Josefo, a retórica e as origens da biografia”



Baixar 38.56 Kb.
Encontro19.07.2016
Tamanho38.56 Kb.


Núcleo de Estudos Clássicos - NEC

Universidade de Brasília

IHD - Dpto. de História

Brasília -DF-

70910-900

Josefo, a retórica e as origens da biografia”

“Pecado, castigo e história: conexões teóricas e usos pósteros de Josefo”

SBEC – CONGRESSO NACIONAL, 5-10 de agosto 2001

Vivianne Scheiner

História / 4º período


Prof. Vicente Dobroruka

Resumo / abstract (máximo 15 linhas)

O estudo sobre a origem e o desenvolvimento da autobiografia constitui um dos métodos para a compreensão do significado e da aplicação desse gênero literário nas diversas sociedades ao longo da história humana. De acordo com Georg Misch, o termo surge como um gênero definido no século XVIII e refere-se a qualquer descrição (graphia) da vida (bios) de um indivíduo escrita por ele mesmo (auto-). A aplicação dessa definição sobre as obras de autores na Antigüidade, contudo, deve respeitar os limites impostos pela concepção do ato de compor uma obra biográfica naquela época. Flávio Josefo constrói sua autobiografia, única que restou completa até nossos dias, relacionando-a com alguns acontecimentos de sua vida (incluindo a guerra da Judéia no século I d.C.) e fazendo algumas reflexões que pudessem assegurar as qualidades morais do autor. Nesse sentido, a produção de Josefo marca uma espécie de defesa pessoal sobre algumas acusações remetidas ao autor após vinte anos de sua carreira militar durante a revolta dos judeus contra as forças romanas.

Josefo, a retórica e as origens da biografia (texto final, máximo 8 páginas)
A biografia e a autobiografia tornaram-se objetos de estudos populares entre os historiadores do século XX1. O tratamento dado em tempos anteriores à produção biográfica estava ligado principalmente aos historiadores marxistas, os quais direcionavam suas análises para interpretações ligadas à vida social. Com a colaboração da psicologia e dos estudos sobre o subconsciente, os aspectos individuais passariam a ser considerados mais relevantes. A biografia passaria, então, a ser considerada uma forma de expressão individual que estaria ligada à composição da personalidade e das qualidades humanas.

Os diferentes significados assumidos por um termo ao longo do tempo limitam as diversas análises que podemos ter sobre um dado objeto. Isso quer dizer que a variação do significado e da definição de um conceito dado pelos sujeitos das análises, como biografia e autobiografia, variam as interpretações e as relações feitas sobre o objeto.

O termo “biografia”, para Arnaldo Momigliano, é utilizado para designar o relato da vida de um homem desde o nascimento até a morte. No entanto, esse significado é ainda discutível em seu próprio texto, uma vez que qualquer indivíduo ao compor qualquer relato de caráter histórico não o faz sem selecionar certos acontecimentos2. O que nos importa da primeira definição é o seu significado geral e moderno; grande parte da discussão deste paper baseia-se nas idéias de Momigliano.

Nesse sentido, a concepção de Momigliano de “biografia” não possui relação com os autores da Antigüidade. Da mesma forma, a biografia ao ser considerada como história na atualidade diferencia-se da concepção antiga, uma vez que para os antigos não havia esse tipo de correspondência3.

O estudo das origens e do desenvolvimento do gênero autobiográfico possibilita a conceituação do termo “biografia” em diversos períodos da história humana. De acordo com Georg Misch, “autobiografia” surge como gênero autônomo no séc.XVIII e refere-se a qualquer descrição (graphia) da vida (bios) de um indivíduo escrita por ele mesmo (auto-)4. Essa concepção, contudo, não existe na Antigüidade5.

A obra de Flávio Josefo intitulada Autobiografia, ao relacionar-se com os estudos das origens e do desenvolvimento da biografia até o séc.I d.C., pode ser considerada um comentário adicional do autor sobre a guerra dos judeus do ano 67 d.C.. Não há evidência de que o título da obra tenha sido utilizado por Josefo6, mesmo porque o termo “autobiografia” não era conhecido pelos autores antigos. Ainda assim, nem Bios, nem Vita – títulos de alguns manuscritos – foram utilizados pelo autor.

Momigliano considera que as origens da biografia e o surgimento do termo –bios (vida) ou bioi (vidas) – datam do séc.V a.C.. A noção precisa, contudo, do que seria “biografia” na Antigüidade se consolidaria somente no final do período helenístico e início do romano7.

Neste sentido, Cornélio Nepos e Nicolau de Damasco aparecem como representantes das primeiras possibilidades biográficas helenísticas. Como composição autobiográfica, no sentido adotado por Misch, temos a de Flávio Josefo. Essa obra não foi a primeira do tipo a ser realizada, mas é a expressão autobiográfica mais antiga que chegou completa até os dias atuais.

