Julia Lopes de Almeida representações de uma mulher/escritora



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Fontes, Mirella de Abreu
Julia Lopes de Almeida – representações de uma mulher/escritora
Um pouco afastada do grupo intelectual, eu escutava-lhes os nomes que uma senhora ia sussurando:

  • Aquele é Olavo Bilac, o outro é Lucio de Mendonça, adeante é Raymundo Correia depois Filinto de Almeida...

  • E aquela senhora que está em pé? – Perguntei.

  • Como? Não conhece? – tornou ella – é a maior escriptora brasileira d. Julia Lopes de Almeida.

Era pois ella, que estava na minha frente, tão simples e natural como se a gloria a não iluminasse. [...] Era pois ella...1
Esta passagem faz parte do depoimento apaixonado da jovem escritora Iracema Guimarães Villela que, tendo chegado recentemente de Lisboa, acompanhou o irmão à uma reunião na casa do acadêmico Valentim Magalhães. Iracema faz esse discurso em homenagem ao primeiro ano de falecimento de Julia. E nele podemos encontrar a frase mais recorrente em todos os depoimentos dados sobre Julia Lopes de Almeida: é a maior escriptora brasileira.

Mas como Júlia Lopes se tornou a maior escritora brasileira? Porque Júlia?

Tudo começou quando Julia ainda era a Nhá Jujú, como era chamada pela sua amiga inseparável na infância, Joana, uma mulatinha filha de uma escrava de seus pais, da mesma idade sua

Saiam pelas ruas da vizinhança quando minha avó ou minhas tias mais velhas as incumbiam de ir ao armarinho comprar um carretel de linha ou pedir amostras de fita ou rendas para lhes enfeitarem os vestidinhos novos. E a maneira de rapsodos medievais, entravam na padaria do lusitano fornecedor da família, e ora Joana cantando uma doce cantiga cuja letra era sempre da autoria de Julia, numa voz melodiosa e afinadíssima, ora Juju fazendo um discurso poético ou recitando uns versinhos encarrapitada numa cadeira, tendo a aplaudi-las o próprio padeiro e um outro freguês eventual, faziam o seu recitete, e, recebidos os aplausos, saiam a correr em busca do carretel encomendado levando cada uma nas mão um doce, uma cocada ou uma bolacha gostosa.2
Desde menina, Júlia Lopes já parecia demonstrar sua identificação com as letras, como nos mostram sua sobrinha e sua filha Margarida Lopes de Almeida, autoras da única “biografia” oficial de Julia Lopes de Almeida.

Mas será que foi exatamente assim? Ou será que isso fazia parte de um projeto3 de vida, no qual suas biógrafas, retrospectivamente, lançaram mão de algumas memórias que pudessem, de uma vez por todas, consolidá-la como aquela que desde criança já era uma espécie de pré-destinada a ser uma grande estrela das letras nacionais?

A resposta a essas questões não tenho nem poderei ter. Esbarramos aí com uma das maiores dificuldades de se fazer uma biografia, ou seja, de termos consciência da dissociação entre o personagem social e a percepção de si, fato que já no século XVIII, já era tido como um limite.

O segundo momento na história de como se tornou escritora é Julia mesma quem nos conta:



Pois eu em moça fazia versos.(...) A mim sempre me parecia que se viessem a saber desses versos em casa, viria o mundo abaixo. Um dia, porém, eu estava muito entretida na composição de uma história, uma história em verso(...), quando senti por trás de mim uma voz alegre: - Peguei-te, menina! Estremeci, pus as duas mãos em cima do papel, num arranco de defesa, mas não me foi possível. Minha irmã, adejando triunfalmente a folha e rindo a perder, bradava: - Então a menina faz versos? Vou mostrá-los ao papá!

- Papá, a Júlia faz versos!(...) Meu pai muito sério, descansou o Jornal. Ele, entretanto, severamente lia. (...) Leu, tornou a ler. Então o que achas? O pai entregou os versos, pegou de novo o jornal, sem uma palavra(...)Fiquei esmagada.

No dia seguinte fomos ver a Gemma Cuniberti (...) uma criança genial. Quando saímos do espetáculo(...), disse o pai de Júlia, O Castro pediu-me um artigo a respeito.(...)Disse-lhe: não faço eu, mas faz a Júlia...

