Karl marx: consideraçÕes acerca de seu pensamento



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KARL MARX: CONSIDERAÇÕES ACERCA DE SEU PENSAMENTO
LIMA, Rosilene de – UEM

lene.lim@hotmail.com
SILVA, Ligiane Aparecida da – UEM

lgnsilva@bol.com.br
MACHADO, Maria Cristina Gomes – UEM

Crismach_cris@hotmail.com
Introdução
O presente estudo objetiva investigar como se configuram algumas concepções de um dos maiores intelectuais do século XIX, o alemão Karl Marx (1818-1883). Para tanto, considera-se conveniente, em um primeiro momento, situar o referido autor no debate efervescente do período em questão. Nesse momento, pretende-se clarificar alguns conceitos acerca do pensamento de Marx, tais como: sua concepção de sociedade, entendida pelas condições materiais da existência humana, bem como a forma de estudá-la, a qual o autor entende como melhor; a concepção de homem, entendido como um ser social e histórico; e sua concepção de história, que parte do movimento histórico em sua totalidade e é condicionada pelas relações de produção estabelecidas pelo homem. Apresenta-se ainda, algumas premissas do materialismo histórico de Marx, tais como a impossibilidade da separação entre indivíduo e sociedade, sociedade e natureza e a relação entre sociedade e natureza como intercâmbio. Num segundo momento, investiga-se o conceito de práxis delineado por alguns autores e, em especial, por Marx, tendo em vista que essa abordagem nos propicia pensar na maneira como o autor concebe o homem em sua relação com a natureza. Por fim, analisa-se a concepção de Karl Marx acerca das leis que regem a sociedade, as quais estão estritamente ligadas ao desenvolvimento de suas forças produtivas, pois se entende de suma importância a compreensão do movimento histórico da sociedade tendo por base a sua materialidade.
O Estudo da Sociedade
No século XIX, dadas as grandes transformações sociais1 advindas, especialmente, a partir das revoluções Industrial e Francesa, alguns pioneiros da Sociologia e adeptos dos ideais da nova classe dominante estabelecida, a saber, a burguesia, direcionaram seus estudos para a preservação da nova ordem, reorganizar a sociedade e manter o controle social. Já os pensadores socialistas, alinhados com a classe operária, buscavam, por meio da Sociologia e de outras ciências humanas, a compreensão da sociedade estabelecida, a capitalista, e um entendimento mais aguçado sobre suas configurações com a finalidade de superá-la e, nesse sentido, conduzir a humanidade para uma sociedade mais justa, liberta da exploração do homem pelo homem.

Sobre o primeiro grupo, pode-se destacar o pensador francês Auguste Comte2 (1798-1857), o qual tinha o núcleo de sua filosofia fundamentado na idéia de que a sociedade só poderia ser reorganizada de forma conveniente se houvesse uma completa reforma intelectual do homem e para isso seria necessário, a princípio, “[...] fornecer o sistema de idéias científicas que presidiria a reorganização social.“ (COVEZZI; CASTRO, 2000, p. 25). Outra grande referência do primeiro grupo se trata do sociólogo, também francês, Émile Dürkheim3 (1858-1917), que considerava ter a Sociologia papel importante na reorganização da sociedade, pois a considerava uma ciência que tem como função entender e classificar os casos patológicos, criando, dessa forma, uma nova moral social.

Destaca-se, no segundo grupo de pensadores anterormente citado, o pensamento e ação de Karl Marx, um intelectual que, ao lado de Friedrich Engels (1820-1895), preocupava-se com os efeitos, especialmente da revolução Industrial, que intensificou, por um lado, a produção de riquezas de forma excepcional e, de outro, provocou a miséria de milhões de trabalhadores. Ambos aspiravam encontrar uma alternativa para a sociedade, entendiam que ela poderia ser mais justa por meio do estabelecimento de relações sociais fundamentadas na cooperação e com uma distribuição igualitária de riquezas.

Marx, ao contrário de Comte e Dürkheim que procuram uma explicação para a sociedade a partir dos estudos da consciência social e das regras morais, avalia que a evolução geral do espírito humano ou as regras sociais não podem ser tomadas por base para se pensar a relação indivíduo-sociedade, a sociedade só pode ser compreendida pelas condições materiais da existência humana:

A condição primeira de toda história humana é, naturalmente, a existência de seres humanos vivos. O primeiro estado real a constatar é, portanto, o patrimônio corporal desses indivíduos e as relações que esse patrimônio desenvolve com o resto da Natureza. [...] Toda história deve partir dessas bases naturais e de sua modificação, através da ação dos homens, no curso da história. [...] Ao produzir os seus meios de existência, os homens produzem indiretamente a sua própria vida material (MARX, 1982, p. 45).

