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Karl Jaspers

INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO

CULTRIX

KARL JASPERS



INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO
Tradução de:

LEONIDAS HEGENBERG

e

OCTANNY SILVEIRA DA MOTA



Título do original:

KLEINE SCHULE DES PHILOSOPHISCHEN DENKENS

© R. Piper & Co. Verlag, München 1965 3.ª edição

MCMLXXVI

Direitos de tradução para a língua portuguesa adquiridos com exclusividade pela EDITORA CULTRIX LTDA.

Rua Conselheiro Furtado, 648, fone 278-4811, S. Paulo, que se reserva a propriedade literária desta tradução.

Impresso no Brasil



Printed in Brazil

ÍNDICE

Prefácio 11

I. O UNIVERSO E A VIDA 15

1. Dois acontecimentos: 1919 e 1945 15

2. Universo e matéria 16

3. A Terra no universo vazio 18

4. A situação espiritual criada pelas ciências da natureza 20

5. Teses a propósito do conhecimento do mundo 23

II. A HISTÓRIA E O PRESENTE 25

1. Aspecto atual da História 25

2. O milagre da História no plano cósmico 26

3. A História não é prolongamento da natureza 27

4. A ciência histórica e seus limites 28

5. A situação presente e seus problemas 29

6. Consciência e autodestruição 29

7. História e responsabilidade 32

8. Transcendendo a História 33

III. O CONHECIMENTO FUNDAMENTAL 35

1. Retrospecto e problemas novos 35

2. Ponto de partida: a dicotomia sujeito-objeto 36

3. A operação filosófica fundamental. O mundo e sua

manifestação 38

4. Os modos do abrangente 38

5. Modificação da atitude interior, por força do conhecimento

fundamental 41

6. Vã procura de uma realidade para além da dicotomia

sujeito-objeto 42

7. Os múltiplos caminhos do pensamento filosófico 44

IV. O HOMEM 45

1. O problema do homem 45

2. O mutismo da natureza e a linguagem humana 46

3. Não nos compreendemos, nem a partir do mundo e da

História, nem a partir de nós mesmos 46

4. Traços da natureza do homem 47

5. A consciência, que o homem tem, de ser diferente de cada

uma de suas manifestações 48

6. A luta por uma imagem do homem 48

7. O homem não se basta 50

8. Ultrapassar-se: progresso do mundo 50

9. Ultrapassar-se: a Transcendência 52

10. Coragem e esperança 53

11. Dignidade do homem 53

V. O DEBATE POLÍTICO 55

1. Exemplo de debate político 55

2. Observação a propósito de discussões desse gênero 62

3. O papel da reflexão filosófica no debate político 64

VI. A POSIÇÃO DO HOMEM NA POLÍTICA 66

1. Os dois pólos da política 66

2. Comportamento do homem na política 67

3. Grandeza do homem na política 67

4. O caminho: liberdade política 69

5. Historicidade da liberdade política 70

6. Liberdade implica em corrupção? 71

7. Autodestruição da liberdade 72

8. Objeções à liberdade 72

9. A alternativa 73

10. A decisão 74

VII. CONHECIMENTO E JUÍZO DE VALOR 75

1. O ato filosófico de fazer a distinção 75

2. O diálogo 75

3. A tese de Max Weber 77

4. Ciências naturais e ciências humanas 78

5. Em que sentido existe liberdade? 79

6. Juízos opostos acerca de um mesmo significado 80

7. Elaboração dos “pontos de vista últimos” 80

8. Poderes e alternativas 81

9. Resumo 83

10. Imparcialidade, veracidade, liberdade 83

VIII. PSICOLOGIA E SOCIOLOGIA 85

1. Aspectos da psicologia e da sociologia. Marx e Freud 85

2. Discussão com um marxista 86

3. Discussão com um psicanalista 88

4. Análise das discussões anteriores 90

5. Ciências universais e filosofia 91

6. Conseqüências do totalitarismo científico 92

7. O filósofo vinculado a suas origens 93

IX OPINIÃO PÚBLICA 95

1. Exemplos 95

2. Desejo de verdade, desejo de poder 95

3. O âmbito da política 97

4. Conceito de opinião pública, a partir da idéia de liberdade

política 98

5. O mundo dos escritores 99

6. Idéia e realidade 101

7. O segredo 101

8. A censura 102

9. O risco da publicidade 103

X. OS ENIGMAS 106

1. Exemplo: o Sinai 106

2. Outros exemplos 108

3. Os enigmas têm origem na experiência de liberdade 110

4. Noção de enigma 112

5. Transformação da corporeidade da Transcendência em

linguagem de enigmas 113

6. Evolução da religião bíblica 114

7. Idéia de um desenvolvimento dos enigmas em seus

conflitos 115

XI. A AMOR 117

