; o comércio conquista-nos com suas pequenas vantagens.

Despojados da antiga grandeza, vangloriamo-nos de um patriotismo exclusivamente nacional, e nem sequer advertimos os perigos que ameaçam a nossa raça em conjunto. Negamo-nos uns aos outros. A derrota envileceu-nos a tal ponto, que, sem nos dar conta, servimos aos fins da política inimiga de debatê-nos em detalhes, de oferecer vantagens particulares a cada um de nossos irmãos, enquanto ao outro lhe sacrifica em interesses vitais. Não só nos derrotaram no combate, ideologicamente também vencem-nos. Perdeu-se a maior das batalhas o dia em que cada uma das repúblicas ibéricas lançou-se a fazer vida própria, vida desligada de seus irmãos, consertando tratados e recebendo benefícios falsos, sem atender aos interesses comuns da raça. Os criadores de nosso nacionalismo foram, sem sabê-lo, os melhores aliados do saxão, nosso rival na posse do Continente. O desdobramento de nossas vinte bandeiras da União Pan-americana de Washington deveríamos vê-lo como uma brincadeira de inimigos hábeis. Entretanto, vangloriamo-nos, cada um, de nosso humilde trapo, que diz ilusão vã, e nem sequer nos ruboriza o fato de nossa discórdia diante da forte união norte-americana. Não advertimos o contraste da unidade saxônia frente à anarquia e solidão dos escudos ibero-americanos. Mantemo-nos zelosamente independentes a respeito de nós mesmos; mas de uma ou de outra maneira nos submetemos ou nos aliamos com a União saxona. Nem sequer se pode obter a unidade nacional dos cinco povos centro-americanos, porque não quis nos dar sua vênia um estranho, e porque nos falta o patriotismo verdadeiro que sacrifique o presente ao futuro. Uma carência de pensamento criador e um excesso de afã crítico, que por certo tomamos emprestado de outras culturas, leva-nos a discussões estéreis, nas quais tão logo se nega como se afirma a comunidade de nossas aspirações; mas não advertimos que à hora de obrar. E em que pese a todas as dúvidas dos sábios ingleses, o inglês busca a aliança de seus irmãos da América e da Austrália, e então o ianque sente-se tão inglês como o inglês na Inglaterra.

Nós não seremos grandes enquanto o espanhol da América não se sinta tão espanhol como os filhos da Espanha. O qual não impede que sejamos distintos cada vez que seja necessário, mas sem nos apartar da mais alta missão comum. Assim é necessário que procedamos se tivermos que obter que a cultura ibérica acabe de dar todos seus frutos, se tivermos que impedir que na América triunfe sem oposição a cultura saxônia. Inútil é imaginar outras soluções. A civilização não se improvisa nem se trunca, nem pode fazer-se partir do papel de uma constituição política; deriva-se sempre de uma larga, de uma secular preparação e depuração de elementos que se transmitem e combinam-se do começo da história. Por isso resulta tão torpe fazer começar nosso patriotismo com o grito de independência do padre Hidalgo, ou com a conspiração de Quito; ou com as façanhas de Bolívar, pois se não o arraigamos em Cuauhtemoc e em Atahualpa não terá sustento, e ao mesmo tempo é necessário remontá-lo a sua fonte hispânica e educá-lo nos ensinos que deveríamos derivar das derrotas, que são também nossas, das derrotas da Invencível e de Trafalgar. Se nosso patriotismo não se identificar com as diversas etapas do velho conflito de latinos e saxões, jamais obteremos que ultrapasse os caracteres de um regionalismo sem fôlego universal e o veremos fatalmente degenerar em estreiteza e miopia de campanário e em inércia impotente de molusco que se apega a sua rocha.