Havia um jornal que exigia o meu trabalho. Era como se o mundo se transformasse. Sentei-me. E escrevi assim o meu primeiro artigo... Só mais tarde(...) é que vim a saber a doce invenção de meu pai. O Castro nunca exigira um artigo a respeito da Gemma...4
Existem dois aspectos importantes a serem ressaltados na fala de Julia: um é o fato dela destacar que começara a escrever escondido, mostrando uma grande preocupação em ser descoberta, discurso lugar comum entre todas as mulheres que iniciavam sua carreira e tinham o medo de escreverem à sombra de grandes homens (seus pais, irmãos, maridos) e serem sufocadas por essas sombras5.

O outro é exatamente oposto ao primeiro, ou seja, pertencendo Julia a uma família de artistas ela encontrou no pai, em oposição ao grande opressor, um grande apoio e incentivo a sua carreira. O fato de pertencer a um “lar de artistas” teve grande importância na trajetória de Júlia, pois sua formação foi marcada pelo exemplo de sua família e da educação recebida. Desde criança, teve bastante facilidade de circular por diferentes lugares, ler, ir ao teatro, viajar, e em decorrência disso, transferiu essa experiência de lidar bem com o público e com o privado para sua vida e sua obra. “Nasceu”6 numa escola e “morou”7 no teatro, e assim, sem querer ser determinista, não poderia ter sofrido maior influência do mundo das letras e das artes.

Essas palavras de Julia, tão coerentes com as das suas biógrafas, foram ditas no contexto de uma entrevista concedida a João do Rio para o Momento Literário. Não devemos esquecer, entretanto, que momentos como esse podem se tornar propícios para que o (a) entrevistado (a), desejando, pudesse “tornar-se ideólogo de sua própria vida, selecionando, em função de uma intenção global, certos acontecimentos significativos e estabelecendo entre eles conexões para lhes dar coerência”8, ou seja, orientar todo o esforço de apresentação de si, ou melhor, de produção de si. Pois, sabemos que “a memória é um fenômeno construído em função das preocupações pessoais e políticas do momento”9, e “implica um trabalho muito árduo, que toma tempo, e que consiste na valorização e hierarquização das datas, das personagens e dos acontecimentos”10, desta forma, ela poderia, então, apresentar alguns dados e omitir outros de acordo com seus objetivos11.

Contudo, não caberá a mim julgá-la, usá-la como prova12, como ilustração13 ou traçar um modelo (como faziam os cronistas de reis) – que seria apenas mais um, como disse Virgínia Woolf14 que caçoava do hábito dos biógrafos de explicar seis ou sete ‘eus’, quando uma pessoa possui milhares deles –, mas procurar conhecê-la e explicá-la como sujeito e intérprete de seu tempo.

Uma coisa, porém, é conhecida e reconhecida, Júlia Lopes, teve uma longa e brilhante carreira, mais de 40 anos, foi colaboradora dos principais periódicos (jornais e revistas) do país, deixando-nos um legado literário enorme, sendo sua obra das mais vastas de nossa literatura, abrangendo romances, contos, narrativas, literatura infantil, crônicas, teatro, poesia, conferências, impressões de viagem etc. Escreveu livros para as crianças, para as noivas, para as "donas e donzelas", para quem vivia no campo e na cidade, tratando das questões dos costumes e do cotidiano durante as últimas décadas do século XIX e início do século XX. E a receptividade de sua obra fez-se sentir não apenas junto ao público, como mereceu destaque nos meios da crítica literária, tanto como romancista, jornalista ou conferencista, sendo consagrada como uma das maiores escritoras brasileiras.

E apesar da incompatibilidade entre o ideal feminino e a imagem de artista que havia naqueles tempos – mesmo em se falando de mulheres instruídas e que pertenciam a uma classe social de recursos –, nossa escritora arrastou e venceu tudo isto,15conseguindo se destacar não só no meio literário feminino como também no masculino sendo elogiada, respeitada e criticada como qualquer um deles. E isso fica bem claro quando Filinto de Almeida, acadêmico, marido e irmão de sonho de Julia16, afirmou ser ela não apenas a maior romancista brasileira, mas um dos maiores romancistas do Brasil17, era ela que deveria estar na academia e não eu18, incluindo-a de forma categórica entre os escritores em geral, tirando-a do isolamento ao qual eram relegadas as escritoras na época.

Segundo Maria Eugênia Celso, jornalista, filha do acadêmico Affonso Celso, e amiga de Júlia e sua família, em um artigo sobre a inauguração, no Passeio Público, de uma herma em homenagem à escritora nos diz:

No clima intelectual ainda eivado de preconceitos do seu tempo, D. Julia foi com firmeza nunca desmentida da sua vocação para as letras e, ao mesmo tempo, o claro e honesto tradicionalismo de seu lar e de sua vida de mulher, um exemplo único e eloqüente de que as duas coisas não são opostas nem adversárias19.
Essa era outra representação de Julia Lopes unânime entre todos aqueles que a conheceram ou escreveram sobre ela, sendo bastante divulgada durante toda a sua vida e após a sua morte, ou seja, daquela que buscou durante toda sua vida conciliar a imagem da Nova Mulher – aquela que harmonizaria companheirismo e organização, rebeldia e luta – com o papel de mãe e esposa20.

E como conseguiu isso? Como uma mulher, pode tão bem conciliar uma vida pública tão intensa com uma vida privada exemplar?

Às vezes a impressão é que – vida e obra - as duas coisas se confundiam em Julia, para mim e para muitos críticos, intelectuais, amigos e os seus próprios filhos. A respeito, disse João Luso que a história de seu destino poderia ter sido escripta por ella mesma21, ou como por ocasião de sua morte um colunista de “A Nação” escreveu que ella própria realizou na vida a mais digna de suas heroínas22, ou ainda quando João do Rio nos diz que ela fala dos livros e dos filhos ao mesmo tempo. Estou a crer que os confunde23, palavras que mais tarde foram repetidas por sua filha Margarida, que disse ter ela e os irmãos um gêmeo na obra da mãe.

Julia parecia viver um dilema entre dois grandes amores: o do seu lar, onde foi a esposa admirável, a inspiradora e a companheira, e o das artes, o das letras, e parecia querer sempre vestir seu lado “demônio” em pele de “anjo”24, nunca assumindo claramente sua paixão pela leitura, pelo estudo, pelos passeios. Numa outra entrevista, concedida à A Noite, isso se torna patente, quando relata que: em Paris acompanhei os estudos de minha filha Margarida, [...] e tinha, por isso, a necessidade de freqüentar os museus...25. Mas ela parecia assumir esse dilema quando diz, na mesma entrevista à João do Rio, que era capaz de passar a vida lendo, mas uma dona de casa não pode perder tanto tempo ou ainda quando diz sou de pouca leitura, e uma frase depois, até fico nervosa quando vejo livros por abrir26.

Julia Lopes durante todo o tempo teve como sua principal marca, a ambigüidade. E esse traço de sua personalidade pode ser percebido claramente através de sua obra. Pois:

a obra não está fora do seu ‘contexto’ biográfico, não é o belo reflexo de eventos independentes dela. Da mesma forma que a literatura participa da sociedade (principalmente neste momento – romance histórico) que ela supostamente representa, a obra participa da vida do escritor. O que se deve levar em consideração não é a obra fora da vida, nem a vida fora da obra, mas sua difícil união. Falaremos então em “Bio/grafia” que percorre nos dois sentidos: da vida rumo à grafia ou da grafia rumo à vida27.
Confrontando-se as idéias e a vida pessoal da escritora, observa-se uma série de contradições, em que seu discurso conservador, muitas vezes, chocava-se com sua própria prática. Como poderia alguém que escreveu para O Paiz durante quase quarenta anos, além de outros periódicos importantes, realizou conferências, publicou tantos romances, fez representar peças de teatro, viajou para vários Estados do Brasil e para o exterior, ser compatível, por exemplo, com aquele “tipo ideal” de mãe traçada por ela mesma no seu Livro das Noivas?

Dessa forma, no que diz respeito à sua posição como mulher e escritora, reconhecida e respeitada por todos, quis manter-se na posição de prestígio conquistada, pois podia falar do que sentia e pensava – e o que pensava estava intimamente relacionado com uma visão de mundo burguesa – porém mantendo sempre essa ambigüidade como estratégia.

Julia em um artigo para “A Mensageira” em 15 de outubro de 1897 realça a importância da educação para as mulheres:

Uma mulher ignorante, ou fútil não pode ser uma mãe perfeita (...) Dirão que à mãe só compete formar o coração e que o resto fica por conta do pae e dos mestres...(...) Bom! Eu não quero nem posso ir muito longe! Este assumpto é perigosamente escorregadio; mal a gente pensa e está em um ponto a que não queria chegar! Retrocederei...28
Estas são palavras bastante intrigantes, mas que ao mesmo tempo dão a tônica do pensamento de Júlia que quando avança um pouco, logo, usando suas próprias palavras, retrocede. Mas porque ela retrocede? Porque ela não pode ir muito longe?

