Jovens e velhos saem para brincarem num feriado de sol. Milton, "L’Allegro"



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Dias Mágicos


Jovens e velhos saem para brincarem num feriado de sol.



— MILTON, “L’Allegro”

EMUITO ESTIMULANTE sentir que somos o motivo especial de uma celebração, assim como uma criança pode sentir no dia do seu aniversário. Esses momentos particularmente significativos devem ser tratados com real carinho, uma vez que nos dão grande felicidade no instante em que ocorrem e também sustentam nossa esperança no futuro. Quanto mais insignificantes e inseguros nos sentimos a respeito de nosso lugar no mundo, mais precisamos da confirmação da nossa importância — se possível por parte de todo o universo ou, pelo menos, daquelas pessoas que mais significam para nós.


As crianças, mais do que ninguém, precisam dessa experiência, como reconhecemos ao celebrar festas infantis, tanto as individuais, como os aniversários, quanto as outras, em que todas as crianças são levadas a se sentir especiais, como o Natal. Nessas ocasiões, as crianças colocam-se como o centro de atenção afetuosa e são levadas a se sentir importantes; os presentes que recebem provam-lhe que são amadas e também que são pessoas de valor. Se essas ocasiões são celebradas com verdadeiro entusiasmo, o brilho desses dias pode espalhar-se por toda a vida. A repetição regular desses eventos é a garantia que a criança tem de que continua sendo importante; os feriados pontuam o ano da criança e com ele a sua vida; eles são os pontos altos do ano para ela, o que demonstra que é mais fácil organizar nossa vida em torno de eventos felizes.
Não sabemos com exatidão o que simbolicamente expressavam os primeiros feriados, mas há pouca dúvida de que foram celebrações da vida e daquilo que a sustenta; assim, a refeição abundante e festiva ainda é o centro de qualquer feriado e, com freqüência, simboliza o seu espírito. Deve-se fazer aqui uma distinção entre feriados religiosos como dias de abstinência e contrição — que para os fiéis são práticas espirituais importantes — e as ocasiões mais seculares vividas como feriados pelas crianças e quase sempre por toda a comunidade, festivais universais, quando mesmo uma pessoa profundamente religiosa como Milton sentiu que seria apropriado, tanto para os jovens quanto para os mais velhos, “sair para brincar”.
Os primeiros feriados organizados e celebrados regularmente eram evocações
rituais para garantirem a fertilidade e, com ela, o nascimento e o renascimento das plan

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tas, dos animais e do homem. Outros eram ritos de passagem para assegurarem, solenizarem e glorificarem os estágios de maturação do homem ou das estações do ano. Na antiga tradição judaico-cristã, os festivais religiosos eram manifestações de alegria pública. Na realidade, a palavra hebraica para feriado ou festival, cbag, deriva do radical cbug, que significa dançar em círculo, e esta é a maneira como o judeu hasídico celebra ainda as festa religiosa; a palavra hebraica para Páscoa significa literalmente “a festa dos pulos”. Hoje em dia, os nossos feriados mais importantes, sejam eles religiosos ou patrióticos, solenizam e celebram o nascimento: o do Cristo menino, a Ressurreição — o renascimento — do Senhor; e o nascimento das nações, tal como o aniversário da criança celebra o seu próprio nascimento. (A decisão da igreja cristã de comemorar a data desconhecida do nascimento de Cristo no período do solstício de inverno indica a relação simbólica e muito próxima entre o nascimento do Salvador e o reinício do ciclo de vida anual da natureza no mundo ocidental.) A Páscoa também celebra não apenas a liberdade da escravidão, mas também o nascimento da nação judaica. Levou à criação dos Dez Mandamentos, base da lei judaica. A Última Ceia, que foi a refeição de Páscoa, deu início à seqüência de eventos que levou à Redenção e à Ressurreição no Domingo de Páscoa, dando oportunidade para uma “nova vida”.
Todas essas festas são eventos mágicos, pois o que poderia ser mais mágico do que o nascimento de uma criança ou renascimento do mundo? O que contém maior magia para a humanidade do que a promessa de uma oportunidade para recomeçar? Originalmente, a celebração desses feriados incluía vestir-se com roupas de significado ritual ou mágico; a nova decoração da Páscoa e os chapéus engraçacados que as pessoas colocam sobre suas cabeças nas festas de aniversário ou de Ano Nvo são os últimos vestígios dessa prática. Os presentes que uma criança recebe no Natal e no seu aniversário são símbolos dos presentes dados pelos três reis magos; e os fogos de artifício são símbolos de um novo sol que trará a luz e a alegria da liberdade e uma nova vida, uma esperança que as luzes da árvore de Natal também refletem.
Muito antes de as luzes da árvore de Natal terem se tornado parte da celebração desse feriado no norte da Europa, fogueiras enormes eram acesas nos templos pagãos, nos topos das montanhas, no dia do solstício de inverno, para simbólica ou magica- mente estimularem o sol a aumentar a duração dos dias e de novo aquecer a terra, O ato de trazer a acha de Natal e acendê-la é um vestígio desse costume, reduzido a um único grande pedaço de lenha. Ainda mais antigo do que o hábito de acender a árvore de Natal é o costume judeu de acender velas durante as festas de Hannukkab, que celebram um acontecimento mágico: o fato de que a lâmpada no Templo de Jerusalém continuou a queimar, embora o seu óleo tivesse terminado. E, assim, como freqüentemente acontece, o ritual mágico (consistindo nesse caso em acender árvores e velas) continua, enquanto que, com a passagem do tempo, diferentes significados são a ele incorporados. Qualquer que tenha sido no passado o significado dos rituais que vieram a compor a nossa celebração do Natal, eles simbolizam hoje em dia o maravilhoso nascimento de uma criança que criou uma nova era — a nossa própria — e deu novo significado a toda a vida humana.
Os feriados infantis têm uma característica singular: as distinções entre papéis e autoridades são obliteradas ou revertidas. Uma criança é rei no seu aniversário; ela pode exigir coisas dos adultos ou mesmo fazê-los sentir medo dela no Dia das Bruxas; e
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pode fazê-los de bobos no Primeiro de Abril. Essas reversões de status e conotações mágicas são razões importantes para que os feriados sejam especialmente significativos e prazerosos para as crianças. Uma criança é profundamente prejudicada, se não pode desfrutar por completo dos feriados especiais ou beneficiar-se com aquilo que simbolizam; esses significados simbólicos são permanentemente construídos em nossa experiência inconsciente do mundo. Assim, embora os feriados estejam aí para serem festejados por todos nós, a maneira como foram celebrados quando éramos crianças pode ter, e de fato têm, conseqüências mais duradouras ao longo de nossas vidas.