Para não ter que renegar alguma vez da pátria mesma é necessário que vivamos conforme ao alto interesse da raça, mesmo que este não seja ainda o mais alto interesse da Humanidade. É claro que o coração só se conforma com um internacionalismo cabal; mas nas atuais circunstâncias do mundo, o internacionalismo só serviria para acabar de consumar o triunfo das nações mais fortes; serviria exclusivamente aos fins do inglês. Os mesmos russos, com duzentos milhões de sua população, tiveram que postergar seu internacionalismo teórico, para dedicar-se a apoiar nacionalidades oprimidas como a Índia e Egito. Ao mesmo tempo reforçaram seu próprio nacionalismo para defender-se de uma desintegração que só poderia favorecer aos grandes Estados imperialistas. Resultaria, pois, infantil que povos débeis como os nossos ficassem a renegar de tudo o que lhes é próprio, em nome de propósitos que não poderiam cristalizar na realidade. O estado atual da civilização nos impõe ainda o patriotismo como uma necessidade de defesa de interesses materiais e morais, mas é indispensável que esse patriotismo persiga finalidades vastas e transcendentais. Sua missão se truncou em certo sentido com a Independência, e agora é necessário devolvê-lo ao leito de seu destino histórico universal.

Na Europa decidiu-se a primeira etapa do profundo conflito e tocou-nos perder. Depois, assim que todas as vantagens estavam de nossa parte no Novo Mundo, já que a Espanha tinha dominado a América, a estupidez napoleônica foi causa de que a Louisiana se entregasse aos ingleses do outro lado do mar, aos ianques, com o que se decidiu em favor dos saxãos a sorte do Novo Mundo. O "gênio da guerra" não olhava além das miseráveis disputas de fronteiras entre os estados da Europa e não se deu conta de que a causa da latinidade, que ele pretendia representar, fracassou no mesmo dia da proclamação do Império só pelo fato de que os destinos comuns ficaram confiados a um incapaz. Por outra parte, o preconceito europeu impediu de ver que na América estava já exposto, com caracteres de universalidade, o conflito que Napoleão não pôde nem conceber em toda sua transcendência. A tolice napoleônica não pôde suspeitar que era no Novo Mundo onde se decidiria o destino das raças da Europa, e ao destruir da maneira mais inconsciente o poderio francês da América debilitou também aos espanhóis; traiu-nos, pôs a mercê do inimigo comum. Sem Napoleão não existiriam os Estados Unidos como império mundial, e a Louisiana, ainda francesa, teria que ser parte da Confederação Latino-americana. Trafalgar então ficasse burlado. Nada disto se pensou sequer, porque o destino da raça estava em mãos de um néscio; porque o cesarismo é o açoite da raça latina.

A traição de Napoleão aos destinos mundiais da França feriu também de morte ao Império espanhol da América nos instantes de sua maior debilidade. As pessoas de idioma inglês apoderam-se da Louisiana sem combater e reservando seu equipamento para a já fácil conquista do Texas e Califórnia. Sem a base do Mississipi, os ingleses, que se chamam deste modo ianques por uma simples riqueza de expressão, não teriam conseguido ser donos do Pacífico, não seriam hoje os amos do Continente, ficariam em uma espécie de Holanda transplantada à América, e o Novo Mundo seria espanhol e francês. Bonaparte o fez saxão.

Claro que não só as causas externas, os tratados, a guerra e a política resolvem o destino dos povos. Os napoleônicos não são mais que cabeçalho de vaidades e corrupções. A decadência dos costumes, a perda das liberdades públicas e a ignorância geral causam o efeito de paralisar a energia de toda uma raça em determinadas épocas.



Os espanhóis foram ao Novo Mundo com o brio que lhes sobrava depois do êxito da retomada. Os homens livres que se chamaram Cortez, Pizarro, Blanco e Belalcázar não eram césares nem lacaios, a não ser grandes capitães que ao ímpeto destrutivo unificaram o gênio criador. Após a vitória riscavam o plano das novas cidades e redigiam os estatutos de sua fundação. Mais tarde, na hora das azedas disputas com a Metrópole, sabiam devolver injúria por injúria, como o fez um dos Pizarros em um célebre julgamento. Todos eles sentiam-se iguais ante o rei, como se sentiu o Cid, como se sentiam os grandes escritores do século de ouro, como se sentam nas grandes épocas todos os homens livres.