Nessa passagem, percebe-se que essa era uma forma bastante sutil encontrada por Júlia de contribuir para a “emancipação” da mulher, onde ela buscava nas suas entrelinhas e às vezes nas próprias linhas, perceber que o acesso da mulher à educação, mesmo que num primeiro momento fosse servir apenas para dar à ela um papel socialmente reconhecido, o de mãe – pois segundo ela como poderíamos todavia, encontrar outro mais amplo e sagrado – seria também o caminho, como na verdade o foi, de acesso ao mundo, pois é no filho que a mãe se renova e continua29, e foi através dos filhos que seus ideais passaram a ser concretizados até que mais tarde elas mesmas pudessem realizá-los.

Havia naquele momento um processo de “sentimentalização” do espaço privado, familiar, de confinamento da mulher ao lar, dando a ela um novo poder, um poder simbólico30 sobre seus filhos. Ao aceitar incumbir-se da educação dos filhos, essa mulher burguesa melhorava sua posição pessoal tornando-se o eixo da família, responsável pela casa e pelos filhos, pelos bens e pelas almas, a mãe sagrada, o “anjo do lar”.Em que pese uma situação social tão adversa, as mulheres articulavam formas sutis de contra-poderes, na qual a maternidade era uma, elas usavam estratégias condizentes com o que a sociedade delas esperava senão poderiam ser mal interpretadas, e sujeitas a todo tipo de rejeição e punição.

Porém, a função da mãe não consistia em somente cuidar fisicamente dos filhos, mas, sobretudo em saber educá-los. E concordo com Peggy Sharpe31 quando esta diz que a sacralização do papel materno na obra de Júlia Lopes era uma tentativa de colocar a educação feminina no centro dos problemas sociais econômicos e políticos da sociedade brasileira.

E, ao compararmos, a vida e a obra de Júlia Lopes, com o padrão positivista-burguês de construção de tipos femininos ideais – mulheres-mães que deveriam ter a maternidade acima de qualquer outro objetivo na vida, que deixariam de viver suas vontades, de ter uma profissão, para ficarem trancadas em casa cuidando dos filhos – podemos entender porque Júlia teria se mantido ambígua.

Júlia ao fazer um jogo de opiniões sobre a questão da maternidade, por exemplo, ora avançando, ora recuando, ao se dividir entre os papéis de mãe e escritora, teve por motivos, os mais diversos, como os já citados. E para além desses, Júlia parece ter reconhecido que, como mulher, tinha limitações naquela sociedade e, na minha opinião, ela discordou dessas limitações, o que não quer dizer que ela não as tenha aceito, por conveniência social, política e financeira.

Apesar dela ter dito numa entrevista à Noite que:

Não lhe direi que tenho orgulho das minhas produções literárias, pois as escrevi por simples prazer espiritual, sem um objetivo em vista32.
Na mesma entrevista ela reclama do fato de seu livro A Família Medeiros ter sido traduzido para o inglês: sem que do traductor tivesse eu (ela) recebido qualquer consulta ou pedido de autorização33, portanto, ela não parecia tão despretensiosa quanto dizia. E, conforme contara sua filha, Margarida Lopes de Almeida, a mãe, certa ocasião, levara toda a família à Europa com o que ganhou da publicação de um livro.34

E Sergio Miceli nos esclarece



No início do século XX, o jornalismo tornara-se um ofício compatível como o status de escritor. O Jornal do Comércio pagava trinta, cinqüenta e até sessenta mil-réis pela colaboração literária, o mesmo fazia o Correio da Manhã; em 1907, Bilac e Medeiros de Albuquerque recebiam salários mensais “decentes” pelas crônicas que publicavam, respectivamente na Gazeta de Notícias e em O País. O que fora para alguns românticos (por exemplo, Alencar e Macedo) uma atividade e uma prática “tolerada”, tornando-se depois para certos escritores da geração de 1870 (por exemplo, Machado de Assis) uma atividade regular, que lhe propiciava uma renda suplementar cada vez mais indispensável...35
Jornais esses para os quais Julia escreveu durante anos.

No século XIX, segundo Dulcília Buitoni36, encontramos duas direções bem definidas na imprensa feminina, uma de cunho mais tradicional que exaltava as virtudes domésticas e as “qualidades femininas”, e outra mais progressista que defendia os direitos das mulheres, dando grande ênfase à educação. E Júlia Lopes, circulou sem nenhum problema por esses dois tipos, abordando temas diversos, ora avançando e ora recuando quanto ao seu posicionamento frente ao padrão aceito para as mulheres naquele momento.

Quanto ao contexto, só para não faltar o pão no “sanduíche”37 que talvez já esteja com recheio demais, ela soube com grande estilo se utilizar dele, apesar de também não assumir isso. Ela produziu – segundo a tipologia38, expressa na sua biografia, com a qual eu concordo,– a parte mais significativa de sua vida e de sua obra junto à efervescência política de fins do Império e advento da República, em meio à luzes, automóveis, em meio à modernização da cidade do Rio de Janeiro que ela ajudou “Botar a baixo”39.

Como um flaneur40 , tudo o que D. Júlia Lopes de Almeida observou e colheu pela vida fora, tudo o que pôde surpreender no espetáculo da natureza, na intimidade dos seres, na alma das formas e dos aspectos ela colocou em suas obras. Apesar de ter dito a João do Rio não imagina como me aborrece a idéia de fazer romances com histórias verdadeiras. Entretanto sou vítima dessa suposição.41 Ela mais uma vez se contradiz quando em uma crônica para O Paiz ela disse: como meu objectivo era um estudo de local e de população, eu não olhava superficialmente por onde passava.42

A escritora também militou, ainda que até certo ponto, timidamente, junto ao movimento feminista expresso na Federação Brasileira Pelo Progresso Feminino que tinha como coordenadora Bertha Lutz. As maiores participações de Júlia Lopes junto a esse movimento se deram em dois momentos, em 1922 quando foi convidada a tomar parte na Comissão de Relações Internacionais e Paz da Conferência pelo Progresso Feminino e, em 1931, quando a Federação promoveu o IIº Congresso Internacional Feminista, realizado no Rio de Janeiro, cuja fala inaugural43 coube à escritora.

No entanto, apesar não ter se envolvido diretamente com as feministas, Julia parecia reclamar algo mais para as mulheres quando disse: aqui o homem ainda é o inimigo da mulher. Lá é um irmão. É só essa a diferença44, se referindo ao tratamento desigual aplicado às mulheres nos EUA e no Brasil. E confirma sua indignação, dizendo explicitamente que a mulher póde mais do que pensa, principalmente em um paiz novo, que precisa de todos os concursos45.

Júlia também trabalhou em prol da beneficência, “contribuiu para a formação e desenvolvimento de grande números de instituições educativas e de caridade.”46 Além disso,

esteve envolvida com o caminho aéreo para o Pão de Açúcar, o Mercado das Flores foi obra sua, assim como a primeira exposição de flores organizada na cidade. Foi ela quem teve a idéia e lutou para que hortênsias fossem plantadas às margens do rio canalizado em Petrópolis. Fez campanha pela instalação de creches. Estava imbuída de uma missão pedagógica de melhoria das condições de ensino, do modo de vida, da mudança do papel social da mulher.47
E desta forma foi se tornando pouco a pouco a mestra da arte de escrever e da arte de viver48, a estrela de primeira grandeza de nossa literatura49, uma figura de excepção50 e ainda aquela que com a coragem da sua penna primorosa, desbastara a estrada áspera e rude, vedada pelo preconceito absurdo, às suas irmãs mais tímida51, ou seja, a grande bandeirante das letras femininas no Brasil52, uma verdadeira missionária53.

E tendo ela produzido sua identidade – no seu sentido mais simples, como imagem de si, para si e para os outros – não podemos esquecer que esse “é um fenômeno que se produz em referência aos outros, em referência aos critérios de aceitabilidade, de admissibilidade, de credibilidade, e que se faz por meio da negociação direta com os outros”54.

E Júlia Lopes foi grande política no sentido de conseguir manter-se aceita e, bem aceita, numa sociedade onde o simples fato de uma mulher expor seu pensamento, fosse escrevendo ou de qualquer outro modo, era considerado uma grande ousadia.

Ela conseguia ter ouvida sua voz, através de suas crônicas ou pelas relações pessoais que mantinha com os muitos políticos, intelectuais companheiros de seu esposo Filinto de Almeida na Academia Brasileira de Letras. Por isso não poderia arriscar perder seu prestígio e seu espaço conquistado, para ser uma escritora radical.

Julia Lopes de Almeida é uma escritora de raça55 já dizia Alfredo Pujol, só, os animais fortes percorrem as florestas sozinhos, sem receio56, e Julia apesar de não ter estado sozinha, não teve receio, não precisou se esconder atrás de pseudônimos, pois sabia ser sutil, escreveu e publicou num flagrante desafio à ordem.

Ela faleceu, no Rio de Janeiro, a 31 de maio de 1934, com 72 anos, e “Ali estava, além do seu marido, seu companheiro de quase meio século, um pouco de tudo, o mais que ela prezara e amara na vida: alguns dos seus filhos, uma das suas irmãs, alguns amigos, alguns livros, algumas flores”.57

Depois de sua morte, Julia recebeu várias homenagens a primeira delas da Academia Brasileira de Letras58, e outras que se deram mais tarde, uma feita pelo Centro Carioca, outra pelo Centro Catholico, em 30 de maio de 1939 quando foi inaugurada sua herma (escultura feita em bronze por sua filha Margarida) no Passeio Público e outra realizada pela Senhora Hortência de Ulhôa Cintra, que pelo microfone da Sociedade Rádio Nacional, fazia duas audições semanais onde artistas liam e dialogavam as produções de Dona Júlia, recebendo “a Escritora as duas maiores consagrações: a clássica, representada na estátua; a moderna, servida pela radiodifusão”.59

Julia soube entrar e sair da vida como entrava e saía dos – congressos, conferências, teatros, vernissages, coquetéis de inauguração, festas de encerramento – com muita elegância, em grande estilo, “vestida” de forma apropriada para cada ocasião, mas, sempre à “moda” da época. Ela conseguiu durante todo tempo servir sem servir, fugir mas ficando, obedecer negando, ser fiel traindo60.



Dessa forma, posso dizer que Julia é um testemunho histórico rico de toda uma época, uma classe, um sexo, uma raça, uma etnia, ou ainda como diria Leôncio Correia a mais luminosa documentação da intelligencia feminina no Brasil61.

Sois [...] unânimes [...] em concordar conosco, se dissermos dela o que, de Moliére, disseram os acadêmicos de França:
Rien ne manque à sa gloire,

Il manquait á la nótre’.
Nada falta, com efeito, à gloria dela. Ela, realmente, fez falta à nossa glória62

1 Iracema Guimarães Villela. “PAGINAS soltas... e Pagina de Saudade”. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 4 Jun. 1935.

2 Carta-biografia escrita pela sobrinha junto à filha (Margarida) de Júlia Lopes de Almeida. Rio de Janeiro, 7 de agosto de 1962. p. 1. MIMEO

3 “... a vida constitui um todo, conjunto coerente e orientado que pode e deve ser apreendido como expressão unitária de uma “intenção” subjetiva e objetiva, de um projeto”. Pierre Bourdieu. “A ilusão biográfica”. In: Usos e abusos da História Oral. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1998. p. 184.

4 João do Rio. “Um lar de Artistas”. In: Momento Literário. Rio de janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 1994. (1ª Edição. Garnier, 1907.);

5 Cf. Constância Lima Duarte. “O Cânone Literário e a autoria Feminina”. In: Neuma Aguiar (org.) Gênero e Ciências Humanas: desafio às ciências desde a perspectiva das mulheres. Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Ventos, 1997. p. 87

6 Júlia Valentina da Silveira Lopes nasceu no Rio de Janeiro a 24 de setembro de 1862, “num casarão da rua do Lavradio nº 53 onde seu pai tinha então o (...) “Colégio de Humanidade”. Cf. Carta-biografia. Op. Cit. p. 1

7 Seu pai era também médico do teatro mais importante da cidade, visinho à sua residência e a ela ligada por uma passagem direta de uma de suas salas ao seu camarote privativo. Cf. Carta-biografia. Op. Cit. p. 2.

8 Pierre Bourdieu. “A ilusão biográfica”. In: Usos e abusos da História Oral. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1998. p. 184-185.

9 Michel Pollak. “Memória e identidade social”. In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol.5 ª 10. p. 204.

10 Idem p. 205.

11 “Essa vida organizada como uma história transcorre segundo uma ordem cronológica que também é uma ordem lógica, desde um começo [...] até seu término, que também é um objetivo. Pierre Bourdieu. “A ilusão biográfica”. In: Usos e abusos da História Oral. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1998. p. 184.

