Leite, Antonio Dias. “O que fazer?”. São Paulo: Valor Econômico, 27 de novembro de 2001. Jel: e o que fazer?



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Leite, Antonio Dias. “O que fazer?”. São Paulo: Valor Econômico, 27 de novembro de 2001. Jel: E
O que fazer?

Antonio Dias Leite



Após a leitura dos meus artigos anteriores, em que manifestei o meu inconformismo com o continuado declínio da economia nacional, um amigo de muitos anos de discussões, perguntou-me: "mas você sabe o que fazer?" Obviamente não sei, mas é hora de se procurar uma saída que nos livre de mais um colapso traumático, tarefa para muitos e não para uma pessoa.
Reinserir o Brasil na rota do crescimento é objetivo nacional que estará presente, nas plataformas dos pré-candidatos à Presidência da Republica, sejam eles oriundos da oposição ou do próprio governo, excetuando-se neste último grupo a hipótese da permanência do ministro Pedro Malan, na função de "condestável" da República. Isso significa que estarão todos, ou quase todos, com disposição, radical ou conciliadora, declarada ou oculta, de abandonar a atual política econômica na parte em que ela impede a retomada do crescimento. A atual conjuntura política e econômica coloca assim no mesmo barco, que corre o risco de afundar, partidos e candidatos do governo e da oposição.
Apesar de significativas diferenças partidárias, pessoais e ideológicas, não há dúvida que existe uma larga faixa de consenso em torno de uma estratégia nacional que retire o Brasil da posição sem grandeza, estática e de fragilidade externa, que resultou da atual política econômica, e reabra esperanças de emprego e de progresso pessoal para os jovens que vão chegando ao mercado de trabalho. Contra qualquer mudança estarão os analistas dos organismos financeiros internacionais.
Tenho batalhado, em tese e na ação prática, pela necessidade e possibilidade do crescimento econômico que assegure um nível de vida digno para o Brasil. Talvez tenham sido prematuras as propostas, de se retomar o objetivo de crescimento econômico, tanto do meu livro de 1999, como no texto para discussão ingenuamente entregue ao presidente Fernando Henrique Cardoso em 2000, como ainda nos artigos aqui publicados em 2001.
Mas o fato é que muitas opiniões vão convergindo para a condenação da paralisia da equipe financeira do governo, após a vitória sobre a hiperinflação, que foi obtida, infelizmente, à custa de endividamento progressivo.
A dificuldade da definição "do que fazer" está nas condições da transição, porque uma vez alcançado crescimento verifica-se a autoalimentação da poupança e do investimento. O processo não se iniciará, como não se iniciou, sem intervenção governamental. Felizmente vai tendo menos apoio do que já teve o dogma da não intervenção nos mecanismos de mercado, em qualquer caso e em qualquer circunstância. Infelizmente, essa mudança de atitude se verifica em função de dois desastres nacionais provocados pelo equívoco do câmbio supervalorizado do início do plano Real e da subseqüente e intransigente recusa de apoio às exportações que nos levou à vulnerabilidade externa, bem como pela retirada precipitada e imprudente dos investimentos públicos em eletricidade, que nos levou à crise de desabastecimento.
Mas o país dispõe de condições físicas favoráveis ao desenvolvimento, tem merecido a confiança de empresas transnacionais, e conta com a iniciativa de empresários nacionais. As limitações de capacidade são sintetizadas pelos economistas no produto potencial. Seria o PIB máximo a ser alcançado, em determinado momento, sem provocar pressões inflacionárias inaceitáveis.
Na transição para um processo sustentado de crescimento é fundamental que se inicie uma forte ampliação do produto potencial. Isso se faz através de investimentos em instalações físicas e na eficiência da sua utilização, com organização, tecnologia e treinamento em todos os níveis. Trata-se de iniciativas que tem um tempo próprio de maturação para produzirem os seus efeitos. Requerem políticas setoriais ativas e coerentes, o que o atual governo, só agora está admitindo, assim mesmo de forma tímida e a contra gosto.
No nosso quadro atual contamos com um fator favorável e dois negativos. Partindo da estagnação há capacidade ociosa e o produto potencial é superior ao atual. Em contrapartida não há expectativa de contribuição externa e a crise da eletricidade se constitui em restrição de múltiplo efeito negativo.
No esforço a fazer-se para desencadear o processo de crescimento não há como evitar pressões inflacionarias no período de transição. É um risco a ser assumido porquanto a alternativa, representada pela manutenção da política atual, é o caminho do desastre global já que não há qualquer indício de que ela possa reverter o processo de endividamento e de crescente fragilidade.
A hora parece ser de um alargamento dos debates, ainda insuficientes, sobre uma possível "Estratégia Nacional de Desenvolvimento". Mas sobretudo de uma concentração de esforços de economistas e empresários, além das suas importantes contribuições recentes, na discussão de opções, todas difíceis e cheias de riscos, para a política de transição. Requer-se em especial uma discussão de extremo realismo, não só dos obstáculos internos como, e principalmente, das dificuldades externas no caso de adoção de alguma medida que não se enquadre bem na cartilha ortodoxa das finanças internacionais.
Não se trataria de contribuir para uma plataforma de governo de união nacional, mas de buscar um conjunto coerente de atitudes que contribua para o sucesso de uma retomada do desenvolvimento, que todos almejam, quaisquer que venham a ser as alianças partidárias e os resultados das eleições, no pressuposto de que a emergência requer uma demonstração consciente da prioridade nacional pelo crescimento econômico. Mas, "como fazer?"


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