1. Lembrança do apóstolo Paulo 117

2. O amor sexual 118

3. O antagonismo original 119

4. O esquema sexualidade — erotismo — casamento 119

5. O amor metafísico 120

6. O paradoxo do amor metafísico no mundo 121

7. O amor metafísico pode participar da ordem do mundo? 122

8. Os elementos do amor entram em choque 123

9. O amor no mais largo sentido da palavra 124

10. Amor e consciência 126

XII. A MORTE 127

1. Só o homem tem consciência da morte 127

2. Por que a morte? 127

3. Medo de morrer e medo da morte 128

4. Maneiras de conceber a morte 128

5. Sede de imortalidade 129

6. Tempo cíclico e tempo linear 130

7. Temporalidade, intemporalidade, eternidade 131

8. Lembrança da reviravolta filosófica a respeito

da consciência do ser 132

9. A experiência existencial da eternidade 133

10. Sentido das afirmações especulativas e existenciais 133

11. A sinceridade 134

12. Os enigmas face à morte 135

XIII. A FILOSOFIA NO MUNDO 138

1. Atitude da filosofia frente ao mundo 138

2. Atitude do mundo frente à filosofia 138

3. A filosofia deseja a verdade 140

4. A sinceridade é a aventura do homem 140

5. A aristocracia filosófica e a massa 142

6. A independência do homem filósofo 143

7. A consciência humana de impotência 144

8. A situação de nosso tempo. Está próximo o fim? 145

9. Qual o papel atual da filosofia? 147

PREFÁCIO

Quando a Rádio Baviera me dirigiu convite para pronunciar, através da televisão, uma série de conferências semanais a propósito de filosofia, fui tomado de surpresa. Que audácia por parte da rádio e que desafio para o conferencista! Não hesitei. A filosofia se destina ao homem e a todos diz respeito. Como título para as exposições propus “Introdução ao Pensamento Filosófico”.

Iniciação — isso não significava que eu fosse falar acerca dè trivialidades filosóficas, nem que fosse fornecer informações simples, a fim de preparar o ouvinte para atividade no campo filosófico. Não existem aquelas trivialidades ou estas informações simples. Tão logo se filosofa, entra-se em contacto com os grandes temas da filosofia. E se isso não acontece é porque da filosofia se está longe. A palavra iniciação alude apenas à brevidade do texto: a atenção girará em torno de idéias verdadeiramente filosóficas.

Pensamento — não se tratava de ensinar algo que, depois, estaria conhecido. Não se tratava de transmitir conhecimentos elementares. Tratava-se, antes, de percorrer certas trajetórias do pensamento, na esperança de produzir no ouvinte (ainda que de experiências filosóficas, até então, apenas inconscientes) o sobressalto que nos dá súbita compreensão daquilo a que a filosofia se refere.

Filosófico, enfim. Quer isso dizer que importa conduzir o pensamento empírico e racional até seus limites extremos, até o ponto em que revela suas origens. No caso, método não significa aprendizado de operações de lógica formal ou de análise de linguagem, que são úteis mas não

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de natureza filosófica. O objetivo do pensar filosófico é levar a uma forma de pensamento capaz de iluminar-nos interiormente e de iluminar o caminho diante de nós, permitindo-nos apreender o fundamento onde encontremos significado e orientação.



A meia hora de programação semanal reclamava que, de cada vez, fosse feita exposição completa de uma questão. Escolhi (dentre muitos outros possíveis) treze temas:
Pontos de Partida


  1. O Universo e a Vida

  2. A História e o Presente

  3. O Conhecimento Fundamental

  4. O Homem

Em Torno da Política




  1. O Debate Político

  2. A Posição do Homem na Política

  3. Conhecimento Empírico e Juízo de Valor

  4. Psicologia e Sociologia

  5. Opinião Pública

Âncoras na Eternidade




  1. Os Enigmas.

  2. O Amor

  3. A Morte

Conclusão




  1. A Filosofia no Mundo

Nas exposições, parto de experiências sensíveis, de realidades da natureza ou da vida, de tradições, caminhando, em cada caso, até as fronteiras que marcam o surgimento de questões a que a ciência não responde. Aí, diante do ser, vemo-nos presa do espanto; e indagamos de nós próprios acerca do sentido e missão de nossa existência.