Mas à medida que a conquista se consumava, toda a nova organização ficava em mãos de cortesãos e vassalos do monarca. Homens incapazes não apenas de conquistar como até de defender o que outros conquistaram com talento e arrojo. Palacianos degenerados, capazes de oprimir e humilhar ao nativo, mas submissos ao poder real, eles e seus amos não fizeram outra coisa que estragar a obra do gênio espanhol na América. A obra prodigiosa iniciada pelos férreos conquistadores e consumada pelos sábios e abnegados missionários ficou anulada. Uma série de monarcas estrangeiros, tão justamente pintados por Velásquez e Goya, em companhia de anões, bufões e cortesãos, consumaram o desastre da administração colonial. A mania de imitar ao Império romano (que tanto dano causou tanto na Espanha quanto na Itália e na França), o militarismo e o absolutismo trouxeram a decadência na mesma época em que nossos rivais, fortalecidos pela virtude, cresciam e alargavam-se em liberdade.

Junto com a fortaleza material desenvolveu-lhes o engenho prático, a intuição do êxito. Os antigos colonos de Nova Inglaterra e da Virgínia separaram-se da Inglaterra, mas só para crescer melhor e fazerem-se mais fortes. A separação política nunca foi entre eles obstáculo para que no assunto da comum missão étnica mantivessem-se unidos e de acordo. A emancipação, em vez de debilitar a grande raça, bifurcou-a, multiplicou-a, transbordou-a poderosa sobre o mundo; do núcleo imponente de um dos maiores Impérios que conheceram em todos os tempos. E já após, o que não conquista o inglês nas Ilhas, toma e guarda o inglês do novo Continente.

Em contrapartida, nós os espanhóis, pelo sangue, ou pela cultura, na hora de nossa emancipação começamos por renegar de nossas tradições; rompemos com o passado e não faltou quem renegasse o sangue dizendo que seria melhor que a conquista de nossas regiões tivessem-na consumado os ingleses. Palavras de traição que se desculpam pelo asco que engendra a tirania, e pela cegueira que traz a derrota. Mas perder por esta sorte o sentido histórico de uma raça equivale a um absurdo, é o mesmo que negar aos países fortes e sábios quando somos nós mesmos, não eles, os culpados da decadência.

De toda maneira, as prédicas contra o espanholismo e o inglesar a elas correlacionado, inglesar habilmente difundido pelos mesmos ingleses, perverteram a própria base dos nossos julgamentos: fizeram-nos esquecer que nas ofensas de Trafalgar também temos parte. A ingerência de oficiais ingleses nos Estados Maiores dos guerreiros da Independência acabaria por nos desonrar, se não fosse o fato que o velho sangue altivo revivia ante a injúria e castigava aos piratas de Albion2 cada vez que se aproximavam com o propósito de consumar um despojo. A rebeldia ancestral soube responder a tiros de canhão tanto em Buenos Aires quanto em Veracruz, em Havana ou em Campeche e Panamá cada vez que o corsário inglês, disfarçado de pirata para evitar as responsabilidades de um fracasso, atacava – crente que obteria, se vencesse, um cargo de honra na nobreza britânica.



Apesar desta firme coesão ante um inimigo invasor, nossa guerra de Independência viu-se minguada pelo provincianismo e pela ausência de planos transcendentais. A raça que sonhara com o império do mundo, os supostos descendentes da glória romana, caíram na pueril satisfação de criar pequenas nações e soberanias de principado, aspirados por almas que em cada cordilheira viam um muro e não uma cúspide. Glórias balcânicas sonharam nossos emancipadores, com a ilustre exceção de Bolívar, e Sucre e Petion o negro, e meia dúzia mais, no máximo. Mas os outros, obcecados pelo conceito local e enredados em uma confusa fraseologia pseudo-revolucionária, só se ocuparam em diminuir um conflito que pôde ter sido o princípio do despertar de um Continente. Dividir, despedaçar o sonho de um grande poderio latino, tal parecia ser o propósito de certos práticos ignorantes que colaboraram na Independência, e dentro desse movimento mereciam postos de honra; mas não souberam, não quiseram nem escutar as advertências geniais de Bolívar.