Para Marx, portanto, a sociedade só pode ser entendida como produto humano, dado pelas relações homem x natureza e homem x homem. A sociedade é uma construção da ação recíproca dos homens, entendidos como um ser social e histórico:

Os homens são os produtores de suas representações, de suas idéias etc., mas os homens reais e ativos, tal como se acham condicionados por um determinado desenvolvimento de suas forças produtivas e pelo intercâmbio que a ele corresponde até chegar às suas formações mais amplas. A consciência jamais pode ser outra coisa do que o ser consciente, e o ser dos homens é o seu processo de vida real (MARX; ENGELS, 1986, p. 37).

Os homens são, na concepção de Marx, diferentes dos demais animais não apenas por sua capacidade de raciocínio e de convivência social, “Mas eles próprios começam a se diferenciar dos animais tão logo começam a produzir seus meios de vida [...]” (MARX; ENGELS, 1986, p. 27) num determinado tempo histórico, ou seja, autor e ator de sua própria história. Assim, a compreensão dos processos históricos deve ser buscada na maneira pela qual os meios de existência são produzidos pelo homem, consubstanciando-se esta explicação a sua concepção materialista da História.

Vale ressaltar que, para Marx, o movimento da história é determinado pelo movimento das forças produtivas. Compreende a história como:

[...] a sucessão de diferentes gerações, cada uma das quais explora os materiais, os capitais e as forças de produção a ela transmitidas pelas gerações anteriores; ou seja, de um lado, prossegue em condições completamente diferentes a atividade precedente, enquanto, de outro, lado, modifica as circunstâncias anteriores através de uma atividade totalmente diversa (MARX; ENGELS, 1986, p. 70).

Verifica-se, nesse sentido, uma visão da história, por Marx, em compatibilidade com Engels, de forma objetiva, condicionada pelas relações estabelecidas pelos homens – produto coletivo. Esses sujeitos coletivos são determinados socialmente, atuam de diferentes formas e com diferentes consciências sobre sua própria condição. Para que possam, como expõe os autores, “fazer história”, é preciso que esses homens tenham condições de vida, é preciso comer, beber, etc.: “O primeiro ato histórico é, portanto, a produção dos meios que permitam a satisfação dessas necessidades, a produção da própria vida material, e de fato este é um ato histórico, uma condição fundamental de toda a história [...]” (MARX; ENGELS, 1986, p. 39).

A concepção materialista histórica4 parte de premissas, conforme Covezzi e Castro (2000), como a impossibilidade da separação entre indivíduo e sociedade, que é superada por uma espécie de contrato social, assim como refletiam alguns filósofos do século XVII ao apresentarem o trabalho científico como um ato social, portanto, humano, e não apenas porque o material da atividade é dado como um produto social, mas, e especificamente, porque a própria existência é uma atividade social (MARX, 1963).

Na teoria marxista, o materialismo histórico pretende a explicação da história das sociedades humanas, em todas as épocas, através dos fatos materiais, essencialmente econômicos e técnicos. A sociedade é comparada a um edifício no qual as fundações, a infra-estrutura, seriam representadas pelas forças econômicas, enquanto o edifício em si, a superestrutura, representaria as idéias, costumes, instituições (políticas, religiosas, jurídicas, etc). A propósito, Marx escreveu na obra “A Miséria da filosofia”, na qual estabelece polêmica com Proudhon:

As relações sociais estão intimamente ligadas às forças produtivas. Adquirindo novas forças produtivas, os homens transformam o seu modo de produção e, ao transformá-lo, alterando a maneira de ganhar a sua vida, eles transformam todas as suas relações sociais. O moinho movido pelo braço humano nos dá a sociedade com o suserano; o moinho a vapor dá-nos a sociedade com o capitalista industrial (MARX, 1982, p. 106).