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As conferências não mantêm entre si liame tal que se ponha cada uma delas como seqüência da anterior. Cada qual, à sua maneira, começa do começo. Todos se dirigem para um centro comum que não poderíamos considerar exatamente como tema. Essa orientação geral lhes confere unidade.



A filosofia é universal. Nada existe que a ela não diga respeito. Quem se dedica à filosofia interessa-se por tudo. Mas não há homem que possa tudo conhecer. Que distingue a vã pretensão de tudo saber do propósito filosófico de apreender o todo? O saber é infinito e difuso; dele se valendo, procura a filosofia aquele centro a que fazíamos referência. O simples saber é uma acumulação, a filosofia é uma unidade. O saber é racional e igualmente acessível a qualquer inteligência. A filosofia é o modo de pensamento que termina por constituir a essência mesma de um ser humano.

Em torno desse modo de pensamento é que estas conferências pretendem girar. Abertas para o real, seja o real o que for, tentam essas exposições descobrir o caminho que leva do real ao fundo das coisas, buscam, a partir desse fundo, lançar luz sobre as realidades. Tal a razão por que o problema reside em dar o salto em direção desta outra maneira de pensar.

Conquanto de objetivo elevado, devem ser simples as conferências. Do oceano de conhecimentos, utilizaremos tão-somente pequenas gotas. E não inalaremos senão umas poucas porções do ar da imensa atmosfera filosófica.

Essas metáforas pretendem significar o seguinte: para que a seiva do conhecimento se transforme em alimento espiritual, importa que esteja presente não apenas a inteligência, mas, em sua plenitude, o homem que, pensando, apresa aquele conhecimento. E, para fazer-se revigorante. o ar puro das regiões filosóficas há de constituir-se na realidade que se vive e se respira.

A idéia pode suscitar no ouvinte o desejo de assim proceder. O simples desejo, entretanto, nada significa. A cada indivíduo cabe dar o passo que leva do simples ouvir

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à participação direta. Ao longo das presentes conferências, enfrentaremos, repetidamente, problemas que se colocam no limite do lógico e do empírico. Começaremos por acolher as respostas dadas. Nenhuma será a última. Cada qual conduzirá a novas indagações, até que a indagação final tenha o silêncio como resposta — e não por ser uma indagação vazia. Surge o silêncio que não é o abrigo do nada, mas onde a própria essência do homem encontra meios de falar-lhe através de seu eu mais íntimo, através de suas necessidades, da razão, do amor.



KARL JASPERS

Basiléia, outubro de 1964.

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I.

O UNIVERSO E A VIDA

1. Somos testemunhas de um tempo em que o conhecimento do universo e da vida conseguiu surpreendente progresso; somos testemunhas também de acontecimentos que impedem o homem de ignorar as conquistas alcançadas. Lembrarei dois desses acontecimentos.

Em 1919, imediatamente após a Primeira Guerra Mundial, em meio às chagas produzidas pelas hostilidades, manifestou-se um evento que dizia respeito ao homem como homem. Quando de um eclipse do sol, ocorrido no hemisfério sul, uma expedição organizada pelos ingleses conseguiu realizar observações tecnicamente difíceis. As medidas feitas comprovaram o acerto de afirmações até então aparentemente fantásticas, devido a um sábio alemão, Einstein; a partir do mesmo evento se pôde inferir a exatidão parcial de uma teoria que sustentava, entre outros pontos, não ser o universo um espaço de três dimensões, mas espaço curvo, sem limites, embora finito. Os especialistas conheciam a teoria da relatividade; as pessoas instruídas dela haviam, por vezes, ouvido falar e a consideravam como um jeu d’esprit. E, de um momento para outro, não mais se tratava de especulação, mas de algo experimentalmente provado. Espanto insólito apoderou-se de todos. A natureza do universo é, com efeito, problema que nos interessa na liberdade gloriosa de nossa vontade de conhecer. Sentiu-se que evidências longamente admitidas perdiam significado. A humanidade orgulhava-se da ciência e daí retirava uma alegria geral, despida de egoísmo.

Em 1945, bombas tombaram sobre Hiroxima e Nagasaqui. De há muito se haviam comentado as idéias de

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Einstein: a matéria dos átomos encerrava uma energia diante da qual pareceriam ridículas todas as energias que a técnica pudera produzir. Desconhecia-se, entretanto, a maneira de libertar a energia do átomo. Em conseqüência, aquelas idéias eram aparentemente vazias de interesse prático. Dizia-se: “estamos sentados sobre um vulcão que jamais entrará em atividade”. Ainda no decurso da Segunda Guerra Mundial, um célebre físico alemão concluía, por meio de cálculos, ser impossível a fabricação de bombas atômicas; nesse mesmo instante, europeus emigrados para os Estados Unidos da América estavam fabricando as mesmas bombas. Repentinamente, caindo sobre Hiroxima, a bomba atômica tornou-se uma realidade. De início os cientistas alemães recusaram-se a acreditar nas informações. Em seguida, todos os capazes de compreender viram-se tomados de horror. O orgulho pelo poderio científico deu lugar ao temor diante do que surgia.



2. Após esses dois acontecimentos, as novas concepções a respeito do universo e da matéria impuseram-se irresistivelmente.

O universo revela-se a nossos olhos, graças a telescópios cada vez mais poderosos e apresenta-se-nos da forma seguinte: a Via Láctea está povoada de bilhões de sóis; há milhares de outras vias lácteas, as nebulosas; e sabemos que a mais próxima de nós, a que podemos divisar com a vista desarmada, a Nebulosa da Andrômeda, não passa de uma dentre os milhares de nebulosas invisíveis a olho nu.

Sob este ponto, entretanto, tudo se mantém conforme as idéias que tínhamos acerca do mundo: a diferença, embora enorme, é apenas quantitativa. O que há, porém, de inusitado e fora de proporção a qualquer precedente, é o fato de esse universo sensível corresponder tão-somente ao primeiro plano do universo real, que só pode ser pensado. Mas não representado. Que só é acessível através de fórmulas matemáticas e, ainda assim, de caráter provisório. De início, Einstein concebeu o universo como um espaço curvo, finito mas ilimitado, de dimensões suscetíveis de cálculo. Posteriormente, esse universo tornou-se um mundo em

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perpétua expansão, um mundo cuja origem no tempo era impossível determinar. Essas hipóteses matemáticas enchem-se de sentido quando possível corroborá-las pela observação e pelas medidas, mas tornam-se indiferentes quando impossível comprová-las por meio de novas observações. Todo aquele que promove o avanço de uma ciência vê-se a braços com dificuldades intransponíveis. Não há como fazer prova científica e definitiva de qualquer dessas matemáticas e abstratas concepções do universo como um todo. O caminho que leva ao conhecimento do universo perde-se, por assim dizer, no infinito.



Como a do universo, também a visão que tínhamos da matéria modificou-se por força de descobertas irrefutáveis. A descoberta da radioatividade, no último decênio do século XIX, e a análise do átomo já representaram, para os especialistas, uma revolução intelectual. Os átomos cuja existência se comprova com evidência maior que a conseguida anteriormente — continuam a existir, mas, longe de se constituírem nas partículas elementares últimas, compõem-se de elementos ainda menores: prótons, nêutrons, elétrons etc. E impôs-se rever inteiramente a concepção que se fazia da matéria.

Antes de tudo, deixaram de existir partículas elementares últimas. Quando empregamos termos concretos, como onda e corpúsculo, termos contraditórios no plano de representação, estamos, em verdade, pensando em termos complementares e não contraditórios, só apreensíveis no plano da matemática. Em segundo lugar, continua-se a efetuar o descobrimento de novas partículas “elementares” (mésons, etc), sem atingir as últimas e menores partes da matéria. Há alguns anos, experiências realizadas na Universidade de Stanford conduziram aos seguintes resultados: os prótons não são partículas elementares, mas, diversamente, estruturas onde está presente um núcleo de alta densidade, rodeado por uma nuvem de mésons. Em conseqüência, alguns físicos imaginam que talvez jamais se atinja o fundo íntimo da matéria, sendo sempre descobertas novas subdivisões das partículas elementares. Em outras palavras, isso corresponde ao colapso da idéia de que a matéria constitui o fundamento obscuro de tudo quanto existe. Ao contrário, a matéria se

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abre para a pesquisa ad infinitum; não mais é concebida como substância primária. Todos os corpos são aparências e não realidades fundamentais. A essência da matéria permanece indefinida.



3. O universo e a matéria projetam nosso conhecimento do mundo para os infinitos; o primeiro, para o infinitamente grande, sempre em expansão; o segundo para o infinitamente pequeno, sempre em contração. Mas, com isso, o mundo não se esgota: o universo inclui a Terra, grão de poeira perdido na imensidade, diminuta porção de matéria sobre a qual vivemos. Esse é o nosso mundo, onde vivem plantas e animais, onde se desenvolvem as paisagens, ocorrem fenômenos meteorológicos e existe a abóbada celeste; e onde aparecemos também nós, os homens. Enorme — tanto que, a ele comparado, tudo quanto se descreveu é nada — o universo, segundo sabemos, não passa de um deserto onde se move, vazia de sentido, a massa da matéria sem vida.

Contudo, se nosso mundo, este mundo esplêndido e cruel, está ligado à matéria, é infinitamente mais do que ela e não pode ser compreendido a partir dela.

Desse mundo a ciência construiu uma visão radicalmente nova. Exemplifiquemos: desde a antiguidade, acreditava-se numa grande unidade, brotada de uma hierarquia dentro da qual um estágio decorria logicamente do anterior: matéria inerte, vida vegetal e animal, psiquismo, consciência psicológica, pensamento. Desde que se concebeu a idéia de evolução no tempo, essa bela unidade de conjunto permitiu que se visse a história terrestre e universal como um panorama apaixonante, onde o homem ocupava a posição mais alta. Hoje em dia, não mais se crê nessa unidade. O que sucede não é decorrente do que precede: dele está separado por um salto. Os níveis da hierarquia não se explicam um pelo outro, e nenhum deles se explica por si mesmo. Falta um princípio unificador de todas as coisas.

Entretanto, após haver destruído essas vagas concepções de unidade, a ciência fêz ressurgir a unidade sob novo aspecto: através do conhecimento das relações que ligam os diversos níveis, conhecimento que, em nossos dias, tem

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progredido constantemente. Aqui, falarei apenas de relações entre a matéria inerte e a vida.



No século XIX, provou-se que, na natureza, toda vida provém da vida — omne vivum ex ovo. A geração da vida a partir da matéria, a transição do não-vivo ao vivo, até então admitidas, revelaram-se ilusão. Mas, ao mesmo tempo, descobria-se meio novo de transpor o abismo. A partir do não-orgânico, puderam os químicos fazer surgir, em laboratório, sinteticamente, corpos orgânicos, até então somente produzidos pela vida — e, dentre estes, o primeiro a ser obtido foi a uréia, em 1828. Daí brotou a química orgânica moderna. Foram descobertos numerosos corpos orgânicos, inclusive as complexíssimas moléculas de albumina — mas todos esses corpos sem vida.

Não obstante, são muitos os que não deixam de acreditar surja o dia em que será possível criar a substância viva, criar a vida mesma, a partir da matéria. Isso, porém, é impossível. A vida não é apenas substância altamente complexa, mas também corpo vivo. Tem este uma estrutura morfológica suscetível de análise ao infinito; não é máquina físico-químico que, se possível de ser construída, seria necessariamente finita. E a vida não é apenas corpo vivo, mas existência, que implica uma intimidade (o ser considerado) e uma exterioridade (o meio, o mundo) e existência sobre a qual a vida age. Os aparelhos orgânicos, seu quimismo finalista, os. órgãos dos sentidos são produzidos pela vida, mas ainda não são a vida mesma. Os cientistas descobrirão é produzirão formas biológicas não sonhadas, porém serão sempre incapazes de criar a vida.

O próprio saber torna modestos os grandes cientistas. Mesmo quando avançado no caminho dos conhecimentos do universo e do átomo, Einstein jamais se tornou imune ao mistério da vida. Em 1947, refletindo acerca de seu corpo doente, escreveu: “Espanta-me que este mecanismo incrivelmente complexo seja capaz de funcionar”. Sentia ele “quão lamentavelmente primitiva é toda a ciência de que dispomos”. Em 1952, registrou: “Quando vejo um minúsculo inseto pousar no papel em que faço cálculos, tenho desejo de

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exclamar: “Alá é grande, e com toda a glória de nossa ciência não passamos de micróbios miseráveis”.