Claro que em todo processo social é preciso considerar as causas profundas, inevitáveis, que determinam um momento dado. Nossa geografia, por exemplo, era e continua um obstáculo à união; mas se tivermos que dominar esse obstáculo será necessário que antes ponhamos em ordem ao espírito, depurando as idéias e assinalando orientações precisas. Enquanto não consigamos corrigir os conceitos, não será possível que obremos sobre o meio físico em tal forma que o façamos servir a nosso propósito.

No México, por exemplo, fora de Mina, quase ninguém pensou nos interesses do Continente; pior até, o patriotismo vernáculo ensinou, durante um século, que derrotamos a Espanha graças ao valor indomável de nossos soldados, e quase nem se mencionam as Cortes de Cadiz, nem o levantamento contra Napoleão, que eletrizou à raça, nem as vitórias e martírios dos povos irmãos do Continente. Este pecado, comum a cada uma de nossas pátrias, é resultado de épocas em que a História se escreve para adular aos déspotas. Então a patriotada não se conforma em apresentar seus heróis como unidades de um movimento continental, e apresenta-os como autônomos, sem dar-se conta que ao obrar desta forma os diminui em vez de aumentá-los.

Explicam-se também estas aberrações porque o elemento indígena não se fundiu, não se fundiu ainda em sua totalidade, com o sangue espanhol; mas esta discórdia é mais aparente que real. Fale-se com mais exaltado indianista da conveniência de adaptarmo-nos à latinidade e não oporá o menor reparo; diga-lhe que nossa cultura é espanhola e em seguida formulará objeções. Subsiste o rastro do sangue vertido: rastro maldito que os séculos não apagam, mas que o perigo comum deve anular. E não há outro recurso. Os próprios índios puros estão espanholados, estão latinizados, como está latinizado o ambiente. Diga o que se queira, os vermelhos, os ilustres atlantes de quem vem o índio, dormiram faz milhares de anos para não despertar. Na História não há retorno, porque toda ela é transformação e novidade. Nenhuma raça volta; cada uma expõe sua missão, cumpre-a e se vai. Esta verdade rege-se mesmo nos tempos bíblicos que nos nossos, todos os historiadores antigos a formularam. Os dias dos brancos puros, os vencedores de hoje, estão tão contados como o estiveram os de seus antecessores. Ao cumprir seu destino de mecanizar o mundo, eles mesmos puseram, sem sabê-lo, as bases de um período novo, o período da fusão e a mescla de todos os povos. O índio não tem outra porta para o futuro que a porta da cultura moderna, nem outro caminho que o caminho já capinado da civilização latina. Também o branco terá que depor seu orgulho, e procurará progresso e redenção posterior na alma de seus irmãos das outras castas, confundir-se-á e aperfeiçoar-se-á em cada uma das variedades superiores da espécie, em cada uma das modalidades que tornam múltiplo a revelação e mais poderoso o gênio.

* * *


No processo de nossa missão étnica, a guerra de emancipação da Espanha significa uma crise perigosa. Não quero dizer com isto que a guerra não devia fazer-se nem que não devia triunfar. Em determinadas épocas o fim transcendente tem que ficar atrasado; a raça espera, em tanto que a pátria urge, e a pátria é o presente imediato e indispensável. Era impossível continuar dependendo de um cetro que de tropeço em tropeço e de maltrato em abafado abaixava-se até cair nas mãos sem honra de um Fernando VII. Se pôde ter tratado nas Cortes de Cadiz para organizar uma livre Federação Castelhana; não se podia responder à Monarquia a não ser abatendo-lhe seus enviados. Neste ponto a visão de Mina foi cabal: implantar a liberdade no Novo Mundo derrocar depois a Monarquia na Espanha. Já que a imbecilidade da época impediu que se cumprisse este genial intuito, procuremos ao menos tê-lo presente.

Reconheçamos que foi uma desgraça não proceder com a coesão que demonstraram os do Norte; a raça prodigiosa, a que estamos acostumados a encher de impropérios, só porque nos ganhou cada partida da luta secular. Ela triunfa porque aduna suas capacidades práticas com a visão clara de um grande destino. Conserva presente a intuição de uma missão histórica definida, em tanto que nos perdemos no labirinto de quimeras verbais. Parece que Deus mesmo conduz os passados dos saxões, em tanto que nos matamos pelo dogma ou nos proclamamos ateus. Como devem rir de nossos desplantes e vaidades latinas estes fortes construtores de impérios! Eles não têm na mente o lastro ciceroniano da fraseologia, nem no sangue os instintos contraditórios da mescla de raças diferentes; mas cometeram o pecado de destruir essas raças, em tanto que nós as assimilamos, e isto nos dá direitos novos e esperanças de uma missão sem precedente na História.

Daqui que os tropeços adversos não nos inclinem a claudicar; vagamente sentimos que têm que nos servir para descobrir nossa rota. Precisamente, nas diferenças encontram o caminho; se apenas imitamos, perderemos; se descobrirmos, se criarmos, triunfaremos. A vantagem de nossa tradição é que possui maior facilidade de simpatia com os estranhos. Isto implica que nossa civilização, com todos os seus defeitos, pode ser a escolhida para assimilar e converter a um novo tipo a todos os homens. Nela se prepara desta forma a trama, o múltiplo e rico plasma da Humanidade futura. Começa a advertir-se este mandato da História nessa abundância de amor que permitiu aos espanhóis criar uma raça nova com o índio e com o negro; disseminando a estirpe branca através do soldado que engendrava família indígena e a cultura do Ocidente por meio da doutrina e o exemplo dos missionários deixaram o índio em condições de gerar na nova etapa, a etapa do mundo Uno. A colonização espanhola criou mestiçagem; isto assinala seu caráter, fixa sua responsabilidade e define seu futuro. O inglês continuou cruzando-se só com o branco, e exterminou ao indígena; continua exterminando na surda luta econômica, mais eficaz que a conquista armada. Isto prova sua limitação e é o indício de sua decadência. Equivale, em grande, aos matrimônios incestuosos dos Faraós, que minaram a virtude daquela raça, e contradiz o fim ulterior da História, que é obter a fusão dos povos e das culturas. Fazer um mundo inglês; exterminar aos vermelhos, para que em toda a América se renove o norte da Europa, feito de brancos puros, não é mais que repetir o processo vitorioso de uma raça vencedora. Já isto fizeram os vermelhos; têm-no feito ou o tentaram todas as raças fortes e homogêneas; mas isso não resolve o problema humano; para um objetivo tão minguado não ficou em reserva cinco mil anos a América. O objeto do Continente novo e antigo é muito mais importante. Sua predestinação obedece ao intuito de constituir o berço de uma quinta raça em que se fundirão todos os povos, para substituir às quatro que isoladamente vieram forjando a História. No chão da América achará término a dispersão, ali se consumará a unidade pelo triunfo do amor fecundo, e a superação de todas as estirpes.

E engendrar-se-á de tal forma o tipo síntese que tem que juntar os tesouros da História, para dar expressão ao desejo total do mundo.

Os povos chamados latinos, por ter sido mais fiéis a sua missão divina da América, são os chamados a consumá-la. E tal fidelidade ao oculto intuito é a garantia de nosso triunfo.

No mesmo período caótico da Independência, que tantas censuras merece, advertem-se, entretanto, vislumbres desse afã de universalidade que já anuncia o desejo de fundir o humano em um tipo universal e sintético. Certamente, Bolívar, em parte porque se deu conta do perigo em que caíamos, repartidos em nacionalidades isoladas, e também por seu dom de profecia, formulou aquele plano de federação ibero-americana que certos néscios ainda hoje discutem.

E se outros caudilhos da independência latino-americana, em geral, não tiveram um conceito claro do futuro, se for verdade que, levados do provincianismo, que hoje chamamos patriotismo, ou da limitação, que hoje se intitula soberania nacional, cada um se preocupou não mais que do destino imediato de seu próprio povo, também é surpreendente observar que quase todos se sentiram animados de um sentimento humano universal que coincide com o destino que hoje atribuímos ao Continente ibero-americano. Hidalgo, Morelos, Bolívar, Petion o haitiano, os argentinos em Tucumán, Sucre, todos preocuparam-se em libertar aos escravos, de declarar a igualdade de todos os homens por direito natural; a igualdade social e cívica dos brancos, negros e índios. Em um instante de crise histórica, formularam a missão transcendental atribuída àquela zona do globo: missão de fundir étnica e espiritualmente às pessoas.

De tal forma se fez no bando latino o que ninguém nem pensou fazer no Continente saxão. Ali continuou imperando a tese contrária, o propósito confessado ou tácito de limpar a terra de índios, mongóis e negros, para maior glorificação e ventura do branco. Na realidade, desde aquela época ficaram bem definidos os sistemas que, perdurando até a data, colocam em campos sociológicos opostos às duas civilizações: a que quer o predomínio exclusivo do branco, e a que está formando uma raça nova, raça de síntese, que aspira a englobar e expressar todo o humano em maneiras de constante superação. Se fosse necessário aduzir provas, bastaria observar a mescla crescente e espontânea que em todo o Continente latino se opera entre todos os povos, e pela outra parte, a linha inflexível que separa o negro do branco nos Estados Unidos, e as leis, cada vez mais rigorosas, para a exclusão dos japoneses e chineses de Califórnia.



Os chamados latinos – talvez porque desde o início não são propriamente latinos, mas um conglomerado de tipos e raças – persistem em não levar muito em conta o fator étnico para suas relações sexuais. Sejam quais forem as opiniões que a este respeito se emitam, e até a repugnância que o preconceito nos causa, o certo é que se produziu e se segue consumando a mescla de sangues. E é nesta fusão de estirpes que devemos procurar o traço fundamental da idiossincrasia ibero-americana. Ocorrerá algumas vezes, e ocorreu já, com efeito, que a concorrência econômica nos obrigue a fechar nossas portas, tal como o faz o saxão, a uma desmedida entrada de orientais. Mas ao preceder desta forma, nós não obedecemos mais que a razões de ordem econômica; reconhecemos que não é justo que povos como o chinês, que sob o santo conselho da moral confucionista multiplicam-se como ratos, devam degradar a condição humana, justamente nos instantes em que começamos a compreender que a inteligência serve para refrear e regular baixos instintos zoológicos, contrários a um conceito verdadeiramente religioso da vida. Se os rechaçamos é porque o homem, à medida que progride, multiplica-se menos e sente o horror do número, pelo mesmo que chegou a estimar a qualidade. Nos Estados Unidos rechaçam aos asiáticos pelo mesmo temor do transbordamento físico próprio das espécies superiores; mas também fazem-no porque não lhes simpatiza o asiático, porque o desdenham e seriam incapazes de cruzar-se com ele. As senhoritas de São Francisco negaram-se a dançar com oficiais da marinha japonesa, que são homens tão asseados, inteligentes e, a sua maneira, tão belos, como os de qualquer outra marinha do mundo. Entretanto, elas jamais compreenderão que um japonês possa ser belo. Tampouco é fácil convencer ao saxão de que se o amarelo e o negro têm seu vapor, também o branco o tem para o estranho, embora não nos demos conta disso. Na América Latina existe, mas imensamente mais atenuada, a repulsão de um sangue que se encontra com outro sangue estranho. Ali há mil pontes para a fusão sincera e cordial de todas as raças. O contraste entre o emparedamento étnico dos do Norte e a simpatia muito mais fácil dos do Sul, tal é o dado mais importante e ao mesmo tempo o mais favorável para nós, se refletirmos, mesmo que levianamente, no futuro. Pois ver-se-á em seguida que somos nós os de amanhã, tanto quanto eles são os de ontem. Os ianques acabarão de formar o último grande império de uma só raça: o império final do poderio branco. Enquanto isso, nós seguiremos padecendo no vasto caos de uma estirpe em formação, contagiados da levedura de todos os tipos, mas certos do avatar de uma estirpe melhor. Na América espanhola já não repetirá a Natureza um de seus ensaios parciais, já não será a raça de uma só cor, de traços particulares, a que nesta vez sairá da esquecida Atlântida; não será a futura nenhuma quinta, nenhuma sexta raça, destinada a prevalecer sobre suas antecessoras; o que dali sairá é a raça definitiva, a raça síntese ou raça integral, feita com o gênio e com a sangue de todos os povos e, pelo mesmo, mais capaz de verdadeira fraternidade e de visão realmente universal.