Tal afirmação, defendendo rigoroso determinismo econômico em todas as sociedades humanas, foi estabelecida por Marx e Engels dentro do permanente clima de polêmica que mantiveram com seus opositores e atenuada com a afirmativa de que existe constante interação e interdependência entre os dois níveis que compõe a estrutura social: da mesma maneira pela qual a infra-estrutura atua sobre a superestrutura, sobre os reflexos desta, embora, em última instância, sejam os fatores econômicos as condições finalmente determinantes.

Outra premissa considerada pela concepção materialista histórica da sociedade é não separar esta da natureza. Os seres humanos são componentes do mundo natural, base real de todas as suas atividades. Ao mesmo tempo em que as relações de produção e reprodução da vida material, pelo trabalho ou pela procriação, são naturais, são também sociais:

O trabalho é um processo de que participam o homem e a natureza, no qual o homem, por sua livre vontade inicia, regula e controla seu metabolismo com a natureza. Agindo dessa maneira no mundo exterior, e transformando-o, ele ao mesmo tempo transforma a sua própria natureza. Desenvolve suas forças inativas e compele-as a agir conforme a sua vontade (MARX, 1985, p. 149).

Insta salientar que a força de trabalho é vista como uma mercadoria como outra qualquer “[...] assim como o açúcar; nem mais, nem menos. Mede-se a primeira com o relógio; a segunda com a balança.” (MARX, 19--, p. 62). Essa mercadoria, a força de trabalho, é trocada pelos operários pela mercadoria do capitalista, dinheiro.

Uma terceira premissa da concepção materialista histórica é a de que a relação entre sociedade e natureza é um intercâmbio, o qual se desenvolve historicamente por meio do trabalho humano e, ao mesmo tempo, cria e transforma as relações entre os seres humanos.

Nessa direção, o processo histórico pode ser avaliado nos seguintes aspectos: o desenvolvimento de forças produtivas com o progresso tecnológico e a divisão social do trabalho, a qual, em constante transformação, constitui as relações sociais de produção e as relações de classes.

[...] na produção social da sua vida, os homens contraem determinadas relações necessárias e independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada fase de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política a qual correspondem formas sociais de consciência. O modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social, política e espiritual em geral. Não é a consciência do homem que determina o seu ser, o seu ser social é que determina a sua consciência (MARX, 19--, p. 301).

Pode-se considerar, tendo em vista o exposto, que as condições materiais da sociedade é que condicionam todas as relações sociais e que, para viver, os homens precisam, em um primeiro momento, transformar a natureza ao seu redor, produzir ferramentas para o trabalho, estratégias para assegurar sua alimentação, construir abrigos, entre outros essenciais à sua sobrevivência. Sem essa relação não poderiam existir como seres vivos. Sendo assim, o estudo de uma sociedade pressupõe um ponto de partida que leva em conta, na concepção de história de Marx, o movimento histórico como um todo e não apenas como uma sucessão de idéias, como defendia Proudhon. Em outras palavras, como ponto de partida, devem ser consideradas as relações sociais que os homens estabelecem entre si para utilizarem os meios de produção e transformar a natureza.

Dessa forma, pode-se pensar no homem apenas como um produto de condições materiais. Entretanto, não é o que Marx defende, pois considera o aspecto subjetivo e criativo do homem com a natureza, se utilizando do conceito de práxis para explicar a ação social, como veremos a seguir.
A Práxis
A práxis, em linhas gerais, é explicada como uma atividade livre, criativa e auto-criativa. Esta atividade é que leva o homem a produzir e transformar o mundo ao seu redor e, com isso, transformar a si mesmo. O fato de o homem trabalhar ou agir sobre a natureza lhe dá o caráter de uma espécie consciente, a qual mentaliza previamente a sua ação para um fim específico. Vejamos algumas definições.

Na filosofia marxista, a palavra grega práxis é usada “[...] para designar uma relação dialética entre homem e a natureza, na qual o homem, ao transformar a natureza com seu trabalho, transforma a si mesmo.” (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2006, p. 224).

Tornou-se comum na ambiência acadêmica a substituição da palavra prática pela palavra práxis. Um erro que muitas vezes é cometido por pensar-se resolver um problema teórico, que ocorre por falta de domínio de “[...] uma categoria de pensamento enquanto instrumento teórico mais elevado e adequado de compreensão da realidade.” (RIBEIRO, 1991, p. 15).