12 Digo prova da irredutibilidade do indivíduo às regras, ou da validade das mesmas regras. Cf. in Giovani Levi. “Usos da biografia”. In: Usos e abusos da História Oral. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1998. p. 167.

13 Como no caso da biografia modal onde “as biografias individuais só despertam interesse quando ilustram os comportamentos ou as aparências ligadas às condições sociais estatisticamente mais freqüentes”. Cf. in Giovani Levi. “Usos da biografia”. In: Usos e abusos da História Oral. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1998. p. 174.

14 Virginia Woolf, Orlando. Paris: Gallimard-Flammarion, 1982. 1982, 1a ed.: 1928.

15 Maria Eugenia Celso. “A Herma de D. Julia”. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 18 abr. 1939.

16 “Dona Julia Lopes De Almeida”. Fon Fon, Rio de Janeiro, 15 Jun. 1935.

17 “Consagrada no Bronze, uma grande escriptora: decorreu brilhante a inauguração da herma de D. Julia Lopes de Almeida, no Passeio Publico”. O Globo, Rio de Janeiro, 30 maio 1939.

18 João do Rio. “Um lar de Artistas”. In: Momento Literário. Rio de janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 1994. (1ª Edição. Garnier, 1907.); p. 33.

19 Celso, Maria Eugenia. A herma de D. Julia. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 18 de Abril de 1939.

20 Rachel Soihet. Em avanços sutis, as rupturas. Texto apresentado na ANPHU Regional, Niterói, UFF, 2000. Muitas das reflexões aqui levantadas partiram desse texto e da orientação da Profa. Dra. Rachel Soihet durante o período de um pouco mais de dois anos em que fiz parte de seu Projeto Integrado do CNPq.

21 “Academia Brasileira sessão consagrada a D. Julia Lopes De Almeida”. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 31 Maio 1935.

22 “D. Julia Lopes de Almeida: terra carioca guarda o corpo de sua maior escriptora”. Á Nação, Rio de Janeiro, 01 junho 1934.

23 João do Rio. Op. cit.. p. 35.

24 Faço referência ao texto de Constância Lima Duarte. Op.cit. p. 403. onde ela faz essa oposição entre mulher “... quando maternal e delicada, como força do bem, mas, quando “usurpadora” de atividades que não lhe eram culturalmente atribuídas, como potências do mal.”

25 “Uma visão de Paris e outras Metropoles da Europa: Como falou à A NOITE, após alguns annos de ausencia do Brasil, a escriptora Julia Lopes de Almeida”. A Noite, Rio de Janeiro, 11 maio 1931.

26 João do Rio. Op. cit.. p. 34.

27 Dominique Maingueneau. O contexto da obra literária. São Paulo: Martins Fontes, 1995. p.46.

28 Júlia Lopes de Almeida. “Entre Amigas”. In: A Mensageira. Vol.I. Ed. Facsimilar. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado S.A. IMESP. p. 4. [Grifo Meu].

29 Almeida, Julia Lopes de. Maternidade. In: Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, quarta-feira 20 agosto. 1924. Anno 98. Nº 229. p.3.

30O Poder Simbólico é, com efeito, um poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem. Bourdieu, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Difel, 1989. p. 7-8.

31 Peggy Sharpe. O caminho crítico d’A Viúva Simões. In: ALMEIDA, Julia Lopes de. A Viúva Simões. Florianóplis: Editora Mulheres, 1999.

32 “Uma visão de Paris e outras Metropoles da Europa: Como falou a A NOITE, após alguns annos de ausencia do Brasil, a escriptora Julia Lopes de Almeida”. A Noite, Rio de Janeiro, 11 maio 1931.

33 Idem.

34 Norma Telles. “Escritoras, Escritas, Escrituras”. In: Del Priore, Mary. História das Mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto/UNESP, 1997. p. 441.

35 Sergio Miceli. Intelectuais à brasileira. São Paulo: Cia das Letras, 2001. p. 54.

36 Ducília Helena Schroeder Buitone. Mulher de Papel: a representação da mulher pela imprensa feminina. São Paulo: Edições Loyola, 1981.

37 Falo do paradoxo do sanduíche: um pouco de contexto, um pouco de existência individual e outra camada de contexto. Cf. LORIGA, Sabina. “A biografia como problema”. In: REVEL, Jacques (org.). Jogos de Escala: a experiência da microanálise. RJ: FGV, 1998. p. 247-248. nota 96.