Referindo-se às origens da biografia, Arnaldo Momigliano diz que qualquer obra escrita em prosa ou em verso, que trate de aspectos da vida de um indivíduo, pode ser um antecedente da “biografia” e da “autobiografia” na Antigüidade. Sendo assim, as primeiras contribuições surgem com a poesia épica e lírica, as anedotas, as coleções de escritos, as cartas individuais ou coletivas, os discursos apologéticos dos gregos e as práticas sociais gregas e não-gregas, como orações e músicas funerárias compostas em honra aos mortos.

A preocupação pela ancestralidade entre a aristocracia espartana do séc.V a.C. possibilitou as produções genealógicas, que retratavam gerações de três a quatro séculos anteriores. Essas genealogias, no entanto, não produziram um interesse direto dos gregos pela biografia. Tem-se ainda o relato da vida de heróis do passado em poemas e que se relacionam diretamente com as origens da biografia, e são considerados como um tipo de “biografia mítica”.

Livros sobre viagens e explorações geográficas realizadas por um determinado indivíduo e escrito pelo próprio são também predecessores da autobiografia. Contatos com povos do Oriente, principalmente os persas, influenciaram muito aquilo que viria a ser a autobiografia para gregos e judeus. Durante o séc.V a.C. a história é entendida como o relato de acontecimentos políticos e militares importantes para a coletividade. Esse relato, por sua vez, dava ênfase às explorações individuais principalmente durante a época dos tiranos atenienses. Esse seria um aspecto que diferenciaria a história da biografia.

No séc.IV a.C., outras evidências aparecem sobre o desenvolvimento da biografia. Entretanto, essas evidências não possuem necessariamente uma ligação com os aspectos do séc.V.. As características pessoais dos mortos como, por exemplo, idade, lugar de nascimento, nome do pai e causas da morte, surgem em monumentos funerários.

Os políticos do séc.IV a.C. encontram-se em nova posição de poder; com os socráticos, a discussão sobre realidade e imaginação no relato da vida de um alguém vem aliada ao estudo do indivíduo e da palavra. Dessa forma, tanto a filosofia quanto a retórica acrescentariam novos elementos aos experimentos biográficos enfatizando o autocontrole, a educação e a performance do ser humano. Finalmente, a biografia durante o mesmo século trataria também da profissão do homem, da sua comunidade política, de sua escola, tornando-o retrato público e não apenas privado.

A biografia preocupava-se em revelar a formação educacional, os relacionamentos amorosos, o caráter de cada pessoa. A filosofia socrática e a retórica de Isócrates permitiriam o ingresso da ficção nas produções biográficas e autobiográficas. Os discursos apologéticos inspirariam o que mais tarde tornar-se-ia as próprias defesas autobiográficas; neles os autores relatavam algum episódio de suas vidas, analisando-o e comentando-o; eram escritos normalmente para seus contemporâneos e continham uma espécie de defesa em relação a alguém ou a si próprio. Era um verdadeiro exame sobre acontecimentos do passado.

O séc.IV a.C. é marcado por novas mudanças na atmosfera intelectual de Atenas. O mundo conhecido a cada dia aumentava por causa das conquistas de Alexandre e de seus sucessores. Aristóteles traça uma diferença clara entre biografia e história: a poesia é mais útil que a história porque tende a revelar verdades gerais, enquanto que a história revela fatos particulares.

Aristóteles e seus discípulos nunca escreveram biografias, o que não os exclui do fenômeno biográfico. Eles utilizaram-se de anedotas para ilustrar virtudes e vícios individuais, para falar das escolas filosóficas, para criticar os modos de vida, os pensamentos e os estilos dos indivíduos. A coleções de anedotas, as quais Cornélio Nepos também compõe, seriam as principais expressões literárias dos períodos helenístico e latino, e ainda que não fossem consideradas a própria bios eram contribuição para tal.

O encômio criado por Isócrates continuou popular no período helenístico e proporcionou a cronologia nos relatos históricos e contribuiu, por sua vez, para as produções biográficas. Nicolau de Damasco compôs uma autobiografia e uma biografia de Augusto. Os fragmentos de seu trabalho chegaram aos nossos dias e revelaram influências da forma aristotélica de compor um texto. A biografia tornar-se-ia gênero prestigiado durante o Império, e seria considerada uma forma eficaz para relatar a vida dos césares e passaria a ser utilizada também como veículo para discussões políticas e filosóficas8.

Durante o séc.I d.C., um judeu chamado Flávio Josefo compôs, além de outras três obras, uma autobiografia. Cronologicamente essa é a sua última obra. Ela foi mencionada pela primeira vez nas Antigüidades judaicas, do mesmo autor: “Talvez não seria considerado errado, se eu adicionasse um breve comentário sobre minha família e carreira quando alguém refutar ou corroborar o que eu digo”9.