Vista sob essa ótica, a prática atinge uma dimensão prático-utilitária, tentando resolver apenas necessidades imediatas. Segundo Vázquez (1977, p.11), o homem comum “Considera a si mesmo como o verdadeiro homem prático; é ele que vive e age praticamente”. No mundo desse homem as coisas não somente são e existem em si “[...] como também são e existem, principalmente, por sua significação prática, na medida em que satisfazem necessidades imediatas de sua vida cotidiana [...]”.

A práxis, por sua vez, é “[...] a atividade humana que produz objetos, sem que por outro lado essa atividade seja concebida com o caráter estritamente utilitário que se infere do prático na linguagem comum” (VÁZQUEZ, 1977, p. 5). Vista sob essa perspectiva, a práxis é “[...] a atividade humana transformadora da realidade natural e humana.” (idem, p. 32). Ela tem um caráter intencional e consciente. O homem tem consciência da realidade.

Para Martins (2004, p. 57), “Toda ação verdadeiramente humana pressupõe a consciência de uma finalidade que precede a transformação concreta da realidade natural ou social e, desse modo, a atividade vital humana é ação material, consciente e objetiva, ou seja: é práxis”. A autora entende que “[...] é pela práxis que os homens constroem o mundo humano em sua materialidade e idealidade, promovendo sua universalidade” (MARTINS, 2004, p. 60). A práxis compreende a dimensão auto-criativa do homem e se manifesta por meio de suas ações objetivas, transformando a natureza, criando assim, condições de subsistência e a sua própria subjetividade.

De acordo com Marx (1986), ao produzir as condições materiais para sua existência o homem também produz sua consciência. Assim, o modo de pensar e conceber o mundo que o cerca é produzido pelo próprio homem, por sua consciência. Neste sentido, a práxis não é apenas a atividade de trabalho material, mas também de trabalho espiritual.

[...] a consciência da necessidade de estabelecer relações com os indivíduos que o circundam é o começo da consciência de que o homem vive em sociedade. Este começo é tão animal quanto a própria vida social nesta fase: trata-se de simples consciência gregária e o homem se distingue do carneiro unicamente pelo fato de que nele sua consciência toma o lugar do instinto ou de que seu instinto é consciente. [...] Com isto, desenvolve-se a divisão do trabalho, que originariamente nada mais era do que a divisão do trabalho no ato sexual e, mais tarde, divisão do trabalho que desenvolve por si própria “naturalmente”, em virtude de disposições naturais (vigor físico, por exemplo), necessidades, acasos etc. A divisão do trabalho torna-se realmente divisão apenas a partir do momento em que surge uma divisão entre trabalho material e o espiritual. A partir deste momento, a consciência pode realmente imaginar ser algo diferente da consciência da práxis existente, representar realmente algo sem representar algo real; [...] (MARX, ENGELS , 1986, pp. 44-45).


Segundo Cury (1985), a práxis cotidiana, da qual o aspecto fenomênico da coisa é produto natural, gera a representação como forma de movimento e existência dessa coisa. A representação é, na concepção do autor, justamente, a complexidade dos fenômenos do cotidiano que adentra a consciência dos indivíduos. Pode ser contraditória com a estrutura da coisa e seu conceito correspondente.

As categorias, de acordo com Cury (1985), são relações existentes no movimento da coisa e, dessa forma, possibilita revelar o fenômeno na sua própria realidade. A dialética é concebida, então, como processo e movimento de reflexão do próprio real. Mais que conhecer e interpretar o real visa, no âmago da história da luta de classes, transformá-lo. No entendimento do autor, “É por isso que a reflexão só adquire sentido quando ela é um momento da práxis social humana.” (CURY, 1985, p. 26).

Para Netto (1998, p. 54), a práxis é uma das categorias fundantes da arquitetura teórica de Karl Marx. É uma categoria que ocupa lugar de destaque entre as diversas que o pensador em questão trabalha: “É precisamente sobre a concepção do homem como um ser prático e social que repousa na idéia capital do trabalho como forma modelar de práxis [...]”. O autor entende que “todas as categorias só adquirem o seu estatuto concreto se portadas pela de práxis”.

De acordo com Cury (1985), as categorias5 da contradição, totalidade, mediação, reprodução e hegemonia se inserem no contexto da práxis social humana. Passemos muito brevemente por elas:

Cury (1985, pp. 27-28) concebe a categoria da contradição como “[...] o próprio motor interno do desenvolvimento”. É ela que reflete o movimento mais originário do real, ou seja, negar a contradição seria o mesmo que falsear o real; A categoria da totalidade pretende uma conexão dialética de um processo particular com outros processos. Eliminar a totalidade “[...] significa tornar os processos particulares da estrutura social em níveis autônomos, sem estabelecer as relações internas entre os mesmos”; Sobre a categoria da mediação, Cury a vê como “[...] numa reciprocidade em que os contrários se relacionam de modo dialético e contraditório”. É uma categoria básica para a educação; A categoria da reprodução é justificada por Cury pelo fato de “[...] toda sociedade tender, em suas instituições, à sua autoconservação reproduzindo as condições que possibilitam a manutenção de suas relações básicas.”; Por fim, a categoria da hegemonia traz consigo, de acordo com o autor, “[...] tanto a possibilidade de análise como a indicação de uma estratégia política”. É importante a obtenção de um consenso para a reprodução das relações de produção.

É perceptível o motivo cujas categorias acima expostas se inserem no contexto da práxis social humana. Formam um conjunto e perpassam umas nas outras, se incluem e se completam, no dizer de Cury.

Ao traçar um paralelo entre a produção humana e a dos animais, Marx nos remete uma explicação da práxis:

Eles, (os animais) produzem apenas com um objetivo imediato, enquanto o homem produz de um modo universal. Os animais produzem movidos apenas por suas necessidades físicas, enquanto o homem produz mesmo quando está livre das necessidades físicas e só produz verdadeiramente quando libertado destas necessidades. O animal só se produz a si próprio, enquanto o homem reproduz toda a natureza. O produto animal é parte integrante de seu corpo físico, enquanto o homem faz face livremente ao seu produto. Os animais só laboram de acordo com os padrões e as necessidades da espécie a qual pertencem, enquanto o homem sabe produzir de acordo com os padrões de todas as espécies e sabe aplicar o padrão adequado à natureza do objeto. E assim o homem labora, também de acordo comas leis do belo (MARX, 1978, p. 129).

Marx explica que a produção da consciência está estreitamente ligada à produção material, bem como outras produções da sociedade (intelectual, moral, religiosa, por exemplo). Tais produções são reguladas de acordo com as relações sociais que são estabelecidas para a produção da vida material. Dessa forma, entende-se que, se uma sociedade se constitui a partir de determinadas relações sociais e se as relações sociais estabelecidas são diversas, isso implica a existência de várias sociedades. Entretanto, para explicarmos a existência de uma determinada sociedade torna-se necessário descobrir quais são as leis que a determinam, que a governam.


As Leis que Determinam a Sociedade
De acordo com o estágio de desenvolvimento das forças produtivas em uma determinada sociedade, ocorre uma forma de produção e consumo. Isso porque tal sociedade tem uma organização social própria, que é regida por determinadas leis.

Assim, entende-se que para compreender o movimento de uma sociedade é preciso investigar as leis que a regem desde sua origem até seu último estágio de desenvolvimento. Isso implica conhecer a história da sociedade investigada em sua materialidade e não de forma solta. Como defende Marx, “Toda história deve partir dessas bases naturais e de sua modificação, através da ação dos homens, no curso da História” (MARX, 1982, p. 45).

A lei que constitui o fundamento da transformação de uma sociedade, de acordo com Marx (1986), está estritamente relacionada ao desenvolvimento de suas forças produtivas. Chegando a certos estágios de desenvolvimento as forças produtivas podem atingir tal limite que entram em contradição com as próprias relações de produção que a desenvolveram. Esse conflito gera oscilações no desenvolvimento social, modifica e até substitui a estrutura da sociedade.

O movimento das forças produtivas, entrando em contradição, determina o movimento da história. Tal movimento implica mudanças nas relações de produção, nas relações de propriedade e na distribuição de renda entre os indivíduos, provocando, por sua vez, o surgimento de novas relações de produção e, por conseguinte, um novo modo de produção. Nas palavras de Marx (1982, p. 83):

Em certa fase de seu desenvolvimento, as forças produtivas da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que não é mais que sua expressão jurídica, com as relações de propriedade, no seio das quais elas haviam se desenvolvido até então. De formas evolutivas das forças produtivas, que eram, essas relações convertem-se em seus entraves. Abre-se então uma era de revolução social.

A desigualdade produzida pelos homens, por meio da forma como organizam a apropriação dos meios de produção, é expressão das classes sociais que existem em determinadas sociedades. A maneira como um determinado grupo de homens (produtores) estabelece relações entre si e as condições em que trocam suas atividades pode variar e varia de acordo com o caráter dos meios de produção (MARX, 1982).

A luta de classes é a expressão da contradição entre as forças produtivas e as relações de produção. A contradição entre as forças produtivas e as relações de produção pode estar associada às antigas relações de produção.

Em sua totalidade, as relações de produção formam o que se chama de relações sociais, a sociedade, e, particularmente, uma sociedade num estágio determinado de desenvolvimento histórico, uma sociedade com um caráter distintivo, peculiar. A sociedade antiga, a sociedade feudal, a sociedade burguesa são conjunto de relações desse gênero e ao mesmo tempo, cada uma delas caracteriza um estágio determinado de desenvolvimento na história da humanidade. (MARX, 1982, p. 96)

Para Marx (1998), a história de toda a sociedade tem se configurado como uma história de luta de classes. Quando em guerra, esta, somente cessa se houver uma transformação revolucionária da sociedade como um todo ou pela destruição das classes que se encontram em luta. Compreender esse sentido da História das sociedades, exposto por Marx, implica compreender também a sociedade capitalista como contraditória e não harmônica. Que nela existem classes sociais antagônicas com ou sem meios de produção que podem levar, por meio de um movimento interno, à sua própria negação ou superação.


Considerações Finais
No desenvolvimento das investigações aqui apresentadas foi possível constatar que, apesar de não ser sociólogo, o pensamento de Karl Marx contribui sobremaneira para o desenvolvimento de questões sociológicas como a relação entre indivíduo e sociedade, por exemplo.

Num primeiro momento, foi perceptível a contribuição de Marx no desenvolvimento de conceitos diversos, tais como: o de sociedade, entendida como produto das condições materiais da existência humana, dado pelas relações estabelecidas entre homem e homem e entre homem e natureza; o de homem, concebido como um ser integrado na sociedade (construída pela ação recíproca dos homens), ator e autor de sua existência e de sua consciência; e o de história, entendida como produto coletivo, condicionada pelas relações estabelecidas pelos homens e sendo o seu movimento determinado pelo movimento das forças produtivas. Verificou-se ainda, a concepção materialista histórica de Marx, na qual os processos de transformação social se dão por meio do conflito entre os interesses das diferentes classes sociais.

Realizou-se também um estudo acerca da práxis, observando esta como categoria fundamental do arcabouço teórico do pensador em questão. Avalia-se que o conceito de práxis delineado por Marx tomou proporções alargadas e de grande expressividade, estando presente nos estudos de diversos autores, tais como: Martins (2004), Netto (1998), Ribeiro (1991), Cury (1985), Vázquez (1977), entre outros.

Por fim, analisou-se a sociedade numa perspectiva de busca de seus determinantes. Evidencia-se que, no entendimento de Marx, a lei que constitui o fundamento da transformação de uma sociedade, está estritamente relacionada ao desenvolvimento de suas forças produtivas. Para o autor, compreender o sentido da História das sociedades implica compreender a sociedade capitalista, que, como qualquer sociedade, pressupõe um movimento interno, que pode levar, ao atingir seu limite de desenvolvimento, à sua própria negação ou superação.



À luz do exposto, considera-se imensa a contribuição de Karl Marx para a constituição e desenvolvimento do campo de estudo das ciências sociais, uma vez que, ao explorar as relações entre sociedade e indivíduo, dando destaque ao homem e às relações sociais, sendo estas fundamento da coexistência social que, por conseguinte, se transformam em leis e valores incorporados, consciente ou inconscientemente, por esses indivíduos que compõem o meio social, atinge o cerne da questão sociológica.
REFERÊNCIAS:
COVEZZI, Marinete & CASTRO, Sueli Pereira. A Sociologia – A ação social. 2ª edição revista. Cuiabá: EdUFMT, 2000.
CURY, Carlos Roberto Jamil. Educação e Contradição: elementos metodológicos para uma teoria crítica do fenômeno educativo. São Paulo: Autores Associados, 1985.
JAPIASSÚ, Hilton & MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. 4. ed. atual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.
MARTINS, Lígia Márcia. Da formação humana em Marx à crítica da pedagogia das competências. In: Duarte, N. (Org.) Crítica ao fetichismo da individualidade. Campinas – SP: Autores Associados, 2004.
MARX, Karl. Classes Sociais e Contradições de Classes. In: IANNI, Octavio. (Org.) Karl Marx - Sociologia. 3. ed. São Paulo: Ática, 1982.
MARX, Karl. A Produção da Sociedade. In: IANNI, Octavio. (Org.) Karl Marx - Sociologia. 3. ed. São Paulo: Ática, 1982.
________ Manuscritos Econômicos-Filosóficos. Lisboa: Edições 70, 1963.
________ Para a crítica da economia política. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Col. Os Pensadores).
________ Prefácio à “Contribuição à crítica da economia política”. In: MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. Obras Escolhidas. São Paulo: Alfa-Ômega, 19??, v. 1. p. 301
________Trabalho assalariado e capital. In: MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. Obras Escolhidas. São Paulo: Alfa-Ômega, 19??, v. 1. p. 62
________ Miséria da Filosofia: resposta à filosofia da miséria do sr. Proudhon. Trad. por José Paulo Netto. São Paulo: Ciências Humanas, 1982.
________ O capital: crítica da economia política. São Paulo: Nova Cultural, 1985, v. I, t. 1.
MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. (Feuerbach) 5. ed. São Paulo: HUCUTED, 1986.
MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. O manifesto do partido comunista. Prólogo de José Paulo Netto. São Paulo: Cortez, 1998.
NETTO, José Paulo. Relendo a teoria marxista da história. In: SAVIANI, Dermeval; LOMBARDI, José C. & SANFELICE, José. L. História e história da educação. Campinas - SP: Autores Associados: HISTEDBR, 1998.
PACHECO, Ricardo G. & MENDONÇA, Erasto F. Duas tendências teóricas no estudo da sociedade: elementos e características do Funcionalismo e do Materialismo Dialético. In: BRASIL. Ministério da Educação. SEB. Educação, sociedade e trabalho: abordagem sociológica da educação. Brasília: UnB, CED, 2006.
RIBEIRO, Maria L. S. Educação escolar e práxis. São Paulo: Iglu, 1991.

VÁZQUEZ, A. Sanches. Filosofia da práxis. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.



1 Segundo Pacheco e Mendonça (2006), houve um crescimento exacerbado das cidades, repúblicas foram estabelecidas no lugar de monarquias ou essas foram subordinadas a parlamentos dirigidos pela burguesia. Valores como: democracia, liberdade, direito à propriedade, individualismo e igualdade, considerados liberais, passaram a ser cultivados. As expectativas das classes populares não foram supridas. Ao contrário, a qualidade de vida dessa classe só piorou: os baixos salários, a expulsão do campo, o desemprego, as jornadas de trabalho excessivas, além das péssimas condições de moradia, causaram uma série de revoltas. Nesse cenário, estabeleceu-se o conflito entre a burguesia e a classe operária. E, esse ambiente de lutas pela direção da sociedade, culminou no aumento de interesse pelo estudo da vida social.

2 Não adentraremos, aqui, nas questões do positivismo de Comte. Para maiores informações ver: COMTE, Auguste. Curso de filosofia positiva; Discurso preliminar sobre o conjunto do positivismo; Catecismo positivista. São Paulo: Nova Cultural, 1978. (Os pensadores).

3 As questões do Funcionalismo não serão aqui abordadas, para maiores informações ver Durkheim, Emile. As regras do método sociológico. São Paulo: Martin Claret, 2002.


4 Entende-se por materialista histórica a concepção “[...] segundo a qual os processos de transformação social se dão através do conflito entre os interesses das diferentes classes sociais: ‘Até o presente toda a história tem sido a história da luta entre as classes, as classes sociais em luta umas com as outras são sempre o produto das relações de produção e troca, em uma palavra, das relações econômicas de sua época; e assim, a cada momento, a estrutura econômica da sociedade constitui o fundamento real pelo qual devem-se explicar em última análise toda a superestrutura das instituições jurídicas e políticas bem como as concepções religiosas, filosóficas e outras de todo período histórico’” (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2006, pp. 181-182).

5 Cury (1985, p. 26-27) justifica o destaque dessas cinco categorias por considerar que “oferecem subsídios nos atos de investigar a natureza da realidade social e as vinculações das propriedades da educação nessa mesma realidade. As categorias ajudam a entender o todo, cujos elementos são os constituintes da realidade e, nele, os elementos da educação”. Já que sua pesquisa, resultando em tese de doutorado, centrou-se na perspectiva de uma ação transformadora dentro da educação.



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