38 Gleno de Paiva no artigo “Mulheres Brasileiras”, em 1950, estabelece uma tipologia interessante, dividindo o período de produção de Júlia Lopes de Almeida em três partes. A primeira delas seria a de “iniciação literária”, compreendendo: “Traços e Iluminuras”, “A Família Medeiros” e “Memórias de Martha”, uma segunda, a mais fecunda, onde segundo ele estariam “os seus melhores contos e romances” compreendendo o período que vai de “A Falência” até a publicação de “Silveirinha” em 1914. Na terceira parte escreveu “A Árvore” em 1916, “A Isca” e “Jardim Florido” em 1922, “Maternidade” em 1925, “A Casa Verde” em 1932 e “Pássaro Tonto” em 1934, entre outras.

39 Faço referência ao período das reformas de Pereira Passos (sua administração teve início em 1902), período de modernização da cidade do Rio de Janeiro, quando em suas crônicas, Julia Lopes expressava opiniões contra ou à favor de determinadas mudanças – como por exemplo suas intervenções quanto aos morros do Castelo e de Santo Antônio – na cidade e na sociedade como um todo.

40 “...associa-se à idéia de flanar como perambular com inteligência...” usado por Antonio Edmilson In: Edmilson, Antonio. João do Rio: a cidade e o poeta. RJ: FGV, 2000. p. 17.

41 Rio, João do. Op. cit., p. 32.

42 Almeida, Julia Lopes de. O fundo do Quadro. O Paiz. Rio de Janeiro, 01 de setembro de 1908. anno XXIV. Nº 8734.

43 Arquivo Nacional. Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (AP. 46 cx. 2/ QO/SPD).

44 Julia Lopes de Almeida. O Paiz.Terça-feira, 25 de agosto de 1908, anno XXIV, n. 8727.

45 Julia Lopes de Almeida. O Paiz.Terça-feira, 29 de junho de 1909, anno XXV, n. 9034.

46 Desapparece um escriptora patrícia. Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 31 de maio de 1934.

47 Norma Telles. Op. cit. p.436.

48 Celso, Maria Eugenia. A herma de D. Julia. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 18 de Abril de 1939.

49 “D. Julia Lopes de Almeida: o fallecimento, hontem, da grande escriptora brasileira”. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 31 maio 1934.

50 “Dona Julia Lopes De Almeida”. Fon Fon, Rio de Janeiro, 15 Jun. 1935.

51 “A Herma de Julia Lopes”. Diario Carioca, Rio de Janeiro, 4 mar. 1939.

52 “NA passagem do quinto aniversario de sua morte: Inaugurada a herma de D. Julia Lopes de Almeida, hontem, no Passeio Publico com grande solenidade”. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 31 maio 1939.

53 “A Herma de Julia Lopes”. Diario Carioca, Rio de Janeiro, 4 mar. 1939.

54 Michel Pollak. “Memória e identidade social”. In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol.5 ª 10. p. 204-205.

55 Pujol, Alfredo. “Os meus Domingos”, de J. L. A.. Revista da Academia Paulista de Letras, São Paulo, ano 5, 17 (17): 135-5, mar.1942.

56 E. P.. “O Mundo das Letras: as Mulheres e a Academia”. O Globo, Rio de Janeiro, 7 set. 1936.

57 Anais da Academia Brasileira de Letras. Ano 27. Nº 163. Vol. 48. (PM) – RJ. P. 621. Julho de 1935.

58 “Se a Academia Brasileira de Letras, que tanto lhe admirava o talento, não se lembrou de chamá-la ao grêmio foi apenas por uma questão de interpretação rigorista dos estatutos e quiçá de preconceito”. Anais da Academia Brasileira de Letras. Ano 27. Nº 163. Vol. 48. (PM) – RJ. p. 271. Julho de 1935. “E o maior lucro seria da Academia” D. B. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 31 de maio de 1935.

59 “O sr. João Luso, referindo-se ao 5º aniversário do falecimento de dona Júlia Lopes de Almeida.” Anais da Academia Brasileira de Letras. Ano 58. Vol. 37. Rio de Janeiro. p. 323-324. Janeiro a Junho de 1939.

60 Sergio Miceli. Op. cit. p.72

61 Leôncio Correia. “Julia Lopes de Almeida”. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 5 jan. 1936.

62 Maria Eugênia Celso. “Notas Sociais Femininas...”. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 31 maio 1935.

X Encontro Regional de História – ANPUH-RJ



História e Biografias - Universidade do Estado do Rio de Janeiro - 2002



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