Mas ele não dá voz ao mais profundo dessa atitude. Mesmo Einstein permanece filosoficamente prisioneiro do princípio segundo o qual tudo quanto existe mantém correspondência com uma ordem matemática e é basicamente suscetível de ser apreendido, de maneira total, por meio da matemática. Mesmo Einstein sustenta que, em potência a vida já reside no átomo, que “o mistério do todo está implícito no nível mais baixo”. Por que não o atingimos? Porque a matemática deixa de ser útil quando nosso pensamento penetra em profundezas mais obscuras. Com efeito, o estado atual da matemática não permite “chegar pelo cálculo, ao que está implícito nas equações fundamentais”. Para Einstein portanto, o mistério não está na realidade mesma, porém, naquilo que a matemática não permite resolver.

Nós, entretanto, repetimos com Kant: se existe a unidade da vida (que permitiria compreender como a vida brota do inerte), essa unidade permanece inatingível, no infinito. Realizando surpreendentes descobertas in partibus, a ciência de nossos tempos não faz senão adensar o mistério in toto.

4. As pesquisas científicas, embora não sendo em si mesmas filosofia, criam para a filosofia determinada situação. Provinda de outra origem, a filosofia toma forma na situação científica do momento, que ela apreende e faz progredir.

Na situação de nosso tempo, a novidade está em que a pureza da pesquisa científica se faz tão possível e necessária como a clara compreensão da própria origem da filosofia. Contentar-me-ei com lançar os olhos às conseqüências da inexistência de uma transparente concepção da natureza.

Primeiro: Até agora, pura e simplesmente se aceitava a totalidade do existente: era o mundo. Hoje, estamos afastados da idéia de uma imagem do mundo universalmente válida. O mundo se fragmentou.

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Se afirmamos: o mundo é matéria, da qual procede tudo quanto.nela está implícito (vida, intimidade, consciência e pensamento), essa afirmação, em virtude dos novos conceitos de transição e evolução, assume os matizes de um discurso vazio pretendendo mascarar os saltos. E coisa diferente não acontece quando se pretende explicar o mundo a partir da vida, do espírito e do pensamento. Aspectos do universo não captam a totalidade do mundo; cada qual deles diz respeito a um pormenor não ao todo. Diante do problema do mundo como totalidade a ciência se detém. Pelo conhecimento científico, o mundo é visto como um conjunto de fragmentos e quanto mais numerosos esses fragmentos, mais acurado aquele conhecimento.

Sem embargo, liberação de obsoletas visões do mundo conduz a ciência para uma visão nova, supostamente científica e que sacrifica nossa liberdade muito mais do que qualquer das precedentes.

Segundo: O mundo se desmitizou. Ciência e técnica nos libertaram da magia e tornaram infinitamente mais fácil a vida material no seio da natureza. Recorrer a processos mágicos é não só desarrazoado na prática, mas falta de lealdade: o homem trai a própria razão.

A desmitização do mundo gerou, entretanto, uma pervertida atitude de espírito estimulada pela tecnologia. Quando ligamos a luz ou o rádio, quando dirigimos um automóvel, não conhecemos com profundidade os processos que colocamos em operação.

Aprendemos o manejo do objeto, sabendo apenas que os processos não se desenvolvem por mágica, mas graças a conhecimentos científicos. Entendemos, a partir daí, que o mesmo esquema se aplica a todas as coisas existentes e dizemos: se ainda resta muito por compreender, tudo é, no fundo, integralmente inteligível. É certo, digamos, que a ciência ainda não pode criar seres vivos — homens, por exemplo —, mas um dia os criará.

Que se passou? O velho pensamento, pré-científico cedeu o passo a uma forma de pensar despida de idéias, quase mágica. A liberação da magia no domínio da ciência

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e da técnica destruiu as realidades do mundo cotidiano devido a sua indiscriminada aplicação.a tudo quanto existe. Nas impressões suscitadas pela paisagem ou por lugares a que nos ligou o destino, no apreender a infinita riqueza dos fenômenos, no adquirir consciência de uma natureza multifacetada, experimentamos algo que está longe de ser irreal e que não podemos desprezar como simples impressão subjetiva.