“Os feriados são os aniversários secretos do coração”, lembra-nos o poeta Longfellow falando como um adulto para adultos. E, quando somos jovens, esses dias anualmente recorrentes eram feliz e ansiosamente esperados, os seus prazeres festivos pressentidos por muitas semanas, senão por meses, ou até mesmo pelo ano inteiro. Os feriados pontuavam as nossas vidas da maneira mais agradável e davam um significado posi’ tivo aos dias subseqüentes. Como adultos já maduros, freqüentemente tomamos a decisão de que já não devemos ceder a essa visão infantil do que faz a vida digna de ser vivida e muitos de nós passamos a esconder nossos sentimentos sobre os feriados, não só das outras pessoas, mas de nós mesmos também. O seu significado, no entanto, permanece profundamente ancorado em nosso inconsciente, razão pela qual Longfellow chamou-os de aniversários secretos do coração. Nossos sentimentos a respeito desses dias especiais internalizam-se, assim, como parte da nossa oculta vida interior.


O SIGNIFICADO SIMBÓLICO DOS FERIADOS


A maneira de celebrarmos muitos feriados mudou bastante. Por exemplo, o Natal, de uma festa essencialmente religiosa, com oferta de presentes apenas para as crianças, transformou-se durante o último século em uma festa cada vez mais familiar, em que todas as pessoas participam igualmente — hoje em dia todos dão presentes a todos. Certamente não há nada de errado com qualquer tipo de festa familiar; na realidade, seria mais benéfico se as famílias celebrassem esses feriados com mais freqüência. As gerações mais velhas ainda se lembram de que, durante a sua infância, quase todos os domingos era um feriado familiar — uma ocasião para reunir o clã; isso podia significar umas 20 ou mais pessoas de uma vez, já que as famílias costumavam ser mais numerosas naquela época e, também, porque os parentes outrora viviam fisica, emocional e social- mente mais próximos uns dos Outros. Mesmo as eventuais discussões acrescentavam excitação ao divertimento e eram, em pouco tempo, amigavelmente resolvidas, à medida que todos se divertiam muito em torno de uma .farta refeição. Os adultos entretinham-se uns com os outros, as crianças brincavam juntas e os problemas familiares podiam ser discutidos e resolvidos.
Entre as lembranças mais felizes da minha infância estão as ocasiões em que eu e os primos da mesma idade — éramos chamados de “os pequenos” — brincávamos debaixo da enorme mesa ao redor da qual se reuniam 12 ou mais membros adultos da família, freqüentemente se esquecendo de que nós estávamos literalmente sob seus pés. Brincávamos juntos no escurinho aconchegante, escondidos pela enorme toalha que pendia quase até o chão; enquanto brincávamos, ouvíamos a fala e as discussões daquelesa quem chamávamos “os grandes”. Nós e eles, cada grupo no seu nível, passávamos assim ótimos momentos todos os domingos.
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O mais próximo que muitos de nossos filhos e nossas famílias podem chegar desse tipo de experiência é o Dia de Ação de Graças. Para a criança pequena, esse dia significa, antes de mais nada e principalmente, o jantar com peru e todos os seus acompanhamentos e, em segundo lugar, a reunião da família para desfrutar de uma ocasião muito especial. Os professores e os pais podem explicar a história do feriado, mas o que ressalta na cabeça da criança — e na dos adultos também — é a refeição generosa e o espírito das boas amizades. A nível consciente, esses feriados são importantes para a criança principalmente pelos sentimentos calorosos evocados nela por toda a festividade e essa sensação pode mais tarde refletir um brilho prazeroso nas idéias mais abstratas relacionadas com essa celebração. No entanto, a nível subconsciente, alguma coisa do que o dia simboliza continuará a exercer a sua influência.


O medo da perda física e emocional são-as duas grandes ansiedades do homem. A fome e a inanição são as duas formas básicas da primeira; a deserção — da qual a morte é apenas a última e extrema forma — a da segunda. A criança pequena não entende a morte e, em conseqüência, não teme a sua própria, enquanto que a dos seus pais é temida sob a forma de deserção permanente. Embora em nossa sociedade as crianças, na realidade, não morram de fome, todas experimentam, mais ou menos, severas pontadas de fome uma vez ou outra; e todas as crianças sofrem de deserção temporária, quando seus pais não se encontram disponíveis. Essas duas formas das primeiras privações reais vividas pela maioria das crianças amplia-se enormemente no inconsciente, onde chegam a substituir e são símbolos de toda a ansiedade. (Mesmo o medõ de animais perigosos, tão freqüente nos pesadelos de uma criança, são experimentados por elas como casos especiais de medo de deserção, porque esses animais ferozes só são perigosos por causa da ausência dos pais, que de outra forma poderiam persegui-los e mandá-los emboras, protegendo, assim, completamente a criança.)
As festas familiares celebradas em torno de uma mesa arrumada com uma refeição farta e festiva combatem as ansiedades das crianças, tanto em termos de uma experiência real, quanto, o que é ainda mais importante, a nível simbólico. A “reunião do clã” renova a confiança da criança, à medida que percebe que para sua segurança contra a deserção ela não precisa apoiar-se exclusivamente nos pais; que muitos outros parentes estariam disponíveis em um momento de crise e a protegeriam da deserção. A refeição farta, similarmente, oferece segurança contra a ansiedade da fome, tanto ao nível real como, mais importante ainda, simbolicamente. Dessa forma, esses feriados familiares são, tanto enquanto uma experiência consciente quanto a nível inconsciente, uma das experiências mais gratificantes que a criança pode ter no que concerne às suas ansiedades mais intensas. Elas colocam-se entre as experiências mais construtivas que podemos oferecer-lhe para fortalecer sua segurança.
Assim, com boa razão, a história do Dia de Ação de Graças enfatiza que uma boa safra impediu que os peregrinos morressem de fome e passassem pelas mesmas privações que tinham sofrido no inverno anterior. Nesse sentido, o feriado simboliza a salvação e o início de uma vida melhor e mais segura, um renascimento simbólico num plano melhor. Basicamente, todas as nossas importantes celebrações — Natal, Páscoa, 4 de julho, aniversários — comemoram nascimentos e renascimentos. A esperança inerente a esse significado simbólico continua a reverberar em nós, quer saibamos disso ou não.
Por toda a história da humanidade, as próprias cerimônias e os sentimentos feli

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zes a elas relacionados têm durado além do evento ou da idéia especffica que originalmente deu início ao feriado; como foi visto antes, estas idéias mudam com o tempo. Por exemplo, o Natal era inicialmente um ritual pagão que celebrava o renascimento do sol e da natureza, muito antes que a idéia do nascimento de Cristo se relacionasse a ele. De maneira semelhante, os rituais mais antigos, aqueles que levavam em si um signfficado inconsciente e emocional mais profundo, têm uma forma diferente de reaparecer, algumas vezes depois de um intervalo de séculos de duração. Assim, as fogueiras armadas nos topos das montanhas no solstício de inverno para estimularem o sol a permanecer mais tempo no céu depois de séculos reaparecem como luzes nas árvores de Natal. Tais celebrações são demasiado importantes para serem abandonadas, porque servem a necessidades profundas e inconscientes. Como a forma dessas celebrações tradicionais têm mudado com o passar do tempo, e novas idéias têm-se incorporado a elas, também nós, como indivíduos, alteramos a maneira pela qual celebramos os feriados ao longo de nossas vidas. Partindo de nossa própria experiência, sabemos como as idéias que relacionamos com o Natal mudaram à medida que amadurecemos, do Papai Noel e suas renas ao espírito de doação, do prazer de receber presentes ao prazer de dá-los a outras pessoas.
Dessa forma, os rituais e celebrações tangíveis são permanentes e grandiosos; as idéias abstratas sobre as quais se centram atualmente podem mudar, mas quase todas elas tiveram precursores concretos, sem os quais pareceriam conchas vazias. Por exemplo, de acordo com a Bíblia, Deus proibiu os judeus de fazerem uma representarão dele, simplesmente porque o desejo que tinham de imaginá-lo de maneira concreta, como um velho de barba — para não fazer referência ao bezerro de ouro — era tão avassaladora; não visualizá-lo de uma forma definida é muito difícil. No entanto, quase nenhuma criança moderna pensa em Deus em qualquer outra forma que não seja a de uma pessoa idosa, imortal e grandiosamente digna. À medida que vamos amadurecendo, esta imagem é substituída pela idéia abstrata de um ser supremo ou essência, ou causa primeira, sem forma, de acordo com o caso. No entanto continuamos a admirar a maneira como ele foi apresentado sob a forma humana por grandes artistas, tal como o fez Michelangelo na sua percepção da criação de Adão no teto da Capela Sistina. E em alguma forma semelhante a esse Deus aparece em nossos sonhos, o que sugere que, embora estejamos muito distantes da nossa imaginação de crianças, Ele continua em nosso inconsciente como o visualizamos e imaginamos naquela época.
Por que nos preocuparmos, então, com o fato de nossos filhos visualizarem o Natal sob a forma de Papai Noel? Mesmo que não façamos nada enquanto pais, à medida em que nossos filhos amadurecem, liberam as suas idéias sobre o Natal dessas imagens concretas. Mas, durante os seis primeiros anos de suas vidas, a maioria das crianças modernas acredita firmemente nas suas visões mágicas, tais como o Papai Noel e o Coelhinho da Páscoa, não importa o que se sintam obrigadas a conceder, da boca para fora, à visão dos seus sobre o assunto. Então, durante um ou dois anos elas sentem-se inseguras, embora ainda preferissem dar crédito às suas antigas convicções. Daí em diante, tudo se transforma num jogo de faz-de-conta de que gostam imensamente; e ressentem-se quando os pais tentam desiludi-las a esse respeito. Se os pais lhes dizem o que consideram ser a “verdade”, do ponto de vista das crianças essa atitude é considerada uma inveja do seu divertimento. Esse divertimento depende da capacidade de a criança
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fingir que acredita nessas figuras imaginárias, enquanto sentem, ao mesmo tempo, que são mais espertas do que seus pais pensam que são. Elas gostam de enganar os pais, fazendo-os pensar que ainda acreditam inteiramente na veracidade dessas figuras imaginárias. quando na verdade não o fazem. Nesse jogo de imaginação, o sentimento original sobre a magia relacionada a essas figuras continua a evocar emoções e experiências felizes, unindo pais e filhos das formas mais agradáveis.


Um estudo recentemente desenvolvido nos Estados Unidos demonstra como a crença em figuras imaginárias está diretamente relacionada com as necessidades da criança. Este estudo também mostra que, embora praticamente todas as crianças de quatro anos de idade acr’editem em Papai Noel e no Coelhinho da Páscoa, apenas 20% delas acreditam na Fada do Dente. A razão para essa discrepância reside no fato de que, aos quatro anos, poucas crianças tinham perdido ou estavam em vias de perder seu primeiro dente. Aos seis anos, aproximadamente, apenas dois terços do grupo estudado ainda acreditavam em Papai Noel e no Coelhinho da Páscoa. Mas, tendo já nessa altura começado a perder os dentes de leite, o mesmo número de crianças que acreditava nas duas primeiras figuras mágicas também acreditava agora na Fada do Dente. Dois anos mais tarde, quando as crianças já estavam com Oito anos, o número das que ainda acreditavam nas duas primeiras figuras caiu para apenas um terço do grupo, enquanto dois terços delas ainda acreditavam na Fada do Dente. Como as crianças continuaram a perder o seu primeiro dente nessa idade, elas continuaram a acreditar na Fada do Dente. Existe, portanto, uma relação direta entre a experiência algo assustadora de se perder um dente e a crença na magia compensadora.
A necessidade, ou mais corretamente o desejd, de as crianças fingirem acreditar nessas e em outras figuras mágicas — talvez para se certificarem de que seus pais continuarão a oferecer-lhes presentes, mas mais provavelmente para se divertirem com a simulação acima mencionada — é sugerida pelo fato de que, embora aos oito anos de idade apenas um terço das crianças admitisse continuar acreditando em Papai Noel, três quartos desse grupo ainda deixavam comida, bebida ou algum outro tipo de lembrança, como um desenho feito por elas, para que Papai Noel se alegrasse ao encontrálos quando saísse da chaminé, e fiel e cuidadosamente penduravam as suas meias na lareira para que ele as enchesse com presentes.
A necessidade de agarrar-se a idéias abstratas através de imagens concretas não se limita de maneira alguma à primeira infância; mantém-se igualmente verdadeira para a maioria dos adultos. Poucos de nós somos capazes de obter uma imagem real de beleza, a menos que consigamos pensar em algum objeto cuja perfeição dá um sentido emocional à idéia abstrata. Somente se uma criança chegou a amar objetos que ela considera bonitos — não importa aqui o conceito que os adultos possam ter sobre o seu mérito —, poderá mais tarde entender a idéia de beleza no abstrato, e chegar a amá-li. Se disputarmos, com base nos nossos padrões refinados e educados, próprios dos adultos, o encanto de um objeto que personifica a idéia de beleza da criança, ela poderá ser desviada para sempre da alegria da belezã, só porque a fizemos desconfiar da sua própria capacidade de julgar o que é bonito. Ela poderá, ainda assim, ter um alto conceito da beleza enquanto abstração, porém não mais será capaz de amá-la quando com ela se deparar, por ter sido prematuramente forçada a separar seus juízos de valor-das emoções, único elemento capaz de tornar a beleza proftindamente satisfatória. Falar a uma
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criança sobre isso de maneira abstrata não a ajuda a aprender o que a beleza pode fazer por ela e para ela. Embora possa aprender a falar inteligentemente sobre a beleza, esta não mais aquecerá a sua alma como o faria gostar de um determinado objeto que lhe parece bonito.


Assim, deve-se permitir à criança pequena acreditar em Papai Noel, no Coelhinho da Páscoa e na Fada do Dente, uma vez que são precursores que continuam a dar fervor emocional a importantes conceitos que ela vai desenvolver à medida que sua mente se tornar mais madura. Para a criança pequena, a Fada do Dente, que lhe traz uma moeda quando perde um dente, é ao mesmo tempo a garantia de justiça e sua personificação; simboliza também a boa vontade de um mundo que não quer que uma criança perca qualquer coisa sem que haja um esforço para compensá-la.
Em contraposição, a realidade de um pai dando ao filho uma moeda por um dente perdido compensa pouco, pois a criança já sabe que seus pais podem dar e retirar. A criança tem medo de perder alguma parte do corpo; o fato de seus pais lhe darem um presente para compensá-la disso é uma prova de delicadeza — mas será que pode confiar nisso e que será sempre assim? Será que o pai pode fazer com que um novo dente nasça para substituir o perdido? Mas se o sobrenatural entra sob a forma da Fada do Dente, então pode sentir-se mais segura de que existe uma ordem maior no mundo, que garante que sua perda não deixará de ser aliviada. É a partir dessas experiências que seu senso de justiça e retidão será desenvolvido. A grandeza da justiça verdadeira não pode ser instilada na mente de alguém, em qualquer idade, sem que esteja baseada nas crenças infantis que continuam a carregar uma convicção emocional profunda muito depois de as idéias imaturas e cheias de fantasia das quais partiram terem sido esquecidas e sepultadas ho seu inconsciente. Se nossa convicção for apenas conseqüência da razão fria, o fervor moral será fraco, uma vez que a racionalidade desenvolve-se muito mais tarde na criança em crescimento.
O que é maravilhoso em relação à mágica positiva da alegria dos feriados é que pode proporcionar segurança durante todo o ano, quando mais se necessita dela, mesmo sob as piores circunstâncias de vida. As crianças sabem disso e, quando têm oportunidade, usam a segurança simbólica que o espírito festivo oferece para proporcionar a si mesmas apoio moral quando mais desesperadamente necessitam dele. Uma história contada pela psicanalista sueca Stefi Pedersen pode ilustrar isso.
Quando os nazistas ocuparam a Noruega, Pedersen serviu de guia a um grupo de refugiados, incluindo diversas crianças, que fugiram atravessando, em pleno inverno, as altas montanhas até a Suécia. Ninguém podia levar nada além do que pudesse carregar nas costas, porque a subida era difícil e andar depressa era essencial. Para a maioria do grupo, essa não era a sua primeira fuga dos nazistas, uma vez que alguns anos antes tinham fugido da Alemanha ou da Áustria para a Noruega. Assim, esses refugiados tinham experimentado o que significa ter que abandonar quase tudo o que se tem, levando apenas o imprescindível, O grupo só tirou seu primeiro e desesperadamente necessitado descanso após ter alcançado segurança dentro da fronteira sueca. Depois de comer a pequena quantidade de comida que tinham levado, muito pouco restava nas pequenas mochilas das crianças. Pedersen olhou por acaso para dentro da sacola de uma delas e encontrou entre os pobres e poucos objetos uma pequena estrela de prata, do tipo das que penduramos nas árvores de Natal. Ela a apanhou, surpresa, mas então
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sentiu que a criança olhava-a confusa,. como se ela tivesse descoberto um segredo muito precioso. Sem dizer nada, Pedersen colocou a estrela cuidadosamente de volta na sacola.


Uma vez que seria responsável pelas crianças quando chegassem a seu destino na Suécia, e já que, como analista de crianças, estava profundamente interessada no que poderia lhes proporcionar segurança psicológica naquele lugar, Pedersen decidiu explorar que outros objetos as crianças tinham escolhido como seus bens mais valiosos para trazerem na sua fuga de casa. Assim, examinou outras sacolas, e mais uma vez encontrou peças baratas de decoração de árvores de Natal — estrelas e sinos feitos de papelão, cobertos com brilho prateado. Isso era o que essas crianças — a maioria delas de origem judaica, mas criadas em famílias assimiladas que celebravam o Natal como uma família e principalmente como um feriado infantil, embora não como um evento religioso — tinham escolhido para levar com elas da Noruega, preferindo-os a quaisquer outros ojetos. Quanto ao mais, não tinham coisa alguma, a não ser as roupas que usavam. Pedersen concluiu que elas tinham trazido esses símbolos de um passado feliz porque só eles poderiam lançar uma aura de segurança sobre a angústia que sentiram ao embarcarem em uma viagem para o terrível desconhecido. Nessa viagem para o nada, os pequenos enfeites vistosos — símbolos de uma felicidade que um dia conheceram em suas casas e com suas famílias — suavizavam seus sentimentos de solidão e impotência e ofereciam uma promessa de esperança.
Na mesma noite, quando chegaram a um lugarejo na fronteira da Suécia, uma jovem norueguesa juntou-se a eles. Ela fizera uma fuga espetacular para salvar a vida, sem sequer dispor de pelo menos meia hora para empacotar o que lhe era essencial. Sua fuga tinha exigido vários dias de viagem através de regiões ermas, de modo que não podia carregar uma mochila pesada. Agora, pela primeira vez, tinha tempo para tirar suas coisas da mala. Além de um mínimo de roupas, tudo que tinha levado com ela era uma caixa de música de metal. Sua explicação apologética foi: “Bem, eu tinha que trazer alguma coisa bonita, já que estava partindo para sempre.”
O ator dinamarquês Texiere contou uma vez que a única coisa que conseguira levar consigo em sua fuga para a Suécia tinha sido uma pequena caixa de rapé que pertencera a Hans Christian Andersen. Embora de pequeno valor, essa caixa era um símbolo da vida abundante que ele tinha que deixar para trás. E uma mulher levou, entre umas poucas roupas esportivas alegres, apropriadas a uma caminhada pelas montanhas, um par de sapatos dourados, de salto alto. Muitas vezes, entre os pertences esparsos que esses refugiados levaram quando deixaram suas casas para sempre havia coisas que, vistas objetivamente, teriam parecido escolhas peculiares, completamente inadequadas se considerarmos as necessidades maiores de um refugiado. Nenhum desses objetos relacionava-se de alguma forma racional à situação desses refugiados. Mas eram objetos que tinham vindo para representar simbolicamente o que tinha sido melhor em suas vidas, e, nessa qualidade, eram, ao mesmo tempo, os últimos remanescentes de uma época boa e a promessa de co1tinuação de uma outra que teria seus momentos felizes.
Qualquer um que tenha tido experiência com pessoas em situações de desespero similares poderia facilmente contar outras tantas histórias, O que é mais extraordinário nesse caso é a diferença entre os objetos em que os adultos e as crianças confiavam para
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sustentá-los na adversidade extrema. Os adultos tipicamente levavam consigo algo que simbolizasse experiências de felicidade com pessoas verdadeiras. A pesada caixa de música, acabou-se sabendo, tinha sido dada à senhora por alguém que a tinha amado e que ela também amara. A mulher que levou os sapatos dourados os usara no dia mais feliz de sua vida, quando se sentira particularmente bonita e feliz. Por outro lado, as crianças procuravam e encontravam consolo em alguma coisa que lhes lembrasse um acontecimento alegre que tinham partilhado com os pais, mas que ao mesmo tempo simbolizasse poderes até maiores do que os de seus pais. Acima de tudo, suas lembranças representavam a expectativa da volta de dias especialmente felizes para as crianças. Por mais que fosse desesperadora sua situação no momento, esses enfeites de Natal pareciam assegurar-lhes que no futuro a felicidade lhes pertenceria novamente.


Esse, então, é provavelmente o significado mais profundo e mais tranqüilizador do Natal para uma criança: uma lembrança que a sustenta em situações de adversidade, como aconteceu com os jovens refugiados em sua angústia extrema. A promessa simbólica contida nos pequenos enfeites de Natal significava esperança para essas crianças, quando tudo parecia desesperadamente sem esperança. As crianças sentem isso no subconsciente; eis por que se agarram à ficção de Papai Noel, que traz com ela um significado simbólico muito especial.


REAÇÕES DE ANIVERSÁRIO A FERIADOS INFELIZES

O poeta em seu insight sobre “os aniversários secretos do coração” previu o que os psicanalistas tiveram que se esmerar para descobrirem: esses fenômenos moldam nossa visão da vida, tanto positiva quanto negativamente. A força destrutiva de reações negativas talvez ressalta a importância dos feriados de maneira mais impressionante do que o fazem as influências positivas benignas. Embora essas últimas sejam desfrutadas em sua totalidade, os adultos freqüentemente não levam a sério seus efeitos, reprimindo em seu subconsciente o que consideram reações infantis.