Uma vez que o título Autobiografia não foi colocado por seu autor, até mesmo porque não existia a concepção do termo “autobiografia” para os autores antigos, os estudiosos dizem que a Autobiografia pode ser considerada um apêndice de outra obra de Flávio Josefo, as Antigüidades. O título é uma colaboração de outros leitores de Josefo, que consideraram só o relato dos aspectos da vida do autor e não se importaram com as outras considerações a respeito da guerra dos judeus no texto10.

Flávio Josefo era descendente de sacerdotes pelo lado de sua família paterno e da dinastia asmonéia pelo materno; recebeu durante a infância e adolescência uma educação baseada na tradição judaica e, na fase adulta, manteve contato com o mundo helenístico, vindo a conhecer o grego e os textos da tradição clássica. Esse aprendizado lhe facilitou os primeiros contatos com as autoridades romanas11.

Em Jotapata, Josefo participa da revolta dos judeus contra os romanos. Deixa seu posto de general logo que percebe que os judeus não teriam chance frente aos romanos. Torna-se então prisioneiro e clama ao seu povo que parem com a resistência e se entreguem. A partir desse momento Josefo é considerado traidor de seu povo. Sob o domínio romano, é levado como prisioneiro a Roma. Finalmente, libertado por Vespasiano, quando esse se tornou imperador romano, Josefo pôde iniciar seus trabalhos historiográficos12.

Para Georg Misch, a autobiografia de Flávio Josefo é uma mistura de história militar, memórias políticas, apologia moral ou religiosa e auto-recomendação. Foi a primeira autobiografia realizada por um judeu influenciado pela cultura greco-romana13. Essa obra foi feita em resposta às críticas ocorridas, cerca de vinte anos após as a guerra dos judeus, por Justus de Tibérias, outro judeu participante da revolta, quanto à carreira militar14.

De acordo com Tessa Rajak, a grande razão para que Josefo compusesse a Autobiografia não foi a acusação que Justo fez a Josefo, quando diz que ele seria o grande responsável pela revolta da cidade de Tibérias; mas foi a realização de um breve comentário geral sobre a guerra dos judeus por Justus. Isso fica claro na seguinte passagem de Josefo: “Nesse momento de minha narrativa, procuro endereçar algumas palavras a Justus, este que fez comentários sobre esses incidentes para outros que pensavam ser a história”15.

De acordo com Misch, bios no período helenístico significa “conduta de vida”, “maneira de viver” que reflete o caráter do homem16. Uma vez que a Autobiografia de Josefo fala da “conduta de vida” do próprio autor durante a guerra dos judeus, pode-se considerá-la como composição biográfica.

Utilizando-se do sentido moderno da palavra “biografia” dado por Momigliano – relato da vida de um indivíduo do nascimento até a morte – a obra de Josefo não pode ser considerada como genuína expressão biográfica porque trata somente de um episódio da vida do autor17.

Para Tessa Rajak, a Autobiografia não deve ser definida somente pelos limites do título da obra. Também não deve ser entendida apenas como bios no sentido antigo da palavra, que é um comentário das qualidades morais de um homem. Mais do que isso, ela define a obra de Josefo como uma refutação das acusações que o autor da obra sofreu18.



Além das relações que podem ser feitas da obra de Flávio com as definições dos diferentes autores, é importante lembrar que o próprio autor da obra não intitulou o seu trabalho e muito menos o relacionou com biografias e autobiografias tais como as conhecemos na Antigüidade.

1 Cf. Arnaldo Momigliano. The Development of Greek Biography. Massachusetts: Harvard University Press, 1971. P.5.

2 Idem, p.11.

3 Momigliano, op.cit. p.6.

4 Georg Misch. A History of Autobiography in Antiquity. London: Routledge & Kegan Paul, 1950. V.I. P.5.

5 Momigliano, op.cit. p.14.

6 Tessa Rajak. Josephus. London: Duckworth, 1983. P.13.

7 Momigliano, op.cit. pp.12-14.

8 Idem, pp.9-99.

9 Cf. a introdução de Thackeray à Autobiografia, em edição da Loeb Classical Library (Harvard:1961, p.xiii)

10 Rajak, op.cit. p.13.

11 Josefo. Autobiografia, passim.

12 Michael Grant. The Ancient Historians. New York: Charles Scribner´s Sons, 1970. Pp.248-255.

13 Misch, op.cit. p.315

14 Rajak, op.cit. p.12-14.

15 Idem, pp.152-154.

16 Misch, op.cit. p.62

17 Idem, p.315.

18 Rajak, op.cit. pp.12-13.




Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal