Jéssica decide viver, por maiara gouveia



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Encontro29.07.2016
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jéssica decide viver, por maiara gouveia

1.

Até parece um telegrama. Mas pra quem sabe ler, um pingo é letra.



Xô, pss. Um homenzinho não as suporta. E Jéssica nota outros bichos: ratos em fuga, cães atrás de carros (ou do próprio rabo), as felinas femeazinhas. Esticam-se, arranham muros onde alguém picha o mais amor, por favor. Cabeças e cabeças passageiras (ou ir e vir, naquele aperto). Círculos miudinhos onde se amontoam murmúrios urbanos, lugares comuns. Então, finca o salto na ladeira, é noitinha.

No quarto entreaberto, pernas longilíneas. Dissabor zunindo feito pernilongo, e o corpo se contorce. Embora tape as orelhas com as mãos, o zunido prolonga-se. Assim, mergulha no sonho. Agora, é ela quem pede os documentos. Põe algemas. E o membro se oferece, duramente, enquanto a goteira castiga os móveis.

Nem sempre há trama. Só edição. Enfia-se a sequência, o bate estaca e a propaganda de xampu. A heroína do romance, aquela sim, tinha lá o seu charme. $9,90 e gemia, no fundo da cabeça:

Desatou-se o nó. A respiração ainda sôfrega. Ai, nem saberia dizer como nos enlaçamos daquele jeito. Ele chegou perto demais. Era tarde. Falou baixinho “oh, Michelle, precisamos conversar”. Mal pude perceber como chegamos àquilo. Disse que nosso caso era diferente de todos os outros, falou de afinidade existencial. Ah, enganou-me duramente, duramente. Há muito eu esperava por aquilo. Logo notei que estava ereto. Enrubesci. Quase morri quando selou o encontro com o beijo da perdição. Zonza, permiti que seus dedos deslizassem àquela parte secreta que alguns chamam de orquídea, figo partido, romã. Ele sussurrou sobre as nuvens se dissipando, sobre a lua rebrilhante, enquanto subiu meu vestido e procurou livrar-se de um empecilho qualquer. Assim penetrou-me. O ventre, preso em suas mãos grosseiras, ondulou sob o hálito quente da paixão. Entranhado em meu corpo, pronunciou maravilhas de amor, “Gosto de pensar que és terra”, e pediu que o chamasse de potro, que implorasse cavalgadas e entoasse palavras vulgares que não ouso trazer à tona outra vez. Depois de tudo, suspiramos profundamente. O encanto daquela noite nos redimira de cada loucura lasciva, de cada pecado. Naquela ocasião, deixei-me perdida em seus braços até que a lua cheia se escondesse e estivéssemos nus diante dos olhos acusadores de Benjamin.

2.

O sofá puído tem braços fortes, onde Jéssica acomoda o traseiro largo, enquanto o par de amigas esparrama-se nos dois lugares, entre risinhos e modulações do mesmo som. A boca enorme de Madalena lambuza as bordas do pastel. Batom cor-de-rosa e pimenta suave. Há farelos em toda parte. Elisabete curva-se para ouvir: O policial aparece todo mês no salão unissex, à paisana. Deixa a cabeça à mostra – redonda e lustrosa. Uh, é enorme e obscena. Jéssica não presta atenção. Há muita roupa suja pra lavar. Amanhã, ninguém passará debaixo da catraca. Já sabe, vai ouvir gracinhas e ficar quieta: o ir e vir, naquele aperto. Madalena, de saia justíssima, vai embora. Jéssica desperta aos poucos: “Por quê? Fique mais.” Vou agora, enquanto é cedo. “E você, Elisabete, fica?” De jeito nenhum.



Jéssica perdeu a novela.

Sozinha, lembra-se dos semáforos. Algo aponta dentro da blusa. Cai no poço, devagarzinho. O polícia vem. E o batom de Madalena. Desenha círculos nos seios, então lambe. Deixa a marquinha na fronteira entre o ventre e o sexo. Põe a língua pra fora, enquanto a goteira inunda as gavetas.

Vem outro dia. Vai, acorda pra cuspir.

Ah, sim. Espreme o limão e engole tudo de uma vez. Elisabete mistura açúcar. Assim não adianta. O negócio é enfrentar o limão, só limão. “Antibiótico natural”. Ai, e depois sacudir sentadinha. Que remédio?

E se matasse o dia? Andaria à paisana, como o policial. Alguém notaria a cobradora? Diria o quê? Deu vontade? E o policial careca, na rua, madrugando. Quer puxar assunto. Quer ouvir uma história cabeluda. Acha graça. Cometer um delito e procurar o carrasco. Põe lingerie vermelha, a calça justa. O cabelinho encaracolado, num grampo. Não pode se dar ao luxo de ficar à toa. Sacudiria sentadinha: “bom dia, bom dia, bom dia”.

Daria o troco.

3.

Oh, Benjamin. Como explicar? Um temor inexplicável se apossou do meu ser. Seria o fim? O gritinho estridente de Elisabete era o “corte a cabeça do porco”. Sabe como é? Almoço domingueiro. Sim, é domingo outra vez. Galinhas e suínos esquartejados. E a farofa, claro. Buzina de motos. Berreiro de criança. Ainda não. Jéssica roça a pele contra o tecido do sofá de dois lugares. O pernilongo retorna, e o zunido infernal. Estica as pernas, e o roliço das coxas sobe e desce sob o vestido curto. Dá um gemido preguiçoso, emaranha-se no fofo da almofada: uma felina do centro. E a lingerie vermelha pendurada no varal. Era verdade: tudo estava por um fio. Arranharia o teto com as unhas, os dentes sob o lustre, os animais dos viadutos enlouquecidos com o cheiro. Engoliria tudo. Agora, ele mostra o dedo em riste. Franze o cenho. Jéssica empina o bumbum, enquanto a goteira insistente cria ondas nos lençóis.

4.

Quer muito mais. Fazer espuma com o sabonete e assistir ao estouro das bolhas. O rosto desliza na superfície e ploc, se desfaz, enquanto ela sacode ao som de Chic Chic, no banho pós faxina. Num átimo, corremos pelo descampado, quando ouvimos estampidos. Benjamin haveria feito a maior besteira de sua vida? Mais tarde, soube que não. Queria apenas assustar-nos, impedir nossa felicidade. Desistira do ônibus. Não era bonita? Só botar um shortinho, e pronto.



Sabe dançar conforme a música.

5.

Sem dúvida, seria a torta. Receita antiga.



Se você puser um dedo de moça na mistura, vira outra. É molhadinha e macia. Madalena faz melhor.

Põe-se tudo na fôrma, o bem disposto – pano de prato por cima e clac: o ratinho na ratoeira. Sabe o rega-bofe? Típico.

Não faltaria quentão.

6.

Ninguém falou dessa cadeia. Eu gosto de quatro. A madrugada entrecortada pelo cano do revólver. A mesa, o policial, e a rosa vermelha no copo com água. Céus! Prisão perpétua. Paf: melhor que inseticida. O pernilongo sem zunido. O que pinga é suor. No silêncio afoito, no sofá de dois lugares.



Lá fora, o grito estridente. Madalena, vira e mexe, arranca um bife de Elisabete.

Esse amor é tipo um túnel, quando chove, no horário de pico: não dá pra escapar.



Nunca me esquecerei daquelas noites. Eu me enrodilhava em seu torso de camponês, sentia a barba mal feita roçar em meu rosto e regozijava no acalanto de sua presença, protegida, entontecida por seu hábito de adormecer completamente nu.

Oh, pudesse eu me livrar do que veio depois. A verdade crua. “Michelle, Michelle”. Ainda ouço a voz a me procurar dentro da noite. Seria eu a Branca de Neve adormecida pela aparência inofensiva de uma doçura letal? Princesa ingênua a sonhar em seu caixão de vidro? Ainda penso que o amor é possível. Ou será possível, no próximo verão.

7.

Jéssica lembra-se da língua, tão hábil. Cora um pouco. Falando assim, parece até a heroína do romance.



Sente-se ótima. Amanhã, será apenas passageira. E um dia, quem sabe? Agora, joga fora uns comprimidos. Põe açúcar no limão.

Maiara Gouveia


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