Para nos aproximar deste propósito sublime é preciso criar, por assim dizer, a malha celular que tem que servir de carne e sustentação à nova aparição biológica. E a fim de criar esse tecido protéico, maleável, profundo, etéreo e essencial, será necessário que a raça ibero-americana entregue-se a sua missão e abrace-a como um misticismo.

Possivelmente não haja nada inútil nos processos da História; nosso próprio isolamento material e o engano de criar nações nos serviu, junto com a mescla original do sangue, para não cair na limitação saxônia de constituir castas de raça pura. A História demonstra que estas seleções prolongadas e rigorosas dão tipos de refinamento físico, curiosos, mas sem vigor; belos com uma estranha beleza, como a da casta brahmânica milenar, mas ao final decadentes. Jamais se viu que avantajem aos outros homens nem em talento, nem em bondade, nem em vigor. O caminho que nós iniciamos é muito mais atrevido, rompe os preconceitos antigos, e quase não se explicaria se não se fundasse em um tipo de clamor que chega de uma lonjura remota, que não é a do passado, mas – isso sim – a misteriosa lonjura de onde vêm os presságios do futuro.

Se a América Latina fosse apenas outra Espanha, como os Estados Unidos são outra Inglaterra, então a velha luta entre as duas estirpes não faria outra coisa que repetir seus episódios na terra mais vasta, e um dos dois rivais acabaria por impor-se e chegaria a prevalecer. Mas não é esta a lei natural dos choques nem na mecânica nem na vida. A oposição e a luta, particularmente quando elas se transladam ao campo do espírito, servem para definir melhor os contrários para levar a cada um à cúspide de seu destino e, ao final, para somá-los em uma comum e vitoriosa superação.

A missão do saxão cumpriu-se mais cedo que a nossa porque era mais imediata e já conhecida na História; para cumpri-la não havia mais que seguir o exemplo de outros povos vitoriosos. Meros continuadores da Europa, na região do Continente que eles ocuparam, os valores do branco chegaram ao zênite. Eis aí por que a história da América do Norte é como um ininterrupto e vigoroso allegro de marcha triunfal.

Quão são distintos os sons da formação ibero-americana! Assemelham ao profundo scherzo de uma sinfonia infinita e profunda: vozes que trazem acentos da Atlântida; abismos contidos na pupila do homem vermelho, que soube tanto faz tantos milhares de anos e agora parece que tudo esqueceu. Sua alma parece o velho cenotáfio maia de águas verdes, profundas, imóveis, no centro do bosque há tantos séculos que já nem sua lenda perdura. E se remove esta quietude de infinito com a gota que em nosso sangue põe o negro, ávido de sorte sensual, ébrio de danças e desenfreadas luxúrias. Aparece também o mongol com o mistério de seu olho oblíquo, que olha todas as coisas de um ângulo estranho, que descobre não sei quais pregas e dimensões novas. Intervém deste modo a mente clara do branco, parecida com sua tez e a seu sonho. Revelam-se estrias judaicas que se esconderam no sangue castelhano dos dias da cruel expulsão; melancolias do árabe, que são um sotaque da doentia sensualidade muçulmana... Quem não tem algo de tudo isto ou não deseja tudo ter? Eis aí ao hindu, que também chegará, que chegou já pelo espírito, e embora seja o último em vir parece o mais próximo parente. Tantos que vieram e outros mais que virão, e assim nos tem que fazer um coração sensível e largo que tudo abrange e contém, e comove-se; mas cheio de vigor, impõe leis novas ao mundo. E pressentimos como outra cabeça que disporá de todos os ângulos para cumprir o prodígio de superar à esfera.





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