Vivemos na realidade como em um mundo de enigmas que se conflitam. Desmitificando os fenômenos, o conhecimento científico só consegue, por contraste, tornar mais clara e mais rica a ação desses enigmas. A ciência não pode criá-los, nem destruí-los.

Demos um exemplo de luta no mundo desses enigmas. Tomemos, o enigma “Deus”. ele criou o mundo. Uma das formas de apresentar o enigma consiste em dizer que Deus é um matemático e criou o mundo por pesos e medidas. Conseqüentemente (como talvez dissesse Einstein) podemos pelo pensamento, recriar o mundo. Eis, porém, um mais profundo enigma que se opõe ao primeiro: Deus criou o mundo, em seu conjunto, de maneira incompreensível para nós; nesse mundo pôs a matemática e fêz do homem um matemático. A matemática não esgota o mundo, sendo apenas um elemento da natureza e uma das formas de conhecimento do homem (como pensava Nicolau de Cusa).

Um segundo exemplo: as concepções do mundo com que os homens já viveram são sem valor para a ciência, mas, como conjuntos de enigmas, essas concepções conservam significação permanente. Alturas e profundezas, sentido de ascensão e de queda, céu e terra, éter luminoso e abismos escuros, deuses olímpicos e abissais — sempre os vemos diversamente, mesmo nos dias de hoje. Mas a falsa desmitificação trouxe ao homem cegueira de alma.

Terceiro: Os fenômenos do mundo são inteligíveis. Onde quer que a ciência penetre, novos inteligíveis se manifestam, brotados do espanto e geradores de um novo espanto. A ciência autêntica se contenta com apreender o possível, avança rumo ao infinito sem entretanto, perder noção das próprias limitações.

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Começa a infelicidade do gênero humano quando se identifica o cientificamente conhecido ao próprio ser e se considera não-existente tudo quanto foge a essa forma de conhecimento. A ciência dá então lugar à superstição da ciência, e esta, sob a máscara de pseudociência, lembra um amontoado de extravagâncias onde não está presente ciência nem filosofia nem fé.



Jamais foi tão urgente distinguir entre ciência e filosofia, jamais essa tarefa se apresentou como tão urgentemente necessária no interesse da verdade quanto se apresenta em nossos dias, quando a superstição da ciência parece atingir o apogeu, e a filosofia ver-se ameaçada de destruição.

As aberrações que afastam da ciência pura e das primeiras fontes de filosofia comprometem nossa consciência do ser. Esta se torna função vazia de uma existência que tem de si mesma concepção e experiência abstratas. Ela se falsifica engendrando uma visão do mundo, que se reduz a percepção de superfície; ela se falsifica na desmitificação, e traz a desolação como atitude fundamental diante da vida; ela se falsifica, enfim, transformada em superstição científica e toma a forma de um comércio com as coisas que torna invisível a natureza mesma dessas coisas. Esses desvios fecham-nos o caminho da filosofia. A missão da filosofia é romper essas barreiras e trazer o homem de volta a si mesmo.

5. Recapitulando:

Estamos no mundo, mas nunca temos, como objeto, a totalidade do mundo.

Os fenômenos devem ser explorados ao infinito.

Aos olhos de nosso conhecimento, o mundo não aparece como unidade inteiriça, mas fragmentada: rompeu-se. A ciência é orientada por idéias de unidade, válidas em províncias particulares do mundo, mas, até o momento, não há um conceito de unidade global do mundo que se tenha mostrado cientificamente fecundo.

Impõe-se compreender o mundo a partir dele mesmo e não da matéria, da vida, ou do espírito. Uma realidade

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incognoscível precede a possibilidade de conhecer e não é alcançada pelo conhecimento. Para o tipo de conhecimento de que dispomos, o mundo é insondável.

Tudo isso põe fronteiras às cogitações científicas, mas não ao tipo de pensamento que tem sua origem filosófica em nossa existência. Por exemplo: a unidade da natureza universal, do Um-Total que repousa em si mesmo é experiência possível para uma percepção religiosa do mundo. Considerando ao mesmo tempo, todas as coisas e tudo o que é particular ou individual, essa percepção religiosa descobre no mundo uma linguagem cifrada. Os caracteres enigmáticos dessa linguagem nada são para a ciência, que não os pode provar nem refutar.

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