O estudo de tipos de comportamento altamente patológicos mostrou que eles são muitas vezes cíclicos, acontecendo nos aniversários de acontecimentos significativos, normalmente, mas nem sempre, sem que a pessoa saiba por que é assim. Nos textos de psicologia, esses fatos são conhecidos como reações de aniversário e têm sempre um significado pessoal peculiar; são dias — ou épocas do ano — em que ocorreu algum acontecimento infeliz, como a morte de um dos pais, ou a de um filho . Algumas vezes, essas reações ficam especialmente marcadas quando acontecem perto dos feriados, sobretudo do Natal. Os suicídios são freqüentemente associados a essas reações de aniversário, estejam ele.s centrados em torno de um feriado ou de uma desgraça pessoal, mostrando que, subconscientemente, nos lembramos muito bem do que nos aconteceu em determinado dia ou em certa época do ano. Os efeitos posteriores aos acontecimentos felizes são igualmente fortes, mas, uma vez que não há razão para eliminá-los enquanto recordações dolorosas demais para serem conscientemente lembradas, nossas reações positivas de aniversário são muito menos dramáticas e, assim, muito menos facilmente observadas. Por exemplo, pessoas que, quando crianças, tiveram experiências infelizes com o Natal, tendem a sofrer, por causa disso, de graves depressões de aniversário durante toda sua vida na época do Natal, enquanto aquelas que, quando
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crianças, tiveram Natais felizes não ficam deprimidas mais tarde nessa época, mesmo que sua vida tenha se tornado solitária ou cheia de privações. As lembranças de feriados felizes continuam a ajudá-las a suportar bem as dificuldades atuais.


Conheci uma mulher bem-sucedida na vida que. apesar disso, ficava profundamente deprimida todos os anos mais ou menos no Dia de Ação de Graças. Sentia-se terrivelmente solitária e carente, em reação ao feriado, embora estivesse muito consciente de que suas condições atuais não lhe davam razões para sentir-se dessa maneira. Mas, ela era perseguida pelas recordações de infância quando — pelo menos era o de que se lembrava — nunca podia ter certeza de que o Dia de Ação de Graças seria comemorado em sua casa, já que nunca saiba se seu pai voltaria a tempo para a festa, se traria o peru ou se, de todo, viria juntar-se à família. Embora seu pai em geral chegasse, de fato, no último momento, e quase sempre trazendo o peru, sua ansiedade antecipada continuava a estragãr o feriado completamente. A ansiedade que se sente antes da hora, da mesma forma que o prazer, tem, assim, enorme conseqüência psicológica na forma como vivenciamos os aniversários mais tarde. Infelizmente, como sugere esse exemplo, essa ansiedade não é desfeita quando se percebe que era injustificada, e o prazer antecipado pode ser completamente destruído quando o acontecimento vai contra a expectativa.
Em seus dias especiais, uma criança sente-se mais viva e mais ela mesma do que na maior parte das outras ocasiões, uma experiência que beneficia todo mundo. Os aniversários das crianças são dias de comemoração muito especiais para elas, assegurando-lhes que sua chegada a esse mundo, o ter-se agregado a sua família foi de fato um acontecimento feliz para seus pais. Não é de admirar que necessitem sentir-se muito especiais nesse dia. Sempre que não se torna motivo de uma festa, a criança sofre. Menciono sucintamente apenas dois exemplos. Um menino nascido no dia 21 de dezembro ressentiu-se durante toda a sua vida de que seus pais, para evitarem duas comemorações muito próximas, juntassem as duas no dia de Natal. Outro menino nascido no dia de Natal podia ter-se sentido muito privilegiado com isso, mas, ao contrário, sentiu-se agudamente deprimido porque, ao invés de ter duas comemorações especiais, vivendo duas vezes no ano o fato de ser importante para seus pais, tinha apenas uma. No primeiro caso, teria sido muito fácil comemorar o aniversário do menino no dia 21 de dezembro e o fato de isso causar tantos problemas para seus pais era interpretado corretamente por ele como indicativo de que parecia não valer a pena colocar-se à disposição dele duas vezes num espaço de poucos dias. As coisas eram mais difíceis para a criança nascida no dia de, Natal, mas, com alguma engenhosidade, eles também poderiam ter encontrado uma solução.
Poderiam ter comemorado o dia de seu nome, por exemplo, um dia que tem enorme valor em algumas outras culturas. Nesse caso, também, temos o exemplo do aniversário do rei ou da rainha da Inglaterra; que é oficialmente comemorado em um ‘dia diferente daquele em que ele óu ela nasceram. Assim, teria sido possível designar algum dia em que, se não o aniversário da criança, a criança propriamente dita fosse uma ocasião especial. As crianças gostam muito quando, apenas para se divertir, transfotma-se um outro dia em um feriado substituto ou um feriado a mais. Assim, por exemplo, um “Natal em julho” lembra àquelas crianças cujos pais fazem dele uma festa os tempos felizes que tinham no Natal; também ficam impressionadas com o fato de seus
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pais abandonarem seus afazeres para lhes proporcionarem um acontecimento feliz, quando outros pais não o fazem.


A amargura em relação a feriados estragados ou dos quais fomos de todo privados em alguns casos não fica restrita a uma época específica do ano, mas pode lançar uma sombra profunda sobre toda uma vida. A irmã mais nova de uma menina nasceu poucos dias antes do aniversário dela. Assim, para simplificar as coisas, os pais decidiram que ambos os aniversários seriam comemorados no mesmo dia, ao invés de em dois, com um espaço de apenas uma semana. Os pais concluíram também que seria melhor para as crianças receberem os presentes mais cedo do que mais tarde e, assim, acertou-se que os dois aniversários seriam comemorados no dia da criança mais nova. A criança mais velha sentiu-se terrivelmente enganada porque, conforme disse, estava sendo “roubada” de seu próprio aniversário, e tinha que convidar seus amigos “no dia do aniversário de minha irmã, para a festa de aniversário dela”. Ela ressentira-se desde o início, da chegada dessa irmã mais nova, que a tinha privado de ser a única criança na família e agora se vingava dela, odiando-a, já que tinha que dividir seu aniversário com ela. Sua impressão é que não tinha um aniversário verdadeiro. Para ela, isso era prova de que seus pais só se preocupavam com sua irmã. Em conseqüência. não conseguia desfrutar de seus presentes, embora fosse racional o suficiente para perceber que eram tão bons quanto os que a irmã recebia.
Quando se tornou um pouco mais velha, ela recusava-se a convidar qualquer pessoa para a comemoração do que, para ela, não era seu aniversário, mas o de sua irmã. Não sei como a menina mais nova reagiu a ter que dividir seu aniversário e sua festa com sua irmã mais velha, mas a mais velha jamais perdoou seus pais por ter sido privada de sua data em nome da conveniência deles. Com raiva e deprimida, observou: “Ganhei meus presentes no aniversário da minha irmã.” Mesmo depois de completamente adulta, essa mulher não conseguia superar seu ressentimento em relação à irmã, embora soubesse que ela não era responsável por essa combinação de aniversários. Mas o acontecimento, para ela, era uma demonstração de que seus pais não a reconheciam como uma pessoa com seus próprios direitos. Atribuía a isso seus sentimentos sempre presentes de inferioridade e carência que só começaram a melhorar, em alguma medida, quando ela pôde providenciar lindas festas de aniversários para seus próprios filhos.
Esse último caso, é um exemplo das conseqüéncias positivas que comemorar o mesmo acontecimento com nossos filhos pode ter para as reações de aniversário. A mulher que entrava em depressão todo Dia de Ação de Graças conseguiu voltar a se sentir animada quando começou a preparar um Dia de Ação de Graças especialmente bonito para seus filhos. Conheci muitas crianças judias que sofriam de depressão por volta do Natal porque não o celebravam, mas que melhoraram muito quando começaram a fazer belas festas de Natal para seus filhos. Isso as ajudava, embora não as tivesse ajudado na infância que seus pais comemorassem o Hanukkah. Parte da razão disso é que, apesar de ambos serem feriados religiosos em que as crianças recebem presentes, o Natal simbolicamente comemora o nascimento dc uma criança e, assim, exalta o nascimento e, em conseqüência, a infância, enquanto o Hanukkah não. A outra parte é que o Natal é comemorado em todo o mundo e seu espírito festivo permeia toda a vida. Assim, tornar a vivenciar com nossos filhos um acontecimento infeliz de nossa infância
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pode corrigir e melhorar consideravelmente os efeitos posteriores das experiências infantis desagradáveis.


Infelizmente, essas experiências emocionais corretivas nem sempre são possíveis. A literatura nos oferece vários exemplos & pessoas que tinham reações de aniversário muito graves perto da época do ano em que tinham perdido um dos pais na infância. Quando seu próprio filho — ou o filho preferido ou o do mesmo sexo — chegou à idade em que elas tinham perdido o próprio pai, o adulto infeliz, lembrou-se dele próprio quando tinha a mesma idade, e a partir do comportamento e do estado de espírito do filho, caiu em depressão profunda, quase suicida, ou sofreu uma ruptura esquizofrênica. Nos casos desses pais, reexperimentar, por tabela, através de seu filho, o que se passou com eles quando tinham essa idade reativou um trauma psicológico que nao foram capazes de enfrentar na ocasião em que aconteceu. Perceber isso agora aumentou, de modo extremamente prejudicial, a gravidade da reação de aniversário. Assim, as reações de aniversário podem ser exacerbadas, mitigadas ou inteiramente suplantadas. Tudo depende de como o acontecimento que provocou a angústia é revivido. Infelizmente, rei’iver algumas vezes por tabeLa, através de nossos filhos, experiências que foram assoladoras para o pai pode aumentar seu impacto destrutivo.
Tudo isso é apenas um exemplo a mais de como as crianças, por sua simples existência e por viver em proximidade emocional com os pais, podem exercer uma influência de grande alcance tanto positiva quanto negativa sobre eles, e de como os pais invariavelmente têm um impacto até mesmo maior sobre as vidas de seus filhos, para o bem e para o mal. Seríamos sensatos, então, se providenciássemos bons dias especiais para nossos filhos e também desfrutássemos deles ao máximo, uma vez que, conforme foi sugerido, esses acontecimentos felizes podem cmpensar, em grau acentuado as privações que sofremos no passado.
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